segunda-feira, 16 de maio de 2022

PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 


Em Fevereiro de 1996, quando eu era deputado na AR pelo PS, publiquei um livro de poemas , “Sete Caminhos”, através da editora Fora do Texto [Centelha].

O livro estava organizado em sete partes, uma das quais a penúltima se intitulava “Pré-história”. Era composta por quatro poemas, um dos quais “Pré-história de guerra” evocava o risco de uma guerra nuclear- O título sugeria que estávamos perante um risco que perdera actualidade.

Hoje, passados todos estes anos, vemos que assim não é. Por essa razão resolvi recordá-lo aqui.

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PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 

1.

a pomba foi morta pelo general

 

calculou  o sítio exacto

o lugar único    onde a morte esperava

 

 no relatório omitiu a cor branca da vítima

e aquela leve pluma de ternura

visível no seu olhar    depois de morta

 

parecia mais pena    do que saudade ou terror

mais um enorme peso de braços caídos

do que o gelo transido do pânico

 

o general descreveu com precisão

a trajectória magnífica do tiro

o seu rigor    a rapidez fatal

 

com palavras antigas   sincopadas

ao ritmo dos tambores de mil batalhas

 

2.

quando pouco tempo depois lhe disseram

que o neto   o filho   a sua velha mãe

a mulher cujo sabor guardava dia a dia

a casa com jardim e duas árvores

a rua suave     a cidade onde nascera

eram agora uma nuvem espessa de cinza

onde a custo emergia o esqueleto de uma árvore sozinha

 

o general suspendeu o relatório

e teve um suor frio vindo da raiz da alma

 

mas quando lhe vieram dizer pouco depois

que era inútil mandar o relatório

porque o lugar que o ia receber não existia

 

o general chorou como um menino perdido

 

e  foi então que o sol se perdeu numa nuvem de poeira

e um doce sabor a morte   azul e profundo

entrou pelo general até aos ossos

 

3.

a mão do general ficou ligeiramente tombada

sobre a folha do relatório vitorioso

 

ocultou um pouco a trajectória da bala

a palavra pomba parecia agora levemente manchada

 

e junto à porta o olhar fixo do jovem ajudante

era um vidro de espanto gravado no general

 

tudo à volta estava finalmente tranquilo

a paz fulminantemente conquistada

 

sábado, 14 de maio de 2022

PARA QUEM QUISER APRENDER...



 Para quem quiser aprender...

Numa sondagem [Cluster 17] hoje difundida, quanto às intenções de voto nas próximas eleições legislativas em França, a união das esquerdas (insubmissos, verdes, socialistas e comunistas) ocupa destacada o primeiro lugar com 31%-
Seguem-se os apoiantes de Macron com 27% e os apoiantes da Srª Le Pen com 19%, ficando a direita clássica abaixo dos 10%.
Na segunda volta a estimativa aponta para uma nova vitória dos macronianos com maioria absoluta. Mesmo assim aos resultados estimados para a primeira volta traduzem uma recuperação espetacular do protagonismo da esquerda. Se concorrer unida, claro.. Se permanecer fiel às suas pulsões divisionistas , pelo contrário, caminha para um declínio provável.
Muitos notabilíssimos ex-dirigentes do PSF e da própria França torcem fortemente o nariz à participação dos socialistas na dinâmica unitário. Absolvem-se generosamente dos desastres políticos que ajudaram a provocar e parecem irresistivelmente atraídos pela vertigem do 1,5% do cometimento Anne Hidalgo.nas presidenciais.
O povo de esquerda deu a sua resposta, está a dar a sua resposta. Quem aspira representá-lo deve ao menos cometer a modesta proeza de o ouvir.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

DOS SOCIALISTAS EM FRANÇA.

 

 


DOS  SOCIALISTAS  EM  FRANÇA.

Uma resistência à entrada do Partido Socialista Francês na grande coligação de esquerda liderada pela França Insubmissa ecoa lugubremente na comunicação social francesa.

