segunda-feira, 1 de março de 2021

Leituras criativas de uma sondagem

 

  Leituras criativas de uma  sondagem

1. A parte do complexo mediático dominante que mais ou menos ostensivamente partilha com a direita o seu modo de encarar a realidade teve hoje uma notícia que lhe deu um pequeno alento. Um barómetro de opinião da Aximage revelou uma descida de 2,3% em comparação com o mês anterior nas intenções de voto no PS. Soube-lhes a pouco, dada a furiosa campanha que desenvolveram contra o governo, em consonância com a vozearia histérica dos partidos da direita. Mas para empalidecer um pouco mais a  alegria da matilha mediática, o PSD, ao descer uns irritantes 0,1 % quedou-se nus modestos 26,5% que o mantêm bem longe do PS (37,6%). O CDS manteve uns agonizantes 0,8% e até o irresistível Chega, em vez de subir, desceu de 7,7%  para  6,5%.Foi necessário a IL para salvar a honra do convento, ao subir 2,2 % para chegar a 5,7%.  Só em conjunto a direita podia esconder o quão esquálidos eram estes resultados para os seus objetivos.

Na verdade, embora em relação ao barómetro do mês anterior no seu todo tivesse apenas  subido de uns pífios 0,9 %, a descida de 2,3% do PS permitiu-lhe ter em conjunto uma percentagem de preferências superior em 1,9%  à do PS.

Estranhamente, esta magra vantagem destituída de qualquer significado prático foi o grande aspeto que ridiculamente quiseram extrair da sondagem os vozeadores correntes. Esqueciam assim grosseiramente os 14, 8% dos  outros três partidos de esquerda considerados na sondagem ( BE-7,7; CDU -5,8; Livre- 1,3), bem como os 4% do PAN.

2. Este exercício estéril, de mero aproveitamento mistificatório de uma sondagem, tem como efeito banalizar politicamente um pouco mais os neofascistas do Chega, ao considerá-los em conjunto com a direita democrática. Talvez porque sem eles a direita democrática penaria nuns frágeis 33% que a colocariam ainda mais longe de um governo seu, afinal  com a mesma percentagem que tinham alcançado em 2019.

Na verdade, contra os 52,4% do conjunto da esquerda de que valem os 39,6% do conjunto da direita? Em termos de um possível governo - nada.

A não ser que queiram ressuscitar o fantasma apagado em 2015: o sonho de que o PS se tiver menos votos do que a direita a deixará formar governo e governar. Sonho tolo! Convençam-se de uma vez por todas: se quiserem formar um governo democrático  de direita conquistem uma maioria parlamentar de direita.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Um exemplo elucidativo

 

Um exemplo elucidativo

Há uns dias atrás, ouvi o Sec. Estado da Saúde explicar numa entrevista na RTP em que ponto estava o processo de mudança na estratégia de testagem. Distinguiu dois planos.

O primeiro, traduziu-se na decisão de passar a testar os contactos de novos  infetados  de um risco menor do que aquele pressuposto na atual estratégia ( testar mais). Para isso, era necessário proceder a alguns ajustamentos legais e modificar alguns funcionamentos padronizados  das estruturas administrativas envolvidas. As modificações legais seriam publicadas nessa noite. As medidas preparatórias implicadas estavam a ser concretizadas.

O segundo plano implica que se passem a aplicar estratégias de testagem que não se radiquem no aparecimento de novos casos; o que implica selecionar as organizações em cujo âmbito decorrerão as testagens sistemáticas, determinar as regras e a periodicidade. Envolvia diversos Ministérios e diversos tipos de entidades, quer públicas quer privadas, o que implicava um processo de participação múltipla naturalmente complexo, que estava em marcha.

Pouco depois, numa outra estação televisiva um conhecido autarca do PS numa análise sobre toda esta problemática, sem qualquer acrimónia antigovernamental,  fez diversas considerações sobre a questão acima referida em que mostrou desconhecer por completo o que meia hora antes o Sec. Estado havia dito. Estava em causa o alegado facto de o governo ter afirmado uma mudança de estratégia para reforço da testagem  e nada ter acontecido até então. A sua reação foi cautelosa, mas revelou o desconhecimento que referi.

Desde então, prosseguiu a campanha de diatribes por causa dessa suposta incongruência, sem que ninguém parecesse conhecer o que o membro do governo acima referido tinha dito na RTP. Partidos da oposição, comentadores e jornalistas continuaram com o mesmo discurso como se nada tivesse sido dito publicamente que os levasse, pelo menos a modelar o que tinam vindo a dizer.

E mantem-se essa nuvem insalubre de confusão que tem como pressuposto  implícito a ideia de que tendo o governo decidido hoje uma mudança de estratégia, ela pudesse num golpe de magia estar a ser  posta em prática amanhã. Sintomático. É evidentemente legítimo que se discuta o que o SE disse sobre o caso, mas não é possível continuar a falar-se como se ele nada tivesse dito.

