terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fábula Cansada





Fábula Cansada

A esquerda atravessa o rio,
um sapo sob um lacrau.

O lacrau para ser lacrau
só pode sempre morder.

O sapo vai afundar-se
vencido pelo veneno?

O lacrau vai afogar-se
porque não pode nadar?

Que importa, clama o sapo,
este  caminho é o meu.

Que importa, diz o lacrau,
antes ser eu e morrer
do que pensar e viver.

Com o sapo e o lacrau
muito povo vai morrer.

Pergunto sem ironia,
não era melhor chegar?
             
                              [Rui Namorado]

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”




“Uma outra economia, uma outra vida. Um ir além do tipo de economia em que vivemos. Sair do capitalismo para se sobreviver como humanidade. Não estamos perante sonhos de nefelibatas ou perante uma radicalidade utópica de ressonância extremista. Estamos perante uma emergência antropológica que não é apenas a tonalidade necessária a qualquer política de esquerda, é uma condição de sobrevivência da humanidade. Também nos convoca para essa urgência o desarmado Chefe de Estado do Vaticano.”

Há alguns dias, escrevi no FB o parágrafo que acima reproduzo, como introdução à partilha de um artigo da autoria do jornalista Carlos Drummond, divulgado na página virtual da importante revista brasileira de grande circulação “CartaCapital”, em 9 de dezembro.

O artigo comenta uma iniciativa do Papa Francisco que irá decorrer em Itália no próximo mês de março. É estranho que a justificada atenção que a nossa grande comunicação social presta ao Papa tenha deixado passar em branco uma informação tão relevante. Estranho, mas compreensível. Basta ler o artigo. O poder mediático dominante, embora procure disfarçá-lo, ainda não aprendeu a digerir por completo este Papa.

O artigo tem como título: Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”. Ei-lo:

“Estruturada com o auxílio do americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Nobel
Mais de 2 mil jovens de 120 países confirmaram até agora a participação no encontro Economia de Francisco, de 26 a 28 de março de 2020 na cidade de Assis, Itália. Convocada pelo papa e estruturada com o auxílio do economista americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Prêmio Nobel. A reunião pretende repensar, debater e buscar novos rumos para a economia mundial, hoje dedicada de modo quase exclusivo aos interesses de maximização dos lucros de empresas e de poucos indivíduos, de modo a direcioná-la para a proteção da maioria e do meio ambiente. As atividades preparatórias no Brasil incluíram um encontro com cerca de 500 interessados no fim de novembro, na PUC de São Paulo. O País terá 30 representantes vinculados a diferentes experiências.
Inovador no conteúdo e no formato, o encontro pretende debater experiências e promover rodas de conversa em substituição às tradicionais exposições de papers e mesas-redondas. A liderança caberá a jovens de até 35 anos, entre acadêmicos, agentes comunitários e empreendedores. A iniciativa floresceu em maio, quando o papa e Stiglitz comprometeram-se a trabalhar em conjunto para promover globalmente uma “economia social” que “olha para o futuro com a voz dos jovens em mente”.
Os dois advertiram sobre os problemas de certas formas de economia de mercado que incentivam o comportamento individualista e invertem papéis. “É necessário aprofundar as discussões sobre questões sociais e as mudanças geradas pela globalização nas sociedades, bem como pensar em ideias concretas sobre o que devemos fazer para a tecnologia e os mercados servirem à humanidade, e não o contrário”, propôs Stiglitz. É fundamental, alertou, “trabalhar na educação de sistemas alternativos que não adoram dinheiro. Temos de tentar desenvolver programas e estudos sobre o conceito de economia circular, que contribuam para uma educação que esteja ciente dos limites do meio ambiente e que ensine a devolver ao ambiente o que é retirado dele”.
A convocação feita pelo papa sugere um encontro inédito sobre economia: “Estou escrevendo para convidá-los a uma iniciativa que tanto desejei, um evento que me permita conhecer quem hoje está se formando e está iniciando a estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda. Um evento que nos ajude a estar juntos e nos conhecer, e que nos leve a fazer um ‘pacto’ para mudar a atual economia e dar uma alma à economia do amanhã”, conclamou Francisco.
 “Na ‘Carta Encíclica Laudato si’”, prossegue o papa, “enfatizei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente conectado e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial. É necessário, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”.
Estima-se que a liderança mundial do papa, realizador do Sínodo da Amazônia, em outubro, durante o auge de queimadas na floresta, contribuirá para tornar o evento um marco na crítica à economia dominante.
A iniciativa convergirá em torno de três grandes eixos, detalhados durante o evento preparatório na PUC-SP pela professora Patricia Dorneles, vice-coordenadora do curso de graduação em terapia ocupacional da UFRJ. O primeiro são as linhas gerais e as perspectivas de articulação de outra economia, inclusiva, marcada pela justiça social, ética e humanismo. O segundo eixo é a agregação e valorização das práticas concretas que incluem, no País, “inúmeras experiências de economia solidária, agroecológicas, de bancos de crédito comunitários, criação de novas moedas, atividades de economia criativa, de controle territorial de produção e distribuição”.
O terceiro eixo, prossegue, são as mudanças nos currículos das faculdades de economia no mundo. “Não podemos pensar em outra economia se formarmos economistas a partir de uma concepção única ou absolutamente voltada para a competição e as técnicas, muitas delas antiéticas, que geram sofrimento e privações a grande parte da população. O chamamento do papa é no sentido de os participantes formularem nova orientação curricular para formar economistas humanistas e integradores”, sublinha a professora.