 É especialmente  protagonizada por alguns dos seus notáveis de má memória. De facto. alguns dos  coveiros mais ostensivos do socialismo francês parecem não querer admitir qualquer tentativa séria para o desenterrar. Uns, como Manuel Valls, assumem e aprofundam sem rebuço uma deriva de traição que iniciaram há anos  juntando-se à estéril nebulosa “macroniana”. Outros erguem-se penosamente da sepultura política em que caíram e procuram evitar com desespero que o PSF retome um protagonismo político relevante. Não se percebe se resistem a sair do buraco em que Anne Hidalgo os meteu nas recentes eleições presidenciais ou se sonham  nunca lá terem caído.

Quase miraculosamente o que resta do Partido, como um quadrado de raiva, parece querer resistir. No horizonte, cresce a probabilidade da sua adesão a uma União Popular Social e Ecológica que congregue toda a esquerda francesa.

Registe-se, entretanto,  a posição assumida no twitter  pelo candidato do PS às eleições de 2017, Benoit Hamon:

“Afastei-me da vida política nacional  mas , a título pessoal, neste dia de aniversário da vitória da Frente Popular,  afirmo que a aliança em torno da União popular é uma excelente notícia”.

Haverá esperança ?



segunda-feira, 25 de abril de 2022

Homenagem ao 25 de Abril

 


Capitães de Abril

               [1974/2022]

 

Capitães de um futuro incendiado

esculpiram num só dia o coração

das largas avenidas que hão de vir

 

O povo semeou-se pelas ruas

gritando em vermelho um cravo imenso

com asas que voaram pensamento

 

Em todo o horizonte ficou escrito

um sonho que perdeu o seu limite

  pétala de luz   deslumbramento

 

Capitães inventados em Abril

o povo atravessou-os como um rio

com a paixão mais justa e vertical

 

        [Rui Namorado – 25 de Abril de 2022]

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ganhámos a taça!

 Em 2012, no dia em que a Académica ganhou a Taça pela segunda vez, escrevi o poema que abaixo reproduzo.



 Difundi-o então no meu blog  O Grande Zoo. No final de 2021, publiquei na Editora Lápis de Memórias, o meu livro de poemas mais recente. "A cidade do Tempo" é uma ressonância poética de Coimbra. Nele incluí o poema que hoje transcrevo.

Hoje, que a Académica atravessa uma grande tempestade de infortúnio é indispensável uma verdadeira respiração do futuro. Com verdadeira grandeza; com imaginação e ousadia.

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Ganhámos a taça!

          -em 2012

O jogo começou há longos anos,

quando ganhámos a primeira vez.

Em maio de mil novecentos e sessenta e nove,

julgou-se que tínhamos perdido.

Cinco anos depois viu-se que não,

porque somos de um outro campeonato.

Foi talvez, por isso, que ganhámos

neste ano já de um outro século,

como se tudo tivesse começado.

 

E, no entanto, o jogo continua.

Há sempre um novo jogo a começar:

entram em campo todas as memórias.

Mas também a saudade e a alegria.

As capas são os ventos que não param.

Os ventos que são anos e são  vida.

Há golos para todas as  balizas.

O Bentes virá sempre pela esquerda.

No último minuto, o Artur Jorge

Há de marcar o golo de uma vida.

Ia ser golo já sem remissão,

mas o Capela  voou mais que o possível

e a bola não entrou.

E hoje, quando a festa começou,

já o leão rugia rudemente;  

a bola insidiosa veio da esquerda,

procurou a cabeça do Marinho

e o golpe foi desferido e foi mortal. .

 

Vamos entrar em campo novamente,

sabendo que a Briosa a entrar em campo,

é sempre muito mais do que ali está.

Cada golo é sempre  mais que um golo:

milhares em todo o mundo vão marcá-lo.

Cada vitória é mais que uma vitória:

milhares em todo o mundo vão erguer-se,

num gesto de alegria.

E quando os onze perdem nunca perdem,

porque a Académica ganha moralmente.

E se, apesar de tudo, ainda perderem,

os onze sempre sabem que jamais 

irão perder sozinhos.

O sonho estará sempre ao lado deles

e há sempre um outro jogo para ganhar.

 

Ganhámos esta taça.

Na praça da saudade estão connosco

os que partiram antes de a ganhar.

Vai haver nas ruas de Coimbra

um fraterno Mondego de pessoas,

um clamor de alegrias.

