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terça-feira, 5 de dezembro de 2023

CAVACO

 


CAVACO

Cavaco veio, num destes dias num jornal de referência,  sublinhar uma vez mais o seu ódio ao PS. Exprimiu uma convicção forte. Mas não a soube  envolver em qualquer  acutilância genial .

 Assim,  produziu apenas  uma papa insalubre feita de insultos , de insinuações vagas e torpes, de sapiências apavonadas.

Na verdade, por mais  que se escave na  sua esforçada prosa, não se descobre o brilho de uma ideia original ou a sombra de uma crítica percuciente. Apenas o regougar azedo de um ódio que não cansa.

Perdido, o PSD ostentou-o como um troféu de excelência.  Fê-lo passear pelo seu silêncio, como uma ruidosa orquestra de tambores. Julgou talvez que desfraldava uma bandeira, mas apenas mergulhou numa estéril anedota.

domingo, 26 de novembro de 2023

O CONGRESSO

 


O  CONGRESSO

Assombração e Silva não desiste de fazer de homem do saco. Julga ele que assusta a esquerda, oferecendo-se como ícone ao que julga serem as legiões da direita.

A direita comove-se com o reaparecimento do fantasma dos seus sonhos perdidos. Ouve entretanto com reserva o alarido que rodeia o modesto salvador que lhe oferecem.

Esperava com ansiedade um robusto galo de combate. Teme que lhe estejam a querer fazer engolir o que os seus adversários possam com verosimilhança considerar um modesto, ainda que pomposo, garnisé.

O bom povo, que eles querem cercar, olha com desconfiança o circo mediático. Das apregoadas glórias do laranjal, recorda-se vagamente. Mas menos como glórias do que como pesadelos.

São também apregoadas legiões de sábios que, em reuniões muito circunspectas, congeminam gravemente os muros com que querem rodear o nosso futuro. No essencial, procuram convencer os explorados que acentuar-se a exploração é o caminho mais seguro (quiçá o único!) para que os pobres tenham a boa sorte de aproveitar o enriquecimento dos ricos para colherem os frutos da sua proverbial generosidade.

O bom povo pensa e torce o nariz. Habituado a migalhas, estranha quando lhe ofereçam banquetes.

Assombração e Silva sai para jantar, na esperança de que a esposa o espere com um petisco.

Os jornalistas e os comentadores, plenos de imparcialidade garantem que o número caváquico foi o sucesso de topo do transcendente conclave

domingo, 21 de maio de 2023

Regresso pardo do fantasma de Boliqueime

 

Regresso pardo do fantasma de Boliqueime

O fantasma de Boliqueime voltou, espumando  uma raiva fria. O seu rosto foi assolado por um ódio pardo, quase desregrado.

Na plateia laranja e chique pairava um cheiro acre  a  cavaquistão.  Montenegro, titubeante mas deleitado, hesitava em convencer-se que estava a ser auxiliado pelo mago algarvio.

Houve então um conselho de urbanidade no debate político. Mas o conselho  sentiu-se perdido no discurso do mestre. “O que é isto?” perguntou  assarapantado. “Que moleza é esta?” quase se indignou.

No entanto, foi o  próprio mago que lhe respondeu, fazendo-o perceber que a alegada urbanidade era apenas um voto pied0so e descartável. E, para que tudo voltasse ao normal, ele próprio mostrou como realmente devia ser a cartilha do PSD: explodiu num discurso de desbragado ódio ao PS, ao seu Governo, a António Costa. Sem nuances, sem reservas, sem excepções ─ um oráculo em fúria.

Um contraponto: o PS e os seus Governos foram e são o mal absoluto; o PSD e os seus governos foram e garantem vir a ser o bem supremo. Equilíbrio, imparcialidade e tolerância; forte sentido do ridículo…

Não hesitando em proclamar-se arcanjo do seu próprio céu,  e em beatificar a memória de Durão, quebrando o seu compromisso com os Portugueses após servir umas bicas aos senhores do mundo que vieram a uma terra portuguesa fazer a  dança da guerra; Santana dissipando-se; e Passos na glória de querer ser pior que a “troika”.

Quanto ao PS, fulminou-o com um resumo das larachas rasteiras da propaganda da direita, disparando-se  num festival de diatribes, com que admoestou severamente o povo português, censurando-o indirectamente por lhe ter dado os seus votos há pouco mais de um ano. De facto, o descavacado  povo apesar de décadas de experiências  de convivência com os “diabos cor de rosa” deu a um seu Governo um suporte maioritário que o pôs a coberto de surpresas e traições parlamentares.

Na verdade, a democracia tem muito que penar até chegar aos calcanhares da filosofia política iluminada do mago algarvio. Realmente votar é um desporto ocioso; melhor seria pedir ao Senhor de Boliqueime a lista dos ministros e um programa de governo e deixarmo-nos conduzir inebriados para o paraíso caváquico. Lá CHEGARÃO: ( julgam eles!).

Por mim, permito-me um sorriso final: forte da sua consabida cultura poética, para deixar respirar um pouco a sua prosa cinzenta, não conseguiu recorrer a outro exemplo que não fosse uma leve e tosca evocação  de Sofia, uma grande voz da poesia portuguesa que no seu tempo se sentou na bancada parlamentar do PS. 

Embora espantadas, as musas sorriram. Mesmo na poesia, o comité laranja  dos arcanjos prosaicos tem de se socorrer da tribo rosada  dos sonhadores.

 

 

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Pesadão e Silva falou.

 

Pesadão e Silva falou.

 


Pesadão e Silva falou.

Como irmão mais velho reduziu Rio a um esquálido ribeiro que censurou sem fraternidade pela irremediável secura.

Decretou teocraticamente a caducidade  da repartição entre a esquerda e a direita, mas inventou-se firmemente como o mais esotérico social democrata.

Glosou a vulgata crescimentista neoliberal com a transparência do simplismo economicista. Pavoneou-se  com a sua alegada vocação reformista, ruminando os mais sagrados tiques ideológicos  da direita mais classicamente inequívoca.

Massacrou ferozmente o PS, fornecendo o roteiro da sua oposição. Esmagou olimpicamente António Costa com o peso imenso da sua grandeza. O povo de esquerda exultou:” Se Pesadão e Silva nos ataca é sinal de que estamos no bom caminho-”

Antóno Costa limitou-se a fintá-lo. E a sorrir…

Num rasgo de última instância, o Prof. Silva ignorou corajosamente os trinca-fortes da saudade, varrendo-os para debaixo do tapete.

Só então a corte respirou de alívio e descansou:” afinal existimos! Uf!”

domingo, 7 de março de 2021

Fantasma de um pesadelo passado

 


Fantasma de um pesadelo passado

 

Cavaco Silva explodiu numa suave reunião de senhoras do PSD. A comunicação social dominante fez respeitosamente ecoar a voz tonitruante do seu antigo senhor.

Como se de um ousado pirilampo se tratasse, a sua rápida e modesta luz prometeu salvar-nos não se sabe bem de quê. Qual arcanjo providencial, veio ostentar uma  determinação firme: a de nos salvar, salvando a nossa democracia da terrível mordaça que a malévola geringonça (que assim ressuscitou) tem vindo a perpetrar contra todos nós.

