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quinta-feira, 28 de abril de 2011

DERIVA LIGEIRA A PROPÓSITO DA IGUALDADE e um despropositado requerimento



Eles sabem que nós sabemos que eles sabem que as tretas de alguns notáveis filósofos mansos sobre a igualdade não passam, salvo o devido respeito, de rodriguinhos mentais destinados a embrulhar as vítimas das desigualdades num mar de confusões, que as impeça de ver de que lado está e como funciona a injustiça que as vitimiza.

Posso admirar a inteligência, a subtileza intelectual, a precisão discursiva, a agilidade vocabular de quem se ocupa denodadamente a fazer-nos esquecer que continua a funcionar em pleno a fábrica de desigualdade que é o capitalismo ( Os capitalistas ainda se zangam comigo. Como posso estar sempre a falar de uma coisa que não existe ?). Para isso, eles guiam-nos generosamente através de um labirinto de conceitos e de palavras que escorrem pela realidade como geleia . Escondendo-a, para a deixarem intacta. Ou quase intacta. Ou muito mais intacta do que ficaria se nos falassem, mesmo sem subtileza, das causas das coisas.

Por isso, prefiro a palavra simples da revolução francesa: igualdade. Sem enfeites, sem retoques, sem embustes, sem talvez, sem mas todavia. A palavra nascida nas ruas de sofrimento dos explorados, a palavra regressada em todas as revoluções, a palavra perdida na garganta dos pobres.

É nessa medida que venho respeitosamente requerer a todos os imensos vultos de todas esquerdas, mesmo das que se mostram por vezes excessivamente doces, mesmo das que se mostram por vezes excessivamente loucas; dirigindo-me também a todos os partidos que se consideram de esquerda, sejam eles imoderadamente moderados ou alucinadamente extremistas, para que nunca mais recorram a essa prisão subtil da igualdade, a essa sua esterilização arguta, a essa melíflua negação da luta pela igualdade, que é o sarcófago ideológico habitualmente designado por : " igualdade de oportunidades".

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Fraternidade



Com a autorização do autor, publico o texto do J.L.Pio Abreu, "Fraternidade" que saiu hoje no Destak. É de algum modo um diálogo com o Alberto Martins. Conversa entre velhos amigos.

Fraternidade

"Com a queda do muro de Berlim, acabou o fundamentalismo de Estado; com crise actual, acabou o fundamentalismo de Mercado". Foi assim que o Dr. Alberto Martins, na Assembleia da República, assinalou o fim das soluções radicais para as aspirações humanas. O fundamentalismo de Estado tentou promover a igualdade à custa da liberdade. O Mercado, sem contenção, promove a liberdade mas também a desigualdade.

Liberdade e igualdade fazem parte dos ideários utópicos desde a Revolução Francesa. No entanto, podem ser antagónicas. Muito sabiamente, os revolucionários tiveram de lhes acrescentar a fraternidade para resolver a contradição. Não o conseguiram, como logo se percebeu pelo uso excessivo da guilhotina.

Ernst Friedrich Shumacher, autor de Small is Beautiful, escreveu no seu último livro, Um Guia Para os Perplexos, que os problemas humanos são tipicamente divergentes e levam a soluções contraditórias. Para os resolvermos, teremos de subir a outro nível e elevarmo-nos um pouco mais na nossa humanidade.

A fraternidade é um valor de nível superior que concilia liberdade e igualdade. Nem os franceses revolucionários nem os sistemas seguintes foram capazes de subir a esse nível. Sabendo dos enganos, seremos nós capazes de o fazer?

A resposta pode estar na tecnologia da globalização que o capital aproveitou desde a primeira hora. O capital não é fraterno. Mas cada pessoa pode agora usar a mesma tecnologia para promover a fraternidade.

J. L. Pio Abreu