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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

A DIREITA EM DISSIPAÇÃO LENTA?

 

A DIREITA EM DISSIPAÇÃO LENTA?

 

Há alguns dias atrás, António Costa resolveu divertir-se um pouco perante um  atento grupo de jornalistas junto da sede nacional do PS. Assim, inquirido sobre a conjuntura concorrencial PS/PSD, afirmou sorrindo que qualquer dos dois (reais) candidatos à liderança do PS dava dez a zero em potencial de liderança ao Dr. Montenegro. Os jornalistas deliraram. Foram a correr pedir uma reacção a Montenegro.

O azougado causídico de Espinho explodiu, garantindo que era muito melhor do que  José Luís Carneiro e muito melhor do que Pedro Nuno Santos. E, logo de seguida, aproveitando o balanço, foi ainda mais longe, garantindo que é                    mesmo melhor do que o Dr. António Costa. Modéstia bonita…

Acredito, que a maioria dos vizinhos da sua rua aceitem com bonomia  tão encomiástica autoimagem. Duvido que para além deles haja alguém que não tenha tido que conter uma discreta gargalhada.

O fogoso candidato a liderar um Governo de direita abriu assim a porta do ridículo.

Quem é o CONSELHEIRO que na verdade o detesta tanto que o empurrou para esta rotunda anedota?

 

 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

UMA ESCOLHA NECESSÁRIA

 



UMA  ESCOLHA  NECESSÁRIA

 

Há três candidatos à liderança do PS: Pedro Nuno Santos, José Luís Carneiro e Daniel Adrião. Temos assim três socialistas que se incomodam praticamente com o Partido e com Portugal. Só por isso merecem o nosso reconhecimento e o nosso apreço.

Cabe-nos agora a nós socialistas, membros do Partido Socialista, dizer quem preferimos.

Verdadeiramente, só os dois primeiros são autênticos candidatos a liderar o PS. Daniel Adrião, com total legitimidade, é um militante que gostaria de ver discutidas no Congresso algumas das suas ideias políticas gerais. E os estatutos do PS impõem que só possa promover esse tipo de debate num Congresso do partido quem o fizer no quadro de uma candidatura a secretário-geral. É um aleijão estatutário que há muito nos diminui politicamente. Ter ideias e querer discuti-las no colectivo partidário não pode obrigar a ser-se candidato à liderança do Partido. Mas a realidade deste aleijão não converte Daniel Adrião num candidato com o mínimo de densidade política exigível a quem se abalance a uma disputa deste tipo. Aliás, neste como nos casos anteriores, a formalidade da candidatura enfraqueceu a visibilidade e a relevância das ideias políticas por ele propostas para debate.

Quanto aos dois reais candidatos Pedro Nuno Santos e José Luís Carneiro, na minha opinião, a primeira coisa a dizer é que estamos perante dois dirigentes de excelência, dois quadros políticos altamente meritórios, cujo currículo os engrandece. O PS só tem que se regozijar com isso.

Mas trata-se de escolher um deles para liderar o Partido. Não tenho a mínima hesitação: opto por Pedro Nuno Santos.

Desde logo, porque, dentro do espaço socialista, me situo na mesma região de PNS, tendo o mesmo tipo de leitura do socialismo e do essencial do trajecto a percorrer pelo PS. Depois porque o seu perfil político me parece adequado às tarefas que cabem ao PS , na actual conjuntura histórica. Alem disso, tem uma atitude combatente e um carisma liderante indiscutíveis. É crível a sua firmeza e eficácia em garantir a autonomia estratégica do PS perante todos os poderes de facto, bem como na interacção com os outros partidos, sem contudo se deixar anquilosar num isolacionismo estéril.

Por seu lado, José Luís Carneiro tem mostrado ser, não o protagonista de um projecto inovador e diferenciado, de uma maneira própria de encarar a liderança do PS, mas alguém que assumiu o papel de travar a conquista da liderança do PS por Pedro Nuno Santos. É um desígnio modesto que apouca e empobrece o seu perfil político.

Aliás, a sua campanha e, principalmente, o argumentário usado por alguns notáveis para o apoiarem tem roçado a caricatura política involuntária. JLC tem sido mais uma vítima do que um beneficiário do modo como lhe têm sido dados alguns dos apoios que recebeu.

Apoio Pedro Nuno Santos na disputa pela liderança do PS, para que levemos de vencida a soturna  aliança de direita que ostenta desde já a sua incapacidade para compreender o mundo em que vivemos e o país que somos. E terá toda a razão o povo se vir nessa direita mais um risco do que uma esperança.

 

 

 

domingo, 26 de novembro de 2023

O CONGRESSO

 


O  CONGRESSO

Assombração e Silva não desiste de fazer de homem do saco. Julga ele que assusta a esquerda, oferecendo-se como ícone ao que julga serem as legiões da direita.

A direita comove-se com o reaparecimento do fantasma dos seus sonhos perdidos. Ouve entretanto com reserva o alarido que rodeia o modesto salvador que lhe oferecem.

Esperava com ansiedade um robusto galo de combate. Teme que lhe estejam a querer fazer engolir o que os seus adversários possam com verosimilhança considerar um modesto, ainda que pomposo, garnisé.

O bom povo, que eles querem cercar, olha com desconfiança o circo mediático. Das apregoadas glórias do laranjal, recorda-se vagamente. Mas menos como glórias do que como pesadelos.

São também apregoadas legiões de sábios que, em reuniões muito circunspectas, congeminam gravemente os muros com que querem rodear o nosso futuro. No essencial, procuram convencer os explorados que acentuar-se a exploração é o caminho mais seguro (quiçá o único!) para que os pobres tenham a boa sorte de aproveitar o enriquecimento dos ricos para colherem os frutos da sua proverbial generosidade.

O bom povo pensa e torce o nariz. Habituado a migalhas, estranha quando lhe ofereçam banquetes.

Assombração e Silva sai para jantar, na esperança de que a esposa o espere com um petisco.

Os jornalistas e os comentadores, plenos de imparcialidade garantem que o número caváquico foi o sucesso de topo do transcendente conclave

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

É urgente substituir o povo!

