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quarta-feira, 27 de maio de 2020

4- UM LIVRO, UM POETA – Manoel de Barros






4- UM LIVRO, UM POETA – Manoel de Barros

Publico hoje o último poema  do Livro das Ignorãças,  do qual é autor Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em 1916 e falecido em 2014.  Advogado, fazendeiro e poeta, é um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, mas a sua criatividade ousada transbordou  para o século atual e prepara-se para ocupar um lugar de relevo no futuro da poesia e da língua portuguesa.



AUTO-RETRATO  FALADO
                                   -Manoel de Barros

  Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.


  Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
            Marinha, onde nasci.

   Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
            chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
 estar entre pedras e lagartos.

Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me

           sinto como que desonrado e fujo para o
            Pantanal onde sou abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei --- pelo
            que fui salvo.

Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de

              gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
            faço coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

sábado, 4 de abril de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 4


Publico hoje o último poema  do Livro das Ignorãças,  do qual é autor Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em 1916 e falecido em 2014.  Advogado, fazendeiro e poeta, é um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, mas a sua criatividade ousada transbordou  para o século atual e prepara-se para ocupar um lugar de relevo no futuro da poesia e da língua portuguesa.

 

AUTO-RETRATO  FALADO

                                   -Manoel de Barros

 Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.
  Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da

            Marinha, onde nasci.
  Me criei no Pantanal de Corumbá, ente bichos do

            chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.
Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de

 estar entre pedras e lagartos.
Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.

Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me
           sinto como que desonrado e fujo para o

            Pantanal onde sou abençoado a garças.
Me procurei a vida inteira e não me achei --- pelo

            que fui salvo.
Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.

Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de
              gado. Os bois me recriam.

Agora eu sou tão ocaso!
Estou na categoria de sofrer do moral, porque só

            faço coisas inúteis.
No meu morrer tem uma dor de árvore.

 

sábado, 15 de novembro de 2014

Homenagem a Manoel de Barros

 Manoel de Barros, grande poeta de língua portuguesa, brasileiro,  deixou-nos há poucos dias aos 97  anos de idade. Já me referi a ele e à sua poesia neste blog, já aqui transcrevi poemas seus. Hoje, venho prestar-lhe homenagem, publicando alguns poemas seus, escolhidos entre os mais curtos, por razões práticas, mas a meu ver elucidativos quanto à sua poética, tão radicalmente original. As suas palavras são coisas da vida, oriundas do sol e do vento, possuídas pela cor forte das flores e dos rios. E subitamente saem com naturalidade da boca das pessoas, são a voz natural das gentes e o som vivo dos animais. E no entanto as coisas , os animais , as pessoas entram diretamente nos poemas como se sacudissem as palavras que as quereriam ir dizendo. Há nesta poesia uma intimidade extrema entre as palavras, as coisas, as gentes, que nos mostra tudo isso á luz do microscópio mágico que é afinal a voz límpida e livre de um poeta sem margens.

POEMAS de Manoel de Barros
1.

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Para mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.
                     (do livro  “Arranjos para assobio”)

2.

Eu sou o medo da lucidez.
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei uma ideias com as mãos ─ como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte que separava o morro do céu
            estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases
Um descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.
                        (do livro  “O guardador de águas”)

3.

Sou um sujeito cheio de recantos.
Os desvãos me constam.
Tem hora leio avencas.
Tem hora, Proust.
Ouço aves e beethovens.
Gosto de Bola-Sete e Charles Chaplin.

O dia vai morrer aberto em mim.
                        (do livro  “Livro sobre nada”)

4.

Retrato do artista quando coisa: borboletas
Já trocam as árvores por mim.
Insetos me desempenham.
Já posso amar as moscas como a mim mesmo.
Os silêncios me praticam.
De tarde um dom de latas velhas se atraca
em meu olho.
Mas eu tenho predomínio por lírios.
Plantas desejam a minha boca para crescer
por de cima.
Sou livre para o desfrute das aves.
Dou meiguice aos urubus.
Sapos desejam ser-me.
Quero cristianizar as águas.
Já enxergo o cheiro do sol.
                        (do livro  “Retrato do artista quando coisa”)

5.

Deus disse: vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.
                        (do livro  “Retrato do artista quando coisa”)

6.
Formigas

Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino, nem São
Francisco de Assis ─
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.

( Eu tenho doutorado em formigas.)
            (do livro  “Ensaios fotográficos”)

7.
Sonata ao Luar

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço de cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor  se fez
Sob um luar sem defeito de abril.
            (do livro  “Poemas rupestres”)

8.
Garça

A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.
             (do livro  “Poemas rupestres”)

terça-feira, 8 de junho de 2010

Manoel de Barros : a surpresa enquanto poesia


Para mim, desde que há já uns bons anos o descobri, qualquer coisa que diga respeito ao poeta brasileiro Manoel de Barros é fonte de interesse. É como se estivéssemos sempre à beira de encontrar algo de poeticamente misterioso, de subtilmente inusitado e estimulante. A simplicidade dos seus versos é de uma complexidade sem fronteiras, mas reflecte muitas vezes o olhar livre de uma criança que se perdesse no abismo das coisas mais comuns. As palavras dos seus poemas misturam-se cúmplices com a natureza, como se crecessem entre as árvores ou deslizassem sensualmente pela superfície das pedras.


