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terça-feira, 8 de junho de 2010

Manoel de Barros : a surpresa enquanto poesia


Para mim, desde que há já uns bons anos o descobri, qualquer coisa que diga respeito ao poeta brasileiro Manoel de Barros é fonte de interesse. É como se estivéssemos sempre à beira de encontrar algo de poeticamente misterioso, de subtilmente inusitado e estimulante. A simplicidade dos seus versos é de uma complexidade sem fronteiras, mas reflecte muitas vezes o olhar livre de uma criança que se perdesse no abismo das coisas mais comuns. As palavras dos seus poemas misturam-se cúmplices com a natureza, como se crecessem entre as árvores ou deslizassem sensualmente pela superfície das pedras.


Por isso, quando numa das minhas peregrinações pela blogosfera deparei com um entrevista feita a Manoel de Barros, pelo jornalista Ubiratan Brasil e publicada no Estado de S.Paulo, em 4.11.2009, logo achei que a deveria divulgar aqui no blog, mesmo tendo passado já vários meses sobre a data da sua publicação. Ela foi um dos Bilhetes Poéticos, através dos quais o referido jornalista se tem dirigido aos seus leitores. Eis a entrevista:


Com uma caligrafia caprichada e uma letra miúda, o poeta Manoel de Barros prepara à mão um novo livro que promete ser sua obra-prima, coroando os quase 93 anos de tranquila trajetória
A vitalidade do poeta Manoel de Barros é invejável. Próximo dos 93 anos (completa em dezembro-[ portanto, já os completou]) e apesar das dificuldades auditivas e de visão, ele escreve mais um livro. O teor ainda é um mistério mas, segundo sua primeira e mais fiel leitora, a mulher Stella, trata-se de sua obra-prima. "Manoel escreve à mão, como de hábito, com uma caligrafia muito particular", comenta Pascoal Soto, diretor editorial do Grupo Leya do Brasil, que contratou a obra do poeta mato-grossense - serão 17 títulos e esse inédito, a partir do próximo ano. "Quando recebo correspondência do Manoel, minha pulsação aumenta: são os originais de uma poesia inigualável."
De fato, como há muito trabalha na edição da obra do poeta, Soto acumulou um verdadeiro tesouro de papéis rabiscados com uma letra miúda e linhas caprichadas. Uma linguagem artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. Fazendeiro aposentado, Manoel de Barros tornou-se, com o passar dos anos, um cultor da palavra - leitor dos sermões do padre Vieira, hábito que o ensinou, ainda jovem, a admirar a formação e utilização das palavras, ele se habituou a consultar dicionários etimológicos quando criava seus versos simples mas recheado de encanto e fantasia.
O trabalho, atualmente, é mais moroso, visto o prejuízo físico provocado pela idade. Mas Manoel continua com a mente livre como a de uma criança, como mostra na seguinte entrevista, também concedida via bilhete.


O Manoel de Barros que surge da poesia não é o mesmo daquele pessoa física, em carne e osso. Quem é o verdadeiro Manoel de Barros?
Sim, somos dois. Um é biológico, outro é letral. Ambos somos verdadeiros. Um é de sangue. Outro é de palavras. O de sangue é comum: come, bebe água e até quebra copos. O ser letral gosta de fazer imagens pra confundir as palavras. E gosta de usar palavras pra destroncar as imagens. Tipo assim: eu vi um passarinho pousado no muro da tarde. As palavras servem para me enganar e para enganar os outros. Quem escreve sobre si mesmo procura sua própria glória, disse Cristo. Eu procuro. Não sei me pular.


O sentimento de pertencer a um mundo à parte faz bem ou mal aos escritores?
A mim só faz bem. Mas eu não fico em mundo à parte. Sou muito egoísta e narcisista. Meu mundo sou eu em carne e letras. Sou o que produzo e o que não consigo produzir. Sofro um pouco nessa parte de não poder produzir.


O senhor ainda considera seu primeiro livro, Poemas Concebidos Sem Pecado, o seu melhor? Por quê?
Penso que por ser o meu primogênito informei algum dia que o meu primeiro livro é o meu melhor livro. Acho que foi uma tirada de amor. Gosto do meu primeiro livro por que ele sabe mais da minha infância do que os outros.


A palavra está acima de tudo?
Eu tenho pela palavra a mesma fascinação que a lesma tem pelas pedras. E que os lagartos têm pela solidão das pedras.