 



É urgente substituir o povo!

1. Deixei passar uns dias antes de tecer alguns comentários a propósito das recentes eleições legislativas. Deixar assentar as poeiras mais imediatas pode ajudar na  crítica. Não pretendo fazer uma abordagem global. Pretendo apenas escolher alguns tópicos dispersos que me pareçam sugestivos e possam ser envolvidos em relevâncias futuras.

No dia 30 de janeiro, o (im)plural panorama da comunicação social portuguesa foi acossado por um violento sopro de realidade.

 

2. Uma vasta corte de comentadores políticos da direita ressequida, de oráculos reformados da esquerdíssima mais cortante, de cultores luminosamente científicos da vulgata neoliberal, de jornalistas previsíveis e de comunicólogos emaranhados, partilhou uma esforçada campanha destinada a explicar por que razão estavam em perigo , nas eleições do passado dia 30, o PS e António Costa, a quem seria servido inevitavelmente, na melhor hipótese, o amargo sabor de uma vitória pífia; e, na pior, o compreensível e merecido castigo de uma derrota paralisante.

Ora, se acusava AC de ser um inconfessado e oculto amante da maioria absoluta, ora se trovejava contra o alegado descaramento de a pedir expressamente. Mas ao mesmo tempo, qualificava-se como puro delírio o sonho de a vir a obter.

Com melíflua comiseração, apontava-se o seu óbvio cansaço, traçando-se um quadro dramático das  sucessivas não remodelações do seu Governo, acentuando o gigantismo de alguns minúsculos casos com que o tentaram cercar, para afirmar com a frieza gulosa de um imaginário rigor, que também o bom povo estava cansado dele, muito cansado.

Cientes do excesso de culparem directamente o governo do coronavírus 19, atiravam-lhe para cima imaginárias insuficiências e falhas de comunicação. O povo estava farto, fartíssimo de António Costa e do governo do PS.

 

3. Despertos para o grande desígnio nacional do reformismo holístico, no âmbito do qual cada corporação de interesses e cada corte ideológica do abrangente conservadorismo vigente, tingem a sua feroz apetência alegadamente reformista com a cor forte dos seus interesse mais egoísticos, deixavam cair implacáveis a sua mastigada e incontornável sentença: o governo do PS liderado por António Costa fugiu dramaticamente de todas as reformas.

 Rigorosos, aprestavam-se por isso ao registo frio de uma derrota quente das cores socialistas. Mansa, a matilha mediática uivava concordância, com toda a energia.

Mas a arguta matilha tinha uma visão de largo espectro. Atenta – vigiava qualquer tique do odiado António Costa para, como um bando de arcanjos virtuosos, o denunciar em praça pública sem contemplações. E assim na sua lucidez esotérica foi identificando sinais de uma evidente ainda que discreta arrogância.

AC defendia o acerto das medidas do seu governo e logo gritavam: arrogância! AC mostrava um qualquer sinal internacional de reconhecimento do mérito do seu Governo e logo vociferavam: arrogância! AC respondia a alguma das pedradas políticas que lhe dirigiam, num simples exercício de legítima defesa e logo se indignavam: arrogância!

Mas se AC tomava uma posição pública na qual fosse  impossível encontrar a mais leve aparência de arrogância, regougavam com incontida reprovação: hipocrisia!

Ou seja, o nosso bando de arcanjos mediáticos tingia de evidência o seu próprio delírio e condenava irremediavelmente AC como arrogante. Por definição; dispensando-se por isso de mostrar o arrogantismo dessas arrogâncias.

 

4. O despontar tímido de um punhado de vitórias em autarquias  importantes nas recentes eleições autárquicas, foi suficiente para se gritar como óbvia uma firme rejeição popular  de AC e do Governo do PS ( apesar de ele ser de longe o partido autárquico maioritário, quer em número de CM quer de F). A promessa firme de um tsunami laranja ia pairando assim com crescente intensidade.

Mas o povo enganou-se! Driblou oposições, comentadores graves, expoentes da ciência política, economeses de largo espectro. O PS teve maioria absoluta.

 

5. É pois urgente substituir o povo! É , pelo menos, o que pensa ousadamente a direita lusitana mais bem pensante, bem como a deslumbrada bolha comunicacional, o comentariato elucrabativo e os vultos graves dos alegados senadores do dislate.  Não podem permitir que o PS se ponha a ganhar eleições desregradamente. Uma de quando em vez, desde que modesta, ainda vá lá. Relativazinha – e é um luxo. Mas o despautério de uma vitória sem peias- nunca mais!

E a vasta corte dos oráculos políticos cujas previsões são sempre revistas em alta ou em baixa, raramente antecipando realmente a realidade, lambidas as feridas auto-infligidas pela sua desesperada e inútil cruzada contra o PS e contra António Costa, procura agora respirar com  exigência a maioria absoluta instituída.

 Forçadamente despidos da arrogância de invocarem a inexistente soberba de um e outro para agoirarem a sua derrota ou, mínimo dos mínimos, uma vitória esquálida, os da bolha político-mediática aprestam-se agora a apresentar a AC o catálogo das suas exigências. O deve haver da arrogância que inventaram e que a realidade(teimosa!) não absorveu.

Uma azougada constelação de interesses, de preconceitos e de narizes de cera apronta um caderno de encargos para assombração do PS e de AC. Ignora que o caminho a seguir pelo próximo Governo tem as raízes numa ampla convergência de vontades geradora de 119 deputados na AR e não das vocações resmungonas de um punhado der oráculos decadentes.

Com o tom solene de um Conselheiro de Estado, Mendes já decretou que  se o governo fizer o que ele lhe mandar é dialogante , se não lhe obedecer mostra a sua arrogância. Foi aplaudido e seguido. Quanto á vontade dos milhões de portugueses que deliberaram dar maioria ao PS e a AC e disseram querer ver cumprido o respectivo programa os iluminados nada disseram.

 

6. Por mim olhando para a paisagem reinante como um todo, começo por recordar Brecht.

Confrontado com um conflito que no seu  tempo opôs o governo da RDA ao povo trabalhador que aí vivia, Brecht , poeta e comunista, escreveu um breve poema, onde numa atitude crítica perante as posições oficiais que assim concluiu:

“Pois não seria

Então mais fácil que o Governo

Dissolvesse o Povo e

Elegesse outro ?”

