sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

É urgente substituir o povo!

 



É urgente substituir o povo!

1. Deixei passar uns dias antes de tecer alguns comentários a propósito das recentes eleições legislativas. Deixar assentar as poeiras mais imediatas pode ajudar na  crítica. Não pretendo fazer uma abordagem global. Pretendo apenas escolher alguns tópicos dispersos que me pareçam sugestivos e possam ser envolvidos em relevâncias futuras.

No dia 30 de janeiro, o (im)plural panorama da comunicação social portuguesa foi acossado por um violento sopro de realidade.

 

2. Uma vasta corte de comentadores políticos da direita ressequida, de oráculos reformados da esquerdíssima mais cortante, de cultores luminosamente científicos da vulgata neoliberal, de jornalistas previsíveis e de comunicólogos emaranhados, partilhou uma esforçada campanha destinada a explicar por que razão estavam em perigo , nas eleições do passado dia 30, o PS e António Costa, a quem seria servido inevitavelmente, na melhor hipótese, o amargo sabor de uma vitória pífia; e, na pior, o compreensível e merecido castigo de uma derrota paralisante.

Ora, se acusava AC de ser um inconfessado e oculto amante da maioria absoluta, ora se trovejava contra o alegado descaramento de a pedir expressamente. Mas ao mesmo tempo, qualificava-se como puro delírio o sonho de a vir a obter.

Com melíflua comiseração, apontava-se o seu óbvio cansaço, traçando-se um quadro dramático das  sucessivas não remodelações do seu Governo, acentuando o gigantismo de alguns minúsculos casos com que o tentaram cercar, para afirmar com a frieza gulosa de um imaginário rigor, que também o bom povo estava cansado dele, muito cansado.

Cientes do excesso de culparem directamente o governo do coronavírus 19, atiravam-lhe para cima imaginárias insuficiências e falhas de comunicação. O povo estava farto, fartíssimo de António Costa e do governo do PS.

 

3. Despertos para o grande desígnio nacional do reformismo holístico, no âmbito do qual cada corporação de interesses e cada corte ideológica do abrangente conservadorismo vigente, tingem a sua feroz apetência alegadamente reformista com a cor forte dos seus interesse mais egoísticos, deixavam cair implacáveis a sua mastigada e incontornável sentença: o governo do PS liderado por António Costa fugiu dramaticamente de todas as reformas.

 Rigorosos, aprestavam-se por isso ao registo frio de uma derrota quente das cores socialistas. Mansa, a matilha mediática uivava concordância, com toda a energia.

Mas a arguta matilha tinha uma visão de largo espectro. Atenta – vigiava qualquer tique do odiado António Costa para, como um bando de arcanjos virtuosos, o denunciar em praça pública sem contemplações. E assim na sua lucidez esotérica foi identificando sinais de uma evidente ainda que discreta arrogância.

AC defendia o acerto das medidas do seu governo e logo gritavam: arrogância! AC mostrava um qualquer sinal internacional de reconhecimento do mérito do seu Governo e logo vociferavam: arrogância! AC respondia a alguma das pedradas políticas que lhe dirigiam, num simples exercício de legítima defesa e logo se indignavam: arrogância!

Mas se AC tomava uma posição pública na qual fosse  impossível encontrar a mais leve aparência de arrogância, regougavam com incontida reprovação: hipocrisia!

Ou seja, o nosso bando de arcanjos mediáticos tingia de evidência o seu próprio delírio e condenava irremediavelmente AC como arrogante. Por definição; dispensando-se por isso de mostrar o arrogantismo dessas arrogâncias.

 

4. O despontar tímido de um punhado de vitórias em autarquias  importantes nas recentes eleições autárquicas, foi suficiente para se gritar como óbvia uma firme rejeição popular  de AC e do Governo do PS ( apesar de ele ser de longe o partido autárquico maioritário, quer em número de CM quer de F). A promessa firme de um tsunami laranja ia pairando assim com crescente intensidade.

Mas o povo enganou-se! Driblou oposições, comentadores graves, expoentes da ciência política, economeses de largo espectro. O PS teve maioria absoluta.