A necessidade de reformular o ensino de economia para colocá-la a serviço da sociedade é debatida há anos. Segundo o especialista Andrew Mearman, da Universidade West of England, apesar de os currículos da maior parte dos cursos denotarem a concepção de que as habilidades necessárias aos profissionais da área são essencialmente a capacidade de elaborar matemática de alto nível e reproduzir os pontos centrais de determinada linha de pensamento, vários estudiosos reconhecem o caráter essencial do conhecimento de humanidades na solução de problemas complexos que exigem saber econômico combinado à flexibilidade de pensamento, insights de outras disciplinas e consciência da realidade social e política do país e do mundo. Muitos dos seus colegas de ofício não conseguiram entender a crise de 2008, diz o professor, por nunca terem estudado história nem o fenômeno da desigualdade.
O evento é uma resposta inovadora à “gritante, absurda, insuportável e injusta desigualdade social e à crise ecológica provocada pela mudança climática”, analisa o sociólogo Michael Löwy, diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, um dos participantes dos debates na etapa brasileira. A degradação do meio ambiente e da natureza e a degradação humana e ética estão intimamente ligadas, analisa Löwy, porque são consequências do sistema. “Não é, portanto, só problema de comportamento individual de um ou de outro, de tal ou qual empresário, banqueiro ou chefe de governo. É de um sistema que ignora valores humanos, éticos, espirituais, naturais, porque esses valores escapam ao cálculo financeiro, do mercado. É uma economia que mata.”
A necrofilia do sistema vitima principalmente negros, denunciou outra participante do debate, Eleonora Aparecida Alves de Souza Domingos, fundadora da ONG Projeto Caminhos, de preservação da cultura negra e de matriz africana. “Hoje sofremos no Brasil a intolerância, a violação, a queima de templos. Apesar disso, mantemos um coletivo que resiste numa cidade essencialmente evangélica e abriga jovens negros em situação de vulnerabilidade social. Eles chegam sem sonhos em busca do acolhimento do terreiro. Nós resistimos à desigualdade e àqueles que insistem em não respeitar a nossa religiosidade. O que mais o povo negro tem é ousadia de viver num país tão racista”, diz a mãe de santo.
A mudança do modelo econômico requer enfrentamentos, acredita Dennis de Oliveira, professor de jornalismo na USP, e um dos mais importantes deles é a luta contra o racismo, pois não se constrói democracia e justiça excluindo 54% da população. “À medida que o capital fica mais concentrado, a população negra, originária, é a que mais perde direitos. No Brasil, a cada 23 minutos um jovem ou uma jovem negra é assinada. O projeto de uma nova economia é também o projeto de um novo modelo de civilização, de ruptura com esse sistema estruturalmente perverso”, sublinha o professor.

Os extremos atingidos pela crise múltipla indicam a insuficiência das respostas convencionais e clamam por mudança de paradigmas. “A proposta da Economia de Francisco é uma busca pelo comum no lugar do individual, pela gestão comunitária no lugar da puramente privada. É a certeza de que o ideário neoliberal e a sua busca constante por competitividade não dá conta de prover as necessidades da maior parte da sociedade”, resume a economista Neusa Serra, professora de políticas públicas da Universidade Federal do ABC e integrante do grupo de Articulação Brasileira.
“Na Economia de Francisco não há lugar para a acumulação infinita nem para paraísos fiscais. Isso pressupõe a defesa de imposto diferenciado sobre grandes fortunas, artigos de luxo e supérfluos, taxação dos lucros e dividendos, capital improdutivo e movimentações financeiras internacionais”, dispara Célio Turino, historiador, consultor em políticas públicas e outro integrante da Articulação Brasileira.

A proposta da Economia de Francisco não se resume a uma reunião de gente de boa vontade empenhada em realizar um diagnóstico e cogitar alternativas. “O evento vem oxigenar a visão da economia que está muito circunscrita aos ditos especialistas que em geral não dão conta do recado. É uma forma de puxar a economia para a vida real e dizer que o que vem sendo feito não resolve nada. Acho muito importante”, sublinha o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial desta revista. “O debate ficou empobrecido, porque a economia foi considerada um espaço especial na vida dos indivíduos e não é, como vem mostrando o próprio Stiglitz em seus trabalhos e também o economista Robert Skidelsky. É isso que está em questão, as abstrações que não têm ancoragem na vida real. Há uma saturação, uma insatisfação diante do aprisionamento da economia num modelo abstrato ruim.”
Alguns dos trabalhos selecionados para representar o Brasil em Assis ilustram a diversidade de atividades e de propostas desenvolvidas pelos participantes.
Vitor Hugo Tonin, assessor econômico do Sindicato dos Químicos Unificados, trabalha no desenvolvimento da plataforma Livres Rede de Produtos do Bem, que permite o contato direto entre produtores e consumidores, elimina intermediários, custos e lucros de quem não está produzindo nada, aproxima produtor de consumidor e busca um consumo consciente. “No caso de alimentos”, detalha, “procuramos promover produtos sem agrotóxicos, da agricultura familiar e orgânicos. Visa também eliminar intermediários de serviços que monopolizam mercados simplesmente por serem proprietários das plataformas digitais como os prestadores de serviços do tipo Uber e aplicativos de entregas em domicílio.”
O assessor técnico parlamentar David Deccache pesquisa no doutorado em Economia da UnB as possibilidades, desafios e impactos da elaboração de um programa de garantia de emprego com base na Teoria Monetária Moderna. “A pesquisa resultou em um Projeto de Lei apresentado pelo deputado Glauber Braga, do PSOL, na Câmara dos Deputados. Ao colocar o Estado como um empregador de última instância, o projeto avança na resolução de inúmeros problemas: estabelece o respeito ao salário mínimo e a legislação trabalhista e elimina o desemprego crônico a um custo líquido próximo a 2% do PIB”, defende.
Eliza Hostin, formada em Comunicação e mestre em Economia para Transição, trabalha como consultora de sustentabilidade com foco em duas frentes. A primeira é o apoio a empresas para repensar a atuação em busca de formas mais sustentáveis e, se possível, regenerativas. A segunda é em educação, pelo apoio a indivíduos e organizações no entendimento sobre a nova economia de modo a compreenderem os diferentes conceitos que a compõem, bem como conhecerem práticas existentes. “A relevância deste trabalho está em criar pontes de diálogo entre o mundo capitalista e o novo modelo socioeconômico que emerge. Permite novas lentes para ver e agir no mundo e, com isso, tornar-se agente ativo dessa transformação.”
Cristina Pereira Vieceli, aluna de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trata de economia feminista e trabalhos reprodutivos. A economia feminista, diz, critica a invisibilidade dos trabalhos não remunerados exercidos principalmente pelas mulheres, tais como afazeres domésticos e trabalhos voluntários não incluídos na contabilidade nacional dos países. “Essa dinâmica impacta tanto na trajetória feminina no mercado de trabalho quanto na sua posição de dependência econômica e o caráter de seu trabalho, pois as mulheres são sobrerrepresentadas em atividades de meio turno, com baixas remunerações.”
Francisco, tudo indica, está disposto a combater o Bezerro de Ouro.


