terça-feira, 27 de novembro de 2018

No PORTO - suplício e paixão.


No PORTO, apresentação de um livro no dia 4 de dezembro (3ª feira) às 18 horas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meio Século - O cortejo da Tomada da Bastilha de 1968



 O cortejo desfila na Rua Ferreira Borges. Neste momento, bandeira desfraldada, vai  a passar a  República dos Inkas.

Meio Século – uma leve respiração do tempo.
      -o cortejo da Tomada da Bastilha de 1968
Ouvi há poucos dias , num programa televisivo de referência que relembrava 1968, exaltar-se como transcendente uma discussão  estudantil  vivida em Lisboa  entre paredes e cobrir-se de silêncio o que então se passou nas ruas de Coimbra. Também por isso, vale a pena trazer à superfície um ligeiro perfume de verdade histórica. Confesso que fui também para tal acicatado por uma troca de mensagens entre o Zé Dias, o Matos Pereira e o Rui Pato acerca do cortejo da Tomada da Bastilha de 1968. Um episódio que viria a contribuir para o que aconteceu em Coimbra alguns meses depois.
Vou para isso, recorrer ao meu livro “Abril antes de Abril ─ A crise universitária de Coimbra de 1969” ─  limitando-me a citá-lo.
Na sua página 55, pode ler-se:
“No novo ano letivo (1968/69), prosseguindo a dinâmica potenciada em setembro, a CPE[ Comissão Pró-Eleições] manteve a atividade para que tinha sido escolhida. Nos momentos chave de todo esse processo o Secretariado do Conselho das Repúblicas (SCR), foi uma estrutura coadjuvante de grande importância. A CPE e o SCR sempre agiram concertadamente.
Em Outubro de 1968, foi-se tornando claro que o movimento pró-eleições na AAC ganhava força crescente, pelo que se sentia que as eleições académicas não tardariam. Quando isso foi patente, entendeu-se que era acertado (até como meio suplementar de pressão) dar as eleições como facto adquirido e desde logo lançar uma lista candidata à AAC. E optou-se por fazê-la sair das mesmas estruturas que haviam criado a CPE, concebendo o processo do seu lançamento de modo a
aproveitar o prestígio desta Comissão, sem deixar de tornar evidente a novidade da lista.       
Na sequência da entrega do abaixo-assinado dos estudantes de Coimbra a exigirem eleições na AAC ao Ministro da Educação (Hermano Saraiva) numa visita que ele fez a Coimbra, a CPE foi oficialmente recebida por ele no Ministério da Educação, em Lisboa.
Em 25/11/68, dia da Tomada da Bastilha, a CPE anunciou que o Reitor da Universidade lhe havia comunicado a próxima realização de eleições, embora em termos não totalmente coincidentes com os reivindicados por ela. Em 27/11/68, a CA anunciou que as eleições se realizariam em princípios de Fevereiro. Entretanto, a lista do CR fora publicamente divulgada em 23/11/68.”
Mais adiante pode ler-se na página 77:
“O cortejo tradicional da Tomada da Bastilha foi uma impressionante marcha de protesto contra a CA na AAC, tal como nós tínhamos progra­mado, e não a manifestação política que os dirigentes de Lisboa tinham sonhado vir fazer a Coimbra. Isso mesmo foi assegurado pelo próprio Conselho das Repúblicas que organizou o desfile”. E em nota de rodapé acrescenta-se : “ Vale a pena recordar um episódio relevante no processo de preparação do Cortejo. Para isso, veja-se o Anexo nº 14  (pag.  175 )”.
Na primeira parte anexo 14, explicava-se o que é a Tomada da bastilha na Academia de Coimbra : “O ponto alto das comemorações era o cortejo das repúblicas a que se associava toda a Academia e que descia atá à Baixa por onde passava, para voltar para Praça da República. Foi o que aconteceu também em 1968”. 
Na segunda parte, narrava-se o episódio em causa: “Ciente, a partir dessa manhã, dos problemas criados em torno do Cortejo da Tomada da Bastilha, pelos colegas de Lisboa, e aproveitando o facto de estarem presentes todas as repúblicas, no Sarau Cultural integrado nas comemorações, realizado essa tarde no Teatro Avenida, o Secretariado do Conselho das Repúblicas convocou de urgência uma reunião do Conselho.
A reunião decorreu nos bastidores do Teatro Avenida com todos os seus participantes de pé. E aí foi decidido que, sendo o cortejo das Repúblicas, elas se iriam responsabilizar por fazer com que ele decorresse de acordo com a orientação preconizada pelos dirigentes do movimento estudantil de Coimbra. E assim, o cortejo seria dividido em 22 segmentos claramente demarcados (um por república), cada um dos quais seria colocado sob a responsabilidade exclusiva de uma das repúblicas, a qual seria, portanto, responsável por tudo o que decorresse dentro dele.
Todos os estudantes que quisessem participar no cortejo iriam distribuídos por esses 22 segmentos, não havendo portanto cortejo fora deles. O cortejo seria silencioso até que em locais predeterminados se gritassem apenas duas palavras de ordem: “ Fora a CA!” (leia-se Comissão Administrativa da AAC) e “ Eleições Já!” (eleições na AAC, claro).
 O cortejo seguiu o percurso tradicional, tendo atravessado a baixa da cidade mais de três mil estudantes, que nos momentos adequados gritaram as palavras de ordem combinadas. O efeito foi enorme, transmitindo uma imagem de coesão e força de grande impacto.
A propalada tentativa de fazerem do cortejo uma manifestação ostensivamente política, mesmo ao arrepio da vontade dos organizadores do cortejo, que se dizia estar na mente dos colegas de Lisboa, foi assim reduzida a nada. Soube-se que foram esboçadas algumas tentativas, nesse sentido, pronta e implacavelmente anuladas pelos “repúblicos” responsáveis pelo espaço em que surgiram. O cortejo foi assim uma manifestação imponente de apoio aos objetivos imediatos da luta dos estudantes em Coimbra e como se sabe as eleições realizaram-se pouco depois com os resultados conhecidos”.
Evoco o que aconteceu homenageando fraternalmente todos aqueles que atravessaram o tempo naquela noite fria de novembro há cinquenta anos.


domingo, 25 de novembro de 2018

Não deixemos que a memória se apague!