 

5. É pois urgente substituir o povo! É , pelo menos, o que pensa ousadamente a direita lusitana mais bem pensante, bem como a deslumbrada bolha comunicacional, o comentariato elucrabativo e os vultos graves dos alegados senadores do dislate.  Não podem permitir que o PS se ponha a ganhar eleições desregradamente. Uma de quando em vez, desde que modesta, ainda vá lá. Relativazinha – e é um luxo. Mas o despautério de uma vitória sem peias- nunca mais!

E a vasta corte dos oráculos políticos cujas previsões são sempre revistas em alta ou em baixa, raramente antecipando realmente a realidade, lambidas as feridas auto-infligidas pela sua desesperada e inútil cruzada contra o PS e contra António Costa, procura agora respirar com  exigência a maioria absoluta instituída.

 Forçadamente despidos da arrogância de invocarem a inexistente soberba de um e outro para agoirarem a sua derrota ou, mínimo dos mínimos, uma vitória esquálida, os da bolha político-mediática aprestam-se agora a apresentar a AC o catálogo das suas exigências. O deve haver da arrogância que inventaram e que a realidade(teimosa!) não absorveu.

Uma azougada constelação de interesses, de preconceitos e de narizes de cera apronta um caderno de encargos para assombração do PS e de AC. Ignora que o caminho a seguir pelo próximo Governo tem as raízes numa ampla convergência de vontades geradora de 119 deputados na AR e não das vocações resmungonas de um punhado der oráculos decadentes.

Com o tom solene de um Conselheiro de Estado, Mendes já decretou que  se o governo fizer o que ele lhe mandar é dialogante , se não lhe obedecer mostra a sua arrogância. Foi aplaudido e seguido. Quanto á vontade dos milhões de portugueses que deliberaram dar maioria ao PS e a AC e disseram querer ver cumprido o respectivo programa os iluminados nada disseram.

 

6. Por mim olhando para a paisagem reinante como um todo, começo por recordar Brecht.

Confrontado com um conflito que no seu  tempo opôs o governo da RDA ao povo trabalhador que aí vivia, Brecht , poeta e comunista, escreveu um breve poema, onde numa atitude crítica perante as posições oficiais que assim concluiu:

“Pois não seria

Então mais fácil que o Governo

Dissolvesse o Povo e

Elegesse outro ?”

 

É um poema lendário que esvazia uma vasta área da retórica eleiçoeira dos políticos pernósticos.

Quiçá sem o saber, a deputada  e  vice-presidente do PSD, Isabel Meirelles, quando lhe pediram para explicar o que falhou e conduziu à hecatombe da retórica já vencedorista do partido a cuja direcção pertence, deu uma resposta que fez com que se lhe enterrasse até às orelhas a “carapuça” brechtiana

“O que falhou foi o foi o povo português"!

 

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Pós-Graduação em Economia Social

 

Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra

Conferência de Abertura

11 de fevereiro de 2022



quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

António Costa em Coimbra.

 


Ontem, António Costa em Coimbra.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"

 

 

"Sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia"

1- Os factos

- uma conjugação dos votos de todas as direitas e do BE, do PCP e dos Verdes chumbou o orçamento logo na votação na generalidade.

- esse chumbo foi precedido por negociações entre o PS ( único partido com responsabilidade governamental directa e que dispõe de um apoio eleitoral bastante superior ao de cada um dos outros partidos) e os outros partidos de esquerda, tendo as que ocorreram  com o PCP e os Verdes decorrido até à véspera do votação.

- nessas negociações foram alcançados resultados que se traduziram numa proposta de orçamento claramente mais próxima das posições das esquerdas não PS do que os anteriores, especialmente no que diz respeito às posições do PCP e dos Verdes.

- a direita sozinha não tinha força para chumbar o Orçamento.

- a parte mais significativa das razões invocadas pelas esquerdas que chumbaram o orçamento  não dizia respeito directamente ao conteúdo do orçamento

2. A fantasia

- quem chumbou a proposta de orçamento foi o PS, único partido que votou a favor, e não aqueles que votaram realmente  a sua reprovação.

