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sábado, 29 de setembro de 2018

CAPRICHO ITALIANO?


1. Em meados do corrente mês de setembro, foi divulgada em Itália uma sondagem das intenções de voto dos italianos. Os dois partidos (Movimento Cinco Estrelas e Liga) que estão na base do governo atual, e que em março passado tinham obtido 50,1% dos votos, obtiveram 59,6% das intenções de voto. A Liga (extrema-direita) que tivera 17,4% dos votos tinha agora 30,2% das intenções de voto, enquanto o Mov.5 Estrelas (centro populista) passou de 30,2% dos votos para 29,4% das intenções de voto. Ou seja, a extrema-direita, hoje minoritária no Governo, passaria a força dominante, se estas intenções de voto se confirmassem, escassos meses depois de ser governo.


A Liga concorreu às eleições de março, integrada numa coligação de direita que abrangeu também a Força Itália (de Berlusconi) [14% dos votos] e os Irmãos de Itália (extrema-direita clássica) [4,4%]. Nesta sondagem, a primeira tem 8,7% das intenções de voto e os segundos, 2,7%. Ou seja, a Coligação de direita, que teve em março 35,8% dos votos, passaria a ter 41,6% das intenções de voto. Mas a Liga, em vez de ser um partido ligeiramente mais forte do que o segundo (antes dominante), passaria a ser a força largamente dominante. E embora a Coligação de direita se tenha dividido quanto a este governo, estando uma parte dentro e outra parte fora dele, já foi anunciado que se manteria em próximas eleições.
 
Nas eleições de março passado, o Partido Democrático (PD) [que faz parte do  Partido Socialista Europeu], força dominante do governo anterior, foi o grande derrotado, tendo-se ficado pelos 18,7%. Na sondagem mais recente, que tem vindo a ser comentada , a sua posição quanto a intenções de voto é ainda mais modesta : 17,3%. Dois outros partidos de esquerda, em parte resultantes de cisões do PD, LeU ( Liberi e Uguali) e PP ( Potere al Popolo), tiveram nas eleições de março, respetivamente :3,4% e 1,1%. Na sondagem recente, em intenções de voto, o primeiro teve 2,9% e o segundo 2,2%. Ou seja, a Esquerda que, no seu todo, somou em março uns desastrosos 23,2 %, conseguiu nessa sondagem a proeza de descer ainda mais, chegando aos 22,4%. Mas encarado isoladamente o PD, em vez de recuperar, desceu 1,4%. Mostrou assim a sua impotência para consubstanciar um sobressalto democrática contra  o controverso governo italiano atual  de Conte/ Di Maio/ Salvini.


Panorama insalubre, bem ilustrado pelo protagonismo de Salvini na cena política europeia,como uma das mais ostensivas alavancas do reerguer da extrema-direita. Panorama enegrecido pela divulgação, em conjunto com a sondagem referida, de um gráfico comparativo da avaliação do desempenho do atual governo e dos governos anteriores, liderados pelo PD e encabeçados primeiro  por Renzi e depois por Gentiloni.

Do primeiro são considerados os meses de abril a novembro de 2016, no âmbito dos quais atingiu, quanto a uma valorização positiva, um máximo de 44% em outubro e um mínimo de 39% em abril. Do segundo, é considerado todo o tempo de duração do seu governo, tendo tido a avaliação mínima no seu início em dezembro de 2016, com 38%; e a máxima no seu último mês em fevereiro de 2018, com 45%.O atual governo tem duas avaliações com duas valorizações positivas; uma  de 57% em junho e outra de 62%  em setembro. Fica assim claro o êxito do atual governo italiano em termos de popularidade, a inocuidade cúmplice da direita clássica e a desorientação gritante da esquerda, especialmente grave quanto ao PD. 
 
2. As próximas eleições para o Parlamento Europeu, que vão decorrer em meados de 2019,  perfilam-se no horizonte como auspiciosas para a extrema-direita e como sombrias para a esquerda. E tudo indica que sê-lo-ão tanto mais, para uns e outros, quanto menos a esquerda for capaz de mostrar um caminho novo para os europeus. Um caminho  que possa esvaziar a atmosfera de descontentamento e frustração sociais de que a extrema-direita se tem alimentado. Um caminho que se aproxime realmente dos povos e resista ao garrote do capital financeiro.
 
Na verdade, quer a extrema-direita, quer a direita clássica mais autoritária, vão continuar a explorar a imigração como nuvem de medos irracionais e vão apostar num soberanismo nacional que se apresente como resistência a uma burocracia europeia sem alma que suga os povos. E pouco importa que essa imagem seja de um simplismo primário que a afasta da verdade, se os poderes dominantes na União Europeia continuarem mergulhados na deriva neoliberal, insistindo no veneno de uma decadência injusta  como se estivessem a conduzir a Europa para um doce paraíso. Incapazes de enfrentarem realmente os problemas da União Europeia abrem a porta a todos os desesperos e encorajam todos os atalhos, mesmo aquilo que prometem sejam apenas noites mais negras.
 
Sem prejuízo de todas as esquerdas deverem ser tidas em conta, é na resposta que for dada pelos partidos que integram o Partido Socialistas Europeu que se joga o essencial destas eleições. Eles têm que tornar evidente que vão assumir a representação dos europeus a quem a atual desigualdade social mais penaliza, que estão decididos a percorrer esse caminho duravelmente. Sem ambiguidades ou tergiversações; sem sofreguidões precipitadas mas com urgência. Ou seja, a qualidade da sua resposta  depende da medida em que se libertarem  do colete de forças ideológico- político que os tem constrangido.
 
Esta nova atitude tem que ser evidente. Não pelo facto de ser proclamada, mas como ressonância óbvia das opções programáticas , das medidas propostas e da posição assumida no xadrez político pelos socialistas. Só assim uma ampla parcela do povo de esquerda sentirá como seus os partidos integrados no PSE, apoiando-os.

Do mesmo modo, só assim se criarão condições para um acolhimento digno dos refugiados extra-europeus . Um acolhimento que desse modo será um aspeto de uma politica de promoção da igualdade e da dignidade de todos os cidadãos , sejam eles europeus sejam eles refugiados.
 
Na verdade, ter a ilusão que é possível, sem abrir espaço para a extrema-direita e para a direita xenófoba, receber condignamente os refugiados extra-europeus numa Europa que continua a escavar as suas desigualdades internas e a desrespeitar uma parte significativa dos seus povos é isso mesmo : uma ilusão. Não é esse o único pressuposto relevante para uma política europeia de imigração justa e humanamente saudável, mas é uma condição sine qua non.
 
Na verdade, o atual panorama político italiano pode ensinar-nos muito se o lermos com cuidado e sem preconceitos. Discursos redondos, circunlóquios ideológicos presos na rotina, subordinação à lógica do capital financeiro, longos textos de um europês burocrático, são elementos que podem gerar uma tempestade perfeita.