Com argúcia pôs a nu os sinais mais fortes e mais preocupantes da opressiva mordaça que cerceia a nossa democracia: o ex-Presidente do Tribunal de Contas não foi reconduzido quando terminou o mandato para que havia sido nomeado, o mesmo tendo acontecido com a anterior Procuradora Geral da República. Neste caso o implacável fantasma de si próprio não hesitou em causar um dano colateral no seu sucessor na Presidência já que foi em última instância ele quem a nomeou. Terá o seu olhar de lince da Serra da Malcata descoberto nas brumas do mistério uma secreta implicação do Presidente Marcelo nas perversas maquinações de uma geringonça que afinal existe? O oráculo de Boliqueime deixa crer que talvez.

O ponto fraco desta paixão pela democracia que quer desamordaçar é ter uma intensidade demasiado forte. Tão forte que é dificilmente  harmonizável com a mansidão com que ele suportou  essa coisa que existiu em Portugal antes do 25 de abril e que certamente nem a sua percuciência consegue considerar como algo menos amordaçado do que o agora o atormenta. Pode ser que andasse então apenas distraído e que com o nobre peso dessa distração no seu inconsciente freudiano se exceda agora num paroxismo compensatório de vigilância democrática. Pode também ser um prosaico problema de maus fígados associado a uma possível falta de tempo para encontrar algo de aparentemente consistente que legitimasse algumas farpas mais agressivas no PS, no Governo e na alegada geringonça.

Será talvez a mesma falta de tempo para dar mais consistência ás suas pirilampices que o fez sugerir sem subtileza que os mortos da covid 19 são fundamentalmente culpa do atual governo. Só não se percebeu se o oráculo de Boliqueime imputava ao governo português a culpa apenas pelas consequências nacionais do vírus ou se a estendia à Europa e ao mundo. Não se sabe. De certeza certa, apenas se sabe que sentiu vergonha.

 Anda a OMS na China à procura da raiz da pandemia, quando facilmente evitaria perdas de tempo e dinheiro se perguntasse a Cavaco. Se estiver atenta é o que fará. Terá talvez apenas de inquirir se a culpa foi principalmente do Primeiro-Ministro, da Ministra da Saúde ou de todo o Governo. Aguardemos.

Também foram comoventes as melífluas alfinetadas que espetou em Rui Rio. Não se sabe se para o estimular se para o enfraquecer. Mas foi particularmente brilhante a lógica que uniu a sua enérgica diatribe desqualificativa do PS e a recomendação dirigida ao PSD para atrair os eleitores que têm preferido o PS. Rui Rio ficou tonto:" Então para conquistar os eleitores do PS insulto a escolha que eles fizeram?" Isso o oráculo de Boliqueime não explicou.

Mas onde ele mais se excedeu em rasgo, foi no críptico conselho dado a Rui Rio para lidar com o Chega. Não fale nele. Nunca responda a qualquer pergunta sobre ele. Seja inerte perante qualquer enormidade que venha dele. Notável como Cavaco, que foi tão eloquente em imaginar mordaças para as imputar ao atual  governo, numa pose de intransigente excelência democrática, tenha ficado preso numa bonomia inerte perante as piruetas neofascistas do Chega. Estranho! Tão estranho que é legítimo suspeitar-se que o aferidor de democracia que ele usa está notoriamente avariado. Ou então é o próprio oráculo de Boliqueime que está desbussolado, tendo-se perdido do norte e do simples bom senso.

Cavaco voltou, a direita mais linha do Estoril adorou, o jornalismo mole da matilha dominante mastigou penosamente as banalidades básicas. Mas se me perguntassem em que tipo de programa o colocaram não saberei dizer se foi um programa cómico ou trágico.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Cavaco ou a solene ingratidão



O Professor Cavaco foi para muitos  uma das maiores assombrações políticas que  afligiu Portugal depois do 25 de Abril. Para outros, no entanto, foi a reencarnação de uma providência generosa. A sua política acalentou  as conveniências de alguns e exprimiu as ilusões e os equívocos de muitos.  Mas  não podia ter sido o que foi se não tivesse tido muitos admiradores e alguns amigos. Alguns, entre os mais mediáticos, rodearam-no numa recente homenagem cheia de patine. Um tom elegantemente sépia perfumou o ambiente. Num máximo, como  sinal de uma ousadia discreta, no fundo da mesa, um homenageante, já  um pouco para lá da meia idade, deixava que se visse a sua falta  de gravata.Sabe-se que alguns ausentes mais notórios e anotáveis vieram na hora do café dar aquele abraço. À frente do homenageado um seu antecessor em Belém. já de si habitualmente grave, emprestava ao ambiente um acréscimo de solenidade.

O Professor levantou-se como se fosse já a sua própria estátua e cometeu o esperado discurso. A História com o  H grande dos grandes momentos fez-se sentir no discurso. O fantasma do nosso descontentamento falou. Os nossos pesadelos foram apresentados como sonhos. Cúmplice, a discreta plateia de comensais, aplaudiu com calor mas sem excesso. No perfilar solene das suas palavras surgiram agradecimentos, mencionaram-se feitos e ministros. Louvaram-se alguns esforçados carregadores de pianos das sua campanhas presidenciais. Interrompeu-se mesmo o repouso de Sá Carneiro, para uma invocação rápida. O seu espírito terá tido um bocejo de irritação.

Mas verdadeiramente irritada, paroxisticamente fora de si, terá ficado a alma laranja, a  alma nervosa do PSD. Realmente, o Senhor de Boliqueime ( o célebre lugarejo, que deixou de ser Poço para não estragar o lustro de lá ter nascido o Professor),que no discurso distribuiu agradecimentos com a mesma generosidade com que o atual inquilino de Belém distribui comendas, nem por uma vez, ao menos de raspão se referiu ao seu partido, o PSD. Nem uma vez!!

Recordam-se dos milhares de bandeiras laranja que invadiram ruas e praças, comemorando  as vitórias que sentaram Cavaco, primeiro em São Bento e depois em Belém? Recordam-se? Pois esqueçam já que  nada disso aconteceu! O Professor foi chefe de governo e presidente da República apenas pela sua irradiante popularidade pessoal e pela sua consabida infalibilidade. As vitórias laranja nunca existiram e o PSD também não, pelos vistos. Os presidentes de câmaras laranjas, os presidentes das juntas de freguesia laranjas, os governadores das regiões laranjas, nunca existiram. São fruto de imaginações doentias que se recusam a ver em Cavaco um gigante político que voa acima de todos e por cima de tudo.

Diverte-me ver como o mar de bandeiras laranjas que se agita no Chão da Lagoa, ano após ano, fica reduzido a um discreto marulhar de ondas desaparecidas , que o Professor Cavaco se pode agora dar ao luxo de ignorar. Se eu fizesse parte desse mar não ficaria satisfeito, mas também por isso,fico satisfeito por não fazer parte dele. 

