Mostrar mensagens com a etiqueta Pio Abreu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pio Abreu. Mostrar todas as mensagens

domingo, 23 de maio de 2010

A sangria



Saiu no DESTAK mais uma manifestação do Estranho quotidiano que regularmente J.L.Pio Abreu traz ao nosso encontro. A sangria é o seu título, desta vez. Vou publicar o texto com autorização do autor. Ei-lo:

A SANGRIA

Antes do Século XVII, os médicos europeus prescreviam a sangria por tudo e por nada. Na verdade, eram tão incompetentes como grandiloquentes. Agarrados aos dogmas, pouco mais sabiam do que profetizar a desgraça com nomes sonantes ou prescrever sangrias. E mesmo estas eram executadas por barbeiros de casta inferior, pois os sacrossantos médicos não podiam sujar as mãos com o sangue dos desgraçados.

No século XVIII as coisas começaram a mudar por várias razões. Primeiro, os barbeiros tornaram-se cirurgiões e médicos, confiando mais na observação directa do que nos dogmas. Segundo, descobriu-se que a cólera vinha da água contaminada. Pasteur e a imunização viriam a seguir e, só no século passado, passaríamos a dispor dos antibióticos. Identificados os agressores – vibriões, bacilos, cocos, riquétsias, vírus – existem hoje várias formas de nos defendermos. A sangria desactualizou-se.

Parece que também existem comunidades – instituições e países – que estão doentes. Os seus médicos – os economistas – só sabem profetizar desgraças ou receitar sangrias. Do cimo da sua arrogância e dos seus dogmas, também eles entregam a sangria nas mãos da casta inferior dos políticos. Entretanto, vão-se conhecendo os nomes de alguns agressores: short-selling, naked CDSs, agências de rating, edge funds e outros. O remédio, porém, parece ser sempre o mesmo: sangria.

Não se percebe porque é que os tratamentos dos economistas são tão básicos. Mas há quem lembre que os médicos privados podem ganhar mais com a doença do que com a saúde dos outros.

[J. L. Pio Abreu]

sexta-feira, 14 de maio de 2010

O turbilhão

Com autorização do autor, vou transcrever mais um texto de J.L.Pio Abreu sobre o Estranho quotidiano que nos envolve. A crónica intitula-se O turbilhão, tendo sido publicada hoje no Destak. Ei-la:



O turbilhão

O último fim de semana foi histórico neste mundo global. O capital circulava à volta do globo e fazia turbilhões mais rápidos do que aqueles que a atmosfera engendra. Na Europa, num dia se perderam milhões, no outro dia tudo estaria perdido se ela continuasse a dormir. Melhor: se os nossos políticos não se soubessem entender a uma velocidade compatível com a dos cliques electrónicos.

Não era caso para menos. Por bem ou por mal, vivemos hoje dependentes dos fluxos de dinheiro que circulam pelos discos duros dos computadores. Aos políticos eleitos cabe governar dos povos que os elegeram. Mas eles deixaram-se adormecer quando acreditaram nas virtualidades da livre circulação do dinheiro transaccionado nos mercados. Enquanto os governos antigos se entregavam nas mãos de Deus ou da Glória Nacional, os governos actuais iam-se entregando nas mãos do Mercado.

Mas os mercados são feitos e dirigidos por homens. Não homens como nós, que nos vemos face a face, vivemos uns para os outros e aceitamos alguma frugalidade em troca da sã convivência, mas homens vidrados nos computadores e cegos para tudo o que não seja a sua ganância. E estes são implacáveis. Seriam capazes de destruir milhões de pessoas em troca de ganhos chorudos. Foi o que esteve quase a acontecer.

Neste fim de semana, os políticos europeus subverteram a lógica dos mercados ao criarem uma barreira de dinheiro fora da livre circulação. Assumiram a sua responsabilidade perante quem os elegeu, e demonstraram que a inteligência pode vencer a irracionalidade predadora.
[J. L. Pio Abreu]

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Inquisidores

Com a expressa anuência do autor, vou transcrever mais um reflexo do Estranho quotidiano através do qual J.L.Pio Abreu nos conduz, materializado numa crónica intitulada Inquisidores, publicada na semana passada no Destak. Ei-la:


Nalguns lagos da Europa, durante a idade média, quando uma mulher era suspeita de ter um pacto com o diabo, atiravam-na à água. Se flutuasse, era culpada e sentenciada. Se fosse ao fundo, coitada, era inocente. Aliás, a inquisição sempre funcionou assim. Os acusados eram torturados até à morte, ou até se considerarem culpados. Neste caso, cessava a tortura e celebrava-se a execução.

Os inquisidores, apoiados pelo público que apreciava o espectáculo, convenciam-se de que estavam a fazer um trabalho meritório. Eles eram feitos da mesma massa que nós, e não tenho dúvidas de que, se olharemos à nossa volta, encontraremos pessoas dispostas a desempenhar o mesmo papel.

