Um dia, Brecht escreveu um
daqueles diamantes breves que rasgam a noite sem contemplações.
Escapei aos
tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.
Marta Temido conquistou legitimidade para o fazer seu.
"Entre os animais ferozes, o de mais perigosa mordedura é o delator; entre os animais domésticos, o adulador". Diógenes Laércio
Um dia, Brecht escreveu um
daqueles diamantes breves que rasgam a noite sem contemplações.
Escapei aos
tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.
Marta Temido conquistou legitimidade para o fazer seu.
Recordar as vozes de grandes poetas é um estímulo insubstituível para a nossa razão e um guia seguro para as nossas emoções. Ouçamos pois, uma vez mais, Bertolt Brecht, na versão portuguesa de Paulo Quintela.
Um bandido norueguês, que a si próprio se olha como um cruzado, odeia o marxismo, o islamismo e a democracia, massacrou dezenas de compatriotas seus. Na sua lista de ódio, onde estava escrita a morte de dezenas de milhares de seres humanos, o bandido incluiu dez mil portugueses. Fui assim indirectamente colocado nessa trágica e honrosa lista dos odiados, fomos, todos nós portugueses inscritos nesse quadro de honra dramático.Um bandido norueguês de extrema-direita tornou-me irmão de todos noruegueses mortos e de todos outros cidadãos do mundo cuja morte foi prometida. Foram os jovens trabalhistas noruegueses. Podiam ter sido portugueses. Podiam ter sido cidadãos do mundo. Não é tempo de medo. É tempo de solidariedade e de revolta. Mas, sem o saber, o bandido norueguês deu-nos a honra de nos inscrever na sua lista de ódio.
São dias de um chumbo aveludado, mas asfixiante. As vozes parecem veladas. Os gestos parecem tolhidos. As sombras ditam a lei, como se estivessem vivas. Os prégadores numerogam a desgraça, ficcionado-a como neutra. A maré lenta dos povos agita-se ao longe. A Europa é um outono melancólico que se recusa a andar. Ministros deixam os olhos perderem-se no Tejo como navios sem regresso. Aspiram um poder de fim de tarde com a volúpia constragida de quem não sabe muito bem se tem alguma coisa que possa fazer. Neste crepúsculo indolente, resolvi recorrer uma vez mais a Bertolt Brecht, sempre na sua versão portuguesa de Paulo Quintela:
"Quem é o teu inimigo?". Boa pergunta, neste tempo de sombras e embustes, neste entardecer de labirintos e ilusões, nesta manhã de espantos.
Viajar através da versão portuguesa de Paulo Quintela dos Poemas de Bertolt Brecht, abre sempre a porta a novas surpresas e a novas lições. Ajuda-nos muitas vezes a pensar, a proscrever uma eventual letargia, a compreender o que parece estranho. Ontem, quando um zumbido insalubre de numerologia financeira e predatória pairava no espaço mediático português, empreendi uma dessas viagens. Não posso deixar de partilhar com todos vós um poema então encontrado.
Foi apenas uma derrota eleitoral. Grande , é certo. Do PS, mas também da esquerda, em geral. O PS perdeu mais de 8% de votos, o BE perdeu metade do seu grupo parlamentar, o PCP perdeu a cabeça, quando achou que, neste quadro, ganhar 0,1 % e um deputado, era um enorme incentivo para o combate, mesmo que tivesse ocorrido o ligeiro contratempo de uma direita com maioria absoluta.
Há dúvidas quanto ao tipo de coligação que vai surgir com base na nova relação de forças, embora sempre com o partido vencedor como eixo, sendo embora possível que se incline mais para a esquerda ou mais para a direita.
Tudo isso mostra como é evidente, fica claro que, também na Holanda, a Internacional Socialista continua a murchar. E contra o que antes acontecera não foram os socialistas de esquerda que ganharam com isso: pelo contrário, recuaram ainda mais do que os trabalhistas. E os grandes beneficiários da derrota estrondosa dos democratas-cristãos foram os liberais conservadores e a extrema-direita.
Para quando a declaração da Internacional Socialista e do Partido Socialista Europeu como tendo caído num estado de calamidade política? De facto, sem isso, pode recear-- se que os partidos nacionais desta família política não consigam sacudir o torpor que parece envolvê-los, de modo a que, em simbiose com um novo protagonismo do povo europeu de esquerda, consigam reverter o declínio que parece tê-los atingido.







Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.