Visita ao Canadá do Presidente da República.
Era para ter uma transcendência pluricontinental com
ressonâncias geoestratégicas. Perdeu-se num decote constipante de uma jovem portuguesa
bem-apessoada que agitou o remanso presidencial.
"Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador". Diógenes Laércio
Visita ao Canadá do Presidente da República.
Era para ter uma transcendência pluricontinental com
ressonâncias geoestratégicas. Perdeu-se num decote constipante de uma jovem portuguesa
bem-apessoada que agitou o remanso presidencial.
Frustração
e hipocrisia em Espanha.
O
Partido Popular espanhol, em cuja claque alinham a direita e a extrema-direita
portuguesas, alguns distraídos da esquerda baixa ou do “nem esquerda nem
direita antes pelo contrário”, confrontou o PSOE com o hipotética dever deste
de viabilizar um governo seu.
Sem
isso, a sua vitória revela-se incapaz de gerar uma maioria parlamentar. O PSOE,
tendo sido o segundo partido mais votado, embora com dificuldade, pode negociar
apoios que lhe permitam liderar um governo de coligação de esquerda com o SUMAR.
Também por isso, não se mostrou disponível para dar esse “presente” ao PP.
Com
os olhos em alvo, o PP alardeia a qualidade democrática da sus pretensão. No entanto,
realmente, se virmos bem o que revela é
descaramento e hipocrisia políticos. Profundos!
Na
verdade, depois das mais recentes eleições locais e regionais de 28 de maio, em
que a direita teve mais votos, reforçando largamente os seus poderes locais e
regionais, foram reconfigurados os diversos executivos com base nas respectivas
assembleias municipais e regionais.
Olhemos
para alguns exemplos de como a direita espanhola se comportou nesse processo. Na
região da Estremadura, o PSOE foi o partido mais votado, mas quem governa é uma
aliança do PP com o VOX a qual conseguiu maioria na Assembleia.
E
não se ficou por aqui. Realmente, no campo municipal, o PP ocupou as
presidências de mais de 200 municípios em que a sua não foi a lista mais
votada; na maioria das quais, aliás, foi o PSOE o partido mais votado. E se olharmos
para a Espanha como um todo, há 684 municípios em que o partido mais votado não
lidera o governo municipal.
Como se vê, a
pretensão do PP é o contrário do modo como se tem comportado em situações
idênticas. Não é mais, desse modo do que
uma hipocrisia de náufrago que já se julgava no Palácio da Moncloa mas que afinal “morreu na praia”.
“VEXATÓRIA”
Ontem, [ no face book]talvez me tenha enganado, quando considerei um
dislate a qualificação como “vexatória” que usou Mariana Mortágua para se referir à actual
maioria absoluta do PS. Como se ela fosse algo de pernicioso que se tinha que
combater como uma quase assombração pecaminosa inventada por mentes perversas.
Talvez me tenha enganado. Se calhar a inquieta dirigente do
BE estava a afinal a libertar discretamente no seu discurso uma sugestão de autocrítica.
A maioria absoluta do PS é sentida como “vexatória” não por qualquer força maléfica
que tragicamente a inquine, mas simplesmente por ela lembrar ao BE o tropeção estratégica em que caiu ; o
qual lhe anemiou o grupo parlamentar,
reduzindo-o em 14 deputados e tendo sobrado menos de meia d+uzia.
Foram, na verdade “vexatórias “ as consequências do tropeção
táctico do BE, gerador da maioria absoluta do PS É certo que continua preso ao
ritual da sua própria infalibilidade política. Mas começam já a perturbá-lo as
sombras de uma autocrítica…
Terá sido afinal isso?
Regresso
pardo do fantasma de Boliqueime
O fantasma de Boliqueime voltou, espumando uma raiva fria. O seu rosto foi assolado por
um ódio pardo, quase desregrado.
Na plateia laranja e chique pairava um cheiro acre a cavaquistão.
Montenegro, titubeante mas deleitado, hesitava em convencer-se que
estava a ser auxiliado pelo mago algarvio.
Houve então um conselho de urbanidade no debate político.
Mas o conselho sentiu-se perdido no
discurso do mestre. “O que é isto?” perguntou
assarapantado. “Que moleza é esta?” quase se indignou.
No entanto, foi o
próprio mago que lhe respondeu, fazendo-o perceber que a alegada
urbanidade era apenas um voto pied0so e descartável. E, para que tudo voltasse
ao normal, ele próprio mostrou como realmente devia ser a cartilha do PSD:
explodiu num discurso de desbragado ódio ao PS, ao seu Governo, a António
Costa. Sem nuances, sem reservas, sem excepções ─ um oráculo em fúria.