Aliás, nem é preciso olhar à volta, basta ligar a televisão. Os nossos parlamentares, transformados em comissão de inquérito, dão-nos uma imagem do que poderia ser a inquisição moderna. Os seus objectivos – descobrir quem sabia de um negócio que não chegou a existir – são tão imaginários como os pactos com o diabo. Os seus métodos, com desprezo pelo contraditório, servem apenas para justificar as suspeições.

Além disso, boa parte do público aplaude. De facto, ele sente-se aliviado porque pode dirigir a sua zanga contra os bodes expiatórios apresentados como responsáveis por todas os males. A única coisa que falta é o espectáculo da fogueira. Não porque muitos o não desejassem. O problema é que a notícia correria mundo, e o mundo civilizado não deixaria que isso acontecesse na Europa de hoje. [J.L.Pio Abreu]

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Mercado

Com algum atraso e com a sua autorização, aqui vai mais um "Estranho quotidiano", traduzido por J.L.Pio Abreu em mais uma das suas crónicas ("O mercado"), publicadas no DESTAK.

O Mercado

"O leitor já alguma vez jogou na bolsa? Duvido que agora o faça, mas é possível que tenha cedido à tentação num momento em que todos ganhavam com isso (um "bull market"). Seguramente, andou um pouco ganancioso enquanto tudo corria bem, mas acabou por perder porque outros mais gananciosos o fintaram.

Dizem que o Mercado é o lugar onde os interesses dos cidadãos se equilibram harmoniosamente, mas não é. Apenas uma minúscula parte dos cidadãos opera directamente no Mercado. De todos, são os mais gananciosos e truculentos. São mestres do ofício de dar mais dinheiro a quem já o tem, a começar por eles próprios.

Os agentes do Mercado podem convencer-se que trabalham para fundos de pensões, dando ganhos aos reformados e aforradores que neles confiaram. No fundo, porém, estão a pensar na sua extravagante comissão. Arriscam tudo e arriscam, sobretudo, o dinheiro dos outros, sabendo que o mais que arriscam, da sua parte, é o despedimento com uma choruda indemnização. Nunca ficam pobres como aqueles que fazem empobrecer.

A população trabalhadora e pacífica sempre se sujeitou aos invasores e cúmplices locais que, sendo minoritários, eram suficientemente agressivos para imporem a sua lei gananciosa. Com a democracia, pensámos que nos livrávamos deles. Mas não. A minoria agressiva disfarça-se hoje de agentes do Mercado. Com grande sofisticação, destroem pessoas, empresas e nações. Poderão os políticos democratas lutar contra eles? Talvez não. O mais que podem, tal como dantes, é fazer acordos e enviar sinais para os acalmar".
[J. L. Pio Abreu]

sábado, 13 de março de 2010

O clamor das virgens


Mais uma manifestação do Estranho quotidiano que J.L. Pio Abreu publicou no Destak de 12/3/2010. Deixo-vos com ela devidamente autorizado pelo seu autor. Ouçamos:

O clamor das virgens

"Em 1995, Bill Clinton, acossado por uma matilha de jornalistas, afirmou: “Eu nunca tive relações sexuais com essa mulher, a senhora Lewinski”. Bill Clinton já andava a ser perseguido por vários outros pecadilhos, mas desde que a “amiga” Linda Trip entregou gravações das conversas telefónicas com Mónica Lewinsky ao procurador Keneth Starr, o clamor das virgens não o largou mais.

Mentiu, disseram elas, e tinha antes mentido sob juramento. Perjúrio, clamaram elas. Elas, as virgens transparentes que nunca pregaram uma mentira, que nunca omitiram um facto da sua vida, que não tiveram relações impróprias com ninguém, não falando já, evidentemente, de ter tido relações sexuais. O clamor das virgens não largou mais o presidente, de tal modo que, meses a fio, a nação americana esqueceu tudo o resto para se concentrar na questão semântica: o que significa ter relações sexuais? Clinton acabou por admitir que teria tido relações impróprias com Lewinsky, mas não relações sexuais. Não havia assim mentira nem perjúrio. O clamor das virgens sossegou.

O clamor das virgens anda agora por Portugal, embora seja diferente a sua virgindade. As virgens portuguesas são aquelas que, como se tem visto, nunca dizem senão a verdade. São aquelas que nunca tentaram influenciar a opinião pública, nunca compraram ninguém e, sobretudo, não se venderam. São as que ganham honestamente pelo valor do seu trabalho útil e nada receberam do Estado. Andaram descalças por este país minado e nem sequer sujaram os pés. Milagres da virgindade!"