- ou seja, para a fantasia : o PS manipulou os outros partidos, induzindo-os a votar contra a proposta de orçamento, tal como a ele lhe convinha que votassem; e assim, contra aquilo que falsamente  dizia querer aprovar;

- pelo que as negociações havidas foram um mero exercício de hipocrisia política;

- o ilusionista chefe que tudo urdiu foi António Costa, que é nessa medida  um actor de comédia disfarçado e não um dirigente político nacional e internacionalmente prestigiado, hábil e consistente.

- mas esse ilusionista não avaliou bem os riscos que corria ao praticar o seu golpe de mágica pelo que até pode perder as eleições.

3.Uma lógica de geleia

- os partidos de esquerda que se juntaram à direita, vítimas da extrema perversidade de os fazerem tomar uma posição que só os prejudicava, respondem a esse golpe de ilusionismo, apelando ao não voto no PS sob a desculpa de assim estarem a esconjurar o demónio de uma maioria absoluta do PS, mas esperam que ele possa formar um governo que realize as medidas que eles inscrevem nos seus programas.

- embora aleguem ter sido  vítimas da perversidade ilusionista do PS as outras esquerdas ciciam estar abertas a dialogar com ele após as eleições, dando a entender que preferem um governo do PS do que um de direita

4. Moralidade Esquisita

- os culpados aparentes estão inocentes, o inocentes ostensivos são afinal culpados

5. Evocando Eça de Queirós

-“Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade”

 

sábado, 1 de janeiro de 2022

VOTOS DE UM BOM ANO DE 2022!

 

Votos de um Bom Ano de 2022!

 

Aqui vai este meu poema com os votos de um Bom Ano Novo, com um abraço de amizade.

Acompanha-o um clássico de Claude Monet, como homenagem à fraternidade estética.

Retribuo também deste modo os votos de Boas Festas que recebi.

 

Rui Namorado

 


 

Bom ano de 2022

 

Abre a janela do tempo sem temor,

entra no ano novo em passo limpo,

sem as rugas do ódio e sem pudor,

colhe os meses como quem semeia.

 

Inventa a ovação dos teus sentidos

nos lábios que deslizam nas palavras,

colhendo as horas como quem descobre

a audácia de esculpir a liberdade.

 

Olha de frente o estrondo das galáxias,

ciente dos mistérios que as conquistam

e nas escarpas dos ventos mais agrestes

vive o perfume da humanidade.

 

Depois descansa no cair das tardes,

ligeiramente perto das memórias,

perdido na paixão de te encontrares,

mas sem fechares as portas da alegria.

 

                              [Rui Namorado]

 

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

 

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

1-AUTONOMIA ESTRATÉGICA

Na actual campanha, a linha estratégica do BE (gritante) e do PCP (menos trovejante) pode resumir-se em dois apelos dirigidos ao eleitorado que possa votar no PS:

- Não votem no PS para ele não ter maioria absoluta!

- Votem no PS para ele governar, de modo a poder tomar as medidas que nós achamos que devem ser tomadas.

2- REQUERIMENTO DO ELEITORADO, ALGO CONFUNDIDO:

- Vimos respeitosamente pedir a Vossas Excelências o obséquio de nos indicarem quais de nós devem votar e quais de nós não devem votar no PS.

3- PERGUNTA INCONVENIENTE DE UM ELEITOR DE LISBOA ESCALDADO:

- Nas mais recentes eleições autárquicas em Lisboa segui religiosamente as vossas instruções e o resultado foi o que se conhece: ganhou a direita. Têm a certeza que não acontecerá o mesmo, à escala nacional, se continuar a obedecer-vos?

 4- RESPOSTA ESOTÉRICA DOS PERGUNTADOS:

- Fomos à bruxa que alegadamente tem ajudado o FCP a ganhar campeonatos e ela garantiu-nos que com um pouco de sorte isso não ia acontecer.

5- MORALIDADE EM JEITO DE PERGUNTA:

- Se o PS não existisse a quem pediriam os partidos acima mencionados para lhes executarem as suas políticas?