Vamos contribuir para que a memória não se apague, recebendo condignamente em Coimbra Helena Pato, no próximo dia 28 de novembro, 4ª feira, às 18 horas. Vai ser-nos apresentado um livro seu, através do qual nos vai ser dado testemunho de como as vidas verticais não deixaram fechar as portas da esperança, quando a noite cercava o nosso povo.

                                             Clique sobre a gravura para a ampliar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Apresentação de um livro em COIMBRA


Relembrando um próximo evento.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Suplício e Paixão do Socialismo

Vou publicar um livro sobre o socialismo. Vai ser apresentado em COIMBRA no próximo dia 22 de Novembro , ( quinta-feira), na Casa da Cultura, às 18 horas.Estão convidados . Serão bem-vindos.



                                                       Clicar sobre a imagem para aumentar.

sábado, 10 de novembro de 2018

PENSAR A ECONOMIA SOCIAL

Chamo a atenção a quem se interesse pela economia social ou por qualquer das suas vertentes (cooperativa, mutualistas,solidária, comunitária ou autogestionária), para esta iniciativa do Partido Socialista que vai decorrer em Coimbra no próximo dia 17 de Novembro.


 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

domingo, 30 de setembro de 2018

TANCOS ─ PERGUNTAS AUSENTES.



Todos nos recordamos da eclosão do estranho caso das armas desaparecidas em Tancos. Passado algum tempo, miraculosamente , as armas reapareceram. Todos os perguntadores mediáticos exerceram exuberantemente o seu ofício. Há poucos dias explodiu no espaço público um início de solução do mistério que banalizou  as mais ousadas imaginações quanto ao evento. Uma das polícias envolvidas ( a não militar) prendeu gente de outras duas (militares) , dentro de um pacote em que um civil aparecia como exceção. Um civil que afinal era, ao que parece, o alegado ladrão.
O espaço mediático foi sulcado por  uma profusão de especialistas de segurança, de generais na reserva, de discretos polícias, de argutos juristas , de irrequietos jornalistas e dos habituais bonzos de ideias gerais, que emaranharam diligentemente os fios da meada, de modo a tornarem o caso completamente indecifrável. Provavelmente, a realidade , teimosa como é, seguirá o seu caminho e acabará por se vir a mostrar aos nosso olhos, quando a confusão instalada se cansar como nuvem que  passe.
Num programa de promoção de um semanário de referência, ouvi um general na reserva, que desempenhou, quando ativo, cargos importantes na hierarquia militar, dizer que este estranho caso começou meses antes do roubo com um aviso anónimo feito ao Ministério Público de que estava a ser preparado um roubo de armas em larga escala. Indicou mesmo que esse aviso dera origem a um processo.
Gostaria de saber, ou como costumam dizer os mediáticos mais habilidosos: os portuguese gostariam de saber, se o MP informou o Ministro da Defesa, ou o Estado-Maior das Forças Armadas, ou o Exército, ou a Polícia Judiciária, ou a Ministra da Justiça, ou o Presidente da República. Alguém.
Se sim; o que fizeram os informados com a informação? Se não, porque razão o não fez? E já agora porque razão os perguntadores de serviço não fazem, não insistem nestas perguntas?
É que mais importante do que avaliar a segurança dos arames de proteção e a regularidade das vigilâncias  será certamente saber-se qual a razão pela qual, tendo havido alerta de roubo,  não foi feito nada para o evitar.

sábado, 29 de setembro de 2018

CAPRICHO ITALIANO?


1. Em meados do corrente mês de setembro, foi divulgada em Itália uma sondagem das intenções de voto dos italianos. Os dois partidos (Movimento Cinco Estrelas e Liga) que estão na base do governo atual, e que em março passado tinham obtido 50,1% dos votos, obtiveram 59,6% das intenções de voto. A Liga (extrema-direita) que tivera 17,4% dos votos tinha agora 30,2% das intenções de voto, enquanto o Mov.5 Estrelas (centro populista) passou de 30,2% dos votos para 29,4% das intenções de voto. Ou seja, a extrema-direita, hoje minoritária no Governo, passaria a força dominante, se estas intenções de voto se confirmassem, escassos meses depois de ser governo.


A Liga concorreu às eleições de março, integrada numa coligação de direita que abrangeu também a Força Itália (de Berlusconi) [14% dos votos] e os Irmãos de Itália (extrema-direita clássica) [4,4%]. Nesta sondagem, a primeira tem 8,7% das intenções de voto e os segundos, 2,7%. Ou seja, a Coligação de direita, que teve em março 35,8% dos votos, passaria a ter 41,6% das intenções de voto. Mas a Liga, em vez de ser um partido ligeiramente mais forte do que o segundo (antes dominante), passaria a ser a força largamente dominante. E embora a Coligação de direita se tenha dividido quanto a este governo, estando uma parte dentro e outra parte fora dele, já foi anunciado que se manteria em próximas eleições.
 
Nas eleições de março passado, o Partido Democrático (PD) [que faz parte do  Partido Socialista Europeu], força dominante do governo anterior, foi o grande derrotado, tendo-se ficado pelos 18,7%. Na sondagem mais recente, que tem vindo a ser comentada , a sua posição quanto a intenções de voto é ainda mais modesta : 17,3%. Dois outros partidos de esquerda, em parte resultantes de cisões do PD, LeU ( Liberi e Uguali) e PP ( Potere al Popolo), tiveram nas eleições de março, respetivamente :3,4% e 1,1%. Na sondagem recente, em intenções de voto, o primeiro teve 2,9% e o segundo 2,2%. Ou seja, a Esquerda que, no seu todo, somou em março uns desastrosos 23,2 %, conseguiu nessa sondagem a proeza de descer ainda mais, chegando aos 22,4%. Mas encarado isoladamente o PD, em vez de recuperar, desceu 1,4%. Mostrou assim a sua impotência para consubstanciar um sobressalto democrática contra  o controverso governo italiano atual  de Conte/ Di Maio/ Salvini.


