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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Um silêncio chamado Kosovo!


1. O "Jornal de Notícias" de hoje anunciou um transcendente evento : "Cavaco Silva recebe Ferreira Leite".


E esclarece: "O Presidente da República, Cavaco Silva, recebe esta tarde a direcção do PSD. Manuela Ferreira Leite solicitou a audiência com carácter de urgência por causa do Kosovo, segundo fonte social-democrata."


Com carácter de urgência!!- não esqueçam!


E por causa do Kosovo. Do Kosovo !- notem bem. Viram o alcance ? O Kosovo...


Pode dizer-se com propriedade: vai longe!


2. Este é o tempo em que o território da Drª Manuela está em chamas. As praças financeiras parecem incendiadas. Os circunspectos economistas, que não se esconderam ainda, bruxuleiam coisas profundas. Dela, espera-se o fulgor da solução, a palavra decisiva, o diagnóstico certeiro, a visão de longo alcance, percuciente e subtil.


Foi então que um frémito de emoção varreu as redacções, insinuando-se nos telejornais. E um vento de ansiedade acordou as multidões agitadas: A Senhora vai a Belém! Vai a Belém! A Belém!


E, por fim, soube-se: Kosovo.
A inefável Dama de Cinza despertara do seu pesado silêncio; não para falar da crise económica, do descalabro da banca, do pânico nas Bolsas. Não foi sequer oferecer, ao seu amigo Presidente, a sua coruscante competência genérica em matéria económica. Como águia silenciosa, escapada às servidões terrenas, pairou, pairou, pairou, até se abater, fulminantemente, sobre o Kosovo!


O seu circunspecto Borges teve um sobressalto de pensamento profundo e quase relampejou de preocupação. Quanto ao Dr. Menezes, limitou-se a um espreguiçado sorriso de prazer, a um daqueles sorrisos de gibóia, que saboreasse de antemão uma presa que sabe que já lhe não pode fugir.

Por mim, perdido neste labirinto que nos desafia, apenas quero dar um viva:
Viva a costela albanesa da Drª Manuela!

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Kosovo e os buscadores de abismos


Fatos azuis, pretos, cinzentos. Gravatas discretas, camisas claras. Aparecem nos palcos mediáticos. Falam fluentemente. Com precisão: cada palavra escolhida e colocada no lugar exacto. O rosto é uma paisagem tranquila. Sem tempestades. Os jornalistas perguntam. Respondem com segurança, mas quase nunca surpreendem: dizem o que já se calculava, como quem desvenda um mistério.

Quanto ao Kosovo atingiram o cume dessa arte mediática de dizer solenemente as palavras mais previsíveis, como se em cada palavra se jogasse o destino do mundo. Ministros, assessores, directores-gerais.

No terreno, pessoas de carne e osso, movidas por medos e paixões, acicatadas por esperanças e desilusões, sofrendo e sonhando, querendo o infinito e temendo o dia seguinte, agitam-se, ameaçam, movem-se confusamente. Sem norte?

Uns desfraldam a sua independência do Kosovo com a bandeira albanesa, como se dessem vida ao sonho da grande Albânia, que, no entanto, não confessam querer. Outros contêm uma tristeza que, subitamente, tem séculos. Vivem a amargura ancestral dos povos invadidos e humilhados. É como se a alegria dos outros lhes roubasse a própria casa. Os sonhos, os ódios, as frustrações e os medos, estão de regresso numa mistura explosiva.

Uns vivem a alegria de um sonho que aprenderam a ter, como se tudo fosse agora uma estrada para o infinito, sem leis e sem problemas. Sem obstáculos. Outros vivem a humilhação de terem o direito internacional pelo seu lado e de terem visto rasgá-lo com toda a desenvoltura aos mesmos que se arrogam o papel de juízes em nome desse mesmo direito.

A Sérvia aceitou submeter cidadãos seus ao império desse direito, esperando talvez que um dia obtivesse do respeito por esse direito um retorno positivo. Afinal, nem esse direito, nem as decisões expressas da ONU, foram suficientes para que os seus cultores mais devotos os respeitassem. Respeitassem os direitos da Sérvia sobre uma das suas províncias.

