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quarta-feira, 17 de abril de 2024

Memória de um dia limpo – 17 de Abril de 1969

 

Memória de um dia limpo – 17 de Abril de 1969

 

A sombra  do olvido não murchou

a glória sempre  aberta dessa dia.

 

A  saudade inventa o que é mais novo

na sombra da memória que sonhámos.

 

Foram  homens  de negro a desabar

no coração de espanto desse dia.

 

E um cerco de ferro foi lançado

num garrote de medo e crispação.

 

Os soldados da noite enegreceram

a sombra das palavras por dizer.

 

Mas houve uma palavra incendiada

dizendo-se na própria liberdade.

 

 e o sórdido milhafre ficou mudo

fechado em sua enorme solidão.

 

Um quadrado de raiva fez-se vento

e  os muros começaram a cair.

                                                           (17 de Abril de 2024)

domingo, 17 de abril de 2022

 


 

LOUVOR AO 17 DE ABRIL

[1969/2022]

 

A pérola do tempo descansou

na guitarra  longínq1ua da saudade,

deixando que um só dia incendiasse

o sagrado sabor da liberdade.

 

Nas mãos nuas dos versos desarmados

que colhem a chegada da alegria,

foi gravada a lenda deste dia

respirou-se no vento a tempestade.

 

Um gume de revolta atravessou

o perfume da nossa primavera

e a verdade ficou no meio de nós,

colhendo-se inteira até ao fim.

 

Capas negras dos sonhos acordados

foram sangue no próprio coração,

dizendo-nos por dentro de quem somos

com as palavras livres e despertas.

 

Caminhámos por todos os lugares,

navegando sempre além do fim,

fomos cidade,  amor  e sedução,

voz súbita de todos os poetas.

 

Quando os corvos do medo nos cercaram

não colhemos a flor do desespero,

erguemo-nos na nossa condição

e lutámos

             [ 17 de Abril de 2022]                                                                                                                                                                   

domingo, 20 de março de 2022

60 anos da Crise Académica de 1962

60 anos da Crise Académica de 1962

 

A Crise Académica de 1962 vai ser lembrada no decorrer da  próxima semana. Saliento dois eventos.

1.

O primeiro, “Conversa sobre  a Crise Académica de 1962 – 60 anos”  terá lugar no dia 22 de Março (terça-feira) | 18h00 | zoom


 Participarão Isabel do Carmo (médica), Rui Namorado (professor universitário), Alexandre Alves Costa (arquiteto | professor universitário),com moderação de Henrique Barreto Nunes (bibliotecário). É organizado pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em em colaboração com a  CAMinho – [Bibliotecas e arquivos associados à Universidade do Minho].


2. O segundo  será o Colóquio Primaveras Estudantis da Crise de 1962 ao 25 de Abril  decorrerá no próximo dia 24 de março.

Este Colóquio conta com as intervenções do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do Reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira e do Comissário Executivo das comemorações 50 Anos 25 de Abril, Pedro Adão e Silva.

O papel do movimento associativo estudantil, traduzido nas várias crises académicas que enfrentaram a ditadura, é, por isso, um dos temas em destaque nas celebrações e será tema de reflexão do colóquio, no qual alguns dos principais protagonistas das crises académicas vão desfiar memórias, na primeira pessoa.

O programa conta ainda com a estreia do documentário “Sampaio, Caetano e Salazar: o confronto de 1962”, realizado pelo jornalista Jacinto Godinho e produzido pela RTP.

A par do Colóquio, a Exposição “Primaveras Estudantis: da Crise de 1962 ao 25 de Abril” no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, também pretende contribuir para a compreensão de um dos momentos cruciais para o início do fim da ditadura. term

sábado, 17 de abril de 2021

Ressonância do 17 de Abril de 1969


Ressonância do 17 de Abril de 1969

         -homenagem às lutas estudantis pela liberdade e pela justiça

 

Está em sépia o perfume deste dia,

navegando a memória, cheiro antigo.

Passa a brisa dos dias docemente,

quase luz, melancólica saudade.

 

Eram negros os corvos desse tempo,

cercando cada gesto, cada passo,

sem tréguas, com ódio, sem pudor,

apodrecendo mais em cada dia.

 

Abrimos a janela do futuro

num incêndio de paz e juventude.

Rasgámos o cinzento que doía,

respirando por dentro da alegria.