E se nas largas ruas da vitória

se abrir alguma porta de silêncio,

não estranhem,

são aqueles que partiram,

fazendo recordar a sua ausência.

 

O que hoje entrou em campo foi a lenda

e o mito de uma eterna juventude.

Briosa é nome de uma caravela,

mas o vento que a leva só é vento

de quem saiba sonhar sem desistir.

 

Por isso, se percebe com clareza

que nós somos de um outro campeonato.

 

domingo, 17 de abril de 2022

 


 

LOUVOR AO 17 DE ABRIL

[1969/2022]

 

A pérola do tempo descansou

na guitarra  longínq1ua da saudade,

deixando que um só dia incendiasse

o sagrado sabor da liberdade.

 

Nas mãos nuas dos versos desarmados

que colhem a chegada da alegria,

foi gravada a lenda deste dia

respirou-se no vento a tempestade.

 

Um gume de revolta atravessou

o perfume da nossa primavera

e a verdade ficou no meio de nós,

colhendo-se inteira até ao fim.

 

Capas negras dos sonhos acordados

foram sangue no próprio coração,

dizendo-nos por dentro de quem somos

com as palavras livres e despertas.

 

Caminhámos por todos os lugares,

navegando sempre além do fim,

fomos cidade,  amor  e sedução,

voz súbita de todos os poetas.

 

Quando os corvos do medo nos cercaram

não colhemos a flor do desespero,

erguemo-nos na nossa condição

e lutámos

             [ 17 de Abril de 2022]                                                                                                                                                                   

sexta-feira, 8 de abril de 2022

domingo, 20 de março de 2022

60 anos da Crise Académica de 1962

60 anos da Crise Académica de 1962

 

A Crise Académica de 1962 vai ser lembrada no decorrer da  próxima semana. Saliento dois eventos.

1.

O primeiro, Conversa sobre  a Crise Académica de 1962 – 60 anos  terá lugar no dia 22 de Março (terça-feira) | 18h00 | zoom


 Participarão Isabel do Carmo (médica), Rui Namorado (professor universitário), Alexandre Alves Costa (arquiteto | professor universitário),com moderação de Henrique Barreto Nunes (bibliotecário). É organizado pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em em colaboração com a  CAMinho – [Bibliotecas e arquivos associados à Universidade do Minho].


2. O segundo  será o Colóquio Primaveras Estudantis da Crise de 1962 ao 25 de Abril  decorrerá no próximo dia 24 de março.

Este Colóquio conta com as intervenções do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do Reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira e do Comissário Executivo das comemorações 50 Anos 25 de Abril, Pedro Adão e Silva.

O papel do movimento associativo estudantil, traduzido nas várias crises académicas que enfrentaram a ditadura, é, por isso, um dos temas em destaque nas celebrações e será tema de reflexão do colóquio, no qual alguns dos principais protagonistas das crises académicas vão desfiar memórias, na primeira pessoa.

O programa conta ainda com a estreia do documentário “Sampaio, Caetano e Salazar: o confronto de 1962”, realizado pelo jornalista Jacinto Godinho e produzido pela RTP.

A par do Colóquio, a Exposição “Primaveras Estudantis: da Crise de 1962 ao 25 de Abril” no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, também pretende contribuir para a compreensão de um dos momentos cruciais para o início do fim da ditadura. term

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

UMA NOTÍCIA QUE MUITO ME HONROU

 



FEUC cria Fundo Rui Namorado em Economia Social

     ( No passado dia 11 de fevereiro , em Coimbra no Jornal Campeão foi publicada                esta noticia que muito me honrou )

A Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC) iniciou, hoje (11), mais uma edição da pós-graduação em Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade.

A conferência de abertura do curso, a 13.ª edição, realizou-se às 14h30 na Sala Keynes da FEUC. O orador convidado, João Salazar Leite, antigo dirigente da Cooperativa António Sérgio para a Economia Social (CASES), membro do Conselho da Social Economy Europe (SEE) e recentemente distinguido com o Prémio de Economia Social da União Europeia, da iniciativa da SEE, abordou o tema “Economia social em Portugal e na Europa: uma visão do passado ao futuro”.

