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domingo, 4 de setembro de 2016

Olhando Vagamente para o Universo - nº1 - NIVELAMENTO

Olhando Vagamente para o Universo - vai ser o título de uma série de comentários contemplativos que vou passar a incluir neste blog a partir de agora. A sua cadência vai ser irregular. Podem passar-se semanas sem nenhum. Podem ocorrer vários num só dia. O título do primeiro será:

Nivelamento

Disse o cão ao cantor de ópera:
- Cantas como se ladrasses.
Retorquiu o cantor de ópera:
- Ão! Ão! Ão! Ão! 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O capital financeiro e as matilhas assimétricas.



[ Nos jornais de hoje: Juros da dívida inauguram novo ano abaixo de 2,6% , mas o rating de crédito continua em "lixo financeiro".]

A inquisição económica das agências de notação continua a condenar-nos ao inferno do lixo. Mas os mercados da dívida soberana, noutros casos tidos como sacrossantos, têm-nos deixado frequentar o paraíso dos juros baixos.

Que pecado é o nosso que nos faz ser condenados ao inferno por uns, para nos deixar repousar no paraíso pelos outros? Sendo que uns e outros estão, alegadamente, ungidos pela mesma santidade que os conduz a uma objectividade serena e férrea.

É estranho; quase parece que a sua santidade tem os pés de barro e a sua objectividade é apenas um embuste de uma subjectividade bem pesada.

Quase podia garantir, perante tão contraditórios julgamentos, que o serviço de uns e outros é muito menos aquilo que quer fazer parecer do que aquilo que lhes dita a função de peças estratégicas da produção ideológica do capital financeiro.

De facto, se uns e outros, ou alguns deles, não são tontos, a parafernália de instrumentos informáticos e de técnicos de ponta que se espraiam pelas suas salas, não são na verdade instrumentos para identificar conjunturas económicas e para informarem investidores, levando-os a directivas desencontradas que os desqualificam. Estamos apenas perante pesquisadores de argumentos que possam ser colocados ao serviço das estratégias politicas de teor algo vampiresco dos grandes centros de poder financeiro mundial e dos poderes institucionais que os exprimem e suportam.

A directiva é afundar a Grécia? Disparem-se as munições guardadas que façam parecer que a Grécia é um caos em potência. A palavra de ordem é salvar a Irlanda? Dispare-se o fogo de artifício que a transporte até ao céu da tranquilidade. Quanto a Portugal, está para se ver ? Ponha-se um lado a distribuir cachaços e outro a ministrar afagos.


Que os beneficiários deste embuste de luxo e os donos desta matilha de excelência paguem regiamente aos atores e autores deste “grande teatro económico” pode compreender-se. Que os poderes públicos, que deviam representar os povos agredidos, também paguem á canzoada que os morde, parece-me um tanto ou quanto estúpido. Talvez não seja corrupção ilegal, talvez nem sequer seja pecado, mas é estúpido.

sábado, 27 de agosto de 2011

MIGALHAS GENEROSAS OU ASSUSTADAS ?

Se um de nós, carecido de cuidados médicos, deparasse com a completa falta de resultados positivos da prestação desses cuidados, continuaria a procurá-los na mesma instituição? Se essa instituição produzisse sistematicamente resultados negativos, continuaria a merecer credibilidade? Os seus métodos continuariam a merecer a confiança dos recém-chegados ao exercício da Medicina? Parece evidente que não.

Seguindo um raciocínio analógico, é, por isso, muito estranho que o receituário económico neo-liberal tenha mergulhado o mundo numa enorme crise, que além do mais penaliza particularmente os pobres e poupa no essencial os ricos, que submete os interesses de milhões à sofreguidão objectiva de uns poucos milhares; e, apesar disso, continue a ser invocado como ciência e a ser seguido como terapêutica.

De facto, a ideologia neo-liberal, desesperadamente sequiosa de um estatuto científico, que disfarce a sua relatividade instrumental, é no essencial uma coloração artificial e ilusória que esconde a realidade, em vez de de nos ajudar a compreendê-la. São seus arautos, voluntários ou involuntários, todos os "troikos", e principalmente todos os papagaios conservadores que alardeiam o neo-liberalismo, todos os capatazes, mais ou menos claramente, pagos para cobrirem com o verniz da sua alegada ciência os interesses dos verdadeiros senhores do dinheiro.

A sociedade no seu todo está, por isso, a ser vítima do que lhe é aplicado como se fosse uma terapêutica salvadora , mas se tem revelado como um envenamneto lento, invisível e insidioso. Com a particularidade de, neste caso, aquilo que ocupa o lugar de doente, a sociedade, ser quem sofre o castigo pela via errada seguida por aqueles que ocupam, quanto a ela, o lugar dos prestadores de cuidados médicos, ou seja, os políticos neo-liberais e os seus capatazes alegadamente científicos da esfera económica.

