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quinta-feira, 22 de abril de 2021

MOEDAS FALSAS ?

 Moedas entrou em campo como sombra sonhadora da Comissão Europeia e da Gulbenkian, esperando assim escapar dos insalubres ecos “pafiosos”que de longe o vigiam.

Mas logo na segunda vez que se fez à bola, procurou ostensivamente, ainda que sem êxito, a canela do odiado adversário.

Assim mostrou que afinal quem funciona como sua verdadeira treinadora é a candidata do PSD na Amadora, uma acutilante loura de verbo selvático.

Os advogados subtis da “cheguização” do PSD, argutos “Observadores”, aplaudiram com entusiasmo. Porém, a moeda desvalorizou-se mais um pouco.

quinta-feira, 25 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra -II

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra 

II - Em COIMBRA, a lista talvez do PSD

uma duplicidade ambígua

                                        - Rui Namorado

1. Esperei alguns dias que o PSD esclarecesse a aparente incongruência que envolveu o anúncio solene do nome  que escolheu para encabeçar a sua lista de candidatos à Câmara Municipal de Coimbra. Não me apercebi de qualquer clarificação subsequente. Dou por isso  como fiel a imagem projetada pelo que se passou.

Rui Rio deslocou-se pessoalmente a Coimbra para anunciar formal e solenemente na presença do próprio que “ José Manuel Silva irá encabeçar a lista do PSD” em Coimbra. Em declarações à comunicação social, feitas imediatamente a seguir e noticiadas em conjunto com o referido anúncio, o candidato escolhido saudou Rui Rio e o PSD por "demonstrarem grande abertura à sociedade civil, apoiando e integrando esta candidatura 'Somos Coimbra'.”.

Uma pulsão imediatista podia levar-nos a dizer: “um deles mentiu”. Se assim fosse, estaríamos perante um verdadeiro absurdo. Um dos dois políticos teria atraído o outro para o enxovalhar irremediavelmente. Não seria decerto o primeiro caso na cena política mundial, mas não é um tipo de ocorrência frequente. E aquele que tivesse desferido o golpe corria sérios riscos de ver o episódio virar-se contra si, depois de ter ferido a outra parte. Aliás, o absurdo seria agravado pelo facto de os dois protagonistas, subsequentemente, se terem comportado como se tudo tivesse decorrido com plena normalidade.

Mas se nenhum deles mentiu e uma vez que disseram coisas entre si contraditórias, o que significou então tudo isso? Numa versão, JMS encabeça a lista do PSD por Coimbra, tendo aliás sido anunciado em conjunto com candidatos do PSD a outras Câmaras Municipais, numa sessão pública ostensivamente partidária. Noutra versão, o PSD apoia e integra a candidatura independente “Somos Coimbra”. Mistério…


Assim, foi natural que me viesse à memória o deus romano Janus, um ser mitológico com duas caras, duas cabeças  viradas em direções opostas. Esse deus não surgiu do nada. Nasceu de uma divindade primitiva que não tinha forma, a que chamavam Caos. Ao ganhar forma tornou-se um ser com duas cabeças, uma olhando para o passado, outra para o futuro. Caos ─ premonição ou acaso? O risco desta reincarnação longínqua é que, neste caso, o caos seja menos a ressonância de uma origem do que uma sombra de futuro.

 


2. Na verdade, as duas cabeças deste Janus moderno não têm vocação para olhar para direções opostas: uma para o passado, outra para o futuro. Ambas carregam de algum modo um passado que lhes entorpece o futuro, ou que pelo menos o complica.

“Somos Coimbra” na pessoa do seu líder olha para o passado ciente da sua alegada posição de exterioridade em face de todos os partidos, do seu apego a mostrar-se bem fora deles, do seu projeto apartidário para Coimbra com que se apresentaram aos eleitores procurando aliciá-los com esse distanciamento em face dos partidos (de todos). Vê como a sua independência foi insuficiente, quer para ganhar a presidência da Câmara em 2017, quer para chegar sequer ao segundo lugar, no qual ficou o PSD. Recorda, certamente com preocupação, a amputação que sofreu em 2020 de um segmento relevante dos seus elementos com maior notoriedade, entre os quais alguns eram figuras públicas de justificado prestígio que , em si próprias,  esbatiam fortemente o risco de o movimento “Somos Coimbra” projetar  uma imagem que o amarrasse inequivocamente à direita.

O PSD de Coimbra, por seu lado, tem certamente uma memória amarga de 2017, quando uma aposta qualitativa forte na lista candidata ao município, que apresentou em aliança com o CDS, não foi suficiente para lhe dar o primeiro lugar. E não poderá deixar de admitir, com razão ou sem ela, que um contributo importante para a sua derrota lhe foi dado pela concorrência de “Somos Coimbra”. Mas a névoa mais penosa será certamente a sua memória próxima da brutal desconsideração política praticada pela direção nacional do PSD contra as suas estruturas distritais e concelhias, quando sem cerimónia recusou a escolha que elas  haviam feito para liderar a candidatura. Uma escolha publicamente encorajada por relevantes apoios na respetiva área política e que aparentemente beneficiava de um sólido apoio dentro do PSD de Coimbra, concelhio e distrital.

Estas sombras amargas, ressonâncias do passado, não são certamente uma fonte verosímil de esperança no futuro. E, pela natureza das coisas, cada uma das duas cabeças de Janus, se não se esquecer da identidade que tem assumido publicamente, tenderá a não se reconhecer por completo no futuro desse deus aleatório.

 

3. Mas esta duplicidade potencialmente angustiante, no plano subjetivo, para quem a sinta como sofrimento, para quem caiba no espírito do misterioso deus romano de duas cabeças, objetivamente, reveste-se neste caso específico de um significado que a dramatiza, aproximando-a da insuportabilidade. Quem se sentir tentado a votar nessa opção incerta, por qual das cabeças se deverá sentir motivado? Será essa duplicidade ambígua um dano colateral de uma via labiríntica, inscrita no seu código genético, como uma fatalidade não procurada? Ou será uma subtil esperteza, distante da boa-fé, assente na ambição de se captarem, quer os decididos apoiantes do PSD e do CDS, quer os seduzidos pelo independentismo político-partidário do grupo de JMS? Uns, vendo apenas uma das cabeças; outros, apenas a outra.