 

Quantos anos passaram desfilando

por glórias, sonhos e paixões.

Deixamos que a memória nos semeie,

colhemos esse dia e somos sempre.

 

                       [Rui Namorado- abril de 2021]



quinta-feira, 25 de março de 2021

Estudantes de Coimbra expulsos na crise académica de 1962

 

Para corrigir informações truncadas sobre os estudantes de Coimbra expulsos durante a crise académica de 1962, postas levianamente a circulara nas redes sociais, nada como recorrer a um documento da época. Aqui está:

Crise Académica de 1962  -  Documento 

             Em Maio de 1962 foi publicado o comunicado que abaixo se transcreve :

                          

Sem  comentários!

À  UNIVERSIDADE, AOS MESTRES E AOS ALUNOS COMUNICA-SE:

         Por decisão ministerial foram punidos os colegas:

1º - Acusados de organizarem o I Encontro nacional da Estudantes , cuja responsabilidade a assembleia Magna da Academia assumiu,

a) Com dois anos de exclusão de frequência de todas as escolas nacionais:

 - José Augusto Rocha ( Dir. Geral da AAC )

 - Margarida Lucas ( Dir. Geral da AAC)

 - Francisco Leal Paiva ( Dir. Geral da AAC e República dos Galifões)

 - David  Rebelo ( Dir. Geral da AAC)

 - Eduardo Soeiro ( Dir. Geral da AAC e República dos Pinguyns)

b) Com dezoito meses de exclusão de frequência de todas as escolas nacionais:

António Taborda ( Dir. Geral da AAC)

José Sumavielle ( Dir. Geral da AAC)

2º- Acusado de “ser de certo modo, mentor da consciencialização colectiva” (sic):

Com dois anos de exclusão de frequência de todas as escolas nacionais:

- Francisco Delgado ( CITAC )

3º- Acusados de perturbar o funcionamento duma aula ( 1º assalto da polícia de Choque à Associação Académica) :

a) Com um ano de exclusão de frequência de todas as escolas nacionais:

- Luís Filipe Madeira ( República dos Kágados e Comissão da Queima de 62 )

b) Com seis meses de exclusão de frequência da Universidade de Coimbra:

- José Luís Nunes ( Centro de Estudos Filosóficos)

- Parcídio Sumavielle ( Via Latina )

4º- Acusados de colaborarem na entrada para a Torre, quando do primeiro  assalto da Polícia de Choque à Associação Académica :

a) Com trinta meses de exclusão de frequência da Universidade de Coimbra:

- António Carvalho

- Mário Brochado Coelho ( Direcção do CITAC)

-         Maria Fernanda Dias  ( Dir. Geral da AAC de 1960/61)

b) Com dois anos de exclusão da frequência da Universidade de Coimbra:

- Alberto Mendonça Neves ( República do Prakyistão)

- António de Sousa Almeida ( Secção de Judo )

- Luís Lemos ( Secção de Atletismo )

5º- Acusados de assinarem uma moção na Assembleia Magna da AAC que pedia um voto de censura ao Reitor da Universidade e a sua demissão :

a) Com dois anos de exclusão da frequência da Universidade de Coimbra:

- Albano Serra Pina

- Alfredo Estrela Esteves ( Via Latina )

- António Lameiras de Figueiredo ( República do Prakyistão)

- Carlos Alberto Furtado ( República do Prakyistão)

- Eduardo Casais

- João Bilhau

- João Quintela

- Jorge de Sousa Rocha ( República do Prakyistão)

- Manuel da Silva Ventura ( Secção Social )

- Maria Fernanda Granado

- Rui  Namorado ( Via Latina )

- Rui  Neves

b) Com um ano de exclusão da frequência da Universidade de Coimbra:

- António Machado Vaz ( República do Bamus ó Bira)

- José Macedo Cruz

- Vladimiro Pereira Mateus

6º- Acusado de emprestar a capa e hasteada na Torre, quando ocorreu o segundo assalto da Polícia:

Com um ano de exclusão da frequência da Universidade de Coimbra:

- José Luís Santos Lima / Secção Social )

7º- Acusado de subir à Torre, quando ocorreu o segundo assalto da Polícia:

Com um ano de exclusão da frequência da Universidade de Coimbra:

- José Luís Morais Alçada

 

 HOJE, ÀS 15 HORAS UMA COMISSÃO AVISTAR-SE-Á  COM AS AUTORIDADES UNIVERSITÁRIAS NA REITORIA.

