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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

UM COELHO EM EBULIÇÃO

 



UM COELHO EM EBULIÇÃO

Como qualquer Coelho que se preze Passos Coelho tirou-se , a si próprio, da cartola, desabençoando intensamente  António Costa.

Diria mais: mordendo forte e incivilizadamente  as canelas do seu antigo  adversário político.

E a dentada foi tão intensa que o seu admirador confesso e antigo súbdito André Ventura viu-se ingressado na categoria dos “Há piores do que ele”. Apressou-se, aliás, a mostrar que essa descida no ranking dos insuportáveis não o tinha deixado triste.

Pelo contrário, tinha-o iluminado na escolha do primeiro ministro do PSD de que mais gostaria, qual o líder do PSD que mais facilmente o domesticaria, qual o chefe laranja que engolirá  mais facilmente.

O cerco de Montenegro a si próprio foi reforçado por um irrequieto Coelho que o farpeou sem piedade. Na sua emaranhada desfilada, foi tempo de uma pequena dança de regozijo de André Ventura.

Perdida na  sua campanha malabarística, a direita pergunta-se: Afinal, quem devora quem?

domingo, 18 de dezembro de 2016

PASSOS - o astrólogo das desgraças


Passos Coelho assumiu-se como o astrólogo das desgraças. Confiou na alta probabilidade de um regresso dos tempos difíceis a Portugal. Confiança que certamente lhe adveio dos seus próprios limites ideológicos, mas principalmente de uma noção clara da fragilidade da situação económica de Portugal  subsequente ao seu próprio consulado. Fragilidade acentuada pela objectiva  volatilidade política da União Europeia  que oscila entre uma fidelidade robótica aos dogmas do neoliberalismo (traduzida numa total nudez estratégica) e  o despertar doloroso para uma realidade que insistentemente lhe faz entrar pelos olhos dentro o negrume do seu fracasso, quando optou pela via da austeridade.

Mas se é certo que o neoliberalismo tem assombrado a Europa, não conseguiu ainda destruí-la, pelo que muita coisa se move nela apesar dele. Muita coisa resiste.

A fibra e a criatividade  dos portugueses,  uma atmosfera solidária com algum relevo e um governo possibilitado por uma conjugação das esquerdas ( e que a reflecte), têm atrasado a realização das profecias negras de Passos. E parece legítimo afirmar-se que, se os contextos político-económicos europeu e mundial não criarem dificuldades novas e maiores, pelo que diga respeito apenas aos portugueses e à via seguida pelo governo, as profecias negras de Passos não se confirmarão.

Tudo isto, no entanto, suscita duas questões centrais.

Primeira: se houver uma situação difícil inequivocamente imputável a causas externas podemos fazer recair as culpas nos portugueses e no seu Governo?

Segunda: sendo certo que o consulado de Passos, tendo apertado o garrote em torno do povo,deixou a dívida pública pior, o défice abaixo dos objectivos fixados , a economia num nível inferior  e agravados os problemas do sistema financeiro, que razão haveria para acreditarmos que ele , se viesse a ocorrer uma crise exógena,  nos faria enfrentá-la melhor  do que  este Governo?

Quanto àquilo  que a primeira questão envolve, a culpa só poderia ser imputada  aos portugueses e ao actual governo, com base na lógica de que o capital merece todo o carinho e as pessoas que vivem do seu trabalho, todos os sacrifícios.

Quanto ao que tem a ver com a segunda questão torna-se cada vez mais claro que a via da austeridade não é uma cura mas uma intoxicação, cujo efeito colateral mais notório é o de cavar as desigualdades e agravar a pobreza.

Tudo isto conduz a uma conclusão: Passos deixou-se aprisionar pela sua própria frustração por ter perdido o poder, tendo ficcionado a indispensabilidade da sua política e  a insusceptibilidade de se seguir qualquer outro caminho. Robotizado ideologicamente pelo neoliberalismo, foi deslizando para um discurso que se repete a si próprio. E cada dia que passa torna esse discurso mais distante da realidade.

E assim, perversamente, o equívoco de Passos (que começou por ser apenas uma ideia errada) pode converter-se num desejo. Sim, o desejo de Passos de que as coisas corram mal para os portugueses e para o actual Governo por ser essa a única esperança de que venha a acontecer aquilo que vaticinou; única maneira de o salvar  de um enorme falhanço que  com o tempo só pode crescer.




