Mostrar mensagens com a etiqueta Sondagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sondagem. Mostrar todas as mensagens

sábado, 24 de abril de 2021

Comparação crítica de várias sondagens recentes

 

Comparação crítica de várias sondagens recentes


1.Em 23 de abril foi publicada no Expresso uma sondagem da responsabilidade do ISCTE. Ao contrário da maior parte das outras, esta não valoriza as décimas nos números que divulga, o que deve ser tido em conta na comparação com as que procedem de maneira diferente.

O PS é o partido que reúne um maior número de intenções de voto, atingindo os 37%. Relativamente à sondagem da mesma proveniência, difundida em dezembro passado, perde 2 pontos percentuais.

O PSD é o segundo partido, atingindo 29%; o que significa uma subida de 4 pontos relativamente à sondagem de dezembro.

O BE com 9% sobe um ponto percentual, enquanto o Chega com 6% regride um ponto. A CDU mantém os 7% de dezembro, tal como o PAN conserva os 2% .

O CDS baixa de 2 para 1%, enquanto a IL continua com 1%.

Deste modo, no seu todo, a Esquerda (PS,BE e CDU) desce de 54 para 53%,a Direita (PSD, Chega, CDS e IL) sobe de 35 para 37%. O Centro (PAN) conserva os 2% de dezembro passado. As Esquerdas exteriores ao PS passam de 15 para 16%, enquanto a Direita sem o Chega passa de 28 para 31%.

Embora a distância entre os dois maiores partidos tenha diminuído, ao cifrar-se em 8 pontos percentuais, mostra uma relação de forças idêntica à revelada pelos resultados eleitorais de outubro de 2019.Do mesmo modo, a vantagem da Esquerda no seu todo mantem-se ao nível da que resultou da pugna de 2019. Na verdade, em 2019 a diferença era entre 51,19 % para a Esquerda e 34,56% para a Direita; nesta sondagem é entre 53% e 37% respetivamente.

 

2.Em 18 de abril, foi difundida pelo Negócios e pelo CM uma sondagem da Intercampus. Tem algum interesse compará-la com outra da mesma proveniência divulgada há um mês (17 de março).

Foi o PS foi que registou o maior número de intenções de voto – 36,2 % - o que representou, no entanto, uma quebra de 1,4% relativamente ao mês passado. O PSD ficou praticamente estagnado nos 23,3 %, o que se traduziu num ligeira inflexão de o,3 %. A separar os dois partidos estão agora 12,9%, encurtando-se assim um pouco a diferença de 14% do mês passado.

O BE e o Chega ficaram empatados com 9,4%, o que resultado de uma subida de 1,1% do primeiro e de 0,4% do segundo. A CDU ficou com 5,2%, tendo assim subido 0,3%. O CDS, ao atingir 3,1%, subiu 0,8% , enquanto a Iniciativa Liberal ao recuar 0,5% , ficou-se pelos 4,8%. O PAN ficou no mesmo patamar, mas no seu caso isso representou um aumento de 2,3%. É este o peso do Centro, enquanto o da Direita no seu todo, de acordo com esta sondagem, seria de 40,6%. Bem longe dos 50,8% alcançados pelas Esquerda com assento parlamentar no seu todo.

Olhando para os grandes espaços políticos, entre as duas sondagens a Esquerda desceu 0,6 %, a Direita subiu 0,4% e o Centro subiu 2,3 %.

 

3. Para uma melhor avaliação do significado político destas duas sondagens vale a pena compará-las com outras publicadas em março e abril, inserindo esta última do conjunto considerado. São tidas em conta três publicadas em março ─ Aximage (01),Eurosondagem (06),Intercampus (17) e outras três em abril ─ Aximage (05),Eurosondagem (10), Intercampus (18).

No conjunto das seis sondagens, o PS oscilou entre um mínimo de 36,2% e um máximo de 39,7%; o PSD entre 23,3% e 28,2%. Em cada uma das sondagens, a diferença entre estes dois partidos variou entre um mínimo de11,1% e um máximo de 16,1%.

O BE oscilou entre 6,2% e 9,4% ; e a CDU, entre 4,5% e 6%. O PAN variou entre 2,1% e 4,8%.

O Chega variou entre 6,5% e 9,4%. A IL, entre os 2,1% e os 5,7%. O CDS oscilou entre 0,8% e 3,1 %.

No conjunto destas seis sondagens, a Esquerda (PS, BE e CDU) varia entre 50,8% e 54,3%; a Direita (PSD, Chega, CDS e IL) varia entre 38% e 40,6%; o Centro (PAN), entre 2,1 e 4,8%.

Vejamos agora, quanto à sondagem mais recente que comentámos no início deste texto, em que medida os seus resultados se situam dentro ou fora dos limites máximos e mínimos definidos pelos resultados das seis sondagens que acabamos de mencionar.

O resultado do PS (37%) situa-se dentro do intervalo entre o máximo e o mínimo, definidos por este conjunto de sondagens. O resultado do PSD (29%) situa-se ligeiramente acima. A diferença favorável ao PS entre os dois partidos (8%) situa-se ligeiramente abaixo.

O resultado do BE (9%) situa-se dentro do intervalo referido, o do Chega (6%),ligeiramente abaixo do limite mínimo, o da CDU (7%), acima e o do PAN (2%), ligeiramente abaixo. O CDS (1%) fica dentro do referido intervalo e a IL (1%), abaixo.

No seu todo, a Esquerda (53%) fica dentro do mencionado intervalo, a Direita (37%), ligeiramente abaixo e o Centro (2%), também ligeiramente abaixo. Também a Direita democrática (sem o Chega), na última sondagem, atingiu um patamar (31%) dentro do referido intervalo (entre 29,5% e 33%).

A diferença mais significativa diz ,  talvez, respeito aos resultados estimados para o PS e para o PSD, estando no facto de, na sondagem mais recente,  ela estar abaixo do limite inferior do conjunto das outras seis sondagens ((8 % contra 11,1%). De facto, quanto maior for esta vantagem do PS em melhor posição estará na disputa eleitoral autárquica. pode projetar-se em muitas vitórias autárquicas, sucedendo o contrário no caso oposto.

Mas esta diminuição de vantagem, ao conjugar-se com os outros resultados, tem um diminuto poder de pressão quanto a uma hipotética mudança de rumo no governo do país, em virtude da sua reduzida dimensão. Portanto, um olhar que abranja o conjunto de sondagens comentado revela , no essencial, uma relativa estabilidade nas referências eleitorais dos portugueses.

 

4. Pode assim servir de conclusão política genérica, o comentário publicado neste mesmo blog, em 16 de fevereiro, aos resultados de cinco sondagens difundidas entre 16 de janeiro e 13 de fevereiro. Duas da Universidade Católica, duas da Eurosondagem e uma da Aximage.

Na verdade, no fundamental, o cenário político em termos de intenções de voto não se alterou. Escrevi eu então:

“Parece poder concluir-se que a ultrapassagem do conjunto das esquerdas pela direita não parece provável, mas a ultrapassagem das esquerdas pela direita democrática mostra-se uma hipótese muito remota. Não só à luz das sondagens de 2021, mas também em função da trajetória inerente à sua comparação com os resultados das eleições de 2019. Tanto mais que o período desde então decorrido já foi em grande parte sob a pandemia.”

E agora estão em causa doze sondagens difundidas neste primeiro quadrimestre de 2021.

___________________________

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Leituras criativas de uma sondagem

 

  Leituras criativas de uma  sondagem

1. A parte do complexo mediático dominante que mais ou menos ostensivamente partilha com a direita o seu modo de encarar a realidade teve hoje uma notícia que lhe deu um pequeno alento. Um barómetro de opinião da Aximage revelou uma descida de 2,3% em comparação com o mês anterior nas intenções de voto no PS. Soube-lhes a pouco, dada a furiosa campanha que desenvolveram contra o governo, em consonância com a vozearia histérica dos partidos da direita. Mas para empalidecer um pouco mais a  alegria da matilha mediática, o PSD, ao descer uns irritantes 0,1 % quedou-se nus modestos 26,5% que o mantêm bem longe do PS (37,6%). O CDS manteve uns agonizantes 0,8% e até o irresistível Chega, em vez de subir, desceu de 7,7%  para  6,5%.Foi necessário a IL para salvar a honra do convento, ao subir 2,2 % para chegar a 5,7%.  Só em conjunto a direita podia esconder o quão esquálidos eram estes resultados para os seus objetivos.