Um contraponto: o PS e os seus Governos foram e são o mal
absoluto; o PSD e os seus governos foram e garantem vir a ser o bem supremo. Equilíbrio,
imparcialidade e tolerância; forte sentido do ridículo…
Não hesitando em proclamar-se arcanjo do seu próprio céu, e em beatificar a memória de Durão, quebrando
o seu compromisso com os Portugueses após servir umas bicas aos senhores do
mundo que vieram a uma terra portuguesa fazer a dança da guerra; Santana dissipando-se; e
Passos na glória de querer ser pior que a “troika”.
Quanto ao PS, fulminou-o com um resumo das larachas rasteiras
da propaganda da direita, disparando-se num
festival de diatribes, com que admoestou severamente o povo português, censurando-o
indirectamente por lhe ter dado os seus votos há pouco mais de um ano. De facto,
o descavacado povo apesar de décadas de
experiências de convivência com os “diabos
cor de rosa” deu a um seu Governo um suporte maioritário que o pôs a coberto de
surpresas e traições parlamentares.
Na verdade, a democracia tem muito que penar até chegar aos
calcanhares da filosofia política iluminada do mago algarvio. Realmente votar é
um desporto ocioso; melhor seria pedir ao Senhor de Boliqueime a lista dos
ministros e um programa de governo e deixarmo-nos conduzir inebriados para o paraíso
caváquico. Lá CHEGARÃO: ( julgam eles!).
Por mim, permito-me um sorriso final: forte da sua consabida cultura poética, para deixar respirar um pouco a sua prosa cinzenta, não conseguiu recorrer a outro exemplo que não fosse uma leve e tosca evocação de Sofia, uma grande voz da poesia portuguesa que no seu tempo se sentou na bancada parlamentar do PS.
Embora espantadas, as musas sorriram. Mesmo na poesia, o comité laranja dos arcanjos prosaicos tem de se socorrer da tribo rosada dos sonhadores.
INDIGESTÃO…
Julgavam talvez que o PS ia ser cozinhado em lume brando.
Sabe-se agora que não
vai ser assim. Pensavam talvez que tudo se resumia a insultar o governo, a insultar o PS ,a insultar os socialistas,
esperando-os civilizados e previsíveis na resposta, conformados no debate,
mansos nas polémicas. Vai ser um pouco mais
duro.
Vão ter a maçada de
combater, de arriscar. Podem talvez fazer-nos morder o pó. Mas não são favas
contadas.
Sabem agora que não vão poder passear-se prazenteiramente sobre as nossas dificuldades.
Aprendam : há sempre o risco de, ao fim ao cabo, o povo socialista ser um osso duro de roer.
DEMOCRACIA. E da boa!!!
O Sr. jornalista Magalhães, um sujeito calvo de meia idade,
percuciente crítico de tudo o que, ainda que ligeiramente, lhe cheire a PS, cometeu
hoje na sua CNN uma alusão comparativa com a qual pretendeu mostrar bem a esse
Partido as suas limitações como protagonista de Estado. Pretendia ele contar a
recente história do computador à procura de um dono, dada a sua alergia a
pertencer ao Estado.
Ilustrando bem para que horizontes olham alguns dos
vigilantes críticos do actual Governo, recordou um episódio do tempo da “outra
senhora” que apresentou como exemplo. Nele se envolveu uma intemerata
enfermeira desconhecida que, plantada no seu hospital de trabalho , sofreu a
transcendente visita do então Ministro da Saúde do Doutor Salazar, o popular
Catedrático de Finanças da FDUL, o suave Soares Martinez. A audaz enfermeira e
o feroz catedrático envolveram-se numa rixa de salão, correndo o risco de
produzir forte susto nos inocentes doentes.
O épico de Santa Comba, possuído pela sua consabida verticalidade
democrática, apressou-se a despedir velozmente a azougada enfermeira; e, após algumas
horas de serena reflexão, correu também, num gesto nobre e decidido. com o insalubre
Ministro da Saúde.
Para o Senhor Jornalista, estava assim bem destacado esse transcendente exemplo
de Estado, em que participaram alguns destacados vultos da sua confessada
democracia: os híper democráticos Salazar e Martinez, bem como a malfadada enfermeira.
Acachapado pela força moral do expoente comparativo deveria
o PS curvar-se arrependidamente? Ou deveria apenas o povo socialista exclamar:
Vai-te encher de moscas aos quadrados !!!
Afinal quem é o Presidente da Junta?
O Presidente da
Junta acordou rosnando esta manhã uma melíflua ameaça de demitir o Regedor.