Este Janus moderno, no entanto, não é um mito que esvoace pela imaginação como fruto de uma liberdade criativa, que se justifique a si própria. É um artefacto político que consubstancia uma lista candidata a umas eleições. Um projeto em concorrência com outros, uma identidade competindo com outras, uma posição política em confronto com outras. Na verdade, nenhuma lista tem legitimidade ética para se apresentar com duas caras. A cada eleitor tem que ser oferecido um rosto para que o compare com os dos outros concorrentes. Não dois; já que o modo como se comportar se for eleito, corresponderá a um rosto, não a dois.

 

4. Entretanto, esta duplicidade estranha, nada parecendo ter a ver com uma proposta de horizonte, apostada em contribuir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos que vivem no nosso município, tudo parece ter a ver com a humana ambição de Rui Rio vir a liderar em Lisboa o governo do país. Esse ousado e ambicioso desígnio é certamente legítimo, ainda que atualmente pareça mais circunscrito à esfera do sonho do que ungido pela aura de uma probabilidade forte.

Mas não é possível aceitar-se como legítimo que RR reduza Coimbra a um pacote de conveniências suas para o ostentar como um simples troféu de uma caçada eleitoral. Um troféu que possa exibir ao lado de alguns outros, no decurso do que sonha poder vir  a ser a glória efémera de uma noite de uma pugna eleitoral em que a sorte lhe sorria.  O nosso município não pode ser reduzido ao humilde destino de troféu que sirva para ajudar a salvar uma liderança político-partidária cercada por si própria, assombrada pela instabilidade interna do PSD e condicionada pelo bloqueio estratégico que a direita portuguesa no seu todo parece atualmente sofrer. Coimbra não pode passar pela humilhação de ser um tapete que o ex-Presidente da Câmara do Porto precisa de pisar, para poder em Lisboa entrar em S. Bento. Esta pesporrência simbólica tem que ter a resposta que merece.

 

5. Estamos pois perante uma ambiguidade política estrutural que só pode ser desfeita pela retratação clara de uma das partes. Ou o PSD vem publicamente reconhecer que JMS afinal não vai encabeçar uma lista do PSD mas sim uma candidatura do movimento “Somos Coimbra”; ou este movimento vem reconhecer que afinal  não apresenta uma candidatura própria uma vez que se vai incorporar na do PSD.

Politicamente, é esta a incontornável dicotomia que está em cima da mesa. Malabarismos jurídicos ou retóricas habilidosas que tentem fugir à questão e iludir a lei e a verdade, procurando manter a ambiguidade atual, serão apenas sinais de um aprofundamento da hipocrisia política atualmente em marcha.

                        (Coimbra, 25 de março de 2021)

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As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas [ 05/03/21]

II - Em COIMBRA, a lista talvez do PSD

 uma duplicidade ambígua [25/03/21]

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sexta-feira, 5 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas

 

1. Este é o primeiro de uma pequena série de textos através dos quais tenciono abordar a problemática autárquica no quadro das eleições de outubro próximo. O meu ponto de vista não é imparcial, uma vez que militando no PS apoio politicamente em termos gerais a atual gestão autárquica no município de Coimbra. Mas, pretendendo hoje fazer uma crítica das críticas, procurarei encará-las com objetividade, no quadro de um debate democrático frontal mas sem crispação. Não vou discuti-las em si próprias, apreciando o seu conteúdo. Vou tentar comentar a tipologia de algumas delas em termos genéricos, sem a pretensão de exaustividade.

Muitas vezes, as críticas foram metodológicas ou de estilo, suscitadas por episódios políticos ou por casos isolados, tentando-se através delas desgastar o prestígio da atual gestão municipal. Este tipo de críticas envolve um risco grande de descambar em ataques pessoais que suscitam uma crispação intensa entre os protagonistas e tornam mais difícil um diálogo profícuo, encorajando um clima de suspeições mútuas e de ressentimento.

Em si, não envolvem a promessa de qualquer programa alternativo ou de iniciativas novas. São ataques que procuram menorizar os visados, mas não nos dizem nada quanto ao que há a esperar de uma gestão autárquica dos críticos. Podem dar sinais quanto à sua ferocidade, mas não quanto ao seu programa e à sua competência. Podem mostrar uma demarcação genérica intensa, mas não revelam o que fariam de diferente se estivessem na mesma posição.

 

2. Outro tipo de críticas centra-se em insuficiências estruturais do concelho e na subsistência de lesões no tecido social inerente às desigualdades sociais. Há duas verificações prévias a fazer. A primeira, para apurar se essas lesões são insuficiências específicas do nosso município ou ressonância inevitável do tipo de sociedade em que vivemos, inigualitária e desumana, dominada por uma lógica de proeminência do capital em face das pessoas. No primeiro caso, estamos sob a alçada da política autárquica; no segundo não. No primeiro caso, é legítimo, positivo e necessário discutir caminhos para a sua superação no quadro da dinâmica autárquica; no segundo transcende-se o plano autárquico, o que induz a necessidade de se agir no quadro de instâncias nacionais ou europeias.

Quanto às insuficiências estruturais, há que apurar se cabem no poder auto regenerador da autarquia ou  se implicam deliberações da competência de entidades nacionais ou europeias. No primeiro caso, estamos perante um problema político autárquico, no outro não.

Imputar responsabilidades e discutir políticas que caibam na área das atribuições e competências legais das autarquias é um exercício natural da democracia. Criticar o poder autárquico por desvios e omissões inerentes a espaços políticos onde a competência é de outras entidades não faz sentido, podendo confundir-se com pura demagogia. Desenhar programas políticos para um município envolvendo medidas cuja competência cabe a outras entidades (nomeadamente, nacionais) é propaganda mistificatória e desonesta.

A distinção entre aquilo que cabe nas atribuições do município e aquilo que as transcende é tanto mais importante quanto estamos numa fase em que está em mutação profunda o leque de competências atribuídas aos municípios, o que é especialmente relevante em espaços municipais relativamente amplos e complexos como é o caso de Coimbra.