terça-feira, 22 de setembro de 2015

COELHO no churrasco da segurança social


COELHO  no churrasco da segurança social

Nos últimos tempos, Coelho tem dado passos de gigante na rota da mentira e da mistificação. Sôfrego, não se dá sequer ao cuidado de apurar se a sua galga matinal não choca com especial despudor alguma posição pública recente de um dos seus. Um exemplo. Um vulto do PSD entendeu por bem defender recentemente no jornal  Expresso o plafonamento das pensões de reforma . A sua linha de argumentação assentava na ideia de que era necessário aliciar os quadros mais qualificados, e por isso mais bem remunerados, dando-lhes oportunidade de descontarem para um seguro privado a partir de um certo montante, em vez de os obrigar a integrar por completo  o sistema público de segurança social, com a sua relativa carga de solidariedade. Aliciá-los, para que não fugissem para outros países. Generosidade para com gente vive bem, muito bem. E nada mais. Involuntariamente sincero? Talvesz.
Eis se não quando Coelho num tom pedagógico e quase intimista , em face de uma oportuna pergunta de um jornalista sobre plafonamento das pensões, confessa ao perguntador que o que está em causa é retirar ao Estado a obrigação de pagar  pensões “milionárias”. Ou seja, está em causa um verdadeiro ato de amor para com a segurança social pública. Desvanecedor, mas completamente hipócrita.
Na verdade, o Dr. Coelho esqueceu-se de dizer que a segurança social deixava de ter que pagar pensões” milionárias”, mas deixava também de receber as correspondentes  contribuições “milionárias”. Ou seja, na globalidade não havia qualquer vantagem para o sistema público de SS, havia sim para as companhias de seguros que se encarregariam da gestão daquilo que antes cabia ao sistema público.
Com uma agravante enorme: a SS pública deixaria desde já de receber as contribuições “milionárias”, mas continuaria a ter que pagar as pensões “milionárias” correspondentes às contribuições já recebidas. Durante muito tempo, esse plafonamento traduzir-se-ia na prática numa descapitalização da segurança social pública, para além de ficar anulada qualquer solidariedade para como os beneficiários mais pobres. Ou seja, fingindo preocupar-se com a sustentabilidade da Segurança Social, o que o Dr. Coelho realmente pretende é oferecer um chorudo negócio às companhias de seguros, mesmo sabendo que atinge essa sustentabilidade no imediato. Hipocrisia, incompetência, leviandade.
Outra coisa muito diferente, da qual a direita foge como o diabo da cruz, seria  a de um plafonamento das pensões num patamar elevado, mas sem qualquer plafonamento das contribuições. Este caminho é que  beneficiaria direta e claramente a SS Pública, traduzindo-se numa solidariedade real e efetiva  dos que aufeririam pensões “milionárias” para com os destinatários de pensões sociais.  Era no fundo um tributo pago pelos que mais têm em benefício dos que mais precisam. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

RELVAS, PASSOS, CRATO - a mesma luta.


Em paralelo com o caso Relvas, cresce a sombra de um caso mais grave: o manto com que os actuais poderes de Estado, sob comando circunstancial mas efectivo do PSD, querem encobrir os contornos mais escandalosos de uma vergonhosa demonstração de menoridade cívica e de desfaçatez moral que através daquele caso se revela.

Hoje, vou falar de duas manifestações ostensivas dessa sombra.

Primeiro, Passos Coelho numa reacção que tentou que parecesse distante, a propósito do seu “não caso” Relvas, recusando dar qualquer relevo ao acontecido, deixou escorrer como se fosse nada uma ideia sem sal: a de que é necessário tornar mais exigente o regime das equivalências. Fatal. Essa anódina ideia teve a involuntária energia de uma verdadeira bomba. Passos Coelho acabava por dizer, mesmo sem o querer, que no seu espírito estava claro que as equivalências do seu “mestre” eram fruto da generosidade excessiva de um critério. Ele tinha, portanto, como absolutamente claro que Relvas objectivamente não tinha mérito suficiente para ser destinatário das equivalências concedidas; ou seja, que Relvas foi drástica e objectivamente favorecido. De outro modo, não teria dito o que disse. Ou seja, Passos Coelho acha que realmente o que deram a Relvas é um donativo escandaloso, mas não teve a verticalidade de o dizer. Mau sinal, quanto à densidade cívica e ética de um primeiro-ministro.

Segundo, o que o Ministro da Educação deixou transparecer, quando revelou recentemente que já estava em marcha uma auditoria à Universidade Lusófona, que daria resultados em poucos meses. De facto, Crato começou por se calar com embaraço. Quando viu que era oneroso prolongar o seu silêncio, deixou escapar que, em breve, como episódio normal da sucessão habitual de auditorias a Universidades privadas, iria ocorrer uma auditoria á Universidade Lusófona. Quando achou que isso era ainda insuficiente, informou que já se tinha iniciado uma auditoria à Universidade Lusófona. Terá pensado que desse modo mataria três coelhos com uma cajadada: não confessava expressamente que o caso Relvas, por si só, tinha contornos que justificassem um inquérito; durante os próximos dois ou três meses teria justificação para ficar em silêncio; as conclusões iriam cair num período em que o caso estaria menos presente na esfera pública. Enganou-se. Não vamos permitir mistificações.Com isso, apenas deixou que ficasse às claras uma tentativa de encobrimento.
Na verdade, todos sabemos que a decisão de mandar fazer esta auditoria resulta em primeira linha do caso Relvas. Pelo que o que devia ter sido ordenado era uma inspecção ao processo de equivalências em si próprio. De facto, concentrando-se a Inspecção no apuramento de um caso concreto, poderia ter resultados rapidamente; mas dispersando-se esforços garante-se que não haverá resultados proximamente. Ou seja, no imediato a decisão de Crato não procura trazer a verdade rapidamente à superfície, mas retardá-la, dando a impressão que se está à procura dela. Paralelamente, Crato diz-nos, de forma indirecta mas inequívoca, que está convencido que, qualquer que seja a verdade apurada quanto ao caso Relvas, ela só lhe pode ser desfavorável. Se estivesse convencido da completa lisura do processo, é lógico que tudo faria para que a verdade se apurasse com o máximo de celeridade.
Ou seja, temos como Ministro da Educação um arauto do rigor nas avaliações que afinal perante um escandalosos caso de favorecimento facilitador de que se aproveitou um ministro do mesmo Governo, se cala enquanto pode e ensaia manobras de diversão para o proteger.

Por isso, podemos afirmar que tendo estado até agora escondido nas brumas subtis de uma ideologia de ocultação, à medida que alguns gestos desastrados de protagonistas seus nos permitem ir percebendo melhor os seus contornos, o perfil esburacado do Estado laranja vai emergindo no horizonte como uma assombração.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PIEGUICES

O primeiro-ministro atirou para cima de nós a palavra "piegas". Como se a sua governação fosse apenas um ligeiro aperto, fácil de suportar. Fosse apenas o peso de algumas palavras incómodas.