 

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

OS VIOLINOS TORCIDOS

 


OS  VIOLINOS  TORCIDOS

Pode ler-se numa página virtual do Expresso :

“Entre julho e setembro, face ao segundo trimestre do ano, só a Áustria e a França viram o PIB crescer mais que Portugal. A nível global, as economias da zona euro e da UE cresceram no terceiro trimestre, quer face ao período homólogo quer em cadeia, indica o Eurostat”.

Assim só pode lamentar-se que a realidade esteja tão largamente errada, alheia aos uivos de lamentação tremendista duma larga coligação de inefáveis aveludados, de subtis malandrecos, de rigorosos numerólogos, ou de simples tontos, que tão exuberantemente anunciam , prenunciam e inventam desgraças inenarráveis que espreitam este descuidado país. 

É uma tropa fandanga onde se acotovelam fantasmas acavacados e mal passados de natais  sofridos, as sereias ingénuas de um liberalismo imaginário, a atamancada ferocidade dos neofascistas, os paulíssimos das boas famílias, os chicões mais aguçados, o maior partido da oposição solidamente no centro da direita e até os pasteis subtis de todas as sedes de moderação.

Toda essa tuna de desafinados, absolutamente rigorosos, tenta desesperadamente apoucar e assustar o povo, na esperança de lhes cair no regaço a legitimidade política para devastarem o país. 

Um país espantado por ver estes oráculos pífios garantirem-lhe desgraças no preciso momento em que começam a levantar-se depois duma  tempestade que tão devagar se vem atenuando.  

Rapaziada da corda, muito cuidado. Estes violinos rombos de melodias inventadas.  anunciando-se como ungidos salvadores, mais não conseguirão nunca do que salvarem os seus privilégios e as suas mais ou menos discretas mordomias. 

Cuidado rapaziada, por detrás da sua retórica pessimista, a grande aposta desta gente o seu gritante sonho é o de conseguiram ser uma espécie de avesso do Robin dos Bosques : tirar aos pobres para dar aos ricos. Para isso, têm que afastar o PS da governação ou tolhê-lo o mais possível, substituindo-o, se possível, pela anemia crónica mas perigosa da direita .

Felizmente , a realidade tem resistido aos sonhos salteadores.

 

domingo, 28 de novembro de 2021

O MISTÉRIO DO LARANJAL EXTRAVIADO

 

O mistério do laranjal extraviado

Era uma vez um laranjal com um disfarçado perfume de direita. Discreto para não afastar os pacatos portugueses suaves. Suficientemente detectável para fixar a nebulosa conservadora, não desiludir o entusiasmo dos liberais, nem excluir os prisioneiros distantes da ressaca salazarista.

No passado, num tempo de pujança eleitoral, chegaram a falar em  cavaquistão. Há anos que muitos o procuram reencontrar num saudosismo infrutífero. Os museus acolhem memórias; não prenunciam regressos.

Ontem, houve dentro do laranjal uma competição feroz entre Rio e Rangel, para legitimar a entrega do leme partidário a um deles. O segundo desafiava o primeiro que, aliás, dirigia já o laranjal em questão.

Os notáveis, os notabilíssimos e os híper-notáveis, reconhecidos como frequentadores ou proprietários  do laranjal, fizeram os seus alinhamentos. Estilos diferentes: alguns deixavam deslizar um esgar aqui um sorriso ali sugerindo uma posição; outros almoçavam com, pouco inocentemente; outros recebiam indiscretamente cumprimentos. Só alguns desferiam verdadeiras cacetadas. Uns tantos frequentavam lançamentos e cerimónias sentando-se uns ao lado dos outros com um sorriso maroto. Queriam tornar bem clara a sua preferência sem que pudessem ser acusados de a ter explicitado. No meio desse  labirinto de subtilezas e de hipocrisias, pode nem sempre ter sido claro o apoio a Rangel, mas foi sempre evidente a recusa em apoiar Rio.

Marcelo, Balsemão, Cavaco, Moedas, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho, Poiares Maduro, Morais Sarmento, não apoiaram Rio. O chamado aparelho, ao que disseram vozes conhecedoras, também não. Apesar disso, 52,43 % dos votantes nas primárias deram a vitória a Rio.

