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quarta-feira, 20 de maio de 2020

POÉTICAS PRESIDENCIAIS


Quando nos anos quarenta do século passado, Joaquim Namorado se divertiu escrevendo o poema abaixo transcrito, não podia imaginar que viria a intervir através dele num transcendente debate político que ocorreria no início da década de vinte do século seguinte. E  seguramente que, se pudesse,  algum dos jornalistas  de hoje , percuciente e ladino não deixaria de lhe perguntar: ," E gostaria de ser eleito à primeira volta?"





MANIA DAS GRANDEZAS
                            Joaquim Namorado

Pois bem, confesso:
fui eu quem destruiu as Babilónias
e descobriu a pólvora…
Acredite,
 a estrela Sirius, de primeira grandeza,
(única no mercado)
deixou-ma meu tio-avô em testamento.

No meu bolso esconde-se o segredo
das alquimias
e a metafísica das religiões
─ tudo por inspiração!

Que querem?
Sou poeta
e tenho a mania das grandezas…

Talvez ainda venha a ser Presidente da República…

                                      (  in  Incomodidade, 1945)
__________________






segunda-feira, 17 de setembro de 2018

EM COIMBRA -6ª feira, 21 de setembro


                                                            [ Para ampliar clique sobre a imagem]

terça-feira, 21 de julho de 2015

COM RAZÃO OU SEM ELA


Num número da revista VÉRTICE do já distante mês de fevereiro de 1973, nas páginas verdes do seu inesquecível Jornal, ao percorrer com saudade aquelas páginas e aqueles nomes, deparei com a versão livre de uma “velha história chinesa” escrita por Joaquim Namorado. “A narceja e a ostra” ─ era o seu título. Ei-la:

“Na praia, uma grande ostra entreabre a concha para expor-se aos raios do sol. Uma narceja, que passava, estende o bico, querendo saborear a carne saborosa do molusco, que fecha a concha num repente.
O pássaro tenta inutilmente libertar o bico da prensa que o aperta.
A ostra, por seu lado, não consegue libertar-se do bico que a prende.
Ambas não conseguem mais do que sussurrar a disputa em que se envolvem.
A pernalta diz:
─ Se não chove nem hoje nem amanhã, vai haver uma ostra a menos.
Ao que a ostra replica:
─ Tal como entre as narcejas se não te largar o bico nem hoje nem amanhã.
Sem nenhuma querer ceder continuou a querela, até que passou um pescador as agarrou sem dificuldade e meteu no saco.”

Imagino o sorriso do meu tio Joaquim, se pudesse fruir este momento se suprema ironia, mais de quarenta anos depois. Quanto à narceja e à ostra, asseguram-me que o pescador afirmou ser-lhe indiferente saber qual delas tinha razão.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

No dia 30 também em Coimbra


Também em Coimbra, à semelhança do que ocorre na Figueira da Foz, logo no próximo dia 30 de junho, 2ªfeira, há acontecimentos que evocam Joaquim Namorado no centenário do seu nascimento.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

CEM ANOS - memória breve de um longo século


O tempo é a ironia da saudade. Passa, parecendo que nos escapa por entre os dedos, para logo a seguir deslizar por dentro da nossa memória como uma sucessão de eternidades.Momentos de eternidade, escondidos como preciosos tesouros nos recantos da nossa memória, para de vez em quando nos falarem da novidade do que já passou, da luminosidade tranquila das palavras e das pessoas que foram dando cor às nossas vidas.Vai agora ser tempo de muitos percorrerem com emoção a presença que Joaquim Namorado assinalou nas suas vidas, e de outros ouvirem os ecos dessas narrativas nos testemunhos em sépia que as corporizem.Cem anos desde que chegou à vida no seu Alentejo de sempre, ocupando, como viria a acontecer com  os seus irmãos , o seu lugar entre a gente de Alter. Mas foi há quase trinta anos que nos deixou.


Faço parte de um pequeno grupo de privilegiados para quem Joaquim Namorado, era, antes de tudo o mais e simplesmente, o tio Joaquim.Uma vez, muitas vezes, ao mesmo tempo que ia juntando as primeiras letras, fui ouvindo o meu pai ( o seu irmão António) recitar o pequeno poema que sempre preferiu a todos os outros : " Na terra que o sangue rega e aquece...". Foi ele que permitiu que, antes de conhecer os poetas através das palavras, antes de os poder aprender a cultivar nas minhas emoções e imaginações, antes de olhar a poesia como o mistério subtil das palavras e do sonhos, tivesse podido ter ao vivo diante de mim um poeta. Talvez por isso, cedo tenha aprendido que a poesia vive nas pessoas e das pessoas, embora se transmita como magia  pelo perfume da palavra. Talvez por isso tenha percebido mais tarde toda a serena ironia, toda a laicização do poético que está presente na sua lendária "Aventura nos Mares do Sul" , traduzida simplesmente nesse curto verso de tantas viagens que se não esquece: " Eu não fui lá..." Aventura em que, ironizando sobre a ironia ao torná-la algo de muito sério, participou o grande actor e declamador Carlos Wallenstein, amigo do Joaquim Namorado, vindo de Lisboa a Coimbra para, junto do autor, se certificar do acerto da interpretação dessas terríveis quatro palavras. Reza a história que uma tarde não chegou para levar a bom termo tão complexa empresa. O eminente actor e declamador voltou para Lisboa sem ter conseguido uma interpretação que o poeta aceitasse como boa.