Dizem os supostos adivinhadores de evidências que em política não há gratidão. Podemos ou não engolir a fição caváquica de que ele próprio não é nem nunca foi um político, mas não podemos deixar de constatar que quanto ao tique solene da falta de gratidão Cavaco se revelou um político de puro sangue.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O DISCURSO DO PÁSSARO PERDIDO




O discurso do pássaro perdido

Que fantasma é este  que se assombra
com a sombra do próprio movimento?

De onde vem este gelo que nos corta
o coração que guarda o que é futuro ?

Quem escavou o ódio nesta noite,
este hálito tão sujo e tão sombrio ?

Quem disse essas palavras tão cansadas,
erguidas como um muro contra nós?

Um corvo foge no palácio imenso
como se fosse o vento da desgraça.
As suas asas são a própria cinza,
 a sua voz , o verme da tristeza.

Um outono rasgou nesse discurso
o fantasma de todos os crepúsculos
e as palavras perderam-se dispersas,
sem carne, sem luz e sem futuro.

Olhámos esse amargo entardecer
já dentro de uma outra companhia.
Pegámos com cuidado o novo dia,
sabendo que só falta caminhar.

O gavião das sombras recolheu-se
à triste solidão do seu discurso
 e aí ficou gelando a sua cólera,
gelando-se a si próprio ainda mais.
                                 
                             RUI  NAMORADO

                                          [27/11/15]

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A Direita - o fantasma dos anos passados


Escribas, pequenos, médios e grandes vultos do jornalismo, intelectuais discretos, modestos ou finórios, atuais e ex-ministros, grandes catedráticos de pequenas instituições, enfim, toda uma luzida comitiva de porta-vozes confessos ou apenas professos da velha direita portuguesa, juntam-se para bramar a indispensabilidade de António Costa apresentar um governo com a solidez do basalto com a dureza do diamante. Ou então volta-se ao Estado Novo: só contam os votos da direita ( que por acaso são apenas 38%), ficando no poder o Pedro e o Paulo.
Como se a António Costa fosse exigível o infinito, quando à direita a tradição é a de lhe não se exigir nada. Como se a direita tivesse o direito natural de ser governo; e como se o Partido Socialista fosse excecionalmente autorizado a preencher algumas pausas, desde que obedeça ás condições políticas que a direita entenda por bem pôr-lhe. E, na conjuntura atual, desde que além disso se submeta a uma bateria de exigências pesporrentes, uma vez que ousa querer ser governo com o apoio das outras esquerdas, de modo a ter assim um apoio maioritário no parlamento. Exigências que a direita se esqueceu de que não são constitucionalmente exigíveis, como se, azamboada por lhe terem tirado o rebuçado que imprudentemente dera como certo, esteja possuída pelo sonho de que o 25 de abril nunca existiu.
Mas afinal a alternativa é entre um governo de António Costa suportado por um acordo político de razoável solidez e um governo de direita suportado por uma maioria sólida ? Não, não é. A alternativa é entre um governo do PS com um apoio maioritário na AR e um governo de gestão protagonizado pela direita que foi rejeitado formalmente na AR; e, portanto, politicamente sem maioria, provocatório e constitucionalmente inadmissível. Realmente, se Cavaco recusar um governo liderado por António Costa fá-lo-á ao arrepio da Constituição e  sem ter qualquer a hipótese de gerar uma solução mais sólida que lhe possa opor. Ora, um hipotético governo de gestão não só desobedece ao disposto na Constituição, como é uma solução incomensuravelmente mais frágil do que a que teria sido recusada. Com uma maioria contra ele na AR não tem qualquer viabilidade prática.

O que a matilha mediática tem pois  que mostrar é qual é a solução governativa que, na actual conjuntura, pode ser mais sólida do que um governo PS liderado por António Costa com apoio parlamentar maioritário na AR. Não o conseguirá porque essa solução não existe. E assim podemos dizer com justiça que a matilha mediática  da direita ou é intelectualmente desonesta ou é estúpida.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cinzento escuro, quase noite


O militante do PSD Cavaco Silva aproveitou o fato de ser Presidente da República para promover um tempo de antena do seu partido. Marcou a data das eleições. Perdeu-se num labirinto de instruções confusas aos eleitores, preconizando a realização de coligações, como se em Portugal elas não existissem, como se os partidos políticos devessem seguir os seus conselhos, coligando-se entre eles entusiasticamente.

Fiquei surpreendido. Estava perante mim um misterioso agente do pensamento esotérico ou um agente despudorado, ainda que algo emaranhado, de uma pressão política sobre o PS?

Realmente, estando ele a falar no termo  de uma legislatura, em que houve um Governo de coligação durante toda ela, que sentido faz ele falar em coligações como algo que não costuma existir em Portugal ? Ou será que, sem ter o desplante de o dizer às claras, ele quer pressionar o PS para que se  coligue com a direita se ele ganhar as eleições sem maioria absoluta? Ou, pior, estará ele a tentar inculcar na opinião pública a ideia de que pode haver uma vitória da coligação da direita sem maioria absoluta, mas geradora do direito de ter primazia na iniciativa de formar Governo, devendo nesse caso ter o apoio do PS ?

No primeiro caso, o PS pode formar um governo minoritário ( como Guterres fez ) ou procurar uma coligação ou um acordo parlamentar fora dos partidos que formam o actual Governo. Não poderá nunca coligar-se com quem acaba de ser derrotado e de fazer contra  o PS uma das mais miseráveis e mais reaccionárias campanhas de que há memória; não poderá coligar-se com os agentes políticos diretos dos poderes de facto financeiros que o PS terá que conter e contrariar quando for Governo.

No segundo caso, a coligação de direita desaparecerá no momento de fecho das urnas. Depois conta apenas o número de deputados de cada partido para se determinar qual deles tem mais deputados, o que lhe dá o direito de ser encarregado de formar governo , em primeiro lugar.

 Se a coligação de direita tivesse em conjunto mais deputados do que o PS, mas não chegasse à maioria absoluta e o PSD tivesse menos deputados do que o PS, seria o PS a ser chamado para formar Governo em primeiro lugar. A máquina de propaganda dos poderes instituídos está a tentar legitimar um golpe de Estado (que é aquilo que se deverá  chamar a qualquer decisão do PR que, por hipótese, ignore o número de deputados conquistado por cada partido, dando à coligação de direita o estatuto de partido unificado, colocando o PS artificialmente em segundo lugar, mesmo com mais deputados do que o PSD).

O PR não sustentou expressamente esta via golpista, mas tudo aquilo que disse não é incompatível com ela.

Por tudo isto, mais uma vez insisto. O PS deve varrer estas toscas tentativas de perpetuar no poder  os partidos da direita, mesmo sendo eles derrotados nas eleições.

 Se a coligação PSD/CDS tiver maioria absoluta ganha as eleições , caso contrário perde-as, mesmo que tenha em conjunto mais votos do que o PS sozinho. Realmente, sendo claro que o PSD está muito longe do PS, finge-se que é a coligação que conta como se fosse um partido e dá-se verosimilhança à ficção de  uma disputa apertada com o PS.

O PS pode deixar correr o marfim , calculando que a ficção da direita pode alimentar o voto útil á esquerda, mas por mim acho mais acertado denunciar um golpe de estado, quando o vemos, ainda que seja melífluo e suave.