Um sugestivo exemplo  da nuvem de superficialidade demagógica que paira  no espaço público.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pensar politicamente os resultados de algumas sondagens


 Pensar politicamente os resultados de algumas sondagens 


1. Esbatido o ruído mediático que acompanhou a sua divulgação e os esforços dos atingidos que procuram sempre afeiçoar os seus resultados ao sabor dos seus interesses, vale a pena olharmos com alguma atenção para os resultados de cinco sondagens difundidas entre 16 de janeiro e 13 de fevereiro. Duas da Universidade Católica, duas da Eurosondagem e uma da Aximage . Quatro foram sondagens que seguiram o modelo habitual, uma foi feita à boca das urnas nas eleições presidenciais. Os resultados desta última mostram uma diferença ligeira relativamente ao conjunto dos outros que refletem pesquisas realizadas antes e depois das eleições presidenciais.

2. Os resultados do PS oscilam entre 39 e 39,9%, no âmbito do grupo das quatro sondagens, descendo para 35%, na sondagem feita à boca das urnas no dia das eleições presidenciais.

Os do PSD, entre 26,2 e 28% no grupo das quatro sondagens , atingindo 28% no dia das presidenciais.

Os do BE, entre 6,5 e 7,2 % nas quatro, chegando a 8% na outra.

O Chega, entre 5,5 e 8% nas quatro, chegando a 9% na outra.

A CDU, entre 4,8 e 5,3% nas quatro, atingindo 6% na outra.

O PAN, entre 2 e 3,5% nas quatro, tendo 2% na outra.

O CDS, entre 0,8 e 2,5% nas quatro, tendo 2% na outra.

A IL, entre 1,3 e 5% nas quatro, tendo chegado aos 7% no dia das presidenciais.

O conjunto das esquerdas oscilou entre 50,8 e 52,1 % nas quatro, tendo tido 50% na outra. As esquerdas não PS oscilaram entre 11,7 e 13%, tendo tido 14% no dia das presidenciais.

O conjunto das direitas oscilou entre 36 e 43% nas quatro, tendo tido 41% na outra. A direita sem o Chega oscilou entre 31,4 e 35%, tendo tido 32% na outra.

Se considerarmos o PAN como sendo o centro, os seus resultados estão acima indicados.

3. Estes números não representam uma antecipação dos resultados das próximas eleições, mas retiram verosimilhança a premonições  e cenários que pressuponham o seu contrário.  Larachas sobre mudanças de ciclo político, alegações de que o governo está destroçado podem exprimir desejos de quem os formula, mas não há verificação objetiva de que sejam uma realidade.

Os portugueses não transformaram a angústia e o sofrimento suscitados pela pandemia numa rejeição do governo. Certamente, não porque entendam que a sua ação não refletiu nunca qualquer erro, mas por verem que procurou sempre fazer o melhor, tendo-o conseguido muitas vezes. Certamente, por perceberem que muito do sofrimento e muitas das dificuldades resultam de ressonâncias  estruturais do atual tipo de sociedade e não de decisões conjunturais deste governo. Elas são seguramente um desafio,  para este e para os próximos governos , mas não são culpa sua.

E não ressalta deste conjunto de sondagens que as oposições tenham visto a sua popularidade explodir, como reflexo de uma apreciação entusiástica do seu hipercriticismo antigovernamental.

 

4. Dos resultados comentados podem extrair-se algumas conclusões.

O PS mostra estabilidade na preferência relativa dos portugueses, mas com reforço da posição alcançada nas últimas eleições legislativas (36,34%).

 O PSD revela estagnação, já que nas eleições de 2019 teve 27,76 %.

O BE mostra alguma retração em face dos resultados de 2019: 9,52%. A CDU mostra uma ligeira flexão, perante os 6,33 %, atingidos em 2019.Em  conjunto ficam abaixo dos 15,85 % que  somaram em 2019.

O CDS perdeu mais de metade dos escassos 4,22 % em que ficou em 2019, colocando-se em risco de sobrevivência.

A IL fica claramente acima dos 1,29% de 2019 e o Chega rondando os 9% distancia-se muito dos 1,29 de 2019, parecendo consolidar os resultados que o seu candidato atingiu nas presidenciais. Desse modo, introduz instabilidade e incerteza na direita portuguesa.

Portanto, se a direita democrática resistir ao oportunismo de uma aliança com o Chega fica confinada a uma oscilação entre 31,3 e 32,7% nas quatro primeiras sondagens, chegando aos 35% na sondagem feita no dia das eleições presidenciais. Se renunciar à sua natureza democrática acolhendo o Chega, oscilará entre os 36,9% e os 43 % nas quatro sondagens, tendo tido 41% no dia das presidenciais.

Parece poder concluir-se que a ultrapassagem do conjunto das esquerdas pela direita não parece provável, mas a ultrapassagem das esquerdas pela direita democrática mostra-se uma hipótese muito remota. Não só à luz das sondagens de 2021, mas também em função da trajetória inerente à sua comparação com os resultados das eleições de 2019. Tanto mais que o período desde então decorrido já foi em grande parte sob a pandemia.