Ora, a evolução objectiva da vida social está a fazer com que as ocultações vão perdendo mais e mais o seu potencial mistificador. E os mais informados ou mais ladinos entre os que ocupam o cerne do poder, o poder que sateliza os outros poderes, começam a compreender o plano inclinado por onde descem os seus privilégios, receando que os cidadãos, vendo cada vez mais as coisas como de facto são, se revelem indisponíveis para gastarem as suas vidas no altar dos privilégios do capital. Por isso, se sentem tentados a inventar novas cortinas de fumo, que, escondendo o essencial, os enfeitem do máximo de generosidade possível. Tão efectiva quanto for necessário, tão inócua quanto for possível.Por isso, neste novo jogo de sombras, tudo o que tem poder tende a procurar esconder-se, para que se possível pareça nem existir.

Todos os lobos procuram afanosamente as peles de cordeiro em que possam esconder-se. Atravessamos, por isso, um tempo em que é especialmente importante mantermos os olhos bem abertos.

Tenhamos pois a noção de que pouco interessa que os chamados ricos ofereçam algumas migalhas do muito que sugam, por força dos automatismos da lógica capitalista, para mais tranquilamente poderem continuar a beneficiar desses automatismos, enriquecendo-se à custa da exploração do trabalho alheio ou da transferência forçada de rendimentos dos empresários mais fracos, para os empresários mais fortes. Por isso, não nos interessa que os ricos se ofereçam no altar do que para eles são sacrifícios pequenos. Interessa-nos que os ricos deixem de poder continuar a fabricar pobres. Interessa-nos que a riqueza dos ricos não seja a fábrica da pobreza dos pobres.

Por isso, não nos batemos por um por cento a menos na fortuna dos ricos: o que não queremos é uma sociedade injusta. Uma sociedade cuja lógica de funcionamento leva à produção de um pequeno número de ricos, à custa da reprodução de um grande número pobres, dando até margem aos primeiros para que humilhem os segundos, com a falsa caridade de quem restitui às vítimas uma pequena parte daquilo que antes as fez perder.

Queremos uma sociedade justa, queremos começar-nos já a aproximar da justiça, começando pelo essencial: inverter a tendência crescente da última década para que aumente a parte do rendimento social absorvida pelo capital e diminua aquela que tem vindo a caber ao trabalho. O capital, como trabalho morto, tem que ser um instrumento rigorosamente manejado ao serviço da frutificação do trabalho vivo, e não o elemento dominante de uma lógica de degradação de tudo o que é humano. As coisas ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço das coisas.

Por isso, toda esta palhaçada dos ricos quererem pagar mais impostos é apenas uma cortina de fumo lançada por quem tem a noção de que uma sociedade impregnada por uma lógica de exploração, como aquela que hoje é dominante á escala planetária, não tem futuro no quadro da democracia ou pura e simplesmente não tem futuro.

Outro galo cantaria, se nos viessem falar do fim de todos os paraísos fiscais, do forte desencorajamento de quaisquer estratégias especulativas nos movimentos de capitais, de uma subordinação politicamente controlada do capital à necessidade de produção de bens e serviços socialmente úteis, de um combate efectivo à intromissão na vida económico do dinheiro oriundo da criminalidade organizada, de uma fortíssima tributação de todos lucros não reinvestidos em empresas socialmente úteis. Mas isto seria outro galo, e não este garnisé hipócrita que se dispõe a oferecer migalhas para que o deixem continuar pachorrentemente a comer o bolo.

O mais incrível é verificar que, apesar de tudo isso, alguns dos capatazes políticos e ideológicos do neo-liberalismo ainda acham que mesmo essas pobres migalhas não devem ser tiradas aos seus senhores.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

CARTEL DE URUBUS


Um cartel de detentores de capital com capacidade de investimento especula com as necessidades de crédito de Portugal e de outros países. A manobra mais recente foi a notícia de que Portugal caminhava para o colapso económico e por isso os juros da dívida pública subiam. Mas se eles estivessem realmente convencidos de que havia um risco real de incumprimento não faziam subir os juros. Pura e simplesmente, não emprestavam.

Dizer que o cartel de investidores só nos ataca porque somos economicamente frágeis, absolvendo-o assim da perversidade do ataque, é admitir que é legítimo um tipo de sociedade em que o forte esmaga o fraco, imputando a este a culpa pela sua fraqueza e ignorando a maldade do forte que perpetrou o ataque. É inviável que uma sociedade que pactue com isso possa sobreviver em democracia. A União Europeia não permite que um dos seus membros, por militarmente fraco que seja, possa ser atacado por uma potência exterior. Porque admite um ataque de banqueiros e outros investidores que pode deixar sequelas mais duradouras do que uma invasão militar?