[J. L. Pio Abreu]

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Governo de Jornalistas


Aqui vai, com autorização sua, mais uma crónica do J.L.Pio Abreu, publicada como mais um afloramento do seu Estranho Quotidiano, que desta vez assumiu, no Destak de 25/2/2010, o rosto de uma proposta muito peculiar, um

Governo de jornalistas.


Depois do que tem acontecido, dei por mim a pensar no que seria um governo de jornalistas. Os governantes seriam conhecidos, quase íntimos, já que nos entram todos os dias pela casa dentro. O contacto diário com os cidadãos permitiria explicar e fazer aceitar as suas políticas. Nem teriam oposição, pois esta só poderia transmitir as suas mensagens através dos jornalistas, ou seja, através do governo.

Dir-se-á que os jornalistas são plurais nas suas opiniões e, por isso, não formariam um governo homogéneo. Mas o que se vê é que facilmente se põem de acordo uns com os outros. Defendem acima de tudo a liberdade de dizer o que lhes apetece sobre quem quiserem, um direito que lhes assegura a eficácia, pois qualquer opositor se pode transformar em bode expiatório.

Um governo de jornalistas podia poupar recursos. Trataria da saúde pela televisão, como se fez com as epidemias de gripe, e faria uma telescola que dispensasse os professores. O pesado e dispendioso aparelho de justiça seria substituído pelos julgamentos públicos sumários. Teriam apenas de manter polícias que fizessem escutas e outras invasões da privacidade, e talvez uns magistrados que escrevessem obras de ficção com impacto popular.

Um governo de jornalistas só teria um problema. Como eles não fazem auto-crítica, não diriam mal do governo, arriscando-se a ficar sem audiência. Sem audiência não teriam emprego e, portanto, não haveria jornalistas para formar governo. Ou seja: um governo de jornalistas tornaria impossível a existência de um governo de jornalistas.

[J. L. Pio Abreu]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O que os meus olhos viram


Transcrevo, com a sua expressa aquiescência, mais uma peça do "Estranho Quotidiano" que J.L.Pio Abreu traduz regularmente em crónicas publicadas no Destak. Leiam.


O que os meus olhos viram

Eu vi os partidos extremos da esquerda e da direita obrigarem um governo em apuros a reduzir a receita e aumentar a despesa. A direita tem tendência a reduzir a receita e a esquerda tende a aumentar a despesa. Mas ver os dois extremos coligados para defender ambas as coisas, era coisa nunca vista.

Eu vi o Dr. Jardim propor uma coligação dos partidos extremos da direita e esquerda. O Dr. Jardim costuma dizer coisas espantosas. Mas pensar num governo composto por Paulo Portas, Ferreira Leite, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, é ainda mais espantoso.

Eu vi Felícia Cabrita fazer um “most” jornalístico com a divulgação de processos judiciais sigilosos, tal como fizera nos casos Freeport e Casa Pia. Eu sei como ela consegue obter os segredos mais bem guardados. Mas ver o País pendurado das iniciativas desta mulher, é coisa arrepiante.

Eu vi dois magistrados da província, depois de cuscarem conversas entre jovens negociadores, convencerem-se de que existia um plano para destruir o Estado de Direito. Os jovens apenas falavam de nos livrar da fúria justiceira de Manuela Moura Guedes e seu marido. Achar que o casal Moniz é o Estado de Direito, deve ser anedota.

Eu vi a comunicação social dizer que não existe liberdade de expressão em Portugal, enquanto usava a liberdade de atacar o poder de forma nunca vista. Eu lembro-me do tempo em que não existia liberdade de expressão. Dizer que ela não existe agora, soa-me deveras estranho.

[J. L. Pio Abreu]

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Ruído


Com a sua expressa autorização, transcrevo mais uma peça do "Estranho Quotidiano" para o qual J.L.Pio Abreu, nos vem chamando regularmente a atenção no DestaK. Desta vez, trata-se de um Ruído, detectado no passado dia 5/2/2010.
Eis a crónica:

“Amanhã haverá um eclipse do sol. Se estiver bom tempo, os soldados formarão na parada para assistir ao fenómeno. Se chover, manter-se-ão na caserna”. Foi isto que o coronel comunicou ao capitão. Logo o capitão disse ao sargento: “Por ordem do nosso Coronel, amanhã haverá um eclipse do sol. Se estiver bom tempo, os soldados formarão na parada. Se chover, será na caserna.”Finalmente, o sargento comunica aos soldados: “Amanhã, se chover, o coronel fará eclipsar o sol dentro da caserna. Se fizer bom tempo, será na parada.” Os soldados comentam entre si: “Parece que amanhã vão eclipsar o coronel dentro da caserna. Nós vamos apanhar sol para a parada.”
Esta é uma história dos compêndios de comunicação. Serve para ilustrar os efeitos do ruído quando se referem factos contados por fulano, que os ouviu de sicrano, e por aí fora. Em cada transmissão, a informação adultera-se. Mas o mais interessante é que cada um acaba por ouvir aquilo que quer. Sobre a historieta que dominou as altas preocupações dos jornalistas, alguns dizem que o Governo, na sua perseguição à liberdade de imprensa, se reúne nas mesas dos restaurantes para sentenciar em voz alta a próxima vítima. Outros dizem que um jornalista, num assomo de auto-importância, se deixou convencer que era temido pelo Governo e aproveitou para se despedir de um trabalho acessório a fim de se dizer perseguido. Alguém terá razão?
[J. L. Pio Abreu]