As palavras são perigosas?
Pra mim todas são amáveis. Podem me trair, mas isso é do nosso mundo. A gente precisa se vigiar ao escrever. Não podemos, ao escrever, abandonar o canto, a harmonia letral, etc. Não podemos desprezar os gorjeios das palavras.


O senhor escreveu certa vez: "O artista é um erro da natureza." Existem erros perfeitos?
Os gênios são erros perfeitos da natureza. Botei como erro porque os outros somos nós.


O senhor sempre gostou de escrever à mão. A escrita é também aquilo com que se escreve?
Eu sou minha imaginação e meu lápis. Quando o lápis acerta um erro, ele percebe e grita por uma borracha. Visto que eu seja atrasado por não usar computador.

O escritor português António Lobo Antunes disse que sente dificuldade cada vez para escrever, pois ele teme desapontar os leitores que acreditam nele. O mesmo se passa com o senhor?
Acho normal que a gente queira aparecer como é.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jonas, o copromanta

Patrícia Melo, escritora brasileira actual que leio sempre com interesse, é a autora de um romance recentemente publicado, no Brasil e em Portugal, que ostenta o inusitado título de “Jonas, o Copromanta”.

Procurei, no dicionário de português de Cândido de Figueiredo, o significado de tão estranha palavra. Em vão, não consta. Pesquisei palavras próximas: coprologia, coprofagia.
Coprofagia – hábito de se alimentar de excrementos; aberração que leva a ingerir excrementos.
E mencionam-se depois: coprófago e coprofagia, como palavras próximas.
Coprologia – estudo das matérias fecais (do grego – kopros + logos).
E mencionam-se também: coprologia e coprológico.

Estamos, pois, perante um complexo vocabular pouco aprazível.

Os leitores de Rubem Fonseca talvez ainda se recordem do primeiro conto da colectânea “Secreções, excreções e desatinos” [Companhia das letras, 2001], cujo título é precisamente “Copromancia”. E dando-se ao trabalho de folhear o livro encontrarão este significativo começo, para esse conto: “Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado a sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?”

O sentido desta referência é o de dar sinal de uma homenagem peculiar prestada por Patrícia Melo a Rubem Fonseca, escritor que consabidamente ela muito admira. De facto, o romance “Jonas, o Copromanta” é uma verdadeira homenagem ao mencionado escritor brasileiro. Homenagem peculiar, uma vez que Rubem Fonseca é uma das personagens do romance, no qual entra precisamente como autor do conto referido, uma vez que o personagem central do romance de Patrícia Melo, Jonas entende que Rubem o plagiou.

De facto, o romance em causa começa precisamente com Jonas a dizer-nos:

“Aquilo não podia ser real.
Fechei o livro com a sensação de que algo sinistro estava acontecendo. Sei que é comum casos da vida imitando a arte e vice-versa, mas não de forma tão escabrosa. EU era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva, me reconheci com a maior facilidade naquelas páginas, perscrutando diariamente minhas fezes, intrigado com o possível significado das estranhas e múltiplas formas fecais boiando no vaso sanitário. Quem mais no mundo, além de mim, possuía um caderno de excrementos?”


E mais adiante Jonas procura avaliar os méritos de um de outro:

“ Excetuando o neologismo copromancia, nada traz de novo. Tudo no conto comprova o plágio. Mas devo admitir que o termo copromancia é bem superior ao meu neologismo djetosofia ( substantivo masculino, do latim dejectus, de dejectum +sofia, saber em grego), e por isso adotei-o sem nenhum cosntrangimento. Afinal, se o escritor roubou minha arte, por que eu não poderia surripiar-lhe uma simples palavra?”

Jonas irá sendo apanhado pela teia dessa sua obsessão: o plágio de Rubem Fonseca. Teia que se vai desenvolvendo através daquilo que Patrícia Melo construi como um empenhamento normal e corrente: a copromancia.

Aliás, a autora dá-se ao trabalho de polvilhar o texto com múltiplas ilustrações das formas assumidas pelas fezes de Jonas, formas através de cuja interpretação ele pratica a sua adivinhação do futuro.

Jonas, funcionário da biblioteca que Rubem Fonseca frequenta, vai-se entrelaçando com duas das suas colegas, até acabar parceiro de uma terceira mulher, ela também dada a artes de adivinhação e aberta até a partilhar com ele o seu estranho entusiasmo premonitório.