Se a União Europeia não é suficiente forte, ou suficientemente solidária, para impedir isso, não merece existir. E se, mesmo assim, sobreviver, acabará por sofrer nos seus países mais poderosos aquilo que cobardemente consentiu que fosse feito aos seus membros mais desprotegidos.

De facto, quando o próprio FMI reconhece que não há base objectiva, a não ser um cálculo especulativo, para agravar a taxa de juro cobrada a Portugal, mas continua a encarar o nosso país como se ele tivesse uma culpa que o próprio FMI reconhece que ele não tem, está a passar a si próprio um certificado de cinismo do mais alto grau.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

As hienas de "rating"


As hienas de "rating" uivam nomes de países. Arrepiados, os cientistas neoliberais, dizendo gravemente de sua justiça, mandam ainda mais apertar os cintos, carecidos há muito de buracos no paroxismo de apertos a que a generosidade dos sacrificados capitalistas os tem condenado.

Mas estas hienas têm donos que, lambusadamente, colhem depois os doces frutos das desgraças que cientificamente inventaram. E os números das suas contas vão subindo no segredo dos bancos.

Dentro dos lugares que estão por dentro dos nomes uivados, uma matilha cinzenta e circunspecta distribui culpas pelas vítimas, com o máximo rigor.

Os senhores das hienas agradecem.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Devem mandar os povos ou os petroleiros?



Quando um político está paralisado pela perplexidade, perante acontecimentos que parecem abater-se sobre ele, um dos caminhos por que de imediato costuma enveredar é o da imaginação da acção. Ou seja, incapaz de agir, por não saber o que fazer, o político inventa uma iniciativa que, revestindo a aparência de uma acção, não se traduz em qualquer medida concreta com reflexos palpáveis, apenas provocando a ilusão de que não se está parado.

É o que, até certo ponto, parece estar acontecer com o nosso Governo, quanto ao preço dos combustíveis. Procurou esbater as consequências mais dramáticas, mas auto-paralisou-se no combate às causas. E, no entanto, ao propor à União Europeia que nela se discutisse o problema do preço dos combustíveis, em vez de ter deparado com uma amável complacência desinteressada, recebeu um caloroso elogio. Ou seja, a União Europeia está exactamente como o Governo Português: não sabe muito bem o que há-de fazer. E assim a ideia de tomar como medida a proposta de uma discussão revelou-se um verdadeiro balão de oxigénio.

E, no entanto, pelo menos em Portugal, parece claro que a única medida com alguma hipótese de produzir efeitos práticos é o controle político dos preços. Não será suficiente, é certo, exigindo-se também uma concertação internacional que pode começar pela União Europeia, mas será, provavelmente, indispensável.

E não venham balir os mansos adoradores da livre concorrência, considerando sacrilégio beliscar essa moderna divindade. Aliás, nem é de livre concorrência que se trata. Trata-se de escolher entre ser o poder político democrático a regular os preços, tendo em conta o interesse nacional, a justiça e a equidade; ou serem as oito grandes petroleiras , únicas associadas da estrutura que representa o sector. Deveremos deixar a economia portuguesa ser sangrada por essas oito grandes companhias, ou devem os representantes do povo cumprir o seu dever moral perante o povo e o país ?.

Impossível, dirão. Esse caminho contraria os dogmas da economia de mercado. Pois é, esse é o nó do problema. Os poderes instalados, alguns dos governos, os centros financeiros que sugam o mundo, estão a ver que não podem dominar esta desfilada selvagem de especuladores, sem romperem com os dogmas neoliberais.
De facto, por enquanto, parecem dispostos a pagar qualquer preço para salvarem o dogma, já que temem, mais do que tudo, que fique demasiado claro que nos têm impingido pseudo-verdades, que apenas representam as conveniências de alguns, mas que põem em risco a felicidade de todos.

Minoremos os sofrimentos dos mais fracos, cortemos os abusos, ponderemos cuidadosamente as medidas que forem sendo tomadas, mas acabemos com a paralisia perante os dogmas neoliberais, passando a encarar a lógica do mercado como um instrumento e um auxiliar, que deveremos relativizar sem esquecer e valorizar racionalmente. Encerremos o ciclo da religião neoliberal, para valorizarmos todos os factores que devem ser ponderados, pondo os seres humanos no centro das políticas.

Não podemos admitir no país ou no mundo sermos reféns de petroleiros e de especuladores
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