 

3. Uma das atitudes críticas mais frequentes radica-se na comparação de Coimbra com outras cidades, especialmente cidades de outros países, no plano das políticas autárquicas. Fazem-se por vezes comparações gerais, outras vezes propõe-se a aplicação aqui de políticas praticadas noutros lados. Se a comparação for além de uma mera alegação genérica, reprodutora de um simples impressionismo fruto de um senso comum turístico, estamos perante um exercício útil potencialmente fecundo.

São recomendáveis algumas precauções contextualizadoras. Em primeiro lugar, há que comparar o nível de desenvolvimento do nosso país com o dos países das cidades que se comparam com Coimbra. Depois, a qualidade do tecido económico-social das regiões circundantes. Por fim, o peso demográfico de cada um dos termos da comparação.

Tudo isso tem que ser ponderado para a plena fecundidade das comparações. Todas as cidades envolvidas têm uma história, percorreram uma trajetória geradora de uma identidade, o que impõe uma abordagem diacrónica. Não parece útil por isso procurarmos inserir na trajetória de Coimbra como prótese circunstancial uma ideia, uma medida, um projeto que tenham sido extraídos do seu lugar de origem, sem uma contextualização que aí os situe. Pelo contrário, o que se impõe é aproveitar as comparações como energia nova no percurso de Coimbra, intensificando-lhe o ritmo, ajustando-lhe a trajetória, melhorando o modo como caminhamos.

É desta cidade concreta, numa fase precisa da sua vida, da sua trajetória, que estamos a falar. Não se trata de trazer do nada uma cidade ideal, de implantar um sonho de cidade, por mais belo que ele seja, trata-se de interferir num devir específico, inscrevendo-nos numa trajetória de cidade que tem séculos. Não faz sentido esculpir com a nossa imaginação uma cidade nova virtual que esqueça a cidade que existe, que não esteja enraizada numa ambição irrestrita pela qualidade de vida dos munícipes concretos  que lhe dão vida. Os sonhos de imaginação do futuro são preciosos para darem viço à Coimbra que existe, rasgando novos horizontes no seu caminho, ajudando a suprir as suas incompletudes e a superar as suas mazelas. Mas dificilmente se pode conseguir isso, se não se tiver presente o que já se atingiu, os contornos do prestígio nacional e internacional já conseguido. Só será possível  atenuarmos os nossos defeitos e romper as nossas limitações, se transmitirmos energia às nossas qualidades, enriquecendo as nossas virtudes. Para isso não as podemos ignorar e muito menos enxovalhá-las, submergindo-as no paroxismo insalubre da propaganda política presa ao imediatismo estéril da sofreguidão de poder.

 

4. Todas as autarquias são realidades sociopolíticas dinâmicas inseridas num contexto nacional em permanente evolução num espaço europeu que ajuda a projetá-lo no mundo. Mas algumas delas em certos períodos atravessam fases onde convergem várias dinâmicas.

 Parece-me ser esse o caso de Coimbra. Para além da sua própria trajetória como município que envolve uma cidade histórica com energia futurante, incorpora uma universidade centenária com forte índice de internacionalização, apreciável relevância nos países da lusofonia animada pela ambição de inovar. Além disso, cabe-lhe objetivamente um papel irrenunciável numa dinâmica nacional de resistência a uma deriva de bipolaridade no desenvolvimento nacional que pode convertê-lo num destino aleijado em que duas grandes áreas metropolitanas desertificam indiretamente o resto do país e se autocongestionam insalubremente numa urbanização de pesadelo. Não deixa também de dispor de um especial protagonismo no campo da saúde o que na presente conjuntura terá necessariamente um apreciável relevo no caminho a percorrer.

Naturalmente que a relação sinérgica com a Universidade de Coimbra deve ser conjugada com a adequada valorização de outras instituições de ensino superior aqui radicadas, estimulando a instituição de um espaço diversificado de afirmação científica e tecnológica que possa cumprir uma tarefa decisiva na qualificação dos portugueses.

São estes alguns dos trilhos a percorrer por Coimbra para enriquecer como um todo a sua história projetando-a no futuro, para ser cada vez mais fiel ao melhor de si própria ao progredir numa cada vez mais intensa respiração do futuro e do mundo. E assim afirma uma irredutível identidade própria como um recurso de Portugal. Estes caminhos podem questionar-se na procura de alternativas mais fecundas, mas não podem anular-se substituindo-se por nada. Esses trilhos que não devem ser encarados como caminhos fechados num perfil antecipado ao detalhe, mas como grandes linhas de orientação; nítidas, mas a necessitarem de uma criatividade continuada que as vá materializando.

O debate em torno das grandes linhas de orientação e do modo como são materializadas é dos mais úteis e assumi-lo como tal qualifica muito a fisiologia democrática da autarquia, permitindo que as alternativas à atual gestão autárquica se identifiquem realmente, revelando a profundidade ou  vacuidade dos horizontes que proponham e mostrando as suas diferenças.

 

5. Parecem-me apropriadas duas observações finais. Como atrás se sublinhou, o município de Coimbra, como qualquer outro, move-se num espaço bem delimitado de atribuições e competências legalmente definidas que não pode transcender. Mas para além disso, o seu exercício tem também limites orçamentais aprovados por órgãos com essa competência que não podem ser excedidos.

Desse modo, quaisquer projetos, quaisquer planos têm que caber não só nas competências legais da autarquia mas também no seu orçamento. E o orçamento depende das receitas objetivamente previsíveis e não do arbítrio de quem quer que seja. Por isso, quaisquer projetos ou propostas que ignorem esses limites são simples expressões de uma demagogia gratuita. Assim, as críticas que assentem numa alegação de omissões para serem sérias têm que demonstrar a possibilidade delas serem colmatadas sem romper os limites orçamentais.