Por isso, quando numa das minhas peregrinações pela blogosfera deparei com um entrevista feita a Manoel de Barros, pelo jornalista Ubiratan Brasil e publicada no Estado de S.Paulo, em 4.11.2009, logo achei que a deveria divulgar aqui no blog, mesmo tendo passado já vários meses sobre a data da sua publicação. Ela foi um dos Bilhetes Poéticos, através dos quais o referido jornalista se tem dirigido aos seus leitores. Eis a entrevista:


Com uma caligrafia caprichada e uma letra miúda, o poeta Manoel de Barros prepara à mão um novo livro que promete ser sua obra-prima, coroando os quase 93 anos de tranquila trajetória
A vitalidade do poeta Manoel de Barros é invejável. Próximo dos 93 anos (completa em dezembro-[ portanto, já os completou]) e apesar das dificuldades auditivas e de visão, ele escreve mais um livro. O teor ainda é um mistério mas, segundo sua primeira e mais fiel leitora, a mulher Stella, trata-se de sua obra-prima. "Manoel escreve à mão, como de hábito, com uma caligrafia muito particular", comenta Pascoal Soto, diretor editorial do Grupo Leya do Brasil, que contratou a obra do poeta mato-grossense - serão 17 títulos e esse inédito, a partir do próximo ano. "Quando recebo correspondência do Manoel, minha pulsação aumenta: são os originais de uma poesia inigualável."
De fato, como há muito trabalha na edição da obra do poeta, Soto acumulou um verdadeiro tesouro de papéis rabiscados com uma letra miúda e linhas caprichadas. Uma linguagem artesanalmente construída, sem se ater a convenções gramaticais ou sociais, mas sempre em busca da simplicidade. Fazendeiro aposentado, Manoel de Barros tornou-se, com o passar dos anos, um cultor da palavra - leitor dos sermões do padre Vieira, hábito que o ensinou, ainda jovem, a admirar a formação e utilização das palavras, ele se habituou a consultar dicionários etimológicos quando criava seus versos simples mas recheado de encanto e fantasia.
O trabalho, atualmente, é mais moroso, visto o prejuízo físico provocado pela idade. Mas Manoel continua com a mente livre como a de uma criança, como mostra na seguinte entrevista, também concedida via bilhete.


O Manoel de Barros que surge da poesia não é o mesmo daquele pessoa física, em carne e osso. Quem é o verdadeiro Manoel de Barros?
Sim, somos dois. Um é biológico, outro é letral. Ambos somos verdadeiros. Um é de sangue. Outro é de palavras. O de sangue é comum: come, bebe água e até quebra copos. O ser letral gosta de fazer imagens pra confundir as palavras. E gosta de usar palavras pra destroncar as imagens. Tipo assim: eu vi um passarinho pousado no muro da tarde. As palavras servem para me enganar e para enganar os outros. Quem escreve sobre si mesmo procura sua própria glória, disse Cristo. Eu procuro. Não sei me pular.


O sentimento de pertencer a um mundo à parte faz bem ou mal aos escritores?
A mim só faz bem. Mas eu não fico em mundo à parte. Sou muito egoísta e narcisista. Meu mundo sou eu em carne e letras. Sou o que produzo e o que não consigo produzir. Sofro um pouco nessa parte de não poder produzir.


O senhor ainda considera seu primeiro livro, Poemas Concebidos Sem Pecado, o seu melhor? Por quê?
Penso que por ser o meu primogênito informei algum dia que o meu primeiro livro é o meu melhor livro. Acho que foi uma tirada de amor. Gosto do meu primeiro livro por que ele sabe mais da minha infância do que os outros.


A palavra está acima de tudo?
Eu tenho pela palavra a mesma fascinação que a lesma tem pelas pedras. E que os lagartos têm pela solidão das pedras.


As palavras são perigosas?
Pra mim todas são amáveis. Podem me trair, mas isso é do nosso mundo. A gente precisa se vigiar ao escrever. Não podemos, ao escrever, abandonar o canto, a harmonia letral, etc. Não podemos desprezar os gorjeios das palavras.


O senhor escreveu certa vez: "O artista é um erro da natureza." Existem erros perfeitos?
Os gênios são erros perfeitos da natureza. Botei como erro porque os outros somos nós.


O senhor sempre gostou de escrever à mão. A escrita é também aquilo com que se escreve?
Eu sou minha imaginação e meu lápis. Quando o lápis acerta um erro, ele percebe e grita por uma borracha. Visto que eu seja atrasado por não usar computador.

O escritor português António Lobo Antunes disse que sente dificuldade cada vez para escrever, pois ele teme desapontar os leitores que acreditam nele. O mesmo se passa com o senhor?
Acho normal que a gente queira aparecer como é.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A Poesia da Vida









Hoje, mais um poema desse extraordinário poeta da vida que é o brasileiro Manoel de Barros.





Pêssego

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.