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sábado, 2 de maio de 2015

A CRISE DA DEMOCRACIA



  A crise da democracia

A crise da democracia é uma daquelas evidências excessivas que, servindo uma ou outra vez para esclarecer o obscuro, é muitas vezes usada para ocultar o óbvio.

Os mais ladinos capatazes da ideologia dominante usam a alegação dessa crise, principalmente, para corroer a legitimidade do poder político democrático, deixando assim à solta o poder de facto dos seus senhores, do capital financeiro e do seu séquito. A fragilidade da autovigilância crítica de alguns dos mais incendiados opositores afetivos do capitalismo faz com que, muitas vezes, inadvertidamente se associem, no essencial, aos supracitados capatazes.

No campo dos mais discretos e cautelosos, são inúmeras as tonalidades que assume a abordagem tolhida da chamada crise da democracia. Talvez seja acertado, no entanto, salientar, entre todos eles, aqueles que procuram responder a essa crise apenas com propostas, mais ou menos rebuscadas, de uma reforma das instituições do sistema político. Eles agem como se toda a crise em debate adviesse de uma deficiente qualidade da engenharia política utilizada na construção de cada um dos sistemas políticos existentes. Muitos deles, feridos por uma profunda ignorância jurídico-constitucional, deslizam para propostas obviamente toscas, que muitas vezes deixam inadvertidamente a descoberto um perfume fortemente autoritário. Usando a bandeira do combate à crise da democracia, mais não fariam do que agravá-la dramaticamente. Nesse mesmo registo, outros preconizam, para cada país, soluções que já vigoram noutros, com resultados idênticos aos que se querem evitar, menosprezando assim o facto de a chamada crise da democracia ocorrer em países com sistemas políticos de todos os tipos.

Ora, se é naturalmente evidente que, como tudo na vida, a democracia pode ser aperfeiçoada no plano das suas instituições, o que importa compreender é que as raízes mais fundas da sua crise não estão aí.

Numa abordagem sumária, poder-se-ia dizer que o cerne da crise da democracia está na sua autolimitação e na sua incompletude, como se a democracia só pudesse conservar o seu viço se mantivesse um ímpeto expansivo continuado que, além de a tornar  mais profunda em cada um dos seus aspetos, se fosse estendendo aos aspetos em que tem estado mais ausente.

 Ora, atualmente, a deriva autoritária, trazida no seu bojo pelo neoliberalismo, tem vindo a enfraquecer a democracia política, pela subalternização dos órgãos eleitos, em benefício dos poderes de facto do capital financeiro e seus acólitos. E, em perversa conjugação com essa anemia política crescente, tem bloqueado e contrariado tudo o que de democrático impregnava o social e tem procurado esconjurar, como pecado mortal, qualquer impregnação democrática da economia.

A crise da democracia não é pois o fruto natural de uma malandragem qualquer, de uma quadrilha oculta que sangra o sistema, de instituições politico-eleitorais tolhidas e inatuais para as quais qualquer cérebro medianamente dotado poderá encontrar em pouco tempo a solução milagrosa. É, isso sim, o fruto da não extensão da democracia aos aspetos sociais, económicos e culturais da vida em sociedade; e, em conjugação com isso, é também o fruto da corrosão da democracia política pelo agravar da deriva neoliberal sob a batuta do capital financeiro. Ou seja, quanto mais a lógica capitalista penetra na sociedade, quanto mais acossadas estiverem as lógicas distributivas e solidárias que, embora subalternas, se lhe opõem, mais a democracia está em perigo, maior é a sua crise.

Portanto, não menosprezando os aspetos consequenciais e colaterais  da crise da democracia, não nos esqueçamos nunca do que é essencial: o cerne da crise da democracia está na sua incompletude e na sua retração, ou seja, a crise da democracia é, fundamentalmente, um importante aspeto da hegemonia do capital financeiro, em contexto capitalista, expressa pelo neoliberalismo.                                       

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sal dos Banqueiros, Labirintos do Capital

 
1. O chefe do grupo de banqueiros que tornou  ostensiva uma pressão conjunta sobre o ministro Teixeira dos Santos, através de uma audiência a que deram publicidade, para que fossem abertas as portas à troika, foi detido.

A grande alavanca que contribuiu para empurrar Teixeira dos Santos para uma dramática traição a Sócrates foi detida.

O diamante  dos banqueiros portugueses, símbolo de um clã carregado das máximas virtudes da alta finança, era afinal uma simples peça de um vidro brilhante, mas vulgar.

O citado banqueiro detido pode até nem ser um criminoso, mas é o causador assumido de um desastre importante na economia portuguesa. Veremos se o é, mas estamos certos do mal que já causou. Por especial perversidade? Não me parece; mais me inclino para uma irresistível tentação de percorrer sem prudência a passadeira de facilidades que o Estado, tolhido pela hegemonia do capital financeiro e empurrado pelas instâncias internacionais, lhe estendeu. Não há que absolve-lo das culpas que tiver, mas não se pode reduzir todo este grande escândalo aos desvarios de um homem, de uma família, ou de algumas famílias. É o sistema que tornou tudo isto possível e quase natural que tem que ser posto em causa. É o capitalismo que está em causa.

2.Por isso, há dois tipos de consequências que podem desde já  tirar-se. Primeiro, a narrativa da crise,  que nos assolou e continua a estrangular, que imputava aos povos do sul e aos seus governos a responsabilidade principal pela sua eclosão, particularmente no caso português, é uma tentativa de ocultação das causas principais do que nos está a acontecer. Na sua  raiz mais funda está o sôfrego desvario especulativo das instituições que corporizam o capitalismo financeiro, às quais, ao longo do processo de reequilíbrio tentado pelos poderes públicos, foram concedidas mais benesses do  que aplicados castigos. A esta luz, os que culpam em primeira linha o governo de Sócrates como causa principal da crise, mais não são do que encobridores mais ou menos inocentes dos verdadeiros causadores, hoje cada vez mais evidentes.

Em segundo lugar, é como deitar areia em saco roto limitar as medidas políticas a um ajuste de contas  pessoal com alguns banqueiros. É indispensável que , para além desse pequeno passo, seja visado o capitalismo em si próprio, contendo de imediato as expressões estruturantes da deriva neoliberal, em Portugal, na Europa e no mundo.

3. Sabemos que as sociedades modernas vivem através de mecanismos complexos que têm que ser tidos em conta, quando se pretende agir sobre eles para os modificar. Sabemos que, por vezes, o caminho mais direto  para a recuperação do capitalismo é a brusquidão imprudente com que se procura combatê-lo.

Precisamos por isso de mudar sem destruir, mas se não mudarmos seremos conduzidos a uma implosão certa no futuro. O capitalismo não é eterno. Falta saber se  a sua agonia será a agonia dos povos que o protagonizam, ou se estes conseguem pilotar a sua extinção vivendo uma metamorfose feliz; e assim se salvando como criaturas humanas. 

Por isso, é preciso mudar-se  de sistema e não apenas dentro do sistema. Por isso, o processo reformista que tarda (e que nada tem a ver com a contra-reforma neoliberal que temos vindo a sofrer) não é um empreendimento concebido para salvar o capitalismo, é um processo que pretendemos que nos conduza a um pós-capitalismo que incorpore os valores históricos do socialismo. Um processo que torne a metamorfose necessária, por que almejamos, tão pouco árdua quanto possível. Este é o desígnio histórico essencial dos socialistas que pode facilmente ser partilhado por todas as esquerdas. É um desígnio de longo prazo que implica um protagonismo firme, não só das instituições públicas, mas também das instâncias sociais, culturais e económicas da sociedade. Transformar o Estado para transformar os cidadãos, transformar os cidadãos para mais facilmente se poder transformar o Estado.

Olhemos para o imediato, sem esquecer o longo prazo; valorizemos o que é conjuntural, sem esquecer o que é estrutural. O futuro é longo, mas não pode ser adiado.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O NÓ DO PROBLEMA


O irrequieto comentador Marcelo, há anos em pré-campanha presidencial nas televisões, acha que a realização de eleições seria mais um novo problema do que uma solução .

Esqueceu-se de precisar que elas seriam realmente um problema para a direita, em virtude do desastre eleitoral que ela prevê e receia.

Ou seja, ele(s) sabe(m) que o actual governo tem apenas o consentimento de uma pequena parte do eleitorado, para prosseguir a obra de demolição em curso.