Mas, desse modo, mostrou afinal que o facto de milhões de portugueses pagarem a sua política, através de sacrifícios aflitivos, através da perda angustiante de um futuro, é uma realidade que lhe escorre pela pele, sem verdadeiramente o tocar. Vê-se, assim, que tudo o que aponte em sentido contrário, na sua imagem mediática, não é mais do que encenação.

Este episódio coloca perante nós uma alternativa, quanto ao modo como encaramos Passos Coelho: ou temos que ver nele alguém que politicamente olha para o povo como um tapete que se deve deixar pisar sem resistir, pela arrogância fria dos poderosos e dos ricos; ou como um incontinente verbal que solta sem inibição a primeira inconveniência que lhe venha à cabeça. Nenhuma das hipóteses é boa; e ambas sugerem um político superficial, sem verdadeira consistência, que se deixa levar pela corrente como um ramo seco.Um político provisório que ocupa um lugar que o ultrapassa, no decorrer de uma pausa infeliz. Um político leve, insustentavelmente leve.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

DUAS CARAS

A habilidadezita como estilo é apanágio do novo Governo.

Por exemplo: hoje, com voz enérgica, Passos aparentemente disse que em 2012 as pensões mais baixas iam ser actualizadas, de acordo com a inflação.

Mas o que realmente disse foi que para o ano todas as pensões iam ser congeladas, apenas com a excepção das mais baixas.

É como se tivesse dito: "Para o ano o Governo não vai agredir os mais fracos."

Mas eu pergunto: "E é legítimo agredir todos os outros ?"

terça-feira, 19 de julho de 2011

UM DELES MENTE !

1. Em pouco tempo, com uma nitidez cujo grau me surpreende, o modo como no espaço mediático tem sido tratado o actual governo, em comparação com o modo como o anterior o foi, encerra um conjunto de lições que não devem passar despercebidas. Essa discrepância atingiu uma intensidade tal que a sua ocultação ou o seu disfarce tornaram-se impossíveis. Alguns dos episódios em que ela se materializa invadem o território do humor. Mas um deles, ainda em curso, reveste-se de características escandalosas.


2. Todos se recordarão, certamente, de como diversos actores políticos, alguns expoentes mediáticos e um punhado de barões do empresariado, regougaram compulsivamente no espaço público reiteradas insinuações, afirmações ou acusações, que convergiam na sugestão de que o primeiro-ministro do governo anterior, faltando à verdade repetidamente, era um verdadeiro mentiroso.


De facto, tranformaram possíveis erros de apreciação ou avaliação, bem como pontos de vista diferentes dos acusadores em mentiras, converteram a discordância ideológica numa alegação de falsidade.E todos estão, decerto, recordados do alarido ensurdecedor da direita, a propósito de um alegada diferença entre uma frase dita pelo primeiro-ministro e algo que ele tinha dita a um amigo ao telefone numa conversa particular, uns tempos antes. Com o escandaloso picante de essa conversa ter sido obtida numa escuta de duvidosa legalidade, causada pelo envolvimento do interlocutor de J. Sócrates na causa da escuta. Essa nunca demonstrada discrepância deu declarações dramáticas , atravessou inquéritos parlamentares, encheu os écrãs televisivos de angélicos rostos compungidos de figuras amantes da verdade, que esconjuravam essa hipotética, nunca demonstrada e pecaminosa mentira.


3. Os meses passaram, as eleições precipitaram-se, a direita chegou finalmente ao que ela encara como se fosse o pote. O primeiro-ministro e os seus acólitos instalados nas várias cadeiras do poder pertencem agora à virtuosa família dos verdadeiros. Eis se não quando, no modesto episódio da preparação do governo, um jornal, alegadamente de referência, do qual é proprietário um dos fundadores do PSD, insuspeito de qualquer sombra de esquerdismo, revela que no célebre drama cómico do secretário de estado que nunca chegou a sê-lo, Passos Coelho pediu aos serviços secretos para investigarem o tal proto-secretário de estado. Passos Coelho veemente desmente. Ricardo Costa, director do jornal, responde confirmando a veracidade da notícia. Passos Coelho insiste em negar.


4. Entretanto, os esforçados priores e as inefáveis sacerdotisas da verdade que meses antes se desfizeram em trovões contra José Sócrates, a propósito daquela brisa nunca provada de um descoincidência de versões, dormem agora no remanso de ligeiros murmúrios dificilmente audíveis perante o ruído insuportável do seu silêncio. Um doutíssimo e popular comentador políticos que já foi líder do PSD, refugiou-se na subtileza de dizer que comentava mais tarde, como se estivéssemos perante a hipótese de uma simples gota, insignificante, no mar das coisas importantes. Ou seja, pelo sim pelo não, calou-se, não fosse o diabo tecê-las.


Mas não estamos perante um detalhe , perante uma gota minúscula, uma sombra sem espessura. Estamos perante a hipótese de um gravíssimo escândalo político. Uma hipótese suficientemente consistente para ter que ser esclarecida. Esclarecida, e não embrulhada em declarações de fé , ou em juízos de probabilidade, recolhidos por pacíficos jornalistas na curva de um corredor ou entre duas trincadelas numa sanduiche. Esclarecida, para que seja absolutamente certo : 1º) que o Primeiro-Ministro não abusou da sua posição para fazer um pedido ilegal aos serviços secretos; 2º) que o Primeiro-ministro não mentiu ostensivamente sobre um assunto de Estado sobre o qual foi perguntado, directa e expressamente. O inquérito é urgente, a resposta tem que ser inequívoca e as consequências têm que ser exemplares. O Presidente da República não pode fingir que esta a fruir uma merecida sesta e a Assembleia da República não pode espreguiçar-se de hesitação.