Na verdade, embora em relação ao barómetro do mês anterior no seu todo tivesse apenas  subido de uns pífios 0,9 %, a descida de 2,3% do PS permitiu-lhe ter em conjunto uma percentagem de preferências superior em 1,9%  à do PS.

Estranhamente, esta magra vantagem destituída de qualquer significado prático foi o grande aspeto que ridiculamente quiseram extrair da sondagem os vozeadores correntes. Esqueciam assim grosseiramente os 14, 8% dos  outros três partidos de esquerda considerados na sondagem ( BE-7,7; CDU -5,8; Livre- 1,3), bem como os 4% do PAN.

2. Este exercício estéril, de mero aproveitamento mistificatório de uma sondagem, tem como efeito banalizar politicamente um pouco mais os neofascistas do Chega, ao considerá-los em conjunto com a direita democrática. Talvez porque sem eles a direita democrática penaria nuns frágeis 33% que a colocariam ainda mais longe de um governo seu, afinal  com a mesma percentagem que tinham alcançado em 2019.

Na verdade, contra os 52,4% do conjunto da esquerda de que valem os 39,6% do conjunto da direita? Em termos de um possível governo - nada.

A não ser que queiram ressuscitar o fantasma apagado em 2015: o sonho de que o PS se tiver menos votos do que a direita a deixará formar governo e governar. Sonho tolo! Convençam-se de uma vez por todas: se quiserem formar um governo democrático  de direita conquistem uma maioria parlamentar de direita.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Pensar politicamente os resultados de algumas sondagens


 Pensar politicamente os resultados de algumas sondagens 


1. Esbatido o ruído mediático que acompanhou a sua divulgação e os esforços dos atingidos que procuram sempre afeiçoar os seus resultados ao sabor dos seus interesses, vale a pena olharmos com alguma atenção para os resultados de cinco sondagens difundidas entre 16 de janeiro e 13 de fevereiro. Duas da Universidade Católica, duas da Eurosondagem e uma da Aximage . Quatro foram sondagens que seguiram o modelo habitual, uma foi feita à boca das urnas nas eleições presidenciais. Os resultados desta última mostram uma diferença ligeira relativamente ao conjunto dos outros que refletem pesquisas realizadas antes e depois das eleições presidenciais.

2. Os resultados do PS oscilam entre 39 e 39,9%, no âmbito do grupo das quatro sondagens, descendo para 35%, na sondagem feita à boca das urnas no dia das eleições presidenciais.

Os do PSD, entre 26,2 e 28% no grupo das quatro sondagens , atingindo 28% no dia das presidenciais.

Os do BE, entre 6,5 e 7,2 % nas quatro, chegando a 8% na outra.

O Chega, entre 5,5 e 8% nas quatro, chegando a 9% na outra.

A CDU, entre 4,8 e 5,3% nas quatro, atingindo 6% na outra.

O PAN, entre 2 e 3,5% nas quatro, tendo 2% na outra.

O CDS, entre 0,8 e 2,5% nas quatro, tendo 2% na outra.

A IL, entre 1,3 e 5% nas quatro, tendo chegado aos 7% no dia das presidenciais.

O conjunto das esquerdas oscilou entre 50,8 e 52,1 % nas quatro, tendo tido 50% na outra. As esquerdas não PS oscilaram entre 11,7 e 13%, tendo tido 14% no dia das presidenciais.

O conjunto das direitas oscilou entre 36 e 43% nas quatro, tendo tido 41% na outra. A direita sem o Chega oscilou entre 31,4 e 35%, tendo tido 32% na outra.

Se considerarmos o PAN como sendo o centro, os seus resultados estão acima indicados.

3. Estes números não representam uma antecipação dos resultados das próximas eleições, mas retiram verosimilhança a premonições  e cenários que pressuponham o seu contrário.  Larachas sobre mudanças de ciclo político, alegações de que o governo está destroçado podem exprimir desejos de quem os formula, mas não há verificação objetiva de que sejam uma realidade.

Os portugueses não transformaram a angústia e o sofrimento suscitados pela pandemia numa rejeição do governo. Certamente, não porque entendam que a sua ação não refletiu nunca qualquer erro, mas por verem que procurou sempre fazer o melhor, tendo-o conseguido muitas vezes. Certamente, por perceberem que muito do sofrimento e muitas das dificuldades resultam de ressonâncias  estruturais do atual tipo de sociedade e não de decisões conjunturais deste governo. Elas são seguramente um desafio,  para este e para os próximos governos , mas não são culpa sua.

E não ressalta deste conjunto de sondagens que as oposições tenham visto a sua popularidade explodir, como reflexo de uma apreciação entusiástica do seu hipercriticismo antigovernamental.

 

4. Dos resultados comentados podem extrair-se algumas conclusões.

O PS mostra estabilidade na preferência relativa dos portugueses, mas com reforço da posição alcançada nas últimas eleições legislativas (36,34%).

 O PSD revela estagnação, já que nas eleições de 2019 teve 27,76 %.

O BE mostra alguma retração em face dos resultados de 2019: 9,52%. A CDU mostra uma ligeira flexão, perante os 6,33 %, atingidos em 2019.Em  conjunto ficam abaixo dos 15,85 % que  somaram em 2019.

O CDS perdeu mais de metade dos escassos 4,22 % em que ficou em 2019, colocando-se em risco de sobrevivência.

A IL fica claramente acima dos 1,29% de 2019 e o Chega rondando os 9% distancia-se muito dos 1,29 de 2019, parecendo consolidar os resultados que o seu candidato atingiu nas presidenciais. Desse modo, introduz instabilidade e incerteza na direita portuguesa.

Portanto, se a direita democrática resistir ao oportunismo de uma aliança com o Chega fica confinada a uma oscilação entre 31,3 e 32,7% nas quatro primeiras sondagens, chegando aos 35% na sondagem feita no dia das eleições presidenciais. Se renunciar à sua natureza democrática acolhendo o Chega, oscilará entre os 36,9% e os 43 % nas quatro sondagens, tendo tido 41% no dia das presidenciais.

Parece poder concluir-se que a ultrapassagem do conjunto das esquerdas pela direita não parece provável, mas a ultrapassagem das esquerdas pela direita democrática mostra-se uma hipótese muito remota. Não só à luz das sondagens de 2021, mas também em função da trajetória inerente à sua comparação com os resultados das eleições de 2019. Tanto mais que o período desde então decorrido já foi em grande parte sob a pandemia.

5. A intensa campanha política e mediática contra o governo e o PS não parece ter tido o efeito pretendido pelos seus promotores. A tentativa de transformar o mais pequeno erro do governo numa catástrofe de grandes proporções e de lhe imputar as culpas por todas as dificuldades surgidas no país parece não estar a convencer o povo.

Do mesmo modo, acumulam-se sinais de que assusta menos a continuidade deste governo do que a hipótese de cair sobre nós um governo de direita. Em especial porque começa a enegrecer essa ameaça o risco de um governo de direita não poder deixar de incluir o Chega. É como se o fantasma do 24 de abril nos viesse assombrar meio século depois de nos deixar.

Também parece claro que a crispação antigovernamental dos partidos de esquerda que não estão no governo não se revela um caminho promissor para o seu reforço eleitoral. E embora com menos nitidez parece merecer mais reservas aos seus próprios eleitorados a crispação agressiva  do BE do que a demarcação tribunícia do PCP. No horizonte a ambos assombra  a dificuldade em calibrarem bem a atitude de oposição ao governo. Ou são tão eficazes na crítica ao PS  que colocam a direita no poder, ou são tão inábeis nessa crítica que apenas alteram ligeiramente a relação de forças. Dificuldade acrescida por haver o risco de  a crítica ao ser excessivamente agressiva , em vez de desgastar o destinatário da crítica,  desgastar os seus autores.

Mesmo a direita não está livre de que isso também  lhe aconteça. Na conjuntura atual o trauliteirismo demagógico antigovernamental se passar certos limites pode virar-se contra os seus promotores.


 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A incómoda mensagem de uma recente sondagem


Sob o manto diáfano da fantasia
a nudez forte da verdade.

A incómoda mensagem de uma recente sondagem

1. Sem ser uma novidade, o modo como tem sido noticiada a partir da sua fonte (O Observador) a mais recente sondagem por ele divulgada reflecte com clareza todo um programa político, ainda que de certo modo dissimulado.

De facto, noticia como se fosse o espelho fiel da realidade política o contraponto entre o PS , por um lado e  uma alegada “direita junta”, por outro. O PS teria 40,3% e essa alegada “direita junta” teria 41,1 % . A mensagem subliminar é simples: a competição que conta é entre esses dois pólos.

De uma penada, faz-se desaparecer a extrema-direita (neofascista), que assim se branqueia implicitamente; esquece-se a autonomia da direita democrática, evitando-se  que  se mostre reduzida a uns escassos 32,7 % , nos quais o PSD fica  encurralado com os seus 28,5%. Aliás, muito longe do PS; o que também se esquece.

Ao mesmo tempo,  apaga-se da relevância  o centro político (PAN- 2,2%) e as outras esquerdas( 10,8 % [BE 5,5% + CDU 5,3 %]) . Ou seja, os 8,4% do Chega e os 4,2 da direita democrática não-PSD contam, mas os 13% do centro e dessas esquerdas não existem.

2.Uma sondagem não é uma antecipação segura de um futuro resultado, mas a proximidade relativa dos panoramas projectados por cada uma delas reforça a probabilidade de conterem previsões criveis. Destes resultados, se os compararmos com os resultados das eleições legislativas de 2019, ressaltam algumas constatações:

1º A campanha da direita e da extrema-direita, acolitadas por uma boa parte da comunicação social, apesar de uma intensa barragem de propaganda nesse sentido, não têm conseguido transformar o mérito deste governo num fracasso;

2º A direita democrática atinge nesta sondagem uns modestos 32,7%, abaixo dos 33,27 % que conseguiu em 2019.

3º A extrema-direita (neofascistas) subiu de 1,29% para 8,4%.

4º O PS subiu de 36,34 para 40,3%, isto é, cerca de 4%.

5º As esquerdas exteriores ao Governo do PS passaram de 15,88 % em 2019, para 10,8% nesta sondagem. Mas esta descida depende de duas parcelas desiguais: o BE desce 4% e a CDU cai 1%.

5º Se considerarmos o PAN como sendo o centro político, constatamos que perdeu cerca de 1 % (3,32/2,2 %).

Daqui podem tirara-se algumas conclusões.

1ª O tipo de campanha política contra o actual Governo, feita pelos partidos de direita e de extrema-direita, bem como pela matilha mediática que os acompanha, beneficiou principalmente o Chega (+ 7,2%) e apenas ligeiramente a IL (+1,2%) e o PSD ( +0,8%). Nada aproveitou ao CDS (- 2,4%). Globalmente, a soma da direita e da extrema-direita aumentou 6,6 % (de 34,56% para 41,1). Ou seja, só beneficiou significativamente  o Chega.

2ª Não o fez, no entanto, à custa da esquerda no seu todo, a qual desceu apenas  de 52,19% para 51,4 % e continua com uma vantagem superior a 10% em face do outro conjunto antes referido. Mas esta relativa estabilidade não é interiormente homogénea: o PS sobe 4%, o BE desce 4% e a CDU perde 1%. Parece que ser o partido do governo não foi penalizador, mas a demarcação em face do governo dentro da esquerda não entusiasmou os respectivos eleitores. Pode mesmo dizer-se que o modo de distanciamento/oposição, nestes casos, foi quatro vezes mais penalizador para o BE do que para a CDU.

3º Sem os neofascistas do Chega a direita democrática não tem como expectativa realista chegar ao governo proximamente, mas mesmo com o seu concurso está muito longe de poder considerar essa hipótese como provável.

4º Uma colocação em minoria do conjunto das esquerdas em próximas eleições parece improvável, como  também o parece a conquista de uma maioria absoluta pelo PS. Mas o exacerbar do urgentismo antigovernamental e duma hostilidade ao actual governo que possa favorecer a direita podem suscitar uma deslocação de voto favorável ao PS no seio do conjunto das esquerdas. E com base nos resultados desta sondagem parece que este exacerbar da hostilidade ao governo é o único caminho que pode tornar provável uma maioria absoluta do PS.

Principais conclusões finais a retirar :

I-                 As campanhas feitas a partir das várias direitas e da extrema-direita têm beneficiado o Chega, de pouco tendo aproveitado aos partidos da direita democrática  e não tendo afectado negativamente  o PS.

II-              A via seguida pelo BE a partir da votação do orçamento, parecendo levá-lo a combater o governo, tem-se virado afinal contra ele próprio.

 


sábado, 7 de dezembro de 2019

UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO



UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO
1. Uma recente sondagem quanto à intenção de voto nas legislativas, promovida pela Intercampus , foi recentemente publicada pelo CM e pelo Negócios. Eco mediático modesto. Compreensível. Os resultados não permitiam um alarido simplista. Traduziam modestamente o foguetório antigovernamental e apontavam para um agravamento do pântano político em que as direitas parecem atolar-se. Os jornais comparavam estes resultados com os de uma sondagem feita no mês anterior já depois das eleições. Por mim, vou compará-los com os resultados das últimas legislativas. Parece-me mais significativo.
O PS passa de 36,5% para 34,9 %, o que significa uma perda de 1,6%. O PSD desce de 27,9para 24,9, o que implica uma perda de 3%.O BE passa de 9,7 para 10,8, o que se traduz num ganho de 1,1 %. A CDU passa de 6,5 para 8,1, o que representa um ganho de 1,6%. O CDS passa de 4,3 para 2,9, o que significa uma perda de 1,4%. O PAN sobe de 3,3 para 4,8, o que se traduz num ganho de 1,5%. O Chega sobe de 1,30 para 4,8, o que representa uma subida de 3,5%. A IL cresce de 1,3 para 2,9 o que implica um ganho de 1,5%. O Livre passa de 1,1 para 2,7 o que significa um aumento de 1.6 %.
Se considerarmos o PAN como ele diz que é (“nem de direita nem de esquerda”, ou seja de centro) esse espaço político alargou-se em 1,5%.
Se considerarmos a direita como abrangendo o PSD, o CDS, a IL e o Chega este conjunto passou de 34,7 para 35,5, o que significa um aumento de 0,8%. Mas se separarmos a direita clássica da extrema-direita, a primeira terá perdido 2,7% e a segunda terá ganho 3,5%.
Se considerarmos a esquerda como compreendendo o PS, o BE, a CDU e o Livre, verificamos que passou de 53,7 para 56,5, o que significa um ganho de 2,8%. Mas como vimos o PS perdeu 1,6% e os outros três partidos partilharam entre si em partes quase iguais um progresso de 4,4%.

2. As variações não são grandes. O PS sofreu um desgaste modesto apesar da intensa barragem de artilharia política que o tem assediado. As outras esquerdas ganharam algum viço o que parece especialmente relevante para o PCP, por parecer que desse modo reverte a tendência revelada nas legislativas; e para o Livre pelo facto de ter duplicado a percentagem de intenções de voto.
O PAN parece mostrar a solidificação da robustez adquirida .
Na direita clássica tradicional o CDS parece atolar-se ainda mais dramaticamente na sua crise. O PSD parece patinar, murchando um pouco mais, talvez em função da disputa interna que está a atravessar. A IL tem em termos relativos um aumento animador.
A extrema-direita quase quadruplicando as intenções de voto em comparação com os resultados eleitorais que obteve, ao ultrapassar claramente o CDS, acentua-lhe a dramaticidade da crise que está a viver. Coloca-se assim no horizonte como questão estruturante do futuro da direita clássica o modo como se vai relacionar com a extrema-direita.
O relacionamento entre PS e os outros partidos de esquerda tem-se revestido de uma atmosfera de incerteza. Parece não ter sido encontrado um tipo de conjugação entre eles que todos aceitem sem reserva mental. Se deixarem resvalar para o antes de 2015 o modo como se relacionam estarão a abrir a única porta através da qual a direita pode regressar ao poder. O BE, o PCP, os Verdes e o Livre só aprovarão as medidas que tiverem o voto favorável do PS, a não ser que se disponham a ter uma agenda política em que sejam centrais as medidas que suscitem o acordo das direitas ainda que não o do PS. Este tem uma situação quase simétrica ainda que lhe baste a abstenção das outras esquerdas ou de uma parte delas para não ter que recear a reprovação pelas direitas mesmo que concertadas. Se todos  vemos isto, parece inútil tentar esquecê-lo.
O governo afirmou expressamente que privilegia os acordos políticos entre o PS e os outros partidos de esquerda, mas estes parecem mais interessados num alarido de demarcação do que numa atmosfera de concertação. Vejamos o que realmente acontece.
No entanto, todos estes partidos não deveriam esquecer-se que a articulação política que construíram na legislatura anterior não foi uma invenção a frio de estados-maiores partidários, foi um impulso do povo de esquerda, do bloco dos seus eleitorados efetivos e potenciais a que esses estados-maiores tiveram o mérito de dar sequência. E é bem provável que os vários tios de tergiversações e de ambiguidades ocorridas na campanha eleitoral para as legislativas, quanto à assunção do que tinha ocorrido entre eles e quanto á vontade de a continuarem, tenham atirado para uma abstenção desiludida ou cética muitos e muitos eleitores do povo de esquerda.
E é bom que nos lembremos que nos cemitérios da memória política europeia jazem muitos partidos de várias esquerdas que, inventando ou conservando cartilhas obsoletas oriundas do seu passado ou do seu exterior, esqueceram a primazia da consonância com o povo de esquerda, com a sua esperança , com a recusa da sua humilhação. E assim foram murchando, murchando até serem nada. Se qualquer partido de esquerda for derrotado por ter ficado realmente  junto dos seus, nada o apagará, mas se for derrotado por se ter esquecido deles acabará por se esvair.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

SONDAGENS AO LONGO DE UM ANO



SONDAGENS AO LONGO DE UM ANO

Vale a pena olhar para o conjunto das sondagens, quanto às intenções de voto para as legislativas, publicadas em Portugal desde o início de julho de 2017 até ao fim de julho de 2018. Consideraremos as que foram feitas pela Eurosondagem e pela Aximage, as duas empresas que as fizeram sistematicamente durante esse período. Estão em causa 23 sondagens, das quais 13 da Aximage e 10 da Eurosondagem, feitas ao logo de 13 meses.

Se tivermos em conta o conjunto das sondagens, o PS oscilou entre um máximo de 45,1% e um mínimo de 38,1%; o PSD entre 28,7 % e 23,6 %; o BE entre 10,6% e 7,7 %; a CDU entre 8,9 % e 6,9%; e o CDS entre 7,5% e 4,2%. Separadas, as sondagens das duas entidades apresentam algumas diferenças.

Na Aximage, o PS oscila entre 45,1% e 38,1 %, na Eurosondagem varia entre 40% e 42%. Já quanto ao PSD a variação é entre 28,7 % e 23,6%, na Aximage; e de 28,7% e 27,3%, na Eurosondagem. Quanto ao BE, na Aximage, oscila entre um máximo de 10,6 % e um mínimo de 7,7%; e na Eurosondagem, entre 9,5% e 7,7%. Por seu lado, a CDU varia entre 8,9% e 6,9 % na Aximage; e entre 7,8% e 6,9% na Eurosondagem. Por último, o CDS, na Aximage, oscila entre 7,2% e 4,2 %; e na Eurosondagem, entre 7,5 % e 6%. A soma dos partidos de direita (PSD+CDS), na Eurosondagem varia entre 35,5% e 33,3%;na Aximage entre 35,1% e 28,9%.

Comparando os resultados obtidos pelas duas entidades, verifica-se que a variação entre os máximos e os mínimos é maior na Aximage do que na Eurosondagem.
Pressupondo que não ocorram situações extremas, que revolvam em profundidade as preferências eleitorais do último ano, e olhando para o conjunto dos resultados, pode concluir-se que é provável que o PS seja o partido mais votado, podendo mesmo ter mais votos sozinho do que a soma dos partidos de direita. Mas será difícil e improvável que chegue à maioria absoluta.

Já o PSD, consistentemente abaixo dos 30%, vê agravada a sua situação pelo facto de a sua soma com o CDS não ter chegado em nenhuma sondagem aos 36%. Está assim longe de um bom resultado, tal como do governo. O efeito Rui Rio, como consequência de uma novidade hipoteticamente esperançosa, parece assim não ter passado de uma miragem. No caso do CDS, a aspiração de Cristas de ser levada a sério como candidata viável à liderança do Governo da República cobriu-se de ridículo.
Genericamente, o potencial eleitoral do BE e da CDU manteve-se estável, com oscilações não significativas. Em conjunto, atingem intenções de voto que tendem a não baixar dos 15% e a não exceder os 18%. Tal como o PS, não parecem ter sido prejudicados pela celebração do acordo que sustenta o governo atual. Ao contrário, os três tendem a somar em regra mais de 55% das preferência dos eleitores, quase sempre mais de 20% acima do bloco de direita.

Sublinhando o sentido dos comentários feitos, as sondagens mais recentes revelam uma tendência ascendente do PS, ainda que ligeira; uma perda ligeira do PSD; uma estabilidade relativa do BE e da CDU; e um impulso de subida do CDS, conquanto pouco significativo.

Num estudo de opinião recentemente tornado público, ficou clara a preferência dos eleitores do PS, do BE e da CDU, pela continuidade do atual acordo político. Confirmou-se assim a ideia de que é eleitoralmente muito arriscado romper o acordo presente para qualquer dos seus protagonistas. Risco especialmente grande para quem for o causador da rotura, sendo certo, no entanto, que mesmo os partidos que o não tivessem causado poderiam ser fortemente penalizados, pelas consequências 
devastadoras do confisco objetivo ao povo de esquerda de um horizonte de esperança.
As negociações orçamentais, as lutas sindicais e o grau de acrimónia que as envolva, bem como as decisões que o Governo for tomando não podem deixar de ter em conta tudo isso. 

Se a solução portuguesa começa a ser vista como esperança noutros países europeus, seria caricato e trágico que fossemos nós a deixá-la escapar entre os dedos.

domingo, 23 de setembro de 2012

SONDAGENS E POLÍTICA


É inútil dissertar sobre as sondagens para, ao sabor do agrado ou desagrado que nos causem, as exaltarmos ou menorizarmos. Elas representam uma imagem  das preferências dos eleitores numa dada conjuntura, embora não garantam que no futuro essas escolhas se mantenham. Mas menosprezá-las é desperdiçar um precioso indicativo do estado em que se encontra a opinião pública no plano político, num dado momento.

Se compararmos séries de sondagens, podemos ficar com uma ideia ainda  mais consistente da provável evolução da relação de forças entre os vários partidos. Foi recentemente divulgada uma da responsabilidade do centro de sondagens da Universidade Católica que revelou, em comparação com uma outra anterior, um afundamento do PSD e uma subida relevante do PCP e do BE, bem como uma leve subida do CDS e uma ligeira descida do PS. Os partidos do governo reúnem agora 31 % das intenções de voto; e o conjunto de todas as oposições 55%. O trabalho de campo que suporta estes números foi feito depois das manifestações do passado dia 15, o que dá a estes resultados uma particular relevância. Sem ignorar o seu significado próprio, talvez valha a pena comparar os resultados das últimas três sondagens, levadas a cabo pela Universidade Católica


Um ano decorreu entre entre a primeira e a última. Verifica-se  que o PSD perdeu 19%, mas que o PS, ao ter oscilado negativamente dois pontos, não conseguiu mais do que estagnar. Quanto ao CDS, ao ter subido um ponto, mesmo estando no governo, por comparação com o PSD pode dizer-se que evitou a usura de um governo impopular. O PCP progrediu 6% e o BE 5%, vendo-se assim que foram eles quem capitalizou parcelarmente a quebra do apoio ao Governo.


De facto, se compararmos os 49% de intenções de voto, que conseguiam os dois partidos do governo há um ano, com os 31 %, que conseguem agora, podemos ver o enorme grau de retracção desse apoio, aliás concentrada  no partido dominante. Simetricamente, vê-se que o apoio concitado pela soma do PCP com o BE há um ano, 13%, quase duplicou, ao passar para  24%. Acrescentando-lhe os 31% do PS, ficamos com intenções de voto nos partidos de oposição, 24% acima das que se mantêm fieis aos partidos do governo. Eis uma diferença, cujo significado político não pode ser ignorado, tanto mais que ele será muito provavelmente sublinhado pela situação social.

Esta evolução deve ser lida  em conjugação com a crise interna que explodiu no governo e com o clamor popular que teve uma ilustração expressiva nas grandes manifestações do passado dia 15. Expressividade tão marcante, que provocou  uma patética manifestação de hipocrisia de vários apoiantes do governo, cujo desplante lhes permitiu sublinharam a presença de apoiantes do governo numa  manifestação que, predominantemente, foi de resistência  e  protesto contra os seus desmandos.

As manobras institucionais, entretanto ensaiadas, não passaram de tímidas tentativas de ganhar tempo, talvez na esperança de que, por si só, ele desatasse o nó que o governo deu. É claro, que a presença reiterada de pequenas, médias e grandes manifestações, pedindo a demissão do governo, a expressa posição tomada nesse sentido pelo PCP e pelo BE, o salto qualitativo do PS na demarcação do governo, o rosnar matreiro do CDS para tentar limpar-se, a dessolidarização expressa de alguns barões do PSD, o desconforto das associações patronais, o subir de tom da CGTP na sua luta, a passagem da  UGT para uma demarcação mais robusta da via seguida, somando-se, potenciam efeitos e contribuem para colocar o governo numa letargia desnorteada, que tende a reduzi-lo a um fantasma de si próprio. Tonou-se de facto um verdadeiro achado encontrar, fora do clube dos membros do governo e dos deputados do PSD e do CDS, alguém que assuma politicamente solidariedade com o governo. E mesmo dentro deste, sabemos como foi difícil o não estilhaçamento.

Mas se o governo da direita é agora um passeante furtivo dos corredores do poder, ansioso por que se esqueçam de que ainda existe, as oposições,  instaladas na sua suculenta supremacia quanto a intenções de voto, não têm conseguido mais do que deixar na sombra a incómoda verdade de não serem, mesmo agora, capazes de abrir um caminho que possa ser percorrido por todo o povo de esquerda com naturalidade e esperança, sem hostilidades nem constrangimentos mútuos.Um caminho institucional que permita o exercício democrático do poder com uma base social sólida.

 Pelo contrário, prosseguem com os seus proselitismos próprios, com agendas autónomas. E quase sempre fazem economia da questão das relações políticas entre si; mesmo que, uma ou outra vez, façam propostas de convergência das esquerdas. Mas fazem-nas  de tal forma pré-condicionadas a mudanças nos outros potenciais parceiros que verdadeiramente parecem estar apenas a executar manobras de propaganda, tendentes a dourar o seu próprio brasão com  o lustro da unidade, ao mesmo tampo que  embaciam os alheios com o ónus da divisão.

Paralelamente, os cidadãos de esquerda, não organizados em partidos, agitam-se também. Os melhores querem realmente uma esquerda que possa unir-se num sistema de protagonismos conjugados. Alguns procuram mesmo entremear-se com militantes de partidos, para uma antecipação de dinâmicas interpartidárias fecundas. Estes são talvez os mais generosos ao  aventurarem-se , sem reserva mental, a jogar num tabuleiro complexo e ingrato. Mas no estado actual das relações interpartidárias, será mais fácil encontrar militantes partidários que vejam nas realizações conjuntas oportunidades de pesca à linha, do que encontrarem-se cidadãos realmente abertos a contribuir para novas sínteses em que cada parte, sem dever renunciar à sua própria identidade política, não parta da premissa implícita de que é imperativo que as outras partes renunciem  à sua  identidade.

 É claro que há também os místicos, ungidos de uma ilusão de auto-angelismo assente no facto de não serem militantes partidários; e, é claro, há também os "verdadeiros artistas" que se olham ao espelho com o optimismo imprudente de quem se acha em condições de procurar, sorrateiramente, em iniciativas politicamente abrangentes, o trampolim para mais ambiciosos alpinismos políticos. Ninguém é dispensável, nem mesmo os místicos e os artistas de pequena, média e grande dimensão, mas a bem de uma real obtenção de resultados, seria excelente uma pausa em todas as habilidades, renunciando cada partido e cada indivíduo à conversão dos infiéis, para se concentrar na conjugação de diferenças que provavelmente permanecerão.

Não esqueçamos que, aconteça o que acontecer, é improvável que com o centro fora dos partidos de esquerda se estruture uma alternativa, realmente aberta a um futuro. E mais do que isso, se o que é agora uma sombra episódica em algumas das manifestações ocorridas, ou seja, a rejeição de todos os partidos políticos pelo facto de o serem, evoluir para uma vendaval insalubre que marque novas conjunturas, corremos o risco de ficar à porta de um tempo vocacionado para acolher um qualquer fascismo. E, sem exagerar este risco mas sem o menosprezar, o mais certo é que ele só possa ser realmente apagado, se for conseguida uma saída de esquerda para a crise actual, um salto qualitativo no modo de ser da sociedade, que nos coloque numa rota de saída organizada do capitalismo, gradual , democrática e continuadamente.

Um consenso mínimo mas inequívoco quanto à necessidade de um caminho deste tipo é o ponto de partida indispensável para qualquer actuação conjunta, para a partilha de qualquer rota. Embora seja urgente chegar-se a esse consenso, não há dúvida que será difícil. O BE e o PCP têm que assumir que a tomada do poder pela força e o seu exercício  posterior à margem da democracia desapareçam das suas agendas explícitas ou implícitas. O PS tem que se assumir como um partido reformista de transformação social rumo a um horizonte pós-capitalista, o qual para si há-de ser naturalmente socialista, rompendo com qualquer cumplicidade com as estratégias de regressão social e democrática que a ideologia neoliberal travestiu de "reformas estruturais". 

Na verdade, se as rotinas de desunidade da esquerda se mantiverem intactas, não se vê que alternativa institucional poderá ser gerada numa perspectiva de superação da crise actual. Pensarão o BE e o PCP que podem apostar num crescimento que os leve a duplicar a força eleitoral que lhes atribui a última das sondagens referidas? Pensará o PS que pode romper com a estagnação, em que está mergulhado há uma ano no, para a converter em tempo útil numa inesperada expansão que o leve sozinho a uma maioria absoluta? Se assim acontecesse, em ambos os casos isso significaria que teria vencido o irrealismo.

Não é esta a ocasião para discutir esta questão em detalhe, mas, pelo menos no caso do PS, parece poder ter-se como adquirido que ele necessita urgentemente de inovação estratégica, já que nenhuma simples sucessão de alterações  tácticas parece suficiente para o fazer dar o salto de que necessita. Talvez, por isso, o PS mais do que qualquer outro partido precisa de uma transformação profunda, ou seja, aquilo que alguns designam por metamorfose. Permanecer  instalado no exercício  burocrático da sua rotina politico-administrativa é uma passividade que lhe pode sair cara, levando-o a um risco crescente de irrelevância.    