Panorama insalubre, bem ilustrado pelo protagonismo de Salvini na cena política europeia,como uma das mais ostensivas alavancas do reerguer da extrema-direita. Panorama enegrecido pela divulgação, em conjunto com a sondagem referida, de um gráfico comparativo da avaliação do desempenho do atual governo e dos governos anteriores, liderados pelo PD e encabeçados primeiro  por Renzi e depois por Gentiloni.

Do primeiro são considerados os meses de abril a novembro de 2016, no âmbito dos quais atingiu, quanto a uma valorização positiva, um máximo de 44% em outubro e um mínimo de 39% em abril. Do segundo, é considerado todo o tempo de duração do seu governo, tendo tido a avaliação mínima no seu início em dezembro de 2016, com 38%; e a máxima no seu último mês em fevereiro de 2018, com 45%.O atual governo tem duas avaliações com duas valorizações positivas; uma  de 57% em junho e outra de 62%  em setembro. Fica assim claro o êxito do atual governo italiano em termos de popularidade, a inocuidade cúmplice da direita clássica e a desorientação gritante da esquerda, especialmente grave quanto ao PD. 
 
2. As próximas eleições para o Parlamento Europeu, que vão decorrer em meados de 2019,  perfilam-se no horizonte como auspiciosas para a extrema-direita e como sombrias para a esquerda. E tudo indica que sê-lo-ão tanto mais, para uns e outros, quanto menos a esquerda for capaz de mostrar um caminho novo para os europeus. Um caminho  que possa esvaziar a atmosfera de descontentamento e frustração sociais de que a extrema-direita se tem alimentado. Um caminho que se aproxime realmente dos povos e resista ao garrote do capital financeiro.
 
Na verdade, quer a extrema-direita, quer a direita clássica mais autoritária, vão continuar a explorar a imigração como nuvem de medos irracionais e vão apostar num soberanismo nacional que se apresente como resistência a uma burocracia europeia sem alma que suga os povos. E pouco importa que essa imagem seja de um simplismo primário que a afasta da verdade, se os poderes dominantes na União Europeia continuarem mergulhados na deriva neoliberal, insistindo no veneno de uma decadência injusta  como se estivessem a conduzir a Europa para um doce paraíso. Incapazes de enfrentarem realmente os problemas da União Europeia abrem a porta a todos os desesperos e encorajam todos os atalhos, mesmo aquilo que prometem sejam apenas noites mais negras.
 
Sem prejuízo de todas as esquerdas deverem ser tidas em conta, é na resposta que for dada pelos partidos que integram o Partido Socialistas Europeu que se joga o essencial destas eleições. Eles têm que tornar evidente que vão assumir a representação dos europeus a quem a atual desigualdade social mais penaliza, que estão decididos a percorrer esse caminho duravelmente. Sem ambiguidades ou tergiversações; sem sofreguidões precipitadas mas com urgência. Ou seja, a qualidade da sua resposta  depende da medida em que se libertarem  do colete de forças ideológico- político que os tem constrangido.
 
Esta nova atitude tem que ser evidente. Não pelo facto de ser proclamada, mas como ressonância óbvia das opções programáticas , das medidas propostas e da posição assumida no xadrez político pelos socialistas. Só assim uma ampla parcela do povo de esquerda sentirá como seus os partidos integrados no PSE, apoiando-os.

Do mesmo modo, só assim se criarão condições para um acolhimento digno dos refugiados extra-europeus . Um acolhimento que desse modo será um aspeto de uma politica de promoção da igualdade e da dignidade de todos os cidadãos , sejam eles europeus sejam eles refugiados.
 
Na verdade, ter a ilusão que é possível, sem abrir espaço para a extrema-direita e para a direita xenófoba, receber condignamente os refugiados extra-europeus numa Europa que continua a escavar as suas desigualdades internas e a desrespeitar uma parte significativa dos seus povos é isso mesmo : uma ilusão. Não é esse o único pressuposto relevante para uma política europeia de imigração justa e humanamente saudável, mas é uma condição sine qua non.
 
Na verdade, o atual panorama político italiano pode ensinar-nos muito se o lermos com cuidado e sem preconceitos. Discursos redondos, circunlóquios ideológicos presos na rotina, subordinação à lógica do capital financeiro, longos textos de um europês burocrático, são elementos que podem gerar uma tempestade perfeita.

Hoje, mais do que nunca, a propósito do que está em jogo nas próximas eleições europeias, tem plena atualidade a conhecida frase de Bossuet: " Não há pior desregramento do espírito do que tomar como realidade aquilo que gostaríamos que ela fosse".


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

TROVOADA SECA !


 
A escolha de uma nova protagonista, para desempenhar nos próximos seis anos a função de Procuradora Geral  da República, para além do que valha em si própria, como opção, (o que a qualidade do seu desempenho vai determinar) teve um significado político muito saudável.
Na verdade, a nuvem justicialista não conseguiu inquinar o processo de escolha da PGR. O desesperado ruído público da matilha mediática, que atingiu níveis de paroxismo quase ridículos, revelou, ao não produzir efeitos, que o seu peso real na relação de forças político-institucionais é equiparável a um modesto tigre de papel.
A aliança fandanga, entre os mais sôfregos politiqueiros da direita, os mais reacionários jornalistas e os mais pernósticos comentadores, pouco mais consegue do que fazer barulho. Aqueles dentes cortantes que nos mostram exuberantemente são afinal simples adereços de uma ferocidade furiosa, mas objetivamente mansa. A canzoada fandanga pode ladrar, mas não consegue morder.
Pergunta final : O que dirá sobre isto,nos seus diálogos de domingo, o percuciente Mendes?