 

É um poema lendário que esvazia uma vasta área da retórica eleiçoeira dos políticos pernósticos.

Quiçá sem o saber, a deputada  e  vice-presidente do PSD, Isabel Meirelles, quando lhe pediram para explicar o que falhou e conduziu à hecatombe da retórica já vencedorista do partido a cuja direcção pertence, deu uma resposta que fez com que se lhe enterrasse até às orelhas a “carapuça” brechtiana

“O que falhou foi o foi o povo português"!

 

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"

 

 

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"

1- Os factos

- uma conjugação dos votos de todas as direitas e do BE, do PCP e dos Verdes chumbou o orçamento logo na votação na generalidade.

- esse chumbo foi precedido por negociações entre o PS ( único partido com responsabilidade governamental directa e que dispõe de um apoio eleitoral bastante superior ao de cada um dos outros partidos) e os outros partidos de esquerda, tendo as que ocorreram  com o PCP e os Verdes decorrido até à véspera do votação.

- nessas negociações foram alcançados resultados que se traduziram numa proposta de orçamento claramente mais próxima das posições das esquerdas não PS do que os anteriores, especialmente no que diz respeito às posições do PCP e dos Verdes.

- a direita sozinha não tinha força para chumbar o Orçamento.

- a parte mais significativa das razões invocadas pelas esquerdas que chumbaram o orçamento  não dizia respeito directamente ao conteúdo do orçamento

2. A fantasia

- quem chumbou a proposta de orçamento foi o PS, único partido que votou a favor, e não aqueles que votaram realmente  a sua reprovação.

- ou seja, para a fantasia : o PS manipulou os outros partidos, induzindo-os a votar contra a proposta de orçamento, tal como a ele lhe convinha que votassem; e assim, contra aquilo que falsamente  dizia querer aprovar;

- pelo que as negociações havidas foram um mero exercício de hipocrisia política;

- o ilusionista chefe que tudo urdiu foi António Costa, que é nessa medida  um actor de comédia disfarçado e não um dirigente político nacional e internacionalmente prestigiado, hábil e consistente.

- mas esse ilusionista não avaliou bem os riscos que corria ao praticar o seu golpe de mágica pelo que até pode perder as eleições.

3.Uma lógica de geleia

- os partidos de esquerda que se juntaram à direita, vítimas da extrema perversidade de os fazerem tomar uma posição que só os prejudicava, respondem a esse golpe de ilusionismo, apelando ao não voto no PS sob a desculpa de assim estarem a esconjurar o demónio de uma maioria absoluta do PS, mas esperam que ele possa formar um governo que realize as medidas que eles inscrevem nos seus programas.

- embora aleguem ter sido  vítimas da perversidade ilusionista do PS as outras esquerdas ciciam estar abertas a dialogar com ele após as eleições, dando a entender que preferem um governo do PS do que um de direita

4. Moralidade Esquisita

- os culpados aparentes estão inocentes, o inocentes ostensivos são afinal culpados

5. Evocando Eça de Queirós

-“Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”

 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

 

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

1-AUTONOMIA ESTRATÉGICA

Na actual campanha, a linha estratégica do BE (gritante) e do PCP (menos trovejante) pode resumir-se em dois apelos dirigidos ao eleitorado que possa votar no PS:

- Não votem no PS para ele não ter maioria absoluta!

- Votem no PS para ele governar, de modo a poder tomar as medidas que nós achamos que devem ser tomadas.

2- REQUERIMENTO DO ELEITORADO, ALGO CONFUNDIDO:

- Vimos respeitosamente pedir a Vossas Excelências o obséquio de nos indicarem quais de nós devem votar e quais de nós não devem votar no PS.

3- PERGUNTA INCONVENIENTE DE UM ELEITOR DE LISBOA ESCALDADO:

- Nas mais recentes eleições autárquicas em Lisboa segui religiosamente as vossas instruções e o resultado foi o que se conhece: ganhou a direita. Têm a certeza que não acontecerá o mesmo, à escala nacional, se continuar a obedecer-vos?

 4- RESPOSTA ESOTÉRICA DOS PERGUNTADOS:

- Fomos à bruxa que alegadamente tem ajudado o FCP a ganhar campeonatos e ela garantiu-nos que com um pouco de sorte isso não ia acontecer.

5- MORALIDADE EM JEITO DE PERGUNTA:

- Se o PS não existisse a quem pediriam os partidos acima mencionados para lhes executarem as suas políticas?

 

domingo, 28 de novembro de 2021

O MISTÉRIO DO LARANJAL EXTRAVIADO

 

O mistério do laranjal extraviado

Era uma vez um laranjal com um disfarçado perfume de direita. Discreto para não afastar os pacatos portugueses suaves. Suficientemente detectável para fixar a nebulosa conservadora, não desiludir o entusiasmo dos liberais, nem excluir os prisioneiros distantes da ressaca salazarista.

No passado, num tempo de pujança eleitoral, chegaram a falar em  cavaquistão. Há anos que muitos o procuram reencontrar num saudosismo infrutífero. Os museus acolhem memórias; não prenunciam regressos.

Ontem, houve dentro do laranjal uma competição feroz entre Rio e Rangel, para legitimar a entrega do leme partidário a um deles. O segundo desafiava o primeiro que, aliás, dirigia já o laranjal em questão.

Os notáveis, os notabilíssimos e os híper-notáveis, reconhecidos como frequentadores ou proprietários  do laranjal, fizeram os seus alinhamentos. Estilos diferentes: alguns deixavam deslizar um esgar aqui um sorriso ali sugerindo uma posição; outros almoçavam com, pouco inocentemente; outros recebiam indiscretamente cumprimentos. Só alguns desferiam verdadeiras cacetadas. Uns tantos frequentavam lançamentos e cerimónias sentando-se uns ao lado dos outros com um sorriso maroto. Queriam tornar bem clara a sua preferência sem que pudessem ser acusados de a ter explicitado. No meio desse  labirinto de subtilezas e de hipocrisias, pode nem sempre ter sido claro o apoio a Rangel, mas foi sempre evidente a recusa em apoiar Rio.