 

                                                        Estudantes  de   Coimbra

Nota final:  No momento em que o comunicado foi divulgado a Associação Académica de Coimbra estava fechada compulsivamente no rescaldo da crise. A própria assinatura do comunicado sugere que não havia em funções órgãos académicos legais. É possível que não se mencionem alguns nomes por lapso. De facto, no próprio exemplar do comunicado que conservo há três nomes manuscritos que não constavam da versão publicada.

Nota posterior à nota final: Depois de ter escrito o que está para trás, lembrei-me de consultar de Álvaro Garrido, o livro “Movimento estudantil e crise do estado Novo” (pag.214 ) ( Minerva Editora- Coimbra ). Os nomes dos expulsos coincidem. No entanto, devem ser-lhe acrescentados mais alguns, cuja expulsão foi decretada apenas em Agosto de 1962. Ei-los:

         - Alberto Rui Pereira

         - César Oliveira ( República do Prakyistão)

         - António da Silva Coelho

         - Joaquim Tomé

         - Simão Santiago


sábado, 27 de junho de 2020

Recordando o Osvaldo Castro




Recordando o Osvaldo Castro
Já há alguns dias, a Teresa no FB e a Catarina, numa mensagem que me enviou, evocaram o Osvaldo com saudade e amor. Associo-me a essa memória numa homenagem fraterna e agradeço-lhes por me terem associado a essa lembrança. Deveria tê-lo feito mais cedo, mas uma circunstancial urgência na conclusão de uma tarefa útil absorveu-me a atenção por alguns dias. Escrevo agora.
Em junho de 2014 fui honrado pelo convite de participar numa homenagem ao Osvaldo Castro. É o texto que reproduz as palavras que então disse e que publiquei neste mesmo blog que aqui vou transcrever.