Formalmente, enquanto o Adormecido de Belém o quiser e o saltitante Portas o consentir, o Governo continuará cambaleante a cavar mais fundo a desgraça dos portugueses. Mas substancialmente, eticamente, a sua legitimidade escoa-se com velocidade crescente. E essa legitimidade é tanto mais diminuta quanto mais longe for o Governo na destruição do Estado social e na corrupção da democracia; quanto mais longe for no caminho do arbitrário e mais evidente for a degradação civilizacional que está a produzir; quanto mais óbvio for o desastre económico causado e mais vergonhoso for o agravamento das desigualdades perpetrado.

Por tudo isso, quer o irrequieto comentador (aliás, douto), quer a espuma mediática do discurso dominante, escorrem pela superfície efémera da realidade sem verdadeiramente a sentirem. De facto, para além das rotinas institucionais e do arrastado teatro político, o fundamental aproxima-se irresistivelmente da evidência. Correndo o risco de me repetir (o que também pode querer dizer que a realidade permanece estagnada), insisto: Se o sistema capitalista só consegue salvar-se sacrificando o povo, não será mais que legítimo, e até  necessário, que o povo resolva salvar-se sacrificando o sistema?

domingo, 18 de novembro de 2012

DILMA, O BRASIL E NÓS


Dilma Roussef, Presidenta do Brasil, veio a Espanha recentemente para participar na Cimeira Ibero-Americana. Aproveitando essa circunstância,  o diário espanhol  "El Pais" publicou uma entrevista com ela, feita  pelo seu antigo director e reputado jornalista  Juan Luis Cebrián. A entrevista foi feita poucos dias antes em Brasília. Verdadeiramente, foi mais  uma conversa inteligente, em que um dos interlocutores falou mais do que o outro. O jornal espanhol apresenta Dilma como "antiga guerrilheira, torturada e encarcerada  durante três anos pela a ditadura"  que assombrou o Brasil, entre 1964 e 1985. A  entrevista é encabeçada pela  seguinte frase da Presidenta:"“Las recetas que se están aplicando en Europa llevarán a una recesión brutal”.  Eis o teor completo do que  disseram:

“Yo no creo que el problema de Europa sea su modelo de Estado de bienestar. El problema es que se han aplicado soluciones inadecuadas para la crisis y el resultado es un empobrecimiento de las clases medias. A este paso se producirá una recesión generalizada”.

Me hubiera gustado comenzar la conversación por hablar de su pasado político, que transcurrió entre responsabilidades logísticas en la guerrilla armada, o preguntarle antes que nada por los desafíos que Brasil afronta, pero ella ha entrado en la sala como un torbellino dispuesta a despedazar las claves de la crisis europea, que amenaza con impactar en el desarrollo de los países emergentes.

 “Nosotros ya hemos vivido esto. El Fondo Monetario Internacional nos impuso un proceso que llamaron de ajuste, ahora lo dicen austeridad. Había que cortar todos los gastos, los corrientes y los de inversión. Aseguraban que así llegaríamos a un alto grado de eficiencia, los salarios bajarían y se adecuarían los impuestos. Ese modelo llevó a la quiebra de casi toda Latinoamérica en los años ochenta. Las políticas de ajuste por sí mismas no resuelven nada si no hay inversión, estímulos al crecimiento. Y si todo el mundo restringe gastos a la vez, la inversión no llegará”.

Lo dice con convicción, alzando las manos en expresivo gesto que indica el camino a seguir, es todo su cuerpo el que protesta por lo que está pasando al otro lado del Atlántico y pienso que si no existiera ya en la Historia una Dama de Hierro quizá alguien se habría atrevido a sugerir este apodo para ella. La prensa internacional considera a Dilma Rousseff, 36ª presidente de la República Federativa del Brasil, una de las tres mujeres más poderosas del mundo, junto con Angela Merkel y la secretaria de Estado norteamericana, Hillary Clinton. A Clinton le quedan dos meses en el cargo, con lo que el triunvirato puede verse pronto reducido a un duelo de titanes. ¿Le ha dicho ya a la canciller alemana cuáles son sus puntos de vista sobre la política que ella está imponiendo en Europa?

 “Se lo he dicho en todas las reuniones del G-20. Europa pasa por algo que ya conocimos en América Latina. Hay una crisis fiscal, una crisis de competitividad y una crisis bancaria. Y las recetas que se están aplicando llevarán a una recesión brutal. Sin inversión será imposible salir de la crisis. Por supuesto hay que pagar las deudas, la consolidación fiscal es necesaria, pero se precisa tiempo para que los países lo hagan en condiciones sociales menos graves. No solo por una cuestión ética, sino también por exigencias propiamente económicas. El euro es un proyecto inacabado y si Europa quiere resolver sus problemas tiene que completarlo, mediante la supervisión y la unión bancaria. En realidad el euro no es una moneda única hoy. El mercado distingue entre el euro español, el euro italiano, francés, griego o alemán. El BCE tiene que ser el prestamista de ultimo recurso, pero no solo: hace falta que exista un mercado de títulos, un mercado de deuda, como en el resto de los países. La moneda única europea es una de las mayores conquistas de la Humanidad, precisamente en un continente tan castigado por las guerras y las disputas internas. Se trata de un fenómeno económico, social, cultural y político que significa un avance formidable, pero de momento está incompleto. No puede seguir así si queremos vencer a la crisis. Es el tiempo de construir los consensos, y para ello es importante que exista un liderazgo”.

Las políticas de ajuste no resuelven nada, si no hay también inversión
No es precisamente liderazgo lo que falta en Brasil. Las encuestas atribuyen a Dilma Rousseff más de un 70% de popularidad, porcentaje aún mayor del que gozaba su predecesor en el cargo y mentor en su carrera política, Lula da Silva. La continuidad básica de una política económica que dura ya casi dos décadas (desde que Fernando Henrique Cardoso emprendiera su amplio programa de modernización) ha convertido a Brasil en la quinta economía del mundo y hoy es un interlocutor imprescindible en cualquier escenario internacional. La llegada de Lula a la presidencia supuso todo un terremoto. Las clases bajas experimentaron un sentimiento de autoestima como nunca habían tenido hasta entonces al ver que un obrero ocupaba la presidencia de la República. Era todo un símbolo de la nueva política de inclusión social que anunciaba ya el proyecto estrella de Rousseff: hacer de Brasil un país de clases medias, no solo en lo que se refiere a los estándares de vida, sino sobre todo en lo que concierne al nivel educativo de la población.
Dilma no tiene el carisma de Lula, pero brilla por sí misma por su eficacia y su convicción política. Se incorporó al PT, el partido del Gobierno, años más tarde de su fundación, tras haber militado en el socialismo de Lionel Brizola y, antes, en dos organizaciones marxistas que promovían la lucha armada. Detenida y torturada por la dictadura militar, fue encarcelada durante tres años, y esa experiencia personal supone un plus de credibilidad a los ojos de todos los demócratas. Le comento que yo tuve oportunidad de vivir Mayo del 68 en París y soy uno de los huérfanos de aquella revolución. Los jóvenes españoles de la época seguíamos con admiración los procesos latinoamericanos, iluminados entonces por la esperanza más tarde frustrada del castrismo. Cuatro décadas después, muchos líderes de aquellos movimientos ocupan posiciones de poder en la economía, la política y la cultura y son objeto de protestas similares a las que ellos encabezaron. ¿Mereció la pena todo aquello?

