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segunda-feira, 11 de julho de 2011

A DIREITA PASSOU-SE !

A direita passou-se. Doutores e engenheiros, empreendedores e seus colaboradores, escribas das mais variadas extracções, verdadeiras e falsas marquesas, comendadores e artistas de verbo ágil, jornalistas e donos de jornais, alguns frades e um pouco de cardeais, três curas de aldeia e um verdadeiro bispo, um ex-primeiro ministro e o Presidente da República, todos se erguerem num relâmpago de patriotismo, para bombardearem ferozmente com uma chuva de impropérios as agências de "rating"que ousaram enxovalhar-nos chamando-nos lixo. E logo agora, que o pupilo do senhor engenheiro está ao leme de um governo impecável, de uma direita legítima , integrada no PPE como mandam os cânones do pensamento afunilado.


Aplaudi. Há meses e meses que aqui tenho escrito textos nesse mesmo sentido, pelo que só posso aplaudir e aplaudir. Mas confesso que me surpreendi, já que as mesmas criaturas, que agora tanto gritam, quando o governo era do PS, perante cachorradas idênticas, praticadas pelas mesmas "ratinzanas", apontaram o dedo a Sócrates como causa única de todos os males, absolvendo assim ronronantemente as agência de "rating"que agora vituperam. Enfim, mais vale tarde do que nunca...


É certo que se ficou a ver que afinal todo o alarido, todos os insultos lançados contra o anterior governo do PS, eram uma campanha de agressões gratuitas , lançada por essa mesma gente, agora tão nervosa. E das duas uma : ou eles sabiam que estavam a atacar quem realmente não era o culpado principal pelo agravamento da crise; ou enganaram-se, atacando, como se fosse o principal culpado, quem hoje se vê com clareza que não o era.


Se agiram com má fé falta-lhes a ética que os tornaria críveis; se agiram por erro, carecem da capacidade que os tornaria críveis. De uma maneira ou de outra, à luz do que deveria ser um desígnio português e europeu de dignidade, liberdade e justiça para todos, estamos perante aves de fraco voo, mais próximas dos frangos de aviário do que das águias, estamos perante verdadeiros amanuenses de uma política com letra pequena, aprisionada na teia das conveniências pequenas, das ideias anquilosadas , do conservadorismo pé-ante-pé. Estamos perante as velhas sombras da direita portuguesa e europeia, melífluas e desleais, hipócritas e parciais, pusilânimes e perigosas.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O CLUBE DOS HOMENS ASSUSTADOS

-Meninos, saiam já debaixo da mesa.

- Pedrinho! Vitinho! Alvaríssimo ! Não se assustem. É só uma agência de rating.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

AS MALFEITORAS DO RATING E O DILEMA

Esta última malfeitoria de uma das "malfeitoras do rating", apresentada publicamente com a mesma ligeireza com que um borda-de-água de trazer por casa diria ", amanhã vai chover", reveste-se de uma singular exemplaridade.


De facto, desde a direita mais institucional , com os seus partidos à frente, até aos mercenários bem falantes dos poderes fácticos e aos economistas pernósticos estrangulados em números preconceituosamente seleccionados, todos com maior ou menor habilidade, aquando das "malfeitoras do rating", praticadas na vigência do governo do PS, com menor ou maior subtileza, diziam ou davam a entender que a culpa das agressões que estávamos a sofrer era apenas de um governo exangue e sem credibilidade, sem o prestígio suficiente para conquistar o apreço dos senhores mercados. E permitiam-se até deixar fugir uma leve sugestão de que numa Europa regida pelo PPE só os seus braços portugueses ( ou seja, a direita, através do PSD e do CDS) reuniam condições para verdadeiramente serem acolhidos com carinho pelos irmãos de Berlim, Paris e Bruxelas.