"Às vezes, o tempo atravessa-nos como um estilete implacável, para nos lembrar brutalmente como corre. É assim que os amigos nos deixam. Com ou sem aviso, mas inscrevendo sempre dentro de nós o rasto de uma saudade que, mesmo esbatendo-se melancolicamente, não passará.
E, quando partilhámos com eles desígnios, que foram muito para além da pequena dimensão de cada um de nós, essa saudade tinge-se de uma memória que a ergue sem tristeza, como se todo o passado que nos diz respeito estivesse afinal concentrado no futuro de que não desistimos.
Por isso, o Osvaldo está hoje aqui presente, não só como a sombra luminosa de uma saudade, mas também como camarada de um futuro que, mesmo quando parece afastar-se de nós pela crueldade fria da história, continua como horizonte irrenunciável das nossas vidas.
Corria o mês de Janeiro de 1968. Não sabíamos ainda que se aproximava um mês de Maio que inscreveria, uma vez mais, a França na legenda histórica do inconformismo e da revolta. Não sabíamos ainda que um velho ditador iria cair de uma cadeira e do poder, oito meses depois. E muito menos sabíamos que o garrote fascista que nos apertava o pescoço se desfaria em pó, pouco mais de seis anos depois.
Sete estudantes de Coimbra sentaram-se em volta de uma mesa para uma primeira reunião na cave da República do Ninho dos Matulões: o Osvaldo Castro, o Celso Cruzeiro, o Carlos Baptista, o Pio Abreu, o Jorge Strecht, o Jorge Aguiar e eu próprio. O Conselho das Repúblicas e os Organismos Autónomos haviam-nos escolhido para liderarmos o combate contra o estado de exceção na AAC, contra os delegados do Governo que usurpavam a direção da Associação Académica de Coimbra, contra a Comissão Administrativa que nos envergonhava.
A democracia tinha que regressar á nossa Associação, a Academia de Coimbra não queria ver prolongada a sua humilhação. Cabia-nos conseguir a realização de eleições.
Éramos, por isso, a Comissão pró-Eleições. Liderámos o movimento estudantil em Coimbra até ao início do ano seguinte, quando, tendo sido cumprido o encargo que recebemos, uma nova direção eleita para a AAC tomou o seu lugar na liderança do movimento estudantil em Coimbra.
Sinalizando uma continuidade procurada, o Osvaldo e o Celso faziam parte da nova direção, ao lado do Alberto Martins, da Fernanda da Bernarda, do Matos Pereira, do Gil Ferreira e do José Salvador.
Nessa tarde simples de um janeiro banal, começou de algum modo uma nova aventura. Aqueles primeiros sete estudantes, mas também os outros cinco, sabiam-se e queriam-se como apenas um punhado entre milhares. Gostavam de ler, de escrever, de viver o teatro, a música e o canto, de praticar desporto, de serem gente da boémia coimbrã e até de estudar. Gente comum que não tinha interesse em subir ao palco das pequenas glórias, que não estava impregnada pela vertigem ilusória das pequenas ambições. Uns acabados de entrar na juventude, outros navegando a meio do rio, outros ainda resistindo teimosamente a sair dela.
Não podíamos defraudar os que haviam confiado em nós. Não éramos heróis de coisa nenhuma, mas estávamos dispostos a vender cara a nossa pele. Não íamos cumprir um calendário de sofrimento. Íamos conseguir eleições. E houve eleições na AAC.
O fascismo, irritado com aquele primeiro passo, largou os mastins da violência contra os estudantes. Os estudantes resistiram. A luta entrou num patamar mais duro, novos protagonistas a lideraram nesta nova e mais difícil fase. A responsabilidade dirigente passara a um outro coletivo, no qual o Osvaldo também participava. Um outro coletivo, mas a mesma determinação e o mérito acrescido de terem navegado com êxito numa tormenta maior.
Sem tergiversarem, mas com a serena inteligência dos justos, com determinação, sempre olhando a realidade a partir dos estudantes, sem inúteis alaridos, mas sempre de pé, a Direcção-Geral da AAC ergueu-se com a Academia, tornando evidentes os limites que crescentemente apertavam o fascismo.
Nas reuniões assim como na liderança coletiva do movimento, o Osvaldo era o tecido conjuntivo que dava coesão às equipas, que transmitia serenidade e que limava com bonomia as arestas naturais das crispações de ocasião. Os companheiros de responsabilidade, os estudantes, não se limitavam a respeitá-lo. Gostavam dele.
O poder fascista não conseguiu esmagar a Academia de Coimbra. O governo não caiu, mas verificámos depois que algo se quebrou então dentro dele, arrastando-o para uma anemia crescente da qual nunca se viria a recompor.
Hoje, sabemos que aqueles anos mágicos vertebraram as nossa vidas sem que nos transformassem em antigos combatentes. O horizonte, que o Osvaldo partilhava com tantos de nós, continua vivo. É certo que talvez tenhamos encarado esse horizonte, ao longo da vida, de maneiras entre si diferentes, que nos levaram por vezes a enveredar por caminhos diversos, mas nenhum de nós deixou escapar as utopias em que realmente acreditava.
O tempo passou pelas nossas vidas como uma tempestade de esperança muitas vezes travada por melancolias e desilusões. O Osvaldo deixou sempre que a tempestade o levasse, não como folha perdida a que escapasse o norte, mas como a vontade firme e serena de quem quer fazer parte dela.
Mesmo quando os nossos caminhos se afastaram, sempre trocámos com naturalidade sinais de uma amizade intocável. Quando voltaram a convergir e nos reencontrámos na Assembleia da República como deputados do mesmo Partido, tudo se passou como se na semana anterior tivéssemos dito um até já, no fim de uma reunião. E haviam passado décadas.
Os anos haviam-no amadurecido, mas não o tinham mudado. Como deputado ou como governante, o Osvaldo, ainda mais apurado na sua competência, cultivou sempre como se voasse a memória dos anos mágicos, ouviu sempre com alegria o marulhar generoso das “repúblicas”, exerceu sempre sem embaraço a ironia aguçada da congeminação.
 Por isso, é hoje tão difícil saber se esta saudade é a melancolia de um outono que teima em nos invadir, ou a combustão virtuosa da esperança que nos faz viver, a todos nós, homens comuns vertebrados pelo futuro.
Concluo estas palavras de justa homenagem com um poema que escrevi em memória do Osvaldo, no meu blog, quando ele nos deixou:

Adeus, Osvaldo.

O tempo desabou sobre o teu nome
e o passado ocupou-te rudemente.

Um violento nó foi apertado
no coração mais triste da memória.

A tua ausência rasga-nos por dentro
como se toda a lembrança fosse dor.

Agora és a semente libertada
nas avenidas lentas do futuro.

Não chega!

É todo  o teu presente que nos falta
o sabermos que estavas nalgum lado.