Uma outra observação tem a ver com o funcionamento da máquina administrativa autárquica que em Coimbra atinge uma dimensão e uma complexidade apreciáveis, as quais foram potenciadas pela expansão das competências que tem que exercer. É certo que essa máquina tem uma existência própria independente da direção política escolhida para a autarquia nas respetivas eleições. Mas é indispensável que essa direção política coordene e oriente politicamente toda a máquina administrativa materializando a escolha dos eleitores. Essa tarefa é um aspeto decisivo da gestão autárquica e assegurá-lo com proficiência é determinante para o bom funcionamento do município e assim para a qualidade de vida dos munícipes,

Por isso, a credibilidade das críticas a qualquer administração autárquica depende também da capacidade dos críticos darem sinais inequívocos de que serão capazes de responder a essa importantíssima vertente do quotidiano autárquico. Não lhes basta ostentar sonhos e horizontes de ambição, têm que mostrar credenciais que induzam confiança na sua capacidade de gerir competentemente no quotidiano o muito que já existe.

Tudo o que acabei de escrever projeta uma imagem clara dos pressupostos de um ambiente político menos insalubre consubstanciado num debate, certamente sem complacências, mas também sem crispações que degradem a convivialidade democrática e um diálogo político que induza sinergias e facilite alguns espaços de convergência. Dado o histórico dos últimos anos não será fácil, mas não é impossível.

 

 

 

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A noite dos prodígios ou a surpresa da recontagem



A noite dos prodígios ou a surpresa da recontagem

A contagem dos votos desenrolava-se com fluidez. No estado-maior dos “ roxos” o perfume do êxito insinuava-se como luz nascente. Respirava-se júbilo. Parecia certo que um dos seus “generais” ia entrar para o governo da cidade pela porta grande dos votos.
Mas à medida que os votos iam sendo contados a melodia de esperança  e regozijo começou a murchar. A noite foi ganhando um tom sépia. O tom  que prenuncia os outonos. Até que foram contados os votos da  última urna ; e a noite estendeu-se  como um manto fúnebre sobre uma alegria que não chegou a nascer.
A serenidade saiu assutada do estado-maior dos “roxos”. Explodia por todos os lados uma raiva surda contra as outras cores. Especialmente contra os de “cor rosa” que haviam conquistado aos “ roxos” o lugar sonhado.

Mas, para grandes males, grandes remédios: exige-se a recontagem dos votos. Exigiu-se e os “roxos” venceram a árdua batalha: os votos foram recontados à sombra de um juiz.  Durante dias, a alegria perdida projetou uma ligeira esperança de voltar.
O juízo final chegou, enfim. E ó desgraça das desgraças! os  de “cor rosa” mantiveram o lugar que já tinham e os “roxos” continuaram sem ele. O perfume da alegria perdida que ainda restava esvaiu-se sem remissão.

E a sombra tornou-se um pouco mais sombria, quando na recontagem para uma assembleia coadjuvante se verificou que, aí sim, os de “cor rosa” perderam um lugar. Perderam-no para os “vermelhos”; não para os “roxos”. Consta que os “ vermelhos”  fizeram uma festa. Uma festa tanto mais suculenta quanto a ficaram a dever à fúria vencida dos “roxos”. Os de “cor rosa” perderam um lugar na assembleia, mas conservaram os que tinham-no governo. Nem caso para deitarem foguetes, nem para porem luto.


Moralidade: As paróquias das pequenas raivas são espaços asfixiantes. E quando se respira mal raramente se decide bem.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Delírios Eleitorais em Coimbra



Delírios Eleitorais em Coimbra

1. Passos Coelho veio a Coimbra dar o abraço do afogado a Jaime Ramos. Este, ciente do drama, ainda lembrou desesperadamente que também tinham vindo dar-lhe apoio Rui Rio e Marques Mendes. Tarde demais, Passos Coelho já deixara  em Coimbra bem claro que o alegado “Mais Coimbra” não é mais do que a marca concelhia dos partidos da troika.
Para compensar Jaime Ramos proclamou a sua inabalável certeza que ia ganhar as eleições, trovejando confiança. Entretanto, a câmara mostrou a sala. E foram desfilando rostos fechados, algo melancólicos, frios. O estado de negação eufórica da realidade, em que caíra o seu líder, não os contagiara. A atmosfera desmentia a exaltação do orador. Parecia apenas cumprir-se calendário. No fundo, o que verdadeiramente se queria era ver passado o próximo dia um.

2. O alegado independente José  Silva, expoente dessa direita dissimulada que não é nem de direita nem de esquerda, veio a público contestar a realidade coimbrã, errada por desmentir a imagem alucinada de Coimbra, segregada pelas direitas nesta campanha. Todos os números que reflitam algo de positivo quanto a Coimbra são por isso falsos por definição. Ele é que tem os números verdadeiros.
Mas, sentindo esse choro numérico do líder do “Somos Coimbra” como insuficiente para ocultar por completo a realidade do nosso concelho,  não se resistiu a mergulhar ainda fundo nas águas do delírio.
E com uma equidade salomónica  garantiu: tudo o que há de razoável ou bom em Coimbra nada tem a ver com a maioria relativa do PS na Câmara  liderada por Manuel Machado; mas seja o que for que haja de mau ou de medíocre em Coimbra é da responsabilidade exclusiva da gestão municipal socialista da Câmara Municipal de Coimbra liderada por Manuel Machado.
Claro que a  percuciente fúria de José  Silva não se deixou tolher pelo pormenor de só se poder  estar a referir a uma gestão de quatro anos e de que  metade desse tempo  decorreu perante a obstrução de um governo central de direita. 
Detalhes perante o dogma central desta direita subtil: tudo o que aconteceu de mau em Coimbra tem como causa o PS e Manuel Machado, tudo aquilo de bom que não possa ser escondido nada tem que ver com o PS e Manuel Machado.
A objetividade, o rigor, a honestidade intelectual que ressumam deste dogma impressionam.


3. Lembrando-me de como por vezes o delírio se aproxima da metafísica, recordei Fernando Pessoa na sua veste de Álvaro de Campos, quando escreveu: “ a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal


Em Coimbra, valorizar Portugal valorizando-se Coimbra.