Seja qual for o resultado, já fica irremediavelmente registado o escândalo da bonomia da nossa comunicação social, perante um tema desta gravidade. E todos nós percebemos também que um resultado absolutório de Passos Coelho não terá qualquer credibilidade se, juntamente com ele, não for anunciada a demissão do responsável do jornal que insistiu na veracidade da notícia.


Nós, socialistas, mas certamente o resto da esquerda também, temos que aprender, reforçando-nos com persistência e inteligência, para a prazo conseguirmos recuperar o actual espaço mediático, transformado hoje num terreno de caça e de recreio da direita. Recuperá-lo de modo a que possa vir a ser um espaço de liberdade de informação com credibilidade, insusceptível de ser instrumentalizado por quem, dispondo de dinheiro e poder, vem transformando a verdade num bem escasso e a mentira num hábito impune.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

UM DESVIO COLOSSAL !

O irrequieto primeiro-ministro declarou haver um desvio colossal entre o défice anunciado pelo governo anterior e a realidade das contas agora verirficada.

Como nos diz o DN, o sábio ministro das finanças declarou que o que o primeiro -ministro devia ter dito era : "Foram detectados desvios e o cumprimento das metas orçamentais vai exigir-nos um trabalho colossal".

Como se pode ver há um desvio colossal entre as duas posições. E perante isso, o que me parece colossal é a irreposabilidade destes governantes.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

RESPIREM AGORA.

Uma fuga de informação do círculo íntimo de Passos Coelho deu a saber que este incerto estadista tem um trunfo que considera ser a sua marca de identificação política. Guardou a sua divulgação para o fim da campanha eleitoral e está convencido que assinalará definitivamente a sua imagem: a privatização do ar.


De facto, como muito bem disse o avô político do referido estadista, os portugueses têm respirado muito acima do que deviam.



Por isso, vos recomendo. Respirem fundo, respirem já, mesmo com sofreguidão. Quando o Passos Coelho mandar vão ter que cortar na respiração.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

SOB O VERNIZ



Dia após dia, vão-se acumulando indícios de que Passos Coelho é um simples verniz político. Reveste-se de cores garridas, para chamar à atenção, procura tonalidades que sugiram profundidade, mas as suas propostas vêm demasiadas vezes eivadas de uma superficialidade chocante, quando não reflectem uma forte contaminação demagógica.

Ontem, a fazer fé na imprensa, ofereceu-nos mais uma das suas pérolas. Incluiu na sua carta de intenções programáticas a enérgica descida do número de deputados para 181.

Não trago aqui à colação de momento o mérito substancial da proposta, embora seja estranho que se esqueça que Portugal, entre os países membros da União Europeia, é um dos que têm um número menor de deputados em termos relativos, isto é, comparando a população com o número de deputados. Embora alguns pavões ignorantes continuem a insistir no contrário, há informação, estudos e até teses de doutoramento, onde se podiam esclarecer. Por outro lado, uma diminuição do número de deputados pode enfraquecer em demasia a representação parlamentar directa de algumas áreas do território nacional. Por último, sabe-se que em virtude da geografia eleitoral portuguesa há uma vantagem relativa importante do PSD em face do PS: o PSD precisa de uma percentagem de votos menor do que a do PS para atingir a maioria absoluta dos deputados. Dir-se-á: é um detalhe sem grande importância. Mas se nos lembrarmos que se tivesse sido o PSD a ter tido os votos que teve o PS de Guterres, teria tido duas maiorias absolutas, e o PS não as teve, não seremos tão displicentes. Ora, a diminuição do número de deputados alarga essa diferença, beneficiando sempre por si só o PSD em detrimento do PS. E se é certo que as leis eleitorais devem ser neutras, não se podem ignorar os favorecimentos e os prejuízos que suscitem as suas alterações.Estas considerações bastariam, por si sós, para fazer com que se pensasse duas vezes antes de seguir o salazarento preconceito anti-parlamentar que induz uma estranha cólera popular contra tudo o que é eleito, mas principalmente contra os deputados. Foi desse insalubre preconceito anti-democrático que Passos Coelho não hesitou em procurar aproveitar-se.

Acresce a tudo isso, a necessidade de uma maioria de dois terços para se fazerem as alterações que Passos Coelho prometeu como se dependessem da sua vontade, da vontade de uma simples maioria parlamentar. Lançar propostas destas numa campanha, num tom de pressão e demarcação do partido sem cujos votos tais medidas não serão aprovadas, não parece por isso o caminho mais inteligente, para quem queira realmente ver essas medidas aprovadas.

Por isso, das duas uma: ou Passo Coelho inscreveu nas suas intenções programáticas uma medida que não depende de uma eventual maioria que alcance, sendo indispensável o apoio de um partido do qual ele se pretende distinguir precisamente através dessa medida ( e assim, se estiver s ser sincero é imprudente, porque não tem condições para, sem o apoio do PS), atingir esse objectivo; ou apenas está a fazer chicana política, usando um tema político do maior relevo como arma de propaganda.

Nem uma nem outra hipótese são lisonjeiras, sendo ambas indícios preocupantes da superficialidade política do seu autor. Por isso, cada vez é mais legítimo desconfiar-se que por debaixo do verniz mediático que reveste Passos Coelho exista apenas um imenso vazio.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O AVÔ E O COELHO


- Pedrinho, não sejas maroto. Sai já debaixo da mesa. Não deixes o avô sozinho.