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A corja - regresso indecente


Mais uma vez, após seu expresso consentimento, dou a palavra ao Pio Abreu no Grande Zoo. São três manifestações do “estranho quotidiano” que nos rodeia, que pela sua unidade temática vão ser transcritas em conjunto. Aliás, foi recentemente divulgada em livro pela Dom Quixote uma colectânea deste tipo de crónicas de J. L. Pio Abreu, tendo exactamente como título “Estanho Quotidiano”.

Estes textos falam por si; e falam bem. Alertam-nos para uma pirataria moderna melifluamente ungida por imaginária virtude e falsamente revestida de um alegado rigor, que mais não é do que um colete de ferro, destinado a impedir que as nossas sociedades evoluam para novos patamares de justiça e de liberdade.

É como se nos quisessem impor um falso critério de excelência, cuja única finalidade é prender-nos irremediavelmente à mediocridade.

Mas, percorramos as três crónicas do Pio Abreu saídas no DestaK, ao longo deste mês de Janeiro de 2010.

1. A corja
8/1/2010

Uma vantagem da crise foi livrar-nos da petulância dos economistas liberais. Eles, que nos anos 90 sonhavam um mundo perfeito comandado pelo Mercado, que apregoavam as vantagens do Estado mínimo, que viam como crime a injecção de moeda pelos Bancos Centrais, que apontavam como modelo a Islândia e a Irlanda, que achavam seguros os negócios do Lehman Brothers, calaram-se e esconderam-se quando viram tudo isso ruir numa crise que não souberam prever.

Quando apareciam, envergonhadamente, era para pedir a salvação dos bancos e felicitar os Governos que o faziam. Já aceitavam a injecção de dinheiro, achavam bem a nacionalização dos Bancos e que os Estados se endividassem para os salvar. Até pediam ética na actividade económica, chegando a criticar os ordenados milionários e a existência de Offshores.

Foi assim que os Bancos foram salvos e a sua crise acabou. Mas continua a crise das empresas a quem eles cobram juros elevadíssimos, aumentando, por arrasto, o desemprego. O problema já não é dos Bancos, mas sim dos Governos que perdem receita e gastam na protecção social. Mas o pior é que estão aí de novo os economistas em todo o seu esplendor.

E o que dizem eles agora? O mesmo que há 10 anos, quando glorificavam a Islândia e a Irlanda: que o Estado não se pode endividar e, como perde receita e aumenta a despesa, só lhe resta vender-se. Vender-se, a começar pelas escolas e hospitais, dizem eles. A mim, dá-me vontade de dizer que nos livrem dessa gente. O seu receituário já fez mal que chegue.

2. O homem do fraque

15/1/2010

Lembram-se do homem do fraque? Era uma alternativa às “cobranças difíceis”. Um homem vestido com um fraque acompanhava o devedor para todo o lado, chamando a atenção para o “caloteiro”. Quem o contratava era, evidentemente, o credor, esperando assim que a vergonha do perseguido o levasse a pagar.

Os Estados também têm o seu homem do fraque. Pertence às agências de rating que, entretanto, introduziram algumas diferenças. Ele não assinala quem deve (quase todos os Estados devem), mas quem não tem possibilidade de pagar o que deve. Além disso, ele não é pago pelos credores, mas sim pelos devedores. Talvez lhe paguem para que se mantenha longe. De facto, enquanto a crise já corria, com grandes instituições e alguns Estados a falir, ele não assinalou qualquer risco para os credores.

Para recuperar a credibilidade perdida, as agências de rating estão aí de novo. Descobriram que só acertam quando trazem más notícias, como aconteceu em tempos no Canadá. Basta prever algum risco para que a reacção dos mercados e o aumento dos juros endividem mais o Estado. O pior é que os Bancos locais ficam com o negócio estragado porque, também eles, passam a pagar taxas de risco. A simples profecia faz realizar o desastre.

O homem do fraque anda agora na Europa. Está na Grécia, que teve de recorrer ao FMI. Foi à Espanha, a França e ao Reino Unido, por adoptarem medidas keynesianas para vencer a crise, o que parece ser crime. Mas veio também a Portugal para condicionar o próximo orçamento. Os nossos banqueiros andam assustadíssimos.