Fazer com que o PS ganhe as eleições em Coimbra para não serem dadas á direita armas de combate á atual solução governativa, ao atual Governo.

sábado, 23 de setembro de 2017

A Economia Social e o Desenvolvimento Local


“A Economia Social e o Desenvolvimento Local para Valorizar Coimbra”
25 de setembro – 21h30
As próximas eleições autárquicas são uma oportunidade para reforçarmos o compromisso do partido Socialista com o desenvolvimento local, como caminho para uma melhor qualidade de vida para todos os cidadãos.

Para isso, é indispensável que as entidades da economia social sejam elas cooperativas, associações, IPSS ou entidades comunitárias, assumam um vigor renovado. As autarquias locais são as instâncias decisivas para o robustecimento dessas entidades, como protagonistas do desenvolvimento local, podendo encontrar nelas auxiliares preciosos para a prossecução dos seus objetivos.

Vamos conversar entre nós, para chegarmos a uma ideia clara quanto às virtualidades e às necessidades das diversas entidades da economia social, no nosso concelho e em cada uma das suas freguesias. Se estas entidades e as autarquias cooperarem entre si, o tecido social ficará mais sólido e a vida das comunidades locais poderá ser menos árdua.

É nesta perspetiva que iremos levar a efeito, no próximo dia 25 de Setembro (segunda-feira), pelas 21h30m, na Sala da União de Freguesias de São Martinho do Bispo, a Conferência Debate, com o tema “Economia Social e Desenvolvimento Local”.

Serão oradores Rui Namorado (Professor e Especialista em Economia Social) e Jorge Alves (Vereador de Ação Social).

Estará presente o nosso candidato a Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado.

NÂO FALTES.
Para valorizar a Economia Social.

Para valorizar Coimbra.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal



Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal

1. Para se identificar um projeto, no quadro de uma disputa política, é natural que se opte por uma frase sugestiva que mostre o que nele se quer destacar. A escolha não é fácil, tendo muito a ver com a arte de induzir adesão e com as técnicas de comunicar. Num primeiro plano, está em jogo o que é ostensivo. Mas é por debaixo dessa superfície que se joga muitas vezes o essencial do seu impacto, o seu significado estratégico, o seu potencial estruturador e as suas virtualidades de irradiação. E é também nesse plano mais profundo que o slogan escolhido revela muito do verdadeiro sentido do projeto em causa.

2. Neste campo, a escolha da lista liderada por Manuel Machado, que se candidata pelo Partido Socialista ao Município de Coimbra, é particularmente relevante, tendo um elevado potencial de irradiação positiva . Desde logo, Valorizar Coimbra é um desígnio já assumido na eleição anterior. Mostra um caminho desde então percorrido no decurso do quadriénio que agora chega ao fim. É um desígnio que assenta na ideia de que Coimbra é uma realidade que nos precede e se vai perpetuar muito para além de nós.
 Não cabe neste caminho uma auto-imagem providencialista, de quem afixe a ambição de salvar Coimbra de uma imaginária decadência e tenha a pesporrência de se julgar habilitado a tão hercúlea tarefa. Mas ele implica a noção clara de que a vida em sociedade nesta cidade é um caminho que nos pode levar a patamares de qualidade de vida e de prestígio sempre mais ambiciosos.
Valorizar Coimbra é um desígnio compatível com uma visão humanista da cidade, que transcende a trivial numerologia dos crescimentistas sem horizontes. Centra-se realmente nos cidadãos que vivem no concelho, nos seus problemas e nas suas aspirações. Projeta-se no país e procura abrir-se ao mundo numa interação que procura dar e receber, para desse modo participar na contemporaneidade e fazer com que ela dignifique e qualifique os cidadãos que aqui vivem. Não cabe neste desígnio a ambição vadia por pequenos inchaços crescimentistas que o tempo destruiria deixando os seus destroços como feridas na memória.
Valorizar Coimbra é um desígnio aberto com vocação para permitir o protagonismo diferenciado de cada freguesia na partilha da tarefa comum.
E no seu código genético tem inscrita a ideia de que Valorizar Coimbra é o contributo dos cidadãos de Coimbra para a valorização do país.
Este é, aliás, um aspeto essencial da estratégia própria do desígnio em causa. O desenvolvimento de Coimbra é, não só um aspeto muito relevante dos interesses de quem vive no concelho, mas é também um aspeto relevante do interesse nacional.



3.Há muitas décadas que o país se tem vindo a desequilibrar, através de um congestionamento da orla marítima e de uma desertificação do interior. Os efeitos negativos desse congestionamento e dessa desertificação são agravados pelo facto de isso se conjugar com dois abcessos metropolitanos. Um maior, em torno de Lisboa; outro, em redor do Porto. Se a aspiração de Coimbra fosse a de se tornar num terceiro abcesso com a ambição de concorrer com os já instituídos, estar-se-ia apenas a assumir como um foco bairrista de agravamento dos desequilíbrios nacionais. Seria pois uma aspiração desqualificante à luz do verdadeiro interesse nacional, para além de ser uma via objetivamente impraticável, tendo em conta o mapa demográfico e socioeconómico do país.
O absurdo da estratégia do inchaço metropolitano de Coimbra está bem refletido no relatório Portugal no Centro (difundido no fim de 2016) da responsabilidade da Fundação Gulbenkian. Fica assim mais aberto o caminho para uma reversão do processo de desequilíbrio acima mencionado. O Centro de Portugal é, na verdade, o território decisivo onde se joga a continuação do desequilíbrio existente ou a sua reversão, a qual é, por sua vez, um fator nuclear do desenvolvimento efetivo e humano do país.
Sem pretender aprofundar aqui o tema, há que lembrar que nesta região existe um conjunto de cidades médias (à escala nacional) que polarizam outros aglomerados populacionais e socioeconómicos. É um conjunto que já agora se destaca em termos relativos no plano nacional. De facto, o contributo da Região Centro para o desenvolvimento nacional é significativo. Um estudo realizado pela Comissão Europeia, divulgado em junho de 2017, que analisou o Índice de Competitividade Regional da União Europeia, mostrou que a região Centro é a segunda mais competitiva do país, apenas superada pela Área Metropolitana de Lisboa. No panorama europeu, a região Centro ocupa o 191.º lugar, enquanto que Lisboa fica no 139.º
É um território diversificado, relativamente vasto, que está entre as duas regiões metropolitanas e vai desde o mar até Espanha. Incorpora uma rede de centros urbanos, na qual, como se pode ver no relatório,  Portugal no Centro, Coimbra ocupa uma posição importante, com virtualidades estratégicas que a podem potenciar. O seu contributo para a dinâmica do conjunto é decisivo. Fica assim claro que o desenvolvimento de Coimbra se robustece na medida em que se afirme como fator determinante do desenvolvimento da Região Centro e que não é sequer pensável que este possa ocorrer sem um envolvimento forte de Coimbra.
E, insista-se, sem um desenvolvimento da Região Centro suficientemente forte para induzir um reequilíbrio do país, Portugal está condenado a transformar-se num território despovoado que separa Espanha de uma faixa costeira congestionada, onde os portugueses se aglomeram, principalmente concentrados em dois abcessos metropolitanos.