Marcelo, Balsemão, Cavaco, Moedas, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho, Poiares Maduro, Morais Sarmento, não apoiaram Rio. O chamado aparelho, ao que disseram vozes conhecedoras, também não. Apesar disso, 52,43 % dos votantes nas primárias deram a vitória a Rio.

Os derrotados, sem deixarem de o ser , deixaram contudo uma mensagem devastadoras quanto ao vencedor: Rui Rio não seria um primeiro-ministro desejável. Mas mostraram também que, todos juntos, só foram ouvidos por 47,57 % dos militantes do PSD que votaram. Para tão ilustre equipa é pouco, muito pouco, muitíssimo pouco. No entanto, Rio está desde já condenado a suportar o peso desses 47,57 % e da luzidia plêiade de notáveis que o abandonou. Incontornável!

Como podem os portugueses confiar para os governar em alguém que reúne uma tal unanimidade cética  de tão ilustres figuras tão próximas dele ?  

Por isso, se pode dizer que se há ainda um verdadeiro laranjal com o respetivo perfume ainda ativo , seguramente que se extraviou.

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

TONITROANTE HIPOCRISIA

 


Tonitruante hipocrisia

Na sua tonitruante hipocrisia, a direita decreta desesperadamente que a unidade de esquerda está morta. Todo o seu discurso pela boca dos mais seráficos ou insuspeitos porta-vozes diz que por isso chegou a sua vez.

Reparem: se descontarmos as ladainhas gastas dos narizes de cera neoliberais, a direita não é capaz de dar ao povo uma razão para votar nela. A não ser a sua estranha promessa de que vai enriquecer de imediato os ricos para que eles possam depois distribuir calmamente  aos pobres algumas generosas migalhas.

A mim parece-me que a direita só encontra como única razão para que votem nela o facto de a esquerda se ter desentendido.

O ruído vai crescer. Ela vai distribuir números esotéricos e prantos crocodílicos para nos dizer que Portugal está de rastos, preparando-se para tentar uma vez mais colocar-se em posição de permitir que os ricos e poderosos suguem mais livremente o país.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PEDIR POUCO

 

Enérgica e perentória, Catarina apela à eleição de mais um vereador para o BE, em Lisboa ou noutro lugar, para assim abrir as portas  às coisas boas que os aturdidos munícipes já não esperavam .Uma chama incendeia-lhe o olhar, a felicidade está ao alcance das nossas mãos. Deem mais um vereador a Catarina e tudo será diferente.

É certo que podia pedir uma maioria absoluta para o BE, que assim teria os meios para realizar as suas esperanças. Mas Catarina é modesta. Tão modesta quanto entusiasta: não quer tanto, basta-lhe mais um vereador.

E é tão modesta que se inibe de ostentar toda a extensão do que nos promete. De facto, o seu contido desejo de mais um vereador, para além de poder ser a chave de uma boa fortuna, é muito mais do que isso, o princípio de um milagre. Não tão extraordinário, é certo, como o das rosas, mas seguramente também notável.

De facto, de um PS pesadão e relapso,  alérgico à abertura das generosas portas de Catarina, rumo a um início de respiração do paraíso, ela fará uma coleção de arcanjos, vocacionados para  o cometimento de todas as propostas  almejadas pelo BE. E afinal com uma condição muito simples: mais um vereador  para Catarina.  E, já agora, se não for pedir muito, não concedam ao PS maiorias absolutas.

Um cético oráculo da Grécia antiga talvez insidioso  encolhesse os ombros e regougasse : “Delírio, puro delírio”. Mas eu que sou um otimista do século XXI , generoso para com a alma humana ,afirmo com firmeza: “ Nada disso. Entusiasmo, voluntarismo , sonho  “.

sábado, 24 de abril de 2021

Comparação crítica de várias sondagens recentes

 

Comparação crítica de várias sondagens recentes


1.Em 23 de abril foi publicada no Expresso uma sondagem da responsabilidade do ISCTE. Ao contrário da maior parte das outras, esta não valoriza as décimas nos números que divulga, o que deve ser tido em conta na comparação com as que procedem de maneira diferente.

O PS é o partido que reúne um maior número de intenções de voto, atingindo os 37%. Relativamente à sondagem da mesma proveniência, difundida em dezembro passado, perde 2 pontos percentuais.

O PSD é o segundo partido, atingindo 29%; o que significa uma subida de 4 pontos relativamente à sondagem de dezembro.

O BE com 9% sobe um ponto percentual, enquanto o Chega com 6% regride um ponto. A CDU mantém os 7% de dezembro, tal como o PAN conserva os 2% .

O CDS baixa de 2 para 1%, enquanto a IL continua com 1%.

Deste modo, no seu todo, a Esquerda (PS,BE e CDU) desce de 54 para 53%,a Direita (PSD, Chega, CDS e IL) sobe de 35 para 37%. O Centro (PAN) conserva os 2% de dezembro passado. As Esquerdas exteriores ao PS passam de 15 para 16%, enquanto a Direita sem o Chega passa de 28 para 31%.

Embora a distância entre os dois maiores partidos tenha diminuído, ao cifrar-se em 8 pontos percentuais, mostra uma relação de forças idêntica à revelada pelos resultados eleitorais de outubro de 2019.Do mesmo modo, a vantagem da Esquerda no seu todo mantem-se ao nível da que resultou da pugna de 2019. Na verdade, em 2019 a diferença era entre 51,19 % para a Esquerda e 34,56% para a Direita; nesta sondagem é entre 53% e 37% respetivamente.

 

2.Em 18 de abril, foi difundida pelo Negócios e pelo CM uma sondagem da Intercampus. Tem algum interesse compará-la com outra da mesma proveniência divulgada há um mês (17 de março).

Foi o PS foi que registou o maior número de intenções de voto – 36,2 % - o que representou, no entanto, uma quebra de 1,4% relativamente ao mês passado. O PSD ficou praticamente estagnado nos 23,3 %, o que se traduziu num ligeira inflexão de o,3 %. A separar os dois partidos estão agora 12,9%, encurtando-se assim um pouco a diferença de 14% do mês passado.