5. A intensa campanha política e mediática contra o governo e o PS não parece ter tido o efeito pretendido pelos seus promotores. A tentativa de transformar o mais pequeno erro do governo numa catástrofe de grandes proporções e de lhe imputar as culpas por todas as dificuldades surgidas no país parece não estar a convencer o povo.

Do mesmo modo, acumulam-se sinais de que assusta menos a continuidade deste governo do que a hipótese de cair sobre nós um governo de direita. Em especial porque começa a enegrecer essa ameaça o risco de um governo de direita não poder deixar de incluir o Chega. É como se o fantasma do 24 de abril nos viesse assombrar meio século depois de nos deixar.

Também parece claro que a crispação antigovernamental dos partidos de esquerda que não estão no governo não se revela um caminho promissor para o seu reforço eleitoral. E embora com menos nitidez parece merecer mais reservas aos seus próprios eleitorados a crispação agressiva  do BE do que a demarcação tribunícia do PCP. No horizonte a ambos assombra  a dificuldade em calibrarem bem a atitude de oposição ao governo. Ou são tão eficazes na crítica ao PS  que colocam a direita no poder, ou são tão inábeis nessa crítica que apenas alteram ligeiramente a relação de forças. Dificuldade acrescida por haver o risco de  a crítica ao ser excessivamente agressiva , em vez de desgastar o destinatário da crítica,  desgastar os seus autores.

Mesmo a direita não está livre de que isso também  lhe aconteça. Na conjuntura atual o trauliteirismo demagógico antigovernamental se passar certos limites pode virar-se contra os seus promotores.


 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

O subtil absurdo

 

Ontem, com virulências distintas, as oposições criticaram o governo apoiado pelo PS, sugerindo que ele é maléfico para o país.Algumas roçaram o insulto, tendo-se indignado depois por o governo não se deixar insultar, quiçá de não lhes agradecer os insultos. Todas me pareceram convictas. Tudo natural , diz-se, como exercício de democracia. Admitamos que sim. Mas sendo o governo tão pernicioso aos olhos de uma maioria de deputados por que razão essa maioria não se concerta e dá à luz um novo governo que ponha em prática as ideias que as levaram a demarcar-se do actual governo ? Não seria um governo de salvação nacional, mas seria um governo de união das oposições apoiado por uma maioria parlamentar. Se esta maioria não o fizer, mostra ser incapaz de pôr em prática uma solução política melhor do que aquela que critica. Ou então as oposições são excelentes a destroçar mas misteriosamente tolhidas a construir. Nada disto tem lógica? Talvez não. Mas aparentemente ou está errada a acirrada unanimidade crítica, ou está errada a recusa em converter essa unanimidade num governo que exprima pela positiva essa maioria. Ou então as oposições estão apenas a tentar desgastar o governo com vista a futuras eleições, usando para isso as dificuldades presentes. Mas se assim for há aqui algo de estranho: por que razão almejam em diminuir o peso do PS em próximas eleições se actualmente já estão em maioria?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

 Na  próxima sexta-feira em Coimbra na FEUC inicia-se a 12ª edição da Pós-Graduação em Economia Social - cooperativismo, mutualismo e solidariedade. Eis a sessão de abertura.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Bodas de ouro

 


BODAS DE  OURO

 

O ouro do tempo semeou

a seara dos dias que passaram.

 

Foram longos e breves, foram vida,

ancorados no peito da cidade.

 

Nas escarpas de ternura do teu rosto

repousam os meus dedos renovados

pela luz em que nasces cada dia.

 

Escreve-se o mundo em nós

como se fosse

o jardim de tudo o que sonhámos.

 

Gravados firmemente no futuro

colhemos sem temor

o que há de vir.

 

                            [Rui  Namorado]


sábado, 9 de janeiro de 2021

BRANQUEAMENTO DOS NEOFASCISTAS

 


BRANQUEAMENTO DOS NEOFASCISTAS

 

Há dias mencionei um episódio de objetivo branqueamento do Chega, quando um órgão de comunicação da direita radical, para fazer contraponto ao PS, inventou uma categoria política estranha a “direita junta”, onde meteu o PSD, o CDS, a IL e o Chega. Categoria estranha porque mete no mesmo saco, como se isso fosse natural, três partidos democráticos e um partido neofascista.

Posteriormente, o JN (o jornal que leio mais frequentemente) cometeu uma proeza idêntica, quando, num comentário a uma sondagem que difundiu, resolveu repartir a parte direita do espetro político em duas categorias , a “velha direita” e a “nova direita”. Na primeira, colocou o PSD e o CDS, na segunda, a IL e o Chega. Mencionou a “velha” a descer e a “nova” a subir, como se fossem fungíveis, sublinhando que essa subida era obra do último. 

Através dessas categorias neutras anulou-se a identidade política de todos os abrangidos e banalizou-se por completo a aliança entre a direita democrática e os neofascistas, como se a diferença entre elas fosse uma mera questão programática.