4. Fica claro que Valorizar Coimbra é um aspeto determinante da valorização da Região Centro e que a valorização desta Região é um dispositivo estratégico sem o qual o horizonte de um desenvolvimento equilibrado e humanista do nosso país se fecha drasticamente.
Não depende dos responsáveis autárquicos de Coimbra que todos estes percursos se façam. Mas o caminho que se percorreu nos últimos quatro anos e o que será percorrido, se os eleitores de Coimbra quiserem confiar ao PS o desígnio de Valorizar Coimbra, harmonizam-se naturalmente com o que deve ser percorrido nos planos regional e nacional.
Esta comunicabilidade, entre o plano municipal e os outros dois, tende a impregnar cada vez mais o modo como se for valorizando Coimbra no plano autárquico. Mas tende também a converter a valorização de Coimbra num desígnio regional e nacional, uma vez que ela é um fator determinante da valorização de Portugal.

5. A esta luz, compreende-se bem como é importante que a Câmara de Coimbra coopere leal e intimamente com o Governo. Principalmente, quando uma e outro tiverem inscrito nos seus programas um mesmo horizonte, como acontece agora. Um horizonte, bem distanciado do neoliberalismo troikista, que incorpore a ideia de que o protagonismo municipal é um precioso recurso da democracia e do desenvolvimento, rumo a mais justiça e mais liberdade.
Em Coimbra, nestas eleições autárquicas, o modo de a direita se bater contra a atual solução governativa nacional liderada pelo PS é atacar a lista do PS liderada por Manuel Machado, tentando impedi-la de ganhar. Fá-lo a várias vozes. O seu improvável êxito seria a vitória de Passos Coelho, da Assunção Cristas, da troika, que assim ficariam mais acirrados na sua determinação de nos fazerem voltar ao pesadelo austeritário. Mas seria também amputar Coimbra da possibilidade de prosseguir um caminho que a robustecerá e contribuirá para uma Região Centro mais desenvolvida e para um país melhor. Seria, portanto, um prejuízo para Coimbra, para a Região Centro e para Portugal.

sábado, 16 de setembro de 2017

O PESSIMBRISMO - doença infantil do eleitoralismo



O pessimbrismo - doença infantil do eleitoralismo

Nas instâncias de terapêutica psicossocial sopra uma brisa de preocupação. Em Coimbra, na pré-campanha para as eleições autárquicas fez uma insidiosa aparição uma nova maleita: o pessimbrismo.

Alguns conimbricenses, envolvidos numa sofreguidão de hostilidade à  atual maioria  do PS na vereação municipal, deixaram-se envolver num denso véu de crispação. Deixaram-se possuir por uma raiva profunda tingida de ansiedade, que lhes chegou aos ossos, acabando por lhes sorver a alma e turvar o entendimento.

Foi assim que passaram a olhar para Coimbra sem a verem. Realmente, por mais que olhassem, apenas se viam a si próprios. Já não conseguiam ver os seus pontos luminosos e os seus  pontos obscuros, a luz das suas virtudes e a obscuridade dos seus defeitos. Já não conseguiam distinguir no passado o que iluminava o futuro e o que lembrava o sacrifício e o sofrimento de tantos. Tudo lhes projetava no espírito um cinzento murcho, uma paisagem carcomida e sem esperança, que diziam nascida do nada nos últimos quatro anos. 

Essa nuvem insalubre que os envolveu tolhe-lhes o entendimento. Não tendo uma visão objetiva do que em Coimbra está mal e incompleto, do que está bem e pode ser melhorado, bem como do ritmo que o progresso pode ter, podem na melhor das hipótese dizer coisas, mas ficam longe de saber como as podem realizar. E ao intuírem isso, o seu pessimbrismo agrava-se. Tudo parece afligi-los.

Olham para a estátua de Joaquim António de Aguiar na Portagem e dizem: “Que tem isto a ver com a estátua da liberdade?”.
Contemplam o dorso de prata do Mondego e pensam:” Velho basófias, não te comparas ao Sena, nem ao Tamisa e muito menos ao Tejo”.
Deixam incrustar-se-lhes no olhar a velha torre da Universidade e comparam: “Não chega aos calcanhares da Torre Eiffel”?
Leem no jornal uma notícia auspiciosa sobre a Universidade de Coimbra e clamam: “Fraquinha, fraquinha, quando poderá chegar ao nível de Oxford ou de Harvard”?
Passam pelo Museu Machado de Castro e resmungam : “ Ou isto ou o Museu do Louvre”.
Implacáveis perguntam : “Como podemos levar a sério uma cidade que tem menos habitantes do que um bairro de São Paulo”?

Uma angústia profunda se apossa assim dos seus agitados espíritos pelo facto de Coimbra não ser em simultâneo Nova Iorque, Paris, Londres, Oxford, Lisboa, São Paulo e muitas outras cidades. Ser um quase nada perante essa imensa metrópole imaginária.
Todavia, se o pessimbrismo os não tivesse diminuído, teriam podido lembrar-se que, do outro lado dessa mesma angústia, pode estar  uma verdade simples e trivial: por mais que todas essas cidades se juntem ou se conjuguem não conseguirão ser Coimbra. Esse pequeno extrato de senso comum não é mais do que isso, mas a falta dele é um dos aspetos de pessimbrismo.
Não é por isso estranho que tantos estudantes de outros países decidam vir estudar para Coimbra, que tantos turistas se deem ao cuidado de nos visitar. Por ser diferente de outras cidades e não por copiá-las, com maior ou menor fidelidade. Por querer estar em pleno no mundo com autenticidade, nunca por se deixar diluir nele como coisa urbana incaraterística e a-histórica.