Alguns dos títulos dos seus livros , tendo ficado como marcos do  seu universo poético, reflectiram também algumas das linhas mestras da sua vida. A "Incomodidade" sempre foi o modo como se relacionou com o quotidiano mole dos conformistas. O magistério informal de que sempre revestiu as suas amizades foi muitas vezes  um preocupado "Aviso à Navegação".A  matemática com que ganhou a vida, a actividade política e cívica através da qual cumpria um dever, o envolvimento cultural que era a sua respiração, o convívio com os amigos que o abria para o mundo, nunca o fizeram esquecer "A Poesia Necessária".

Mestre de inquietações, escolheu o Partido Comunista Português como o seu partido, na juventude e para toda a vida. Não foi esse o meu caso, nunca pertenci a esse partido. Mas isso não impediu que muito tivesse aprendido com Joaquim Namorado no campo da política. Nomeadamente, aprendendo a distinguir as sombras que  rodeiam o imediatismo dos comportamentos quotidianos da luz que nos mostra os horizontes rasgados daquilo em que acreditamos. Mas também como é possível e desejável ser-se aberto na troca de ideias, flexível na atenção que se dá ao outro, mas em simultâneo absolutamente firme na vertebração estrutural do nosso pensamento. Dizia ele  repetidamente que a verdadeira aventura intelectual era a ortodoxia, que, digo eu, no fundo assumia não como um dogma, mas como um horizonte. Um horizonte  para atingir o qual eram legítimas e talvez necessárias múltiplas heterodoxias. Não sendo um estalinista prático e muito menos teórico, fazia gala em declarar-se publicamente como tal, num protesto subtil contra  os aparelhos ideológicos do oficialismo soviético que, com a  destalinização, decretaram a diabolização absoluta do que antes haviam santificado para além de todos os limites.

Joaquim Namorado foi também um prático de muitas tertúlias, um mestre na esgrima de argumentos, da ironia e até, no limite e quando fosse caso disso,  do sarcasmo. Nada nem ninguém ficava aquém do seu respeito, sem contudo escapar da sua ironia. Ágil era capaz de surpreender o seu contendor na discussão com frases que desarmavam qualquer incauto. Quando se sentia acossado perante a evidência de que estava ser muito mais exigente para o outro do que aquilo que seria justo, dizia por vezes: " O facto de te chamar careca não quer dizer que eu tenha juba de leão!". Ou se, de repente, alguém confrontava a opinião que acabara de expender com uma outra que lhe ouvira de sentido contrário, dizia: "Desde quando é que eu sou obrigado a estar de acordo comigo próprio?"

Vai decorrer um ano de homenagem e memória a Joaquim Namorado. Se ele  aqui estivesse comover-se-ia com cada pequeno gesto , com cada palavra, com cada cada louvor ou elogio.Mas haveria de cultivar  a arte de se mostrar distante, sem esconder toda a sua emoção. 

Estão anunciadas sessões de homenagem para o próximos dias 30 de junho e 1 de julho, na Figueira da Foz e em Coimbra, como se pode ver nas figuras que acima integram este texto. Há outras iniciativas já anunciadas. Estou certo que este vai ser um ano em que vamos ficar a conhecer melhor a vida e a obra de Joaquim Namorado, mas também um tempo que está na raiz do que somos e vivemos hoje, um pouco da nossa história do século XX.Os seus muitos amigos que ainda estão entre nós partilharão certamente com júbilo os acontecimentos deste ano de homenagem e memórias. E o  pequeno número  que, em vida, sendo do mesmo lado, em termos pessoais o desconsiderou  sordidamente, pode naturalmente  associar-se agora à corrente de homenagens. Mas seria elegante e decente que, quem dentre eles o  fizer, declare também com clareza o seu arrependimento pelo modo como se comportou com Joaquim Namorado, quando ele era vivo.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CONSPIRAÇÃO