Qualquer branqueamento político da natureza neofascista do Chega  é um auxílio objetivo a esse partido, como aliás se pode ver se atentarmos no modo como ele reivindica desde já diversos ministérios num futuro governo que apoie. E um arranhão na democracia.

Aliás, o  rosto mais mediático do Chega, embora conteste essa qualificação no plano formal, absorve-lhe por completo o conteúdo. E no decurso dos debates presidenciais ouvi-o por duas vezes rejeitar em bloco  as políticas seguidas nos últimos 46 anos. O que significa deixar de fora da sua rejeição o anterior regime fascista e meter dentro de um mesmo saco repudiado todos os governos do PSD. Apesar de ele ser dirigente do PSD quando era governo e seu candidato à Câmara de Loures em 2017. E apesar de querer ser ministro de um futuro governo do PSD. Radical contra o 25 de abril, manso se for essa a condição para ser ministro. Como se pode deduzir da rejeição desses 46 anos de democracia estamos perante um Chega de democracia, regresse o salazarismo.Ou haverá outro sentido a atribuir a essa posição ?

Acho estranho que os  que se lhe opuseram nesses debates tenham dado atenção a  aspectos parcelares  ainda que relevantes e tenham esquecido essa implícita  confissão de simpatia pelo fascismo salazarista. 

Em sentido idêntico, tenho ouvido  referir, como se isso fosse uma atenuante ao seu neofascismo , o facto de expressamente defender   um neoliberalismo económico radical.

Ora, isso é a fiel reprodução  do que foi a governação de Pinochet no Chile, o que  é afinal um outro vergonhosos parentesco. Espanta-me aliás que os seus adversários insistam na denúncia, ainda que justa do seu ódio aos ciganos, em especial, e aos excluídos, em geral; e deixem passar em claro a evidência de que o seu verdadeiro modelo de governação é o Chile de Pinochet.

Os branqueadores do neofascismo  podem discutir  se AV e o seu Chega são fascistas, salazaristas ou pinochetistas, mas nunca conseguirão demonstrar que ele nada tem a ver com nenhuma dessas posições políticas, se alegarem que elas diferem entre si.

Os aleijões sociais inerentes ao capitalismo e a desistência de os superar são um terreno fértil para fenómenos de desespero e irracionalidade colectivos, mas não são a causa única para a emergência de respostas politicas neofascistas. Não são fator um único, precisando de protagonistas e de cumplicidades No caso português, sem menosprezar o auto encurralamento que as direitas democráticas estão a cometer contra si próprias, a grande comunicação social tem contribuído muito para a banalização do neofascismos mesmo que se desdobre em tomadas de posição que digam o contrário.

Os dois casos acima mencionados são exemplos disso.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Pingos de insalubridade em debates

Em dois dos debates presidenciais televisivos de ontem ocorreram dois pequenos incidentes a que poucos terão dado importância. Num deles Clara de Sousa interpelou o presidente Marcelo, exprimindo uma posição partilhada com André Ventura a propósito de uma das ninharias mediáticas que fizeram a agenda política nos tempos recentes. No outro, Carlos Daniel interpelou Ana Gomes reproduzindo a vulgata neoliberal quanto à problemática económica a qual reflete ostensivamente as posições políticas da direita . Fizeram-no no decurso debates que estavam a mediar , situação que aumentava a imperatividade do seu dever jornalístico de imparcialidade. Psicologicamente, podem até ter agido sem intenção de prejudicar ou beneficias qualquer dos protagonistas . Objetivamente, assumiram-se como participantes ilegítimos num debate político institucional. São duas figuras jornalísticas conhecidas e reputadas, o que sublinha a gravidade do que se passou. Não pelos episódios em si mas por aquilo de que são sinais e sintomas: a crescente degradação da qualidade do jornalismo televisivo e o seu alinhamento com a agenda política da direita. Esta crescente insalubridade do espaço mediático português é tanto mais insuportável quanto dele se espera um contributo essencial para o desenvolvimento sociocultural e para a melhoria da qualidade de vida do nosso país.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Votos de um Bom Ano de 2021!

 

 

Votos de um Bom Ano de 2021!

 

Com amizade envio através  deste meu poema um voto de um Bom Ano Novo,

neste tempo de incerteza.

Acompanho-o de uma clássica evocação do tempo de Salvador Dali.

Retribuo assim também os votos de Boas Festas que recebi.

 

Rui Namorado

 

 


 

Bom ano de 2021

 

O ano que passou não existiu.

Perdeu-se numa nuvem de tristeza.

 

Por isso, nossos olhos estão abertos,

na vontade de sermos horizonte.

 

E na destreza imensa dos caminhos,

os passos prometidos são de esperança.

 

Na ilusão que sobe o fio das horas,

somos rios que querem ver o mar.

                

                                [ Rui Namorado]

 

 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A incómoda mensagem de uma recente sondagem


Sob o manto diáfano da fantasia
a nudez forte da verdade.