No terreno, alguns milhares de soldados perdidos são fantasmas que ignoram o que estão ali realmente a fazer. Soldados da paz? Irmãos auxiliadores? Ou, pura e simplesmente invasores, predadores gratuitos que fazem valer o discutível arbítrio dos mais fortes?

Nos tapetes fofos das chancelarias, nos silêncios florentinos dos corredores das organizações internacionais, há leves sorrisos postiços que se movem embrulhados em nebulosas figuras que executam um ritual guerreiro que eles próprios só superficialmente compreendem.

Os líderes europeus mostram, de si próprios, uma imagem terrível. Vagueiam como autómatos através da sua impolítica para os Balcãs como se fossem sombra de um zombie americano, apenas presente por inércia nos corredores do poder supremo, onde frui já sem norte os seus últimos meses.

Apoiam o Kosovo os mais irresponsáveis, convencidos de que a rapidez da decisão apagará a sua desorientação estratégica. Outros afastam-se pressurosos do que lhes parece ser um erro grosseiro, mas consentem que a União faça gestos simbólicos de cumplicidade com os albaneses do Kosovo e de hostilidade aos sérvios. Dizem coisas sobre o Kosovo e a Sérvia como se fossem seus donos ou fossem credores de uma qualquer subserviência, radicada no simples direito do mais forte.

O patrão americano respira fundo. Tem agora uns zombies europeus que executam espontaneamente estranhos rituais de obediência à sua política, sem que quase precisasse de mexer um dedo.

Após semanas dessa pesporrência infantil da União Europeia, o urso russo começou a achar que perante tantos gestos provocatórios lhe cabia comportar-se como se tivesse sido provocado. E foi assim que disse o que se esperaria que dissesse um urso relativamente poderoso, que já viu melhores dias, mas que está longe de estar acabado.
Um funcionário de uma terceira ou quarta linha resmungou qualquer coisa que tem a ver com força e com militar. Alguns dias depois alguém mais qualificado demarcou-se molemente da ameaça velada. Estava feito o aviso.

Os americanos tinham entretanto esboçado algo entre o lamento e o protesto. Os europeus assustaram-se e balbuciaram uns murmúrios de preocupação. Eles que têm uns milhares de soldados em terra alheia, em grosseira desobediência aos ditames da ONU, não viram que era a sua própria arbitrariedade que legitimava as ameaças que lhes eram dirigidas.

Enfim, se somarmos tudo isso à instabilidade que desponta nas regiões habitadas por sérvios no Kosovo e na Bósnia, podemos constatar que a realidade enviou um aviso a esses anões políticos que temos a infelicidade de ter à frente dos destinos da União Europeia. Há o risco de o não compreenderem.

De facto, o prestígio e a autoridade moral da Europa pode radicar-se na sua capacidade para induzir a paz, mas nunca na ligeireza com que se arrisque a desencadear guerras. E a verdadeira força política num século como o nosso, que será de paz ou poderá ser o último, não se conquista com a arrogância perante os fracos. Repito o que já escrevi. Há uma regra de ouro para evidenciar a dignidade de um Estado, ou de uma União de Estados: nunca adoptar um comportamento perante um Estado fraco que se não for capaz de ter perante um Estado forte.

Não sabemos ainda quais as sequelas da actual impolítica europeia para o Kosovo. E o mais trágico é que os dirigentes responsáveis por essa política parecem ter que dizer o mesmo. E esse é talvez o sinal mais preocupante. As solenes luminárias, não são afinal faróis que mos ajudam a vislumbrar o nosso futuro colectivo, são simples amanuenses da política, atrapalhados com as consequências do que vão decidindo, mas talvez mais cegos do que nós quanto ao que está por vir. Não são guias , são buscadores de abismos.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Kosovo : a"bushização" da Europa ?


Há duas posições respeitáveis quanto ao Kosovo. Uma advoga a sua independência no quadro da aplicação do princípio de que um território onde houver uma nacionalidade numericamente dominante deve poder tornar-se independente, se for essa a vontade do respectivo povo democraticamente manifestada, de um modo justo, fiável e inequívoco.
Outra sustenta a perenidade da sua ligação à Sérvia com base na estabilidade das fronteiras, regra de convivência vigente na comunidade internacional, reconhecida quer pela União Europeia, quer pela ONU, especialmente, quando radicada em razões históricas evidentes.

