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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poemas Imperfeitos - 15 e 16


15 . [1965 ]

Se na madrugada branca
de longínquos tédios
um poeta morrer
naufragado de sombra

que terei eu a dizer ?


16. [ 1965 ]

Sobre a alegria clara e lúcida
dos meus vinte e três anos
escrevo as palavras frágeis
deste dia de chuva

Escrevo e respiro
por dentro de cada sílaba

Vou pela rua
e dói-me cada minuto
cansado de humildade
e de tristeza

[ Rui Namorado]

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poemas Imperfeitos - 12 a 14


12. [1966]


Cada vez menos jovens tocam guitarra.

Têm os dedos perdidos numa teia de ódio
ou debruçados nas negras harpas do tédio.



13. [1966]


Sobre a flor ainda húmida
dos teus lábios

uma palavra fica guardada
para te dizer



14. [1968]


Os meus olhos navegam no teu corpo
como pássaros de estio


E o vento sopra ao longo dos meus braços
como um mar sem regresso
[Rui Namorado]

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poemas Impefeitos - 8 a 11



8. [ 1967]


o teu peito é uma gazela vazia
cansada da floresta


9. [ 1966]


este inverno foi triste
como um choupo de mágoas


10. [ 1966]


esta árvore por exemplo
descansa todos os dias nos séculos


olharmos ou não para ela
é um detalhe perdido na sua história


11. [1965]


Na minha terra
há vozes à procura do coração dos rios


São as águias magníficas
dos frutos mais futuros
[ Rui Namorado]

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Poemas Imperfeitos - 6 e 7


6 . [1965]

Os mosaicos de argila esperam
a luz fria dos olhos.


Um finíssimo gume,
azul de raiva,
inventa a amargura.


As arestas acordam
o sopro das palavras.


Prisioneiros do tempo,
provisórios,
neste lugar perdido do universo,
somos vento que sopra
devagar.


Na mais funda caverna das palavras,
prometem-se os poemas.



7. [ 1967] Soldado *

está em áfrica entre a terra e o sol


a mão ainda leve jaz cansada
a perna segue o corpo docemente


amigos longe e a mãe
cultiva amargamente
o seu jardim de angústia


mandaram-no fazer ali a guerra
trouxe-o de longe a arma ali perdida


guardou rios florestas mitos ouro
está morto longe dos rios familiares
longe dos corações que o vão chorar
* Uma versão curta deste poema foi publicada
na "Lírica do Silêncio"(1973).
[Rui Namorado]

domingo, 8 de agosto de 2010

Poemas Imperfeitos - 4 e 5


4. [ 1964 ]

apenas uma membrana
entre os olhos e a loucura


dois átomos de alegria
no silêncio do pântano


e há um pássaro triste
encostado ao inverno


com as asas perdidas
neste tempo fechado


5. [ 1966]


há um grito que rasga
a garganta dos povos


um sabor sem limite
de tristeza e angústia


são raízes que crescem
com palavras de sangue

[ Rui Namorado]

sábado, 7 de agosto de 2010

Poemas Imperfeitos - explicação e começo

Vou hoje iniciar a publicação de alguns dos meus "Poemas Imperfeitos ". Não sei quantos, nem com que periodicidade. Por diversas vezes, já ofereci à leitura generosa de quem visite o Grande Zoo, poemas de que sou o autor.

Esta série, que poderá eventualmente vir a ser publicada em livro, é no entanto um caso particular. Antes do 25 de Abril, para além de ter participado em iniciativas colectivas e de ter publicado poesia em jornais e revistas, vi editados dois livros de poemas da minha autoria: Maio Ausente, Cancioneiro Vértice, 1970; e Lírica do Silêncio,Centelha, 1973. Desse modo, fui publicando os poemas que me pareceram mais conseguidos,mais susceptíveis de se projectarem explicitamente em aspirações colectivas ou de espelharem, com maior expressividade, o modo como ia participando no devir da história.


Alguns anos após o 25 de Abril, viajando por velhos cadernos, apercebi-me da existência de um enorme manancial de versos não publicados, quase sempre por burilar, muitas vezes reflectindo poemas que ficaram nos primeiros passos, eventualmente traduzindo emoções de um matiz mais pessoal. E verifiquei que, independente do seu mérito literário, nalguns casos modesto, mesmo à luz do meu tolerante olhar, eram documentos sugestivos das emoções de um português, então na casa dos vinte anos , ou começo dos trinta, que resistia à ditadura salazarista, em especial no universo das lutas estudantis. No seu todo, são documentos poéticos que reflectem uma atmosfera, em regra menos directos e menos modelados do que os que foram publicados. Sem deixarem de ser poemas , são principalmente documentos que reflectem um testemunho da dolorosa lavra sofrida em Portugal pelos jovens que aqui se não conformavam com o cerco em que os tinham fechado. Por vezes, incluem uma data ou o ano da sua primeira versão, mas pode acontecer que isso não ocorra. Podem ser ligeiramente retocados, mas não modificados. Em regra, serão poemas curtos, quase instantes poéticos, podendo contudo haver algumas excepções.


Vou hoje começar com a difusão de três desses poemas imperfeitos. A escolha de hoje , bem como a que se reflectirá em publicações futuras, não obedecerá a qualquer arrumação temática ou cronológica. Cada poema é independente.


Poemas Imperfeitos - 1. [1966]


As palavras enferrujam,
em sua oculta pousada interior.


Ou foi talvez esta leve morfina
de um calendário sem datas.


Este rio silencioso como um lago sem margens,
dias que parecem não passar.



2.[ 1967]


uma pequena gota de tempo
executa os seus ritos
na manhã cinzenta

melancolia


3. [ 1963 ]


Despe-te, noite!


Fica apenas silenciosa espera do dia,
por cima do nosso sono.


Abandonada pelos sonhos,
completa e frugal, rectilínea,

como a nossa dor de esperar um outro tempo
que não seja de exílio e desespero.