3 . CDSs
22/1/2010

Suponha o leitor que acaba de descobrir que terá uma vida curta. Tem vários seguros de vida mas precisa do dinheiro agora. Pode então nomear algumas pessoas como beneficiários, com a condição de lhe pagarem. Como a indemnização estará próxima, elas pagarão bem o benefício que lhes oferece. Mas a venda dos seguros de vida fará com que os compradores fiquem atentos à sua saúde: se um médico certificar que está mais doente, os seguros valerão mais, e mais gente se dispõe a comprá-los. A revenda começa então a ser um negócio. Quanto mais doente estiver, maiores os lucros de quem aposta na sua morte rápida. Imagina agora o que lhe pode acontecer?

Se este cenário é ficção, ele existe com os seguros sobre a vida económica de empresas e nações, os CDS (Credit Default Swaps). Compram-se e vendem-se num mercado desregulado e deixaram de cumprir os objectivos para que foram criados. Várias vozes, incluindo as de Obama, Alan Greenspan, Warren Buffet e Myron Scholes, que participou na organização dos swaps, avisaram para o perigo que representam e clamam por regulação. George Soros tem demonstrado que o seu valor, agravado pela especulação, já não reflecte a saúde das empresas e nações, sendo antes factor de destruição que pode gerar novas crises.

Da influência dos CDSs na crise actual, já ninguém se lembra. Estes produtos tóxicos estão de novo a enriquecer os ex-falidos Bancos de Investimento e a destruir a saúde das nações. Contam com a ajuda das agências de rating que, para já, nos diagnosticaram uma “morte lenta”.

domingo, 29 de novembro de 2009

O Transe

No DESTAK, Pio Abreu, na sua coluna "Estranho Quotidiano", publicou mais um dos seus textos [O transe], tendo-me autorizado a reproduzi-lo neste blog. Ei-lo:


O transe

Quando assisto ao desfile de juristas e professores que opinam sobre o magno problema das escutas ao Primeiro Ministro, fico preocupado. Afinal, uma lei clara pode ter várias interpretações, segundo as conveniências. Mas também me divirto com o rebuscado floreado dos argumentos. O mais engraçado vem de um professor de Direito da Católica. Primeiro, diz que a decisão do Supremo Tribunal de Justiça, que mandou anular e destruir as escutas, é, por sua vez, nula, por causa de dois vícios; mas como não foi recorrida e transitou em julgado é, afinal, válida: as escutas devem ser destruídas.

Para abrilhantar a retórica, o ilustre professor tira de imediato outro coelho da cartola: as escutas, finalmente, não só não se devem destruir, como devem ser divulgadas. Isto porque, segundo ele, o País está “em transe” e “num clima de grave intranquilidade pública”. A divulgação seria uma terapia para esta doença, segundo manda uma alínea do Código de Processo Penal.

Saí de casa, passeei pela rua, entrei em centros comerciais e praças públicas, conversei e não vi intranquilidade nenhuma. Mas basta ligar a televisão para ver que jornalistas, comentadores, especialistas de tudo, incluindo o referido professor e aqueles que o citam, estão, de facto, em transe.

Do que eu duvido é da terapia. Se a existência das escutas pôs tantas pessoas em transe, a sua divulgação levá-las-ia ao delírio. A seguir, só restava o manicómio. Não para o País, mas para aqueles que andam agora em transe.

[J. L. Pio Abreu]

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A velha do Restelo

No seu "Estranho quotidiano", Pio Abreu publicou no jornal DESTAK de hoje o texto de actualidade política que abaixo transcrevo, com o seu expresso consentimento.

A velha do Restelo

Enquanto a frota de Vasco da Gama aguardava a partida, “um velho, de aspecto venerando, (…) tais palavras tirou do experto peito: – A que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente? (…) Que promessas de reinos, e de minas d'ouro, que lhe farás tão facilmente?”. Como nos conta Luís de Camões, a frota partiu para a Índia enquanto o velho vociferava no Restelo.

Hoje, os tempos são outros. Já não temos a ambição de descobrir a Índia e, menos ainda, de partir para uma aventura desconhecida. Apenas queríamos um comboio de alta velocidade que nos ligasse à Europa e um aeroporto que nos levasse a todos os continentes, em especial ao americano.

Os tempos também mudaram porque, com o aumento da esperança de vida e a redução da natalidade, existem hoje mais velhos que marinheiros. Alem disso, as mulheres, que vivem mais tempo, assumiram protagonismo e têm a sua voz, que é muito ouvida e ainda bem. Imaginemos então a cena nos dias de hoje. Em vez de um velho, existiria um coro deles, talvez com uma veneranda velha a dar o mote.

Então, a velha diria: "A que novos desastres determinas de levar estes reinos e esta gente?” Em pano de fundo, um coro de velhos responderia: "Ó glória de mandar! Ó vã cobiça desta vaidade, a quem chamamos Fama!”. Finalmente, a veneranda remataria: “Dura inquietação d'alma e da vida, fonte de desamparos e adultérios, sagaz consumidora conhecida de fazendas, de reinos e de impérios.”

