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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

ILUMINADOS E PERIGOSOS


Os arautos de teorias de salvação nacional proliferam. Alguns podem até ser, psicologicamente, democratas sinceros, mas todos têm uma estrutura de pensamento marcada pelas suas origens, como apaniguados mais ou menos discretos ou simples pajens do velho salazarismo.

Por isso, têm tanta destreza a desenhar cenários aparentemente diversificados, mas onde se surpreende sempre um denominador comum: alguém por acto de vontade própria, de preferência um sujeito providencial, mas podendo ser um poder de facto instituído internacionalmente, sem a preocupação de se basear no seu consentimento democrático, virá dizer aos portugueses o que têm que fazer, distribuindo entre eles arbitrariamente sacrifícios e proveitos.

Ignoram assumidamente as diferenças ideológicas, quando se propõem impor a sua vontade, fingindo não perceber que mesmo isso já reflecte, por si só, uma opção ideológica específica. E, claro: dispensam-se inexplicavelmente de esclarecer por que razão se julgam infalíveis e pensam que os outros estão totalmente errados, até ao ponto de lhes poderem impor o seu caminho.

Uns desembainham um futuro Cavaco de hipotético segundo mandato, finalmente em condições de ser igual a si próprio, gélido e autoritário, preparando-se para salvar os portugueses de si próprios, não hesitando para isso em vestir a pele sombria de um salazar do século XXI.

Outros, mais modernizados, limitam-se a ansiar por um impessoal FMI que desagúe implacavelmente em Portugal , armado pela alegada objectividade do que lhe terão dito os seus números, talvez para virem repetir entre nós mais um dos seus recorrentes erros causadores de desastres.

Uns e outros, sozinhos ou misturados, armados pela fé da direita de sempre ou crédulos na imensidão da sua escassa ciência, por mais que se revistam de palavras mansas e vaticínios amargos, descontada a sua melíflua generosidade de superfície, quando exista, trilham afinal o mesmo caminho em que o fantasma de salazar insiste, aprisionado no seu providencialismo autoritário e cego pela novidade de um século que apenas começou.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Apanhados ou ofendidos?



Divulguei o texto acima reproduzido no Grande Zoo, no passado dia 17 de Setembro, tendo sublinhado, no respectivo comentário, que ele reflecte uma posição ideológica da qual se aproximam as posições de Manuela Ferreira Leite.

Foi este mesmo texto que José Junqueiro leu no Comício do PS, realizado ontem em Viseu. Não sei se quem mo enviou também o enviou a ele, ou se o conheceu a partir do meu blog. O que sei é que a reacção de fingida indignação do PSD, ao que se passou em Viseu, subentendendo que JJ conotou MFL expressa e directamente com o salazarismo, ou é precipitada ou é uma simples cortina de fumo para esconder um real embaraço.

De facto, como a Televisão mostrou, JJunqueiro leu o texto de Salazar sem dizer quem era o seu autor. Os participantes no Comício julgaram que ele era um texto de MFL e apuparam-no. Foi então que JJ revelou que, ao contrário do que pareceram julgar, o texto não fora escrito ou dito por MFl, já que fora escrito em 1928, não se lembrando ele quem era então o chefe de governo seu autor.

Ou seja, tendo sido lido um texto de Salazar, escrito em 1928, os participantes no comício do PS, espontaneamente identificaram-no como sendo de autoria da actual leader do PSD. Aliás, qualquer leitor encontrará óbvia proximidadee entre o texto de Salazar e vários aspectos do discurso de MFL. Esta realidade é incontornável e objectiva, não traduzindo nenhuma imputação caluniosa a MFL. Revela uma das raízes ideológicas do seu discurso, através de uma evidência objectiva.

É pois despropositado dizer-se que JJ tenha afirmado ou sugerido que uma vitória do PSD representaria o regresso ao salazarismo. Não o disse, pelo que não faz qualquer sentido lutar-se contra o que ele não disse.

De facto, o que está em causa é a evidência de uma deriva direitista do discurso de MFL e da sua pobreza ideológica, bem como da inconsistência da sua cultura política e do conservadorismo da sua atitude ideológica, cujo código genético assim se revela.