- Não. Não e não.


- Vá lá ! Queres que venha o lobo mau e faça mal ao avô ?

sábado, 16 de abril de 2011

O ESTRANHO CASO DO CANDIDATO NOBRE

O estranho caso do candidato Nobre não é tão estranho como isso. Ele é afinal a ilustração do velho ditado popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.


Quem se limite a colher as aparências, verá na entrada de Fernando Nobre numa lista do PSD uma traição. E se fizer uma recolha atenta de declarações anteriores do azougado clínico encontrará amplo material para ilustrar a grande distância que existe entre o que repetidamente disse e o que agora fez. Mas quem conseguir desembaraçar-se da cortina de ilusionismo político de que o candidato se envolve, poderá ver com nitidez que tudo o que rodeia este caso é afinal bem mais simples.


De facto, hoje é evidente qual é o lugar ideológico-político do escudeiro do candidato miguelista ao inexistente trono de Portugal. É o que corresponde à sua opção monárquica e ao seu apoio a Durão Barroso e a António Capucho. Os apoios a Mário Soares, ao Bloco de Esquerda e a António Costa não passaram de manobras destinadas a dar uma maior aparência de realidade ao embuste que Fernando Nobre viria a urdir, lançando uma candidatura presidencial que fingiu ser uma componente discreta, moderada e aberta da esquerda, quando afinal era uma auxiliar disfarçada da direita, dirigida, no essencial, a facilitar a vida a Cavaco e a confundir as coisas no seio das esquerdas.


E terá sido o relativo êxito dessa operação de ilusionismo presidencial que terá levado o PSD a tentar explorar o mesmo equívoco. E para dar verosimilhança à ocultação da matriz direitista de Nobre, achou que podia instrumentalizar um alto cargo do Estado democrático para ficcionar a importância de Nobre, ao mesmo tempo que dava a aparência de realidade ao seu alegado supra-partidarismo. Mas como acontece com os ilusionistas que repetem o mesmo truque, as aparência apagaram-se perante a realidade, nesta segunda tentativa, ou nesta tentação de insistir na realidade de uma ficção vinda de trás.


E Nobre foi afinal reduzido à quilo que realmente é : uma personalidade política e ideologicamente de direita que concebeu o embuste de se fazer passar por um candidato presidencial contidamente de esquerda. Embora fosse um verdadeiro seguro político de Cavaco, era sempre apresentado como um dos potenciais causadores de uma ida de Cavaco à segunda volta.


A força das coisas mostra agora que tinham razão todos aqueles que chamaram a atenção para a presença, nas camadas menos aparentes do discurso político de Nobre, de muitas marcas identificadores do conservadorismo ideológico e do reaccionarismo político. De facto, Nobre é um político bem impregnado pelos dogmas e tiques da direita clássica, com uma maquilhagem oportunista de esquerda, propositadamente feita para enganar os eleitores. Por isso, ele não representa nenhuma abertura à esquerda praticada pelo PSD, mas apenas uma tentativa patética de insistir num embuste que deu eleitoralmente algum resultado nas eleições presidenciais.


Tal como aconteceu antes, há quem tente branquear a ostensiva rasteirice desta manobra política que envolve Nobre e Passos Coelho, invocando o currículo humanista do médico sem fronteiras. O mérito e o valor social do seu envolvimento em causas solidárias não está em causa, como o não está o de milhões de pessoas que em todo o mundo se ocupam desse tipo de tarefas. Mas o mundo não está dividido em anjos que seriam esses e demónios que seriam os outros; no mundo, mais prosaicamente, vivem pessoas com virtudes e defeitos, sendo certo que fica longe da excelência ética qualquer tentativa, subtil ou não, para fazer render em termos de prestígio que se usará ( por exemplo, na política ) o trabalho solidário realizado. Ora Nobre só não é um verdadeiro perito nessa utilização, porque vai longe demais na sofreguidão de tornar visível o seu envolvimento em missões solidárias. Não é um hábito decente.


O envolvimento da Presidência da Assembleia da República na tentativa de o PSD prolongar o embuste de Nobre, mostra a completa a ausência de sentido de Estado das personagens que urdiram essa farsa e a fraca qualidade do seu civismo. É aliás irónico e revelador que o seráfico Nobre se tenha envolvido num enredo tão sórdido. A imensa maioria dos políticos inscritos nos partidos, que ele tanto abomina, não teriam estômago para ir tão longe.

quarta-feira, 23 de março de 2011

HIPOCRISIA

Um Coelhote engravatado com uma pose enorme, acaba de fazer publicamente uma das cenas mais hipócritas a que me foi dado assistir.

Com o contributo determinante do PSD, o governo do PS acaba de cair, no termo de uma miserável campanha de intoxicação mediática, em que a direita teve o contributo inesperadamente ostensivo das oposições de esquerda, reduzidas assim ao triste papel de armas de arremesso daquela e dos seus mandantes.

O tal Coelhote mal acabou de limpar a lâmina da adaga acabada de cravar no governo do PS, perfilou-se por detrás das câmaras e seraficamente proclamou a sua belíssima intenção de acabar com a crispação na política portuguesa.

Não sei se o homem é completamente cínico ou se limita a ser algo esparvoado, mas é difícil aceitar que um líder de um grande partido seja realmente tonto.

Por isso, eu tomo o que ouvi pelo seu valor facial. O homem tinha acabado de assassinar o governo do PS e de imediato prometia o corajoso angelismo de uma descrispação política.

Hipocrisia: é a palavra que ocorre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

PASSOS, o traquinas.