A incómoda mensagem de uma recente sondagem

1. Sem ser uma novidade, o modo como tem sido noticiada a partir da sua fonte (O Observador) a mais recente sondagem por ele divulgada reflecte com clareza todo um programa político, ainda que de certo modo dissimulado.

De facto, noticia como se fosse o espelho fiel da realidade política o contraponto entre o PS , por um lado e  uma alegada “direita junta”, por outro. O PS teria 40,3% e essa alegada “direita junta” teria 41,1 % . A mensagem subliminar é simples: a competição que conta é entre esses dois pólos.

De uma penada, faz-se desaparecer a extrema-direita (neofascista), que assim se branqueia implicitamente; esquece-se a autonomia da direita democrática, evitando-se  que  se mostre reduzida a uns escassos 32,7 % , nos quais o PSD fica  encurralado com os seus 28,5%. Aliás, muito longe do PS; o que também se esquece.

Ao mesmo tempo,  apaga-se da relevância  o centro político (PAN- 2,2%) e as outras esquerdas( 10,8 % [BE 5,5% + CDU 5,3 %]) . Ou seja, os 8,4% do Chega e os 4,2 da direita democrática não-PSD contam, mas os 13% do centro e dessas esquerdas não existem.

2.Uma sondagem não é uma antecipação segura de um futuro resultado, mas a proximidade relativa dos panoramas projectados por cada uma delas reforça a probabilidade de conterem previsões criveis. Destes resultados, se os compararmos com os resultados das eleições legislativas de 2019, ressaltam algumas constatações:

1º A campanha da direita e da extrema-direita, acolitadas por uma boa parte da comunicação social, apesar de uma intensa barragem de propaganda nesse sentido, não têm conseguido transformar o mérito deste governo num fracasso;

2º A direita democrática atinge nesta sondagem uns modestos 32,7%, abaixo dos 33,27 % que conseguiu em 2019.

3º A extrema-direita (neofascistas) subiu de 1,29% para 8,4%.

4º O PS subiu de 36,34 para 40,3%, isto é, cerca de 4%.

5º As esquerdas exteriores ao Governo do PS passaram de 15,88 % em 2019, para 10,8% nesta sondagem. Mas esta descida depende de duas parcelas desiguais: o BE desce 4% e a CDU cai 1%.

5º Se considerarmos o PAN como sendo o centro político, constatamos que perdeu cerca de 1 % (3,32/2,2 %).

Daqui podem tirara-se algumas conclusões.

1ª O tipo de campanha política contra o actual Governo, feita pelos partidos de direita e de extrema-direita, bem como pela matilha mediática que os acompanha, beneficiou principalmente o Chega (+ 7,2%) e apenas ligeiramente a IL (+1,2%) e o PSD ( +0,8%). Nada aproveitou ao CDS (- 2,4%). Globalmente, a soma da direita e da extrema-direita aumentou 6,6 % (de 34,56% para 41,1). Ou seja, só beneficiou significativamente  o Chega.

2ª Não o fez, no entanto, à custa da esquerda no seu todo, a qual desceu apenas  de 52,19% para 51,4 % e continua com uma vantagem superior a 10% em face do outro conjunto antes referido. Mas esta relativa estabilidade não é interiormente homogénea: o PS sobe 4%, o BE desce 4% e a CDU perde 1%. Parece que ser o partido do governo não foi penalizador, mas a demarcação em face do governo dentro da esquerda não entusiasmou os respectivos eleitores. Pode mesmo dizer-se que o modo de distanciamento/oposição, nestes casos, foi quatro vezes mais penalizador para o BE do que para a CDU.

3º Sem os neofascistas do Chega a direita democrática não tem como expectativa realista chegar ao governo proximamente, mas mesmo com o seu concurso está muito longe de poder considerar essa hipótese como provável.

4º Uma colocação em minoria do conjunto das esquerdas em próximas eleições parece improvável, como  também o parece a conquista de uma maioria absoluta pelo PS. Mas o exacerbar do urgentismo antigovernamental e duma hostilidade ao actual governo que possa favorecer a direita podem suscitar uma deslocação de voto favorável ao PS no seio do conjunto das esquerdas. E com base nos resultados desta sondagem parece que este exacerbar da hostilidade ao governo é o único caminho que pode tornar provável uma maioria absoluta do PS.

Principais conclusões finais a retirar :

I-                 As campanhas feitas a partir das várias direitas e da extrema-direita têm beneficiado o Chega, de pouco tendo aproveitado aos partidos da direita democrática  e não tendo afectado negativamente  o PS.

II-              A via seguida pelo BE a partir da votação do orçamento, parecendo levá-lo a combater o governo, tem-se virado afinal contra ele próprio.

 


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Notícias [quase] de última hora e quiçá em confirmação

 

Fontes geralmente bem informadas asseguram que o grupo parlamentar do PSD, forte por ter ordenado à Srª Lagarde  para vir ser interrogada  à AR, decidiu convocar com urgência São Pedro para vir  justificar o excesso de chuva na Madeira.