O BE e o Chega ficaram empatados com 9,4%, o que resultado de uma subida de 1,1% do primeiro e de 0,4% do segundo. A CDU ficou com 5,2%, tendo assim subido 0,3%. O CDS, ao atingir 3,1%, subiu 0,8% , enquanto a Iniciativa Liberal ao recuar 0,5% , ficou-se pelos 4,8%. O PAN ficou no mesmo patamar, mas no seu caso isso representou um aumento de 2,3%. É este o peso do Centro, enquanto o da Direita no seu todo, de acordo com esta sondagem, seria de 40,6%. Bem longe dos 50,8% alcançados pelas Esquerda com assento parlamentar no seu todo.

Olhando para os grandes espaços políticos, entre as duas sondagens a Esquerda desceu 0,6 %, a Direita subiu 0,4% e o Centro subiu 2,3 %.

 

3. Para uma melhor avaliação do significado político destas duas sondagens vale a pena compará-las com outras publicadas em março e abril, inserindo esta última do conjunto considerado. São tidas em conta três publicadas em março ─ Aximage (01),Eurosondagem (06),Intercampus (17) e outras três em abril ─ Aximage (05),Eurosondagem (10), Intercampus (18).

No conjunto das seis sondagens, o PS oscilou entre um mínimo de 36,2% e um máximo de 39,7%; o PSD entre 23,3% e 28,2%. Em cada uma das sondagens, a diferença entre estes dois partidos variou entre um mínimo de11,1% e um máximo de 16,1%.

O BE oscilou entre 6,2% e 9,4% ; e a CDU, entre 4,5% e 6%. O PAN variou entre 2,1% e 4,8%.

O Chega variou entre 6,5% e 9,4%. A IL, entre os 2,1% e os 5,7%. O CDS oscilou entre 0,8% e 3,1 %.

No conjunto destas seis sondagens, a Esquerda (PS, BE e CDU) varia entre 50,8% e 54,3%; a Direita (PSD, Chega, CDS e IL) varia entre 38% e 40,6%; o Centro (PAN), entre 2,1 e 4,8%.

Vejamos agora, quanto à sondagem mais recente que comentámos no início deste texto, em que medida os seus resultados se situam dentro ou fora dos limites máximos e mínimos definidos pelos resultados das seis sondagens que acabamos de mencionar.

O resultado do PS (37%) situa-se dentro do intervalo entre o máximo e o mínimo, definidos por este conjunto de sondagens. O resultado do PSD (29%) situa-se ligeiramente acima. A diferença favorável ao PS entre os dois partidos (8%) situa-se ligeiramente abaixo.

O resultado do BE (9%) situa-se dentro do intervalo referido, o do Chega (6%),ligeiramente abaixo do limite mínimo, o da CDU (7%), acima e o do PAN (2%), ligeiramente abaixo. O CDS (1%) fica dentro do referido intervalo e a IL (1%), abaixo.

No seu todo, a Esquerda (53%) fica dentro do mencionado intervalo, a Direita (37%), ligeiramente abaixo e o Centro (2%), também ligeiramente abaixo. Também a Direita democrática (sem o Chega), na última sondagem, atingiu um patamar (31%) dentro do referido intervalo (entre 29,5% e 33%).

A diferença mais significativa diz ,  talvez, respeito aos resultados estimados para o PS e para o PSD, estando no facto de, na sondagem mais recente,  ela estar abaixo do limite inferior do conjunto das outras seis sondagens ((8 % contra 11,1%). De facto, quanto maior for esta vantagem do PS em melhor posição estará na disputa eleitoral autárquica. pode projetar-se em muitas vitórias autárquicas, sucedendo o contrário no caso oposto.

Mas esta diminuição de vantagem, ao conjugar-se com os outros resultados, tem um diminuto poder de pressão quanto a uma hipotética mudança de rumo no governo do país, em virtude da sua reduzida dimensão. Portanto, um olhar que abranja o conjunto de sondagens comentado revela , no essencial, uma relativa estabilidade nas referências eleitorais dos portugueses.

 

4. Pode assim servir de conclusão política genérica, o comentário publicado neste mesmo blog, em 16 de fevereiro, aos resultados de cinco sondagens difundidas entre 16 de janeiro e 13 de fevereiro. Duas da Universidade Católica, duas da Eurosondagem e uma da Aximage.

Na verdade, no fundamental, o cenário político em termos de intenções de voto não se alterou. Escrevi eu então:

“Parece poder concluir-se que a ultrapassagem do conjunto das esquerdas pela direita não parece provável, mas a ultrapassagem das esquerdas pela direita democrática mostra-se uma hipótese muito remota. Não só à luz das sondagens de 2021, mas também em função da trajetória inerente à sua comparação com os resultados das eleições de 2019. Tanto mais que o período desde então decorrido já foi em grande parte sob a pandemia.”

E agora estão em causa doze sondagens difundidas neste primeiro quadrimestre de 2021.

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quinta-feira, 22 de abril de 2021

MOEDAS FALSAS ?

 Moedas entrou em campo como sombra sonhadora da Comissão Europeia e da Gulbenkian, esperando assim escapar dos insalubres ecos “pafiosos”que de longe o vigiam.

Mas logo na segunda vez que se fez à bola, procurou ostensivamente, ainda que sem êxito, a canela do odiado adversário.

Assim mostrou que afinal quem funciona como sua verdadeira treinadora é a candidata do PSD na Amadora, uma acutilante loura de verbo selvático.

Os advogados subtis da “cheguização” do PSD, argutos “Observadores”, aplaudiram com entusiasmo. Porém, a moeda desvalorizou-se mais um pouco.

quinta-feira, 25 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra -II

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra 

II - Em COIMBRA, a lista talvez do PSD

─ uma duplicidade ambígua

                                        - Rui Namorado

1. Esperei alguns dias que o PSD esclarecesse a aparente incongruência que envolveu o anúncio solene do nome  que escolheu para encabeçar a sua lista de candidatos à Câmara Municipal de Coimbra. Não me apercebi de qualquer clarificação subsequente. Dou por isso  como fiel a imagem projetada pelo que se passou.