Enfim, o discurso do PR de hoje chamou a nossa atenção para a necessidade de o PS como partido tudo fazer para impedir que a direita se perpetue em Belém. Não nos deixemos confundir . Os presidentes de direita  não tratam a esquerda da mesma maneira que os presidentes de  esquerda tratam a direita. Não foi por acaso que o PSD tanto sonhou com o célebre tripé que tiveram durante estes quatro anos: uma maioria, um governo, um presidente. 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CALINADAS 8: Porra Aníbal ! Ainda se fosse o Relvas...



Começo esta insólita história, pelo fim. A meu lado, no carro onde vinha a ouvir a RDP, de uma leve nuvem quase imaterial soltou-se i inesperadamente uma voz forte e indignada.
“Porra, Aníbal ! Cidadões!?!? Essa é demais. Nem o Relvas com as suas equivalências- relâmpago, está autorizado a uma tal calinada”.
Travei bruscamente, mas o esfumar ligeiramente turbulento da nuvem que acabara de falar ainda me deixou adivinhar o perfil  irritado do Luís Vaz. Sim. Esse mesmo em quem estão a pensar: o de Camões.
Mas o que  teria sido espanto, não chegou afinal a sê-lo. Logo percebi tudo. De facto, momentos antes, do alto da sua pose presidencial, cada vez mais acaciana e mais atraída pelo mimetismo em face de  um finado almirante, o Presidente Cavaco Silva espraiava a sua trôpega retórica em terras de Melgaço.
 E quando se aprestava  a subir com energia o tom, numa sonoridade próxima da épica, o grande Aníbal viu-se enredado numa modesta subtileza da língua portuguesa: o plural da palavra “cidadão”. E, quando os respeitosos ouvidos da assistência esperavam indolentemente ouvir falar nos vulgares “cidadãos”, Aníbal (o que raramente se engana), trovejou inesperadamente uma enorme dentada na língua portuguesa: ao referir-se uma e outra vez, com grande e calorosa energia,  aos “cidadões”.
Tenho que reconhecer que o nosso poeta teve toda a razão. Andou ele a moldar com os seus versos os alicerces da modernidade de uma língua, para alguns séculos depois, um pequeno  chefe de Estado, confessadamente tradicionalista e conservador, vir solenemente estropiar em público essa  Pátria simbólica..
Por isso, concordo plenamente com o Camões. “Porra Aníbal!  Ainda se fosse o Relvas…”

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

CAVACO, JOVENS E FUTURO

O Presidente da República não compareceu a uma cerimónia pública numa escola, antes anunciada. Podemos valorizar diferentemente o grau de verosimilhança da desculpa dada pelos respectivos serviços de apoio, mas todos ficámos a saber, quando vimos as imagens da contestação que o esperava, quais as verdadeiras razões da sua ausência.

Talvez, haja alguma injustiça quando se protesta contra o Presidente da República, por razões que mais acertadamente seriam imputáveis ao Governo. Mas deve compreender-se que nas emocionalidades reivindicativas acicatadas, por sucessivas decisões restritivas que vão estrangulando a qualidade da educação, não surja com clareza uma distribuição rigorosa de responsabilidades, pelo que nos falte ou nos agrida. O poder em toda as suas vertentes é, por isso, sentido como um todo causador do que justifica os protestos.


Mas, a seráfica postura do actual Presidente, conhecida produtora de frases, que ora desafiam a esfinge pela obscuridade do sentido, ora concorrem com o anedotário semanal pela aproximação ao dislate, não estava preparada para ser envolvida num tão desagradável banho de realidade. Prudentemente, ficou em casa.

Por mim, tive a sorte de assistir ao elevado modo como a estação televisiva do Dr. Balsemão (que, como se sabe, nada tem a ver com o principal partido do actual Governo), deu e embrulhou tão excitante notícia. Focou uma juventude bem disposta que foi gritando ao que vinha, para tentar abrilhantar um espectáculo cujo palco, hoje, era dela. Reivindicou coisas simples que facilmente se podem admitir como justas. Agitou cartazes e gritou.

Sem qualquer pausa, eu e os outros espectadores, fomos transportados para anos atrás, para o tempo do governo anterior, para nos ser demoradamente mostrada uma manifestação contra o Primeiro-ministro da altura, José Sócrates, nessa mesma escola. É certo que Sócrates foi , falou e foi abundantemente vaiado. E os jornalistas conseguiram armar a confusão informativa de nos mostrarem que não conseguiram saber por onde ele tinha saído. Mas mostraram mais os apupos a Sócrates de há anos atrás do que a espera do dia ao Presidente da República. É o que se chama honestidade informativa: esconder uma notícia de hoje, com outra de anos atrás.


Quanto ao actual Governo, os televisores deixaram passar fugazmente pelo ecrã um sujeito algo abrilhantinado, alegadamente Secretário de Estado de qualquer coisa relacionada com a educação, que tentou desesperadamente passar entre dois pingos de chuva sem se molhar. Conseguiu, graças à generosa mãozinha que lhe foi dada pelos “balsemões”.

No entanto, esta pequena anedota informativa merece pelos menos dois reparos. Em primeiro lugar, permitiu-nos recordar como foi virulenta a contestação a Sócrates, com muitos cartazes a chamarem fascista ao governo de então, podendo compará-la com uma outra actual dirigida a Cavaco, tão mansa em termos relativos. Episódio isolado? Talvez; mas é fácil reconhecer que muitos dos que contestavam alegadamente pela esquerda o Governo anterior, têm usado um tom bem mais contido para contestar o actual Governo. E, no entanto, tudo aquilo em que contestavam o anterior Governo foi , depois dele, drasticamente agravado pelo actual. Estarão constrangidos por se sentirem indirectamente responsáveis por terem aberto a porta a um Governo que veio piorar dramaticamente tudo aquilo que era objecto do seu descontentamento anterior?

Em segundo lugar, para além da gravidade das carências que motivam no imediato os protestos, para além das razões pontuais e imediatas que levam os jovens a rebelar-se, cada vez mais irá estar presente na sua emocionalidade reivindicativa, como atmosfera incontornável, um sentimento crescente e asfixiante de lhes terem confiscado um futuro.


Por isso, saber se caminhamos para uma revolta da juventude, dotada de uma energia transformadora de toda a sociedade ou para uma explosão social dissipativa, fechada num desespero sem saída, é uma questão cada vez mais central. Procurar aumentar as probabilidades da primeira hipótese é um dever cívico elementar, sabendo-se que serão os próprios jovens quem em maior medida fará pender a balança para um dos lados. Mas maginar que sucessivas gerações de jovens irão continuar a alimentar indefinidamente filas crescentes de frustração e desespero, para deixarem que viceje a árvore podre da desigualdade, é talvez o sonho da pequena casta que monopoliza poder e dinheiro, mas não passa disso.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

FANTASMAS

Os fantasmas do cavaquismo tardio assombram de novo o nosso dia a dia. Um deles, regressado já há alguns meses, tem vindo a ilustrar a variante rasca do surrealismo político. Outro, ergueu-se das profundezas do esquecimento e tentou esconjurar especificamente o Dr. Portas, aproveitando a oportunidade para dirigir a Sócrates uma leve sugestão depreciativa. Talvez, demasiado embrulhado na sua confortável e rentável vidinha pessoal, não tenha dado conta que as nogueiras velhas dão nozes chochas.