Com tal cenário, a frota nem teria saído do estaleiro.


J. L. Pio Abreu

sábado, 13 de junho de 2009

O meu umbigo


Na sua coluna "Estranho Quotidiano", publicada regularmente, no DESTAK, J.L.Pio Abreu publicou mais um dos seus textos [O meu umbigo], tendo-me autorizado a que aqui o reproduzisse. Ei-lo:


Com as eleições de domingo, os defensores do liberalismo económico saíram reforçados na Europa. Curiosamente, isto ocorreu num contexto de crise que, reconhecidamente, foi provocada pelos excessos da economia liberal. Muito provavelmente, foi a própria crise que levou a estes resultados. Ou seja: o liberalismo provocou uma catástrofe que, por sua vez, o reforçou. Porquê?

É certo que a crise nasceu nos Estados Unidos de Bush e que a democracia americana lhe deu a resposta apropriada. É também verdade que a Europa, gerida por associações partidárias tão dispersas quanto fechadas e irritantemente submissas ao tio americano, apenas se debateu com os ecos tardios da crise. Finalmente, um cidadão europeu não se sente, de facto, tão europeu quanto um americano se sente americano. Talvez se trate pois de um problema de identidade.

Em tempo de crise, a crispação aumenta e a identidade retrai-se. Que importa pensar na Europa se antes está o País? E antes do País os amigos, e antes deles a minha casa. E, mais do que a casa, importa o meu umbigo. Como não pode votar nele, o meu umbigo vota contra tudo o que é visível. Contra o parente, contra o vizinho, contra o imigrante, contra o Governo, contra o Estado e até contra a Europa.

Com tanto bode expiatório, o Banco Central Europeu agradece o enfraquecimento dos Estados nacionais e continuará livre para forçar pessoas, empresas e países endividados a recorrerem ao mercado e assim se endividarem ainda mais. É certo que o meu umbigo vai pagar, mas ele não tem olhos para ver ao longe.
[J. L. Pio Abreu ]

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pressões

Na sua coluna regular que publica no DESTAK, “Estranho quotidiano”, J.L. Pio Abreu, fez sair hoje um sugestivo texto ("Pressões") que com a sua autorização aqui divulgo.

"Estou seriamente espantado com a importância que os procuradores dão às pressões. Se alguém me dissesse “cuidado com o que estás a fazer, porque senão...”, eu até seria capaz de repensar os meus procedimentos mas, se os achasse correctos, acabaria por me rir com o aviso. Podiam invocar ministros, presidentes, bispos ou mesmo o Papa.

Posso dar-me a esse luxo porque suponho viver num Estado de Direito, onde a minha vida não depende discricionariamente de quem me pressiona. Aliás, se os outros me pressionam, também eu os posso pressionar. Tenho liberdade para isso. E porque todos o podem fazer, as pressões acabam por se anular umas às outras.

O que parece, porém, é que se isto é verdade para o comum dos cidadãos, não o é para os procuradores. Sobretudo se um procurador pressiona outro procurador. Neste caso, teremos um terceiro procurador que se queixa a toda a gente, dando lugar a uma reunião magna dos procuradores que, por sua vez, nomeiam outro procurador para fazer um inquérito. Este voltará à reunião magna sob a vigilância atenta do Procurador Geral. Seguem-se inquéritos disciplinares e um grande alarido de políticos e jornalistas.

Entre os procuradores, uma pressão é um drama. Porque é que eles as levam tão a sério? Será que a sua vida depende discricionariamente de quem os pressiona? Ou será que sentem que não vivem num Estado de Direito? Mas se eles, protagonistas do Estado de Direito, assim o pensam, o que poderá pensar o cidadão comum? "

[J. L. Pio Abreu ]

sábado, 4 de abril de 2009

Maus Sentimentos e Preservativos



Na sua coluna regular que publica no DESTAK, “Estranho quotidiano”, J.L. Pio Abreu, fez sair dois saborosos textos que com a sua autorização aqui hoje divulgo. O primeiro é de 27/3/09, o segundo é de 4/4/09. A um primeiro olhar parecem distantes, mas se os lermos bem verificamos que fazem parte do mesmo sorriso.

1. Os maus sentimentos

É próprio da natureza humana que os bons sentimentos sejam efémeros e molengos, enquanto os maus duram e mobilizam. Quem alcança um desejado bem fica alegre por algum tempo, mas logo quer mais e mais. Mesmo que a alegria seja contagiante, esse efeito é fugaz. É bem possível que essa insatisfação básica do ser humano o tenha levado a conseguir o que já conseguiu: o impossível.