Rui Rio deslocou-se pessoalmente a Coimbra para anunciar formal e solenemente na presença do próprio que “ José Manuel Silva irá encabeçar a lista do PSD” em Coimbra. Em declarações à comunicação social, feitas imediatamente a seguir e noticiadas em conjunto com o referido anúncio, o candidato escolhido saudou Rui Rio e o PSD por "demonstrarem grande abertura à sociedade civil, apoiando e integrando esta candidatura 'Somos Coimbra'.”.

Uma pulsão imediatista podia levar-nos a dizer: “um deles mentiu”. Se assim fosse, estaríamos perante um verdadeiro absurdo. Um dos dois políticos teria atraído o outro para o enxovalhar irremediavelmente. Não seria decerto o primeiro caso na cena política mundial, mas não é um tipo de ocorrência frequente. E aquele que tivesse desferido o golpe corria sérios riscos de ver o episódio virar-se contra si, depois de ter ferido a outra parte. Aliás, o absurdo seria agravado pelo facto de os dois protagonistas, subsequentemente, se terem comportado como se tudo tivesse decorrido com plena normalidade.

Mas se nenhum deles mentiu e uma vez que disseram coisas entre si contraditórias, o que significou então tudo isso? Numa versão, JMS encabeça a lista do PSD por Coimbra, tendo aliás sido anunciado em conjunto com candidatos do PSD a outras Câmaras Municipais, numa sessão pública ostensivamente partidária. Noutra versão, o PSD apoia e integra a candidatura independente “Somos Coimbra”. Mistério…


Assim, foi natural que me viesse à memória o deus romano Janus, um ser mitológico com duas caras, duas cabeças  viradas em direções opostas. Esse deus não surgiu do nada. Nasceu de uma divindade primitiva que não tinha forma, a que chamavam Caos. Ao ganhar forma tornou-se um ser com duas cabeças, uma olhando para o passado, outra para o futuro. Caos ─ premonição ou acaso? O risco desta reincarnação longínqua é que, neste caso, o caos seja menos a ressonância de uma origem do que uma sombra de futuro.

 


2. Na verdade, as duas cabeças deste Janus moderno não têm vocação para olhar para direções opostas: uma para o passado, outra para o futuro. Ambas carregam de algum modo um passado que lhes entorpece o futuro, ou que pelo menos o complica.

“Somos Coimbra” na pessoa do seu líder olha para o passado ciente da sua alegada posição de exterioridade em face de todos os partidos, do seu apego a mostrar-se bem fora deles, do seu projeto apartidário para Coimbra com que se apresentaram aos eleitores procurando aliciá-los com esse distanciamento em face dos partidos (de todos). Vê como a sua independência foi insuficiente, quer para ganhar a presidência da Câmara em 2017, quer para chegar sequer ao segundo lugar, no qual ficou o PSD. Recorda, certamente com preocupação, a amputação que sofreu em 2020 de um segmento relevante dos seus elementos com maior notoriedade, entre os quais alguns eram figuras públicas de justificado prestígio que , em si próprias,  esbatiam fortemente o risco de o movimento “Somos Coimbra” projetar  uma imagem que o amarrasse inequivocamente à direita.

O PSD de Coimbra, por seu lado, tem certamente uma memória amarga de 2017, quando uma aposta qualitativa forte na lista candidata ao município, que apresentou em aliança com o CDS, não foi suficiente para lhe dar o primeiro lugar. E não poderá deixar de admitir, com razão ou sem ela, que um contributo importante para a sua derrota lhe foi dado pela concorrência de “Somos Coimbra”. Mas a névoa mais penosa será certamente a sua memória próxima da brutal desconsideração política praticada pela direção nacional do PSD contra as suas estruturas distritais e concelhias, quando sem cerimónia recusou a escolha que elas  haviam feito para liderar a candidatura. Uma escolha publicamente encorajada por relevantes apoios na respetiva área política e que aparentemente beneficiava de um sólido apoio dentro do PSD de Coimbra, concelhio e distrital.

Estas sombras amargas, ressonâncias do passado, não são certamente uma fonte verosímil de esperança no futuro. E, pela natureza das coisas, cada uma das duas cabeças de Janus, se não se esquecer da identidade que tem assumido publicamente, tenderá a não se reconhecer por completo no futuro desse deus aleatório.

 

3. Mas esta duplicidade potencialmente angustiante, no plano subjetivo, para quem a sinta como sofrimento, para quem caiba no espírito do misterioso deus romano de duas cabeças, objetivamente, reveste-se neste caso específico de um significado que a dramatiza, aproximando-a da insuportabilidade. Quem se sentir tentado a votar nessa opção incerta, por qual das cabeças se deverá sentir motivado? Será essa duplicidade ambígua um dano colateral de uma via labiríntica, inscrita no seu código genético, como uma fatalidade não procurada? Ou será uma subtil esperteza, distante da boa-fé, assente na ambição de se captarem, quer os decididos apoiantes do PSD e do CDS, quer os seduzidos pelo independentismo político-partidário do grupo de JMS? Uns, vendo apenas uma das cabeças; outros, apenas a outra.

Este Janus moderno, no entanto, não é um mito que esvoace pela imaginação como fruto de uma liberdade criativa, que se justifique a si própria. É um artefacto político que consubstancia uma lista candidata a umas eleições. Um projeto em concorrência com outros, uma identidade competindo com outras, uma posição política em confronto com outras. Na verdade, nenhuma lista tem legitimidade ética para se apresentar com duas caras. A cada eleitor tem que ser oferecido um rosto para que o compare com os dos outros concorrentes. Não dois; já que o modo como se comportar se for eleito, corresponderá a um rosto, não a dois.

 

4. Entretanto, esta duplicidade estranha, nada parecendo ter a ver com uma proposta de horizonte, apostada em contribuir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos que vivem no nosso município, tudo parece ter a ver com a humana ambição de Rui Rio vir a liderar em Lisboa o governo do país. Esse ousado e ambicioso desígnio é certamente legítimo, ainda que atualmente pareça mais circunscrito à esfera do sonho do que ungido pela aura de uma probabilidade forte.

Mas não é possível aceitar-se como legítimo que RR reduza Coimbra a um pacote de conveniências suas para o ostentar como um simples troféu de uma caçada eleitoral. Um troféu que possa exibir ao lado de alguns outros, no decurso do que sonha poder vir  a ser a glória efémera de uma noite de uma pugna eleitoral em que a sorte lhe sorria.  O nosso município não pode ser reduzido ao humilde destino de troféu que sirva para ajudar a salvar uma liderança político-partidária cercada por si própria, assombrada pela instabilidade interna do PSD e condicionada pelo bloqueio estratégico que a direita portuguesa no seu todo parece atualmente sofrer. Coimbra não pode passar pela humilhação de ser um tapete que o ex-Presidente da Câmara do Porto precisa de pisar, para poder em Lisboa entrar em S. Bento. Esta pesporrência simbólica tem que ter a resposta que merece.

 

5. Estamos pois perante uma ambiguidade política estrutural que só pode ser desfeita pela retratação clara de uma das partes. Ou o PSD vem publicamente reconhecer que JMS afinal não vai encabeçar uma lista do PSD mas sim uma candidatura do movimento “Somos Coimbra”; ou este movimento vem reconhecer que afinal  não apresenta uma candidatura própria uma vez que se vai incorporar na do PSD.

Politicamente, é esta a incontornável dicotomia que está em cima da mesa. Malabarismos jurídicos ou retóricas habilidosas que tentem fugir à questão e iludir a lei e a verdade, procurando manter a ambiguidade atual, serão apenas sinais de um aprofundamento da hipocrisia política atualmente em marcha.

                        (Coimbra, 25 de março de 2021)

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As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas [ 05/03/21]

II - Em COIMBRA, a lista talvez do PSD

─ uma duplicidade ambígua [25/03/21]

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sexta-feira, 5 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas

 

1. Este é o primeiro de uma pequena série de textos através dos quais tenciono abordar a problemática autárquica no quadro das eleições de outubro próximo. O meu ponto de vista não é imparcial, uma vez que militando no PS apoio politicamente em termos gerais a atual gestão autárquica no município de Coimbra. Mas, pretendendo hoje fazer uma crítica das críticas, procurarei encará-las com objetividade, no quadro de um debate democrático frontal mas sem crispação. Não vou discuti-las em si próprias, apreciando o seu conteúdo. Vou tentar comentar a tipologia de algumas delas em termos genéricos, sem a pretensão de exaustividade.

Muitas vezes, as críticas foram metodológicas ou de estilo, suscitadas por episódios políticos ou por casos isolados, tentando-se através delas desgastar o prestígio da atual gestão municipal. Este tipo de críticas envolve um risco grande de descambar em ataques pessoais que suscitam uma crispação intensa entre os protagonistas e tornam mais difícil um diálogo profícuo, encorajando um clima de suspeições mútuas e de ressentimento.

Em si, não envolvem a promessa de qualquer programa alternativo ou de iniciativas novas. São ataques que procuram menorizar os visados, mas não nos dizem nada quanto ao que há a esperar de uma gestão autárquica dos críticos. Podem dar sinais quanto à sua ferocidade, mas não quanto ao seu programa e à sua competência. Podem mostrar uma demarcação genérica intensa, mas não revelam o que fariam de diferente se estivessem na mesma posição.

 

2. Outro tipo de críticas centra-se em insuficiências estruturais do concelho e na subsistência de lesões no tecido social inerente às desigualdades sociais. Há duas verificações prévias a fazer. A primeira, para apurar se essas lesões são insuficiências específicas do nosso município ou ressonância inevitável do tipo de sociedade em que vivemos, inigualitária e desumana, dominada por uma lógica de proeminência do capital em face das pessoas. No primeiro caso, estamos sob a alçada da política autárquica; no segundo não. No primeiro caso, é legítimo, positivo e necessário discutir caminhos para a sua superação no quadro da dinâmica autárquica; no segundo transcende-se o plano autárquico, o que induz a necessidade de se agir no quadro de instâncias nacionais ou europeias.

Quanto às insuficiências estruturais, há que apurar se cabem no poder auto regenerador da autarquia ou  se implicam deliberações da competência de entidades nacionais ou europeias. No primeiro caso, estamos perante um problema político autárquico, no outro não.

Imputar responsabilidades e discutir políticas que caibam na área das atribuições e competências legais das autarquias é um exercício natural da democracia. Criticar o poder autárquico por desvios e omissões inerentes a espaços políticos onde a competência é de outras entidades não faz sentido, podendo confundir-se com pura demagogia. Desenhar programas políticos para um município envolvendo medidas cuja competência cabe a outras entidades (nomeadamente, nacionais) é propaganda mistificatória e desonesta.

A distinção entre aquilo que cabe nas atribuições do município e aquilo que as transcende é tanto mais importante quanto estamos numa fase em que está em mutação profunda o leque de competências atribuídas aos municípios, o que é especialmente relevante em espaços municipais relativamente amplos e complexos como é o caso de Coimbra.

 

3. Uma das atitudes críticas mais frequentes radica-se na comparação de Coimbra com outras cidades, especialmente cidades de outros países, no plano das políticas autárquicas. Fazem-se por vezes comparações gerais, outras vezes propõe-se a aplicação aqui de políticas praticadas noutros lados. Se a comparação for além de uma mera alegação genérica, reprodutora de um simples impressionismo fruto de um senso comum turístico, estamos perante um exercício útil potencialmente fecundo.

São recomendáveis algumas precauções contextualizadoras. Em primeiro lugar, há que comparar o nível de desenvolvimento do nosso país com o dos países das cidades que se comparam com Coimbra. Depois, a qualidade do tecido económico-social das regiões circundantes. Por fim, o peso demográfico de cada um dos termos da comparação.

