I. Na sequência das evocações recentes da dimensão coimbrã da crise académica de 1962, vou hoje transcrever um novo Anexo que também incluí no meu livro, publicado em 2016, sobre a crise de Coimbra de 1969 , “Abril antes de Abril”. Trata-se de uma viagem atribulada e insólita entre Coimbra e Lisboa feita no ápice da crise.
II- [Anexo nº 5 ] Uma viagem atribulada durante a crise académica de 1962
Nas
celebrações do cinquentenário da Crise Académica de 1962, a respetiva Comissão
Organizadora pediu-me um testemunho que evocasse um facto então ocorrido com
algum significado, que eu tivesse testemunhado.
O
testemunho evocativo que se segue é precedido por um extrato de um outro
testemunho de um outro estudante e participante nos acontecimentos. O meu texto
faz-lhe referência e sem ele não e completamente compreensível. A minha
remissão para o texto de Cabral Pinto resulta do facto de os dois textos irem
ser difundidos em conjunto.
Foi o Jacinto Rodrigues quem me
pediu um testemunho relacionado com a
crise de 1962, tendo-me enviado o texto do Cabral Pinto como referência e
ilustração do tipo de depoimento que se pretendia. Daí, o facto de eu me
referir a esse texto quando escrevi o meu. Aliás, sem essa evocação talvez eu
nem me lembrasse do episódio
O testemunho do Cabral Pinto fala sobre o
início da viagem de comboio , desde Coimbra até á Amadora. O conjunto dos
estudantes apanhados e cercados pela polícia
na Amadora foi recambiado à força para Coimbra, com as exceções de mim e
do César Oliveira, depositados no Rossio em Lisboa.
Eis o parte do texto do Cabral Pinto a que o
meu faz referência e a que dá sequência.:
“A concentração comemorativa seria na cidade universitária de Lisboa.
Pensámos ir apanhar boleia para a ponte de Santa Clara. Como éramos
irremediavelmente preguiçosos, o jacinto e eu chegámos tarde: a fila dos
utilizadores deste modo de viajar era interminável. Chegámos à conclusão que o
melhor seria optar pelo comboio. Soubemos que estava um para partir com malta
do coral das Letras. Fomos nesse. Porém, a polícia de todo o país
(designadamente Porto e Coimbra) estava a evitar a deslocação de estudantes em
direção a Lisboa. Houve, em consequência, ordem para deter o dito comboio na
Amadora. Os passageiros comuns estranharam: o comboio não costumava parar
naquela estação. A demora foi longa. Sem suspeitar de nada, ficámos tranquilos.
A páginas tantas, entraram na carruagem uns javardos carregados de
material de guerra. Pela primeira vez vi uma metralhadora apontada ao meu
peito. Toda a gente que trajava capa e batina foi obrigada a abandonar o
comboio. A estação estava cercada de polícia de choque. Fizemos uma avaliação
para a hipótese de fuga. Impossível. Queríamos aproveitar a situação para fazer
escândalo junto da população perplexa que se encontrava na estação ou nos
arredores. Ensaiámos então a cena da ocupação da linha. A adesão foi pequena porque
a situação em que nos encontrávamos não tinha sido prevista. Paciência. Para
provocação, o Jacinto ainda se lembrou de perguntar a um dos mastodontes
fardados se o armamento era a sério ou era só para assustar a malta. A resposta
foi muda, mas fez calafrios. Entretanto, chegaram à estação carrinhas da GNR.
Fomos empurrados para as ditas. Tínhamos já formado um grupo que entrou para a
mesma carrinha. Juntámo-nos atrás e iniciámos um animado festival de canções
revolucionárias ("canta, camarada, canta", etc.). Eu berrava, não
cantava (cantar não era manifestamente o meu forte). O que importava era
chatear os bófias.”
Foi depois de ter lido este depoimento que escrevi o meu. Ei-lo:
“A crise de 62 foi bastante movimentada para
mim: fui uns dias para Caxias, fui expulso da Universidade de Coimbra. Também
ia no comboio intercetado na Amadora. Um comboio da pouco frequentada Linha do
Oeste, em vez da previsível linha do Norte. Preventivamente, eu e o César
Oliveira, fomos antes a casa tirar a capa e batina, pensando que em Lisboa ela
seria um elemento ostensivo de identificação que não trazia qualquer vantagem.
Até à Amadora, a viagem já foi narrada
pelo Cabral Pinto. Quando a polícia de choque entrou na carruagem, deu ordem de
saída a quem fosse estudante de Coimbra, dado que na nossa carruagem não iam só
estudantes de Coimbra, embora eles fossem a maioria. Nós, que estávamos à
"futrica", ainda pensámos em ficar onde estávamos, fingindo não ter a
nada a ver com o assunto. Mas logo desistimos, pensando que era pior ficar
isolados, correndo o risco de ser descobertos, do que estarmos junto da malta.
E saímos como todos.
No largo que existia em frente da
Estação, as dezenas de estudantes de Coimbra ali intercetados foram cercados
por um contingente de polícia de choque mais numeroso do que o próprio grupo de
estudantes. E ali ficámos à espera que chegassem as carrinhas da polícia que
nos haviam de recambiar para Coimbra.
Foi então que duas colegas , que estavam
junto de mim e do César Oliveira, que aliás nem se conheciam uma á outra,
desabafaram contristadas que elas nem tinham nada a ver com o Dia do Estudante
e que iam para Lisboa por motivos particulares, que nada tinham nem de
gloriosos nem de subversivo. Logo ali o César as instigou a reclamarem, a
exigirem reparação pelo abuso de autoridade e a resolução do contratempo que
lhes haviam causado. Os mais próximos secundaram logo as colegas, que estavam
visivelmente atrapalhadas. O César falou por elas, interpelando o polícia mais
próximo, para dizer que havia ali quem não fosse para o Dia do Estudante e que
não era aceitável que os tivessem arrancado sem razão do comboio, tanto mais
que tinham família à espera. O polícia de choque ainda perguntou porque não
tinham dito isso no comboio, mas foi-lhe respondido que tinham mandado sair
todos os estudantes de Coimbra sem qualquer outra menção, pelo que tinham saído
todos.
Com algum espanto, vimos o improvável a
acontecer. O polícia deu-nos ouvidos e dirigiu-se a um superior. Daí a alguns
minutos voltou, dizendo que ia ser conseguido transporte para Lisboa, a quem
tinha saído do comboio por engano, dado não ir para o Dia do Estudante. Não era
cómodo, mas era o que se podia arranjar. Até então, na nossa cabeça, quem
estava nessa situação eram as duas estudantes, como nós sem capa e batina . Mas
quando se tratou de irmos para o transporte, uma carrinha aberta com bancos de
madeira, o polícia que se dirigiu àquela parte do grupo, perguntou quem é que
tinha saído por engano. Como ali naquela zona eu e o César estávamos sem capa e
batina, num gesto espontâneo, associámo-nos de imediato, com o máximo de
naturalidade, às duas colegas que realmente tinham saído do comboio por engano.
E lá fomos os quatro numa carrinha aberta da PSP, rumo a Lisboa. Assim, ao
mesmo tempo que, como contou o Cabral Pinto, várias carrinhas da polícia
rumavam a Coimbra, nós os quatro éramos transportados para Lisboa; e ás 10 e
meia da noite fomos deixados sem sobressaltos no Rossio.
Dormi em casa dumas primas do César e ao
outro dia de manhã lá fomos para a Cidade Universitária, onde desde logo vimos
a polícia de choque "limpar" de estudantes a Pró-Associação de
Medicina que funcionava no Hospital de Santa Maria.”
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