Dizem que, por seu lado, o fantasma de todos os fantasmas arrasta dia após dia pelos corredores do palácio os intoleráveis grilhões da sua quase irrelevância.

quinta-feira, 10 de março de 2011

ARREPENDIMENTO PRESIDENCIAL


Se não me faltar a necessária pachorra, talvez até volte a comentar a operação de socorro ao PSD, que generosamente o Presidente da República levou a cabo, no seu discurso de retomada de posse. Mas aqui apenas lhe vou fazer um breve elogio, que uma passagem do seu discurso inequivocamente merece.

O Presidente Cavaco teve a coragem, digo bem, coragem, de fazer uma explícita autocrítica pelo que foi uma das marcas identificadoras do seu longo consulado. Ele acha agora que não se deve fazer qualquer concessão aos favorecimentos partidários. Ou seja, arrependeu-se. E quanto a arrependimentos sinceros, mais vale tarde do que nunca.


Certamente, entre os seus remorsos mais recorrentes, imagino que o mais doloroso tenha sido causado pela célebre nomeação de um industrial de facas para administrador de um hospital, só ultrapassada, em esoterismo, pela nomeação de um esforçado estudante de economia para a administração de outro hospital.

sábado, 22 de janeiro de 2011

AS ELEIÇÕES E O REFORÇO DO COMBATE À CORRUPÇÃO


Amanhã é um dia importante. Pode fixar-se o quadro no âmbito do qual vai ser travada a luta política durante os próximos anos. As sondagens apontam para uma decisão à primeira volta da eleição presidencial , mas, se ocorrer um desfasamento idêntico ao que se verificou há dez anos em circunstâncias idênticas, entre as sondagens e os resultados, teremos uma segunda volta. Numa segunda volta, tudo pode acontecer.

As carpideiras encartadas pela campanha eleitoral, que também as há, decretaram a nulidade de tudo o que no decurso dela foi dito. Percorreram, implacáveis, todos os recantos dos discursos e, com um feroz esgar de reprovação, distribuíram zeros sem piedade. Bebericando o seu uísque na aconchegante poltrona de uma sólida auto-imagem, fulminaram os mortais com o raio certeiro da sua hiper-crítica. É pena que os mortais cada vez os olhem mais como trapos rabujentos de uma frustração qualquer, ou como efeitos colaterais de uma pose vazia, por detrás da qual quase nada existe.
Com isto, não estamos a absolver por completo os protagonistas políticos mais marcantes, quer pelo excesso de banalidades tão exaustivamente repetidas, quer pela excessiva carência de uma lógica argumentativa que cultive as respectivas identidades, em vez de as ocultar, quer pelo excesso de ostentação de multidões de adeptos em detrimento de uma autêntica sementeira de ideias. Mas daí a reduzir a zero tudo o que muitos pensaram e disseram, esquecer o calor dos entusiasmos próximos da esperança, vai a incomensurável distância entre o oito e o oitenta.


No entanto, quer o resultado eleitoral venha a abrir um novo tempo desafiante, com um Presidente que esteja dentro da poesia, capaz de convocar a nossa cultura e de compreender a aventura de ser português, para nos fazer aproximar de um futuro cosmopolita e justo; quer nos condene a mais alguns anos de arrastamento através da insalubridade de um cavaquismo decadente, já ficou desta campanha, como efeito colateral virtuoso, o imperativo de se deslindar politicamente o embroglio cavaquista que toldou a cena política como uma das causas mais marcantes da asfixiante sombra de promiscuidade entre política e negócios.

De facto, o vasto painel de favores e cumplicidades que paulatinamente se foi alargando, desde os velhos tempos do cavaquismo, vai mostrando possíveis conexões antes ocultas. Tudo começou pelos perdões fiscais em pleno cavaquismo governamental, evoluindo para uma imaginosa SLN que gerou um trivial BPN. As coisas começaram a azedar quando o inocente banco se transformou num caso de polícia, que envolveu alguns protagonistas dos velhos perdões, lugares tenentes de Cavaco. Um deles foi o seu generoso favorecedor no célebre caso das acções da SLN. Há ainda o labirinto de incongruências, distracções e acasos no recente caso da vivenda, também ela envolvida no incómodo perfume da SLN. Estamos perante um verdadeiro case study de promiscuidade entre política e negócios que não deve ser esquecido.
Não deve ser esquecido, como ponto de partida para a abertura de uma nova vertente no combate à corrupção; não como sôfrega procura de possíveis culpados no plano do direito, ou sequer como meio de suscitar censuras no plano da ética. Quanto aos aspectos que envolvam ilicitudes ou ilegalidades, hão-de funcionar os tribunais; quanto aos aspectos em que tenha fraquejado a dignidade que funcionem as consciências. Eu estou a falar apenas no plano político para se compreender a extensão de uma a promiscuidade entre política e negócios que esse caso tão sugestivamente documenta.

A revelação da necessidade de abrir uma vertente nova no combate à corrupção, não dispensa que se continuem a reforçar e a aperfeiçoar os meios clássicos dessa luta, mas mostra com claeza que eles incidem na parte visível de um grande iceberg, tendo chegado um tempo em que se tornou imperativo cuidar também da sua parte submersa. As origens da presente crise financeira internacional apontam no mesmo sentido. As ilegalidades que configuram a corrupção têm que ser combatidas com eficácia crescente, mas não se pode descurar a necessidade de se enfrentar o que há de estruturalmente injusto e de eticamente ilegítimo no edifício do capitalismo actual, nas suas rotinas predatórias incontroladas, na sua tendência inata para fabricar privilégios e desigualdades, na sua vocação profunda para concentrar em poucos a riqueza à custa da miséria de muitos.

O comprovado extravio político do cavaquismo tardio nas areias movediças da SLN/BPN veio tornar evidente que há um novo território a percorrer no combate à corrupção. Um território essencialmente político cujo atravessamento nos conduza a um patamar mais ambicioso da consistência da subordinação do poder económico ao poder político e a novos instrumentos de regulação da actividade financeira, bem como aos impedimetos e às restrições que se revelem adequadas a um efectivo reforço da garantia de que a promiscuidade entre negócios e política tem os dias contados.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

À PROCURA DA MANHA PERDIDA !


A manha do candidato Cavaco está a deteriorar-se. Estará assustado? Estará a perder qualidades? Estará a perder o norte?

De facto, ao executar uma manobra eleiçoeira algo trivial, numa postura de papão, tão ao gosto da direita conservadora, dizendo que, se houver segunda volta nas eleições presidenciais do próxima domingo, os especuladores internacionais, que têm vindo a cercar e a sugar Portugal, se acirrarão ainda mais contra nós, ele estava subliminarmente a proclamar-se como o homem de confiança no nosso país da quadrilha financeira internacional.