A malta mais afecta
ao Senhor Prior exige-o enérgica e civilizadamente. Não perdoam que o Zé dos
Bifes tenha mordido, ainda que cerimoniosamente, a prima mais nova da Dona
Mafalda.
A freguesia
lusitana alegadamente cansada de absolutos é energicamente conduzida para uma
modesta democracia relativa. Nefelibaticamente, a matilha do crescimento e da
saudade ignora a respiração reinante e
troveja vitupérios num esforço de cavar sepulturas.
O Dia Claro
(17
de Abril de 1969)
- fragmentos de memória poética
1.
Acendeu-se este dia de manhã
na alameda da memória,
sem melancolia, sem saudade.
Apenas liberdade,
respiração sem tempo
e um cravo vermelho de audácia
na aventura.
Na cidade há um vago perfume
de guitarras em fogo.
O Mondego recorda-se das serras e do mar
e viaja por nós, colhendo-nos, dizendo-nos.
2.
Colho a pureza inteira deste dia
nas lentas alamedas da memória.
Acende-se no tempo uma saudade,
firme, calorosa, doce, intensa.
Respira-se nas ruas, fogo lento,
uma difusa luz de encantamento
e os dedos inquietos dos estudantes
tecem as lendas do deslumbramento.
Estavam diante de nós os muros altos
das desoladas sombras da tristeza,
o cerco sujo da soturnidade,
o violento
punhal da desgraça.
Mas a manhã abriu-nos libertando
os
sonhos que acordaram loucamente
sedentos de alegria e liberdade.
Rui Namorado
(17.04.2023)
Votos de um Bom Ano de 2023!
Um poema que ofereço como
ressonância do tempo, acompanhado pela inquietação exuberante de um grande
pintor, que assim me ajuda num abraço de amizade e nos votos de um Bom Ano Novo
. Retribuo também deste modo os votos de Boas Festas que recebi.
Rui Namorado
Bom Ano de
2023!
[A fuga dos meses]
Foge por nós o tempo em
cada ano
e há um futuro em
riste que nos colhe
na vertigem dos sonhos
desprezados.
Nas pérolas mais frias
da revolta
só a paixão dos passos
que perdemos
abre inquieta
todos os caminhos.
A cor do
tempo vai amanhecer
e as colheitas audazes
vão crescer
na seara dos sonhos que
hão-de vir.
Rui Namorado
Um dia, Brecht escreveu um
daqueles diamantes breves que rasgam a noite sem contemplações.
Escapei aos
tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.
Marta Temido conquistou legitimidade para o fazer seu.
A direita, revelando um apurado bom senso e um profundo
sentido de justiça, insiste generosamente na perfumada sinfonia da reforma
eleitoral.
Engrossando o coro com energia, levantam-se das suas
sepulturas políticas, onde a história displicentemente os colocou, alguns dos
seus mais clássicos expoentes. O próprio Oráculo de Boliqueime , ágil e
enciclopédico, disse de sua justiça com
a grave sabedoria do costume. Há mesmo um balbuciar vago, tímido e alegadamente
científico oriundo da esquerda baixa que dá algum aconchego ao transcendente
desígnio da direita.
Círculos uninominais, apagamento da diversidade de
representação política pela redução da proporcionalidade ─ enfim, qualquer
coisa que possa dispensar a direita e os seus acólitos de conquistarem lugares
electivos sem precisarem de ganhar mais votos. Dar a palavra ao povo, sim
senhor. Mas nada de exageros. Não lhe deixar nunca espaço para poder fintar a
direita em momentos cruciais. Enfim, democracia de fino recorte.
Mas estando volátil o xadrez político, o desígnio guloso e
esperto da direita para a reforma eleitoral, pode tornar-se num verdadeiro “hara-kiri”.
Por isso, certo, certo e do seu interesse “nacional” é obedecer a dois grandes
princípios estruturantes.
1º- o total dos votos no PS será corrigido, amputando-lhe 33%;
2º -qualquer maioria parlamentar de esquerda (PS sozinho ou
acompanhado) terá que ser previamente autorizada pelo actual Presidente da
República, após parecer favorável do Oráculo acima referido.
Quando tal for alcançado, as sereias da democracia sem peias
dar-nos-ão a melodia dos seus cânticos…
Pesadão
e Silva falou.
Pesadão e Silva falou.
Como irmão mais velho reduziu Rio a um esquálido ribeiro que
censurou sem fraternidade pela irremediável secura.
Decretou teocraticamente a caducidade da repartição entre a esquerda e a direita,
mas inventou-se firmemente como o mais esotérico social democrata.