Mas os pessimbristas têm uma dificuldade acrescida. Ao acentuarem até ao paroxismo uma imaginação negativa de Coimbra, tornam mais ostensiva a sua incapacidade para sequer imaginarem como sair dessa ficção negativa, tornando ainda mais difícil dar o mínimo de verosimilhança às suas capacidades para tirarem Coimbra do buraco onde imaginam que caiu. Quanto mais tingem de negro o seu diagnóstico, mais põem a nu a sua objetiva incapacidade para reverterem os males que dizem existir .
 A ficção que segregam para apoucar a gestão camarária atual acaba por apoucar ainda mais as suas virtualidades como candidatos. O seu diagnóstico como uma nebulosa fantasiosa e deprimente vale por si próprio. Os riscos inerentes à sua chegada ao poder tornam-se clamorosos.

No entanto, com o passar dos dias, nas instâncias de terapêutica psicossocial  começa a ganhar corpo uma convicção: o caminho mais adequado para se curarem consistentemente os que sofrem de pessimbrismo é uma cura prolongada de oposição

domingo, 10 de setembro de 2017

Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais



Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais

1.As eleições autárquicas são competições políticas, cuja principal incidência são os municípios e as freguesias, mas que não deixam de ter reflexos importantes na política nacional. Reflexos especialmente marcantes a partir do que ocorra quanto às Câmaras Municipais. Não fazendo, naturalmente, qualquer sentido o menosprezo pela dimensão local dessas pugnas, seria pura miopia política ignorar a repercussão na política nacional dos seus  resultados. Aliás, um simples exercício de memória nos fará lembrar casos concretos em que esses resultados suscitaram quedas de governos centrais, para além de terem tido repercussões menos ostensivas em muitas outras ocasiões.

Quanto a este tipo de eleições, não está instituído um critério, objetivo e consensual, para distinguir uma vitória de uma derrota. E é certo que considerar um resultado bom ou mau depende em larga medida da comparação com resultados anteriores de cada força política em cada local. Pode valorizar-se o total do número de votos obtidos, o total de Presidências de Câmara ou de Juntas de Freguesia conquistadas, os resultados das principais cidades ou das capitais de distrito ou dos municípios mais populosos. A experiência mostra que neste caso tem especial significado a imagem política global projetada pelos resultados das eleições, não sendo predetermináveis os tipos de combinações de resultados que lhe darão origem. Mas há municípios quanto aos quais é inequívoco que os resultados neles ocorridos contribuem especialmente para projetarem uma imagem de derrota, de empate ou de vitória.

Coimbra, sem margem para dúvidas, é um desses casos. E, na atual conjuntura, o principal efeito político nacional destas eleições será o reforço ou o enfraquecimento do Partido Socialista; e, indiretamente, o reforço ou o enfraquecimento do atual governo e, consequentemente, do acordo político que lhe dá suporte. Simetricamente, ocorrerá um reforço ou um enfraquecimento dos partidos da troika (PSD e CDS).

Compreende-se, por isso, que este pano de fundo tenha que estar bem presente, quando se participa em Coimbra na luta política autárquica, nomeadamente, aqueles que hesitem quanto à opção a tomar.


2. À luz o que se acaba de dizer, vale a pena refletir sobre a repercussão nacional da campanha autárquica que está a decorrer em Coimbra. Entre as alternativas a Manuel Machado, atual Presidente da Câmara que lidera a candidatura do Partido Socialista, três delas têm um especial significado político. Refiro-me às duas candidaturas de direita, “Mais Coimbra” e “Somos Coimbra” e à candidatura dos “Cidadãos por Coimbra”.

Todas elas desempenham, objetivamente, o papel de dispositivos de combate político ao governo do PS liderado por António Costa. Na verdade, como já se disse, os resultados que se verificarem em Coimbra não deixarão de pesar na relação de forças nacional. A vitória do PS reforçará o atual governo, melhorando as condições e as virtualidades da sua ação; um mau resultado para o PS não deixará de fazer aumentar os obstáculos à ação do governo.


3. Por isso, os partidos da troika, representados em Coimbra pela coligação “Mais Coimbra”, embora tornando tão pouco ostensiva quanto possível a sua pertença ao séquito de Passos Coelho e de Cristas, são um dispositivo muito importante na estratégia nacional de combate do PSD  e do CDS contra o atual governo. Se eles vencessem em Coimbra, estariam a oferecer um precioso balão de oxigénio ao radicalismo austeritário de Coelho e Cristas, que o bom funcionamento e os resultados positivos da atual solução governativa têm vindo a desacreditar crescentemente.

E isso acontece, quer porque Coimbra é um município com alto valor simbólico, quer porque tem à sua frente o Presidente da Associação Nacional de Municípios. Dir-se-á que, nas atuais circunstâncias, a hipótese de uma vitória da direita em Coimbra é muito remota. É verdade. Mas foi a esperança nisso que levou os partidos da troika a unirem-se e é esse o verdadeiro conteúdo da candidatura “Mais Coimbra”. O resto é meramente instrumental.


4. “ Somos Coimbra” visa o mesmo objetivo, mas opta por outro caminho. Também entende que as eleições autárquicas são uma importante oportunidade para enfraquecer o atual governo do PS e iniciar a reversão do predomínio institucional das esquerdas, mas pensa que se o fizesse em campo aberto e de rosto descoberto, apostando na continuidade das atuais lideranças da direita, teria reduzidas hipóteses de êxito. Por isso, recorreu à liderança de alguém cuja notoriedade não estava predominantemente radicada na política (ainda que consabidamente oriundo da área política do PSD), para montar a ficção e tentar produzir a ilusão de uma candidatura independente "acima" dos partidos.

