quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ainda o candidato catavento


Foram vários os comentários ao texto que difundi no Grande Zoo sobre o novo candidato presidencial Fernando Nobre. Aí, baseando-me na diversidade de posições políticas que ele assumiu nos últimos anos, qualifiquei-o como candidato catavento. Sem procurar responder a todas as reacções, vou falar um pouco mais dessa candidatura, tentando tornar mais claro o que penso dela.

Não faria sentido questionar a legitimidade de qualquer cidadão se apresentar como candidato presidencial, muito menos se esse cidadão é uma figura pública, cuja notoriedade se deve a um tipo de actividade, em si, dignificante.

Não sendo conhecido o perfil político-ideológico da candidatura, é claro que ele pode levar-me a atenuar a distância que me separa dela ou a aumentá-la; mas nunca votarei num candidato, que projecta uma atitude e uma mundividência, situados longe do povo de esquerda.

Porém, o que é iniludível é o modo errático como o candidato tem interagido com a esfera politico-partidária, nos anos mais recentes, mesmo que em benefício dos apoiados . De facto, saltar em poucos anos do PSD, para o PS, depois para o BE, e logo depois e ao mesmo tempo, para o PS e para o PSD, concentrar, em poucos meses, a qualidade de mandatário nacional do BE, bem como a de apoiante, em concelhos vizinhos, de candidaturas autárquicas do PS e do PSD, não é sintoma de coerência, nem indício de autenticidade.

Aliás, a sua ubiquidade política foi tão intensa, em tão pouco tempo, que, agora que sabemos ter sido protagonizada, por alguém que já então sabia que viria a ser candidato presidencial, é legítimo pensarmos que, no fundo, não foram os seus apoiados que se aproveitaram do seu apoio. Pelo contrário, foi Fernando Nobre que, ao publicitar premeditadamente apoios diversificados, estava a procurar preparar o terreno para uma candidatura presidencial. Uma candidatura que ficasse com a possibilidade de lançar pontes para vários lados. A imagem do cidadão angélico, acima de toda a suspeita, fica assim algo embaciada. Afinal, eis mais um político matreiro, parecido com os que frequentam os tais partidos de que ele tanto quer parecer distante.

Por isso, é um equívoco discutir-se se vem dividir o eleitorado do PS, ou se é um candidato para unir toda a esquerda, ou é, simplesmente, um candidato do fantasma do soarismo.
Como o ouvi dizer a um repórter televisivo, Fernando Nobre é um candidato cidadão, que só reconhece, como seu, esse "pilar". Isto é, que protagoniza uma cidadania que quer apagar as diferenças entre esquerda e direita, através de uma espécie de neo-franciscanismo induzido, que salvaria o país pelo exemplo de um “presidente-santo”.

Não sei que adereços programáticos usará para evitar uma excessiva exposição do essencial da sua candidatura, mas a sua matriz identificadora é um providencialismo, tecido de uma solidariedade subtilmente ostentada, de modo a sensibilizar um eleitorado cansado de sofrimento, que só por equívoco não vota à esquerda.

Por isso mesmo, se a candidatura de Fernando Nobre for encarada , não por aquilo que ela quer fazer-nos crer que é, mas por aquilo que no essencial ela realmente é, facilmente vemos que é a Cavaco que ela mais directamente disputa espaço. Se isso acontece no quadro de uma qualquer concertação entre ambos, ou se visa competir com ele é o que havemos de ver.
Mas, seguramente, que é uma candidatura para concorrer na 1ª volta com Cavaco e não com Alegre.

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