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

No Brasil, a democracia desobedece aos golpistas



O texto que a seguir transcrevo da página virtual do jornal brasileiro de S. Paulo, conhecido por ESTADÃO, sublinha os sinais recentes de mutação na corrida eleitoral brasileira para a Presidência da República :
“A quarta pesquisa Ibope/Estado/TV Globo desde o início oficial da campanha eleitoral nas eleições 2018 revela que o candidato do PT à Presidência da República, Fernando Haddad, subiu 11 pontos porcentuais em uma semana e se isolou na segunda colocação, com 19%, atrás de Jair Bolsonaro (PSL), que oscilou dois pontos porcentuais para cima e chegou a 28%.
A seguir aparece Ciro Gomes (PDT), que se manteve com os mesmos 11% da semana anterior. Geraldo Alckmin (PSDB) oscilou dois pontos para baixo, de 9% para 7%. E Marina Silva (Rede) caiu três pontos, de 9% para 6%. “
Os golpistas que tomaram o poder ao arrepio da vontade popular, abusando da lei, parecem encurralados. De facto, tornou-se provável que sejam obrigados a optar entre um candidato de extrema-direita, que causaram mas que receiam, e o candidato de esquerda que representa o poder democrático que derrubaram.

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

EM COIMBRA -6ª feira, 21 de setembro


                                                            [ Para ampliar clique sobre a imagem]

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Uma tragédia francesa - verniz de mudança numa cosmética conservadora



Uma tragédia francesa
- verniz de mudança numa cosmética conservadora

1. No gráfico acima reproduzido, podem ver-se os resultados de uma sondagem, recentemente realizada em França, que mostra a distribuição das intenções de voto quanto às próximas eleições europeias de 2019. A ausência de qualquer pressão indutora do chamado voto útil faz com que estas eleições sejam as que espelham mais fielmente a atual relação de forças no xadrez político francês.
O ribombar dos grandes títulos reduziu o complexo panorama, acima evidenciado, à notícia simplória de que os “macronianos” tinham meio ponto percentual de vantagem sobre os “lepenianos”, que os “republicanos em marcha” marchavam ligeiramente à frente da ex-Frente Nacional, agora envolta na nomenclatura mais adocicada de “Rassemblement National”.
 
2. O que deveria saltar aos olhos é a estrutural ademocraticidade do sistema político francês. Um sistema  que permite a obtenção de uma maioria esmagadora na Assembleia Nacional a um bloco político que se pode ver  redimensionado até valer apenas 21,5 % dos eleitores. É um bloco político em que predomina largamente o partido do Presidente da República [La République en marche- LREM], mas do qual faz também parte o Modem de François Bayrou.
À sua esquerda, a fragmentação dos protagonistas reduz muito a relevância politica de 28,5% do eleitorado. Se olharmos para as diversas parcelas, verificamos que os « insubmissos » de Mélenchon valem 12,5%, sem os comunistas do  PCF que se ficam por 1,5%. A extrema-esquerda do NPA limita-se a 1%. Os socialistas (PSF) continuam em coma, com 4,5 % das intenções de voto, quase tendo sido alcançados pela dissidência liderada por Hamon a qual  chega aos 4%. Os Verdes não vão além de uns modestos 5%.
 Na direita clássica os alegados herdeiros do « gaullismo »[Les Républicains –LR] chegam a 14%, enquanto os seus aliados habituais da UDI se limtam a 3%. Ao todo, magros 17% que a colocam claramente abaixo da nebulosa de extrema-direita, na qual  avultam os «lepenianos».
De facto, « Debout la France », que apoiou a Srª Le Pen na 2ªvolta das eleições anteriores, atinge os 6%. A ex-FN, como se viu, chega a 21 % e um dissidente seu, com os « Les Patriotes », tem 1,5 %. Numa zona próxima, situam-se dois outros pequenos partidos, cada um dos quais com 1 %. Incluí-los ou não no bloco da extrema-direita faz com que ele ultrapasse ou não os 30%.
 
3. Um rápido olhar para este panorama evidencia que o macronismo não se mostra capaz de conter e de fazer encolher a extrema –direita. Mas mostrou-se eficaz no drástico enfraquecimento da esquerda.
Em aberto está o futuro das suas relações com a direita clássica. Agravará a sua anemia política? Absorvê-la-á ? Fará uma parceria explícita com o que resta dela ? Boas perguntas.
O jovem Macron, impulsionado por uma vitória que o sistem francês potenciou, tem procurado  tingir os seus desígnios com a cor da novidade, tentando exportar para a União Europeia uma imagem arejada.
Mas tem-se movido no quadro de uma estreita obediência ao essencial dos cânones instituídos e de uma mansa aceitação da hegemonia do capital financeiro. Por isso,  é de recear que o gráfico acima reproduzido represente o prenúncio  de uma tragédia francesa. Uma tragédia gerada pela óbvia  inocuidade de qualquer verniz de mudança que se aplique no quadro de uma cosmética conservadora.

domingo, 9 de setembro de 2018

O PRESTÍGIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO - uma fantasia interessada




O PRESTÍGIO DO MINISTÉRIO PÚBLICO
         - uma fantasia interessada

1. Está em curso uma campanha promovida pela direita justicialista para pressionar o Governo , constrangendo-o a propor a recondução da atual Procuradora- Geral da República (PGR) ao Presidente da República, a quem cabe nomeá-la sob proposta do Governo, para  um eventual segundo mandato.

Nunca, na vigência do atual quadro legal, ocorreu qualquer recondução. Há uns tempos atrás, a própria Procuradora exprimiu publicamente a posição de que entendia que o seu mandato era único. O mesmo aconteceu com o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.