Essa espera tranquila que sabia
ir ouvir-te de novo e abraçar-te.

É nova esta saudade e já sem fim.


sexta-feira, 17 de abril de 2020

EVOCAÇÃO DO 17 DE ABRIL DE 1969



EVOCAÇÃO  DO 17 DE ABRIL DE 1969

Abro as portas do tempo devagar
colhendo mil memórias de um só dia.

No espelho destes anos que passaram
sinto a sombra dos sonhos naufragados.

Há hoje na cidade nova peste.
Cerca os dedos da vida de um bolor
que nos queima e nos perde sem parar.

Não estava escrito então este silêncio
na boca das revoltas que inventámos.

Não era o não ser desta agonia
que apunhalava a negro a cor das ruas.

Por isso, esta guitarra que se esvai
desmoronada em peste  rua a rua
colhe em silêncio toda a luz do dia.

Escrevamos pois de novo outro lugar
onde caiba em pleno o mês de abril.

                        Rui  Namorado
                   [ Coimbra, 16 de abril de 2020]

domingo, 28 de julho de 2019

As pétalas do tempo


Em Braga, na Universidade do Minho, em abril passado, o Alberto Martins, o Celso Cruzeiro e eu, participamos numa conversa sobre a crise universitária de Coimbra de 1969. Uma conversa sobre o futuro.


sábado, 20 de abril de 2019

Em COIMBRA, no dia 23 de abril


                                              [Clique sobre a imagem para aumentar]

quarta-feira, 17 de abril de 2019

FOI HÁ CINQUENTA ANOS





Cinquenta anos do 17 de abril

a sombra dos outonos vai cobrindo
as cores da memória em movimento

música distante     verso lento
glória de inventar o que há de vir

o tempo desliza     docemente
veneno que não dói e incendeia

longe de tudo     aqui     no meio de nós
vivem dias que fomos    num só dia

aí deitámos fogo à planície
sem ódio ou vingança    sem perdão

fugiram os corvos da desgraça
esquecidos do próprio movimento

baixaram-se as pontes dos castelos
que fechavam todos os caminhos

alguém nos pôs na mão um fruto imenso
que guardámos sem medo

olhamos para trás     e é futuro
olhamos para a frente    e somos nós

                                    [Rui  Namorado]

sábado, 13 de abril de 2019

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Ainda em BRAGA - Comemorações dos 50 anos da Crise Académica de Coimbra de 1969

Comemorações dos 50 anos da Crise Académica de Coimbra de 1969 em Braga. 

Dias 11, 12, 13, 16, 17, 23 de abril e 28 de maio. 

Organização da CIVITAS, Fundação Bracara Augusta, Universidade do Minho e Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meio Século - O cortejo da Tomada da Bastilha de 1968



 O cortejo desfila na Rua Ferreira Borges. Neste momento, bandeira desfraldada, vai  a passar a  República dos Inkas.