“Necesariamente la gente evoluciona. Yo en diciembre de 1968 no andaba en política ni me había incorporado a la clandestinidad. Entonces sucedió lo que se conoce en Brasil como el golpe dentro del golpe: un endurecimiento de la dictadura militar. A partir de ese hecho, cualquiera de mi generación que tuviera la más mínima voluntad democrática era violentamente perseguido. De modo que desde mi punto de vista personal sí valió la pena, y mucho. Una parte de la juventud tuvo el gesto generoso de pensar que era su obligación luchar por su país, incluso incurriendo en algunos errores. Puede que aquellos métodos no condujeran a nada, no tuvieran futuro y constituyeran una visión equivocada sobre la salida de la dictadura. Pero en la gente anidaba un sentimiento de urgencia, creían que en Brasil no podría haber una reforma democrática, también por su visión pesimista sobre los dirigentes del país. Con los años he comprobado nuestro exceso de ingenuidad y romanticismo y nuestra falta de comprensión de la realidad. No percibíamos que esta era mucho más compleja, que podía haber diferentes soluciones de futuro. Mi estancia en la cárcel me ayudó a entender que el régimen militar no sobreviviría, porque no podía detener, torturar y matar a toda la juventud. El país había comenzado a transformarse y exigía un cambio. Enseguida comenzó la complejidad de la transición. A mí me detuvieron en 1970 y la apertura empezó en 1974, con el presidente Geisel. Se trataba de una apertura controlada, ‘lenta, gradual y segura’ en el idioma oficial; no era todavía la democracia, pero las condiciones habían cambiado. Entre 1970 y 1974 transcurrió la etapa más negra de la dictadura. Luego resultó evidente que no había solución a los problemas económicos y sociales sin democracia. Tal vez lo que diferencia a mi país de otros de América Latina es que nosotros tuvimos una fe sin restricciones en el valor de la democracia. Eso hizo que el proceso resultara menos duro”.

Se necesita tiempo para la consolidación fiscal en condiciones sociales menos graves
Sin embargo, la democracia está perdiendo prestigio en Occidente, le digo, sobre todo por su aparente incapacidad para responder a la crisis, para reformar el capitalismo. Existe en cambio una cierta admiración por el mandarinato chino, dada su eficacia en gestionar el crecimiento.

“Tal vez la mejor cosa de China es que sabe definir sus metas. No creo que nadie tenga que imitar a ningún país, pero se puede aprender de sus mejores prácticas. Yo, por ejemplo, pretendo hacer un plan a medio plazo. Para saber dónde quiero llegar tengo que iluminar también el presente, definir cuál debe ser mi tasa de inversión si quiero doblar la renta per capita de Brasil, y en cuanto tiempo. Tal vez podamos hacerlo en 12 o 15 años, mediante una política adecuada de inversión pública y privada… Naturalmente que se trata de proyecciones, luego la realidad es muchas veces diferente, pero si te marcas una meta lo importante es acercarte lo más posible a ella. Cuando la consigues del todo es porque la meta estaba mal definida”.

Esta cultura del esfuerzo desdice de los tópicos del Brasil de samba y carnaval que tanto daño han hecho a la imagen del país, de igual modo que en nuestro caso abundan las diatribas de los nórdicos contra los perezosos europeos del sur y los clichés de fiesta y siesta se imponen a la hora de caricaturizar a los españoles.

 “Eso de que en la zona euro los nórdicos trabajan mucho, gastan poco y son muy competitivos mientras los del sur son perezosos, se endeudan de más, gastan sin control y no contribuyen al euro, es una historia mal contada. Los países más avanzados de Europa se han beneficiado de un mercado de 600 millones de personas y de una zona monetaria única, con lo que mantuvieron tasas de cambio inferiores a las que les hubiera correspondido por sus superávits”.

 Rousseff maneja de memoria las cifras, los porcentajes y las magnitudes, conoce el lenguaje de los mercados y argumenta en su mismo idioma. Una cualidad extraña entre los políticos del momento, que se entregan en manos de tecnócratas y aplican las recetas de los expertos. Estos señalan por su parte que el crecimiento de Brasil se ha moderado y muchas voces alertan del contagio de la crisis en los países emergentes.
El euro es un proyecto inacabado: en realidad no es una moneda única
“La recesión europea está alargando los plazos para una mayor recuperación de las economías que no tienen problemas fiscales ni financieros, están en crecimiento positivo y practican políticas anticíclicas, como Brasil. Estamos haciendo de todo para impulsar de nuevo nuestro crecimiento, hemos reducido los costos de capital, los del trabajo también, y bajado muchos impuestos para impulsar el consumo”.

¿Es este un modelo a seguir? ¿Podríamos decir que responde a un estándar replicable por un cierto tipo de izquierda en América Latina?

 “Lejos de mí proponer ningún tipo de modelo, pero lo que en nuestro caso operó como elemento transformador fue comprobar cuando llegamos al Gobierno que había, ¿cómo decirlo?, determinados falsos dilemas, idénticos a los que hoy enfrenta Europa. Disyuntivas como controlar la inflación o impulsar el desarrollo, reducir el gasto público o invertir, desarrollar primero el país para luego distribuir rentas, luchar solo contra la pobreza o entrar de un salto en la economía del conocimiento, optar entre el mercado externo y el consumo interno. A mi ver, todas estas cosas deben abordarse simultáneamente. Distribuir renta, por ejemplo, es una exigencia moral, pero también una premisa para el crecimiento. De ahí la importancia de la política económica”.


En comentarios como este se basan los que atribuyen a Dilma ejercer un pragmatismo desideologizado. A mí no me lo parece. Creo más bien que su popularidad radica en el triunfo de la política, en el reconocimiento de que son las decisiones políticas las que determinan el devenir de la economía, los mercados incluidos. También en su capacidad de decidir, que ha hecho que la tilden de autoritaria.

Con mi estancia en la cárcel comprendí que el régimen militar desaparecería
“El trípode en el que hemos apoyado nuestra acción es bien simple: cuentas públicas austeras, inflación bajo control y acumulación de reservas en divisas para proteger nuestra moneda de la especulación, lo que fortalece nuestro sector externo. Pero al mismo tiempo nos pusimos a construir un mercado interno, sobre todo combatiendo un déficit habitacional formidable. Bajamos además los tipos de interés para evitar las inversiones extranjeras directas especulativas. Creamos así instrumentos de crédito que facilitaran el acceso a la vivienda a los poseedores de rentas medias y bajas. Vamos a entregar un millón de casas nuevas y vamos a contratar dos millones más. Hay quien dice que con esta política en Brasil se va a formar una burbuja, pero no corremos ningún riesgo al respecto”.

 ¿Ninguno? ¿No será que la gente no ve la burbuja cuando está dentro de ella?

“Ningún riesgo. Estamos muy lejos de nada semejante. Ni siquiera tenemos un buchito de agua en el que pueda formarse una pompa de jabón”.

Pese al optimismo de esta narración, Brasil enfrenta serios problemas que impiden un crecimiento más rápido y equilibrado. El milagro de su economía se basa fundamentalmente en la exportación de materias primas, agroalimentarias y minerales. El país tiene deficiencias importantes en infraestructuras y suministro de energía, que la propia Dilma, como ministra del ramo durante el Gobierno de Lula, comenzó a paliar con su programa Luz para Todos. Los proyectos que tratan de dar respuesta a estas carencias, como las presas hidráulicas en el Amazonas, convocan la oposición de los ambientalistas y las tribus indígenas, apoyados en sus reivindicaciones por famosos como Sting o Sigourney Weaver. Otros países de la región, singularmente Perú, se han topado con similares obstáculos a la hora de explotar yacimientos auríferos, lo que demora enormemente los proyectos.

 “La única manera de abordar este tema es realizar audiencias públicas, tantas cuantas sean necesarias. Hicimos hasta 25 para las presas de San Antonio y Jirau. Pero organizar un diálogo no significa pasarse un siglo discutiendo. Los ciudadanos tienen que aceptar lo que es razonable, exigir que las empresas privadas cumplan con sus compromisos y, finalmente, asumir que llega un momento en que el propio debate se acaba. En las represas que he citado llegamos a debatir cómo y cuándo un pez podía pasar de un lado al otro del río. Además, después de ese proceso, quedan los recursos ante el ministerio público. De manera que cuando una presa comienza a construirse se han sorteado todas las barreras imaginables. Aquí no existe otra forma de hacer las cosas”.

Semejantes audiencias pueden durar hasta un año o año y medio, e incluso más, por culpa de la muy exigente y rígida burocracia brasileña, con lo que los viajeros extranjeros que llegan por estas fechas al país se sorprenden del retraso evidente en la construcción de infraestructuras necesarias para la celebración de la Copa del Mundo de Fútbol en 2014 y los Juegos Olímpicos de Río de Janeiro en 2016. La escasez y poca funcionalidad de los aeropuertos, la deficiente red de carreteras, la debilidad de la oferta hotelera, y el propio retraso en la construcción de instalaciones deportivas saltan a la vista. El Gobierno asegura no obstante que no hay que preocuparse: dos estadios nuevos van a inaugurarse el próximo diciembre en Fortaleza y Belo Horizonte, y este mismo mes se privatizará la gestión de algunos aeropuertos. Por lo demás, prepara licitaciones para la construcción de nuevas vías férreas, puertos y carreteras.

