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sábado, 4 de janeiro de 2020

Ainda a conspiração contra o Papa Francisco



Ainda a conspiração contra o Papa Francisco
A mesma fonte da mensagem anterior conduziu-me a tomar conhecimento de um outro texto sobre o tema da conspiração contra o atual Papa centrada nos USA.
É um texto de Eduardo Febbro, correspondente em França do jornal argentino Página 12, publicado na Carta Maior de 17/09/2019, que funciona como introdução a uma entrevista ao jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico La Croix, em Roma, publicada inicialmente no Página/12.
Eis o texto acima referido:
 “Para mim, é uma honra que os norte-americanos me ataquem”, disse o Papa Francisco quando o jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico La Croix em Roma, mostrou a ele o livro-reportagem sobre o complô estadunidense contra o seu papado, durante a viagem de avião que os levou a Moçambique. O título da obra é “Como a América atua para substituir o Papa” (o título original é “Comment l’Amérique veut changer de Pape”).
Os detalhes desse complô e os nomes dos protagonistas e dos grupos envolvidos estão claramente expostos nas páginas do livro, que descrevem, desde o seu início, a mecânica da hostilidade contra o papado atual. O operativo tem até o nome de “Relatório Chapéu Vermelho” (“The Red Hat Report”). Um círculo preciso que move dinheiro e influência e é organizado pelos setores ultraconservadores e de mega milionários dos Estados Unidos. As peças deste jogo de calúnias e poder se encaixam em um complexo quebra-cabeças, que os adversários do pontífice vêm armando nos últimos anos. O golpe começou a ser fomentado em Washington, no ano de 2018. O grupo de ultraconservadores se reuniu na capital norte-americana para fixar duas metas: atingir a figura de Francisco da forma mais destrutiva possível e adiantar sua sucessão, para escolher, entre os atuais cardeais, o mais adequado aos interesses conservadores.
O “Relatório Chapéu Vermelho” foi organizado por um grupo de ex-policiais, ex-membros do FBI (Departamento Federal de Investigações dos Estados Unidos), advogados, operadores políticos, jornalistas e acadêmicos que trabalharam no estudo da vida e das ideias de cada um dos cardeais, com o fim de destruir as carreiras dos que não interessam, ou beneficiar as daqueles que pretendem impor como substituto de Francisco, quando chegue o momento oportuno. E enquanto esse momento não chega, o grupo busca preparar o terreno para o que Senèze chama de “um golpe de Estado contra o Papa Francisco”.
Em uma manhã de 2017, Roma amanheceu coberta com cartazes contra o Papa. Foi o primeiro ato da ofensiva: o segundo, e certamente o mais espetacular, aconteceu em agosto de 2018, quando, pela primeira vez na história do Vaticano, um cardeal tornou pública uma carta exigindo a renúncia de Francisco. O autor foi o monsenhor Carlo Maria Vigamo, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos. O correspondente do La Croix no Vaticano detalha a odisseia maligna deste grupo de poder em sua missão por tirar do caminho um Papa cujas posições contra o neoliberalismo, contra a pena de morte, a favor dos imigrantes e sua inédita defesa do meio ambiente através da encíclica Laudato Sí promove uma corrente contrária à desses empresários. Os conspiradores não têm nada de santos: são adeptos da teologia da prosperidade, possuem empresas ligadas mercado financeiro e de seguros, e estão envolvidos até com a exploração da Amazônia. Francisco é uma pedra em seus sapatos, uma cruz sobre suas ambições.
Segundo Senèze, organizações de caridade como “Os Cavaleiros de Colombo” (que possuem cerca de 100 bilhões de dólares, graças às companhias de seguros que administram), o banqueiro Frank Hanna, a rede de meios de comunicação Eternal World Television Network (EWTN), cujo promotor (o advogado Timothy Busch) também é criador do Instituto Napa, que tem a missão de difundir “uma visão conservadora e favorável à liberdade econômica”, estão entre os membros mais ativos do complô. Mas também há outros, como George Weigel e seu famoso think tank, o Centro de Ética e Política Pública.
No diálogo com o jornal argentino Página/12, Senèze fala sobre a trama que, apesar do poder de suas, ainda não foi capaz de derrubar o Papa.