Não nos deu nenhuma novidade, mas confessou o que tão cuidadosamente vinha disfarçando: Cavaco sente-se como alguém em quem os especuladores internacionais têm confiança, como alguém que tentará garantir uma caçada tranquila a esses predadores encartados, no país de que quer ser Presidente.

Assim, muito provavelmente, se os portugueses o deixassem, tal como o então primeiro-ministro Durão Barroso foi aos Açores servir umas bicas a Bush e a Blair, quando estes deram o empurrão final à eclosão do desastre iraquiano, Cavaco viria a servir com gosto alguns cafés aos funcionários que o FMI enviaria para Portugal, se os mais profundos desejos da direita portuguesa se viessem a realizar.
[ A caricatura, acima reproduzida, foi retirada do blog Guilherme Pereira.]

domingo, 16 de janeiro de 2011

CAVACO - o chefe com pés de barro


1. Nos últimos dias, Cavaco despiu a pele de bonzinho e decidiu abrir a porta aos seus impulsos mais fundos, instituindo-se como chefe efectivo da direita portuguesa. Talvez o turbilhão emocional da campanha o tenha empurrado para essa sofreguidão, talvez seja afinal um sintoma de um seu desígnio ainda mais ambicioso e menos confessável: o de vir a ser o condottiero de uma próxima operação populista da direita portuguesa (se necessário autoritária), que a si própria se venha a instalar no papel de salvadora. Estranha salvadora é certo, pois viria salvar-nos da deriva económico-social a que nos conduziu o funcionamento do tipo de sociedade com que ela se identifica e que tem por função histórica exprimir e defender a qualquer preço, ou seja, do capitalismo.

Podemos compreender que esse político dissimulado e melífluo, que cultiva a arte de negar as evidências que não lhe convêm e desde logo a de renegar sempre a sua qualidade de político, tenha percebido que deixar-se ir a reboque dos dois partidos da direita portuguesa, na circunstância em que ambos caíram sob a alçada de lideranças traquinas, corre o risco de suscitar incómodas derrapagens. Risco tanto maior, quanto a conjuntura político-económica, nacional e europeia, desaconselha fortemente a que se entregue o leme a políticos de calções ou a adolescentes eternos que vêem na política pouco mais do que um palco para brincarem aos crescidos.

Podemos compreender, mas é prudente que receemos e é imperativo que evitemos, esse caminho tosco de regressão e de desqualificação da nossa democracia. E só há um meio seguro para se contrariar esse risco: vencer Cavaco, o putativo chefe dessa ambição reaccionária, na contenda eleitoral que se avizinha.

2. Animado, talvez, por esse sonho de poder, o experimentado político prometeu-se mais feroz, em face de qualquer governo que não seja seu súbdito, sugerindo-se disposto, no segundo mandato, a assumir de vez o seu inato providencialismo.

E como um verdadeiro homem providencial pretende-se bem acima dos mortais, ao mesmo tempo que se finge entre eles. Por isso, Cavaco achou indispensável embrulhar as trapalhadas do BPN, da SLN, das acções milagreiras, das vivendas caídas do céu, dos vizinhos amigos tornados esquecidos, num manto de silêncio e de esquecimento. E para dar consistência e eficácia a esse manto de esquecimento resolveu construir a si próprio uma estátua de hiper-seriedade que lhe protegesse a imagem e acalentasse o ego.

Mas as estátuas imaginárias são miragens efémeras, as coisas são o que são e os factos são teimosos. Cavaco pode escapulir-se, na voragem da última semana de campanha, com a complacência dos seus apoiantes que dominam jornais e estações televisivas. Pode escapulir-se, de modo a não ser verdadeiramente escrutinado, nesses aspectos, antes da primeira volta das eleições presidenciais. Mais difícil será manter os silêncios se o levarmos á segunda volta e seria irrealista julgar que escaparia do imperativo de esclarecer tudo, se fosse eleito Presidente da República.

3. Só para dar um exemplo, podemos circunscrever-nos às célebres acções da Sociedade Lusa de Negócios, dona do BPN. Foi difundido pela comunicação social (e não desmentido pelo próprio Cavaco) que a compra dessas acções, pelo preço que por elas pagou, representou uma situação de favor, dado que só puderam comprar acções a esse preço Oliveira e Costa e mais três sociedades pertencentes ao grupo societário em causa. O facto de Cavaco Silva ter sido contemplado no aumento de capital, pode levar-nos a pensar que não foi cumprida a vontade da Assembleia Geral de Accionistas que não o tinha incluído no elenco de beneficiários desse preço especial. Se foi Oliveira e Costa que, valendo-se do direito especial que lhe foi outorgado, fez um favor a Cavaco, há que demonstrar, no quadro do benefício que lhe foi outorgado, ele o poderia fazer.

Mas mesmo que Oliveira e Costa, nos termos da deliberação da Assembleia de Accionistas, pudesse conceder esse benefício a Cavacos, isso não apagaria só por si, a ilegalidade estrutural de todo esse negócio. Na verdade, à luz do Código das Sociedades Comerciais, nunca poderia ter sido outorgado a Oliveira e Costa (ou a qualquer outro sócio) um qualquer direito especial. De facto, se nas sociedades por quotas, em certos casos, podem ser outorgados direitos especiais aos respectivos sócios, nas sociedades anónimas isso nunca pode acontecer. Pelo contrário, só podem ser atribuídos direitos especiais a categorias de acções, identificadas por características próprias diferenciadoras que, logicamente, nunca se poderão radicar na circunstância de pertencerem ao sócio A ou B, sob pena de assim se frustrar a diferença que neste aspecto a lei fixou entre os dois tipos de sociedades.

Isto é, mesmo que no pacto social estivesse prevista a possibilidade de se favorecer um qualquer sócio, essa disposição seria nula, por contrariar um preceito do Código das Sociedades Comerciais que o impede. Se o pacto social não contivesse uma claúsula dessas, à nulidade acima referida acresceria uma outra resultante de estarmos perante uma tentativa de atribuir, conquanto ilegalmente um direito especial, que não estava previsto no contrato de sociedade, como a lei impõe quanto a qualquer direito especial.

E essas nulidades, sendo insanáveis pelo decurso de tempo, dada a sua causa, fazem com que a venda das acções, pelo preço em que o foram, seja nula, podendo ter que reverter para a SLN todos os ganhos que tenham resultado de negócios subsequentes, cuja validade tenha ficado inquinada pela nulidade do negócio inicial.

Este raciocínio jurídico não é, evidentemente, uma sentença, mas só pode ser infirmado pelo esclarecimento completo de todos os aspectos da transacção, de modo poder demonstrar-se eventualmente que aquilo que parece resultar dos factos conhecidos é afinal contrariado por algo que agora não seja público, embora não se veja que facto possa tornar legais caminhos tão grosseiramente contrários à lei, como os que foram percorridos.

4.
É pois claro que é uma obrigação de um candidato presidencial que, ainda por cima, acaba de cumprir um mandato como Presidente da República, esclarecer tudo isto. De facto, os dados publicamente revelados, e não desmentidos, apontam para um favorecimento praticado por um actual réu e resultante de uma ilegalidade grosseira.
Ora, foi uma teia de favorecimentos que conduziu o BPN ao buraco financeiro de onde o Estado português se viu forçado a tentar retirá-lo, com risco de graves prejuízos para o erário público, para evitar um risco de acrescida e grave fragilização da economia portuguesa. O beneficiário desse favorecimento foi chefe de um governo do qual fez parte o favorecedor, é Presidente da República e candidata-se a um novo mandato. Independentemente da dimensão desse favorecimento, não pode por isso deixar de explicar muito bem tudo o que se passou.