Adotou uma velha consigna mistificatória (a que a direita sub-reptícia sempre recorre quando se quer disfarçar) ao afirmar-se nem de direita nem de esquerda. Dotou-se de três ou quatro vultos universitário-empresariais, para ostentar uma patine mais aliciante, embrulhou tudo isso num discurso holístico previsível e arredondado, distribuiu alguns anátemas de circunstância, promoveu uma certa ressonância mediática, e sentiu-se suficientemente irresistível para avançar.

Foi, no entanto, prudentemente tomada por uma discreta pulsão cautelar. Receando que o ilusionismo fosse tão completo que iludisse alguns dos próprios eleitores da direita, deixou transparecer publicamente o apoio explícito de uma das principais liderança do PSD de Coimbra nas últimas décadas que, aliás, já ocupou a Presidência da Câmara de Coimbra, durante mais de um mandato no início deste século. É um outro tipo de tentativa de enfraquecer o atual Governo, mas não deixa de o ser.


5. Pelo seu lado, os Cidadãos por Coimbra deixaram-se aprisionar num dramático dilema: ou subordinam a sua intervenção municipal à sua identificação genérica com a solução política nacional vigente e desvitalizam-se; ou privilegiam e radicalizam a sua intervenção municipal e combatem-se a si próprios no plano nacional, ao vulnerabilizarem o governo do PS e a solução política que o viabiliza (com a qual ao que parece concordam).

É um dilema com duas raízes principais. Em primeiro lugar, os CPC surgiram em 2013 como uma subtil “frente de massas” do Bloco de Esquerda, revestida pela aura de uma intenção frustrada de unidade à esquerda, mas principal e objetivamente dirigida a evitar uma vitória do PS em Coimbra. Falhado o objetivo, ao contrário da CDU, assumiram sempre uma oposição agressiva à Presidência do PS. Uma oposição  assente mais em resmungos e detalhes do que numa serena divergência de horizontes e de projeto.

As eleições legislativas de 2015 impulsionaram a criação do Livre/Tempo de Avançar, novo partido que absorveu a quase totalidade dos CPC exteriores ao BE. Na prática, os CPC transformaram-se assim numa coligação não assumida. A solução de governo saída das eleições teve no PS o protagonista liderante. Englobando o BE, correspondia também no essencial ao preconizado pelo Livre/Tempo de Avançar que só não participou nela por não ter elegido qualquer deputado. Mas esta mudança nacional da conjuntura política não suscitou no comportamento dos CPC qualquer mudança de atitude no plano autárquico. A coligação implícita dos CPC que era favorável ao governo do PS no plano nacional continuou a hostilizá-lo em Coimbra no plano autárquico.

Recentemente, houve uma cisão nos CPC. Um grupo de algumas dezenas de membros, onde se incluía a maior parte dos seus eleitos municipais e várias das suas figuras públicas mais conhecidas, abandonou publicamente os CPC. Os dissidentes pertenciam em grande parte ao Livre/Tempo de Avançar. Duas versões da clivagem percorreram a murmuração política e pairaram nas entrelinhas das posições publicadas. Os que saíram acusam os que ficaram de completa subalternidade e dependência em face do BE, cujo alegado controleirismo vituperam. Os que ficaram acusam os que saíram de almejarem integrar uma aliança política mais ampla e fortemente inclinada à direita. Os que ficaram escolheram para os encabeçar um político com experiência autárquica que pouco antes se desfiliara do Partido Comunista. O tom da campanha que têm vindo a fazer parece dar continuidade à acrimónia habitual quanto à candidatura do PS, dando assim corpo ao dilema atrás referido. Politicamente, pode assim dizer-se que em parte se combatem a si próprios; autarquicamente procuram enfraquecer o mais possível aquilo que defendem nacionalmente.

Para dramatizar o dilema, o atual coordenador dos CPC, pública e simultaneamente, demarcou-se energicamente da candidatura do PS, mas afixou a intenção de convidar o candidato por si rejeitado, para que em conjunto com os CPC e a CDU, logo após as eleições, liderasse um bloco de poder. Ou seja, após as eleições, a exceção de Coimbra desaparecia, reproduzindo-se uma solução paralela à nacional. Isto é, os CPC fazem tudo para impedir o PS de eleger o seu candidato como Presidente (o que significa dar inevitavelmente a Presidência à direita), mas, se o não conseguirem, querem aliar-se com ele.


6. Em contraponto, a candidatura do Partido Socialista liderada por Manuel Machado, tem tornado cada vez mais claro que o seu modo de Valorizar Coimbra respeita realmente a sua densidade simbólica e solidariza-se profundamente com a sua vocação futurante que se propõe incentivar. Não o faz contudo, encerrando-se num bairrismo estéril, mas assumindo por completo a ideia de que valorizar Coimbra é um contributo insubstituível para valorizar Portugal. A contribuição de Coimbra não é substituível por outra qualquer, pelo que sendo naturalmente um desígnio municipal é também necessariamente um desígnio nacional.

Assim, a sinergia entre o atual Governo de Portugal e a atual maioria na Câmara Municipal de Coimbra que se começou a instituir desde que a atual solução governativa iniciou funções há menos de dois anos, abre horizontes muito esperançosos para os próximos anos. O atual governo terá em Coimbra um parceiro que lhe permitirá exercer aqui o seu mandato com plena fecundidade, o governo autárquico de Coimbra liderado por Manuel Machado terá no poder central um parceiro que lhe permitirá valorizar Portugal através da valorização de Coimbra.

Há assim dois tipos de repercussão nacional dos resultados autárquicos de Coimbra. Uns procuram instrumentalizá-los para enfraquecer a atual solução governativa na esperança de trazerem de volta as políticas da troika. Outros procuram reforçar sinergias virtuosas entre os poderes democráticos autárquicos e centrais, em benefício de Coimbra e de Portugal.


Há ainda  os que parecem estar a disparar sem ter uma ideia clara quanto ao alvo a atingir. Por isso, quanto a estes últimos, o que de melhor se pode esperar é que não façam muitos estragos.