Os derrotados, sem deixarem de o ser , deixaram contudo uma mensagem devastadoras quanto ao vencedor: Rui Rio não seria um primeiro-ministro desejável. Mas mostraram também que, todos juntos, só foram ouvidos por 47,57 % dos militantes do PSD que votaram. Para tão ilustre equipa é pouco, muito pouco, muitíssimo pouco. No entanto, Rio está desde já condenado a suportar o peso desses 47,57 % e da luzidia plêiade de notáveis que o abandonou. Incontornável!

Como podem os portugueses confiar para os governar em alguém que reúne uma tal unanimidade cética  de tão ilustres figuras tão próximas dele ?  

Por isso, se pode dizer que se há ainda um verdadeiro laranjal com o respetivo perfume ainda ativo , seguramente que se extraviou.

domingo, 21 de novembro de 2021

UMA RESSONÂNCIA POÉTICA DE COIMBRA.

“A cidade do tempo”─ Rui Namorado

[NOVIDADE LÁPIS DE MEMÓRIAS ]

 Livro  que é uma ressonância poética de  Coimbra 

P.V.P.: 12.60 euros

Pode encomendar o livro, com 10% de desconto e portes gratuitos, para geral@lapisdememorias.com 

 

 


O livro abre com a Nota Introdutória que a seguir transcrevo.

"O corpo central deste livro é constituído por um conjunto de poemas que são uma ressonância poética de Coimbra. Compõem-no duas partes. A primeira repercute a cidade como um todo; a segunda inclui ecos e memórias de pessoas que viveram em Coimbra, mais ou menos tempo, e de acontecimentos ou entidades que a envolveram ou envolvem.

Neste corpo central do livro, que aliás lhe dá o nome  A Cidade do Tempo ─, incluo alguns poemas já publicados em livros anteriores. Quando isso acontece, logo a seguir a cada um desses poemas vem mencionado o título do livro e a sua data de publicação.

Cada um destes poemas foi escrito na sequência de um impulso autónomo, alheio a qualquer intenção de o integrar num todo. A decisão de os organizar como conjunto e de os publicar como corpo central de um livro é uma homenagem à cidade ao seu povo e à sua história, mas também aos estudantes de Coimbra e à sua academia.

Este livro compreende também uma vertente complementar que, embora radicada na mesma vivência, na mesma experiência e na mesma criatividade não reflete Coimbra, explicita e diretamente. Tem a designação conjunta de “Outros Poemas”. Esta diversidade não propositada talvez possa ser lida subliminarmente como sugestão de que Coimbra é uma cidade estruturalmente aberta, cuja identidade mais profunda se radica nessa abertura.

                                        Rui Namorado

                                   ( Coimbra, 14 de julho de 2021)

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

TONITROANTE HIPOCRISIA

 


Tonitruante hipocrisia

Na sua tonitruante hipocrisia, a direita decreta desesperadamente que a unidade de esquerda está morta. Todo o seu discurso pela boca dos mais seráficos ou insuspeitos porta-vozes diz que por isso chegou a sua vez.

Reparem: se descontarmos as ladainhas gastas dos narizes de cera neoliberais, a direita não é capaz de dar ao povo uma razão para votar nela. A não ser a sua estranha promessa de que vai enriquecer de imediato os ricos para que eles possam depois distribuir calmamente  aos pobres algumas generosas migalhas.

A mim parece-me que a direita só encontra como única razão para que votem nela o facto de a esquerda se ter desentendido.

O ruído vai crescer. Ela vai distribuir números esotéricos e prantos crocodílicos para nos dizer que Portugal está de rastos, preparando-se para tentar uma vez mais colocar-se em posição de permitir que os ricos e poderosos suguem mais livremente o país.

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Cuidado com o Anjo da História!

 


Cuidado com o Anjo da História!