Meio Século – uma leve respiração do tempo.
      -o cortejo da Tomada da Bastilha de 1968
Ouvi há poucos dias , num programa televisivo de referência que relembrava 1968, exaltar-se como transcendente uma discussão  estudantil  vivida em Lisboa  entre paredes e cobrir-se de silêncio o que então se passou nas ruas de Coimbra. Também por isso, vale a pena trazer à superfície um ligeiro perfume de verdade histórica. Confesso que fui também para tal acicatado por uma troca de mensagens entre o Zé Dias, o Matos Pereira e o Rui Pato acerca do cortejo da Tomada da Bastilha de 1968. Um episódio que viria a contribuir para o que aconteceu em Coimbra alguns meses depois.
Vou para isso, recorrer ao meu livro “Abril antes de Abril ─ A crise universitária de Coimbra de 1969” ─  limitando-me a citá-lo.
Na sua página 55, pode ler-se:
“No novo ano letivo (1968/69), prosseguindo a dinâmica potenciada em setembro, a CPE[ Comissão Pró-Eleições] manteve a atividade para que tinha sido escolhida. Nos momentos chave de todo esse processo o Secretariado do Conselho das Repúblicas (SCR), foi uma estrutura coadjuvante de grande importância. A CPE e o SCR sempre agiram concertadamente.
Em Outubro de 1968, foi-se tornando claro que o movimento pró-eleições na AAC ganhava força crescente, pelo que se sentia que as eleições académicas não tardariam. Quando isso foi patente, entendeu-se que era acertado (até como meio suplementar de pressão) dar as eleições como facto adquirido e desde logo lançar uma lista candidata à AAC. E optou-se por fazê-la sair das mesmas estruturas que haviam criado a CPE, concebendo o processo do seu lançamento de modo a
aproveitar o prestígio desta Comissão, sem deixar de tornar evidente a novidade da lista.       
Na sequência da entrega do abaixo-assinado dos estudantes de Coimbra a exigirem eleições na AAC ao Ministro da Educação (Hermano Saraiva) numa visita que ele fez a Coimbra, a CPE foi oficialmente recebida por ele no Ministério da Educação, em Lisboa.
Em 25/11/68, dia da Tomada da Bastilha, a CPE anunciou que o Reitor da Universidade lhe havia comunicado a próxima realização de eleições, embora em termos não totalmente coincidentes com os reivindicados por ela. Em 27/11/68, a CA anunciou que as eleições se realizariam em princípios de Fevereiro. Entretanto, a lista do CR fora publicamente divulgada em 23/11/68.”
Mais adiante pode ler-se na página 77:
“O cortejo tradicional da Tomada da Bastilha foi uma impressionante marcha de protesto contra a CA na AAC, tal como nós tínhamos progra­mado, e não a manifestação política que os dirigentes de Lisboa tinham sonhado vir fazer a Coimbra. Isso mesmo foi assegurado pelo próprio Conselho das Repúblicas que organizou o desfile”. E em nota de rodapé acrescenta-se : “ Vale a pena recordar um episódio relevante no processo de preparação do Cortejo. Para isso, veja-se o Anexo nº 14  (pag.  175 )”.
Na primeira parte anexo 14, explicava-se o que é a Tomada da bastilha na Academia de Coimbra : “O ponto alto das comemorações era o cortejo das repúblicas a que se associava toda a Academia e que descia atá à Baixa por onde passava, para voltar para Praça da República. Foi o que aconteceu também em 1968”. 
Na segunda parte, narrava-se o episódio em causa: “Ciente, a partir dessa manhã, dos problemas criados em torno do Cortejo da Tomada da Bastilha, pelos colegas de Lisboa, e aproveitando o facto de estarem presentes todas as repúblicas, no Sarau Cultural integrado nas comemorações, realizado essa tarde no Teatro Avenida, o Secretariado do Conselho das Repúblicas convocou de urgência uma reunião do Conselho.
A reunião decorreu nos bastidores do Teatro Avenida com todos os seus participantes de pé. E aí foi decidido que, sendo o cortejo das Repúblicas, elas se iriam responsabilizar por fazer com que ele decorresse de acordo com a orientação preconizada pelos dirigentes do movimento estudantil de Coimbra. E assim, o cortejo seria dividido em 22 segmentos claramente demarcados (um por república), cada um dos quais seria colocado sob a responsabilidade exclusiva de uma das repúblicas, a qual seria, portanto, responsável por tudo o que decorresse dentro dele.
Todos os estudantes que quisessem participar no cortejo iriam distribuídos por esses 22 segmentos, não havendo portanto cortejo fora deles. O cortejo seria silencioso até que em locais predeterminados se gritassem apenas duas palavras de ordem: “ Fora a CA!” (leia-se Comissão Administrativa da AAC) e “ Eleições Já!” (eleições na AAC, claro).
 O cortejo seguiu o percurso tradicional, tendo atravessado a baixa da cidade mais de três mil estudantes, que nos momentos adequados gritaram as palavras de ordem combinadas. O efeito foi enorme, transmitindo uma imagem de coesão e força de grande impacto.
A propalada tentativa de fazerem do cortejo uma manifestação ostensivamente política, mesmo ao arrepio da vontade dos organizadores do cortejo, que se dizia estar na mente dos colegas de Lisboa, foi assim reduzida a nada. Soube-se que foram esboçadas algumas tentativas, nesse sentido, pronta e implacavelmente anuladas pelos “repúblicos” responsáveis pelo espaço em que surgiram. O cortejo foi assim uma manifestação imponente de apoio aos objetivos imediatos da luta dos estudantes em Coimbra e como se sabe as eleições realizaram-se pouco depois com os resultados conhecidos”.
Evoco o que aconteceu homenageando fraternalmente todos aqueles que atravessaram o tempo naquela noite fria de novembro há cinquenta anos.