Pergunta: Parece uma história de novela, mas é uma história real. O Papa Francisco foi e é objeto de uma das campanhas mais densas já vistas contra um sumo pontífice.
Nicolas Senèze: O Papa Francisco não serve aos interesses desse grupo de empresários ultraconservadores, e por isso decidiram atacá-lo. Atuam como se fosse o conselho de administração de uma empresa, quando se despede o diretor porque ele não alcançou os objetivos desejados. Essa gente conta com enormes recursos financeiros, e mesmo assim, durante o mandato de Francisco, não conseguiram influenciar sua linha de pensamento. Por isso, começaram a se aproximar de pessoas de dentro da Igreja que também estão contra Francisco. Algumas delas, como o monsenhor Vigamo, chegaram a exigir publicamente sua renúncia. Creio que esse grupo de ultraconservadores superestimaram suas forças. O monsenhor Carlo Maria Vigamo, por exemplo, não calculou a lealdade das pessoas dentro do Vaticano, que não estavam dispostas a trair o Papa, mesmo as que são críticas de Francisco.
Pergunta: A operação que organiza o “Relatório Chapéu Vermelho” tinha dois objetivos, um para agora e outro para o futuro.
Senèze: Efetivamente. Como não puderam derrubar o Papa, tentam agora uma nova estratégia. Francisco tem 84 anos, e podemos pensar que estamos cerca do fim do seu pontificado. O que estão fazendo é preparar o próximo conclave. Para isso, estão investindo muito dinheiro, contratado ex-membros do FBI para preparar dossiê sobre os cardeais que participarão da eleição. O primeiro objetivo é destruir aqueles que têm a intenção de continuar as reformas aplicadas pelo Papa Francisco. Depois, buscar um substituto adequado aos seus interesses. O problema desta meta é que, ao menos até agora, não eles não contam com nenhum candidato verosímil. Não será fácil para eles. Entretanto, podem ir bem no trabalho de arranhar a credibilidade dos candidatos reformistas, e dessa forma, podem levar à eleição de um reformista fraco e manipulável, que ceda a pressão em favor de desmontar as reformas de Francisco. Para isso, contam com muito poder econômico e influência. Creio profundamente que a maioria dos católicos norte-americanos respaldam o Papa Francisco. Mas nos Estados Unidos, a quantidade não basta. O que fala mais alto é o fator dinheiro.
Pergunta: Esses grupos já existiam antes, mas nunca atuaram com tanta força.
Senèze: São empresários com enormes meios à sua disposição. Cada um deles foi criando seu grupo de reflexão dentro da Igreja, sua escola de teologia, sua universidade católica, sua equipe de advogados para defender a liberdade religiosa. É uma nebulosa operação, que funciona mediante uma rede de instituições privadas, e que chegou para dominar o catolicismo norte-americano. São, por exemplo, aqueles que doaram muito dinheiro para ajudar as dioceses estadunidenses que tiveram que pagar enormes indenizações após a revelação dos casos de abuso sexual. Por isso, podem impor uma direção ideológica a essas dioceses. Por exemplo, Tim Busch está presente em todas as etapas dessa montagem. Para proteger poderosos interesses econômicos na Amazônia, esses grupos usam toda a sua força para desviar a atenção e evitar, assim, a promoção de ideias em defesa da ecologia. Trabalham sempre para distrair a atenção dos debates fundamentais. Por exemplo, nos sínodos, buscam impor seus pontos de vista, ou seja, seus interesses.
Pergunta: E como um grupo tão poderoso pode deixar que Francisco fosse eleito Papa?
Senèze: Não perceberam que isso ocorreria, porque a eleição de Francisco foi resultado de uma dinâmica que envolveu outras necessidades: este Papa foi eleito devido à crise no seio da instituição, graças à vontade dos bispos do mundo inteiro de recuperar a após anos de problemas gerados por erros do passado, que levaram, por exemplo, à omissão diante dos casos de abuso sexual. Bergoglio se impôs porque era o mais disposto a reformar essa Igreja. Mas sua ideologia choca com a visão que os católicos ultraconservadores dos Estados Unidos têm sobre qual é o papel da Igreja. Além disso, outro ingrediente próprio do catolicismo estadunidense é o desprezo dos católicos brancos pelos latinos. O setor conhecido pela sigla WASC (“white anglo saxon catholics”, ou “católicos brancos anglo-saxões”) odeia os latinos, os considera pobres fracassados. Os WASC são muito influenciados pela teologia da prosperidade difundida pelos evangélicos.
Pergunta: Donald Trump atua nesse jogo?
Senèze: Não creio que Trump tenha muitas convicções próprias. Ele certamente os escuta, mas quem tem mais proximidade com esse setor é o vice-presidente Mike Pence. As diferenças entre Washington e o Vaticano são muitas: o tema da pena de morte, a postura de Francisco contrária a um liberalismo fora de controle, entre outras. O Papa, é hoje um dos principais opositores aos fundamentos do poder econômico dos Estados Unidos.
                [Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli         veja também em Carta Maior de 17/9/2019]


Conspiração contra o Papa Francisco




Conspiração contra o Papa Francisco

Uma mensagem da Clara Alvarez que me foi reenviada pelo Hélder Costa, chamou-me a atenção para um texto do eminente teólogo brasileiro Leonardo Boff, publicado em 29 de dezembro de 2019 na Página Digital Brasil 247. Aí é posto a nu um “complô dos Estados Unidos contra o Papa Francisco”.
Num sugestivo excerto do texto que o encabeça, pode ler-se: "Pela primeira vez, um Papa se opõe diretamente ao sistema econômico que, no afã de acumular de forma ilimitada, explora nações, manipula mercados, cria milhões de pobres e agride gravemente os ecossistemas, pondo em risco o futuro da vida na Terra".
Eis a transcrição do texto de editLeonardo Boff:

É importante que os católicos, os cristãos e pessoas interessadas em assuntos religiosos saibam da enorme e até perversa campanha articulada por multibilionários estadounidenses, ultraconsrevadores, junto com pessoas de dentro do Vaticano, ocupando altos cargos, interessados em distorcer suas doutrinas, criticar suas práticas pastorais e diretamente difamar a pessoa do Papa Francisco.
E há uma razão manifesta para esta campanha (que supomos ter representantes também no  Brasil) porque, pela primeira vez, um Papa se opõe diretamente ao sistema econômico que, no afã de acumular de forma ilimitada, explora nações, manipula mercados, cria milhões de pobres e agride gravemente os ecossistemas, pondo em risco o futuro da vida na Terra.
Sua encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) dirigida a toda a humanidade, recebe  grande rejeição destes grupos radicais de direita que se apresentam como piedosos. Frustrados por não conseguirem fazê-lo renunciar (são demasiadamente ingênuos e confiantes em seu poder financeiro), propõem-se a elaborar dossiers detalhados com o auxílio de  agentes da FBI sobre os futuros cardeais, favorecendo o mais que podem aqueles que podem servir a seus interesses e atacando duramente aqueles que talvez prolongarão a agenda do Papa Francisco, submetendo-os a grandes constrangimentos com fake news, inverdade e calúnias.
Estes opositores figadais sabem da  reconhecida liderança moral e também ético-política do Papa Francisco sobre a opinião pública mundial e sobre outros chefes de Estado que apreciam sua coragem, sua sinceridade, seu carisma e seu entranhável amor aos pobres e aos imigrados de África e do Oriente Médio, fugindo da fome e das guerras a caminho da Europa.
De seu círculo bem próximo viemos saber que o Papa se comporta de forma soberana, dorme como uma pedra das 9:30 da noite às 5:30 da manhã e vive o espírito das bem-aventuranças evangélicas da perseguição e difamação. Confiamos no Espírito que conduz a história. Também na Igreja de Deus e nas orações das pessoas de mente pura para que as maquinações maliciosas destes grupos poderosos sejam totalmente frustradas. Elas não vem de Deus mas de um espírito impuro e mau.”