 “En este sector las empresas españolas son muy competitivas. OHL fue aquí una de las grandes pioneras en hacer autopistas, y a precios bien asequibles. A la Cumbre Iberoamericana de Cádiz voy a viajar con un grupo de inversores privados con los que eventualmente puedan asociarse los españoles y vamos a presentar un plan sobre inversiones disponibles en el área de infraestructuras”.

El trípode en el que hemos apoyado nuestra acción es simple: cuentas austeras, inflación baja y reservas en divisas
El otro gran desafío es la educación, en un país con más de un 10% de analfabetos funcionales entre la población por encima de los 15 años.

“En mi proyecto de hacer de Brasil un país de clases medias, tengo que enfrentar simultáneamente la lucha contra la pobreza y garantizar padrones educativos similares a los del primer mundo. Todos los niños de Brasil van a tener un nivel mínimo de lectura y escritura y manejar operaciones matemáticas hasta determinado año. Después es preciso que tengan una educación a tiempo integral para que puedan ingresar en la escuela con un cierto nivel, de modo que estoy hablando de guarderías. No tengo dinero para financiar un plan así para todo el mundo, pero sí para la población más pobre. Para la clase media ya existen guarderías de buena calidad. Guarderías y preescolar: eso construye el futuro. Además nos inspiramos en algunos modelos alemanes, y nos estamos asociando con nuestra querida señora Merkel para establecer programas de enseñanza técnica profesional como alternativa a la universidad. En esta trabajamos por una universidad pública de excelencia, contratando profesores visitantes de nivel mundial. Hemos aprobado una ley que establece que el 50% de las becas para las universidades públicas sea para los alumnos de la escuela pública y para los de rentas más bajas y los negros. Porque ahora todos los alumnos de la enseñanza privada van a la universidad pública también”.

Infraestructuras y educación: un programa que recuerda como ningún otro a la escuela y despensa del regeneracionismo español. Pero también industria (“Brasil no puede ser un país de servicios”), desarrollo tecnológico, potenciación del sector automovilístico y sus empresas auxiliares, desarrollo siderúrgico y agroalimentario. Lleva dos años en el poder y dentro de dos podrá presentarse para un segundo mandato. ¿En seis años va a poder hacer todas esas cosas?

 “¿En cuántos años dice? No sé. Voy a dejar una buena contribución a ese programa. Lula estuvo dos legislaturas y me transmitió un gran legado. Yo pretendo hacer lo mismo con quien me suceda. Si van a ser cuatro u ocho años solo el pueblo brasileño lo sabe”.

Y en ese periodo, junto a las transformaciones económicas, ¿cambiará también el sistema político? ¿Cuál es el futuro de la democracia brasileña? Lula dijo que habían conseguido que Brasil fuera un país previsible.

 “No solo eso, nuestra democracia es también muy rica en términos de debate. Estamos acostumbrados a discutir en torno a una mesa, es todo un hábito entre nosotros. A Bill Clinton eso le llamó la atención. La democracia brasileña está acostumbrada a dialogar. En algunos países puede causar extrañeza o pavor que la presidente de la República converse con las centrales sindicales. Para nosotros es de lo más normal. A veces estamos de acuerdo y a veces no”.

 ¿Por qué no enseña eso a los españoles?, le pregunto.

“Cada uno tiene su sistema, ¿no? Pero países complejos como los nuestros exigen diálogo y participación. La experiencia dicta que es bueno plantar cara a los conflictos”.

La mejor cosa que vemos en China es que sabe definir sus metas
Hablamos de los medios de comunicación, de las dificultades que los nuevos sistemas de opinión pública, las redes sociales, generan a quienes ocupan el poder.

 “Siempre he dicho que la prensa brasileña comete excesos, pero los prefiero al silencio de la dictadura. De cualquier manera en este país ya no existe algo que era tradicional entre nosotros: un formador de la opinión. Desde hace 10 años tomamos las decisiones políticas en función de lo que beneficia a los brasileños, no por preconceptos ideológicos o de cualquier otro tipo. El pueblo no se deja manipular en absoluto”.

Después me recuerda que no tuvo el apoyo de la prensa ni los grandes medios durante la campaña presidencial, pero sin embargo logró un 56% de los votos en las elecciones.
Celebramos la entrevista el pasado lunes 12 de noviembre, el mismo día que fueron hechas públicas las penas de cárcel por corrupción contra José Dirceu, fundador junto con Lula del PT, primer jefe de Gabinete del anterior presidente, sustituido en el cargo precisamente por Dilma cuando se vio obligado a dimitir por el escándalo del llamado caso mensalao. Conocí la sentencia a la salida de mi encuentro con Rousseff, por lo que es más que probable que ella la conociera cuando hablaba conmigo. El juicio, en el que Dirceu asegura haber sido condenado sin pruebas, estuvo trufado de intereses políticos y de una abrumadora campaña mediática en contra de los acusados, cuyo objetivo indudable era salpicar la figura del propio Lula da Silva.

 “Pocos Gobiernos han hecho tanto por el control del gasto público como el del presidente Lula. Entonces abrimos el Portal de Transparencia, con todas las cuentas públicas al alcance de quien quiera consultarlas. También hicimos una Ley de Acceso a la Información que obliga a divulgar los salarios de los dirigentes. Estoy radicalmente a favor de combatir la corrupción, no solo por una cuestión ética, sino por un criterio político. Hablo ahora de la corrupción de los Gobiernos, no la de otro tipo como la de las empresas, que también existe. Un Gobierno es 10.000 veces más eficiente cuanto más controla, más fiscaliza y más impide. No hay términos medios en este aspecto, ni componendas de ninguna clase, lo que en Brasil se llama medio embarazos. Ha habido diversos procedimientos jurídicos en este terreno y como presidente de la República no puedo manifestarme sobre las decisiones del Tribunal Supremo Federal. Acato sus sentencias, no las discuto. Lo que no significa que nadie en este mundo de Dios esté por encima de los errores y las pasiones humanas”.

Las pasiones humanas y las políticas, le apunto.

“Tal vez estas sean de las mayores. Pertenecemos a una generación que ha vivido intensamente. Como me dijo el presidente Mujica de Uruguay: ‘Nuestra generación luchó mucho y vaya burradas que cometimos, ¿eh, Dilma?’ [El actual presidente uruguayo participó también en la guerrilla armada contra la dictadura de su país].
Es un hombre muy divertido. Siguió diciéndome que él había tenido la época de la política, la de la pasión, la de esto y aquello, la época del Gobierno…
—Pero cuando me convertí en presidente yo estaba en la época de las flores— añadió, porque él planta flores”.

Luego se levanta, entre tímida y divertida. Me tiende la mano y me dice a modo de despedida:

 “Esa es también mi época, estoy en la de las flores”.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A GRÉCIA E OS BÁRBAROS


1. Uma sujeita mal envelhecida, aparentemente oriunda da Europa mais fria, apareceu nos ecrãs televisivos, falando um vago inglês. Vinha falar dos inconvenientes resultados eleitorais cometidos por essa gente do Sul, os gregos.

Gente que a figura olhava com o espanto e a severidade de uma mestra que admoesta os irrequietos alunos.Gente que a senhora não admitia que tivesse  o descaramento de não manter uma suavidade melancólica, enquanto os alegados mercados e os demónios neoliberais, de que estão possuídos os espíritos toscos dos senhores da Europa, a estrangulam com uma frieza de autómato. Respondendo aos resultados eleitorais acontecidos recentemente na Grécia, a esfíngica criatura vinha com o dedo em riste arremessar furiosamente aos gregos o imperativo de novas humilhações, rumo a uma pobreza mais funda.
                                   
Fiquei siderado. Quando seria de esperar o início de uma profunda auto-crítica dos arautos do fundamentalismo neoliberal, pelos desastrosos resultados políticos causados pelo seu simplismo e pelo doçura com que trataram  o poder financeiro no decurso da crise, vinham afinal acusar as vítimas de se recusarem a morrer sem resistir. Se o remédio é afinal um veneno, censura-se o envenenador e para-se com a medicação ? Não senhor: dá-se mais veneno e censura-se a vítima por se ter deixado envenenar.

Fiquei alarmado. Temos em alguns  postos de comando europeus verdadeiros imbecis políticos.

2. Pois é , ó minha gente do Sul, não somos nós os novos bárbaros. Não temos que pedir desculpa por Platão, por Dante, por Cervantes, por Camões. Os bárbaros do século XXI estão friamente sentados a norte, nas cadeiras de um poder agressivo, agiotas de uma riqueza tingida pelo sofrimento de muitos,de muitos de muitas terras, a  norte, a sul, a oriente.São talvez ricos, mas não deixam de ser bárbaros, novos bárbaros. 

3. Não nos admiremos: ainda eles andavam aos pássaros nas floresta  frias do Norte e já no Mediterrâneo cresciam cidades.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

MANTER ABERTA A PORTA DO FUTURO

Esta crise tem vindo a mostrar que o capitalismo é uma máquina trágica, que só é capaz de produzir riqueza, necessariamente para extremo benefício de poucos, à custa de uma pobreza cada vez mais insuportável para muitos. E como sistema predador, impregnado por uma lógica de selva, em que a lei do mais forte é o princípio activo determinante, não concebe que os seres humanos se movam por qualquer outra lógica que não seja essa.

Mas a esta brutalidade de fundo associou uma enorme sabedoria política, através da qual concitou o apoio de muitos dos que estruturalmente mais prejudica, arregimentou o entusiasmo de outros, a quem acenou com a oportunidade de partilharem generosas fatias do bolo conseguido, e mobilizou, num arreganho sem limites, os que colhem directamente os seus melhores frutos e os seus capatazes, bem como os que no aparelho de Estado têm o encargo directo de fazer durar um tipo de sociedade que traduza sociopoliticamente o capitalismo.

Em paralelo, no plano ideológico, soube dotar-se de uma subtileza sofisticada, através da qual conseguiu tornar visível apenas o que contribua para o conservar e para o fazer parecer viçoso e tornar ausente tudo o que pudesses revelar-lhe aleijões e perversidades. Desenvolveu assim o mito da sua própria inevitabilidade como caminho e ficcionou a sua própria eternidade, ao arrepio de tudo o que a História nos ensina.

Tendo começado por confiscar o futuro, para o reduzir à sua própria imagem num espelho de ilusão, vê-se cada vez mais forçado pelo que chamam crise a proscrever a esperança nos horizontes pessoais da grande maioria dos seres humanos que oprime e explora.

Embriagado pela sua própria lógica, a que não consegue fugir, continua a fazer com que os seres humanos se comportem na Terra como predadores e não como partes integrantes de um conjunto, de um ecossistema, cujo colapso será também inevitavelmente a sua própria morte colectiva.

Houve tempo em que a Europa, de algum modo em pareceria subalterna com os USA, integrava de tal modo o centro do mundo que uma crise da Europa era uma crise do mundo. Hoje, a Europa enquanto União Europeia continua a ser um bloco mundialmente relevante, mas agora em convivência com outros espaços geopolíticos, para além dos USA com os quais aliás parece ter agora laços mais ténues. Ela pode estar em crise sem que isso signifique que toda a comunidade humana a acompanhe ou pelo menos que a acompanhe na intensidade dessa crise. E, num certo sentido e em certas circunstâncias, pode acontecer que a sua desgraça seja a oportunidade de outros. E isso talvez porque a Europa não partilha já um comando do mundo, ao qual uma grande parte da humanidade antes se submetia. A Europa, a União Europeia, mesmo em conjugação com os USA, já não é o poder mundial. Por isso, quanto mais insistir numa atitude imperial que já perdeu os alicerces, mais se arrisca a vir a sofrer, num futuro não muito longínquo, de uma subalternidade semelhante à que antes impôs a outros na era colonial.

É a esta luz que deve ser encarado o carácter suicidário da política seguida pela direita europeia no quadro da crise que a desregulação financeira do capitalismo desencadeou e potenciou. Os poderes de facto, a oligarquia capitalista, o Partido Popular Europeu, converteram-se num imenso lacrau que no meio do rio cravará o seu ferrão mortal nos povos que governa, afundando-se com eles.

A isto não se pode resistir em ordem dispersa, nem mastigando num automatismo fatal os lugares comuns da resistência, nem procurando refúgio na fraseologia cansada do combate político habitual. Os socialistas têm que se reinventar no seio da esquerda para que ajudem a esquerda a reinventar-se no seu todo.

Não é este um tempo de amanuenses da política que se limitem a executar com minúcia os rituais do passado, não é este um tempo de frases redondas que escorram mansamente ao longo da realidade sem a influenciarem, não é este um tempo de exacerbamento de detalhes com esquecimento dos combates verdadeiramente importantes.


Não se trata de inventar novidades miraculosas que resolvam num ápice problemas que já vêm de outros séculos. Trata-se de apurar o sentido crítico quanto ao que é essencial e estrutural, de recolher informação completa sobre tudo e de conjugar a radicalidade dos objectivos com o aprofundamento democrático dos caminhos e com a abrangência das alianças necessárias para os percorrer. Trata-se, em Portugal, para os socialistas, como protagonistas do principal partido de esquerda, de se prepararem organizativa e ideologicamente para responderem aos novos desafios. Trata-se de assumir na prática que um partido socialista do século XXI há-de ser necessariamente reformista e transformador, pelo que tem estar naturalmente em condições de actuar eficazmente nas instituições políticas democráticas, mas não pode deixar de se preparar também para se intrometer directamente no tecido social, como seiva e como estímulo das próprias mutações desse tecido, em indispensável sinergia com as políticas públicas que com ele se entrelacem.

No fundo, trata-se de criar condições para se poder agir de modo a conseguir-se influenciar a marcha da sociedade. Nesse aspecto o plano local é incontornável e está ao alcance de todos, pela própria natureza das coisas. E como pressuposto de eficácia da acção local, deve pensar-se a realidade sociopolítica como globalidade, para o que é indispensável enriquecer cada vez mais a informação de que dispomos e apurar o nosso espírito crítico.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A EUROPA NUMA ENCRUZILHADA

Ulrich Beck , professor da Universidade de Munique, é um eminente sociólogo alemão com grande prestígio internacional. Favorável à União Europeia, com decisiva contribuição para a compreensão da "sociedade do risco" tem procurado analisar as consequências políticas e sociais da globalização. Preocupado com a assimetria entre a intensidade com que se protegeram os bancos e a modéstia das medidas de combate ao desemprego e à pobreza, considerou que “a União Europeia se pode converter num monstro político”.


Foi entrevistado recentemente por José María Ridao , para o jornal madrileno "El Pais". Numa breve introdução diz-se sobre a sua posição quanto à actual conjuntura: " partidario de profundizar en la Unión Europea, que considera como una concreción del cosmopolitismo, contempla con preocupación los efectos de la actual situación económica y política sobre las instituciones comunes". Eis as perguntas e as respectivas respostas :


Pregunta. Debates políticos que parecían cruciales, como la inmigración o el multiculturalismo, han desaparecido de escena.

Respuesta. La crisis ha modificado por completo el paisaje de los problemas. Hace poco tiempo en Alemania se debatía, en una comisión oficial de la que formo parte, sobre la energía nuclear y el futuro de las renovables. Nadie vuelve a hablar del asunto, y esto es algo que tiene que ver con la percepción de los riesgos.

P. Los riesgos, sin embargo, no parecen nuevos, sino los de siempre: paro, recesión, pobreza.
R. Existe una conexión entre esos riesgos y los nuevos; una conexión que han percibido las generaciones más jóvenes en España y otros países europeos. Incluso, en Estados Unidos. Por un lado, los Gobiernos están empleando ingentes recursos para salvar a los bancos y las instituciones financieras; por otro, el paro o la pobreza, por no hablar de la educación o de la inversión en ciencia, no han recibido un tratamiento equivalente en la agenda política. Esta alteración de las prioridades está provocando una pérdida de legitimidad de las instituciones.
La crisis ha modificado por completo el paisaje de los problemas”

P. ¿A eso responderían movimientos como los indignados?
R. No son movimientos protagonizados por los más pobres ni por los excluidos, sino por una clase media frustrada. Constituyen un fenómeno atípico: no parten de un grupo específico ni tampoco responden a una reivindicación concreta; son transnacionales pero, a la vez, no están organizados. Podrían representar un paso importante en la redefinición de la política en un nivel superior al del Estado nación.

P. Es decir, superar lo que usted llama el "nacionalismo metodológico".
R. La democracia parlamentaria es una democracia nacional, por lo menos hasta ahora. En Alemania, por ejemplo, los jueces del Tribunal Constitucional están actuando como euroescépticos al pronunciarse contra algunas decisiones económicas con las que se ha comprometido el Gobierno con el resto de los miembros de la Unión. Creen estar defendiendo la democracia contra Europa, cuando el proyecto europeo está más allá de los planteamientos nacionales.


P. Pero el proyecto europeo no parece tener hoy otro objetivo que salir de la crisis.
Movimientos como los indignados los protagoniza la clase media frustrada”
R. Dejemos de lado la cuestión de si la gestión de la crisis será o no exitosa. O mejor, pensemos de manera optimista y digamos que sí, que será exitosa. A lo que nos estamos enfrentando, en cualquier caso, es a un cambio absoluto en la manera de entender Europa. La Unión era un espacio donde las decisiones se adoptaban de forma multilateral; ahora, sin embargo, tienden a ser unilaterales, y todas confluyendo en Berlín. La visión alemana de cómo resolver la crisis se está aplicando en un nivel europeo, lo que cuestiona el consenso que alcanzamos hace años. Como alemanes, no queríamos una Europa alemana sino una Alemania europea.


P. ¿En qué se traduce este cambio?
R. Por un lado, genera quejas de España, Portugal, Italia o Grecia, que perciben que su soberanía, o incluso su dignidad, están siendo dañadas. Por otro, molesta a los alemanes, que se dicen que, al final, tienen que pagar por todos.


P. Se afirma, sin embargo, que solo hay una política para salir de la crisis, sea o no la que defiende el Gobierno alemán.
R. Es cierto que la crisis obliga a la austeridad, en España y en el resto de los países. Pero están surgiendo nuevos conflictos en la eurozona que sobrepasan el que existía entre donantes y receptores de recursos. Estos últimos están perdiendo su voz a la hora de tomar decisiones dentro de la UE. Al mismo tiempo, se ha empezado a transmitir la impresión de que no se forma verdaderamente parte de la Unión si no se está en el euro y, como en el caso de los receptores de recursos, se está apartando del proceso de toma de decisiones a los países en esta situación. Si se mantiene semejante rumbo, y aun en el supuesto de que, como decía, la gestión de la crisis fuera exitosa, la UE se puede convertir en un monstruo político.
El paralelismo con Estados Unidos no vale. No hay una nación europea”


P. ¿Está en riesgo el proyecto de la Europa unida?
R. Desde hace unos meses, en Alemania existe un consenso, no sólido, pero al fin y al cabo un consenso, acerca de que la salida de la crisis no exige menos Europa, sino más. Creo que este consenso responde a lo que llamo el "imperativo cosmopolita", esto es, la conciencia de que no existe otra alternativa que cooperar o fracasar. Cuando se percibe que el proyecto europeo está en peligro, la inmediata reacción de los partidos políticos es reclamar más Europa. Lo sorprendente, sin embargo, es que nadie sabe exactamente qué significa eso.


P. Y, ¿qué significa?
R. Se tiene una idea confusa acerca de Europa. En ocasiones se habla de los Estados Unidos de Europa como una utopía que debería colocarse en el horizonte, y que tomaría como modelo los Estados Unidos de América. El paralelismo no vale: no es lo mismo una sociedad de inmigrantes, organizada como un único Estado y orientada hacia la idea de nación, que la situación de la que parte Europa. No hay una nación europea ni debería haberla, porque eso sería tanto como entregarse a un nacionalismo de mayor dimensión que en absoluto encaja con las diferencias que existen por historia y por cultura. A menudo, los alemanes pensamos Europa como un Estado federal. Joschka Fisher, un político al que aprecio y del que soy amigo personal, tiene esta visión. Pero existen otras.


P. Tratándose de construir Europa, da la impresión de que no hay diferencias entre derecha e izquierda.

R. En Alemania, no. Adenauer, Kohl eran firmes europeístas. Pero ahora los problemas para cada una de ambas opciones son otros. Los programas de austeridad que todos se ven obligados a aplicar se han convertido en un suicidio político para los Gobiernos, sin importar si son de derecha o de izquierda. Los socialdemócratas en Alemania están a la búsqueda de un programa, mientras que Merkel va cambiando de opinión según las necesidades para mantener el poder.


P. Y, sin embargo, sólo se habla de crisis de la izquierda. Se suele citar el caso de España.
R. Seguramente el Gobierno español ha cometido errores específicos, pero no es solo la izquierda la que está en crisis. Son también los partidos políticos. Ni la derecha ni la izquierda parecen haber adquirido conciencia de hasta qué punto la seguridad es lo que más importa a la gente de la calle.


P. Tal vez porque no pueden ofrecerla.
R. Se ha manifestado una curiosa paradoja durante estos últimos años, y es que, cuando las instituciones financieras entraron en crisis, su poder no disminuyó sino que se ha acrecentado. Todo el mundo está obligado a hablar el lenguaje económico y a entender lo que ocurre, incluidos los expertos que no supieron prever los acontecimientos. Es imposible escapar a la economía, y de ahí el incremento del poder de las instituciones financieras.


P. Que, además, es un poder transnacional.
R. La democracia está atrapada en una contradicción: permite votar y elegir Gobiernos en un sistema nacional que cada vez pierde más poder en el nivel transnacional. La política es nacional y está nacionalmente organizada, pero los problemas no son nacionales. A mi juicio, ese es el mayor problema político en estos momentos, cómo reinventar el sistema político en el nivel transnacional.

P. Reinventarlo, ¿en qué sentido?
R. Los padres fundadores de Europa fueron extremadamente inteligentes. Dijeron que Europa es, en realidad, una larga crisis, y convinieron en que construirla consistía en identificar siempre el siguiente paso político. En un momento, ese paso fue el euro, por más que ahora no tengamos ni recursos ni ideas para seguir adelante. Pero existe un profundo desfase entre la realidad de Europa que ya estamos viviendo y las instituciones, una realidad más compleja de la que se capta en los debates públicos.

domingo, 30 de outubro de 2011

OLHANDO PARA A ISLÂNDIA PARA NOS VERMOS MELHOR

A matilha cinzenta dos ideólogos neoliberais, bem como toda a rafeiragem de acólitos que lhes servem de eco, cumprindo impecavelmente a sua missão histórica de cães de guarda dos poderes de facto, em benefício dos quais o capitalismo existe e o neoliberalismo funciona, estão activos e mediaticamente omnipresentes. Querem-nos fazer crer que estamos a percorrer o único caminho possível, apresentando-nos o leque de medidas que vão tomando por conveniência dos interesses hoje dominantes, que lhes convêm a eles, penalizando os povos, como se espelhasem um imaginário interesse colectivo. Este sim, é um verdadeiro embuste que os ensurdecedores paladinos de verdades que são apenas deles tecem cinicamente, dia após dia. Para ajudar a tornar claro que estamos realmente perante um miserável embuste, vou transcrever um texto difundido hoje no site do diário espanhol “El País”, da autoria de um economista internacionalmente reputado, Paul Krugman que é professor da Universidade de Princeton, uma das mais reputadas univerisdades norte-americanas, e a quem foi atribuído em 2008 o Prémio Nobel da Economia. É um texto sobre a Islândia, mas trata de questões que estão no centro das preocupações actuais de toda a Europa, com especial relevo para Portugal. Este texto é intitulado, “Islandia, el camino que no tomamos”. Vale a pena lê-lo.

"Los mercados financieros están celebrando el pacto alcanzado en Bruselas a primera hora del jueves. De hecho, en relación con lo que podría haber sucedido (un amargo fracaso para ponerse de acuerdo), que los dirigentes europeos se hayan puesto de acuerdo en algo, por imprecisos que sean los detalles y por deficiente que resulte, es un avance positivo.
Al revés que el resto, Islandia dejó arruinarse a los bancos y amplió su red de seguridad social
Pero merece la pena retroceder para contemplar el panorama general, concretamente el lamentable fracaso de una doctrina económica, una doctrina que ha infligido un daño enorme tanto a Europa como a Estados Unidos.
La doctrina en cuestión se resume en la afirmación de que, en el periodo posterior a una crisis financiera, los bancos tienen que ser rescatados, pero los ciudadanos en general deben pagar el precio. De modo que una crisis provocada por la liberalización se convierte en un motivo para desplazarse aún más hacia la derecha; una época de paro masivo, en vez de reanimar los esfuerzos públicos por crear empleo, se convierte en una época de austeridad, en la cual el gasto gubernamental y los programas sociales se recortan drásticamente.
Nos vendieron esta doctrina afirmando que no había ninguna alternativa -que tanto los rescates como los recortes del gasto eran necesarios para satisfacer a los mercados financieros- y también afirmando que la austeridad fiscal en realidad crearía empleo. La idea era que los recortes del gasto harían aumentar la confianza de los consumidores y las empresas. Y, supuestamente, esta confianza estimularía el gasto privado y compensaría de sobra los efectos depresores de los recortes gubernamentales.
Algunos economistas no estaban convencidos. Un escéptico afirmaba cáusticamente que las declaraciones sobre los efectos expansivos de la austeridad eran como creer en el "hada de la confianza". Bueno, vale, era yo.
Pero, no obstante, la doctrina ha sido extremadamente influyente. La austeridad expansiva, en concreto, ha sido defendida tanto por los republicanos del Congreso como por el Banco Central Europeo, que el año pasado instaba a todos los Gobiernos europeos -no solo a los que tenían dificultades fiscales- a emprender la "consolidación fiscal".
Y cuando David Cameron se convirtió en primer ministro de Reino Unido el año pasado, se embarcó inmediatamente en un programa de recortes del gasto, en la creencia de que esto realmente impulsaría la economía (una decisión que muchos expertos estadounidenses acogieron con elogios aduladores).
Ahora, sin embargo, se están viendo las consecuencias, y la imagen no es agradable. Grecia se ha visto empujada por sus medidas de austeridad a una depresión cada vez más profunda; y esa depresión, no la falta de esfuerzo por parte del Gobierno griego, ha sido el motivo de que en un informe secreto enviado a los dirigentes europeos se llegase la semana pasada a la conclusión de que el programa puesto en práctica allí es inviable. La economía británica se ha estancado por el impacto de la austeridad, y la confianza tanto de las empresas como de los consumidores se ha hundido en vez de dispararse.
Puede que lo más revelador sea la que ahora se considera una historia de éxito. Hace unos meses, diversos expertos empezaron a ensalzar los logros de Letonia, que después de una terrible recesión se las arregló, a pesar de todo, para reducir su déficit presupuestario y convencer a los mercados de que era fiscalmente solvente. Aquello fue, en efecto, impresionante, pero para conseguirlo se pagó el precio de un 16% de paro y una economía que, aunque finalmente está creciendo, sigue siendo un 18% más pequeña de lo que era antes de la crisis.
Por eso, rescatar a los bancos mientras se castiga a los trabajadores no es, en realidad, una receta para la prosperidad. ¿Pero había alguna alternativa? Bueno, por eso es por lo que estoy en Islandia, asistiendo a una conferencia sobre el país que hizo algo diferente.
Si han estado leyendo las crónicas sobre la crisis financiera, o viendo adaptaciones cinematográficas como la excelente Inside Job, sabrán que Islandia era supuestamente el ejemplo perfecto de desastre económico: sus banqueros fuera de control cargaron al país con unas deudas enormes y al parecer dejaron a la nación en una situación desesperada.
Pero en el camino hacia el Armagedón económico pasó una cosa curiosa: la propia desesperación de Islandia hizo imposible un comportamiento convencional, lo que dio al país libertad para romper las normas. Mientras todos los demás rescataban a los banqueros y obligaban a los ciudadanos a pagar el precio, Islandia dejó que los bancos se arruinasen y, de hecho, amplió su red de seguridad social. Mientras que todos los demás estaban obsesionados con tratar de aplacar a los inversores internacionales, Islandia impuso unos controles temporales a los movimientos de capital para darse a sí misma cierto margen de maniobra.
¿Y cómo le está yendo? Islandia no ha evitado un daño económico grave ni un descenso considerable del nivel de vida. Pero ha conseguido poner coto tanto al aumento del paro como al sufrimiento de los más vulnerables; la red de seguridad social ha permanecido intacta, al igual que la decencia más elemental de su sociedad. "Las cosas podrían haber ido mucho peor" puede que no sea el más estimulante de los eslóganes, pero dado que todo el mundo esperaba un completo desastre, representa un triunfo político.Y nos enseña una lección al resto de nosotros: el sufrimiento al que se enfrentan tantos de nuestros ciudadanos es innecesario. Si esta es una época de increíble dolor y de una sociedad mucho más dura, ha sido por elección. No tenía, ni tiene, por qué ser de esta manera".

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CONSPIRAÇÃO

É um tempo rasteiro, este que nos atrofia como se fosse uma conjura de todos os passados, para nos separar da simples humanidade e de todo o futuro. Para transgredir a melancolia e o silêncio, recordo com saudade Joaquim Namorado, apelando à sua "Incomodidade", a um dos seus poemas. Um poema que talvez nos mostre com mais clareza as raízes da chamada crise do que as orações de sapiência televisivas com que fungíveis lacaios dos poderes económicos de facto nos brindam todos os dias. Isto, apesar de o poema ter sido publicado nos anos quarenta do século XX. Como se pode ver, se é certo que o mundo mudou muito, há algo de muito insalubre nele que está na mesma. Eis o poema:

CONSPIRAÇÃO

Estava tudo combinado,
os planos bem medidos,
não podia ter falhado.
As provas tenho-as aqui:
seus artigos e leis
− tudo bem dividido
e melhor justificado!
Que fica ao pobre que nasce?
Papas, juízes e reis
fizeram como quiseram
as suas leis.
Decretos, filosofias, ditados,
ciência rara,
ensinam que foi assim,
pela ordem natural.
Mas, por mim,
não me conformo:
Fui roubado! Fui roubado!

[Joaquim Namorado, in "Incomodidade", 1945]

domingo, 16 de outubro de 2011

SINAIS DE ALARME E DESAFIOS

1. As manifestações que, no sábado passado, ocorreram, um pouco por todo o mundo, mostraram que há uma enorme energia política de resistência aos automatismos predatórios do capitalismo dominante. Mas, olhando-se para as imagens mediáticas mais correntemente difundidas, verifica-se que não predominavam entre os manifestantes sinais que sugerissem uma identificação clara daquilo que é essencial combater-se. na verdade, embora abundassem as críticas a muitos dos frutos da árvore que tem que ser destruída, raramente ela foi explicitamente mencionada.

Também parece predominar a opção pela acção não-violenta e uma inequívoca vontade de aprofundamento da democracia. Por outro lado, em muitos casos, explicitam-se reivindicações dirigidas a uma entidade outra, talvez o Estado de cada um dos países, como se no horizonte se perfilasse a ambição predominante de ver uma entidade omnipotente resolver os problemas individuais de cada um dos manifestantes (ou dos seus próximos) e de corresponder aos seus sonhos e às suas legítimas ambições.

Esta perspectiva é ilusória, ainda que provavelmente seja uma primeira etapa que tem que ser percorrida como experiência. O próprio facto de os manifestantes se assumirem como "indignados" é emocionalmente forte, eticamente legítimo, mas politicamente fraco. Há aqui muito caminho a percorrer. Se não se perderem na névoa da desilusão e do desânimo, ou se não se extraviarem por caminhos fechados, tenderão a aprender que só colherão os frutos que eles próprios gerarem, ou em cuja gestação participarem decisivamente. Poderão agir a partir das suas próprias forças num protagonismo totalmente autónomo; ou procurarem sinergias e alianças com todas as forças políticas, sociais e culturais que se movam com base em lógicas diferentes da lógica capitalista, ou que inscrevam num horizonte pós-capitalista o sentido último da sua identidade histórica.

Esta última via parece-me a mais fecunda e a mais desejável. Se vier a verificar-se a sua impossibilidade, os riscos de dissipação de toda esta energia política, ou de conversão em alternativas violentas, que subalternizem a democracia, aumentam. E, de algum modo, podem ser, em si próprios, a materialização antecipada de um fracasso. Por isso me parece importante apostar-se no caminho mais cooperativo.