Dizer que depende de um governo minoritário haver ou não haver eleições legislativas em 2011, é em si mesmo absurdo. Um absurdo, que só é compreensível como resultado da ingénua ilusão de que, deitando-se as culpas de uma crise para longe de quem a provoque, se consegue iludir o povo. Iludi-lo, de modo a que se convença que a principal vítima directa da crise é afinal o seu causador. Mas foi isso que o inefável Passos afirmou ontem na televisão.

Ora, se é um facto que o governo tem a faculdade de se demitir, algo que ninguém até hoje sugeriu que pudesse acontecer, é a oposição que pode derrubá-lo no parlamento. E só a oposição pode tecer uma convergência de juízos críticos que aos seus olhos justifiquem o derrube do governo.

Isto é, se o governo se demitir, não poderá deixar de arcar com a responsabilidade da decisão que tomou. Se as oposições se concertarem para derrubar o governo, podem imaginar-se com todas a razão para isso, mas não poderão deixar de arcar com a responsabilidade da decisão que tomaram.

Tanto num caso como no outro, os actores políticos, que realmente tenham causado a queda do governo, podem procurar persuadir os eleitores da justeza do seu comportamento, mas não apagarão o facto de a terem provocado.

Por isso, a patética tentativa de Passos Coelho de fugir à sua responsabilidade por um possível derrube do actual governo que possa vir a decidir em 2011, se vier a ser essa a sua decisão, além de ser um afloramento preocupante de uma profunda desonestidade intelectual , é também mais um contributo para nos lembrar que por detrás da fachada engravatada daquele jovem senhor, espreita ainda uma ligeireza traquina.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O FMI E OS MIGUELVASCONCELISTAS


Nem o complexo mediático-financeiro que domina a agenda económica mundial, ao dar conta de pressões da Alemanha e da França sobre Portugal, para que recorramos ao FMI, nem ele, citou factos novos que, mesmo à luz da maneira unilateral como encara o mundo, dessem alguma base racional objectiva a essas pressões.

Não esconderam, assim, que essas notícias tinham mais a ver com alegados receios indefinidos e com interesses especulativos exteriores a Portugal, do que com qualquer procedimento errado que atribuíssem ao governo português. A Alemanha e a União Europeia já desmentiram, aliás, formalmente, a existência dessas pressões.

Mas, apesar de essas inqualificáveis notícias sobre pressões externas não terem, assumidamnente, nada que ver com qualquer eventual actuação menos feliz atribuída ao Governo português, quer Passos Coelho, quer Paulo Portas, se apressaram a responder-lhes da pior maneira. De facto, não só guardaram um vergonhoso e ronronante silêncio, próprio de mansos bichanos, em face das pressões noticiadas, mas também atacaram sôfrega e ferozmente o actual Governo, afirmando que, se viesse o FMI, ele não podia continuar.

Isto é, Portugal e o seu actual governo são vítimas de pressões e ameaças ilegítimas, lesivas do interesse e da soberania nacional, perpetradas por centros de poder estrangeiros. As oposições de direita apoiantes da Cavaco, em vez de levantarem a sua voz contra os poderes fácticos estrangeiros que nos agrediram, tiveram o despudor de se associarem a essa agressão. E associaram-se a ela na medida em que encararam o actual Governo, não como uma das vítimas, mas como o causador da alegada vinda do FMI que assim indirectamente branqueiam e legitimam. E, nessa medida, alegam que um Governo do PS não teria condições para continuar no Governo se essa ameaça se viesse a consumar.

É estranho que os mesmo agentes políticos que enchem a boca com a palavra Pátria e a cada momento ostentam uma enorme portugalidade, se comportem na prática, em momentos cruciais, de modo idêntico ao assumido por qualquer miguel de vasconcelos que existisse nos nossos dias.

É estranho e não deixa de ser vergonhoso.

sábado, 6 de novembro de 2010

AINDA A CRIMINALIZAÇÃO DA POLÍTICA


1. O Horta Pinto, velho amigo que tem a amabilidade de fazer com frequência comentários neste blog, num que fez ao texto que aqui escrevi sobre a estranha concepção de Passos Coelho quanto à mistura da justiça com a política, deu a conhecer um dos seus mestres, o Delegado Palma, Presidente do Sindicato dos Mag. do Min. Público, velejador confesso e alegado latifundiário alentejano, que teve que desmentir Ângelo Correia, quando este o identificou publicamente como militante alentejano do PSD.


O texto é um arrazoado onde são visíveis as marcas de um pensamento reaccionário, que termina com a pérola seguinte: "É urgente que a democracia se salve e fortaleça, invertendo o rumo de descrédito acentuado, e se evite o recurso a homens providenciais. São necessários novos mecanismos de responsabilização dos titulares de cargos públicos. A começar pelos membros do Governo. Se o Primeiro-ministro e o Ministro das Finanças são pródigos nos gastos públicos, se fazem uma gestão ruinosa do país e dos impostos pagos pelos portugueses, concebe-se que continuem civil e criminalmente impunes? ".


2. Sem querer, o homem revela o cerne da sua posição ideológica, ao considerar como um recurso cogitável, para resolver problemas criados em democracia, o poder de um homem providencial, aliás um eufemismo para designar a imposição de uma ditadura. Subliminarmente paira aqui um dos fantasmas mais reaccionários da direita : os desgraçados ditadores são uns pobres sacrificados que só têm que ser ditadores porque as malvadas das democracias criam problemas que só se podem resolver em ditadura.