Glosou a vulgata crescimentista neoliberal com a
transparência do simplismo economicista. Pavoneou-se com a sua alegada vocação reformista, ruminando
os mais sagrados tiques ideológicos da
direita mais classicamente inequívoca.
Massacrou ferozmente o PS, fornecendo o roteiro da sua
oposição. Esmagou olimpicamente António Costa com o peso imenso da sua
grandeza. O povo de esquerda exultou:” Se Pesadão e Silva nos ataca é sinal de
que estamos no bom caminho-”
Antóno Costa limitou-se a fintá-lo. E a sorrir…
Num rasgo de última instância, o Prof. Silva ignorou
corajosamente os trinca-fortes da saudade, varrendo-os para debaixo do tapete.
Só então a corte respirou de alívio e descansou:” afinal
existimos! Uf!”
SERENATA
Que lágrima triste subiu no vento,
deixando a saudade a perder-se nele?
Que garra de angústia se rasgou no peito
perdida na dor dos versos cansados,
esquecida da audácia das grandes montanhas?
Os lábios longínquos das guitarras tristes
não dizem os sonhos das ruas mais largas,
não trazem os cheiro das histórias sofridas,
não esquecem o medo dos anos de abismo.
Podiam abrir as ruas mais lentas,
subi-las num rasgo, emoção e prazer,
ser
campos abertos de sonho e amor,
esculpida em memória a dor do futuro.
Mas descem os dedos das harpas mais tristes
perdendo os silêncios das velhas saudades,
e escavam a angústia das harpas mais tristes
fugindo da audácia que colhe o amor.
Respira-se a sombra dos tempos que faltam,
arranca-se o gume crispado nos versos
e sobe-se o voo de todas as águias,
mais longe, mais longe, mais longe.
É esta a serenata dos peitos abertos,
das cordas que rasgam o som das guitarras
e olhando através de todos os mares,
Coimbra cansada de não se cansar.
[Rui Namorado]
Em Fevereiro de 1996, quando eu era deputado na AR
pelo PS, publiquei um livro de poemas , “Sete Caminhos”, através da editora Fora do Texto [Centelha].
O livro estava organizado em sete partes, uma das
quais a penúltima se intitulava “Pré-história”.
Era composta por quatro poemas, um dos quais “Pré-história de guerra”
evocava o risco de uma guerra nuclear- O título sugeria que estávamos perante
um risco que perdera actualidade.
Hoje, passados todos estes anos, vemos que assim não
é. Por essa razão resolvi recordá-lo aqui.
_________________-
PRÉ-HISTÓRIA
DE GUERRA
1.
a pomba foi morta pelo general
calculou
o sítio exacto
o lugar único
onde a morte esperava
no
relatório omitiu a cor branca da vítima
e aquela leve pluma de ternura
visível no seu olhar depois de morta
parecia mais pena do que saudade ou terror
mais um enorme peso de braços caídos
do que o gelo transido do pânico
o general descreveu com precisão
a trajectória magnífica do tiro
o seu rigor
a rapidez fatal
com palavras antigas sincopadas
ao ritmo dos tambores de mil batalhas
2.
quando pouco tempo depois lhe disseram
que o neto
o filho a sua velha mãe
a mulher cujo sabor guardava dia a dia
a casa com jardim e duas árvores
a rua suave
a cidade onde nascera
eram agora uma nuvem espessa de cinza
onde a custo emergia o esqueleto de uma árvore
sozinha
o general suspendeu o relatório
e teve um suor frio vindo da raiz da alma
mas quando lhe vieram dizer pouco depois
que era inútil mandar o relatório
porque o lugar que o ia receber não existia
o general chorou como um menino perdido
e foi
então que o sol se perdeu numa nuvem de poeira
e um doce sabor a morte azul e profundo
entrou pelo general até aos ossos
3.
a mão do general ficou ligeiramente tombada
sobre a folha do relatório vitorioso
ocultou um pouco a trajectória da bala
a palavra pomba parecia agora levemente manchada
e junto à porta o olhar fixo do jovem ajudante
era um vidro de espanto gravado no general
tudo à volta estava finalmente tranquilo
a paz fulminantemente conquistada
Para quem quiser aprender...
DOS SOCIALISTAS
EM FRANÇA.
Uma resistência à
entrada do Partido Socialista Francês na grande coligação de esquerda liderada
pela França Insubmissa ecoa lugubremente na comunicação social francesa.