E as eleições legislativas foram abordadas nesse registo de alarme. Se o PS fosse o partido mais votado, seria um desastre. E o PS não foi o partido mais votado. Se a direita não tivesse maioria absoluta, seria um desastre. E a direita teve maioria absoluta. Se a direita se não entendesse facilmente para formar um Governo, seria um desastre. E a direita entendeu-se facilmente para formar governo. E mais do que isso, movida pelo narcisismo de quem se sente seduzida por si própria, a direita resolveu prestar vassalagem à "troika" da maneira mais solícita que julgou haver : seguir a lógica da "troika" para ir além dela; ser submissa perante ela, excedendo-a.


E quando o afilhado do Sr. Engº Angelo Correia, rodeado dos seus engomados ministros e das suas escassas ministras, se aprestava a receber os doces agradecimentos e aplausos da finaça internacional, calorosa no apoio à prestação dos seus intérpretes, eis que uma "malfeitora do rating" rompe com tudo o que era esperado e zás: assesta mais um golpe na economia portuguesa, mordendo-a com ligeireza e ferocidade. As matilhas elogiosas que têm vindo a rodear o novo poder passaram por um arrepio de receio. O Pedro, o Miguel, o Vítor e o Álvaro, olharam-se como jovens a quem roubaram um berlinde. O oráculo de Belém murmurou uma frase enigmática. Os periquitos telivisivos de serviço ficaram entupidos.


Um dilema novo instalou-se irremovivelmente no nosso quotidiano: ou o nosso governo, de uma direita previsível, neoliberal e engomada, é considerado pelos seus congéneres europeus e pelos expoentes da finança internacional, uma circunstância irrelevante; ou a causa dos ataques, que vinham sendo desferidos contra Portugal na vigência do governo anterior, não estava nesse governo, mas nos instintos predatórios das "malfeitoras do rating" e dos seus aliados.

domingo, 2 de maio de 2010

As hienas de "rating"

As agências de "rating" desempenharam um papel de claro agravamento, quanto ao modo e ao grau como as consequências da crise do capitalismo mundial se têm feito sentir sobre a Grécia. Disso, hoje, ninguém duvida.

Também parece claro que o risco de se fazerem sentir esses efeitos com intensidade semelhante, em países como Espanha, Irlanda, Portugal, além de outros, deriva, quase por completo, de se admitir que essas agências se venham a comportar para com esses países como se comportaram com a Grécia. Aliás, elas deram já nesse sentido os primeiros passos.

Elas podem ter agido por simples incompetência, podem ter actuado sob o impulso de preconceitos ideológicos ou, simplesmente, como agentes participantes em complexos processos de fraude, planeados e concertados em articulação com os seus beneficiários. Mas essas manobras fraudulentas, ou simplesmente levianas, vieram a repercutir-se na vida de milhões de pessoas, de muitas e muitas empresas, de vários países.
Por fraudes menos graves e por serem causadores de um leque de infelicidades muito mais modesto, são julgadas e condenadas, todos os dias, em todo o mundo, pessoas e responsabilizadas organizações. Como aspecto normal da vida das instâncias políticas democráticas, em muitos casos, os resultados eleitorais penalizaram fortemente forças partidárias responsáveis por erros e prejuízos muito menores do que aqueles que foram causados pelas referidas agências.


E, no entanto, ninguém parece disposto a incomodá-las, acontecendo até que a superfície mais ostensiva de muitos discursos políticos oficiais deixa transparecer com frequência, implicitamente, a quase completa absolvição das agências de "rating", pela sua participação fraudulenta na crise. Pelo contrário, ao mesmo tempo, parece condenar exclusivamente um, outro e outro povo, pelas políticas que foram seguidas pelos respectivos governos. Isto, apesar de, na grande maioria dos casos, esses governos terem estado, no essencial, em consonância com as principais recomendações das instâncias internacionais públicas de controle económico. Instâncias que, aliás, hoje mais ou menos claramente, parecem querer admoestá-los. Tudo isto sem falar no ridículo que é o de se dizer que o país A ou B vive, viveu ou quer viver, acima das suas possibilidades, como se em todos eles não houvesse ricos nem pobres, mas apenas uma hipotética seara de pessoas iguais. E sem falar no escândalo de, para corrigir o país "gastador", se pretender cortar no pouco pão dos que têm menos, deixando-se à solta o desperdício dos que têm demais.