Jonas, feiticeiro desse novo esoterismo, vai deslizando para um quotidiano cada vez menos parecido com o plano pulsar dos dias que vinha sendo a sua vida e a dos outros parceiros de romance, sendo certo que o próprio Rubem Fonseca é esvaziado de qualquer colorido particular, funcionando afinal como pouco mais do que pólo da obsessão de Jonas.
É como se Patrícia Melo adoptasse uma atitude de plena naturalidade para lidar com o estranho, com o inusitado, funcionando Rubem Fonseca afinal como simples âncora de realidade e verosimilhança, ao mesmo tempo que é objecto de uma expressa homenagem. Homenagem que talvez vá até um pouco mais longe do que a superfície do texto sugere , na medida em que a autora trata o exótico rasteiro da copromancia com a naturalidade com que Rubem Fonseca deixa a violência invadir a sua ficção.

Neste livro, talvez Patrícia Melo não tenha atingido a força testemunhal e simbólica do seu “Inferno”, onde alguns chegaram a ver uma recriação moderna desses inesquecíveis “Capitães da Areia”, que Jorge Amado nos legou. Mas, seguramente, que evidenciou com mestria algumas das marcas dramáticas das grandes solidões amargas que se escondem, discretas, no cosmopolitismo impessoal e implacável das grandes cidades. E conseguiu isso, oferecendo ainda um simpático sorriso de homenagem a um escritor de quem gosta.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O Seminarista

Entre os ficcionistas actuais de língua portuguesa, há um pequeno grupo de escritores brasileiros que se situam entre os que mais admiro. Quatro deles publicaram novos romances recentemente: Rubem Fonseca, Patrícia Melo, João Ubaldo Ribeiro e Ana Miranda.
Comecemos pelo que coloco no topo: Rubem Fonseca. Desta vez, brindou-nos com "O Seminarista". Não é o seu melhor romance, mas não deixa de nos pegar pela garganta das emoções, atirando-nos à cara com a violência urbana das grandes cidades brasileiras, no seu estilo frio, solto, cortante. Como se a vida saísse directamente das suas palavras simples, dos seus diálogos vivos,para ser o nosso espanto.
Desta vez, um matador profissional, que em tempos fora seminarista, fala-nos descuidadamente da sua vida, da sua profissão. A degradação humana, a violência profissional, como banalidade do dia a dia, os labirintos sujos dos ricos, o ranço dos poderosos, passeiam indolentemente pelas páginas do romance. Um latim de ex-seminarista polvilha de um colorido irónico uma espécie de reportagem sobre uma máquina de violência que se vai reproduzindo e reinventando.
O seminarista, talvez cansado de inumanidade ensaia uma trajectória de saída , mas uma implacável inércia das rotinas da barbárie facilmente o recaptura. Sem reflectir a mestria narrativa de "Agosto", nem o insólito magnífico dos seus melhores contos, estamos talvez perante um romance médio do grande escritor brasileiro.

domingo, 27 de julho de 2008

Viva o Povo Brasileiro !


Li , na imprensa de hoje, que Saramago manifestou expressivo regozijo pela atribuição do Prémio Camões de 2008 ao escritor brasileiro João Ubaldo Ribeiro, tendo dito que lhe apetecia gritar: "Viva o Povo Brasileiro!"

Conhecendo os livros mais importantes do escritor brasileiro, adiro em pleno ao destaque que Saramago quis dar ao seu melhor romance. Quando já há um bom par de anos 0 li, senti-me agarrado por uma imensa energia, chegada com naturalidade dos confins da história e apta a projectar-se com ousadia no futuro. Depois dessa entusiasmante leitura, senti que conhecia melhor o Brasil e os brasileiros , tendo colocado na galeria dos escritores que mais admiro mais um autor brasileiro.
Curiosamente, não tinham então decorrido muitos anos sobre a leitura tardia de um outro grande romance de um escritor brasileiro: " O Tempo e o Vento", de Erico Veríssimo.
A comparação foi inevitável : dois livros como dois irmãos, mas muito diferentes um do outro. Ambos exprimindo, no entanto, dois demorados e calorosos olhares sobre o Brasil, sobre o Brasil vivido como história da construção de um povo, que não desiste de viver o futuro de todos os seus passados.
Para ma referir ao romance de João Ubaldo apetece-me usar a palavra "telúrico", especialmente, pensando na sua primeira parte.

Para falar no romance de Erico Veríssimo recorro a uma palavra que ele usou como título de um dos seus outros romances: "saga".

Depois de ter sido galardoado com este prémio o brasileiro Rubem Fonseca, nenhuma atribuição do Prémio Camões me provocou maior regozijo do que esta. Principalmente, pensando no grande romance: "Viva o Povo Brasileiro!".