Nesse mesmo registo, o Delegado Palma sustenta a responsabilização criminal e civil de um órgão de soberania , cuja legitimidade democrática se radica nos deputados eleitos pelos portugueses, aos quais cabe em última instância julgar o mérito das políticas praticadas e sancionar com o seu voto o que lhes parecer mal. Um ex-Secretário -Geral de um Sindicato para cuja presidência foi eleito numa lista sem concorrentes por uns imensos 426 votos, dotado dessa enorme representatividade corporativa, arvora-se assim em distribuidor de receitas de duvidoso carácter democrático. Não é a primeira vez que a figura se esmera em afirmações de agressão trauliteira ao governo democrático, estando, pela tacanhez de algumas delas, a sua credibilidade abaixo de zero. No entanto, é chocante que um Sindicato dos Magistrados do Ministério Público tenha à sua frente sem oposição uma figura com uma marca ideológica tão reaccionária e com uma ausência de senso tão profunda. Aos deputados e aos governos, no máximo só temos que os suportar quatro anos se partilharmos uma eventual rejeição com a maioria do eleitorado, mas ao Delegado Palma do Minstério Público, que nenhum de nós escolheu somos obrigados a suportá-lo nessa função toda a vida. E, ainda por cima, o referido agente do MP usa um megafone sindical para expressar os seus juízos políticos pessoais contra o actual Governo e o PS. Megafone esse, que aliás só lhe foi dado, porque o Partido que apoia o Governo que ele tão visceralmente odeia, reconheceu aos magistrados do MP o direito de disporem de sindicatos.


3. Mostrando que o que já hoje escrevi sobre Passos Coelho não é uma trovoada sobre um erro fortuito de um líder inexperiente, a referida figura já hoje insistiu na mesma tecla da criminalização da política.


Tudo isto, talvez possa a ajudar a esquerda a compreender que há uma direita histórica que existe e se mantém latente com saudades dos bons velhos tempos. E os seus bons velhos tempos são tempos de pesadelo, para todos nós. Por isso, embora ache natural e até positivo o debate político entre as esquerdas, quando sustentem posições distintas, acho suicida para todas elas que não aprendam a distinguir entre o confronto entre a esquerda e a direita e os confrontos dentro da esquerda. De facto, o cúmulo do fracasso estratégico, de qualquer linha política de cada uma das esquerdas, é a sua conversão em instrumento utilizável pela direita, para se beneficiar a si própria.

JUSTIÇA DE PASSOS


Diz a comunicação social, com grande estrondo, que Passos Coelho exigiu ontem à noite que fossem responsabilizados civil e criminalmente os decisores políticos cujo exercício conduzisse a maus resultados. Sem prejuízo de essa afirmação poder ser entendida como não se circunscrevendo apenas a eles, deixaria de fazer sentido se não os abrangesse.
Também não faria sentido que se trovejasse com tanta pompa em defesa do que é uma banalidade em qualquer Estado de Direito: todos os cidadãos que cometam crimes ou incorram em ilegalidades, mesmo que sejam políticos designados democrática e legitimamente, ficam sujeitos às sanções previamente cominadas para o respectivo tipo de infracções.

Portanto, Passos Coelho só pode ter querido defender a criminalização e a responsabilização civil por actos políticos. Talvez, num plano subjectivo, apenas tivesse querido sublinhar a crença sem limites que tem na infalibilidade das suas ideias e das suas propostas e o repúdio visceral que lhe merecem as ideias dos outros, em especial as do actual governo. Talvez tenha apenas querido dar mais uma pincelada na sua imagem de político com sangue na guelra; ou excitado pelo ruído dos talheres dos militantes laranja, atacando ferozmente o lombo assado, tivesse subido um pouco alto demais na parede da sua imaginação. Não importa. Se foi fruto de reflexão o tipo de ferocidade demonstrado é significativo, mas se apenas reflectiu, num automatismo de circunstância, as camadas profundas das opções políticas de Passos Coelho, também não deixa de o ser.


E o que se projecta dessas camadas profundas da ideologia “passista” carece do mínimo de salubridade democrática. Se o adversário político não é apenas alguém que está errado, que representa preferências políticas diferentes das nossas, que exprime interesses sociais radicados em posições distintas no seio da pirâmide social, passando a ser um prevaricador, um criminoso que é preciso castigar, isso só pode significar que está de regresso o modo totalitário de olhar para a política. Numa lógica idêntica, outros, nos seu tempo, transformaram os seus adversários em traidores à Pátria, perseguindo-os; outros consideraram que quem fosse seu adversário só podia estar louco e meteram-nos em manicómios. Pela nossa parte, vivemos em Portugal, uma boa parte do século XX, sob um regime que olhava para os seus opositores como criminosos. Era então que se falava em crimes políticos, que afinal eram apenas comportamentos que reflectiam opiniões políticas distintas das que o salazarismo considerava como as únicas verdadeiras e legítimas, as suas.


É esta a genealogia das posições assumidas por Passos Coelho. Podemos pois, parafraseando com alguma liberdade um clássico da nossa literatura, dizer quanto a elas: “ sob o manto estéril do neoliberalismo, no plano económico, o rigor forte do autoritarismo, no plano político”.


A direita portuguesa não esquece nem desiste. Sob a camada de um verniz democrático, mesmo que para muitos psicologicamente sincero no plano individual, nas camadas ideológicas mais profundas continua estruturalmente em hibernação a permanente saudade dos tempos em que conduzia o poder sem o incómodo da democracia.
Foi isso que Passos Coelho revelou, mostrando também que, mesmo que possa ser um perigoso predador no plano superficial do teatro político-mediático, no plano mais fundo da sua estrutura ideológico-política, não passa ainda de um garnisé.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Uma direita de coragem !


O Coelho, alegadamente bravo, há meses colocado num dos altares políticos da direita portuguesa, discursou num episódio de verão ocorrido recentemente no sul do país, com o máximo de energia que, com realismo, se lhe pode exigir.