Aliás,em consonância com esses cínicos acordes de um ressequido neoliberalismo, pelo menos em Portugal, alguns políticos de direita, e um ou outro fazedor de opinião, tiveram a desfaçatez de culpar o nosso país, por ter ficado na mira das agências de "rating". Como se a possível fraqueza de uma vítima alguma vez deva ser passível de uma qualquer censura em detrimento da que há-de naturalmente resultar da culpa visível, ostensiva e grosseira do respectivo agressor.

Tudo isto vem a propósito de um esclarecedor texto da autoria da jornalista Pilar Blásquez, publicado ontem, pelo jornal espanhol "Público", intitulado "El castigo a las agencias de 'rating' sigue sin llegar". É esse texto que se transcreve de seguida, para informação dos interessados.

"No detectaron que Lehman Brothers estaba al borde de la quiebra, ni siquiera un día antes de aquel terrible suceso. El fraude de Madoff también se les escapó y fueron agentes activos en la construcción de las innumerables hipotecas basura que hundieron la economía mundial. Todos estos motivos son más que suficiente justificación para que las agencias de calificación de riesgo, Standard & Poor's, Fitch y Moody's se hayan convertido en las malas de la película financiera. Un argumento que nadie discute. Lo que no parece tan fácil de entender es por qué casi dos años después de la caída de Lehman, cada palabra suya sigue sonando a ley divina en los mercados financieros.
Tras el estallido de la burbuja de las subprime, todos pusieron el grito en cielo ante sus aberrantes prácticas. "Hay que acabar con esta tiranía", se dijo en la reunión del G-20, a final de 2008 en Washington. La ley americana que prevé un mayor control de estas empresas y la exigencias de publicar los estudios de riesgo de cada una de las operaciones quedó en el fondo del cajón desde entonces. Obama estaba más interesado en centrase en la reforma sanitaria, que le iba a reportar más votos, aunque ahora parece que va a retomar el tema.
La UE tiene una ley, pero no entrará en vigor hasta diciembre
A este lado del Atlántico, el esfuerzo por controlarlas ha llegado algo más lejos. Sobre el papel, porque en la práctica su reinado sigue intocable. La Comisión Europea tiene diseñada una nueva legislación que las obligará a sacar a luz su particular fórmula de la CocaCola. Es decir, qué criterios utilizan para calcular sus notas. También se les pedirá, entre otras cosas, la lista de sus clientes para controlar incompatibilidades. Además, se prevé que la CESR (la CNMV europea) controle su actividad. El problema es que, incomprensiblemente, la aplicación de esa ley no está prevista hasta diciembre de 2010.
"Si esta nueva normativa ya estuviera en marcha, la operativa de las agencias de rating sobre la deuda griega y el resto de países de estos últimos meses habría sido más moderada", han denunciado fuentes de Unión Europea. Pero no lo está y las continuas rebajas de rating a Grecia y sus bancos, a España, a Portugal... han alimentado el hambre feroz de los especuladores contra estos países.
Los principales escollos con los que se está topando la regulación, más allá del lobby financiero, es la falta de acuerdo de los expertos. Frente a los que abogan por una nueva regulación, están los que piden simplemente más control para que se apliquen las normas que ya existen, pero para esto se necesita mucho más personal y no parece haberlo.
Entre 2000 y 2007 las agencias aumentaron un 53% sus márgenes
En cualquier caso, conviene recordar que el poder casi divino de las agencias se lo otorgó hace décadas la Reserva Federal de EEUU y, más tarde, el resto de bancos centrales del mundo. Estas autoridades decidieron que para realizar transacciones en el mercado de crédito era necesario acreditar la calificación de estas empresas privadas, hasta entonces sin demasiado negocio.
La cumbre del éxito llegó con el último boom inmobliario y el negocio de las aseguradoras. Si antes del 2000 ningún cliente aportaba más del 1% de los ingresos, en esos años el negocio se concentró en las siete mayores aseguradoras del mundo. Entre 2000 y 2007, el margen del negocio de estas agencias se incrementó un 53%, cuando en el mismo período, Microsoft creció un 36%.
La connivencia entre el sector financiero y las agencias a la hora de diseñar las complicadas estructuras financieras de las hipotecas subprime parece cada vez más cerca de desenmascararse. Primero, porque el pasado 23 de abril, la comisión del Senado de EEUU que investiga la crisis, retomó el tema y, sobre todo, porque las demandas privadas por fraude contra las agencias de calificación se están disparando en aquel país. "