No mesmo sentido, mas sem confirmação, constou que Passos Coelho, cansado pela demora do diabo e não querendo ter que chamar diabo a tudo o que mexa ainda que ligeiramente contra o Governo, mandou os passistas do grupo paralmentar convocarem como urgência o diabo à AR, para explicar a razão pela qual não chegou quando devia.

Há um novo entusiasmo em território laranja, ainda que com uma ligeira preocupação fluvial.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Uma lição do povo boliviano

Na Bolívia, no último trimestre de 2019, um golpe de Estado desencadeado pela direita e pela extrema direita e materializado pelas polícias e pelas forças armadas, interrompeu o processo eleitoral, cuja primeira volta havia já decorrido, tendo derrubado o Presidente Evo Morales que havia concorrido a essas eleições e vencera a primeira volta.

  Os futuros golpistas não questionaram que ele tivesse obtido o maior número de votos, mas apenas que tivesse ganho a primeira volta com a margem suficiente para ser considerado vencedor sem ser obrigado a disputar uma segunda volta. A demora na difusão dos resultados e as oscilações nos que foram surgindo foram usadas como pretexto para que a direita e a extrema-direita instalassem o caos nas ruas, perante a complacência das polícias e dos militares que rapidamente se converteu em apoio e cumplicidade.

  O golpe de Estado nem sequer consentiu na realização da segunda volta das eleições, traduzindo-se em obrigar Morales a deixar o poder e em dissolver os órgãos políticos legítimos. Apenas foi conservado o poder político das minorias de direita na Câmara e no Senado, sendo instalada na chefia do Estado uma senadora de extrema-direita pertencente a uma pequena minoria. Sucederam-se tempos de revolta popular reprimida com violência.

Os regimes conservadores e direitista da América latina fizeram coro contra Morales e legitimaram o golpe. A OEA foi cúmplice. A União Europeia consentiu molemente no golpe de estado, numa atitude de ambígua hipocrisia. Na Bolívia esqueceu-se de agir com o mesmo critério que tem usado na Venezuela.

Recentemente, uma insuspeita instância internacional tornou público que afinal não detetara a real existência de irregularidades no processo eleitoral de 2019. As tais irregularidades que foram alegadas como pretexto para o golpe de estado. Os golpistas e seus patronos internacionais ainda conseguiram exilar Morales e o seu vice-presidente, anular as eleições e proceder a uma guinada àa direita da política boliviana. Não conseguiram evitá-las.

Decorreram há poucos dias, já durante este mês de outubro. O MAS ( Movimento para o Socialismo) apresentou como candidato Luis Arce ex-ministro da Economia de Morales durante os seus vários mandatos. Apresentou candidatos nas eleições parlamentares. Este candidato foi eleito à 1ª volta com mais de 55% dos votos, superando largamente os 47% de votos que Morales havia alcançado no ano anterior na 1ª volta das eleições anuladas. O candidato da direita ficou muito longe e o da extrema-direita ficou-se por um terceiro lugar inexpressivo. O MAS dispõe por si só de maioria parlamentar.

 Em breve, a democracia será restabelecida na Bolívia, para vergonha dos que tentaram afogá-la em 2019 e dos que como a União Europeia foram cúmplices dissimulados do golpe.

Este gráfico mostra os resultados das eleições da semana passada. A azul está a posição do do candidato do MAS, a castanho do candidato da direita e a roxo o candidato da extrema direita.

domingo, 18 de outubro de 2020

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Homenagem à República!

 

Várias vezes, homenageei o 5 de Outubro de 1910, reproduzi neste mesmo blog um poema da minha autoria, do livro "Nenhum lugar e sempre"(2003). Hoje, volto à homenagem





República

És a estátua do vento e das palavras
que inventamos ousadas e inteiras.

Foste penhor secreto de uma voz
desvendada em todos os caminhos.

Deusa das ruas e de muitas praças,
és um ofício, paciente e puro.

Olhaste além de nós, além do medo
e foste além de todas as fronteiras.

Há uma lenda inscrita no teu rosto:

és sonho esculpido em aventura.


Suavemente, guardas este povo,
num gesto de ternura, em tuas mãos.

E alguém deixou abertos no teu rosto
os traços fugidios da liberdade.

domingo, 13 de setembro de 2020

A matilha mediática e os seus senhores

 


A matilha mediática, megafone insalubre da direita, uiva raivosa contra António Costa, contra o Governo, contra o PS. Hoje o pretexto é A, ontem foi X, amanhã será Z. Ora trovejante, ora melíflua. Ora brutal, ora florentina. Incansável, hipócrita, rasteira. Usando o estipêndio dos poderes fácticos, por vezes abusando sem pudor de recursos públicos.

Ocorre-me irresistivelmente, um velho provérbio: “ Se atirares pedras aos cães que te ladram, nunca chegarás ao fim do teu caminho”.