Já agora, como têm pedido alguns comentadores, seria bom que se revelasse se o pagamento das acções por Cavaco Silva foi feito por cheque ou por transferência bancária, para se poder afastar desde já a hipótese de que não se tratou de uma compra e venda, mas sim de uma oferta. Se esse esclarecimento for dado, continuarão a ser necessários todos os outros inerentes ao que acima se disse, mas ficaria desde já afastada a hipótese de uma vertente talvez ainda mais grave do favorecimento.

Só as explicações de Cavaco Silva poderão permitir que se determine a gravidade ética e política do possível favorecimento pela celebração dos negócios em causa, ou mesmo a eventual existência de consequências jurídicas de natureza civil. E chegadas as coisas onde chegaram, mais cedo ou mais tarde, vai ter que as dar.

A bem da transparência da vida democrática e da dignificação das instituições, em harmonia com a ética republicana de que se afirma seguidor, Cavaco tem que dar as explicações devidas antes da primeira volta. Se o não fizer estar-se-á a diminuir a si próprio e a tornar legítimo que se possa pensar que, se não esclarece tudo já, é porque receia que a verdade completa o possa de algum modo prejudicar.
[ Com a devida vénia, pedi a imagem emprestada a Luís Silva, seu autor.]
[ Este texto, sofreu alterações de estilo e de redacção, num pequeno número de períodos, às 17 h e 40 m de hoje, dia 16 de Janeiro de 2011. ]

sábado, 8 de janeiro de 2011

CAVACO - a sombra dos negócios


1. A campanha eleitoral para a Presidência da República foi incendiada pela questão do BPN, ou melhor pela reacção desastrada de Cavaco Silva a uma interpelação que lhe foi dirigida num debate televisivo. De facto, imprudentemente, achou que lhe cabia desferir um contra-ataque, descarregando as culpas, quanto aos prejuízos sofridos pelo erário público, sobre os gestores que foram encarregados de colmatar o buraco financeiro aberto pelos anteriores responsáveis pelo banco e omitindo qualquer reparo às vigarices que abriram esse buraco.

Foi um comportamento esquisito que fez naturalmente lembrar que Cavaco obtivera relevantes mais valias num negócio de acções de uma sociedade titular desse Banco.
Levantada a lebre, seria irrealista alguém imaginar que ela pudesse não ser corrida por completo.

2. Assim está a acontecer. Por detrás da primeira vaga de alaridos e de contra-alaridos, após alguns esclarecimentos tardios, arrancados a ferros, continuam por clarificar algumas questões decisivas.

Alguém aconselhou Cavaco a vender as acções num determinado momento? Se sim, porquê? Se não, por que razão resolveu vendê-las ? Vendeu apenas estas acções ou vendeu também outras que tinha noutros bancos ? Se sim, porquê?

Uma vez que o preço das acções foi determinado administrativamente, dado que as acções não estavam cotadas na Bolsa, não lhe passou pela cabeça que mais-valias assim, tão vultuosas em tão pouco tempo, podiam representar uma lesão dos interesses gerais da sociedade, se estivessem ao alcance de quaisquer accionistas ou um favorecimento pessoal, se elas fossem particularmente vultuosas apenas no seu caso ? Tendo sido noticiado que houve outras vendas de acções em que foram praticados preços semelhantes, àqueles de que beneficiou, continua sem se saber se na compra de acções Cavaco também pagou um preço semelhante ao que foi pago por outros accionistas na mesma época.

Mas, neste caso, é decisivo saber-se se os preços praticados foram espelho do valor económico real das acções ou um episódio que se traduziu num dano para a sociedade, provocado por um benefício injustificado assim outorgado a alguns accionistas. De facto, se o favorecimento pessoal é ética e politicamente reprovável, neste caso, ter-se-á que apurar também se, para além dele, o colectivo dos accionistas, ou uma parte dele, não infringiu a deontologia empresarial ou a lei, lesando os interesses da sociedade, em si própria.

É que está em causa, como facto já comprovado, um buraco de milhões e milhões de euros provocado pela gestão dos mesmos responsáveis que fixaram os preços das acções , o que acabou por se traduzir numa grave lesão do erário público.

O natural teria sido pois que Cavaco, no seu próprio interesse, tivesse respondido prontamente e com naturalidade a todas as questões levantadas. De facto, se tudo correu normalmente com ponderação equilibrada dos interesses da sociedade e de todo os accionistas, teria sido muito mais uma conveniência de Cavaco, do que uma exigência fosse de quem fosse, esclarecer tudo por completo logo que a questão foi levantada.

Poderá alguém alegar que Cavaco, imbuído de uma pureza quase angélica, estava tão longe de se imaginar sequer a cometer qualquer acção menos clara, que nem sequer admitia responder a quaisquer questões, mesmo para desfazer eventuais suspeitas, já que estas , por si sós, o indignavam. Ora, mesmo que em tese se pudesse aceitar que uma virtude tão funda se manifestasse legitimamente desse modo, o que não seria pacífico, neste caso, dadas as circunstâncias que o envolvem, nunca se poderia aceitar um tal silêncio por mais angélico e sincero que fosse.

Na verdade, tudo leva a crer que no caso do BPN estejamos, não só perante uma cadeia de actos fraudulentos, mas também perante um projecto construído de raiz com o objectivo central de agir sem respeito pela legalidade, em benefício de um grupo. Nesse projecto, tiveram funções liderantes figuras destacadas do que foi o cavaquismo, algumas das quais mantiveram depois relações políticas públicas com Cavaco. Todo esse processo, actualmente sob a alçada dos tribunais, se traduziu num enorme prejuízo para o erário público português, na sequência de comportamentos dos seus responsáveis que, tudo o indica, foram eticamente reprováveis e estão em vias de sofrer uma reprovação também jurídica. Esses comportamentos reprováveis, em larga medida, significaram vantagens especiais para alguns e prejuízos, pelo menos, para o erário público.

Ora, é um facto comprovado que Cavaco Silva fez transacções com a sociedade que detinha o poder sobre o BPN das quais retirou benefícios, cuja dimensão, em casos idênticos, não é comum. Basta isso, para ele ser ética e politicamente obrigado a explicar com clareza, descrevendo com detalhe e transparência tudo o que se passou, por que razão é que as vantagens dessas transacções, neste caso, apesar das aparências, não configuram afinal qualquer favoritismo relacionado com os vínculos políticos e pessoais que o uniam aos responsáveis pelo buraco financeiro do BPN, ou qualquer lesão para os interesses da sociedade a que correspondiam as acções. Se o fizer, tudo ficará esclarecido, tudo poderá voltar ao normal. Mas se o não fizer, por completo, deixará que se adense sobre si próprio uma nuvem de suspeição crescente que está longe de contribuir para a salubridade da democracia em que vivemos. Insalubridade esta que, obviamente, resulta da existência de ocorrências nebulosas ou censuráveis, e não do facto de se falar delas.