A mudança de regime jurídico que gerou o atual teve como objetivo central acabar com a admissibilidade da repetição ilimitada do mandato do PGR que,  até então, apenas dependia da vontade política de quem intervinha na sua nomeação. O mandato único prolongado parece ter sido a opção que foi seguida. Mas essa opção não ficou consagrada expressamente.

O argumento principal mais correntemente aduzido para a recondução da atual PGR é o de que o seu mandato foi um êxito que prestigiou o Ministério Público e a ordem jurídica portuguesa. Esta ideia de um mandato excelente proclamada por jornalistas, políticos e comentadores, é ancorada na afirmação recorrente do apreço que por ela têm os portugueses.

Poucas  vozes audíveis ousam erguer-se no espaço público para questionar esse novo dogma. E, no entanto, esse dogma exprime uma falsidade. Uma falsidade desesperadamente ocultada  pela nuvem mediática conservadora, que tanto se tem esforçado por enublar a verdade.

Aliás, bastaria o modesto esforço de ler o Expresso, certamente isento da suspeita de malvadez contra os arcanjos da coisa pública, para verificar que afinal os portugueses não vivem entusiasmados quanto à qualidade  do mandato de Joana Marques Vidal.

De facto, na hierarquia do prestígio e apreço públicos, os magistrados do Ministério Público batem ingloriamente os juízes na conquista do último lugar. É isso que nos mostra um estudo de opinião publicado em julho passado no Expresso. Consideram positiva a atuação do Ministério Público 15,3 % dos inquiridos, enquanto 34,7 % a acham negativa, o que significa um saldo negativo de 19,4%; 30,6% não a acham boa nem má. Nesta sondagem, nenhum outro órgão público tem saldo negativo, tendo alguns um forte saldo positivo. E, se olharmos para estudos idênticos publicados no último ano, podemos ver que os números obtidos não se afastam muito dos acima referidos.

Portanto, os comentadores, os jornalistas e os políticos que formulam opiniões com base na ideia de que o mandato da atual PGR projeta  uma imagem pública positiva,  estão enganados ou querem enganar-nos, confiando na nossa distração.

2. É óbvio que não depende da popularidade do possível  nomeado a legitimidade da escolha de um PGR por quem tenha competência legal para o fazer. Mas muito menos se pode, com decência, procurar condicionar uma escolha com alegações falsas. Menos ainda quando a falsidade dessas alegações é evidente e facilmente verificável.

A mesma nuvem mediática dá uma cor de excelência a tudo o que o MP fez acontecer nos últimos anos e esquece qualquer notícia de algo que tenha corrido mal. Mas basta que nos concentremos nas violações do segredo de justiça para se tornar notória uma deficiência grave no modo como tem funcionado o MP ao longo do mandato da atual PGR.

E não se está a falar de uma falha funcional esporádica e não premeditada. Está-se a falar de comportamentos reiterados que indiciam um padrão de promiscuidade entre uma parte da comunicação social e alguns protagonistas judiciais, entre os quais surgem muitas vezes como mais prováveis alguns magistrados do MP.

Embora pela sua natureza esta promiscuidade só seja mediaticamente apetecível quanto a alvos de elevada notoriedade pública ou de grande peso institucional, está na disponibilidade dos protagonistas do aparelho judicial a decisão de a praticar. Mas quem a praticar infringe a legalidade.

Em regra, as fugas de informação em fases iniciais dos processos são favoráveis aos desígnios de quem pretende acusar e mancham, muitas vezes indelevelmente, e desde logo, a reputação dos potenciais ou reais arguidos. As versões dos acusadores públicos são difundidas pela comunicação social como verdade substancial, instituída e final. E assim,  por vezes  durante anos, vão decorrendo em lume branco verdadeiros linchamentos mediáticos, apesar de se estar longe de qualquer julgamento final definitivo que condene ou absolva. 

Desse modo, está a aplicar-se desde logo uma pena pública de enxovalho ético, sem que o visado se possa defender com armas iguais. Um enxovalho consubstanciado em imputações mediático-políticas, cuja força depende, quase exclusivamente, de serem apresentadas como oriundas do aparelho judicial. Para muitos dos visados é mais penalizadora a exposição prolongada a campanhas de descredibilização ética e de forte reprovação social do que um cumprimento de pena.

Ou seja, em alguns casos um processo de investigação desdobra-se à partida em dois processos distintos: um processo judicial normal em regra prolongado com um respeito aceitável pelo contraditório, e um linchamento mediático, em regra feito a partir de uma enorme desproporção e forças, entre quem é linchado simbolicamente e quem lincha. Esta segunda vertente do processo é ilegal e é vergonhosa.

Embora, em regra, nos casos mais mediáticos, as fugas de informação convenham às acusações, não se tem provado que elas partam em exclusivo ou sequer principalmente do MP. É lógico que o sejam, mas não se têm  provado. Em contrapartida ,não há dúvida que, se os protagonistas do MP envolvidos nesses processo tivessem uma vontade firme de se oporem a essas fugas , seria muito difícil, ou até impossível, elas ocorrerem com a extensão com que se conhece.

Esta promiscuidade dificilmente será imune a estratégias de aproveitamento, nomeadamente de aproveitamento político, para se atingirem por via judicial o que se não consegue atingir pela via política, legítima e democraticamente. Não quer dizer que o seja necessariamente, mas não há nenhum obstáculo estrutural que o impeça.
Daí resultará, naturalmente, que o pluralismo ideológico e político da sociedade portuguesa conduza à aprovação ou ao consentimento de uns e à reprovação de outros.  Mas, uns e outros, no seu íntimo, ficarão mais céticos quanto à imparcialidade da máquina judicial. Pode ser que no momento em que enfrentem uma imparcialidade que lhes agrade se disponham a aplaudir, mas sabem que se mudar o vento ela  pode virar-se contra eles.

Como se vê, a promiscuidade acima mencionada não é uma sequela menor da questão do segredo de justiça, encarando-se esta como um problema técnico-jurídico sem verdadeira relevância. Ao contrário, é uma grave insalubridade estrutural do sistema judiciário que lesa gravemente a qualidade do trabalho judicial e desprotege os cidadãos num ponto nevrálgico da sua vida e dos seus direitos.