Espreguiço-me com tédio pelo viscoso alarido e cometo  uma pergunta simples: “Se a matilha mediática e os seus senhores, por insidiosa obra do mafarrico, assumissem sem peias o poder político, de quantas semanas precisariam para destruir Portugal?” Não sou capaz de responder com segurança, mas receio que não fossem muitas.

sábado, 12 de setembro de 2020

Banalidades de base -1

 Banalidades de base -1

Se a acutilância da lucidez suscitar um pessimismo tão  radical que não deixe aberta para o futuro a mais pequena janela de esperança, estar-se-à apenas a gerar desespero e a ser um poderosos fator de conformismo. Quando isso acontece, os beneficiários da injustiça e da desigualdade agradecem.

Por isso, é dever dos justos nunca deixarem de procurar abrir janelas de esperança, quando tiverem que percorrer as caves do pessimismo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Socialista, republicano e laico

 Um dia, Mário Soares identificou-se politicamente como republicano, socialista e laico. Hoje, assistiu-se à adesão a essa trilogia de uma deputada europeia do Bloco de Esquerda, no anúncio público da sua candidatura à Presidência da República.

É uma aproximação objetiva e simbólica. Em termos pessoais e meramente psicológicos ,talvez signifique pouco. Quiçá, apenas a procura de uma ressonância subtil.

Mas quem procurar surpreender os grandes movimentos sociopolíticos estruturais, pode talvez ver aqui o prenúncio do que será um dia a chegada do BE ao PS.

No imediato, pode parecer um vaticínio delirante, especialmente pelas resistências psicológicas que isso possa enfrentar numa parte dos principais atores políticos. Mas, não é menos certo, que no seio das esquerdas vai ser preciso fazer um ruído cada vez maior, para se transformarem pequenas diferenças em grandes divisões.

domingo, 6 de setembro de 2020

17- UM LIVRO, UM POETA - José Gomes Ferreira

 


17. UM LIVRO, UM POETA - José Gomes Ferreira

José Gome Ferreira  nasceu no Porto em 1900, tendo morrido em Lisboa  em 1985. Embora literáriamente não se tenha limitado à poesia, foi aí que deixou marcas mais fundas. Licenciado em Direito em 1924, exerceu funções diplomáticas até 1930. Antes de se afirmar como poeta, tentou uma carreira como compositor, que viria a abandonar, chegando a ver a sua obra Suite Rústica estreada em Lisboa, pela orquestra de David de Sousa, quando o poeta  tinha 17 anos.

Com José Gome Ferreira,  as palavras libertam-se, para gritarem mais alto a imaginação da revolta. Nunca vêm sozinhas. Trazem sempre com elas o perfume trágico da vida e como ruído de fundo insuportável o sofrimento dos povos. José Gomes Ferreira nunca deixa adormecer as palavras nos lugares comuns. Abre as portas com elas aos jardins da amargura e escreve nas paredes a sua liberdade.

Poeta que os neo-realistas sentiam como irmão, fugia de qualquer possível cânone pela sua irreprimível originalidade. E, no entanto, um livro seu esteve para integrar a coleção do Novo Cancioneiro, o que só não aconteceu por circunstâncias extra-literárias e acidentais. Se afinal isso tivesse acontecido, a descoincidência geracional  teria sido secundarizada pela partilha da coleção fundadora. Essa comunhão teria talvez  tornado mais nítido que o verdadeiro cerne da poesia neo-realista talvez  não fosse  um cânone estético ou literário, sob uma égide ideológica discretamente omnipresente, mas principalmente a partilha de uma revolta moral , de uma insurreição ideológica libertadora, de uma fome ilimitada de liberdade para todos. Talvez , as circunstâncias cronológicas e geracionais tenham  suscitado uma ressonância humanizante e trágica no seu intimismo presencista, levando-o à qualidade de “poeta militante” que expressamente assumiu como ambição telúrica de um mundo mais justo e livre.

Vai ser aqui evocado através de quatro poemas publicados na “Poesia I”, em 1948 (1ª edição), mas que haviam sido escritos ( como é expressamente mencionado) entre 1931 e 1938. Ou seja, foram escritos quando a geração do Novo Cancioneiro estava ainda a despontar, publicados quando ela já tinha irrompido com robustez. O primeiro, aliás, foi considerado pelo próprio autor o poema que materializou uma viragem decisiva rumo ao que viria a ser o seu universo poético.




Viver sempre também cansa  (1931)

 

 

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha
Não há flores que voem,
A lua não tem olhos
Ninguém vai pintar olhos à lua

Tudo é igual, mecânico e exato

Ainda por cima os homens são os homens
Soluçam, bebem riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe
automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à morte!

Pois não era mais humano
Morrer por um bocadinho
De vez em quando
E recomeçar depois
Achando tudo mais novo?

Ah! Se eu pudesse suicidar-me por seis meses
Morrer em cima dum divã
Com a cabeça sobre uma almofada
Confiante e sereno por saber
Que tu velavas, meu amor do norte.