Tudo isso tem que ser ponderado para a plena fecundidade das comparações. Todas as cidades envolvidas têm uma história, percorreram uma trajetória geradora de uma identidade, o que impõe uma abordagem diacrónica. Não parece útil por isso procurarmos inserir na trajetória de Coimbra como prótese circunstancial uma ideia, uma medida, um projeto que tenham sido extraídos do seu lugar de origem, sem uma contextualização que aí os situe. Pelo contrário, o que se impõe é aproveitar as comparações como energia nova no percurso de Coimbra, intensificando-lhe o ritmo, ajustando-lhe a trajetória, melhorando o modo como caminhamos.

É desta cidade concreta, numa fase precisa da sua vida, da sua trajetória, que estamos a falar. Não se trata de trazer do nada uma cidade ideal, de implantar um sonho de cidade, por mais belo que ele seja, trata-se de interferir num devir específico, inscrevendo-nos numa trajetória de cidade que tem séculos. Não faz sentido esculpir com a nossa imaginação uma cidade nova virtual que esqueça a cidade que existe, que não esteja enraizada numa ambição irrestrita pela qualidade de vida dos munícipes concretos  que lhe dão vida. Os sonhos de imaginação do futuro são preciosos para darem viço à Coimbra que existe, rasgando novos horizontes no seu caminho, ajudando a suprir as suas incompletudes e a superar as suas mazelas. Mas dificilmente se pode conseguir isso, se não se tiver presente o que já se atingiu, os contornos do prestígio nacional e internacional já conseguido. Só será possível  atenuarmos os nossos defeitos e romper as nossas limitações, se transmitirmos energia às nossas qualidades, enriquecendo as nossas virtudes. Para isso não as podemos ignorar e muito menos enxovalhá-las, submergindo-as no paroxismo insalubre da propaganda política presa ao imediatismo estéril da sofreguidão de poder.

 

4. Todas as autarquias são realidades sociopolíticas dinâmicas inseridas num contexto nacional em permanente evolução num espaço europeu que ajuda a projetá-lo no mundo. Mas algumas delas em certos períodos atravessam fases onde convergem várias dinâmicas.

 Parece-me ser esse o caso de Coimbra. Para além da sua própria trajetória como município que envolve uma cidade histórica com energia futurante, incorpora uma universidade centenária com forte índice de internacionalização, apreciável relevância nos países da lusofonia animada pela ambição de inovar. Além disso, cabe-lhe objetivamente um papel irrenunciável numa dinâmica nacional de resistência a uma deriva de bipolaridade no desenvolvimento nacional que pode convertê-lo num destino aleijado em que duas grandes áreas metropolitanas desertificam indiretamente o resto do país e se autocongestionam insalubremente numa urbanização de pesadelo. Não deixa também de dispor de um especial protagonismo no campo da saúde o que na presente conjuntura terá necessariamente um apreciável relevo no caminho a percorrer.

Naturalmente que a relação sinérgica com a Universidade de Coimbra deve ser conjugada com a adequada valorização de outras instituições de ensino superior aqui radicadas, estimulando a instituição de um espaço diversificado de afirmação científica e tecnológica que possa cumprir uma tarefa decisiva na qualificação dos portugueses.

São estes alguns dos trilhos a percorrer por Coimbra para enriquecer como um todo a sua história projetando-a no futuro, para ser cada vez mais fiel ao melhor de si própria ao progredir numa cada vez mais intensa respiração do futuro e do mundo. E assim afirma uma irredutível identidade própria como um recurso de Portugal. Estes caminhos podem questionar-se na procura de alternativas mais fecundas, mas não podem anular-se substituindo-se por nada. Esses trilhos que não devem ser encarados como caminhos fechados num perfil antecipado ao detalhe, mas como grandes linhas de orientação; nítidas, mas a necessitarem de uma criatividade continuada que as vá materializando.

O debate em torno das grandes linhas de orientação e do modo como são materializadas é dos mais úteis e assumi-lo como tal qualifica muito a fisiologia democrática da autarquia, permitindo que as alternativas à atual gestão autárquica se identifiquem realmente, revelando a profundidade ou  vacuidade dos horizontes que proponham e mostrando as suas diferenças.

 

5. Parecem-me apropriadas duas observações finais. Como atrás se sublinhou, o município de Coimbra, como qualquer outro, move-se num espaço bem delimitado de atribuições e competências legalmente definidas que não pode transcender. Mas para além disso, o seu exercício tem também limites orçamentais aprovados por órgãos com essa competência que não podem ser excedidos.

Desse modo, quaisquer projetos, quaisquer planos têm que caber não só nas competências legais da autarquia mas também no seu orçamento. E o orçamento depende das receitas objetivamente previsíveis e não do arbítrio de quem quer que seja. Por isso, quaisquer projetos ou propostas que ignorem esses limites são simples expressões de uma demagogia gratuita. Assim, as críticas que assentem numa alegação de omissões para serem sérias têm que demonstrar a possibilidade delas serem colmatadas sem romper os limites orçamentais.

Uma outra observação tem a ver com o funcionamento da máquina administrativa autárquica que em Coimbra atinge uma dimensão e uma complexidade apreciáveis, as quais foram potenciadas pela expansão das competências que tem que exercer. É certo que essa máquina tem uma existência própria independente da direção política escolhida para a autarquia nas respetivas eleições. Mas é indispensável que essa direção política coordene e oriente politicamente toda a máquina administrativa materializando a escolha dos eleitores. Essa tarefa é um aspeto decisivo da gestão autárquica e assegurá-lo com proficiência é determinante para o bom funcionamento do município e assim para a qualidade de vida dos munícipes,

Por isso, a credibilidade das críticas a qualquer administração autárquica depende também da capacidade dos críticos darem sinais inequívocos de que serão capazes de responder a essa importantíssima vertente do quotidiano autárquico. Não lhes basta ostentar sonhos e horizontes de ambição, têm que mostrar credenciais que induzam confiança na sua capacidade de gerir competentemente no quotidiano o muito que já existe.

Tudo o que acabei de escrever projeta uma imagem clara dos pressupostos de um ambiente político menos insalubre consubstanciado num debate, certamente sem complacências, mas também sem crispações que degradem a convivialidade democrática e um diálogo político que induza sinergias e facilite alguns espaços de convergência. Dado o histórico dos últimos anos não será fácil, mas não é impossível.