sábado, 7 de dezembro de 2019

UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO



UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO
1. Uma recente sondagem quanto à intenção de voto nas legislativas, promovida pela Intercampus , foi recentemente publicada pelo CM e pelo Negócios. Eco mediático modesto. Compreensível. Os resultados não permitiam um alarido simplista. Traduziam modestamente o foguetório antigovernamental e apontavam para um agravamento do pântano político em que as direitas parecem atolar-se. Os jornais comparavam estes resultados com os de uma sondagem feita no mês anterior já depois das eleições. Por mim, vou compará-los com os resultados das últimas legislativas. Parece-me mais significativo.
O PS passa de 36,5% para 34,9 %, o que significa uma perda de 1,6%. O PSD desce de 27,9para 24,9, o que implica uma perda de 3%.O BE passa de 9,7 para 10,8, o que se traduz num ganho de 1,1 %. A CDU passa de 6,5 para 8,1, o que representa um ganho de 1,6%. O CDS passa de 4,3 para 2,9, o que significa uma perda de 1,4%. O PAN sobe de 3,3 para 4,8, o que se traduz num ganho de 1,5%. O Chega sobe de 1,30 para 4,8, o que representa uma subida de 3,5%. A IL cresce de 1,3 para 2,9 o que implica um ganho de 1,5%. O Livre passa de 1,1 para 2,7 o que significa um aumento de 1.6 %.
Se considerarmos o PAN como ele diz que é (“nem de direita nem de esquerda”, ou seja de centro) esse espaço político alargou-se em 1,5%.
Se considerarmos a direita como abrangendo o PSD, o CDS, a IL e o Chega este conjunto passou de 34,7 para 35,5, o que significa um aumento de 0,8%. Mas se separarmos a direita clássica da extrema-direita, a primeira terá perdido 2,7% e a segunda terá ganho 3,5%.
Se considerarmos a esquerda como compreendendo o PS, o BE, a CDU e o Livre, verificamos que passou de 53,7 para 56,5, o que significa um ganho de 2,8%. Mas como vimos o PS perdeu 1,6% e os outros três partidos partilharam entre si em partes quase iguais um progresso de 4,4%.

2. As variações não são grandes. O PS sofreu um desgaste modesto apesar da intensa barragem de artilharia política que o tem assediado. As outras esquerdas ganharam algum viço o que parece especialmente relevante para o PCP, por parecer que desse modo reverte a tendência revelada nas legislativas; e para o Livre pelo facto de ter duplicado a percentagem de intenções de voto.
O PAN parece mostrar a solidificação da robustez adquirida .
Na direita clássica tradicional o CDS parece atolar-se ainda mais dramaticamente na sua crise. O PSD parece patinar, murchando um pouco mais, talvez em função da disputa interna que está a atravessar. A IL tem em termos relativos um aumento animador.
A extrema-direita quase quadruplicando as intenções de voto em comparação com os resultados eleitorais que obteve, ao ultrapassar claramente o CDS, acentua-lhe a dramaticidade da crise que está a viver. Coloca-se assim no horizonte como questão estruturante do futuro da direita clássica o modo como se vai relacionar com a extrema-direita.
O relacionamento entre PS e os outros partidos de esquerda tem-se revestido de uma atmosfera de incerteza. Parece não ter sido encontrado um tipo de conjugação entre eles que todos aceitem sem reserva mental. Se deixarem resvalar para o antes de 2015 o modo como se relacionam estarão a abrir a única porta através da qual a direita pode regressar ao poder. O BE, o PCP, os Verdes e o Livre só aprovarão as medidas que tiverem o voto favorável do PS, a não ser que se disponham a ter uma agenda política em que sejam centrais as medidas que suscitem o acordo das direitas ainda que não o do PS. Este tem uma situação quase simétrica ainda que lhe baste a abstenção das outras esquerdas ou de uma parte delas para não ter que recear a reprovação pelas direitas mesmo que concertadas. Se todos  vemos isto, parece inútil tentar esquecê-lo.
O governo afirmou expressamente que privilegia os acordos políticos entre o PS e os outros partidos de esquerda, mas estes parecem mais interessados num alarido de demarcação do que numa atmosfera de concertação. Vejamos o que realmente acontece.
No entanto, todos estes partidos não deveriam esquecer-se que a articulação política que construíram na legislatura anterior não foi uma invenção a frio de estados-maiores partidários, foi um impulso do povo de esquerda, do bloco dos seus eleitorados efetivos e potenciais a que esses estados-maiores tiveram o mérito de dar sequência. E é bem provável que os vários tios de tergiversações e de ambiguidades ocorridas na campanha eleitoral para as legislativas, quanto à assunção do que tinha ocorrido entre eles e quanto á vontade de a continuarem, tenham atirado para uma abstenção desiludida ou cética muitos e muitos eleitores do povo de esquerda.
E é bom que nos lembremos que nos cemitérios da memória política europeia jazem muitos partidos de várias esquerdas que, inventando ou conservando cartilhas obsoletas oriundas do seu passado ou do seu exterior, esqueceram a primazia da consonância com o povo de esquerda, com a sua esperança , com a recusa da sua humilhação. E assim foram murchando, murchando até serem nada. Se qualquer partido de esquerda for derrotado por ter ficado realmente  junto dos seus, nada o apagará, mas se for derrotado por se ter esquecido deles acabará por se esvair.


quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A economia social no programa do Governo



No passado dia 7 de novembro, foi publicado no jornal Negócios um artigo da minha autoria, cujo tema era “A economia social no programa do Governo”.  Vou transcrevê-lo.