É um tempo rasteiro, este que nos atrofia como se fosse uma conjura de todos os passados, para nos separar da simples humanidade e de todo o futuro. Para transgredir a melancolia e o silêncio, recordo com saudade Joaquim Namorado, apelando à sua "Incomodidade", a um dos seus poemas. Um poema que talvez nos mostre com mais clareza as raízes da chamada crise do que as orações de sapiência televisivas com que fungíveis lacaios dos poderes económicos de facto nos brindam todos os dias. Isto, apesar de o poema ter sido publicado nos anos quarenta do século XX. Como se pode ver, se é certo que o mundo mudou muito, há algo de muito insalubre nele que está na mesma. Eis o poema:

CONSPIRAÇÃO

Estava tudo combinado,
os planos bem medidos,
não podia ter falhado.
As provas tenho-as aqui:
seus artigos e leis
− tudo bem dividido
e melhor justificado!
Que fica ao pobre que nasce?
Papas, juízes e reis
fizeram como quiseram
as suas leis.
Decretos, filosofias, ditados,
ciência rara,
ensinam que foi assim,
pela ordem natural.
Mas, por mim,
não me conformo:
Fui roubado! Fui roubado!

[Joaquim Namorado, in "Incomodidade", 1945]

quinta-feira, 21 de julho de 2011

PALAVRAS ESCRITAS

1. Hoje, vou transcever três pequenos poemas e um poema um pouco mais extenso. Comecemos pelo mais extenso, que foi retirado da antologia de poesia japonesa, "Cem Haiku", publicada pela editora Vega, em 1984, traduzida do inglês por Ana Mafalda Leite e José Manuel Lopes, da autoria de Kyoroku[1656-1715] :


Tempestade de Outono


A tempestade no Outono

começa quando o vento

faz cair os espantalhos.


Arrastar espantalhos pelo chão

é o que a tempestade

faz primeiro.

[Kyoroku - 1656-1715]


2. Em seguida, publicarei dois poemas extraídos da Antologia "Os cem melhores poemas brasileiros do século" , organizada por Italo Moriconi, publicada em 2001, no Brasil, pela Editora Objetiva do Rio de Janeiro. O autor do primeiro é Manuel Bandeira [1886-1968] e o segundo é Francisco Alvim [1938-].


Poema do Beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

[ Manuel Bandeira ]


Argumento

Mas se todos fazem

[ Francisco Alvim]


3. Por último, vou recordar um poema de Joaquim Namorado [1914-1986], meu tio, por quem sinto uma imensa saudade, extraído do seu livro "Incomodidade" ( 1945).


Aventura nos Mares do Sul

Eu não fui lá...

[ Joaquim Namorado]


A propósito deste último poema, uma pequena história. Carlos Wallenstein, grande actor, de que alguns ainda se recordarão, era também um bom declamador de poesia, e amigo de Joaquim Namorado. Um dia, lá para meados do século passado, o referido actor meteu-se no combóio para Coimbra, vindo-se encontrar com o meu tio. E aí mostrou a sua determinação em declamr o poema que acima transcrevi, mas, querendo ter a aprovação do autor, foi fazendo sucessivas tentativas para obter a sua aprovação. Sem resultado, uma atrás da outra, no entanto, todas as tentativas foram esbarrabndo no juízo negativo do autor. E, ao fim da tarde, o grande actor acabou por regressar a Lisboa, sem ter conseguido encontrar uma maneira de declamar o poema que obtivesse a aprovação do autor.

domingo, 27 de abril de 2008

Um poema de Joaquim Namorado


Ontem, no decorrer da transmissão televisiva de um sarau comemorativo do 25 de Abril, realizado em Lisboa no Coliseu, foi com emoção que ouvi Maria Barroso, participar no espectáculo, declamando com grande força e com o seu talento de sempre, um poema do Joaquim Namorado, meu tio e amigo, desaparecido há mais de vinte anos e sempre recordado. Como ela disse, homenageou deste modo os poetas do "Novo Cancioneiro" (1941-1944- embora nove dos autores tenham sido editados em 1941 e 1942, tendo apenas sido publicado depois, a título póstumo, Políbio Gomes dos Santos, que morrera de tuberculose em 1939, com 28 anos), onde, além de Joaquim Namorado, foram publicados: Fernando Namora, Álvaro Feijó, Carlos de Oliveira, Políbio Gomes dos Santos, Francisco José Tenreiro, João José Cochofel, Mário Dionísio, Sidónio Muralha e Manuel da Fonseca.


Com saudade e como homenagem aqui fica transcrito o poema que foi dito:


PROMETEU


Abafai meus gritos com mordaças,
maior será a minha ânsia de gritá-los!

Amarrai meus pulsos com grilhões,
maior será a minha ânsia de quebrá-los!

Rasgai a minha carne!
Triturai os meus ossos!

O meu sangue será minha bandeira
e meus ossos o cimento duma outra humanidade.

Que aqui ninguém se entrega
- isto é vencer ou morrer -
é na vida que se perde
que há mais ânsia de viver!