Quando viessem perguntar por mim
Havias de dizer com teu sorriso
Onde arde um coração em melodia
Matou-se esta manhã
Agora não o vou ressuscitar
Por uma bagatela

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..

 

Comício (1934)

 

Vivam, apenas.

 

Sejam bons como o sol.

Livres como o vento.

Naturais como as fontes.

 

Imitem as árvores dos caminhos

que dão flores e frutos

sem complicações.

 

Mas não queiram convencer os cardos

a transformar os espinhos

em rosas e canções.

 

E principalmente não pensem na Morte.

Não sofram por causa dos cadáveres

que só são belos

quando se desenham na terra em flores.

 

Vivam, apenas.

A Morte é para os mortos!

 

O nosso mundo é este

 

(último poema do “Panfleto contra a paisagem” -1936/37)

O nosso mundo é este
Vil suado
Dos dedos dos homens
Sujos de morte.

Um mundo forrado
De pele de mãos
Com pedras roídas
das nossas sombras.

Um mundo lodoso
Do suor dos outros
E sangue nos ecos
Colado aos passos…

Um mundo tocado
Dos nossos olhos
A chorarem musgo
De lágrimas podres…

Um mundo de cárceres
Com grades de súplica
E o vento a soprar
Nos muros de gritos.

Um mundo de látegos
E vielas negras
Com braços de fome
A saírem das pedras…

O nosso mundo é este
Suado de morte
E não o das árvores
Floridas de música
A ignorarem
Que vão morrer.

E se soubessem, dariam flor?

Pois os homens sabem
E cantam e cantam
Com morte e suor.

O nosso mundo é este….

( Mas há-de ser outro.)

 

Heróicas (1936/37/38)

VII - (Junto a minha voz ao coro dos poetas mais novos.
Recuso-me a ter mais de vinte anos.)

               

Não, não queremos cantar 
as canções azuis 
dos pássaros moribundos. 

Preferimos andar aos gritos 
para que os homens nos entendam 
na escuridão das raízes. 

Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes 
em tardes de fome pitoresca para quadros de exposição. 
Aos gritos como os fogueiros que se lançam vivos nas fornalhas 
para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros. 
Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto 
para o grande monumento à Dor Humana do Egipto. 
Aos gritos como o idílio dum operário e duma operária 
a falarem de amor 
ao pé duma máquina de tempestade 
a soluçar cidades de fome 
na cólera dos ruídos... 

Aos gritos, sim, aos gritos.

E não há melhor orgulho 
do que o nosso destino 
de nascer em todas as bocas... 

...Nós, os poetas viris 
que trazemos nos olhos 
as lágrimas dos outros.

                       

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

16- UM LIVRO, UM POETA - Alexandre O´Neill

 


16- UM LIVRO, UM POETA -   Alexandre O´Neill


Finalmente, regresso à evocação de poetas que,  por uma ou outra razão, me marcaram. De cada um deles, transcrevo alguns poemas, antecedendo-os de um brevíssimo comentário.Hoje, é o décimo-sexto.

Vou evocar Alexandre O´Neill, poeta português nascido em Lisboa em 1924, onde viria a  morrer em 1986. Embora correntemente conotado com o surrealismo, tem uma estatura poética que o projecta autonomamente no panorama literário português, como voz única de uma ironia implacável mas terna. Uma ironia que interpela os portugueses, com os quais sempre se mistura , sem complacência, mas com uma íntima fraternidade.Impregnado por um lirismo satírico que não esquecia o cinzento-chumbo que cobria o Portugal de então,diverte-se com esse país de governantes pequenos que não o deixavam respirar. Com uma alegria melancólica que é, às vezes, uma ironia a que ele próprio não se poupa.

Os quatro poemas hoje transcritos integram uma colectânea que abrange a sua obra poética entre 1951 e 1965. Tem como título "O Reino da Dinamarca" e data de 1967.Este é também o título do livro que publicou em 1958, o qual é uma parte dessa colectânea. Nele estão integrados os poemas "Se..." e "Um adeus português". Já o poema "Perfilados de medo" integrou o livro "Poemas com Endereço"(1962), enquanto "Portugal" é o poema de abertura da "Feira Cabisbaixa"(1965).


Se…

 

Se é possível conservar a juventude
Respirando abraçado a um marco de correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora e a mordeu
Deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
Pôs marfim a sorrir;
Se o Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
Veio de longe ver o Presidente
A cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
E a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
E a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge(o "ponto" do Jorge!)tentou beber naquela noite
O presunto de Chaves por uma palhinha
E o Eduardo não lhe ficou atrás
Ao sair com a lagosta pela trela;
Se "ninguém me ama porque tenho mau hálito
E reviro os olhos como uma parva";
Se Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
Cantar com o Alberto...

...Acaso o nosso destino,tac!,vai mudar?



UM ADEUS PORTUGUÊS


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal 

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

 

 

PERFILADOS DE MEDO


Perfilados de medo,agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos,do que não seremos.

Perfilados de medo,sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos,os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido
...



PORTUGAL

 

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

                               *


Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós . . .