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terça-feira, 26 de maio de 2020

3- UM LIVRO, UM POETA – Carlos de Oliveira


3- UM LIVRO, UM POETA – Carlos de Oliveira



Carlos de Oliveira  nasceu no Brasil, em Belém do Pará, em1921 e faleceu em Lisboa, em 1981. Regressou a Portugal com a família, nos primeiros anos de vida. Fixou-se em Febres, onde o pai exerceu medicina. Em 1941 ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 1947 licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Pouco depois, foi viver para Lisboa.

Através do seu livro, “Turismo” (1942), participa na colecção “Novo Cancioneiro”, um dos marcos fundadores do neo-realismo no campo da poesia.  Em 1976, reúne toda a sua poesia em dois volumes, sob o título de "Trabalho Poético”. Hoje publicamos dois  poemas saídos no primeiro.



Em 2011, escrevi neste mesmo blog, a seguinte frase, a propósito do mesmo poema que aqui vou recordar hoje: Quando os filhos das Parcas encharcam de um medo cinzento e abafado os caminhos do futuro, os poetas podem ajudar-nos a varrer com a luz da esperança este tempo de abutres. Convoquemos hoje um grande poeta da língua portuguesa, do século XX, de Coimbra. Deixemos que
Carlos de Oliveira nos ofereça o seu "Soneto".
Hoje, acrescento-lhe uma cantiga própria daquele tempo de chacais

Soneto

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:

até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros? 



quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia Mundial da Poesia - 2 poemas de Carlos de Oliveira


DOIS POEMAS DE CARLOS DE OLIVEIRA


Participando na celebração do  Dia Mundial da Poesia , evoco Carlos de Oliveira (1921/81), através de dois dos seus seus poemas. E assim homenageio também todos os poetas do "Novo Cancioneiro", bem como toda a resistência poética  ao fascismo português.



Acusam-me de mágoa e desalento
*     
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança. 


Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros? 


[ in "Mãe Pobre"]

sexta-feira, 3 de abril de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 3




Carlos Oliveira  nasceu no Brasil, em Belém do Pará, em1921 e faleceu em Lisboa, em 1981. Regressa a Portugal com a família, nos primeiros anos de vida. Fixa-se em Febres, onde o pai exerceu medicina. Em 1941 ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 1947 licencia-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Pouco depois, vai viver para Lisboa.

Através do seu livro, “Turismo” (1942), participa na colecção “Novo Cancioneiro, um dos marcos fundadores do neo-realismo no campo da poesia.  Em 1976, reúne toda a sua poesia em dois volumes, sob o título de "Trabalho Poético”. Hoje publicamos um poema saído no primeiro.

Em 2011, escrevi neste mesmo blog, a seguinte frase, a propósito do mesmo poema que aqui vou recordar hoje: Quando os filhos das Parcas encharcam de um medo cinzento e abafado os caminhos do futuro, os poetas podem ajudar-nos a varrer com a luz da esperança este tempo de abutres. Convoquemos hoje um grande poeta da língua portuguesa, do século XX, de Coimbra. Deixemos que Carlos de Oliveira nos ofereça o seu "Soneto".

Soneto

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

ATÉ QUE O MURO FENDA!

Quando os filhos das Parcas encharcam de um medo cinzento e abafado os caminhos do futuro, os poetas podem ajudar-nos a varrer com a luz da esperança este tempo de abutres. Convoquemos hoje um grande poeta da língua portuguesa, do século XX, de Coimbra. Deixemos que Carlos de Oliveira nos ofereça o seu "Soneto".

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

domingo, 28 de outubro de 2007

Três poemas de Carlos de Oliveira




Carlos de Oliveira foi um dos poetas do neo-realismo que mais fundas marcas deixou na tradição poética portuguesa. Se lermos hoje os seus poemas, com a fraternidade de quem com ele partilha horizontes que não se perdem, podemos sentir como sofria profundamente as palavras com que esculpia os seus versos, tensos de beleza e amargura.


Vou recordar três dos seus poemas, homenageando-o. A ele e à própria poesia.



1. Cantiga do Ódio


O amor de guardar ódios

agrada ao meu coração,

se o ódio guardar o amor

de servir a servidão.

Há-de sentir o meu ódio

quem o meu ódio mereça:

ó vida, cega-me os olhos

se não cumprir a promessa.

E venha a morte depois

fria como a luz dos astros:

que nos importa morrer

se não morrermos de rastros?



2. Elegia de Coimbra


Gela a lua de março nos telhados

e à luz adormecida

choram casas e os homens

nas colinas da vida.


Correm as lágrimas ao rio,

a esse vale das dores passadas,

mas choram as paredes e as almas

outras dores que não foram perdoadas.


Aos que virão depois de mim

caiba em sorte outra herança:

o oiro depositado

nas margens da lembrança.



3. Soneto


Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos

não fosse carne vossa, homens dispersos,

e a minha dor a tua, pensamento.


Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro

da noite que nos cerca como um muro,

e chegares a teus reinos, alegria.


Entretanto, deixai que me não cale:

até que o muro fenda, a treva estale,

seja a tristeza o vinho da vingança.


A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor perscruta,

maior glória tem em ter esperança.