Na mesma sessão, o director da Faculdade, Álvaro Garrido, anunciou a criação do Fundo Rui Namorado, designação do acervo bibliográfico do Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social (CECES/FEUC), que reúne mais de 3000 livros sobre a economia social e solidária, nas suas diversas perspectivas disciplinares e tradições teóricas, e que integra a Biblioteca da FEUC.

Através desta iniciativa e da vinculação de um extraordinário fundo bibliográfico das bibliotecas da Universidade de Coimbra ao nome de Rui Namorado, a FEUC pretende homenagear um dos seus docentes mais prestigiados e invocar o seu extraordinário contributo para o estudo dos temas de economia social e do cooperativismo.

Professor Associado aposentado da FEUC, fundador do CECES e da Pós-Graduação em Economia Social – cooperativismo, mutualismo e solidariedade, Rui Namorado junta à sua dimensão intelectual e cívica uma obra ímpar no campo da economia social, composta por livros, artigos, projectos de investigação e numerosas conferências. Salienta-se ainda o seu trabalho de juscooperativista e o brilho dos seus escritos teóricos e doutrinários na área da economia social. Segundo Álvaro Garrido, director da FEUC, “esta iniciativa constitui um tributo ao professor Rui Namorado e um incentivo à continuidade e renovação do ensino e da investigação sobre temas de economia social, área em que a FEUC sempre assumiu um papel de grande dinamismo e alcançou reconhecimento nacional e internacional”.



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

É urgente substituir o povo!

 



É urgente substituir o povo!

1. Deixei passar uns dias antes de tecer alguns comentários a propósito das recentes eleições legislativas. Deixar assentar as poeiras mais imediatas pode ajudar na  crítica. Não pretendo fazer uma abordagem global. Pretendo apenas escolher alguns tópicos dispersos que me pareçam sugestivos e possam ser envolvidos em relevâncias futuras.

No dia 30 de janeiro, o (im)plural panorama da comunicação social portuguesa foi acossado por um violento sopro de realidade.

 

2. Uma vasta corte de comentadores políticos da direita ressequida, de oráculos reformados da esquerdíssima mais cortante, de cultores luminosamente científicos da vulgata neoliberal, de jornalistas previsíveis e de comunicólogos emaranhados, partilhou uma esforçada campanha destinada a explicar por que razão estavam em perigo , nas eleições do passado dia 30, o PS e António Costa, a quem seria servido inevitavelmente, na melhor hipótese, o amargo sabor de uma vitória pífia; e, na pior, o compreensível e merecido castigo de uma derrota paralisante.

Ora, se acusava AC de ser um inconfessado e oculto amante da maioria absoluta, ora se trovejava contra o alegado descaramento de a pedir expressamente. Mas ao mesmo tempo, qualificava-se como puro delírio o sonho de a vir a obter.

Com melíflua comiseração, apontava-se o seu óbvio cansaço, traçando-se um quadro dramático das  sucessivas não remodelações do seu Governo, acentuando o gigantismo de alguns minúsculos casos com que o tentaram cercar, para afirmar com a frieza gulosa de um imaginário rigor, que também o bom povo estava cansado dele, muito cansado.

Cientes do excesso de culparem directamente o governo do coronavírus 19, atiravam-lhe para cima imaginárias insuficiências e falhas de comunicação. O povo estava farto, fartíssimo de António Costa e do governo do PS.

 

3. Despertos para o grande desígnio nacional do reformismo holístico, no âmbito do qual cada corporação de interesses e cada corte ideológica do abrangente conservadorismo vigente, tingem a sua feroz apetência alegadamente reformista com a cor forte dos seus interesse mais egoísticos, deixavam cair implacáveis a sua mastigada e incontornável sentença: o governo do PS liderado por António Costa fugiu dramaticamente de todas as reformas.

 Rigorosos, aprestavam-se por isso ao registo frio de uma derrota quente das cores socialistas. Mansa, a matilha mediática uivava concordância, com toda a energia.

Mas a arguta matilha tinha uma visão de largo espectro. Atenta – vigiava qualquer tique do odiado António Costa para, como um bando de arcanjos virtuosos, o denunciar em praça pública sem contemplações. E assim na sua lucidez esotérica foi identificando sinais de uma evidente ainda que discreta arrogância.