Hoje, mais do que nunca, a propósito do que está em jogo nas próximas eleições europeias, tem plena atualidade a conhecida frase de Bossuet: " Não há pior desregramento do espírito do que tomar como realidade aquilo que gostaríamos que ela fosse".


quarta-feira, 15 de maio de 2013

A EUROPA DO NOSSO DESCONTENTAMENTO



 Transcrevo o texto, que abaixo podem ler, do site da revista italiana MicroMega, no qual se indica  como sua proveniência o jornal Reppublica. A sua autora é a reputada  jornalista e escritora italiana Barbara Spinelli, aliás unida por ligações familiares a eminentes vultos da vida política e intelectual. O texto é acutilante e inconformado. Pode ajudar-nos a pensar, pode ajudar-nos a agir politicamente, pode mostrar cruamente as limitações e a mediocridade gritante de quem hegemoniza a Europa. Eis o texto, significativamente intitulado, Europa, o sono da política:

***  ***  *** *** *** ***
Europa, il sonno della politica

[di Barbara Spinelli, da Repubblica, 15 maggio 2013]


Succede solo in quest'Europa, attratta dal naufragio non a causa dell'economia ma della convulsa scempiaggine della sua politica: parliamo dello scandalo di una Corte costituzionale tedesca divenuta cruciale per ogni cittadino dell'Unione, mentre la Corte costituzionale in Portogallo vale zero. Parliamo di Jens Weidmann, governatore della Banca centrale tedesca, che accusa Draghi di oltrepassare il suo mandato - salvando l'euro con i mezzi a sua disposizione - e senza vergogna dichiara guerra a una moneta che chiamiamo unica proprio perché non appartiene solo a Berlino.

Il mandato della Bce è chiaro infatti, anche se Weidmann ne contesta la costituzionalità: mantenere la stabilità dei prezzi (articolo 127 del Trattato di Lisbona), ma nel rispetto dell'articolo 3, che prescrive lo sviluppo sostenibile dell'Europa, la piena occupazione e il miglioramento della qualità dell'ambiente, la lotta all'esclusione sociale, la giustizia e la protezione sociali, la coesione economica, sociale e territoriale, la solidarietà tra gli Stati membri. Qualcosa non va nella storia che si sta facendo, se l'articolo 3 neanche fa capolino sul sito Internet della Bce, per timore che Berlino magari s'adombri.

Fra poco più di un anno, nel maggio 2014, voteremo per il rinnovo del Parlamento europeo. Soprattutto per gli italiani sarà una data diversa dal solito. Perché l'Europa della trojka (Bce, Commissione, Fmi) pesa sulle nostre vite come mai in passato. Perché le sue medicine anti-crisi sono contestate ovunque dai popoli, scuotendo perfino il medico che più ardentemente le propina: il 22 settembre i tedeschi andranno al voto e forse premieranno un partito antieuropeo - Alternativa per la Germania - appena nato nel febbraio scorso. I partiti dovranno smettere le menzogne che vanno dicendo, sulla possibilità di "piegare" Angela Merkel. Specie in Italia, dovranno piantarla di tradire elettori e cittadini. Per la prima volta infine, se oseranno, potranno indicare il presidente della Commissione. Sta nei trattati.

Se parliamo di menzogne, è perché nessun governo è in grado di piegare Berlino con gli argomenti esclusivamente economici fin qui sbandierati: un po' meno austerità, un po' di crescita, qualche condono. Convinta com'è che siano i mercati e nessun altro a disciplinarci, Berlino si muoverà solo se la politica prevarrà su tesi economiche degenerate in dogmi. Se governi, partiti e cittadini accamperanno visioni chiare di quella che deve essere un'altra Europa: non quella presente, dotata di risorse minime, precipitata in ottocenteschi equilibri di potenze.

L'Unione somiglia oggi a una Chiesa corrotta, bisognosa di uno Scisma protestante: di una Riforma del credo, dei vocabolari. Di un piano con punti precisi (erano 95 le tesi di Martin Lutero). Il Papato economico va sovvertito opponendogli una fede politica. Solo così la religione dominante s'infrangerà, e Berlino dovrà scegliere: o l'Europa tedesca o la Germania europea, o l'egemonia o la parità fra Stati membri. Sempre ha dovuto scegliere in tal modo: l'Europa, disse Adenauer nel '58, "non va lasciata agli economisti".

L'ortodossia tedesca è antica ormai, s'affermò nel dopoguerra e si chiama ordoliberalismo: i mercati sanno perfettamente correggere gli squilibri, senza ingerenze dello Stato, perché dotati di immutata razionalità. È l'ideologia della "casa in ordine": ogni nazione espierà le proprie colpe da sola (Schuld vuol dire debito e colpa, in tedesco). Solidarietà e cooperazione internazionale vengono dopo, a coronare i compiti a casa se benfatti. Come in Inghilterra, viene invocata ingannevolmente anche la democrazia: trasferire parte della propria sovranità svuota i parlamenti nazionali. Per questo la Corte costituzionale tedesca è pregata di pronunciarsi su qualsiasi mossa europea.

Se è inganno, è perché nella fattoria-Europa non tutte le democrazie sono eguali: ce ne sono di sacrosante, e di dannate. Il 5 aprile scorso, la Corte costituzionale portoghese ha rigettato quattro misure dell'austerità imposta dalla trojka (tagli agli stipendi statali e alle pensioni), perché contrarie al principio di uguaglianza. Il comunicato diramato due giorni dopo dalla Commissione europea, il 7 aprile, ignora del tutto il verdetto, "si felicita" che Lisbona prosegua la terapia concordata, rifiuta ogni rinegoziato: "È essenziale che le istituzioni politiche chiave del Portogallo restino unite nel sostenere" il risanamento così com'è. Il diverso trattamento riservato ai giudici costituzionali tedeschi e portoghesi è a tal punto disonesto che l'Europa difficilmente sopravviverà come ideale nei suoi cittadini.

Alcuni dicono che può sopravvivere se l'egemonia tedesca si fa più benevola, restando egemonia. George Soros l'ha chiesto nel settembre 2012 sul New York Review of Books, con solidi argomenti. Lo esige il governo polacco. In Germania lo domanda chi teme non già l'egemonia, ma una poco splendida, introversa autoidolatria.

Egemonia e autoidolatria sono tuttavia i sintomi, non la causa del male che cronicamente assilla la Germania. Sempre ai suoi governi è toccato fare i conti con il dogma della casa in ordine. Sin dal dopoguerra la sua politica della memoria fu mutila: conscia come nessun altro del passato nazi-fascista, ma dimentica del ciclone economico che tramortì i tedeschi, negli anni '30, con l'austerità delle riparazioni inflitte dai vincitori. Lo scherzo della storia è atroce: proprio Keynes, che aveva denunciato nel '19 la punizione disciplinatrice dello sconfitto, è l'economista più inviso in Germania.