O partido que lidera pode constitucionalmente diligenciar no sentido de derrubar o actual Governo, sem que este e o partido que o sustenta possam fazer nada para o evitar, desde que assegure para isso o apoio de toda a oposição.

O Presidente da República, aliás apoiado pelo partido de Coelho do qual é oriundo, até 9 de Setembro próximo, desde que verificados certos pressupostos que lhe compete a ele sopesar, pode dissolver a Assembleia da República, provocando novas eleições.

O referido Coelho, usando a gastíssima alegação de que o Governo não governa, parece achar positivo que se façam novas eleições, que ele julga que o levariam ao poder.

Prometeu, ele em coerência, fazer o PSD agir nesse sentido? Apelou ele ao “seu” Presidente da República para tomar as providências necessárias? Nada disso. A corajosa criatura limitou-se a desafiar o Governo a que se demitisse ele próprio.

Numa primeira análise, a proposta é um disparate político, envolvida no ridículo de exprimir uma exigência aos seus adversários, para que façam a si próprios o que o destemido Coelho não se sente capaz de lhes fazer. Se formos um pouco mais fundo, no entanto, é também uma proposta sintomática: de facto, Coelho sabe que a coragem política não abunda nas suas hostes, nem circunstancialmente no ânimo do seu Presidente, pelo que espontâneamente pressupôs a sua existência num dos sítios onde sabe que ela existe, o actual Governo e o partido que o apoia.

Pode discutir-se a motivação substancial da proposta, que aliás, me parece em contradição, quer com a valorização da estabilidade institucional numa conjuntura económica áspera, quer com algumas posições políticas do próprio Coelho, tomadas há uns meses a esta parte. Mas o que ela reflecte estruturalmente é o que acabo de dizer: o máximo de coragem política que Passos Coelho reconhece como existindo no seu próprio campo é a de exigir ao PS e ao Governo que façam contra si próprios aquilo que o PSD não é capaz de lhes fazer.

sábado, 10 de julho de 2010

Coelho sim, mas de Vasconcelos


Os Filipes só estenderam sobre nós o manto de Castela, roubando-nos a primavera durante longos sessenta anos, porque alguns portugueses com poderes e riqueza se acolheram como tapetes de indignidade à sua sombra.

Outros se levantaram, contudo, em 1 de Dezembro de 1640, abrindo de novo as portas do vento. E os portugueses isolados no canto da Europa, cercados pelo império desse tempo, pagaram pela sua independência o alto preço de uma guerra que durou vinte e oito anos. Na medida em que viram reconhecida a sua independência, venceram-na.

No lado negro da história portuguesa, um nome sobreviveu desde então como eco de todas as traições: Miguel de Vasconcelos. Há mais de trezentos anos que, uma e outra vez, um dia após outro, muitos portugueses o arremessam das varandas das suas memórias para as ruas de uma indignidade sempre renascida. Com ele mereceriam também descer os que cultivam entre nós jardins estrangeiros, os confiscadores da liberdade, os vampiros da desigualdade. Mas nem sempre descem, aproveitando a nossa distracção ou o cansaço das nossas memórias. Miguel de Vasconcelos não. Desse não nos esquecemos: todos os dias o arremessamos pela janela do nosso modo de sermos portugueses.

A comunicação social deixou escapar que Pedro Passos Coelho foi oferecer-se em Madrid para que os fantasmas dos Filipes o pudessem tomar como tapete e caminhassem sobre ele as saudades do império perdido. Ficou assim claro que esse artefacto subtil da imaginação mediática, que os poderosos querem sentar em Lisboa na ambicionada cadeira, para que possam continuar a sê-lo com tranquilidade, não é feito do precioso cristal que apregoam, mas afinal do vidro mais comum.

Não há entre nós uma Ordem dos Filipes e Castela, para com ela podermos condecorar como grande-oficial o referido Coelho, como recordação da sua untuosa viagem a Madrid. Mas sempre poderemos presenteá-lo com um acréscimo de nome, continuando a considerá-lo como Coelho, mas agora de Vasconcelos.

sábado, 10 de abril de 2010

Saída da cartola: uma corporação de notáveis


Passos é um especialista em tirar coelhos da cartola. Convencido de que inventou a roda, deixou cair, como uma bênção no regaço dos atónitos congressistas, o discreto charme de uma proposta alegadamente luminosa.

Um Conselho Superior da República iria fiscalizar actos dos governos. Antigos presidentes disto e daquilo, muitos dos quais nunca antes eleitos por sufrágio universal dos cidadãos eleitores para coisa nenhuma, iriam fiscalizar actos de um órgão político, cujo poder resulta dos deputados eleitos pelo povo.

Uma espécie de antiga câmara corporativa de antes do 25 de Abril a substituir-se aos deputados eleitos. Verdadeiramente paradigmático, para nos mostrar que o referido Coelho, por detrás da sua fachada radicalmente neo-liberal, abriga afinal, como estrutura profunda do seu pensamento, o velho corporativismo que deus haja.

O novo chefe, que nem a actual crise demoveu de uma agenda perigosamente conservadora, no seu fundamentalismo neo-liberal, limou matreiramente as arestas mais assustadoras do seu discurso, num esforço de atenuação do seu potencial para espantar os eleitores menos distraídos. Mas não soube, no fundo de si próprio, distinguir as suas crenças mais apresentáveis das que exprimem cruamente um reaccionarismo político-ideológico claro. Ou então, ter-se-á deixado guiar por algum dos radicais de direita, que já se anunciam como integrando o Olimpo do novo poder laranja.