E não esqueçamos que Cavaco sempre se apresentou como um ascético moralista, distribuindo amiúde fortes lições de uma ética republicana que diz partilhar e sendo pródigo a distribuir pelos portugueses incentivos a favor do esforço, da frugalidade e do espírito de sacrifício, pelo que não pode eximir-se ao imperativo de deixar absolutamente claro e inequívoco que, do ponto de vista pessoal, tem autoridade moral e política para insistir em tão virtuosas exortações.

Crispar-se, trovejar insultos contra quem lhe sugira o óbvio, deixar os seus apaniguados ocupar o espaço mediático com ruídos atabalhoados e com alegações atontadas, só pode adensar o clima de dúvida que tem vindo a crescer.

3. Mas os seus apaniguados, na sofreguidão do imediatismo, não só muitas vezes o desajudam, com algumas vezes o enterram.

Uma ilustração da fragilidade desses apaniguados foi dada através do pseudo-caso levantado a propósito de um texto literário da autoria de Manuel Alegre utilizado num Semanário como elemento de promoção do BPP, cujos contornos já foram completamente esclarecidos. Não está em causa a má-fé de tentar meter num mesmo saco duas situações completamente distintas. Está em causa o tom de reprovação e censura com que pretenderam envolver esse pseudo-caso, encarando-o como se ele fosse uma projecção simétrica do que eles próprios pensam sobre o comportamento de Cavaco.

De facto, se pretendem compensar o envolvimento de Cavaco Silva num certo episódio com a alegação de um outro episódio envolvendo Manuel Alegre, sobre o qual fazem um juízo negativo, ainda que despropositado, isso significa que também avaliam negativamente esse comportamento do primeiro. Na verdade, se estivessem convencidos que aquilo sobre que Cavaco se cala não era susceptível de suscitar qualquer juízo negativo, não invocavam como seu contraponto um facto sobre o qual emitiram um juízo de valor também negativo.

4. Não há pois, neste caso, qualquer campanha negra conta ninguém, mas apenas uma necessidade de serem esclarecidos os contornos de um negócio em que participou um candidato a Presidente da República que, aliás, concorre a um segundo mandato.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

OS DOIS CAVACOS

A campanha para as eleições presidenciais continua a rolar, tão discretamente quanto possível, ao sabor dos poderes fácticos mediático-conservadores.

Nela deslizam dois Cavacos. Um, luminoso e institucional rodeado de figuras públicas, banhado melancolicamente pelo fado, desportivo entre os jovens, ostentando os galões de uma alegada competência como economista, piedoso perante as desgraças, vertendo uma lágrima furtiva pelos pobres e abandonados, avô de todas as crianças, moderníssimo na sofreguidão do ciberespaço. É o nosso presidente a navegar através das nossas angústias como um barco de serenidade. Arauto imodesto das suas vastíssimas virtudes é a segurança em forma de gente, embrulhada na bandeira nacional. É o vencedor coroado passando continuamente pelo seu arco do triunfo.

Mas há um o outro que, pouco a pouco, se vai afirmando como a sombra indelével do anterior. É um Cavaco hirto, tropeçando tenso nas palavras, escondendo ex-amigos debaixo do tapete, ficcionando glórias de governo num esforço para apagar a memória dos atalhos, por onde nos conduziu. Desliza como um felino pelas dificuldades da conjuntura, feroz e hipócrita para com os adversários internos, ronronante bichano perante os poderes fácticos internacionais que querem pôr um garrote no futuro do nosso país. Percorre os territórios densos da cultura, com o visível embaraço dos visitantes acidentais. Quando a pressão aperta, deixa vir à superfície a marca ostensiva da direita histórica que tão meticulosamente tem guardado no baú dos seus segredos.


Caminha através do seu própio discurso como se fugisse dele. As suas palavras são folhas secas que desenham outonos, mesmo quando revestidas pela previsibilidade do jargão mediático e pelo que há de mais “kitsch” no senso comum. As agências de imagem fazem tudo para o salvar. Em vão. As suas palavras atropelam-se com mais frequência, os seus gestos tornam-se mais hirtos, os seus discursos vivem em labirinto. As agências de imagem não desistem: esvaziaram-no meticulosamente da sua incerta humanidade, da contingente carne e do incómodo sangue. E aí está um candidato empalhado, movendo-se aos soluços numa sofreguidão de votos, distante de si próprio, reinventado pela direita numa saudade mórbida.

Estas dois Cavacos caminham a par no trajecto para as eleições presidenciais. O mais luminoso foge metodicamente da sombra que o persegue. O mais lunar não abandona a presa; e, como sombra que é, está sempre próximo e ameaçador.

Talvez não cheguem a encontrar-se, mas se isso vier a acontecer, o mais provável é que se abra um inesperado buraco negro político na direita portuguesa, ficando assim o povo em condições de poder respirar melhor.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

MEMÓRIAS PRESTIGIANTES


O Sr. Presidente da República do alto pedestal da sua virtude, ofereceu-nos a sua preocupação profunda pela perda de credibilidade dos políticos portugueses. Só temos que agradecer, retribuindo-lhe o cuidado. E assim não posso deixar de recordar algumas fotografias de arquivo, onde se podem ver José de Oliveira e Costa e Manuel Dias Loureiro, duas figuras públicas que como se sabe prestigiaram muito a classe política portuguesa.


sábado, 30 de outubro de 2010

EMBUSTE DE CANDIDATO ?


Ontem assistimos a uma dramática tentativa presidencial de disfarçar um enorme flop político com um embuste, nem sabemos se ingénuo, se desesperado.

De facto, o Presidente da República, sentindo pulsar em si ímpetos de candidato, resolveu fazer um número com o Conselho de Estado, desde logo inquinado por ter suscitado uma estranha ambiguidade: estávamos perante uma sede de aconselhamento por parte de Cavaco que seria satisfeita por tão circunspecto órgão ou perante uma grosseira tentativa de pressão política, mesmo que de generosos objectivos?

Se estávamos perante um pedido de conselho, qual era ele? Se estávamos perante uma tentativa de pressão, em que preceito constitucional se outorga ao Conselho de Estado uma tal competência, uma tal legitimidade?

Mas tudo isto se esvaziou como um balão furado, quando, ainda em plena reunião do Conselho de Estado, foi difundido por uma estação televisiva que o Governo e o PSD tinham chegado a acordo para a viabilização do orçamento. E em vez de engolir civilizadamente o flop, congratulando-se com o êxito das conversações, o Presidente, certamente impelido pela sua costela de candidato já declarado, fingiu que ainda não havia qualquer acordo quanto ao orçamento e apelou num palavreado entaramelado para que governo e PSD chegassem a um acordo até quarta-feira, quando não podia ignorar que esse acordo já fora alcançado.

Enfim, uma reunião de legitimidade duvidosa transformada num flop político, que se tentou disfarçar através de um embuste, desesperadamente destinado a transformar numa grande vitória aquilo que afinal não passou de uma enorme escorregadela.