Desta maneira, ainda que tudo o resto fosse excelente, não se percebe como, perante esta falha tão grave, alguém possa apelar para que, quem não se mostrou capaz de a colmatar, continue a liderar o MP. Não se trata de alegar uma falha que justificasse uma demissão, trata-se de constatar uma impotência que, a prolongar-se, não será certamente benéfica para o sistema jurídico e para a democracia. Admitir sequer a recondução é por isso discutível, mas invocar o histórico do mandato como impulso para essa renovação é verdadeiramente caricato.

As sondagens que acima mencionei mostram que os  portugueses estão cientes dessas limitações, ao contrário da nuvem mediática insalubre e dos arautos justicialistas da direita mais sôfrega, a qual  tem oscilado neste campo  entre a desfaçatez e a pura desonestidade intelectual e política.

Há uma decisão a tomar, quanto a quem vai desempenhar as funções de PGR nos próximos seis anos, que cabe conjugadamente a dois órgãos de soberania por força da lei, o que torna impossível a qualquer deles nesta matéria ignorar o outro. Desse modo, para nenhum deles seria inteligente tentar forçar uma solução que não fosse justificável e objetivamente defensável. Ao  Presidente da República cabe a palavra final, ao Governo cabe fazer a proposta, devendo cada  um deles, naturalmente, exercer livremente os poderes de que dispõe.

Para concluir, não posso deixar de registar que a direita mais justicialista e a nuvem mediática insalubre se acham no direito de dizer a António Costa o que ele deve fazer, impedindo-se no entanto de ronronar a mais leve sugestão quanto ao que deve fazer neste caso Marcelo Rebelo de Sousa.


sexta-feira, 24 de agosto de 2018

BANALIDADES DE BASE




Em política, quem se esquece do passado dificilmente consegue imaginar o futuro. Mas quem  conserva o passado apenas como uma ferida feita de heroísmos e cobardias , distribuindo céus e infernos, talvez permaneça mergulhado nas suas justas cóleras, mas dificilmente se lembrará do horizonte. Por isso, pouco poderá contribuir para que esse horizonte seja realmente procurado como esperança.

O segredo dos grandes “exércitos” de todas as naturezas não foi o de serem constituídos por heróis, mas o de, no calor das refregas, terem transformado em heróis os homens comuns.

Mostrares, mesmo com verdade, como o teu companheiro é fraco e titubeante não aumentará a energia  com que ele te possa ajudar.

Três banalidades de que dificilmente discordaremos, mas que muitas vezes estranhamente esquecemos.

domingo, 19 de agosto de 2018

Libertar os professores socialistas?





Libertar os professores socialistas?

Há um velho dilema objetivo que se coloca aos professores socialistas. Especialmente aos militantes e aos simpatizantes do PS, mas que envolve também os seus eleitores habituais. Devem os professores socialistas esquecer o seu vínculo partidário, quando se trata da atividade sindical, enquanto  os militantes e simpatizantes de outros partidos o não fazem?  Deve, nestas circunstâncias, o Partido continuar totalmente alheio a esse dilema, não dando aos socialistas qualquer orientação explícita e taxativa ,  nem sequer dando também  qualquer indicação preferencial com o simples carácter de sugestão?

O que foi noticiado este fim de semana quanto às posições dos sindicatos dos professores no que concerne à aprovação do próximo orçamento de Estado  reacende a questão. De facto, os sindicatos em causa, e em especial os três com maior visibilidade, declararam ir pressionar o PCP e o BE para chumbarem o orçamento, se dele não resultar a satisfação completa das reivindicações que os opõem ao Governo. Ou seja, pedem a esses partidos para derrubarem o atual Governo do PS, dando assim à direita uma oportunidade para o substituir na sequência das novas eleições que daí adviriam.

Julgam que um Governo de direita trataria melhor os professores do que o atual ? Foi isso que fez o Governo anterior? E acham os professores simpatizantes das diversas áreas políticas da esquerda que um governo de direita seria melhor para o país do que o atual governo? Se o pensam por que continuam a ser de esquerda? Se o não pensam, porque deixam que as lideranças sindicais atuem em sua representação contra aquilo que pensam?

Os três sindicatos mais visíveis têm como líderes mais ostensivos dirigentes cuja identidade política é pública: um é militante do PCP, outro é militante do PSD e outro (mais recente, mais fogoso e com menos apoios) é de um antigo candidato do MAS. Todos convergiram na iniciativa política acima referida, dirigida ao chumbo do próximo orçamento. É aliás comovente apreciar o entusiasmo  com que um destacado militante do PSD se associa angelicamente à exigência feita ao PCP e ao BE, para chumbarem o próximo orçamento, se ele não for tão longe como acham  que deverá na reversão das malfeitorias feitas pelo seu próprio partido quando foi governo. A pergunta regressa: o que pensam os professores socialistas de tudo isto? O que contam os professores socialistas em tudo isso?

E aqui eu não discuto o fundo da questão, mas apenas se a constância do desacordo entre o Governo e os sindicatos, é uma razão suficiente para derrubar este governo, abrindo de novo as portas à direita? Que os professores de direita possam pensar isso acho compreensível. Que os professores de qualquer das áreas da esquerda o pensem acho estranho, a não ser que discordem da atual solução e preferissem que tivesse continuado a governar  Passos Coelho. Mas que os militantes, os simpatizantes e os eleitores do PS pensem dessa maneira acho muito improvável. E, no entanto, esta área política envolve, previsivelmente, entre 35 a 40 % do eleitorado. Quem os ouve? Quem os pode representar?