Ao contrário, os maus sentimentos perduram. A inveja, o ódio, o ciúme, o rancor, o ressentimento podem dirigir as acções de uma vida inteira. E mobilizam tanto mais quanto os seus detentores se negam a aceitá-los, que é o mais frequente. Neste caso, basta que se lhes apresente alguém a quem odiar para que logo exprimam a sua raiva que asseveram justificada. É por isso que os maus sentimentos são explosivamente contagiantes.

Quem acorda a sua raiva sente-se vivo de novo, nem que seja para encetar um ciclo destrutivo. A raiva gera destruição que, por sua vez, gera raiva em círculo vicioso. E todos exultam por se sentirem vivos. Quer isto dizer que a raiva tem procura e é, por isso, um valor de mercado.

É sabido que a raiva e a acusação gratuita semeiam o desastre. Mas que importa, se têm audiência? Dão pouco trabalho e pagam-se bem. É por isso que se perfilam tantos acusadores nos meios de comunicação social, e que alguns jornalistas competem por ser o Grande Acusador. É apenas por isso. Desenganem-se aqueles que pensam que é por razões pessoais.


2. Preservativos

Sempre foram a solução mais simples para fruir o prazer sem conclamar as dores - de parto e outras. Os nossos antepassados conheceram-nos em materiais primitivos e incómodos, como a tripa de carneiro. Hoje, os novos materiais permitem que eles existam em todos os tamanhos, texturas, cores, cheiros e sabores. São objectos artísticos de uso amigável mas destino efémero.

Tal como a privacidade do uso, a sua circulação era outrora secreta. Comprados a meia voz ao farmacêutico de confiança, logo voavam para os esconderijos dos psichés. Mas também isso mudou: oferecem-se agora em instituições de saúde, saem, a troco de uma moeda, de caixas colocadas em paredes oportunas, circulam em porta-chaves e apresentam-se num encontro quente ocasional como sinal de jogo limpo e sábia precaução.

A utilização do preservativo assinala que a relação não tem intenções malévolas. Não consta que os violadores o usem, como não o usam aqueles que querem condicionar os parceiros. Também o não usa quem, consciente ou inconscientemente, se move pelo desejo oculto de espalhar nos outros o mal que transporta. Neste tempo, um relacionamento sexual desprotegido pode ser assassino.

Com a privacidade cada vez mais difícil, existem hoje prazeres alternativos, como o protagonismo público. Às vezes, basta dizer certas palavras para se alcançar um orgasmo mediático. São em geral palavras insólitas, mas as malévolas e assassinas produzem o mesmo efeito. É aqui que os preservativos podem ser de novo úteis. Basta colocá-los na língua durante o protagonismo público.

[J. L. Pio Abreu ]

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

O Chafariz


Eis mais um texto do J.L. Pio Abreu, hoje publicado no Destak, que com a sua autorização aqui transcrevo. Leiam-no: humor certeiro.


"A política portuguesa está a ser hilariante. Qualquer notícia sobre uma iniciativa ou declaração governamental é seguida de quatro contestações dos partidos da oposição e de mais uma ou duas dos sindicatos ou dos movimentos cívicos.

Suponhamos que o Governo anuncia a construção de um chafariz para abastecer de água uma população sequiosa, promover o turismo e aumentar o emprego. Vem o CDS e diz que os velhinhos não podem deslocar-se ao chafariz. Vem o PSD indignar-se pelo prejuízo da iniciativa privada. Vem o PC organizar uma manifestação e reclamar um chafariz em cada bairro. Vem o BE demonstrar que as construtoras pressionaram o Governo. Há-de haver também um sindicato a denunciar a precaridade do trabalho e uma ONG a condenar o desvio da água.

Como chegámos a isto? O CDS diz-se do centro, tem um eleitorado de direita mas é um projecto pessoal de sobrevivência política. O PSD afirma-se social-democrata mas é, na verdade, liberal, quando o liberalismo está em queda, depois de ter reunido os disfarçados apoiantes do regime que desaparecera. O PC é uma cassete gasta que vive dos herdeiros e deserdados do orçamento de Estado. O BE reúne os sonhadores utópicos com vocação adolescente.

Em Portugal, os partidos de oposição são um engano. Têm apenas a virtude de evitar fenómenos do tipo Le Pen. Mas a única oposição responsável ainda é a que está no interior do PS. Infelizmente para a alternância do poder e para as dinâmicas sociais que enformam a democracia, mas felizmente para enfrentar a crise que temos aí."

[J. L. Pio Abreu]

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trucidados


Hoje, no Destak, J.L.Pio Abreu, publicou o texto que abaixo se transcreve com a sua autorização.



Trucidados

Um rapaz desconhecido subiu ao palco mediático para proclamar a sentença dos funcionários públicos recalcitrantes: trucidados. Podia dizer que mãos e cabeças serão decepadas para as expor na praça, e o resto do corpo ligado a uma cauda de cavalo que o arrastará até ao cemitério. A sentença vai demorar o tempo suficiente para que os acusados paralisem de medo. Talvez um ou outro seja executado, sem contar com os que optem pelo suicídio ou pela retirada. Mas depois virá a magnanimidade do perdão, seguindo-se dois anos de alegres festejos e comemorações.