2. Mas se este levantamento pacífico universal, que dá os seus primeiros passos, for aniquilado ou esvaziado, não serão só os seus protagonistas os derrotados. Toda a esquerda será derrotada. E dentro dela terá contornos mais dramáticos a derrota da esquerda que se reconhece no Partido Socialista Europeu e á escala mundial no significado histórico (hoje adormecido) da Internacional Socialista. E isto será particularmente nítido no quadro europeu, no âmbito da União Europeia.

Na verdade, tem sido esta a componente da esquerda que mais frequentemente tem assumido responsabilidades governamentais, talvez por ser aquela que, em regra, dispõe de maior peso eleitoral. Por isso mesmo, é-lhe imputada uma parte da responsabilidade política pela situação actual, o que torna um processo ainda mais complexo a sua aproximação institucional com o movimento dos "indignados". Mas nem estes têm, em tempo útil, hipótese de uma intromissão directa nas esferas institucionais de decisão política, sem a sua inserção nos partidos socialistas, nem estes últimos têm qualquer hipótese de uma governação, que reflicta os seus valores e projecte na prática a sua identidade histórica, sem uma dinamização convergente dos movimentos sociais, os quais só podem verdadeiramente atingir os seus objectivos e multiplicarem-se, num contexto de inconformismo social assumido, como aquele agora protagonizado pelos "indignados".

Não afasto por completo a possibilidade do entrelaçamento do movimento dos "indignados" com as outras esquerdas, aliás aparentemente muito mais fácil. Mas, nesse caso, haverá duas dificuldades que embaraçam o potencial de mudança dessas possíveis aproximações. Por um lado, embora daí possa sair um alargamento das frentes de protesto, dificilmente se entrará numa dinâmica transformadora da sociedade, conducente a outros modos de viver e de produzir. Por outro lado, sem absolver por completo os socialistas da tentação instrumentalizadora, não é realista ignorar-se que nas outras esquerdas essa tentação está inscrita muito mais profundamente no respectivo código genético. Ora, quanto maior for o êxito das tentativas de instrumentalização dos "indignados" maior será o risco da sua banalização; e consequente enfraquecimento.


3. E se olharmos, mesmo num breve relance, para o que se passa na vida recente dos partidos que integram o Partido Socialista Europeu, podemos verificar sem pessimismo que se acumulam sinais de alarme. Sem empolarmos a relevância dos resultados do PS nas recentes eleições na Madeira, não os podemos desconsiderar por completo: foram os piores desde a refundação da nossa democracia em 1974. Se olharmos para a Polónia, constatamos que os sociais-democratas polacos permanecem enterrados na irrelevância política, abaixo dos dez por cento, tendo sido ultrapassados por um partido de uma esquerda atípica, surgido de novo; e continuando assim a permitir que a alternativa de governo na Polónia se jogue entre liberais e conservadores. Para quem, no fim dos anos 90 do século XX, tinha feito eleger um Presidente da República e era o partido claramente liderante de um governo de esquerda é certamente uma enorme provação e um dramático retrocesso. Talvez, em parte, deva agradecer a sua decadência à docilidade com que seguiu Blair na sua lamentável aventura iraquiana. Os sociais-democratas dinamarqueses, à frente de uma coligação de esquerda, voltaram ao Governo, depois de uma cura de oposição de mais de dez anos, apesar de, enquanto partido isolado, terem tido os piores resultados dos últimos cem anos. Na Alemanha, em sucessivas eleições estaduais, tem-se solidificado o feliz prenúncio de uma derrota da direita, nas próximas eleições federais. Mas o Partido Social-democrata Alemão (SPD), força nuclear do PSE, tem beneficiado muito modestamente do recuo das direitas. Pelo contrário, têm sido os Verdes a aproveitá-lo, perfilando-se no horizonte um acréscimo espectacular da sua relevância política, em detrimento do SPD.

Neste panorama cinzento do espaço socialista europeu, irrompeu recentemente um sinal de efectiva novidade. Realmente, as primárias abertas a toda a esquerda, organizadas pelos socialistas franceses para escolher o candidato presidencial que vão apoiar, transformaram-se num facto político de enorme repercussão em França. O PSF tinha apontado um milhão de votantes como o patamar cuja superação significaria um êxito político claro. Na primeira volta, votaram mais de dois milhões e seiscentos mil eleitores e na segunda volta, disputada entre os dois candidatos mais votados na primeira, votaram mais de dois milhões e oitocentos mil votos, tendo triunfado François Hollande. Sabendo-se que o universo de membros inscritos no PSF ronda os cento e vinte mil, pode avaliar-se o significado e a importância das referidas primárias abertas.


4. Dada a história recente e a importância do PS na cena política portuguesa, compreende-se que ele esteja a atravessar uma fase muito complexa e difícil da sua vida. Mas não pode olvidar-se como é crucial, para si e para o país, que ouse viver uma metamorfose que verdadeiramente o coloque à altura dos desafios que o esperam. Por isso, o processo de alteração dos estatutos não pode vir a reduzir-se a uma sombra empobrecedora do que seria necessário pôr em prática.

É assim imprescindível que acordem os que tenham caído na ilusão perigosa de que a alteração dos estatutos do PS pode não ir além de uma esgrima subtil entre vírgulas e pontos finais, de um regateio entre artigos e alíneas, de um deslizar ronceiro de "poréms " e "todavias".

Em suma, não se pode repousar numa simples engenharia artesanal concebida para tapar pequenos buracos ou para espalhar subtis armadilhas mansas, destinadas a apanharem, com a doçura possível, algum infractor mais descarado ou mais estúpido. Isto é, todos aqueles que verdadeiramente seria escandaloso não deslegitimar. Percorra-se, pois, esse previsível rosário de pequenos detalhes, mas não se esqueça que eles apenas são uma modesta parte da superfície do que deve ser feito.

Usando uma metáfora clarificadora, é urgente deixarmos de ser um partido unidimensional, para darmos um passo inequívoco rumo à pluridimensionalidade. Ou seja, há que prosseguir na procura de uma melhoria clara da nossa capacidade de intervenção institucional, como partido que aspira exercer o poder democrático, em todas as instâncias do Estado Português e da União Europeia. Há mesmo que procurar o reforço dessa vocação, estreitando e enriquercendo os nossos laços com os cidadãos que integram o espaço social que se identifica politica e ideologicamente com o PS; e, muito especialmente, com o nosso eleitorado fiel, mesmo que sem menosprezo por aqueles que apenas irregularmente nos apoiam.

E, para isso, uma das vias mais relevantes é a realização de eleições primárias abertas para a escolha dos candidatos do PS a todas as eleições, com a natural diferenciação de processos correspondente às diferenças que as distinguem. Após o que se passou com os socialistas franceses seria de uma enorme miopia política insistir nos preconceitos que aprisionam o PS numa estrutura obsoleta e em preconceitos organizativos claramente passadistas.

Mas não basta ficarmos por aqui. É preciso criar raízes mais fundas na sociedade em que vivemos. E só um radical arejamento cívico pode dar ao PS energia para passar a ter um papel novo como impulsionador, aliado e globalizador dos movimentos sociais radicados em lógicas não-capitalistas. E só uma energia poderosa e nova o pode conduzir a essa nova intervenção em territórios politico-sociais dos quais sempre esteve ausente. Complementarmente, a intromissão do PS em novos territórios de acção política socialmente relevantes será um enorme factor de aproximação do PS aos movimentos de "indignados". Aprendendo a mover-se como força dinamizadora das sinergias entre estes três pólos, o PS terá alcançado a renovação de que necessita e terá oportunidade de viver a desejada metamorfose.


5. Por isso, repito-o, parece-me de uma enorme miopia política reduzir um indispensável processo de renovação do PS, com a amplitude suficiente para provocar a sua metamorfose, a uma modesta reforma estatutária, que não seja mais do que uma caricatura do que é realmente necessário.

Os sinais de aviso e de alarme vão-se acumulando. Ignorá-los pode ser devastador. Nas ruas parece crescer a indignação da esperança. Se não queremos murchar em conjunto com este tipo de sociedade, gerador de injustiça e potenciador de desigualdade, temos que ser capazes de fundir generosidades sem arrefecer a revolta. Mas, para isso, temos que ir muito além das rotinas mansas que se apossaram da luta política, fazendo com que ela mais pareça um ritual destinado a cumprir calendário, do que um combate que não se pode perder.