Em função, de tudo isto dou comigo a regressar há umas  décadas atrás, quando os professores do PCP quebraram a unidade sindical dos professores e criaram os seus próprios sindicatos. Eu não era então militante do PS, mas da UEDS, tendo havido reuniões com militantes do PS para se equacionar a possibilidade de fazermos algo de paralelo nos professores ao que havia feito  o PCP. A iniciativa morreu. Passaram décadas; mas  o problema mantém-se: os socialistas estão dispersos pelos vários sindicatos e em todos subalternos. É uma opção possível deixar tudo como está. Mas não acho que seja uma boa opção.

Por outro lado, a expressão organizada dos professores dentro do PS é fraca, embora já o tenho sido mais. Durante mais de uma década, a partir de 1989, participei na Federação a que pertenço numa seção sectorial de Educação. Mais algumas idênticas existiam então noutras federações. Poucas , mas com alguma audibilidade. Tudo entretanto foi esmorecendo, perdendo visibilidade e relevância política autónoma. 

Algum tempo depois, na minha Federação foi desencadeado um subtil processo de confinamento e neutralização da seção de educação de que era membro . No termo de um sub-reptício  processo  a seção foi extinta, aparentemente por força do jogo de pequenas lógicas de pequenos poderes.  Olhando hoje para o rosário dos protagonistas e animadores principais de tão discretas manobras, surpreendo-me a desconfiar do lóbi dos negociantes de colégios.

Seja como for, com o desprendimento e o distanciamento  que a senectude traz, parece-me tempo de os professores socialistas forjarem uma dinâmica própria que os habilite a ter um papel de interlocução no seio do Partido e no seio dos Sindicatos. Não se trata de preconizar a criação de um bloco de guerreiros que se ponha ao serviço de poderes ou da sua contestação. Trata-se de criar um lugar organizado de troca de ideias, útil ao país, à educação, aos sindicatos e ao partido. Para começar, juntamo-nos organizadamente. Depois decidimos o que fazer. E se a direção do PS tomar este processo em mãos, isso então será excelente.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O REGRESSO DOS SOCIALISTAS ESPANHÓIS




O REGRESSO DOS SOCIALISTAS ESPANHÓIS

1.Foi recentemente difundida em Espanha uma sondagem ( barómetro CIS), cujo trabalho de campo decorreu em julho. Ela merece alguma reflexão pelas tendências que confirma e pela diferença que assinala em face do que outras indiciavam há uns meses atrás, uma das quais em maio passado.
Como se recordam, no início de junho, um governo do PSOE , liderado por Pedro Sánchez, tomou posse em Espanha,  depois de ter derrubado com uma moção de censura o governo de direita protagonizado pelo PP e liderado por Mariano Rajoy. Pela lei espanhola, um derrube de um governo por essa via suscita a instituição de um governo liderado pelo partido que apresentou a moção de censura. Foi isso que aconteceu.
Foi um gesto ousado que se seguiu a uma sentença judicial que atingiu em cheio o PP no campo da corrupção. A maioria necessária para a aprovação da moção era de 176 deputados, tendo votado 180 a favor e 169 contra, com uma abstenção. De um lado, ficou o PP e os Cidadãos, do outro, o PSOE, o Podemos e todos os partidos nacionalistas autonómicos, com exceção de um deputado da Coligação Canária que se absteve.
Com um gesto político ousado o líder do PSOE, apenas com 84 deputados em 350, chegou ao Governo. A sua base de apoio parlamentar é objetivamente frágil, mas não deve ser menosprezada a força política que resultou da sua ousadia e das dificuldades políticas que projetou nos campos dos seus adversários e dos seus concorrentes.

2. Em maio, antes da queda do governo de Rajoy, uma sondagem divulgada pela Metroscopia, dava o primeiro lugar aos Cidadãos com 29,1% das intenções de voto, com os outros três partidos na casa dos 19%: 19,8 % para o Podemos, 19,5% para o PP e 19 % para o PSOE. Os dois partidos de direita somavam 48,6% dos votos, os dois partidos de esquerda somavam 38,8 % dos votos.
No início de junho, entrou em funções o novo Governo do PSOE. Já em agosto, foi difundida uma nova sondagem pelo barómetro do CIS (Centro de Investigações Sociológicas) que oferece um panorama totalmente diferente. O PSOE é quem reúne um maior número de intenções de voto, com 29.9 %, o que representa uma subida superior a 10%, em comparação com a sondagem atrás referida; o Podemos reúne 15,6% dos votos, o que traduz uma quebra de 4,4 %; os Cidadãos e o PP ficaram empatados com 20,4% das intenções de voto, o que representa um ligeiro acréscimo de 0,9% para o PP e uma perda de 8,7 % ara os Cidadãos. Os dois partidos de esquerda somam agora 45,5% e os dois de direita 40,8%. Assim, foi nítida a inversão da relação de forças antes verificada. Por outro lado, os partidos nacionalistas catalães somam 5,2 % e os nacionalistas bascos somam 1,8%. E o facto de estarem concentrados em partes circunscritas do espaço eleitoral garante-lhes uma representação parlamentar, cuja relevância não é menosprezável.
É uma comparação muito significativa, mesmo cotejando duas sondagens pelas quais foram responsáveis entidades diferentes, tanto mais que são grandes tendências que aqui estão em causa. 