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”




“Uma outra economia, uma outra vida. Um ir além do tipo de economia em que vivemos. Sair do capitalismo para se sobreviver como humanidade. Não estamos perante sonhos de nefelibatas ou perante uma radicalidade utópica de ressonância extremista. Estamos perante uma emergência antropológica que não é apenas a tonalidade necessária a qualquer política de esquerda, é uma condição de sobrevivência da humanidade. Também nos convoca para essa urgência o desarmado Chefe de Estado do Vaticano.”

Há alguns dias, escrevi no FB o parágrafo que acima reproduzo, como introdução à partilha de um artigo da autoria do jornalista Carlos Drummond, divulgado na página virtual da importante revista brasileira de grande circulação “CartaCapital”, em 9 de dezembro.

O artigo comenta uma iniciativa do Papa Francisco que irá decorrer em Itália no próximo mês de março. É estranho que a justificada atenção que a nossa grande comunicação social presta ao Papa tenha deixado passar em branco uma informação tão relevante. Estranho, mas compreensível. Basta ler o artigo. O poder mediático dominante, embora procure disfarçá-lo, ainda não aprendeu a digerir por completo este Papa.

O artigo tem como título: “Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”. Ei-lo:

“Estruturada com o auxílio do americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Nobel
Mais de 2 mil jovens de 120 países confirmaram até agora a participação no encontro Economia de Francisco, de 26 a 28 de março de 2020 na cidade de Assis, Itália. Convocada pelo papa e estruturada com o auxílio do economista americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Prêmio Nobel. A reunião pretende repensar, debater e buscar novos rumos para a economia mundial, hoje dedicada de modo quase exclusivo aos interesses de maximização dos lucros de empresas e de poucos indivíduos, de modo a direcioná-la para a proteção da maioria e do meio ambiente. As atividades preparatórias no Brasil incluíram um encontro com cerca de 500 interessados no fim de novembro, na PUC de São Paulo. O País terá 30 representantes vinculados a diferentes experiências.
Inovador no conteúdo e no formato, o encontro pretende debater experiências e promover rodas de conversa em substituição às tradicionais exposições de papers e mesas-redondas. A liderança caberá a jovens de até 35 anos, entre acadêmicos, agentes comunitários e empreendedores. A iniciativa floresceu em maio, quando o papa e Stiglitz comprometeram-se a trabalhar em conjunto para promover globalmente uma “economia social” que “olha para o futuro com a voz dos jovens em mente”.
Os dois advertiram sobre os problemas de certas formas de economia de mercado que incentivam o comportamento individualista e invertem papéis. “É necessário aprofundar as discussões sobre questões sociais e as mudanças geradas pela globalização nas sociedades, bem como pensar em ideias concretas sobre o que devemos fazer para a tecnologia e os mercados servirem à humanidade, e não o contrário”, propôs Stiglitz. É fundamental, alertou, “trabalhar na educação de sistemas alternativos que não adoram dinheiro. Temos de tentar desenvolver programas e estudos sobre o conceito de economia circular, que contribuam para uma educação que esteja ciente dos limites do meio ambiente e que ensine a devolver ao ambiente o que é retirado dele”.
A convocação feita pelo papa sugere um encontro inédito sobre economia: “Estou escrevendo para convidá-los a uma iniciativa que tanto desejei, um evento que me permita conhecer quem hoje está se formando e está iniciando a estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda. Um evento que nos ajude a estar juntos e nos conhecer, e que nos leve a fazer um ‘pacto’ para mudar a atual economia e dar uma alma à economia do amanhã”, conclamou Francisco.
 “Na ‘Carta Encíclica Laudato si’”, prossegue o papa, “enfatizei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente conectado e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial. É necessário, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”.
Estima-se que a liderança mundial do papa, realizador do Sínodo da Amazônia, em outubro, durante o auge de queimadas na floresta, contribuirá para tornar o evento um marco na crítica à economia dominante.
A iniciativa convergirá em torno de três grandes eixos, detalhados durante o evento preparatório na PUC-SP pela professora Patricia Dorneles, vice-coordenadora do curso de graduação em terapia ocupacional da UFRJ. O primeiro são as linhas gerais e as perspectivas de articulação de outra economia, inclusiva, marcada pela justiça social, ética e humanismo. O segundo eixo é a agregação e valorização das práticas concretas que incluem, no País, “inúmeras experiências de economia solidária, agroecológicas, de bancos de crédito comunitários, criação de novas moedas, atividades de economia criativa, de controle territorial de produção e distribuição”.
O terceiro eixo, prossegue, são as mudanças nos currículos das faculdades de economia no mundo. “Não podemos pensar em outra economia se formarmos economistas a partir de uma concepção única ou absolutamente voltada para a competição e as técnicas, muitas delas antiéticas, que geram sofrimento e privações a grande parte da população. O chamamento do papa é no sentido de os participantes formularem nova orientação curricular para formar economistas humanistas e integradores”, sublinha a professora.

A necessidade de reformular o ensino de economia para colocá-la a serviço da sociedade é debatida há anos. Segundo o especialista Andrew Mearman, da Universidade West of England, apesar de os currículos da maior parte dos cursos denotarem a concepção de que as habilidades necessárias aos profissionais da área são essencialmente a capacidade de elaborar matemática de alto nível e reproduzir os pontos centrais de determinada linha de pensamento, vários estudiosos reconhecem o caráter essencial do conhecimento de humanidades na solução de problemas complexos que exigem saber econômico combinado à flexibilidade de pensamento, insights de outras disciplinas e consciência da realidade social e política do país e do mundo. Muitos dos seus colegas de ofício não conseguiram entender a crise de 2008, diz o professor, por nunca terem estudado história nem o fenômeno da desigualdade.
O evento é uma resposta inovadora à “gritante, absurda, insuportável e injusta desigualdade social e à crise ecológica provocada pela mudança climática”, analisa o sociólogo Michael Löwy, diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, um dos participantes dos debates na etapa brasileira. A degradação do meio ambiente e da natureza e a degradação humana e ética estão intimamente ligadas, analisa Löwy, porque são consequências do sistema. “Não é, portanto, só problema de comportamento individual de um ou de outro, de tal ou qual empresário, banqueiro ou chefe de governo. É de um sistema que ignora valores humanos, éticos, espirituais, naturais, porque esses valores escapam ao cálculo financeiro, do mercado. É uma economia que mata.”
A necrofilia do sistema vitima principalmente negros, denunciou outra participante do debate, Eleonora Aparecida Alves de Souza Domingos, fundadora da ONG Projeto Caminhos, de preservação da cultura negra e de matriz africana. “Hoje sofremos no Brasil a intolerância, a violação, a queima de templos. Apesar disso, mantemos um coletivo que resiste numa cidade essencialmente evangélica e abriga jovens negros em situação de vulnerabilidade social. Eles chegam sem sonhos em busca do acolhimento do terreiro. Nós resistimos à desigualdade e àqueles que insistem em não respeitar a nossa religiosidade. O que mais o povo negro tem é ousadia de viver num país tão racista”, diz a mãe de santo.
A mudança do modelo econômico requer enfrentamentos, acredita Dennis de Oliveira, professor de jornalismo na USP, e um dos mais importantes deles é a luta contra o racismo, pois não se constrói democracia e justiça excluindo 54% da população. “À medida que o capital fica mais concentrado, a população negra, originária, é a que mais perde direitos. No Brasil, a cada 23 minutos um jovem ou uma jovem negra é assinada. O projeto de uma nova economia é também o projeto de um novo modelo de civilização, de ruptura com esse sistema estruturalmente perverso”, sublinha o professor.

Os extremos atingidos pela crise múltipla indicam a insuficiência das respostas convencionais e clamam por mudança de paradigmas. “A proposta da Economia de Francisco é uma busca pelo comum no lugar do individual, pela gestão comunitária no lugar da puramente privada. É a certeza de que o ideário neoliberal e a sua busca constante por competitividade não dá conta de prover as necessidades da maior parte da sociedade”, resume a economista Neusa Serra, professora de políticas públicas da Universidade Federal do ABC e integrante do grupo de Articulação Brasileira.
“Na Economia de Francisco não há lugar para a acumulação infinita nem para paraísos fiscais. Isso pressupõe a defesa de imposto diferenciado sobre grandes fortunas, artigos de luxo e supérfluos, taxação dos lucros e dividendos, capital improdutivo e movimentações financeiras internacionais”, dispara Célio Turino, historiador, consultor em políticas públicas e outro integrante da Articulação Brasileira.

A proposta da Economia de Francisco não se resume a uma reunião de gente de boa vontade empenhada em realizar um diagnóstico e cogitar alternativas. “O evento vem oxigenar a visão da economia que está muito circunscrita aos ditos especialistas que em geral não dão conta do recado. É uma forma de puxar a economia para a vida real e dizer que o que vem sendo feito não resolve nada. Acho muito importante”, sublinha o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial desta revista. “O debate ficou empobrecido, porque a economia foi considerada um espaço especial na vida dos indivíduos e não é, como vem mostrando o próprio Stiglitz em seus trabalhos e também o economista Robert Skidelsky. É isso que está em questão, as abstrações que não têm ancoragem na vida real. Há uma saturação, uma insatisfação diante do aprisionamento da economia num modelo abstrato ruim.”
Alguns dos trabalhos selecionados para representar o Brasil em Assis ilustram a diversidade de atividades e de propostas desenvolvidas pelos participantes.
Vitor Hugo Tonin, assessor econômico do Sindicato dos Químicos Unificados, trabalha no desenvolvimento da plataforma Livres Rede de Produtos do Bem, que permite o contato direto entre produtores e consumidores, elimina intermediários, custos e lucros de quem não está produzindo nada, aproxima produtor de consumidor e busca um consumo consciente. “No caso de alimentos”, detalha, “procuramos promover produtos sem agrotóxicos, da agricultura familiar e orgânicos. Visa também eliminar intermediários de serviços que monopolizam mercados simplesmente por serem proprietários das plataformas digitais como os prestadores de serviços do tipo Uber e aplicativos de entregas em domicílio.”
O assessor técnico parlamentar David Deccache pesquisa no doutorado em Economia da UnB as possibilidades, desafios e impactos da elaboração de um programa de garantia de emprego com base na Teoria Monetária Moderna. “A pesquisa resultou em um Projeto de Lei apresentado pelo deputado Glauber Braga, do PSOL, na Câmara dos Deputados. Ao colocar o Estado como um empregador de última instância, o projeto avança na resolução de inúmeros problemas: estabelece o respeito ao salário mínimo e a legislação trabalhista e elimina o desemprego crônico a um custo líquido próximo a 2% do PIB”, defende.
Eliza Hostin, formada em Comunicação e mestre em Economia para Transição, trabalha como consultora de sustentabilidade com foco em duas frentes. A primeira é o apoio a empresas para repensar a atuação em busca de formas mais sustentáveis e, se possível, regenerativas. A segunda é em educação, pelo apoio a indivíduos e organizações no entendimento sobre a nova economia de modo a compreenderem os diferentes conceitos que a compõem, bem como conhecerem práticas existentes. “A relevância deste trabalho está em criar pontes de diálogo entre o mundo capitalista e o novo modelo socioeconômico que emerge. Permite novas lentes para ver e agir no mundo e, com isso, tornar-se agente ativo dessa transformação.”
Cristina Pereira Vieceli, aluna de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trata de economia feminista e trabalhos reprodutivos. A economia feminista, diz, critica a invisibilidade dos trabalhos não remunerados exercidos principalmente pelas mulheres, tais como afazeres domésticos e trabalhos voluntários não incluídos na contabilidade nacional dos países. “Essa dinâmica impacta tanto na trajetória feminina no mercado de trabalho quanto na sua posição de dependência econômica e o caráter de seu trabalho, pois as mulheres são sobrerrepresentadas em atividades de meio turno, com baixas remunerações.”
Francisco, tudo indica, está disposto a combater o Bezerro de Ouro.


domingo, 29 de junho de 2014

O PAPA, os comunistas e os pobres

Li na comunicação social: “ O papa Francisco considera que os comunistas roubaram à Igreja Católica a causa ou "a bandeira dos pobres" que, no seu entender, "é cristã", uma vez que se encontra no centro do Evangelho há vinte séculos.” E ainda: "Os comunistas roubaram-nos a bandeira. A bandeira dos pobres é cristã [...]. Os comunistas dizem que tudo isto [a pobreza] é algo comunista. Sim, claro, como não? Mas vinte séculos depois [da escritura do Evangelho]. Quando eles falam nós poderíamos dizer-lhes: pois sim, sois cristãos", afirmou o sumo pontífice.”

Sábias palavras que merecem reflexão.

Em primeiro lugar, há que dizê-lo, é injusto imputar tão virtuoso roubo apenas aos comunistas. Mencione-se em tão honroso rol , também, a presença dos socialistas. Sem excluir aliás a presença de quaisquer outras esquerdas, pelo menos daquelas que se radiquem numa recusa clara  de qualquer modelo de sociedade em que o bem-estar de alguns é construído à custa da pobreza de muitos.

Em segundo lugar, é um dado objetivo verificável que os vinte séculos que durou o desfraldar da bandeira dos pobres pela Igreja não foram suficientes para acabar com  a pobreza. O que torna legítimo recear-se que o modo como a Igreja combateu a pobreza durante vinte séculos seja insuficiente para acabar com ela. Ora, como a pobreza é a desgraça dos seres humanos que são pobres, não é aceitável que nos conformemos com a inevitabilidade dessa insuficiência histórica que tão drasticamente tem atingido milhões e milhões de criaturas humanas ao longo da história. Algo se tem que somar à Igreja.

Em terceiro lugar, registo que o Papa não diz que os comunistas vieram partilhar com a Igreja a bandeira dos pobres. Acha que lha roubaram. Assim, diz que verdadeiramente no seu todo a Igreja já não leva  essa bandeira. É uma autocrítica subliminar, mas justa; uma vez que, sendo injusto menosprezar o apoio a muitos e muitos  pobres que as instituições da Igreja  têm dado ao longo dos séculos, também o seria esquecer a cumplicidade das instituições católicas com o sistema económico-social atualmente dominante, o qual é uma das mais duradouras máquinas de gerar pobres da história da humanidade. Pode dizer-se que, pelo menos aos cultores da teologia da libertação, não pode imputar-se esse pecado. Concordo, sublinhando como  é pequena a sua dimensão, no quadro do grande oceano da vida institucional da Igreja ao longo dos últimos séculos.

Em quarto lugar, em simetria com aquilo que o Papa afirma, se pensarmos na Europa, poderíamos dizer que tal como o Papa acha que os comunistas roubaram à Igreja a causa da luta contra a pobreza, os factos autorizam-nos a que achemos que  os democratas –cristãos europeus do Partido Popular Europeu roubaram aos liberais  e conservadores a bandeira da defesa dos interesses dos ricos.  E, ao longo do último século, a própria Igreja Católica Romana defendeu mais os interesses dos ricos do que os dos pobres, embora, depois de consentir que os pobres  se multiplicassem, não se tenha desinteressado da sua sorte.

Se o Papa conseguir retirar a Igreja institucional da sua proximidade insalubre com a lógica dos ricos e dos poderosos do mundo, se a distanciar realmente da sombra decadente das direitas europeias, se seguir o caminho aberto pelos cristãos que  individualmente que se têm  vindo a integrar nas esquerdas solidárias e sociais, tornará mais forte o cerco às causas da  pobreza  e mais humana , fraterna  e eficaz  a solidariedade para com os pobres. Poderá assim voltar a partilhar realmente, sem reservas em todos os aspetos, a bandeira da luta pelo fim da pobreza, a solidariedade completa para com os pobres.

domingo, 27 de abril de 2014

A Santidade como Condecoração Póstuma ?


A Igreja Católica acaba de deixar que o seu lado político fira o seu lado transcendente. Acaba de condecorar com a santidade dois papas. Rivalizando com a habilidade subtil que caracteriza os bons políticos, introduziu na operação uma dose de equilíbrio. Ungir apenas a memória de João Paulo II podia enfraquecer a dimensão ecuménica do evento, ferindo-a de um proselitismo conservador demasiado ostensivo. Daí o gesto arejado de envolver João XXIII no mesmo ato simbólico. Um Papa com o qual se sentiram e sentem em paz muitos daqueles que, fora da Igreja Católica e dentro ou fora das outras igrejas, não se curvam perante as injustiças do mundo.

Tudo isto, no entanto, foi demasiado rápido, demasiado próximo, demasiado calculado. Os fiéis católicos exultam com a condecoração concedida a dois dos seus papas mais recentes, com o tipo de entusiasmo que lhes tributaram em vida. Juntam-se em ovação com o mesmo entusiasmo com que aclamam Francisco, mas não há  ainda condições para que, neste caso,  paire sobre eles o suave peso da transcendência. Ao arrepio, talvez, das intenções da burocracia santificadora do Vaticano, para além da conjuntura, o que aqui está a ocorrer de estruturalmente irremediável é a laicização da santidade.

Na minha qualidade de laico, estou muito longe de percorrer com facilidade os labirintos da Santa Sé. Pode ser que a cerimónia em curso tenha sido um legado que  Francisco recebeu, mas o que me parece evidente é que ela está longe de se integrar com harmonia no “puzzle” futurante do actual papado. Talvez as regras processuais que regem a aquisição da santidade dificultem a intromissão de um Papa para fazer colapsar um processo já em curso. É possível.

No entanto, por propósito ou acaso, e pelo menos a celeridade supersónica do processo,
fazem recair sobre esta operação da Cúria Romana uma carga política objectiva que é incontornável. De facto, ungir com o halo supremo da santidade  o mandato de João Paulo II é uma mensagem dirigida ao actual papa no sentido de lhe lembrar que o ápice da virtude institucional da Igreja Católica foi atingido pelo novo santo, João Paulo II. A mensagem implícita é clara: do ponto de vista do aparelho político do Vaticano, o caminho do actual papa  Francisco não é o caminho de uma santidade que lhe agrade.

Por isso, é legítimo que se pense que a santificação em causa, para além da sua aparência de calorosa aprovação de dois papados de sentido distinto, mas especialmente dirigida a aclamar João Paulo II, é também um sinal de distanciamento e resistência da aparelho político do Vaticano ao estilo e a muitas das opções do actual Papa.

A proeminência política da razão burocrática na consumação deste evento, para além de subalternizar a transcendência em face dos jogos de poder, é um forte tropeção táctico da Igreja Romana. De facto, ela deixou que fosse ostensivo que a santidade, em vez de ser fruto de uma vontade transcendente eivada de mistério, incidindo em circunstâncias temporalmente longínquas, é um processo burocrático terreno conduzido por uma burocracia, cujo prestígio nos últimos anos se desgastou significativamente. Recordem-se as fraudes no Banco do Vaticano e a moleza arrastada com que a Igreja de Roma reagiu a alguns escândalos de pedofilia. Hoje, aos olhos do mundo, tem muito  mais credibilidade a voz isolada de Francisco do que toda a corte romana que o rodeia ( ou cerca?).

As trombetas da comunicação social, a máquina de propaganda do Vaticano e os generosos corações dos fiéis vão explodir numa ruidosa alegria. No entanto, passada a festa, quando a quietude da realidade regressar, o balanço a ser feito será bem menos entusiasmante.

Quebrou-se o mistério da santidade, transformando-o num processo burocrático com prazos e actos obrigatórios; mostrou-se que na raiz da decisão de santificar estão estruturas que estão longe de elas próprias serem santas; procurou deslegitimar-se a novidade  e a generosidade do actual Papa, cuja popularidade e prestígio são evidentes, dentro e fora da Igreja Católica.


O futuro dirá  se estamos perante um episódio menor numa sucessão de acontecimentos que apontam noutro sentido , ou perante um sintoma de regressão, ou decadência simbólica, de uma Igreja que não gosta do seu Papa.

sábado, 30 de novembro de 2013

ESTA ECONOMIA MATA !


Na sequência do texto que coloquei ontem neste blog, volto  à Primeira Exortação Apostólica do atual  Papa.

Numa perspectiva histórica, está ainda fresca a cumplicidade  da Igreja Católica para com o salazarismo. Não deve ser esquecida. Tal como deve ser recordada a Santa Inquisição. Mas também não devem ser esquecidos os muitos católicos que, ao arrepio da hierarquia da sua Igreja, estiveram do lado certo da História, partilhando a resistência com muitos e muitos portugueses que nunca se conformaram com o fascismo português.

 Mas, se não há que branquear as complacências de quem quer que seja, em face das derivas opressivas que aflijam os povos, seria estulto não acolher com júbilo as novas solidariedades na denúncia de uma degradação neoliberal do capitalismo que, tornando-se mais e mais insuportável para as suas vítimas maiores, exclui o tipo de sociedade em que nos estamos a transformar  da legitimidade ética. De uma legitimidade ética  gerada pela cultura como expressão consensual de um humanismo, para onde convergiram várias ideologias e várias obediências religiosas. Que o Papa se sinta impelido a ser uma testemunha do mundo todo e em especial dos que mais sofrem, afastando-se com clareza do cartel dos poderes de facto que sorvem as nossas vidas, só pode ser um acontecimento maior.

E isto obriga também os agentes políticos colectivos, cuja existência tem na base a resistência ao capitalismo e a ambição histórica de apressar a caminhada para um mundo diferente, para um pós-capitalismo, a reexaminarem o cerne das suas posições, a reapreciarem a medida em que o futuro impregna de facto como esperança as suas posições políticas como seria lógico. Mas se este desafio envolve em primeira linha partidos e sindicatos, não deixa de fora cada militante individualmente considerado, cada cidadão que se sinta parte do povo de esquerda.

De facto, nada de mais irónico ( e de mais trágico) do que as esquerdas (ou algumas delas), descobrirem que a modorra ideológica e política em que se deixaram cair tenha levado a que acordem um belo dia à direita do Papa.

Mas, vamos ao substancial: analisemos com atenção mais um extrato do documento papal acima referido e já ontem aqui parcelarmente transcrito:


“Assim como o mandamento «não matar» põe um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim também hoje devemos dizer «não a uma economia da exclusão e da desigualdade social». Esta economia mata. Não é possível que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo não seja notícia, enquanto o é a descida de dois pontos na Bolsa. Isto é exclusão. Não se pode tolerar mais o facto de se lançar comida no lixo, quando há pessoas que passam fome. Isto é desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequência desta situação, grandes massas da população vêem-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem saída. O ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lançar fora. Assim teve início a cultura do «descartável», que aliás chega a ser promovida. Já não se trata simplesmente do fenómeno de exploração e opressão, mas duma realidade nova: com a exclusão, fere-se, na própria raiz, a pertença à sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder já não está nela, mas fora. Os excluídos não são «explorados», mas resíduos, «sobras».


Neste contexto, alguns defendem ainda as teorias da «recaída favorável» que pressupõem que todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo. Esta opinião, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confiança vaga e ingénua na bondade daqueles que detêm o poder económico e nos mecanismos sacralizados do sistema económico reinante. Entretanto, os excluídos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que não nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espectáculo que não nos incomoda de forma alguma.”

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

OS DEUSES TÊM SEDE ?


“Hoje, em muitas partes, reclama-se maior segurança. Mas, enquanto não se eliminar a exclusão e a desigualdade dentro da sociedade e entre os vários povos será impossível desarreigar a violência. Acusam-se da violência os pobres e as populações mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade – local, nacional ou mundial – abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto não acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reacção violenta de quantos são excluídos do sistema, mas porque o sistema social e económico é injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim também o mal consentido, que é a injustiça, tende a expandir a sua força nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema político e social, por mais sólido que pareça. Se cada acção tem consequências, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre contém um potencial de dissolução e de morte. É o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual não podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado «fim da história», já que as condições dum desenvolvimento sustentável e pacífico ainda não estão adequadamente implantadas e realizadas”.


Este texto não foi escrito por um perigoso esquerdista, ou por um nefelibata sem contacto com a realidade. É apenas um pequeno extracto da Primeira Exortação Apostólica de Papa Francisco.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

O PAPA VISTO POR LEONARDO BOFF.


“Este é o papa da ruptura” : é o título de uma entrevista feita a Leonardo Boff teólogo brasileiro e um dos mais altos expoentes da teologia da libertação. Foi publicado no site da Deutsche Welle /Brasil . Foi feita antes da ida do papa ao Brasil, publicada no passado dia 22 de julho, podendo agora ser confrontada com o modo como a visita  decorreu. A entrevista é mais um elemento para nos ajudar a compreender se há algo de potencialmente novo na Igreja Católica na esteira deste Papa. No caso português, apesar da marca conservadora predominante na hierarquia católica, não se pode deixar de valorizar tudo o que lhe diga respeito, tão significativa é a percentagem de portugueses que são católicos.  Se o novo Papa conduzir realmente a Igreja Católica para dentro dos explorados e oprimidos, se a tornar amiga dos pobres e realmente inimiga da pobreza, muita coisa poderá mudar na paisagem político-social do nosso país.
 Num pequeno texto que antecede a entrevista, Boff  é apresentado como , “um dos principais críticos do conservadorismo católico”, referindo-se que ele  “elogia Francisco, afirmando que ele começou uma reforma do papado e pode dar início a uma dinastia de papas de países do Terceiro Mundo.”
E prossegue : “O papa Francisco vai inaugurar uma nova era para a Igreja Católica durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Essa é a convicção do teólogo Leonardo Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na igreja, após ser censurado pelo Vaticano”.
E o texto de apresentação continua : “Em entrevista à DW Brasil na sua casa em Petrópolis (RJ), o teólogo elogiou Francisco, afirmando que ele é o papa da ruptura. "Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade", avaliou Boff.
O teólogo, um dos expoentes da Teologia da Libertação, disse acreditar que Francisco vai falar sobre os recentes protestos no Brasil. "Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho."


DW Brasil: No Rio de Janeiro, mais de um milhão de fiéis católicos vão se reunir e celebrar a fé durante a Jornada Mundial da Juventude. No século 21, o cristianismo ainda precisa da figura de um papa?
Leonardo Boff: Fundamentalmente não precisaria de um papa. A igreja poderia se organizar numa vasta rede de comunidades. Mas, à medida em que a igreja foi se transformando numa instituição e assumindo uma função política no Império Romano, ela assumiu também os símbolos do poder: o próprio nome "papa", que era exclusivo dos imperadores, e aquela capinha cheia de ouro, que só os imperadores podiam usar, mas que os papas todos usavam. Então, esse curso de uma igreja que tem uma função política dentro do Império Romano em decadência obrigava a igreja a ter um centro de referência. Francisco, quando ofereceram a ele aquela capinha, disse "O carnaval acabou, não quero isso".
Então, esse papa chegou para mudar?
Eu acho que esse é o papa da ruptura. Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade, portanto o Concílio Vaticano Segundo não poderia significar ruptura com o Primeiro. Mas não, agora há uma ruptura, a figura do papa não é mais a clássica, é outra. Francisco não começou com a reforma da cúria, começou com a reforma do papado.
O que você quer dizer com "reforma do papado"?
Na Europa vivem só 24% dos católicos. Na América Latina são 62%, e o restante está na África e na Ásia. Então hoje, o cristianismo é uma religião do Terceiro Mundo, que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Acho que o papa Francisco vai criar uma dinastia de papas do Terceiro Mundo. Além disso, as nossas igrejas já não são mais igrejas de espelho, imitando as europeias; são igrejas fonte, criaram suas tradições, têm os seus mártires, seus mestres, suas formas de celebrar, têm suas teologias e profetas e figuras importantes, como dom Hélder Câmara e Óscar Romero. Essas igrejas estão dando vitalidade ao cristianismo.
Por que o senhor está tão otimista? Os problemas da Igreja Católica continuam: a exclusão dos divorciados, a discriminação dos homossexuais, a proibição de mulheres-sacerdotes...
O papa deu um exemplo claro. Ele soube que um pároco em Roma negou o batismo ao filho de uma mulher solteira. E o papa disse: "Esse padre está errado, porque não existe mãe solteira. Existe mãe e filho. E ela tem o direito de ver o filho batizado, porque a igreja tem que ter as portas abertas, pouco importa a condição moral da pessoa". E ele foi mais fundo ao dizer que não se pode inventar um oitavo sacramento, proibindo os fiéis que não se enquadrem na disciplina eclesiástica de participar da vida da igreja e dos sacramentos. Até agora, os temas de moral sexual, de moral familiar, de celibato e de homossexualidade eram proibidos de serem discutidos. Se um teólogo ou um padre discutisse esse assunto, era logo censurado. Agora, ele vai permitir a discussão.
No Brasil, nas últimas semanas, milhares de jovens foram às ruas protestar contra os políticos corruptos e os altos investimentos nos estádios de futebol. Qual é o recado que o papa vai dar aos jovens?
Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho. Eu acho que ele vai fazer uma convocação crítica aos políticos, para que eles não sejam mais corruptos e passem a servir mais ao povo. E vai fazer um desafio aos jovens de continuar a transformação da sociedade, mas sem violência. E aí exclui todos esses vândalos que nos últimos dias mostraram uma violência absolutamente injustificável e estúpida.
O senhor disse que os programas sociais no Brasil "incluíram uma Argentina inteira na sociedade brasileira". Por que então as pessoas protestam contra o governo brasileiro?
Curiosamente, elas não são contra o PT, a Dilma ou o Lula. Elas mostram uma insatisfação geral com o Brasil que temos, que é um país com profundas desigualdades. São 5.000 famílias brasileiras que controlam 43% de toda a riqueza nacional. Além disso, o próprio PT atingiu o seu teto. Ou ele muda e refaz a sua relação orgânica com os movimentos sociais, ou ele se transforma num partido como os demais, que buscam o poder e acabam se corrompendo.
A classe média brasileira parece não estar gostando tanto dos programas de inclusão social do governo brasileiro. Ela foi deixada de lado?
Com Lula, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres saíram da pobreza. Todo mundo ganhou. Eu creio que o governo do PT não fez só uma distribuição de renda, favorecendo os pobres, mas também fez uma redistribuição. Tirando de quem tem e passando para quem não tem. Só que ele não aplicou isso às grandes fortunas. Ele tirou da classe média, que ficou mais pobre.
O senhor acredita que os políticos vão atender ao recado do papa na Jornada Mundial da Juventude?
Eu acho que ele vai ser muito importante para a América Latina, porque o modo de ser dele vai reforçar as novas democracias, que nasceram na resistência aos militares e estão fazendo boas políticas sociais para os pobres, com inclusão. Então, ele tem uma função política importante. A Cristina Kirchner, que vivia em polêmica com ele, entendeu a lição e fez as pazes. Mas por quê? Porque o papa move multidões. Talvez ninguém no mundo hoje possa reunir um milhão de pessoas. Político nenhum, nem mesmo o Obama.
Mas a Igreja Católica perdeu poder e influência?
Institucionalmente, a igreja no Brasil está numa profunda crise. Pelo número de católicos, deveríamos ter 100 mil padres. Temos 17 mil. Criou-se um vazio, pelo qual entraram as igrejas pentecostais. E com razão. Como o povo é religioso, quem vem falar de Deus, ele [o povo] adere, porque indo para Deus, podemos somar sempre. Para batismo, casamento e enterro, é a Igreja Católica. Para saber o outro lado do mundo, ele vai para o espiritismo. Para as questões de sorte e amor, ele vai num centro de macumba. O povo não tem uma visão doutrinária, tem uma visão prática. É um supermercado religioso, com muitos produtos, e o povo vai se servindo.
Com Francisco, a Teologia da Libertação vai voltar?
Com este papa, ela vai ganhar visibilidade. Antes se dizia que a Teologia da Libertação era uma teologia marxista. Agora se diz que ela é uma teologia católica. Isso muda a atmosfera da igreja.
[Autoria: Astrid Prange, do Rio de Janeiro
Edição: Alexandre Schossler ]


quarta-feira, 22 de maio de 2013

SANTIDADES


Reproduzo mais abaixo uma  das "Viñetas de Alfons López", intitulada " Mejor Imposible". Foi publicada no site do diário espanhol "Público".