Não sendo esta a oportunidade para um debate aprofundado, apenas digo que, de acordo com os dados de que disponho actualmente, me inclino mais para a primeira solução. Sou, por isso, partidário da independência do Kosovo. Mas sou-o dentro dos parâmetros acima fixados: ser este caso um afloramento de uma regra de aplicação universal, em que outros povos, em circunstâncias semelhantes, obtivessem o mesmo tratamento.

Admito até que possa haver uma ponderação de especificidades regionais e geopolíticas que conduzam a diferir no tempo o desenrolar de outros processos semelhantes. Mas acho inadmissível que, pelo menos na antiga Jugoslávia, os diversos casos existentes não tenham tratamento igual.

Por isso, encaro a independência do Kosovo, posta em prática como um processo isolado, uma vergonhosa arbitrariedade das potências dominantes, que se reveste de uma particular gravidade no que concerne à União Europeia, que poderá vir a pagar caro a ligeireza com que está a agir neste caso.

É, na verdade, uma inimaginável violência simbólica anti-Sérvia promover a independência do Kosovo e recusando-a ao mesmo tempo à República Sérvia que existe, bem identificada, dentro da Bósnia. Essa simultaneidade era o mínimo dos mínimos para se criar verosimilhança na alegação de que não estamos perante uma pura aplicação da lei do mais forte. Mais tarde, poder-se-ia analisar o problema das regiões povoadas predominantemente por sérvios há centenas de anos e situadas na Croácia; ou o das regiões da Bósnia habitadas predominantemente por croatas.

A União Europeia vai, sem consenso interno completo, ser cúmplice desta humilhação histórica unilateral do povo sérvio, dando um precioso presente póstumo a Milosevic. De facto, ela confirmará o que esse dirigente nacionalista sérvio sempre quis fazer crer ao seu povo : a fúria dos ocidentais não era apenas, nem principalmente, contra ele, era contra os sérvios, em geral. Sérvios esses que, aliás, acabam de eleger um presidente pró-União Europeia e vão poucos dias depois receber esta resposta pequena e mesquinha de uma União Europeia, que assim se reduz nesta atitude ao que de pior têm para recordar na respectiva história alguns dos seus Estados membros.

O Kosovo vai ser independente. A Sérvia vai ficar ferida. A União Europeia vai mandar uma autoridade não sei quê para o Kosovo, não sei á luz de que legitimidade, não sei à luz de que legalidade internacional, não sei à luz de que decisão da ONU. Essa missão representará toda a União , ou apenas os países europeus que aceitam a independência do Kosovo ?

É um dia feliz para os albaneses, é um dia triste para os sérvios, pode ser um dia fatal para a dignidade da União Europeia, que , talvez, pela primeira vez se afirme pela lei da força , em termos geopolíticos.
No plano mundial, os grandes espaços estão a aprender a valorizar os seus recursos simbólicos, o seu prestígio cultural, político e ético. A União Europeia está entre os mais prestigiados em alguns deses planos. Hoje, pode ser o dia em que perde a face, no plano de uma ética de respeito por todos os povos, de uma ética de tratamento igual a situações iguais, numa ética de não discriminação negativa de nenhum povo.

De facto, estamos a assistir não à “bushização” da Europa, mas pior do que isso, a uma caricatura pífia dessa “bushização”, que dá bem a medida da rasteirice política dos chamados “leaders”europeus, que, verdadeiramente, parecem não ser mais do que uns amanuenses da política que se passeiam de capital em capital, recitando solenemente o óbvio e deixando que o tempo se lhes escape entre os dedos.

Se a União Europeia quiser recuperar a autoridade moral e política que hoje tão grosseiramente vai delapidar, tem que aprender a não se comportar perante nenhum Estado “fraco”de uma maneira diferente daquela que seja capaz de assumir perante o mais forte dos Estados “fortes”.

Os nossos actuais líderes europeus não deram indicações de que tenham percebido isso. Vão hoje tomar uma posição que provavelmente não tomariam se previamente pedissem autorização para isso aos cidadãos europeus que dizem representar.

E os portugueses? Vão de novo limitar-se a servir um “cafezinho” aos senhores que tomam as decisões?