1. A economia social tem um lugar modesto, mas visível no programado atual Governo. Às entidades que a integram é reconhecida vocação para serem “parceiras fundamentais do Estado na prestação de serviços de interesse geral às populações em termos não mercantis”, com salvaguarda expressa da sua autonomia, radicada em “valores solidários” indutores da sua contribuição “para a satisfação das necessidades coletivas”. Sublinha-se o seu “papel decisivo junto dos segmentos sociais mais fragilizados”. Reconhece-se-lhe o contributo para a “dinamização da própria atividade económica e social”, geradora de emprego.
No programa dá-se ainda relevo à necessidade de estimular o desenvolvimento das entidades da economia social, apostando-se em aumentar “a eficácia e a eficiência da sua atuação” e garantindo-se também “a sua sustentabilidade económica e financeira”. Por isso, o Governo, reconhecendo expressamente “o papel determinante que a economia social desempenha”, manifesta a sua vontade de trabalhar em conjunto com as organizações que a integram, “dando passos no sentido de consolidar uma trajetória de parceria”.
Nesse quadro, propõe-se: 1) melhorar “os instrumentos de regulação da economia social”; 2) promover a modernização dos vários ramos cooperativos e estimular o seu rejuvenescimento, com destaque para o reforço e a agilização das cooperativas de interesse público [neste caso, explicita-se a vontade de as tornar “mais atrativas para o envolvimento de diferentes entidades públicas e privadas na construção de parcerias duradouras na resposta a necessidades sociais, culturais e outras”]; 3) “desenvolver um programa de formação e capacitação para dirigentes de entidades da economia social”; 4) “criar uma rede de incubadoras sociais”; 5)” criar incentivos à inovação social e à exploração de tecnologias que coloquem o cidadão no centro da decisão”; 6) “estimular dinâmicas de medição dos impactos sociais das iniciativas”; 7) “proceder a uma revisão global e integrada da legislação aplicável às fundações”.

2. Neste programa, têm uma ressonância limitada as moções aprovadas nos últimos congressos nacionais do PS, quanto à economia social e não se valoriza com clareza o caminho percorrido na legislatura anterior. Isto não legitima que se menospreze o valor objetivo das opções apresentadas, bem como o acerto estrutural da inclusão da economia social nas respostas ao desafio estratégico do combate às desigualdades. Simetricamente, não se deve apagar a necessidade de se inverter a deriva desvalorizadora do protagonismo do CNES no período final do Governo anterior. Mas para além de uma amplitude mais ambiciosa das medidas propostas e das linhas de orientação reveladas, teria constituído um importante salto qualitativo ter-se dado à economia social uma maior transversalidade, fazendo-a impregnar estruturalmente o programa do Governo. Bastaria, por exemplo, que se assumisse a ressonância plena do mais recente Congresso do PS: “Para o PS é importante a imbricação da economia social na reforma do Estado, como reforço do seu caráter democrático e como elemento de contenção e reversão dos atuais desequilíbrios demográficos, ecológicos e económicos do país”. Em sinergia com isto, teria sido bom ter-se dado uma expressão mais consistente ao que na mesma circunstância se defendeu: a especial valorização da simbiose entre a economia social e o desenvolvimento local.
Na verdade, um olhar sobre o programa do Governo mostra uma abordagem bem mais pobre da economia social do que a induzida pelo decidido no 22º Congresso do PS: “A economia social é um movimento relevante do horizonte socialista. Inscreve-se na história como memória marcante, no presente como virtude prática e no futuro como esperança emancipatória”.
                                                           RUI NAMORADO

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Oposição de esquerda na grande cozinha.




Oposição de esquerda na grande cozinha. 
Moralidade:

-  Uma coisa é discutir o cardápio, esmiuçar o menu, louvar a grande cozinha portuguesa, olhar de lado para a “cuisine française”, torcer o nariz ao “risotto”, abominar o rosbife à inglesa.
- Outra coisa é preconizar arduamente um bacalhau à gomes sá energicamente gomes, defender a salsa, falar na urgência última dos coentros, estrugir com intransigência, exigir mais três ajudantes de cozinha, um lavador de panelas e  dois cortadores de batatas.
- Uma coisa é discutir a filosofia da cozinha com percuciente exigência, outra  mergulhar implacavelmente no corte de  batatas como se dessa energia dependesse o sabor e a qualidade da iguaria.
E que não seja esquecido: na grande cozinha, quem mergulha em demasia  na metafísica da cebola, dificilmente contribui para a melhoria do cardápio.

domingo, 3 de novembro de 2019

Sobre a América Latina ouçamos ZAPATERO




Foi hoje publicada na página virtual do jornal argentino Página 12, uma entrevista , feita por  Nicolás Trotta, Rector de la Universidad Metropolitana para la Educación y el Trabajo (UMET) e dada pelo antigo chefe de governo espanhol, o socialista José Luis Rodríguez Zapatero. Embora percorrendo um vasto leque temático centra-se na América Latina, focando alguns dos principais problemas que hoje aí se vivem.  Nem todas as esquerdas pensam o mesmo sobre tudo. Isso não deve preocupá-las mas aguçar a sua capacidade para se ouvirem com abertura crítica e sem reserva mental entre si . Vale a pena ouvirmos Zapatero . Ouçamos pois o que nos diz esta voz socialista de um protagonista que não se deixou ficar numa cómoda prateleira dourada.
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José Luis Rodríguez Zapatero se ha vuelto una rara avis del socialismo español. Llegó a Argentina para sumarse a la victoria del Frente de Todos y reafirmar su vocación latinoamericanista. Desde que dejó el gobierno se transformó en la figura más progresista de su partido. Se hace cargo de las contradicciones de la izquierda y no le quita el cuerpo a las disputas más difíciles. Mientras que muchos ex presidentes se integran a directorios de empresas multinacionales, Rodríguez Zapatero decide embarrarse para colaborar en la búsqueda de una solución en la crisis venezolana y adopta posiciones firmes en la defensa de las fuerzas progresistas en el continente.
Se muestra confiado de la victoria de Pedro Sánchez en las elecciones del 10 de noviembre y en un posterior entendimiento entre las fuerzas de izquierda (Unidos Podemos de Pablo Iglesias y el novel Más País de Iñigo Errejón) para constituir gobierno y postergar a una derecha cada más radical.