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

POLÍTICA ITALIANA

Uma sondagem, feita recentemente em Itália, mostra continuidade na descida da popularidade de Berlusconi. O seu partido (PDL) está agora com 25% e a coligação de direita que lidera fica-se pelos 35,5%. O chamado terceito pólo, uma congregação heterogénea de ex-democratas cristãos ( UDC), ex-neo-fascistas ( FLI), ex-apoiantes do centro-esquerda (API) e defensores das autonomias (MPA), mantém-se nos 13%, continuando a UDC a ser o partido dominante, com os seus 7%. O centro-esquerda no seu conjunto chega a 45,5%, o que talvez lhe desse a possibilidade de formar governo, se os resultados de umas possíveis eleições correspondessem ao número desta sondagem. O Partido Democrático, partido liderante, ficou-se, no entanto, por uns modestos 28%, sendo significativo o resultado obtido pela Esquerda e Liberdade ( 7,5%) e pela Itália dos Valores ( 7%). Os Verdes(0,8%) o Partido Socialista Italiano(0,7%) e as listas Bonimo-Panella (1,5%) tiveram um expressão reduzida. Fora dos três blocos, surge a esquerda mais radical com 1,5% e o Movimento 5 Estrelas, que busca apoios principalmente na esquerda, com 3,5%.




Dado o desastre político em que se transformou o "berlusconismo", não pode deixar de se mencionar como significativo o facto de o partido alternativo, o Partido Democrático, resultado da estranha fusão entre o sector maioritário do ex-PCI e de os democratas cristãos de esquerda não reunir intenções de voto que cheguem sequer aos 30%.Registe-se a resistência da Itália dos valores , cada vez mais claramente um fenómeno não conjuntural e uma recuperação da esquerda que não aderiu ao PD, por intermédio da Esquerda e Liberdade, eventualmente na esteira do carisma de N. Vendola. As tentativas de ressuscitar, como força política a ter em conta, o velho Partido Socialista Italiano,parecem não ter eco no eleitorado. Ou seja, a direita italiana afunda-se, mas a esquerda não se revela como uma alternativa entusiasmante. O centro heterogéneo parece sem força para se assumir como solução autónoma , mas com a importância suficiente para ser , mais ou menos discretamente cortejado.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ELEIÇÕES : SONDAGENS E EMBOSCADAS

Esta infogravura traduz os resultados de uma sondagem da Intercampus difundidos pelo jornal "Público". O PS com 36,8% seria o partido mais votado, se os eleitores votassem assim no dia das eleições. A uma distância de 2,9 %, ficaria o PSD com 33,9% das intenções de voto. O CDS progrediria bastante, conseguindo com 13, 4% reunir tantas intenções de voto como o PCP (7,4 %) e o BE (6%) somados.



Conjugando-se esta sondagem, com outras recentemente divulgadas, percebe-se uma grande incerteza quanto aos resultados das próximas eleições legislativas: quer quanto a sabermos qual será o partido mais votado, quer quanto a sabermos se os dois partidos parlamentares da direita alcançarão uma maioria parlamentar.


Vários combates se travam num mesmo tabuleiro. O mais ostensivo é o que todos os outros partidos travam contra o PS. Sem dúvida, que lhe provoca um grande desgaste político, havendo um risco de esse desgaste se agudizar, no decurso do curto período que nos separa das eleições. Mas o desastre eleitoral, que parecia ser certo para o PS, quando caiu o Governo, a fazer fé nas sondagens, é agora apenas um risco, que o passar dos dias tem vindo a reduzir.


O PSD, num primeiro momento, pareceu estar apenas perante o desafio de conquistar uma maioria absoluta, já que a vitória relativa não parecia poder fugir-lhe. Redimensionar fortemente o PS, deixando-o a bem mais do que dez pontos de distância, e reconduzir o grupo parlamentar do CDS a um ou dois "táxis", pareciam objectivos ao seu alcance. Estava então na ofensiva, em duas frentes.


O cenário, porém, alterou-se e o PSD vê-se agora forçado a enfrentar duas contra-ofensivas, que o colocam dentro de uma tenaz: dum lado, o PS aproximou-se dele dramaticamente, chegando a superá-lo nalgumas sondagens; do outro lado, o CDS conquistou um espaço político mais autónomo, reaproximando-se dos seus máximos históricos. O PSD passou a correr o risco de não ser o partido mais votado, ao mesmo tempo que via o CDS ganhar uma robustez nova, que lhe permitirá ter uma influência muito mais relevante, no âmbito de um governo de direita. Isto, para não referir o risco, que o PSD corre, de ficar perante um xadrez político complexo, em que o PS possa fazer maioria quer com ele próprio, quer com o CDS; o que significaria uma forte desvalorização da sua importância política no novo contexto parlamentar.


Quanto ao PCP e ao BE, passa-se com ambos um fenómeno estranho. Pareciam destinados a beneficiar de um forte vento de descontentamento popular contra o Governo, que os poderia impulsionar para resultados eleitorais históricos,mas , ainda segundo as sondagens, parecem agora penar para não recuarem, por comparação às eleições anteriores, embora essas dificuldades sejam maiores para o BE do que para o PCP. O facto de nesta sondagem a soma de ambos se equiparar ao resultado do CDS é um autêntico sinal de alarme.


Talvez isso reflicta, afinal, a inconsistência estratégica da orientação política que têm seguido. De facto, ao fazerem coro com a direita na recusa de qualquer acordo com o PS, refugiando-se nuns confusos apelos a imaginários governos de esquerda sem o PS, acabam por se reduzir a si próprios a simples batedores políticos da direita, no combate que ela trava contra o PS. Na verdade, querer combater a política das agências internacionais do neoliberalismo, metendo PS e a direita num mesmo saco, dizendo que são iguais e tanto fazem uns como outros, pode ser uma adequada justificação implícita da sua linha política, mas afasta qualquer hipótese de resistir com êxito a essas agências.


Efectivamente, o próprio modo como o BE e o PCP se opuseram à vinda da "troika", reduzindo o arco de governação mais lógico aos outros três partidos parlamentares, torna ainda mais óbvio que quanto mais enfraquecido institucionalmente sair o PS das próximas eleições, mais forte sairá a direita. Se tão forte que venha a ser maioritária, é o que se verá.


A inabilidade e radicalismo neoliberal do PSD têm tornado mais nítida a diferença entre o que viria a ser um governo de Passos Coelho, em comparação com os governos de Sócrates. Uma parte dos eleitores do BE e do PCP já deram conta disso. Nada garante que muitos outros não venham a ter a mesma perplexidade. Chegarão até ao ponto de votarem no PS, para evitarem o programado festim neoliberal , já agendado, em caso de vitória de direita? Ou, para já, apenas se absterão ? Seria de uma imensa ironia objectiva que a direita ganhasse as eleições, não porque o PS perdesse muitos votos, mas pelo facto de os perderem o BE e o PCP.


Há ainda um outro ponto esquisito na actual campanha. Sócrates (o alegadamente intratável), na qualidade de Secretário-Geral do PS, tem repetidamente publicitado a sua disponibilidade para negociar, com os outros partidos, acordos de governo, tal como parecem desejar as instâncias internacionais e umas tantas legiões de notáveis deste país (a maior parte dos quais nada têm a ver com o PS). Pelo contrário, quer o PSD quer o CDS (alegadamente tratáveis) recusaram publicamente qualquer cooperação governamental com o PS, ignorando os apelos de muitas figuras nacionais das respectivas áreas políticas, bem como as instâncias internacionais e as europeias, estas aliás dominadas pelo Partido Popular Europeu ao qual ambos pertencem. O alegadamente intransigente, Sócrates mostra-se afinal capaz de transigir, quando acha que a isso aconselha o interesse de Portugal. Os retóricos do interesse nacional, na sua versão de direita, são afinal incapazes de secundarizar, por pouco que seja, as suas conveniências partidárias, em face do que tanto dizem respeitar.


O BE e o PCP juntaram-se ultimamente a este coro, rejeitando qualquer acordo com o PS. É claro, que uns e outros falam por vezes expressamente no PS de Sócrates, ou no PS enquanto Sócrates o liderar, como se lhes coubesse a eles decidirem quem deve estar à frente do PS. Mas isso seria apenas uma imbecilidade, se não fosse um afloramento de uma enorme má-fé política. De facto, que Partido sobreviveria à enorme indignidade ética, à imensa cobardia de mudar de Secretário-Geral para obedecer a cominações externas, vindas ou não de outros partidos? Eu, que nunca votei em Sócrates internamente para Secretário-Geral do PS, afirmo sem hesitação que consideraria uma miserável traição admitir sequer discutir com focos de poder externos ao PS a sua substituição ( ou de qualquer outro Secretário- Geral), para fazer a vontade aos outros partidos. Podem não querer acordos com o PS, mas não podem decidir quem deve ou não deve liderá-lo.


Por tudo isto, vai chegando à superfície o significado político profundo da conjugação das estratégias eleitorais dos actuais partidos da oposição. Se todos convergem na rejeição de acordos com o PS, contraem a obrigação moral de se conjugarem numa solução alternativa. Não podem é insultar rasteiramente o PS, dia após dia, e virem depois pedir-lhe apoios ou complacências. Involuntariamente, talvez tenham tornado tudo mais claro: ou há uma maioria absoluta do PS e o PS tem a responsabilidade de encontrar uma solução; ou há uma maioria das actuais oposições e é delas a responsabilidade de encontrarem uma solução governamental.


E se as oposições de esquerda não se sentirem capazes de colaborar numa solução dessas, talvez devam então interrogar-se sobre a razão porque isso acontece. E talvez então percebam que se essa resistência estiver certa, só pode estar errada a linha política que têm vindo a seguir.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

SONDAGENS COMPARADAS

Um olhar rápido para este conjunto de sondagens permite reter algumas constantes. O PSD é sempre o partido mais votado, mas dificilmente chegará sózinho à maioria absoluta. Em compensação, os dois partidos de direita só têm menos votos do que os três partidos de esquerda numa das quatro sondagens.


Mas haver dúvidas quanto a uma possível maioria de direita deve ser para esta uma verdadeira assombração. As oposições de esquerda, poelo seu lado, somadas oscilam entre os 14 e os 16 % de intenções de voto; o PS entre os 30 e os 33%, variando a sua desvantagem relativamente ao PSD entre os 6 e os 9,4%.


A volatilidade da conjuntura económica, o acumular de tensões sociais e o relativo dramatismo da situação política, podem aumentar a margem de incerteza quanto aos resultados eleitorais. Por isso, se o PS for capaz de fugir às rotinas dos interesses instalados e não se deixar encerrar em lógicas acanhadas, estimulando as energias que tem deixado adormecer dentro de si, talvez consiga virar a mesa e reverter o jogo. Se, pelo contrário, viver o período pré-eleitoral como simples acumulação de previsibilidades, arrisca-se a ver cumpridas estas sondagens no dia das eleições.

sábado, 30 de outubro de 2010

BRASIL - últimas sondagens


Será talvez a última ronda de sondagens quanto às intenções de voto nas eleições presidenciais brasileiras que vão de correr amanhã. As infografias que acima se reproduzem , foram retiradas do site do jornal "O Estado de S.Paulo".

Mostram uma evolução favorável a Dilma . A miserável campanha feita contra ela, pela grande imprensa e pelos grandes grupos de comunicação social, em conluio com a direita, com os sectores obscurantistas das igrejas e com o bloco partidário que apoia Serra, parece não ter dado os resultados almejados.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

AVISO SUBLINHADO


Foi difundida, hoje, uma nova sondagem da responsabilidade do CESOP da Universidade Católica.
Os resultados são muito próximos dos divulgados pela Marktest, que já hoje comentei neste blog, no texto anterior. Tal como fiz com os da Marktest, integrei os do CESOP num pequeno quadro comparativo, com resultados de sondagens anteriores, levadas a cabo pela mesma entidade.
Todavia, apesar de próximos, os referidos resultados não são iguais aos da Marktest. O PSD tem aqui menos 2 % e a CDU menos 0,3%; o PS tem mais 1%, o BE mais 2% e o CDS também mais 1% também. No seu todo, a direita ( PSD+ CDS) atinge os 47%; e as esquerdas (PS + BE + CDU) chegan aos 46%. Provavelmente, a direita chegaria à maioria parlamentar e poderia formar governo.
No quadro acima apresentado, vê-se que o PS tem vindo a seguir uma trajectória negativa, o mesmo com ocorrendo com o CDS , conquanto em grau menor. Pelo contrário, o PSD tem percorrido uma trajectória ascendente, o mesmo se passando com o BE. Embora oscilando, a CDU tem conhecido uma certa estabilidade.
Comparando as actuais intenções de voto com as apuradas em Junho passado, constata-se que a direita no seu todo passou dos 43% para os 47%, enquanto as esquerdas, no seu todo, desceram dos 50% para os 46%. Ou seja, embora com valores diferentes , estamos perante uma evolução do mesmo tipo da que foi indicada pelos resultados da Marktest. Também neste caso, o PS perde votos, na mesma percentagem para a oposição de direita ( 4%) e para a oposição de esquerda (4%). Simplesmente, neste caso, à esquerda, só o BE beneficia dessa perda, bem como, aliás, de mais 2% perdidos pela CDU.
A paisagem política é, portanto, semelhante à mostrada pela outra sondagem: a direita fica perto do regresso a uma maioria e as oposições de esquerda, embora alcancem os 20% em conjunto, continuam longe de poderem, por si sós, serem suficientemente fortes para servirem de base a um governo só delas.
A semelhança dos resultados das duas sondagens, bem como o padrão de evolução destacado nos quadros comparativos elaborados, torna mais provável que estejamos perante uma relação de forças com alguma estabilidade. Por isso, a urgência de um sobressalto estratégico, no seio do povo de esquerda e dos partidos que se consideram a si príprios de esquerda, aumenta.
Sublinhe-se que não está em causa a perda de identidade, seja de quem for, nem a cedência perante pressões alheias, mas apenas a procura de novas dinâmicas congregadoras e inovadoras, capazes de, com naturalidade, fundirem, num grande movimento social com pontencial institucional, todas as aspirações históricas do povo de esquerda. Deixar tudo entregue a previsíveis rotinas, numa deriva modorrenta, é uma temeridade , uma imprudência, cada vez maior.

AVISO DE TEMPESTADE


Pode ver-se acima um quadro comparativo das sondagens da Marktest difundidas nos últimos meses. Ele pode contribuir para que se fique com uma ideia mais clara do significado político da sondagem hoje divulgada, cujos trabalhos de campo foram feitos entre 19 e 24 de outubro.
Ela mostra um PSD com 42%, ou seja, com 17 % de vantagem sobre o PS no que diz respeito a inteções de voto. Um PSD que juntamente com o CDS poderia constituir uma folgada maioria parlamentar de direita, se as eleições tivessem sido no passado dia 24. O PS está abaixo do desastroso nível atingido nas eleições europeias de 2009, ao ficar-se pelos 25 % das inteções de voto. O BE é terceira força com 10%; a CDU e o CDS estão praticamente empatados com 8,3% e 8%, respectivamente.
Se forem comparados os resultados desta sondagem com os de uma anterior da mesma agência ( trabalhos de campo de 14 a 17 de Setembro ), verifica-se que o PS desceu quase 11%, tendo os partidos de direita subido em conjunto 5,3 % ( 4% vindos do PSD; 1,3% do CDS) e os outros partidos de esquerda também 5,3 % ( 3,5% vindos do BE e 1,8 % da CDU ).
A comparação destas quatro sondagens durante um período fértil em acontecimentos, com aguda conflitualidade política, crescente mal-estar social e dramática instabilidade económica mostra alguma flutuação no nível de desgaste eleitoral do PS, sendo certo que ela existe e apenas incerto o seu grau. Na sondagem mais antiga e na mais recente, a direita teria maioria parlamentar, chegando o PSD, por si só, à maioria absoluta na primeira e aproximando-se dela na mais recente. O conjunto da oposição de esquerda atinge nesta sondagem os 18,3 % ( 10 % do BE e 8,3% da CDU).
Ou seja, o PS perde eleitorado para a direita e para a esquerda, mas o que perde para a direita é suficiente para esta chegar à maioria; o que perde para a oposição de esquerda não é suficiente para que esta se aproxime sequer da possibilidade de se constituir, por si só, como alternativa de Governo.
Será prudente não esquecer as flutuações de resultados ao longo destes últimos meses nos sondagens da Marktest e lembrar que as outras empresas de sondagens costumam apresentar resultados menos desfavoráveis ao PS do que os dela. No entanto, seria pura cegueira política desconsiderar a sondagem ontem saída. Ela sublinha o risco de uma futura hecatombe eleitoral para o PS, de uma cisão entre o PS e uma parte do seu eleitorado que pode ser duradoura.
O contexto sócio-económico nacional e internacional, a anemia política dos partidos europeus da Internacional Socialista, a sofreguidão com que os poderes fácticos dominantes e a direita política europeia sugam a riqueza produzida pelos povos que dominam, tornam a luta política cada vez mais árdua. E fazem-no em tal grau que vai ficando claro que, sem mudanças estratégicas radicais , sem um sobressalto de unidade e de inteligência colectiva do povo de esquerda e dos partidos que nele têm raízes, corremos o risco de uma prolongada agonia política sob a égide institucional dos autómatos neoliberais que os poderes financeiros internacionais irão teleguiar com bonomia e cinismo.

domingo, 3 de outubro de 2010

Pala além de uma sondagem: desafios e bloqueios.


1. O Expresso de ontem difundiu os resultados e uma sondagem que reflecte já o modo como os portugueses reagiram, pelo que toca às suas intenções de voto, às últimas medidas de contenção, anunciadas pelo Governo do PS.
O PSD fica no 1º lugar com 35% das intenções de voto, logo seguido pelo PS com 33%. Isto significa que o PSD desceu 0,8% em comparação com o mês anterior e o PS, 3%. Em pesquisa feita, também pela Eurosondagem, no mês passado, o PS dispunha de uma vantagem tangencial de 0,2% sobre o PSD.
O CDS, pelo seu lado, ficou em último lugar , entre os cinco partidos parlamentares, com 7%, o que significa um recuo de 1,4%, em face do mês anterior.
A CDU, subindo 2 % , atingiu os 9,7%, enquanto o BE chegou aos 9,3 % por ter subido 2,2 %.
Se olharmos para este conjunto de números, facilmente podemos constatar que a direita (PSD+CDS) chegou aos 42 %. É um número que, em si próprio, não é tão mau como isso, mas que sofre da enorme fragilidade de estarem distribuídos pelos três partidos que lhe são exteriores ( PS+CDU+BE) 52% das intenções de voto.
Basta olharmos para o presente, para vermos que esta maioria, sendo numericamente real, está desprovida de qualquer possibilidade de uma expressão política conjunta que se traduza num exercício de poder estável e dotado de um mínimo de coerência.
Mas também podemos compreender sem esforço, que um governo de direita que tivesse contra ela esses 52% dificilmente seria sequer empossado. De facto, essa hipótese só se poderia colocar se o PSD viesse a desempenhar um papel central no derrube do actual Governo do PS. Ora, nesse caso , será enormemente irrealista pensar-se que depois de ser afastado do Governo pelo impulso determinante do PSD, o PS lhe correspondesse, abrindo-lhe uma porta que poderia manter fechada. E nem seria então caso para se invocar, como condicionante das posições do PS, uma altruísta preocupação com um hipotético interesse nacional, uma vez que só se teria chegado a uma tal dificuldade, se o PSD tivesse antes secundarizado, por completo, esse interesse. Seria, na verdade, o cúmulo da hipocrisia política e do irrealismo que se pedisse ao PS para ajudar o PSD numa dificuldade que só surgira, porque antes o PSD recusara ao PS o que agora lhe vinha pedir.
O PSD tem, portanto, enormes dificuldades tácticas e nenhum sinal positivo em termos estratégicos, perante um xadrez político em que seja esta a relação de forças.
Mas o PS que, no plano táctico, tem o desafogo simétrico do sufoco do PSD, não deixa de ter o ónus da principal responsabilidade em resolver os problemas da governação num contexto difícil, não podendo também ignorar a sombra ameaçadora de importantes dificuldades no plano estratégico.

2. Na verdade, o PS dispõe apenas de pouco mais do que 60% do conjunto das intenções de voto da esquerda, o que significa que os potenciais eleitores dos outros dois partidos rondam os 40 % desse conjunto de eleitores. Se a tendência subjacente à evolução das posições do eleitorado, reveladas pela sondagem acima comentada, se mantiver, as dificuldades sentidas por uma boa parte do povo de esquerda, em face das medidas que são assumidas pelo actual Governo, embora não reforcem a direita , podem reforçar as outras esquerdas.
Ora, se a relação de forças, reflectida pelos resultados que estamos a comentar, já cria enormes dificuldades de manobra ao PS, a subida dos outros partidos de esquerda acima dos 20%, principalmente se for acompanhada por uma descida equivalente do PS, pode criar-lhe dificuldades muito mais severas. Valorizar este risco estratégico, em conjugação com o seu comportamento como partido de um governo que é vítma de condicionamentos e estados de necessidade incontornáveis, no essencial exteriores à sua esfera de poder, é actualmente um imperativo central da sua política.
De facto, o desfasamento continuado entre as necessidades e aspirações estruturantes do interesse social das camadas da população que, vivendo fundamentalmente do seu trabalho, são excluídos, explorados e desfavorecidos, pelo exacerbar da deriva neoliberal ou pelo seu arrastamento, e as práticas institucionais e políticas das forças partidárias em que historicamente essas camadas sociais se reconhecem, é um terreno minado de imprevisíveis consequências.

Uma força política que protagonize na sua acção, continuadamente esse desfasamento, especialmente se o seu protagonismo institucional se traduz no exercício do poder de Estado, corre o risco de romper o elo de identificação histórica estrutural que a une à sua base social, podendo converter-se numa força residual incapaz de desempenhar o papel que antes desempenhava. E nem se está a pretender discutir aqui o acerto ou o erro de medidas tomadas , mas a frustração social continuada dos muitos desfavorecidos que deixem de ver na acção do seu partido um meio para trazer um pouco mais de justiça e desafogo às suas vidas difíceis. Neste plano, o PS tem pela frente um risco estratégico efectivo que seria suicida continuar a menosprezar.
Quanto aos outros partidos de esquerda, eles podem criar a ilusão de que as dificuldades estratégicas do PS se repercutem necessariamente em recursos estratégicos postos ao seu dispor, numa lógica linear de vasos comunicantes. Estão enganados. Se as coisas chegassem ao ponto dramático de um desastre estratégico do PS, ficaria cruamente à luz do dia o facto, hoje ignorado, de que quer o BE, quer o PCP, têm como horizonte um futuro que já não existe ou, quando assim não for, seguem um caminho cujo futuro não sabem imaginar. Reagem muitas vezes às diculdades presentes com decisão, lutam com vigor e denunciam com mérito em muitas circunstâncias, mas caminham verdadeiramente num trajecto sem saída. Vivem, em gande parte, das imperfeições do PS no modo como trilha o seu caminho. Um caminho percorrido com muitas falhas e hesitações, por vezes sem brilho, com lentidão até, mas que é o único que realisticamente nos pode levar ao futuro, se o percorrermos. Todavia, não nos iludamos: se esse caminhante colectivo se afundasse, ficariam de súbito expostos à obrigação de serem esperança identificável os caminhos do BE e do PCP. E então rapidamente ficaria claro que para esses caminhos já não há horizonte.
Por tudo isso, sendo certo que a direita em Portugal só nos pode oferecer futuros de repetição cinzenta das dificuldades presentes, cabe à esquerda ser alavanca para se voltar à esperança. Como? Não sei. Mas sei que o primeiro passo está em todas as esquerdas percebam que têm um difícil problema estratégico para resolver, que os envolve a todas, embora a cada uma de sua maneira; e que sintam que o problema de cada uma delas , embora em menor grau, é também um problemas das outras.
Tudo isto pode ser lido nos resultados da sondagem comentada, talvez porque, no fundo, tudo isto esteja escrito na sociedade em que vivemos.