Se la Germania ha voluto un'Europa sovranazionale, fino a inserirla nella Costituzione, è perché gli ordoliberali (nella Banca centrale, nelle accademie) sono stati ripetutamente disarcionati. Adenauer impose la Cee e il patto franco-tedesco a un ministro dell'Economia - Ludwig Erhard - che fece di tutto per affossarli. Che accusava la Cee di "endogamia" protezionista, di "scemenza economica". Con Londra provò a sabotare i trattati di Roma, preferendo di gran lunga una zona di libero scambio. Non l'ascoltarono né Adenauer, né il primo capo della Commissione Hallstein, grazie ai quali la razionalità politica vinse. Lo stesso scenario riapparve con l'euro: anche qui, aggrappato a Parigi, Kohl antepose la politica scavalcando economisti mainstream e Banca centrale. Oggi il bivio è simile, ma con politici camaleontici, senza più volontà ferme. La crisi ha disilluso il popolo tedesco. L'ordoliberalismo si politicizza, assapora vendette antiche.

Non resta quindi che lo Scisma: la costruzione di un'altra Europa, che parta dal basso più che dai governi. Un progetto già c'è, scritto dall'economista Alfonso Iozzo: secondo i federalisti, può divenire un'"iniziativa dei cittadini europei" (articolo 11 del Trattato di Lisbona), da presentare alla Commissione. L'idea è di munire l'Unione di risorse sufficienti per fare crescita al posto di Stati costretti al rigore. Una crescita non solo meno costosa, perché fatta insieme, ma socialmente più giusta e più ecologica, perché alimentata dalla tassa sulle transazioni finanziarie, dalla carbon tax (biossido di carbonio) e da un'Iva europea. Dalle prime due tasse si ricaverebbero 80/90 miliardi di euro: il bilancio comune rispetterebbe la soglia dell'1,27 concordata a suo tempo. Mobilitando Banca europea degli investimenti ed eurobond, avremmo un piano di 300/500 miliardi, e 20 milioni di nuovi posti di lavoro nell'economia del futuro (ricerca, energia).

Per fare queste cose occorre tuttavia che la politica torni alla ribalta e ridiventi, come dice l'economista Jean-Paul Fitoussi, non un insieme di regole automatiche ma una scelta. Occorre l'auto-sovversione di Lutero, quando scrisse le sue 95 tesi e disse, secondo alcuni: "Qui sto diritto. Non posso fare altrimenti. Che Dio mi aiuti, amen".

(15 maggio 2013)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

ITÁLIA


Itália – recado às esquerdas.

Recado aos atroikados.

Recado aos bonzos neoliberais.

Recado a cada um de nós.

Vale mais actuar a tempo, com a serenidade possível, sobre as causas, do que chorar mais tarde desamparadamente em virtude  das consequências. 

sábado, 25 de agosto de 2012

ANTONIO TABUCCHI - uma homenagem

O mais recente número da revista italiana MicroMega, grande expoente de uma cultura crítica de esquerda, é uma homenagem a Antonio Tabucchi.
A maior parte do número é ocupada por um apreciável conjunto de textos da sua autoria, quase todos já antes publicados na própria revista; textos críticos de intervenção cívica, cultural e política.Inclui também uma conversa entre Tabucchi e  um magistrado italiano, ocorrida em 2001, a propósito da grave crise da justiça italiana então em pleno auge e suas implicações políticas . Seguem-se , por fim, vários textos de homenagem de:  Paolo Flores D'Arcais (director  da MicroMega); Norman Manea (escritor romeno que vive nos USA); Marco Travaglio ( jornalista italiano) e Enrique Villa-Matas ( escritor espanhol com grande projecção internacional).
Sobre Antonio Tabucchi ( Pisa, 24 de setembro de 1943 - Lisboa, 24 de março de 2012), diz-se na revista: "Foi um dos maiores escritores italianos contemporâneos, intelectual de largo fôlego, sempre empenhado. também nas grandes batalhas cívicas (...). Amante de Portugal, onde vivia, foi o maior conhecedor, crítico e tradutor da obra do escritor Fernando Fessoa".Sobre ele escreveu Paolo Flores D'Arcais:"Antonio era um homem coerente com os valores que proclamava".

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

POLÍTICA ITALIANA

Uma sondagem, feita recentemente em Itália, mostra continuidade na descida da popularidade de Berlusconi. O seu partido (PDL) está agora com 25% e a coligação de direita que lidera fica-se pelos 35,5%. O chamado terceito pólo, uma congregação heterogénea de ex-democratas cristãos ( UDC), ex-neo-fascistas ( FLI), ex-apoiantes do centro-esquerda (API) e defensores das autonomias (MPA), mantém-se nos 13%, continuando a UDC a ser o partido dominante, com os seus 7%. O centro-esquerda no seu conjunto chega a 45,5%, o que talvez lhe desse a possibilidade de formar governo, se os resultados de umas possíveis eleições correspondessem ao número desta sondagem. O Partido Democrático, partido liderante, ficou-se, no entanto, por uns modestos 28%, sendo significativo o resultado obtido pela Esquerda e Liberdade ( 7,5%) e pela Itália dos Valores ( 7%). Os Verdes(0,8%) o Partido Socialista Italiano(0,7%) e as listas Bonimo-Panella (1,5%) tiveram um expressão reduzida. Fora dos três blocos, surge a esquerda mais radical com 1,5% e o Movimento 5 Estrelas, que busca apoios principalmente na esquerda, com 3,5%.




Dado o desastre político em que se transformou o "berlusconismo", não pode deixar de se mencionar como significativo o facto de o partido alternativo, o Partido Democrático, resultado da estranha fusão entre o sector maioritário do ex-PCI e de os democratas cristãos de esquerda não reunir intenções de voto que cheguem sequer aos 30%.Registe-se a resistência da Itália dos valores , cada vez mais claramente um fenómeno não conjuntural e uma recuperação da esquerda que não aderiu ao PD, por intermédio da Esquerda e Liberdade, eventualmente na esteira do carisma de N. Vendola. As tentativas de ressuscitar, como força política a ter em conta, o velho Partido Socialista Italiano,parecem não ter eco no eleitorado. Ou seja, a direita italiana afunda-se, mas a esquerda não se revela como uma alternativa entusiasmante. O centro heterogéneo parece sem força para se assumir como solução autónoma , mas com a importância suficiente para ser , mais ou menos discretamente cortejado.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Caprichos italianos

[Para aumentar a imagem, clique sobre ela.]
Foi recentemente difundida na imprensa italiana a sondagem que consta da imagem que acima se reproduz. Se através dela se verifica que a direita actualmente no poder, sob a liderança de Berlusconi, está em perda, não pode deixar de se estranhar que, desde as últimas legislativas em 2008, apenas tenha descido 2,5% (de 49,2 % para 46,7%), tendo em conta não só a crise geral a que a Itália não escapou, mas também os gravíssimos problemas políticos internos ocorridos dentro do PDL ( Partito della Libertá), entre Fini e Berlusconi. Em contrapartida, a esquerda no seu todo, nos mesmos dois anos, experimemtou o magro sucesso de uma subida de 1,3% ( de 41,7% para 43%). Por último, o sector centrista dos democrata-cristãos que se manteve fora dos dois grandes blocos experimentou uma ligeira progressão de 1,8% ( de 5,6% para 7,4%), o que, sendo pouco como imoulso superador da bipolarização, dada a relação de forças existente, pode ser suficiente para dar a este pequeno centro (UdC - Unione di Centro) a chave de uma futura estabilidade governativa.
Mas, se olharmos com um pouco mais de atenção para os dados da sondagem, podemos ver que, no seio da coligação liderada por Berlusconi, o seu próprio partido (PDL) desde 2008 desceu 4,2% (de 37,4% para 33,2%), mas a Liga Norte (ultra-direitista) subiu 3,8 % (8,3 % para 12,1%). Estas oscilações conjungadas alteraram profundamente a relação de forças interna no seio da coligação berlusconiana. Antes, o PDL valia mais do que quatro Ligas Norte, agora não chega a valer três. Algo de paralelo ocorreu na esquerda, o PD (Partido Democrático ) desceu 6,2% (de 33,2 % para 27%), enquanto a Lista Di Pietro (Itália dos Valores) subiu 3,7 % ( de 4,4% para 8,1%). O resto da esquerda, fragmentado em três blocos, passou no seu todo de 4,1 % nas eleições de 2008, para 7,9% na sondagem em causa. Também no seio deste segundo bloco político houve uma alteração relevante da relação de forças interna. O PD em 2008 equivalia, em termos de força eleitoral, a quase oito vezes a IdV, mas, de acordo com a sondagem actual, está longe de valer agora quatro vezes. O resto da esquerda continua perigosamente pulverizada.
Estes dados permitem antever grandes dificuldades para a direita italiana num previsível pós-berlusconianismo, mas revelam também que a criação do Partido Democrático, como movimento de afirmação de uma redinamização da esquerda italiana, foi uma opção falhada. A crescente crispação interna das facções, que no seu seio se degladiam entre si, não parece ser a melhor atmosfera para reverter esta situação. Aliás, olhando o quadro acima publicado, como ilustração de grandes tendências, é provável que nos próximos anos se desencadeiem novos terramotos políticos na Itália, quer à direita , quer à esquerda.
Num certo sentido, o trajecto que levou à criação do Partido Democrático foi o desenvolvimento lógico da terceira via britânica, com a qual aliás o sector hegemónico dos antigos Democratas de Esquerda se identificava. Parece claro que, também aqui, a terceira via se tem revelado como um caminho cinzento para o vazio.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

À procura da esquerda perdida


Veltroni demitiu-se da liderança do Partido Democrático (PD), tornando ostensiva a gravidade da crise vivida pela esquerda italiana. A gota de água que o levou a esse gesto dramático foi uma derrota pesada que o PD acabou de sofrer na Sardenha.

O partido que se apresentou como feliz mutação renovadora de uma esquerda fragmentada e incapaz de governar em conjunto, ao assumir-se como pólo hegemónico de toda essa parte do espectro político, parece afinal atolado no seu próprio labirinto, incapaz de se assumir como contraponto forte do pesadelo “berlusconiano”.

O cimento de uma escolha participada do líder, em Outubro de 2007, na qual participaram mais de três milhões de italianos, dos quais 75,6% optaram por Veltroni, tendo os restantes 25% sido repartidos por vários outros candidatos, não foi suficiente para gerar uma verdadeira consistência política.

O Partido Democrático é a fase mais recente de uma longa evolução, iniciada em 1990 pelo Partido Comunista Italiano, que então se transformou em Partido Democrático da Esquerda, tendo-se mais tarde transformado em Democratas de Esquerda e pertencendo ao Partido Socialista Europeu, desde 1992. Força liderante da Coligação da Oliveira, que deu suporte a governos liderados por R. Prodi e por M. d’Alema , os DS viriam a fundir-se, em 2007, com uma parte dos destroços da defunta democracia cristã italiana, agrupados na “Margarida”, dando assim origem ao referido Partido Democrático.

Durante esse acidentado trajecto, o ex-PCI, foi perdendo fragmentos, que deram origem a novos partidos. Foi o caso da Refundação Comunista, do Partido dos Comunistas Italianos e mais recentemente da Esquerda Democrática, todos eles resultantes de cisões do ex-PCI.

Estas organizações, mais alguns dos restos do velho Partido Socialista Italiano e Os Verdes, conseguiram apresentar-se unidos nas últimas eleições legislativas italianas na Coligação Arco-íris, que, olhando-se para anteriores eleições, poderia aspirar, com realismo, a ter entre oito e dez por cento dos votos.
No entanto, ao contrário do que viera acontecendo nas últimas eleições, essa área da esquerda apresentou-se a sufrágio completamente diferenciada do partido hegemónico da esquerda, agora sob a veste do novo Partido Democrático, o qual fora aberto a acordos com forças de esquerda moderada, como é o caso da Itália dos Valores, mas recusara qualquer acordo com a Coligação Arco-íris.

Os partidos dominantes da esquerda e da direita entenderam-se numa engenharia eleitoral, alegadamente destinada a favorecer a chamada governabilidade, mas de facto apostada em encostar à parede os partidos com menor expressão eleitoral.

A direita ganhou as eleições legislativas e Berlusconi voltou ao poder. O Partido Democrático, embora derrotado, ficou como a força larguissimamente dominante da oposição de esquerda. Surpreendentemente, a Coligação Arco-íris foi varrida quer do Senado, quer do Câmara de Deputados.

Desde então, as cores do arco-íris parecem ter-se desagregado e várias têm sido as cisões nos partidos que o constituíam. O caso mais visível foi o da cisão na Refundação Comunista, que ficou quase reduzida a metade.

Mas, desde as derrotas nas legislativas, têm-se sucedido os maus resultados eleitorais para o Partido Democrático(PD). Uma excessiva mansidão, no modo de combater Berlusconi, fez com que a Itália dos Valores se viesse afirmando como o foco mais decidido de oposição, pese embora a sua reduzida expressão parlamentar. Nas sondagens tem-se aproximado do PD.

Estão à porta eleições europeias. O PD aderiu a mais uma manobra de engenharia eleitoral, ao concordar com uma cláusula barreira de 4%, abaixo da qual os partidos italianos não elegerão ninguém para o Parlamento Europeu.

A saída de Veltroni, à beira de eleições europeias, especialmente dramáticas par o PD pode ser prelúdio da implosão do próprio partido. Na verdade, para além do mau momento, em termos de sondagens, que os resultados na Sardenha só confirmaram, a Europa é uma instância, em que a vida do PD se complica: uma parte quer continuar dentro do Partido Socialista Europeu, enquanto a outra se recusa peremptoriamente a isso.

O PD queria ser sujeito histórico, a sua longa marcha , porém, em vez de ser um arejamento aberto ao futuro , parece converter-se num penosos rosário de renúncias e de auto-descaracterização. E, aprisionada no seu protestativismo infecundo, a esquerda da esquerda , em vez de aproveitar a deriva direitista do PD para se reforçar e crescer, parece caminhar lentamente para a irrelevância.
Ou seja, as duas esquerdas italianas parecem apostadas numa competição perversa, em que cada uma delas se excede numa estranha procura de implosão.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Aprendizes de feiticeiro ?


Transcrevo de seguida um pequeno texto da revista brasileira CartaCapital, da responsabilidade da sua redacção, intitulado "Berlusconismo ou fascismo?", datado do passado dia 15.


"A revista Newsweek, outrora considerada progressista, afirma que nos primeiros cem dias de governo Silvio Berlusconi saiu-se bem. O semanário católico italiano, Famiglia Cristiana, de larga influência, divulga um relatório da revista francesa Esprit, e diz em editorial “esperamos que não volte um fascismo de roupa nova”. Que fez Berlusconi em cem dias? Segundo a Newsweek, tirou o lixo das ruas de Nápoles, botou o Exército a patrulhar as cidades juntamente com os carabinieri, mandou recolher as impressões digitais das crianças rom, combateu os acampamentos nômades, criou novos entraves à entrada de imigrantes no país de grandes imigrações. Ah, sim, cobriu com piedoso véu o seio da opulenta senhora que Gian Battista Tiepolo pintou no século XVII na célebre tela A Verdade Desvendada pelo Tempo. O quadro domina, indiferente, uma das paredes do Palazzo Chigi, sede da presidência do Conselho. Trata-se, felizmente, de uma cópia. Tudo isso encanta o semanário nova-iorquino, bem como, supõe-se, as leis aprovadas pelo Parlamento, graças à ditadura da maioria, para acabar com as inúmeras pendengas judiciárias que envolvem o homem mais rico da Itália. Já Famiglia Cristiana rema na rota oposta, e não se deixa seduzir pelo véu estendido sobre o seio da Verdade. Pelo contrário, encara as medidas berlusconianas como demonstração de um risco possível, se não provável. Talvez as duas revistas extrapolem e exagerem. Diz, porém, Umberto Eco: “Não posso dizer que o clima do início dos anos 40 tenha voltado, mas começo a aspirar seu perfume”. E o Prêmio Nobel Dario Fo: “Como o fascismo, o berlusconismo é mal insidioso, difícil de estirpar”. E Eugenio Scalfari, tido como o maior jornalista italiano vivo: “Não será fascismo, mas é o preocupante começo de uma ditadura". "


Saúde-se a preocupação da "Famiglia Cristiana", em contraste com a bonomia com que a Igreja de Roma sempre encarou Berlusconi. Bonomia de que o católico Prodi nunca beneficiou, quando chefiou, por duas vezes, governos italianos de esquerda.

Será a proximidade entre berlusconianismo e fascismo um excesso de hostilidade em face do actual poder italiano ? Talvez. Mas o que pertence ao mundo dos factos é a fusão do partido de Berlusconi com os ex-fascistas italianos liderados por Fini. Uma fusão que suporta agora um Governo.


Será que a Itália e a Igreja de Roma ainda não conseguiram esquecer a "guerra fria"? Se o bruxulear da "Famiglia Cristiana" for um pequeno indício dessa futura grande notícia, há razões para nos congratularmos.




domingo, 4 de maio de 2008

A direita italiana e as suas saudades


A direita italiana, tendo à frente um pós-fascista reciclado, venceu recentemente as eleições para o município de Roma. A vertigem da vitória quebrou o verniz e trouxe, para a luz do dia, a sombra resistente da sua identidade dissimulada: a saudação fascista, como primeira e irresistível arrogância na festa da vitória, voltou.
Como ostensiva saudade ou como ousado prenúncio?
A caldeirada berlusconiana tem o tempero forte de Fini. Será que na alma da velha casa, dita com algum exagero da liberdade, também espreita a sua oportunidade esta identidade escondida?

domingo, 13 de abril de 2008

Os italianos estão a votar

Os italianos estão a votar. Votam hoje e amanhã, para a Câmara de Representantes e para o Senado.

As sondagens apontam para uma vitória folgada da direita na Câmara de Representantes e para um resultado tangencial no Senado. Um Senado de maioria incerta torna o governo frágil, como o mostrou o governo de Prodi que aliás caiu por causa do Senado.



Na primeira página de hoje do UNITÁ, jornal que já foi o órgão do Partido Comunista Italiano, e que agora se pode considerar próximo do Partido Democrático, embora tivesse deixado de ser um jornal partidário, destaca-se um slogan do PD e de Veltroni: " Não mude o governo, mude a Itália".

Em baixo, pode ver-se a primeira página de LIBERAZIONE, órgão da "Refundação Comunista", um dos partidos que compõem a Esquerda Arco-Iris ( ou seja, la Sinistra Arcobaleno). O destaque dado a Zapatero é uma mensagem que procura sublinhar que a Sinistra Arcobaleno se considera integrada na família socialista europeia. Ao contrário, do PD onde se misturam ex-membros do Partido Socialista Europeu e ex-membros do Partido Popular Europeu.

A Sinistra Arcobaleno luta, dentro da Esquerda contra o voto útil no Partido Democrático. Sabe que um resultado fraco a pode enfraquecer ainda mais, politicamente.

O PD sabe que dificilmente ganhará . E sabe que pode ser preciso para viabilizar certas reformas lideradas pela direita. Para não perder essa importância não cortou todas as pontes. Será que essa disponibilidade contida se esgota em si própria ou será que prenuncia uma disponibibilidade mais estratégica que poderia levar a uma grande coligação ? Veltroni diz que não. Mas houve alguns movimentos nesse sentido num ou outro episódio da pré-campanha.

À Esquerda Arcobaleno interessa acentuar o risco de uma grande coligação, o risco da cumplicidade ao centro; e naturalmente que a preocupa uma excessiva deriva centrista do Partido Democrático. Daí que alerte para o risco de uma simbiose entre Veltroni e Berlusconi, ou seja, para o risco de um desalentador VELTRUSCONI.

domingo, 6 de abril de 2008

As eleições em Itália


As eleições italianas estão á porta. Nas últimas sondagens permitidas, realizadas ainda em Março, não foram grandes as novidades, relativamente ao que vinha sendo conhecido nos tempos mais recentes. As intenções de voto nos vários partidos de esquerda para a a Câmara de Deputados atribuíam 7 % à Esquerda Arco-Íris ( reúne a Refundação Comunista, os Comunistas Italianos, os Verdes e a Esquerda Democrática ); 1,5% ao Partido Socialista ( o sucessor mais consistente do velho PSI) ; 33% ao Partido Democrático ( resultado da fusão do sector maioritário do ex-Partido Comunista Italiano, com uma parte da antiga Democracia Cristã, o qual envolve ainda numa associação eleitoral o Partido Radical ); com o Partido Democrático está oficialmente coligada a Itália dos Valores a quem são atribuídos 3,5%, pelo que os partidos que indicam Veltroni para primeiro-ministro têm 36,5% das intenções de voto.

Ao centro, a União Democrática para os Consumidores conta com uns inexpressivos 0,2 %, mas a facção da antiga Democracia-cristã, a União do Centro, aliada de Berlusconi até há pouco , que, tendo rompido com ele, é liderada por P.Casini, atinge os 6,5%.

À direita o Povo da Liberdade, partido liderado por Berlusconi, resultante da fusão da sua Força Itália com a Aliança Nacional ( ex-neo-fascista) de G. Fini, chega aos 38,5 %. Se lhe somarmos 4,5% da Liga Norte, de Bossi e 0,5 do MPA- Aliança pelo Sul, verificamos que os partidos que indicam Berlusconi para primeiro-ministro, atingimos 43,5 % das intenções de voto.

Uma cisão de extremistas direita radicais, A Direita conta com 2,5%. Os outros partidos no seu todo somam 2,3 % , havendo 15 % de indecisos.

O dado mais relevante da sondagem é a relação de forças entre o bloco veltroniano e o bloco berlusconiano. Este último tem uma vantagem de 7%. Se as sondagens se confirmarem, o prémio de maioria dado ao bloco mais votado, garante-lhe uma maioria confortável na Câmara. No entanto, esta diferença é acentuadamente menor do que o era há uns meses atrás, havendo alguma incerteza quanto aos votos que realmente vai ter a Esquerda Arco-íris, bem como a União do Centro, ambas sujeitas a uma forte pressão do chamado voto útil.

Mas a incerteza maior incide no Senado, já que embora globalmente a relação de forças mostrada pelas sondagens não se afaste muito da que atrás se indicou, há uma real possibilidade de Berlusconi ter maioria na Câmara mas não no Senado, o que significaria um cenário ainda pior do que o enfrentado por Prodi .

Para esta incerteza contribuem dois factores : o prémio de maioria no Senado é dado por região e há uma cláusula -barreira de 8%. Ou seja, uma pequena oscilação no número de votos de um partido pode modificar profundamente a distribuição de deputados pelas várias forças concorrentes em cada circunscrição.

Talvez por isso, nos últimos dias se tenha assistido a um lançamento de pontes do tempestuoso Berlusconi em direcção do Partido Democrático, na busca de um apoio ou de uma complacência de que pode vir a precisar.

terça-feira, 4 de março de 2008

Eleições em Itália: uma sondagem



Começo este texto com uma recomendação técnica: cliquem sobre o quadro que contém os números da sondagem, para assim o poderem ler num formato maior que assim o torne visível.
Esta sondagem, publicada já durante o corrente mês de Março, fornece um panorama actualizado da distribuição das expectativas, quanto às eleições que, em breve, vão decorrer em Itália.
Apesar de não ter sido possível modificar as leis eleitorais, como quase todos os quadrantes políticos defendiam, o panorama político italiano é muito diferente daquele que existia nas eleições anteriores.
Como se sabe, a Itália foi governada, até há pouco tempo, por um Governo de centro-esquerda , liderado por Romano Prodi, contra o qual combatia uma grande coligação de direita, liderada por Sílvio Berlusconi. Por força das leis eleitorais existentes, os dois campos estavam praticamente empatados no Senado, embora o Governo tivesse uma confortável maioria na Câmara de Deputados. A coligação que apoiava o Governo (a União) ia desde os comunistas e os verdes,até aos centristas católicos da UDEUR e aos liberais-democratas seguidores de Lambero Dini. Foram precisamente esses dois pequenos agrupamentos moderados a causa próxima da queda do Governo, por lhe terem retirado o apoio, fazendo-o perder uma votação decisiva no Senado.
Mas a grande novidade política recente foi a fusão dos ex-comunistas ( DS) com os democratas -cristãos de esquerda ( Margarida), no novo Partido Democrático. Berlusconi achou por bem responder e diluiu a sua "Força Itália" num novo partido, o Povo da Liberdade, para onde acbaram por entrar os ex-neo-fascistas da AN, liderada por Fini.
O Povo da Liberdade tem acordos pré-eleitorais com a Liga Norte e com o Movimento pela Autonomia da Sicília, indicando todos eles como candidato a Primeiro-Ministro, Sílvio Berlusconi.
Em contraponto, o Partido Democrático tem acordos pré-eleitorais com a Itália dos Valores ( Di Pietro ), havendo a hipótese ( tida como certa na sondagem) de incluir radicais nas suas listas, com destaque para a popular Ministra cessante, Emma Bonino; todos convergindo na designação de Walter Veltroni , leader do PD, como candidato a primeiro-ministro.
Neste momento, o bloco que se congregou em torno do PD atinge 36% e o que apoia Berlusconi chega aos 43%. A vantagem é grande, mas nos últimos tempos o PD subiu significativamente nas sondagens, ao mesmo tempo que o PDL estagnava.
Mas a paisagem política italiana não se esgota nesses dois blocos. À esquerda, sem contar com dois pequenos partidos de extrema-esquerda que encabeçam o quadro com a sondagem ( somam 1,5%), surge uma coligação que é novidade também : A Esquerda Arco-Iris, com 7,5%. Apresenta como candidato a Primeiro-ministro, Fausto Bertinotti, actual Presidente da Câmara de Deputados e ex-leader da "Refundação Comunista", com a qual convergem neste bloco, o Partido dos Comunistas Italianos, os Verdes e a Esquerda Democrática ( cisão dos Democratas de Esquerda que não aceitou a diluição no Partido Democrático, liderada por um Ministro do Governo cessante, Fabio Mussi).
Recentemente, falhou a tentativa de acordo entre o PD e o Partido Socialista Italiano ( de Boselli) que protagoniza uma tentativa de reconstituição do velho PSI, na qual se envolveu uma outra dissidência dos DS, que também não aceitou a diluição no Partido Democrático. A sondagem dá a este PSI, a magra percentagem de 1,5%.
Há também uma tentativa de constituir uma força política de centro entre o PD e o PDL, que alguns encaram como tentativa de reconstituir a velha Democracia-Cristã italiana, que foi o partido hegemónico, durante dezenas de anos do pós-guerra italiano. A sua principal componente é a UDC, partido que abandonou recentemente o bloco de Berlusconi e ao qual se juntaram alguns expoentes da democracia-cristã clássica. As sondagens atribuem a esta força ceca de 7%. Menos expressiva é a força dos democratas-cristãos da UDEUR ( 0.30) que abandonaram o Governo de Prodi, tendo-o praticamente feito cair, mas que não se conseguiram entender com Berlusconi.
O bloco de direita liderado pelo PDL ( 38%) atinge no seu todo os 43%. À sua direita há um novo partido saído dos pós-fascistas da AN, "A Direita" que vale 2,5% nas sondagens e que poderá dar o apoio a Berlusconi.
Até ás eleições, haverá uma significativa batalha política. O PD apostou fortemente na bipolarização e na redução do peso dos sectores que se situam à sua esquerda, quase todos resultantes de cisões no processo que levou do velho Partido Comunista Italiano, ao actual Partido Democrático.
Berlusconi estava confortavelmente instalado em sondagens que há mais de um ano lhe eram amplamente favoráveis, mas enfrenta agora uma conjuntura, em que inesperadamente essa vantagem parece dia a dia mais frágil.
Assim, pode acontecer que um dos dois grandes blocos possa vir a governar com sózinho estabilidade. É muito difícil que seja o PD a consegui-lo. Mas pode acontecer que os resultados eleitorais façam emergir uma Itália ingovernável. Quanto ao Centro, que joga nestas eleições uma inesperada ressurreição, podendo vir mais tarde a beneficiar da deserção dos democratas cristãos dos outros dois blocos, num hipotético cenário de ingovernabilidade. Se tudo lhe corresse bem, poderia até surgir, a médio prazo, em futuras eleições como um bloco com aspirações a voltar a ser hegemónico. A impressionante máquina política da igreja italiana, com o Vaticano ali tão perto está certamente á espreita , pronta a explorara todas as oportunidades.
E à esquerda, se for aí o epicentro de uma crise, não é impossivel que os procesos de rearrumação, que hoje parecem consumados, se reabram.
Entretanto, como ameaça surda ou pântano anunciado, há quem ponha já a hipótese de um inesperado centrão, sob o comando conjunto de Berlusconi e Veltroni. Se aí se chegar, algum dia, ficará então claro que a longa marcha feita pelos ex-comunistas italianos, longe de ser uma caminhada para o futuro, terá sido apenas uma longa agonia.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

A Esquerda Arco-Íris


Atravessa-se em Itália uma fase de radical reformulação do espectro político, quer à direita, quer à esquerda.

Como se sabe, nesta última parte do xadrez político, há um processo nuclear, ancorado no centro-esquerda, que suscitou o lançamento de um novo partido, o Partido Democrático, baseado nos ex-Democratas de Esquerda ( vindos do PCI) e no ex- Partido da"Margarida" ( herdeiro da ala esquerda da antiga democracia-cristã). Com uma expressão eleitoral que se espera muito mais reduzida, está em marcha uma refundação do Partido Socialista Italiano, para onde convergem os fragmentos do antigo PSI , que a sua pulverização suscitou, e ainda a recente dissidência dos democratas de esquerda ( por não quererem entrar no Partido Democrático), liderada pelo senador Gavino Angius.

Mas o processo que está, neste momento, numa fase crucial é o que envolve o Partido da Refundação Comunista, o Partido dos Comunistas Italianos, o Partido dos Verdes e a Esquerda Democrática ( outra dissidência dos Democratas de Esquerda, liderada pelo actual Ministro das universidades, Fabio Mussi, com o dobro do peso da anteriormente referida).
Estas quatro forças políticas realizaram uma grande Assembleia em Roma, nos passados dias 8 e 9 de Dezembro, tendo chegado a relevantes convergências substanciais. Tudo indica que chegaram a acordo sobre o nome a dar à nova organização que se pretende flexível e não centralista : a Esquerda Arco-Íris. Este princípio de caminhada está no entanto a ser ensombrado pelo risco de divisão , a propósito de uma possível nova lei eleitoral, actualmente, em discussão, em Itália.


Com excepção de algumas pequenas franjas do PSI, todas estas forças estão dentro do actual Governo, liderado por Prodi, ele próprio palco de algumas tensões internas graves. Imagine-se como pode conduzir a riscos políticos consideráveis , a conjugação destes vários processos com o quotidiano de um Governo, sem maioria segura no Senado. Seguir a realidade política italiana nos próximos meses será um excelente treino na reflexão política muito interessante.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Itália: O Partido Democrático em seu labirinto



Está a nascer na Itália um partido político que é, em si próprio, uma novidade: o Partido Democrático.

Mas se é uma novidade, quanto ao processo que o fez nascer e até quanto ao modo como parece ir funcionar, vai por um caminho que nada tem de novo no que diz respeito à linha e ao posicionamento políticos.


Seria estulto fazer previsões de médio prazo, vaticinar antecipadamente desgraças ou êxitos. Seria precipitado prospectivar os seus reflexos na União Europeia, ou na esquerda europeia, em particular. Mas pode ser esclarecedor, respigar memórias e sistematizar dados de facto.


O PD é fruto de um processo radicado na decisão política dos dois maiores partidos da actual Coligação de Esquerda que governa a Itália, ao aceitarem dissolver-se no novo sujeito político. Mas essa decisão foi apenas o ponto de partida para um processo aberto, cujo momento alto foi a eleição de um leader para o novo partido num plebiscito nacional, onde votaram milhões de italianos. Nesse sentido, o PD é bem mais do que a soma desses dois partidos. Walter Veltroni foi de muito longe o candidato mais votado, rondando os 75% de votos expressos. Actual presidente da Câmara de Roma, era um dos principais expoentes dos DS ( democratas de esquerda) com os quais convergiram no PD os democratas-cristãos de esquerda congregados num partido conhecido como " Margherita", numa alusão ao seu emblema, centrado nessa flor.

Deve no entanto dizer-se que ficaram fora do PD diversos partidos da Coligação, a começar pelas duas tendências minoritárias dentro dos DS, que em conjunto corresponderam a 22% dos delegados presentes no Congresso em que os DS resolveram dissolver-se, para darem origem ao PD. Desses, 15% são liderados pelo actual Ministro das Universidades, Fábio Mussi; e 7% pelo Senador , Gavino Angius.
Mas ficaram também fora do PD,diversas forças políticas de menor expressão, tais como,os Verdes, a Itália dos Valores (do ex-juiz Di Pietro), os Radicais, os liberais de esquerda, os cristãos-democratas da UDC e os pequenos grupos do velho PSI, que alinhavam com a Coligação. E claro, ficaram também de fora os dois Partidos Comunistas (a Refundação Comunista o Partido dos Comunistas Italianos), ambos membros da Coligação no poder.


O PD tem sido cotado, nas sondagens mais optimistas, como podendo atingir os 29%, num momento em que a popularidade do Governo Prodi parece fraca. Alguns analistas defendem que ele pode ter uma margem de crescimento até aos 35% e o seu leader assumiu recentemente a possibilidade de atingir os 40%. Mas em concreto, nas sondagens até hoje realizadas, nunca chegou aos 30%, o que significa que pouco mais vale do que a soma dos dois partidos que mais concorreram para a sua criação ( DS e "Margherita").


Com esta força eleitoral, o PD está posto perante a necessidade de assumir uma política de alianças, para poder ser Governo. E aí são já claras duas sensibilidades: a dos que defendem uma continuidade da política de alianças à esquerda; e a dos que defendem uma abertura ao centro que, diga-se em abono da verdade, é, por enquanto, mais virtual do que real, já que, fora da Coligação de Esquerda actualmente existente, a oposição de direita está também, toda ela coligada, na "Casa das Liberdades". Entre ambas, há apenas alguns resíduos políticos inexpressivos.


Por outro lado, o novo PD nasce com uma ambiguidade genética que lhe pode trazer dificuldades. De facto, durante o processo até agora decorrido, não ficou clara qual a família política internacional e, desde logo, europeia, onde se pretende situar. Uma parte entende que ele só pode integrar-se no Partido Socialista Europeu, do qual aliás faziam parte os DS; mas nos sectores oriundos da democracia-cristã, sustenta-se que, no plano europeu, o PD só pode criar um grupo autónomo exterior ao Grupo Socialista. Não é um problema menor, tendo sido uma das causas que levou à recusa do PD, por parte de significativos sectores dos antigos DS.


O nascimento do PD parece ter frustrado um outro projecto há muito sugerido, em surdina: a reunificação dos democratas-cristãos oriundos quer da direita, quer da esquerda, quer dos tais resíduos centristas, de modo a procurar o protagonismo que a democracia-cristã italiana já teve.

Em contrapartida, parece ter encorajado uma dinâmica simétrica na direita italiana com o partido de Berlusconi ( Forza Itália) a assumir-se como eixo da criação de um grande partido de direita que faça frene ao PD.


Mas as dinâmicas de convergência no âmbito da esquerda italiana não se limitam ao PD. De facto, os dois partidos comunistas e a facção dissidentes dos DS, liderada por Fábio Mussi ( Sinistra Democratica), estão a preparar formas de cooperação permanente que podem levar a um processo de federação que origine um novo sujeito político. No plano parlamentar, essa cooperação é já uma realidade.


Com uma dimensão mais reduzida, mas com uma margem de crescimento maior, está o processo de reconstituição do do Partido Socialista Italiano, no qual se integraram já todas as facções significativas que haviam resultado da fragmentação do PSI, aquando da operação "Mãos Limpas". O novo partido assume-se como continuador do PSI, cuja expressão eleitoral nos seus últimos anos não excedia muito os 10%, mas não se reduz a aos seus antigos membros, como se pode ver pelo facto da e a dissidência dos DS, liderada por Gavinio Angius se ter associado ao processo. Ao contrário do PD, o novo PSI assume-se como membros do Partido Socialista Europeu, abrindo assim um foco de pressão acrescida contra a indefinição internacional do PD. Diga-se aliás que também a Sinistra Democratica de Fábio Mussi se assume como parte do Partido Socialista Europeu.


Como se vê, o cenário político italiano está longe de ser linear. Para além deste complicado xadrez da recomposição política, pesa a fragilidade do actual governo, com risco de queda e de eleições antecipadas, com esta ou outra lei eleitoral. Está por determinar como se repercutirá no plano sindical toda esta recomposição, sendo certo que tem havido alguma crispação entre alguns sectores sindicais relevantes e o actual governo, com o qual , naturalmente, se identifica muito o PD. Falta analisar o factor Igreja, em Itália particularmente relevante, o que exigiria um outro texto .


Num relance perpectivador, pode olhar-se para o PD como desenlace longínquo da linha do compromisso histórico assumida, em plena guerra fria, pelo velho Partido Comunista Italiano e dirigido à Democracia-Cristã, talvez para curto-circuitar o velho PSI, bem como todo o pólo republicano laico de que ele era a força agregadora. O PCI transformou-se em PDS, depois em DS, para agora desaparecer no Partido Democrático. Saiu do movimento comunista rumo à Internacional Socialista, parecendo agora sentir-se pouco confortavelmente dentro dela. O desaparecido PSI ameaça reemergir e à esquerda do PD há um pólo de que pode ganhar consistência.


Será que o PD verá as suas limitações compensadas e corrigidas pelo sopro saudável da sua democraticidade e da sua inovação? Ou limitar-se-á a ser um cartel de sensibilidades moderadas com força eleitoral para contar institucionalmente , mas sem vigor para levar a Itália para novos horizontes? Os dados estão lançados. Quem ganhará o jogo?


segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Negócios são negócios...




Meditemos na notícia que aqui se transcreve, retirada do prestigiado diário espanhol "El País".

La mafia, primera empresa de Italia

Factura el 7% del PIB del país, según un informe de la patronal de la pequeña y mediana empresa de Italia

22/10/2007

"La mafia es la primera empresa de Italia, con una facturación anual de, al menos, 90.000 millones de euros, lo que representa el 7% del Producto Interior Bruto (PIB) del país transalpino, según el informe Sos Empresa elaborado por Confesercenti -la patronal de la pequeña y mediana empresa de Italia- presentado hoy en Roma.

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Según detalla el estudio, la usura representa la principal fuente de negocios, con alrededor de 30.000 millones de euros, mientras que el chantaje -denominado racket- aporta otros 10.000 millones.

En comparación con los diversos métodos de extorsión, los clanes mafiosos consiguen mucho menos dinero a través del robo (7.000 millones), el fraude (4.600), el contrabando (2.000), o los juegos y las apuestas (2.500).

En total, la extorsión perpetrada por las distintas asociaciones mafiosas de Italia afecta a unos 160.000 comerciantes de todo el país, que en algunas zonas representan el 20% del total, mientras que en otras representan hasta un 80%, como sucede en las ciudades sicilianas de Catania y Palermo.

Sin embargo, el informe denuncia que uno de los elementos más alarmantes es la actitud que mantienen muchos empresarios, especialmente en el ámbito de las obras públicas, ya que prefieren llegar a un pacto con la mafia antes que denunciar el chantaje.

En la presentación de este estudio estuvo presente el presidente de Confesercenti, Marco Venturi, además del viceministro del Interior, Marco Minniti, quien avanzó nuevas medidas -entre ellas, innovaciones legislativas- para combatir la criminalidad organizada, especialmente contra su patrimonio."


Seria interessante que as instâncias económicas internacionais, que tanto se preocupam com qualquer excesso de protagonismo económico das entidades públicas, nos dissessem o que propõem para combater este "cancro" que corrói o tecido democrático e apodrece o próprio capitalismo. É que não é só a Itália. Também não se podem esquecer nem as "mafias" do leste europeu, nem as tríades japonesas, nem as "mafias" americanas,nem os gangs sul-americanos.

Na verdade, os arautos do neoliberalismo, centrados num unilateralismo economicista que os cega, ignoram a complexidade das sociedades actuais. O sôfrego poder económico dominante, obcecado pela vertigem do lucro rápido, parece esquecer tudo o resto. Uns e outros acabam por ser incapazes de equacionar sequer os problemas que a sua própria hegemonia desencadeia ou agrava.
Na verdade, quando o controle democrático, protagonizado por poderes políticos representativos, esmorece na voragem neoliberal, não são apenas os grandes grupos económicos a ocupar o vazio, são também os agentes do crime organizado a aproveitar a oportunidade.

sábado, 6 de outubro de 2007

Três poemas de Ungaretti




Publico aqui hoje três poemas de um grande poeta italiano, Giuseppe Ungaretti( 1888-1970). Para além da versão original transcreverei também a versão portuguesa, da autoria de Orlando de Carvalho ( intelectual, jurista, político e poeta de saudosa memória, desaparecido no início deste novo século). Permito-me chamar a vossa a atenção para a enorme força desse poema tão simples contra a guerra: " Soldati".
As versões portuguesas fazem parte do livro de Ungaretti, "Sentimento do tempo", publicado em 1971 pelas Publicações Dom Quixote, tendo sido todos os poemas traduzidos por Orlando de Carvalho.
Reparem na qualidade das versões portuguesas.

I.Eterno

Tra un fiore colto e l'altro donato
l'inesprimibile nulla


Eterno

Entre uma flor colhida e outra dada
o inexprimível nada


II.Matina

M'illumino
d'immenso


Manhã

Deslumbro-me
de imenso


III.Soldati

Si sta come
d'autunno
sugli alberi
le foglie


Soldados

Estão como
no outono
nas árvores
as folhas