É especialmente protagonizada por alguns dos seus notáveis de
má memória. De facto. alguns dos coveiros mais ostensivos do socialismo francês
parecem não querer admitir qualquer tentativa séria para o desenterrar. Uns,
como Manuel Valls, assumem e aprofundam sem rebuço uma deriva de traição que
iniciaram há anos juntando-se à estéril
nebulosa “macroniana”. Outros erguem-se penosamente da sepultura política em
que caíram e procuram evitar com desespero que o PSF retome um protagonismo
político relevante. Não se percebe se resistem a sair do buraco em que Anne
Hidalgo os meteu nas recentes eleições presidenciais ou se sonham nunca lá terem caído.
Quase miraculosamente
o que resta do Partido, como um quadrado de raiva, parece querer resistir. No
horizonte, cresce a probabilidade da sua adesão a uma União Popular Social e Ecológica
que congregue toda a esquerda francesa.
Registe-se,
entretanto, a posição assumida no twitter pelo candidato do PS às eleições de 2017, Benoit Hamon:
“Afastei-me da vida política
nacional mas , a título pessoal, neste
dia de aniversário da vitória da Frente Popular, afirmo que a aliança em torno da União popular
é uma excelente notícia”.
Haverá esperança ?
Capitães
de Abril
[1974/2022]
Capitães de um futuro incendiado
esculpiram num só dia o coração
das largas avenidas que hão de vir
O povo semeou-se pelas ruas
gritando em vermelho um cravo imenso
com asas que voaram pensamento
Em todo o horizonte ficou escrito
um sonho que perdeu o seu limite
já pétala de luz deslumbramento
Capitães inventados em Abril
o povo atravessou-os como um rio
com a paixão mais justa e vertical
[Rui Namorado – 25 de Abril de 2022]
Em 2012, no dia em que a Académica ganhou a Taça pela segunda vez, escrevi o poema que abaixo reproduzo.
Difundi-o então no meu blog O Grande Zoo. No final de 2021, publiquei na Editora Lápis de Memórias, o meu livro de poemas mais recente. "A cidade do Tempo" é uma ressonância poética de Coimbra. Nele incluí o poema que hoje transcrevo.
Hoje, que a Académica atravessa uma grande tempestade de infortúnio é indispensável uma verdadeira respiração do futuro. Com verdadeira grandeza; com imaginação e ousadia.
_______________________
-em 2012
O jogo começou
há longos anos,
quando
ganhámos a primeira vez.
Em maio de mil
novecentos e sessenta e nove,
julgou-se
que tínhamos perdido.
Cinco anos
depois viu-se que não,
porque somos
de um outro campeonato.
Foi talvez,
por isso, que ganhámos
neste ano já
de um outro século,
como se tudo
tivesse começado.
E, no entanto,
o jogo continua.
Há sempre um
novo jogo a começar:
entram em
campo todas as memórias.
Mas também a
saudade e a alegria.
As capas são
os ventos que não param.
Os ventos que
são anos e são vida.
Há golos para
todas as balizas.
O Bentes virá
sempre pela esquerda.
No último
minuto, o Artur Jorge
Há de marcar o
golo de uma vida.
Ia ser golo já
sem remissão,
mas o Capela
voou mais que o possível
e a bola não
entrou.
E hoje, quando
a festa começou,
já o leão
rugia rudemente;
a bola
insidiosa veio da esquerda,
procurou a
cabeça do Marinho
e o golpe foi
desferido e foi mortal. .
Vamos entrar
em campo novamente,
sabendo que a
Briosa a entrar em campo,
é sempre muito
mais do que ali está.
Cada golo é
sempre mais que um golo:
milhares em
todo o mundo vão marcá-lo.
Cada vitória é
mais que uma vitória:
milhares em
todo o mundo vão erguer-se,
num gesto de
alegria.
E quando os
onze perdem nunca perdem,
porque a
Académica ganha moralmente.
E se, apesar
de tudo, ainda perderem,
os onze sempre
sabem que jamais
irão perder
sozinhos.
O sonho estará
sempre ao lado deles
e há sempre um
outro jogo para ganhar.
Ganhámos esta
taça.
Na praça da
saudade estão connosco
os que
partiram antes de a ganhar.
Vai haver nas
ruas de Coimbra
um fraterno Mondego
de pessoas,
um clamor de
alegrias.
E se nas
largas ruas da vitória
se abrir
alguma porta de silêncio,
não estranhem,
são aqueles
que partiram,
fazendo
recordar a sua ausência.
O que hoje
entrou em campo foi a lenda
e o mito de
uma eterna juventude.
Briosa é nome
de uma caravela,
mas o vento
que a leva só é vento
de quem saiba
sonhar sem desistir.
Por isso, se
percebe com clareza
que nós somos
de um outro campeonato.