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Para uma desratingação do mundo

O papel das agências de rating, na crise económica que o mundo atravessa, está por apurar na sua dimensão completa. Mas o que até agora é dado como adquirido, já é suficiente para lhes retirar qualquer sombra de credibilidade como aferidoras seja lá do que for, no plano económico.

Verdadeiramente, uma das primeiras medidas de combate à actual crise devia ter sido a sua pura e simples extinção, para poderem ser substituídas por um organismo novo dependente das Nações Unidas, que realmente fosse uma fonte informativa, objectiva e imparcial, sobre a realidade económica de cada país. Ou seja, uma instância realmente imparcial, fiável e movida por critérios científicos, radicados num indispensável pluralismo científico em matéria económica. Nunca uma expressão paradigmática do pensamento neoliberal dominante, de cuja eficácia na própria reprodução do capitalismo se pode duvidar. Uma ilustração da própria deriva neoliberal, um subproduto da sofreguidão lucrativista empenhada, essencialmente, na conquista de lucros cada vez mais especulativos para os seus accionistas, ou seja, a reprodução daquilo que as malfadadas “três irmãs” do rating tão eloquentemente representam.

E, no entanto, ei-las que voltam distribuindo conselhos e anátemas, passando certidões de excelência e de fracasso, como se um qualquer concílio dos deuses as tivesse ungido, dessa extrema sabedoria e dessa honesta imparcialidade, que as legitimam para condenarem países e povos a dificuldades acrescidas ou a primaveras inesperadas. Uma canhestrice dos seus sábios, uma perversidade calculada dos seus donos, um desvio atraído por qualquer recompensa, podem atirar com dificuldades ou com oxigénio, para cima de países com milhões de cidadãos que não votaram nos senhores do rating, nem os podem controlar, nem demitir, nem têm como não votar neles numa próxima vez.

E num dia, tais senhores, podem causar mais prejuízos a um país, com os seus eventuais erros, com os seus preconceitos ideológicos, com os seus anátemas teleguiados pela vulgata neoliberal, do que séculos de pirataria conseguiram pela força dos canhões e da falta de escrúpulos dos corsários. Mas os piratas, quando eram apanhados corriam o risco de ser enforcados, enquanto os "ratings" têm a possibilidade de contemplar como se fossem seus vassalos, ajoelhando-se perante eles numa submissão de preces, muitos daqueles que mergulharam na desgraça, mas que temerosamente , lhes fazem encomendas.

As agências de rating e o papel que se lhes continua a consentir na arena internacional são eventualmente a mais incontornável ilustração do modo como os poderes dominantes no mundo actual, se preparam para continuar a deixar o neoliberalismo à rédea solta, como se fosse uma fatalidade que o mundo não fosse mais do que uma oportunidade para que o poder inquestionado do dinheiro reduzisse á infelicidade as multidões de explorados.

Que os partidos da direita se acomodem com este escândalo, não estranho: fazem o seu papel de caniches do capital.

Mas que os partidos de esquerda, sejam eles partidos de governo ou partidos de oposição, pratiquem a mesma indulgência, é que me parece suicida. Nem o exacerbar das preocupações gestionárias de uns nem a sofreguidão no combate ao um governo de outros, podem absolver desta miopia política.

Não nos iludamos: os poderes incontrolados das agências de rating constituem um risco mais sério para muitos países do que uma invasão militar. Se não temos dúvidas quanto á necessidade de nos defendermos desta, porque nos desprotegemos perante aquelas ?