
Eles sabem que nós sabemos que eles sabem que as tretas de alguns notáveis filósofos mansos sobre a igualdade não passam, salvo o devido respeito, de rodriguinhos mentais destinados a embrulhar as vítimas das desigualdades num mar de confusões, que as impeça de ver de que lado está e como funciona a injustiça que as vitimiza.
Posso admirar a inteligência, a subtileza intelectual, a precisão discursiva, a agilidade vocabular de quem se ocupa denodadamente a fazer-nos esquecer que continua a funcionar em pleno a fábrica de desigualdade que é o capitalismo ( Os capitalistas ainda se zangam comigo. Como posso estar sempre a falar de uma coisa que não existe ?). Para isso, eles guiam-nos generosamente através de um labirinto de conceitos e de palavras que escorrem pela realidade como geleia . Escondendo-a, para a deixarem intacta. Ou quase intacta. Ou muito mais intacta do que ficaria se nos falassem, mesmo sem subtileza, das causas das coisas.
Por isso, prefiro a palavra simples da revolução francesa: igualdade. Sem enfeites, sem retoques, sem embustes, sem talvez, sem mas todavia. A palavra nascida nas ruas de sofrimento dos explorados, a palavra regressada em todas as revoluções, a palavra perdida na garganta dos pobres.
É nessa medida que venho respeitosamente requerer a todos os imensos vultos de todas esquerdas, mesmo das que se mostram por vezes excessivamente doces, mesmo das que se mostram por vezes excessivamente loucas; dirigindo-me também a todos os partidos que se consideram de esquerda, sejam eles imoderadamente moderados ou alucinadamente extremistas, para que nunca mais recorram a essa prisão subtil da igualdade, a essa sua esterilização arguta, a essa melíflua negação da luta pela igualdade, que é o sarcófago ideológico habitualmente designado por : " igualdade de oportunidades".