–¿Cómo ve hoy a América latina?
–Hay dos análisis que son necesarios realizar. Primero que conviene no olvidar que los procesos son cíclicos y seguramente hemos vivido un ciclo de hegemonía de la izquierda, luego ese ciclo se ha tornado aparentemente de hegemonía de la derecha en muchos países con una preocupación de emergencia y ahora seguramente estamos nuevamente iniciando un tercer ciclo. Todo esto, y voy a la segunda reflexión, se produce en un momento donde la democracia tiene que hacerse más preguntas que nunca, fundamentalmente por la debilidad de la fortaleza representativa frente a una sociedad internacional, a una sociedad digital. Tiene que ser reflexión política filosófica de cómo integra toda esta revolución tecnológica y lo que ha de venir en nuestras formas de organizarnos, de pensar la sociedad, de dirigirla y de gobernarla. Estamos en este tránsito y seguramente quien antes anticipe una respuesta sólida, la izquierda o derecha, será quien tenga más posibilidades de ganarle el ciclo inmediato.

–América latina, desde la periferia, ¿qué capacidad tiene no sólo de formularse las nuevas preguntas sino de construir las respuestas?
–Es muy interesante esa pregunta porque siempre he pensado que la identidad de un país, de una nación e incluso la identidad de cada uno de nosotros, no es lo que pensamos que somos si no como nos ven los demás, desde afuera. América latina, ese continente joven, ese continente casi explosivo. Yo creo que es lo que en estos momentos pondría encima de la mesa. El primer tema son las desigualdades sociales, son las injusticias sociales. Está en los números, pero cuando uno ha viajado un centenar de veces a Latinoamérica, ha conocido latinoamericanos fuera de Latinoamérica, por Europa, no puede haber tantas riquezas tan acumuladas y luego tanta miseria.

–Este concepto de abolir la pobreza…
–Abolir la pobreza y limitar la riqueza, creo que es el gran salto cualitativo de Latinoamérica, sería el día que podamos decir que la pobreza se terminó, se abolió. Digo abolir porque le da la fuerza que tiene que ser una decisión, no es un fruto de una circunstancia, del azar, de una decisión económica, si hay decisión con la riqueza que tiene Latinoamérica, su renta per cápita, no puede haber pobres en situación extrema de angustia; y luego hay limitar la riqueza, este será uno de los grandes debates que la humanidad va a tener en breve.

–La inmensa mayoría de la humanidad compartirá su concepción de abolir la pobreza y limitar la riqueza. Lo que diferencia a la humanidad es el camino para lograrlo. ¿Cómo se puede avanzar en nuestros países que no tienen la capacidad de los países centrales para regular el capital transnacional?
–Es evidente que es una cuestión que va a depender de una posición global de la comunidad internacional, que pasa por dos aspectos esenciales que tiene que ser homogeneizar la fiscalidad en la medida que se pueda. Cuesta en la Unión Europea, tenemos ese problema. Hay países que tienen la fiscalidad más baja y hay competencia injusta. Dos, erradicar los paraísos fiscales, se debería construir un mecanismo. Es muy incipiente, en el único foro en el que este debate está abierto, se ha dado un paso tímido es el G-20 por donde, por cierto, hay presencia de países de América latina. En definitiva, necesitamos un camino de gobernanza de la globalidad. En algún momento la humanidad se va a plantear esto como se planteó abolir la esclavitud. Yo siempre me pregunto, es uno de mis pensamientos más recurrentes, cómo es posible que lo que llamamos “democracia”, conviviera con la esclavitud. A lo mejor en veinte, treinta, cuarenta años parecerá insólito que se pueda permitir una salida de capitales sin más, incluso todas las miradas que se alejan ante realidad de los paraísos fiscales.

–¿Cómo analiza los procesos de cambio que vivió América latina?
–Yo creo que fueron muy ambiciosos y con éxitos en lo social, reducción de la pobreza, acceso a bienes básicos, vivienda. Creo que en lo económico se necesita en la izquierda de América latina tener un planteamiento más elaborado, más profundo. Es decir, no podemos pensar que razonar económicamente sea conspirar socialmente, buscar ese punto de equilibrio. Es verdad que en un contexto internacional que las izquierdas digamos entre comillas en Latinoamérica tienen un sesgo de opinión muy claro que en donde en los mercados, en los grandes centros y organizaciones de interacciones económicas, yo lo viví, yo lo percibí, yo lo combato. En lo social yo le daría un aprobado alto, creo que en lo económico necesitamos el debate y luego nos falta en lo institucional. Ser auténticos, ser más republicanos, en el sentido más profundo del término del pensamiento republicano. Yo creo que la izquierda gana cuando la democracia se perfecciona, la izquierda gana cuando las instituciones son auténticas instituciones republicanas.

–¿No se ha vuelto la izquierda muy conservadora con el sistema?
–El sistema es poderoso y la alternativa a lo que es la economía del mercado, a la acumulación de capital para promover crecimiento económico, no es fácil imaginarla, debemos tener una cierta humildad intelectual. Sabemos que el capitalismo genera desigualdades, a veces lacerantes, que acompaña un sistema de poder que muchas veces influye, no es determinante para una victoria electoral, eso también hay que decirlo así. Sabemos que la mayoría de las grandes fortunas, los poderosos, algunos los llaman el “establishment” suelen estar en el campo de la derecha pero eso no determina una elección. Lo que es con rigor intelectual, podemos decir la alternativa a que el Estado pueda hacer otro papel en la economía normalmente las experiencias no han funcionado. El Estado no está para producir bienes y servicios, para fabricar sillas, mesas, pantalones. Suele ser poco eficiente y por tanto puede llevar la economía a una situación negativa. El Estado debe ser fuerte, debe proveer una salud universal, el modelo socialdemócrata que llamamos en Europa y que ha tenido un gran éxito. Seguro no ha colmado todas mis aspiraciones. Pero bien, tenemos la desigualdad que no se controla y que hay que controlar más en el ingreso porque las políticas distributivas la izquierda las sabe manejar bastante bien, pues bien tienes que tener un umbral fiscal mínimo. No es posible tener un estado de bienestar sin un umbral del 40% de presión fiscal en un país. De eso Latinoamérica está todavía lejos, Europa lo ha logrado y ahora el gran problema de la desigualdad de la precariedad laboral se aborda en lo que llamamos “predistribución” que es el nuevo incipiente debate de la izquierda. En mi experiencia, un tema esencial, no hay más que ver cómo reaccionan los economistas ortodoxos, es el salario mínimo. Yo veo que la informalidad laboral es también un atentado a la dignidad humana y que habría que abolirlo exactamente igual.

–¿Podría avanzar la Comunidad Europea en un salario digno que genere equivalencia de ingreso en todo su territorio?
–Puede avanzar, no descarto que la Unión Europea establezca un salario mínimo y que establezca también un seguro de desempleo europeo, sería una gran garantía. Es decir todo el mundo puede entender que puede haber una circunstancia mejor o peor en alguno de los países europeos o en países latinoamericanos, pero si tú tienes la fuerza del conjunto como nos ha pasado con la moneda euro y evidentemente había que perfeccionarla. La crisis nos ha llevado a nuevas medidas de una moneda más unida, más fuerte, más sólida, con más raíces. Eso es una gran garantía, imaginemos Latinoamérica, la crisis de un país, si hubiera esa unión económica, la unión fiscal, esa incluso unión monetaria. Yo creo que el gran proyecto de Latinoamérica es su unión política, económica, social, fiscal y por supuesto unión en la acción exterior. Sería un nuevo big player en el mundo, tenemos Estados Unidos, China…

–¿No fue lo que se abortó? Cuando se analiza la prisión de Lula... Brasil hace cinco años discutía la foto de los vencedores de la Segunda Guerra Mundial como único nuevo país que había surgido en esta discusión como big player y hoy no tiene horizonte, ha salido del contexto internacional.
–Absolutamente, no sólo ha salido, aparece como algo esotérico, esa es la definición. Cuando fue un país decisivo, tanto en lo que podemos decir la construcción del primer programa social mundial que son los Objetivos de Desarrollo Sostenible, algo se ha avanzado. Hasta el año 2000 no existió en Naciones Unidas y sin dudas Brasil jugó un papel decisivo y a partir de ahí en el diálogo Norte-Sur, en el diálogo emergentes, en el diálogo de unidad latinoamericana Brasil ha sido un referente básico, pero la huella está ahí. Interpreto el fenómeno Bolsonaro como algo coyuntural. Veo el Partido de los Trabajadores y esperemos que Lula pronto esté paseándose por las calles haciendo sus discursos emotivos, poniendo su fuerza en la conciencia del pueblo brasileño y se revierta esa situación en poco tiempo. Y sin duda alguna Brasil, México, Argentina. Doy un gran valor a esta nueva etapa de Argentina.

–¿Qué espera de esta nueva etapa de Argentina?
–Pienso que Alberto Fernández es un hombre muy comprometido con la unión de Latinoamérica, que va a ser uno de sus grandes temas. Va a ser muy interesante la dialéctica FMI-países desarrollados en su relación con Argentina. Yo creo que esto va a marcar cómo la comunidad internacional define en el futuro inmediato, después de ver todo lo que está pasando en el continente, es el primer gran reto en la crisis financiera y económica. En la que hasta el FMI hizo una parte de autocrítica.

–Pero siempre llega tarde la autocrítica del Fondo.
–Yo, que he tenido que estar cerca del Fondo, creo que sí. Pero por ejemplo el Banco Mundial en eso ha ido ganando una posición muy distinta. Conociendo lo que es el Fondo, hay cosas que hemos leído que son sorprendentemente autocríticas y favorables. No es el Foro de San Pablo ni se va a parecer nunca.

–¿Qué rol jugarán los gobiernos socialistas de Portugal y España en esta nueva etapa de Argentina?
–Si el gobierno de España, como espero en las próximas elecciones, confirma al Partido Socialista, va a haber un apoyo cerrado. Primero hay un gran vínculo con Argentina. Segundo hay un interés por la Argentina que nosotros vivimos más directamente los últimos tiempos, que fue la Argentina de la recuperación, de la recuperación económica y de la recuperación de los Derechos Humanos, que es como yo defino el período de Néstor Kirchner básicamente. Eso tiene un respaldo claro y además nosotros tenemos también un cúmulo de vínculos económicos importantes que ahora Argentina debe posicionarse pivotando con España, con Portugal, porque son actores que tienen relevancia, sus voces tienen relevancia en el FMI, en la Unión Europea, en los mercados internacionales.

–¿Cómo analiza la elección de Bolivia?
–El presidente Evo Morales ha expresado su oferta de hacer una auditoría e incluso ha ido más allá. Ha dicho que si en esa auditoría se demostrara un fraude iría a segunda vuelta. Me parece que más no se puede hacer ¡qué más le podemos pedir! Ha sido una elección ajustada, es verdad. Pero las reglas son las reglas. No hay una regla que diga “si pasa muy poquito del 10% cabe repetir”. No. Me ha sorprendido muchísimo que la OEA, que en principio es una organización americana de respeto a la legalidad, haya dado esta respuesta. Es realmente insólito. Para cualquiera que propugne la defensa de las reglas democráticas. Pero el señor Almagro no me sorprende mucho tampoco. Es una decepción.

–¿Cómo puede salir Venezuela de la crisis política, económica, humanitaria?
–Hay un problema esencial. Es que en Venezuela hay que renovar un consenso fundacional entre dos visiones muy antagónicas de su país. Cuando uno está allí y escucha hablar de pueblo opositor y pueblo chavista se da cuenta de hasta qué punto hay una fractura social y política, que impide una convivencia mínima, de las reglas para poder salir adelante. Luego el que la comunidad internacional, una parte de la llamada comunidad internacional, Estados Unidos, se haya puesto beligerantemente a apoyar a una de las partes en conflicto y buscar la eliminación política, desacreditar totalmente a lo que representa el gobierno de Maduro y el chavismo, es una cortedad de miras absoluta. Lo más paradójico es que llevamos desde enero con el reconocimiento de Guaidó, que iba a producir un cambio, una salida a la situación. Cuando uno hace un análisis falso de una situación, las conclusiones te llevan al fracaso.

–¿Qué lo llevó a involucrarse en Venezuela?
–A mí me vinieron a buscar. En mi radar no estaba Venezuela. Siempre Latinoamérica, pero no Venezuela en particular. A mí me vino a buscar la oposición moderada. Que ha firmado ahora unos acuerdos de diálogo nacional con el gobierno. Me vino a buscar porque se temía ya en 2015 que aquello pudiera derivar en una confrontación civil. No quiero mencionar la palabra guerra civil. Y empecé a hacer una tarea de aproximación, de diálogo, muy comprometido con las personas que están en prisión. Trabajé para que fueran liberadas. Eso te vincula mucho a las familias. Y ver la capacidad de diálogo que tenía. Yo sé que he sido acusado de todo, de castro-chavista, de las situaciones más insólitas que uno podía esperar en mi vida. Pero siempre he podido tener la capacidad de diálogo con el gobierno chavista. Por supuesto que hemos hablado de los errores cometidos. De los problemas que existen. No puedo entender cómo hay una aproximación a Venezuela tan desequilibrada, esto es lo que me preocupa muchísimo de la situación. Todos los factores económicos que penden sobre Venezuela tienden a explicar esta situación. Creo que muchas de las cosas que están pasando en el continente son fruto de esa especie de carta blanca que Trump ha permitido a los sectores más conservadores latinoamericanos diciendo “ahora es la nuestra”. Tenemos la oportunidad de que aquí la izquierda sea residual, que el comunismo deje de existir.

–¿Qué es ser de izquierda en el siglo XXI?
–Hay una aspiración y es que la gente común, el ciudadano que vive de su trabajo, que ha nacido de su trabajo, pueda tener las mismas oportunidades que cualquier otro. No las oportunidades de tener éxito. Pero que tenga las mismas oportunidades para poder tener éxito. El día que una sociedad pueda hacerlo; ahora con el big data, con la inteligencia artificial, se puede hacer perfectamente, la política también tiene que poder utilizar estos instrumentos. Que se pueda evaluar si una persona cuando nace tenga, y en su desarrollo haya tenido, las mismas oportunidades reales. Bueno, eso será una sociedad de izquierdas.


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O geringoncismo- doença infantil da concertação das esquerdas



O geringoncismo
-  doença infantil da concertação das esquerdas

1. A geringonça nasceu como rótulo depreciativo, inventado por expoentes da direita, para desqualificarem simbolicamente uma iniciativa que agregava as esquerdas. Espalhou-se irresistivelmente no espaço público. No entanto, a realidade que se pretendia apoucar teve afinal o êxito suficiente para resgatar simbolicamente o rótulo em causa, tornando-o numa designação afetivamente mais amiga e cordial do que ridicularizante. Muitos dos seus próprios protagonistas acabaram por aceitar com naturalidade e bonomia o epíteto, que assim se acabou por tornar numa designação aparentemente neutra e inócua. De um ponto de vista simbólico, sem dúvida que o seu potencial desqualificante se esvaiu.

No entanto, talvez ele tenha tido um efeito perverso que não é aparente, mas que julgo real. Na verdade, ao longo do tempo, o pacto celebrado foi sendo predominantemente encarado como um mecanismo político-institucional radicado apenas em organizações partidárias que se concertavam entre si, na sombra discreta dos gabinetes. Celebraram um pacto e foram acompanhando o seu cumprimento. Um pacto que permitiu que um Governo fosse instituído e governasse durante uma legislatura. Um Governo de um dos partidos, a cujos deputados se somavam no Parlamento os deputados dos outros partidos de esquerda. Uma governação que, contrariando todas as expetativas e rompendo até com um certo ceticismo internacional, teve o êxito suficiente para poder ser invocada como exemplo positivo.


2. Nas campanhas eleitorais entretanto ocorridas ─ eleições autárquicas, europeias e legislativas─, mas principalmente nestas últimas, o pacto foi sujeito a um acréscimo de tensões fragmentadoras e dissipativas. Tensões inerentes a uma competição eleitoral entre partidos que concorriam entre si, sem prejuízo de estarem congregados num pacto político-institucional. Um pacto limitado e flexível que era compatível com a manifestação dessas tensões competitivas. Essa compatibilidade, em fim de legislatura principalmente, não impediu momentos de um especial aumento de tensões  e nalguns casos mesmo de alguma acrimónia ainda que contida.

Se olharmos para essa tensão argumentativa vivida nas campanhas, especialmente na mais recente, verificamos que ela refletia atitudes e posições diferentes. De um lado, estava o partido do governo, do outro lado estavam os partidos que tinham pactuado o apoio parlamentar ao governo. O PS tendia a dar centralidade à sua qualidade de partido do governo, valorizando genericamente o mérito da governação. O BE , o PCP e o PEV tendiam a exaltar os méritos inerentes a medidas específicas que teriam sido tomadas por força da pressão feita por cada um deles. Procuravam valorizar o mérito inerente aos resultados das suas pressões e distanciarem-se relativamente do resultado geral da governação, em especial dos aspetos com que não concordavam ou que não induziam popularidade.

Esse registo foi impregnado por uma intensa campanha contra uma possível maioria absoluta do PS, o que sendo em si um absurdo, se for  levada à letra (cada eleitor vota num partido, mas não tem como modular a sua preferência; vota ou não vota), era de facto uma campanha explícita contra o voto no PS. Cada um deles, além de apelar ao voto nele próprio, o que é natural em todos os partidos, apelava também a que se não votasse num partido [o PS], com o qual tinha tido um acordo que durara uma legislatura. Assumiam assim um juízo globalmente positivo quanto ao governo, mas  batiam-se contra o voto no partido que era estruturante quanto a esse governo. Convenhamos que a lógica profunda desta posição equívoca  tem um potencial de confusão apreciável relativamente ao eleitorado mais diretamente visado.

Uma leitura superficial parece indicar que a campanha pode ter tido efeito quanto a impedir uma maioria absoluta do PS, mas não fez ganhar votos nem ao BE nem à CDU. O BE estacionou quanto ao número de deputados, a CDU perdeu deputados. Especialmente à direita, neste caso por motivos óbvios, há quem queira  fazer crer que isso se deveu à participação indireta na solução governativa encontrada. É, no entanto, estranho que o apoio relativo dado a um governo que é encarado positivamente pelo povo de esquerda  induza perda de votos à esquerda. Mais lógica parece ser a hipótese de que esses partidos ( ainda que em doses diferentes) tenham suscitado  confusão, pela estratégia argumentativa seguida,   em parte do seu eleitorado, induzindo assim  a sua abstenção.


3. Se olharmos para o discurso político dos partidos envolvidos no pacto das esquerdas, verificamos que o mais global era o do PS, o que se compreende à luz da sua relação com o governo. Os outros seguiam um guião em que predominavam referências a medidas parcelares, cujo mérito reivindicavam e a medidas parcelares que inscreviam como seus objetivos para o futuro.

Todos davam na generalidade como adquirido  o tipo de sociedade atual , abdicando de inscrever no horizonte a sua transformação. As exceções a esta regra, mais implícitas do que explícitas, não condicionavam significativamente a espinha dorsal do discurso político assumido. Os eleitores tendiam a ser encarados mais como indivíduos a convencer do que como cidadãos a mobilizar; mais como clientes políticos a fidelizar do que como sujeitos cívicos de um processo político que partilhassem com os partidos que, sendo os atores eleitorais diretos, não eram tudo.

Esta atitude menosprezava um dado empiricamente verificável que se veio tornando evidente, ao longo dos últimos anos: o povo de esquerda, abrangendo os eleitorados reais ou potenciais dos partidos envolvidos no acordo, queria e continua a querer esse acordo. Independentemente de pressões circunstanciais e do desenho concreto da conjuntura institucional em 2015, o mérito principal, aliás apreciável, das direções políticas dos partidos envolvidos, foi o de terem sabido responder positivamente a esse anseio unitário profundo do povo de esquerda. Terem percebido a centralidade desse anseio.

No entanto, na generalidade, parece nítido que desde então não foi dada realmente centralidade a esse anseio, por nenhum dos partidos envolvidos. Predominantemente, a prática dos partidos envolvidos passou, quase sempre, ao lado dessa unidade substancial do povo, preferindo ficcionar uma diversidade de povos de esquerda correspondente a eleitorados separados dos vários  partidos. 

Esta perspetiva implicou, objetivamente, uma tendência para se renunciar por completo a estimular uma dinâmica de transformação social que envolvesse globalmente o povo de esquerda e se abrisse a todos os trabalhadores e a todas as vítimas da desigualdade social dominante. Uma dinâmica de transformação que desse consistência e autenticidade ao combate contra a degradação ambiental inerente ao modo como o capitalismo tem vindo a corroer o mundo. Uma dinâmica que pudesse dar corpo a uma esperança realmente grande e que assim pudesse pôr o povo em movimento.

No seio de um processo amplo de transformação social, o protagonismo diferenciado dos partidos exprimiria com naturalidade a relativa heterogeneidade  do povo de esquerda, mas fá-lo-ia no âmbito  de um processo social mais amplo mas uno, onde todos caberiam. O protagonismo institucional dos partidos em geral e a sua governação nos diversos níveis do Estado seriam robustecidos por uma dinâmica social que o apoiasse, estimulasse e desafiasse.

Tudo isso poderia gerar uma nova relação de forças que permitiria que fossem tomadas mais rápida e facilmente medidas justas, geradores de mais liberdade e de mais igualdade, induzindo até provavelmente uma afirmação e uma autonomia mais robustas do nosso país na cena internacional.


4. Sem uma ancoragem firme numa dinâmica social deste tipo, os êxitos político-institucionais, por mais relevantes e meritórios que sejam, ficarão mais sujeitos ao aleatório de conjunturas internacionais que dependem muitíssimo pouco do que ocorre em Portugal.  Sem essa ancoragem dificilmente se dará consistência à defesa da qualidade ambiental, à luta contra as causas económico-sociais das alterações climáticas, aos movimentos de inconformismo em face dos automatismos predatórios do capitalismo mundial. E assim tender-se-á para uma fragmentação das resistências organizadas à degradação ambiental e a uma estéril dissipação das suas iniciativas. Podem suscitar-se explosões desesperadas, dificilmente se gerarão resistências eficazes.

Paralelamente, se continuarmos aprisionados numa numerologia que se absolutize a si própria, esquecendo as pessoas, abriremos ainda mais as portas do desespero, às vítimas da desigualdade. E quando as portas do desespero se abrem, deixa de ser possível prever e controlar o que passa através delas.

E não se pense que este risco se diminui com atitudes proclamatórias ainda que generosas e acutilantes, com os proclamantes a considerarem-se realizados apenas por proclamarem. O general que numa guerra decretasse bombardeamentos aéreos, sem dispor de aviação, representaria um perigo nulo para o inimigo.

Está em marcha um processo negocial para o desenho político do novo governo. Entre as esquerdas parece haver algumas dificuldades e ambiguidades que podem não levar a bom porto. Se o povo de esquerda vier a ser  esquecido no labirinto das negociações, se as direções partidárias não tiverem a inteligência de perceber que sem o povo de esquerda  são pouco mais do que folhas secas ao sabor da corrente, as coisas podem ser mais difíceis do que a atual relação de forças induz. E não esqueçamos que  dentro do modo como a sociedade atual entre nós funciona, a esquerda, mesmo quando é maioritária no parlamento e nas autarquias,  está cercada pelos poderes de facto, que lhe são estruturalmente hostis. E quando quem está cercado ignora o cerco dificilmente o vai conseguir romper com êxito.

É mais fácil politicamente e menos oneroso económico-socialmente que as esquerdas se entendam para governar depois de uma vitória do seu conjunto do que se entendam para resistir depois de uma derrota. E é mais fácil o protagonismo dos partidos quando tenham como suporte o povo de esquerda com a esperança acordada, do que depois de terem conseguido desiludi-lo e desmobilizá-lo com a sua inépcia, se for esse o caso.