Como o poder subalterno não tem imaginação, calculo que o jovem governante ande a ler o livro de Laurentino Gomes 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. É que esta foi a receita que D. João VI aplicou com eficácia aos revolucionários pernambucanos.

Mas os funcionários públicos já estão a ser trucidados. Não os que se opõem à reforma, mas aqueles que a praticam. São trucidados pelas folhas A4 saídas em catadupa de um computador concebido para poupar papel. Em escolas, hospitais, institutos, repartições, é um ver-se-te-avias de projectos, protocolos, relatórios, inquéritos, avaliações e o que mais se verá para entreter toda uma hierarquia de chefes e sub-chefes.

Tirando quem os preenche, ninguém vai ler tais papéis. Mas vão-lhes apor um despacho aleatório que ditará a vida dos que estão na base da hierarquia. Só que estes também já estão a ser trucidados pelo trabalho real que sobra, uma vez que os outros só trabalham para o papel.

J. L. Pio Abreu

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Fraternidade



Com a autorização do autor, publico o texto do J.L.Pio Abreu, "Fraternidade" que saiu hoje no Destak. É de algum modo um diálogo com o Alberto Martins. Conversa entre velhos amigos.

Fraternidade

"Com a queda do muro de Berlim, acabou o fundamentalismo de Estado; com crise actual, acabou o fundamentalismo de Mercado". Foi assim que o Dr. Alberto Martins, na Assembleia da República, assinalou o fim das soluções radicais para as aspirações humanas. O fundamentalismo de Estado tentou promover a igualdade à custa da liberdade. O Mercado, sem contenção, promove a liberdade mas também a desigualdade.

Liberdade e igualdade fazem parte dos ideários utópicos desde a Revolução Francesa. No entanto, podem ser antagónicas. Muito sabiamente, os revolucionários tiveram de lhes acrescentar a fraternidade para resolver a contradição. Não o conseguiram, como logo se percebeu pelo uso excessivo da guilhotina.

Ernst Friedrich Shumacher, autor de Small is Beautiful, escreveu no seu último livro, Um Guia Para os Perplexos, que os problemas humanos são tipicamente divergentes e levam a soluções contraditórias. Para os resolvermos, teremos de subir a outro nível e elevarmo-nos um pouco mais na nossa humanidade.

A fraternidade é um valor de nível superior que concilia liberdade e igualdade. Nem os franceses revolucionários nem os sistemas seguintes foram capazes de subir a esse nível. Sabendo dos enganos, seremos nós capazes de o fazer?

A resposta pode estar na tecnologia da globalização que o capital aproveitou desde a primeira hora. O capital não é fraterno. Mas cada pessoa pode agora usar a mesma tecnologia para promover a fraternidade.

J. L. Pio Abreu

sábado, 20 de setembro de 2008

Deus e os mercados


No Destak de ontem (19/9/08), foi publicada a crónica que, de seguida, transcrevo, com o devido consentimento do seu autor, J. L. Pio Abreu.



Deus e os mercados

Muitas pessoas que acreditam firmemente em Deus, também fazem profissão de fé nos mercados. Às vezes dá jeito que uma entidade exterior regule harmoniosamente a nossa vida, dispensando-nos de fazer um esforço por isso. Também é certo que o movimento da humanidade é ascendente: somos hoje muitos, mas existe mais justiça do que no tempo dos bárbaros e maior comodidade do que a do homem das cavernas. A explicação é que varia: será por causa de Deus, dos mercados, ou da maximização democrática da inteligência e esforço humanos?

Às vezes acontecem coisas que fazem duvidar de Deus, sobretudo quando a maldade impune ou a desgraça gratuita nos batem à porta. Mas os crentes têm uma resposta: foi Deus que nos quis pôr à prova, foi castigo de culpa escondida ou aviso para uma penitência devida. Os Lentes de Coimbra interpretaram deste modo o terramoto de 1755, fazendo com que a prova que contraria a crença metafísica fosse tomada em seu favor.

Agora que os mercados estão a ruir como um castelo de cartas, o que dirão os seus prosélitos? Afinal, foram eles que durante muito tempo nos atazanaram com as consequências da sua fé: que devíamos privatizar a segurança social, a saúde, tudo aquilo que é pago pelos impostos e talvez mesmo o próprio Estado. O que dirão eles agora? Vão dizer que são ineficiências passageiras, a culpa da ganância excessiva ou uma provação necessária à excelsa regulação definitiva. Mas porque é que não se lembram de dizer que foi um castigo de Deus para quem acredita piamente nos mercados?

J. L. Pio Abreu