AC defendia o acerto das medidas do seu governo e logo gritavam: arrogância! AC mostrava um qualquer sinal internacional de reconhecimento do mérito do seu Governo e logo vociferavam: arrogância! AC respondia a alguma das pedradas políticas que lhe dirigiam, num simples exercício de legítima defesa e logo se indignavam: arrogância!

Mas se AC tomava uma posição pública na qual fosse  impossível encontrar a mais leve aparência de arrogância, regougavam com incontida reprovação: hipocrisia!

Ou seja, o nosso bando de arcanjos mediáticos tingia de evidência o seu próprio delírio e condenava irremediavelmente AC como arrogante. Por definição; dispensando-se por isso de mostrar o arrogantismo dessas arrogâncias.

 

4. O despontar tímido de um punhado de vitórias em autarquias  importantes nas recentes eleições autárquicas, foi suficiente para se gritar como óbvia uma firme rejeição popular  de AC e do Governo do PS ( apesar de ele ser de longe o partido autárquico maioritário, quer em número de CM quer de F). A promessa firme de um tsunami laranja ia pairando assim com crescente intensidade.

Mas o povo enganou-se! Driblou oposições, comentadores graves, expoentes da ciência política, economeses de largo espectro. O PS teve maioria absoluta.

 

5. É pois urgente substituir o povo! É , pelo menos, o que pensa ousadamente a direita lusitana mais bem pensante, bem como a deslumbrada bolha comunicacional, o comentariato elucrabativo e os vultos graves dos alegados senadores do dislate.  Não podem permitir que o PS se ponha a ganhar eleições desregradamente. Uma de quando em vez, desde que modesta, ainda vá lá. Relativazinha – e é um luxo. Mas o despautério de uma vitória sem peias- nunca mais!

E a vasta corte dos oráculos políticos cujas previsões são sempre revistas em alta ou em baixa, raramente antecipando realmente a realidade, lambidas as feridas auto-infligidas pela sua desesperada e inútil cruzada contra o PS e contra António Costa, procura agora respirar com  exigência a maioria absoluta instituída.

 Forçadamente despidos da arrogância de invocarem a inexistente soberba de um e outro para agoirarem a sua derrota ou, mínimo dos mínimos, uma vitória esquálida, os da bolha político-mediática aprestam-se agora a apresentar a AC o catálogo das suas exigências. O deve haver da arrogância que inventaram e que a realidade(teimosa!) não absorveu.

Uma azougada constelação de interesses, de preconceitos e de narizes de cera apronta um caderno de encargos para assombração do PS e de AC. Ignora que o caminho a seguir pelo próximo Governo tem as raízes numa ampla convergência de vontades geradora de 119 deputados na AR e não das vocações resmungonas de um punhado der oráculos decadentes.

Com o tom solene de um Conselheiro de Estado, Mendes já decretou que  se o governo fizer o que ele lhe mandar é dialogante , se não lhe obedecer mostra a sua arrogância. Foi aplaudido e seguido. Quanto á vontade dos milhões de portugueses que deliberaram dar maioria ao PS e a AC e disseram querer ver cumprido o respectivo programa os iluminados nada disseram.

 

6. Por mim olhando para a paisagem reinante como um todo, começo por recordar Brecht.

Confrontado com um conflito que no seu  tempo opôs o governo da RDA ao povo trabalhador que aí vivia, Brecht , poeta e comunista, escreveu um breve poema, onde numa atitude crítica perante as posições oficiais que assim concluiu:

“Pois não seria

Então mais fácil que o Governo

Dissolvesse o Povo e

Elegesse outro ?”

 

É um poema lendário que esvazia uma vasta área da retórica eleiçoeira dos políticos pernósticos.

Quiçá sem o saber, a deputada  e  vice-presidente do PSD, Isabel Meirelles, quando lhe pediram para explicar o que falhou e conduziu à hecatombe da retórica já vencedorista do partido a cuja direcção pertence, deu uma resposta que fez com que se lhe enterrasse até às orelhas a “carapuça” brechtiana

“O que falhou foi o foi o povo português"!