3. No campo da direita, a mudança do contexto parece ter quebrado o elan dos Cidadãos. Eles reivindicavam-se como alternativos e totalmente diferentes do PP, recusando qualquer corresponsabilidade na sua gestão. Davam centralidade a uma forte crítica ao fisiologismo corrupto do PP e arvoravam a bandeira de uma inovação, alegadamente radical, destinada a fazer murchar os partidos tradicionais.
Mas a moção de censura obrigou-os a mostrar quão secundárias eram quer a sua incorrupção quer o seu ímpeto inovador. Na verdade, ao terem que assumir a sua preferência pelo PP, em detrimento do PSOE, na votação da moção de censura ,tornaram óbvio o que tanto queriam esconder: o seu “nem de direita nem de esquerda” , afinal, não era mais do que uma ocultação da sua pertença inequívoca  ao campo da direita. E assim se revelaram menos puros do que aquilo que queriam fazer crer e menos novos do que aquilo que ostentavam.
O PP teve o desaire mais dramático para um partido de direita, habituado ao exercício do poder: perdê-lo. Rajoy saiu de cena e a disputa subsequente da liderança deu uma vitória ambígua a Pablo Casado , que representa uma linha mais identitária e aparentemente mais direitista, no plano ideológico. Foi desse modo derrotada Soraya Sáenz de Santamaría, um importante esteio do governo de Rajoy, a qual parecia protagonizar uma via mais pragmática e mais virada para o centro. Uma via que parecia estruturalmente mais adequada a competir com os Cidadãos, no espaço político da direita que aspira a mostrar um verniz mais democrático e modernizador. A disputa entre os dois principais partidos da direita tornou-se mais complexa e mais incerta.
Na esquerda, o Podemos passou a estar longe da desejada “ultrapassagem” do PSOE que antes parecia estar em vias de conseguir, mas conquistou uma influência político-institucional que antes lhe faltava. Em termos absolutos, pode até parecer que recuou, no entanto, se olharmos para o tabuleiro político no seu todo, fica claro a perda dos pontos percentuais referidos não impediu o aumento da sua capacidade de influência político-institucional.
Seja como for, a atual relação de forças no xadrez político espanhol sugere uma relativa volatilidade nos dois campos. Dentro da esquerda, a relação de forças está longe de se poder considerar cristalizada, parecendo claro que o protagonismo político de qualquer dos dois campos tem uma componente interativa incontornável. Ou seja, a força política quer do PSOE quer do Podemos depende muito do modo como cada um deles souber interagir com o outro. Tanto o sectarismo como a arrogância parecem inclinações suicidárias, embora o apoucamento consentido de qualquer deles esteja bem  longe da  salubridade.

4.Sem menosprezar o efeito positivo de algumas medidas anunciadas e de algumas grandes linhas de orientação propostas, seria pouco convincente atribuir-lhes a causalidade principal no espetacular aumento das intenções de voto no PSOE. Mais admissível será valorizar-se a própria ousadia do PSOE, ao assumir a sua alternatividade em face do governo de direita, sem ambiguidades nem tergiversações, com base numa conjugação ostensiva com todas as outras esquerdas, bem como com todos aqueles que, por qualquer razão, se opunham a Rajoy.
Pedro Sánchez em 2014 foi eleito Secretário do PSOE em eleições primárias internas. Em outubro de 2016, demitiu-se, uma vez que na direção do partido se formara uma maioria que se lhe contrapunha. Essa maioria na executiva federal do PSOE advogava uma atitude transigente em face do PP que permitisse a este partido formar governo, o que dependeria do consentimento do PSOE e viria a acontecer. Formou-se então uma comissão de gestão provisória que dirigiu o PSOE até à realização de novas eleições primárias internas que viriam a ter lugar em maio de 2017.
Pedro Sánchez concorreu de novo ao cargo de que tinha sido forçado a demitir-se. Teve contra ele como principal adversária a Presidente do governo andaluz Susana Díaz. Esta dispunha do apoio da maioria dos deputados e dos senadores do PSOE, bem como dos Presidentes das mais importantes comunidades autónomas dirigidas pelos socialistas, tendo ainda a seu lado a preferência da larga maioria da Comissão Executiva provisória do partido. Todos os antigos secretários-gerais do PSOE e alguns outros destacados históricos do PSOE apoiaram publicamente a dirigente andaluza, que aliás encabeçava a mais poderosa Federação do partido. Concorreu também Patxi López que já havia sido Presidente do Congresso dos Deputados e Presidente do Governo Basco, protagonizando uma espécie de via intermédia. Os resultados foram claros Pedro Sánchez recebeu cerca de 50% dos votos, Susana Díaz, 40% e Patxi López 10%.
Se olharmos com objetividade para tudo isso, podemos ver que os militantes do PSOE desautorizaram claramente a deriva de complacência para com a direita, defendida e praticada pelos opositores internos de Pedro Sánchez. No entanto, os outros poderes internos do PSOE não deixaram de constranger Pedro Sánchez, potenciados pela projeção institucional de muitos deles nos diversos níveis do Estado. Complementarmente, a questão catalã veio perturbar ainda mais a afirmação de uma nova via que Pedro Sánchez pretenderia protagonizar. O efeito positivo que tivera nas intenções de voto o regresso de Sánchez à liderança do PSOE, foi-se esbatendo. Voltou à superfície da memória do eleitorado de esquerda a sombra projetada pela complacência perante o governo Rajoy. Uma complacência da responsabilidade dos setores moderados dos socialistas espanhóis que cercaram Sánchez e que a tinham imposto ao partido ao arrepio da vontade dos militantes.
A sondagem de maio, acima referida, projeta eloquentemente esse bloqueio a que o PSOE fora levado pela inconsistência estratégica dos seus setores mais moderados e mais envolvidos no exercício de poderes políticos. A sondagem mais recente mostra como um gesto ousado pode romper um cerco aparentemente irremovível.
Tudo isto exige uma leitura crítica do que aconteceu, sendo desejável que nunca esqueçamos e que os partidos de esquerda nunca esqueçam que têm uma base social própria que os envolve e incorpora, cuja natureza mais funda está no facto de globalmente ser ela a principal prejudicada com as desigualdades sociais estruturais inerentes ao tipo de sociedade atual. Um tipo de sociedade em que o capitalismo é predominante.
Na verdade, separar um partido de esquerda da sua base social é o mesmo que cortar um ramo de uma árvore: não passará muito tempo até perder o viço e secar. De facto, a realidade vai-nos mostrando, uma e outra vez, de várias maneiras, em diversos planos, que um partido de esquerda, que um partido socialista, que se deixe instrumentalizar pela direita perdendo o horizonte que lhe é próprio, fica á beira de um precipício de irrelevância política que pode até fazê-lo desparecer.