Quando na Alemanha o nazismo já começava a tornar-se visivelmente perigoso, o Partido Comunista Alemão recusou qualquer concertação com os socialistas do SPD, baseando-se numa linha política simples que se traduzia em “enterrar o nazismo sob o cadáver da social-democracia”.
O Anjo da História adormeceu e o nazismo não foi enterrado, floresceu. Uniu, nos campos de concentração e nos obituários do seu poder, comunistas e socialistas. Vários povos, a começar pelo povo alemão, sentiram-lhe o peso insuportável .
A água continuou a passar por debaixo das pontes e o Anjo da História foi acordando lentamente sem deixar de passar por múltiplas distrações. O nazismo pereceu nas caves mais fundas da indignidade e da ignomínia. O Partido Comunista Alemão já não existe. O SPD prepara-se para liderar o próximo governo por escolha democrática dos alemães.
A História não se repete mas é saudável não a esquecer. O seu Anjo não pára de nos surpreender

domingo, 24 de outubro de 2021

FÁBULA CANSADA

 



Em 31 de Dezembro de 2019 publiquei no meu blog  O Grande Zoo este poema. Infelizmente faz sentido recordá-lo.

 

Fábula Cansada

 

A esquerda atravessa o rio,

um sapo sob um lacrau.

 

O lacrau para ser lacrau

só pode sempre morder.

 

O sapo vai afundar-se

vencido pelo veneno?

 

O lacrau vai afogar-se

porque não pode nadar?

 

Que importa, clama o sapo,

este  caminho é o meu.

 

Que importa, diz o lacrau,

antes ser eu e morrer

do que pensar e viver.

 

Com o sapo e o lacrau

muito povo vai morrer.

 

Pergunto sem ironia,

não era melhor chegar?

          

                              [Rui Namorado]

domingo, 17 de outubro de 2021

O TRANSCENDENTE RANGEL E A LUZ

 


O transcendente Rangel e a luz.

O transcendente Rangel acendeu-se como um pirilampo mágico na alegada escuridão lusitana, tendo começado por transformar num discreto ribeiro o frondoso rio que afirmava sonhar que ganhou politicamente as eleições que perdeu. 

Antes de se ocupar generosamente de nos salvar a todos, não sabemos bem de que desgraças, propôs-se estancar sem piedade um espantado ribeiro. Não o deixando trovejar a sua imaginária vitória autárquica, confronto-o com uma refrega dramática que teve o país suspenso: as primárias do PSD eram ou não eram adiadas?

Os conselheiros espremeram rudemente as suas agitadas  mentes e deram ao transcendente Rangel um inesperado presente : não eram! O transcendente transcendeu-se ainda mais e ganhou um novo suplemento de alma, quando num esforço arqueológico reuniu apoios de velhas glórias de pretéritos desastres governamentais do PSD.

Concedendo subir à varanda da História, deu–nos a chave mágica das glórias futuras que nos oferecia e da fácil planície que nos levaria a percorrer. Desde logo ele prometeu oferecer-nos um elevador social que permitiria aos portugueses submetidos a um excesso de agruras, por uma sociedade desigual e injusta, que subissem na vida rumo à felicidade e ao sucesso. 

Os oráculos gregos esfregaram os olhos estremunhados perante a chegada abrupta de um novo colega capaz de inventar tão luminoso futuro. É certo que alguns deles se atreveram a estranhar que um tão forte defensor de um Estado fraco pedisse as rédeas do poder para dar corpo a um desígnio político tão intenso. Rangel acenava glorioso com a promessa de tornar o Estado paralítico para depois correr com ele os cento e dez metros obstáculos ─ um espanto.

 Alguns entre os mais céticos ainda perguntaram: “ Mas não seria melhor pensar um futuro em que não fosse necessário um elevador social por ninguém precisar de o subir?” Outros, mais presos a um presente que justamente  não suportam, acumulando-se desde já à porta do prenunciado elevador perguntam em uníssono : “Subimos todos?”

Embalado na ascensão irresistível, o transcendente deu mais um passo decisivo.  Como sinal de robustez do seu desígnio de subida, anunciou a sua ideia salvífica e decisiva de oxigenação da esfera pública: logo que lhe fossem dadas as rédeas internas do poder no PSD, sem mais delongas ele arrastaria os outros partidos na Assembleia da República para alimentarem atordoadamente o seu desígnio naturalmente transcendente. Os debates com o Governo deixariam de ser mensais e voltariam a  ser quinzenais. Os politólogos mais exigentes estremeceram de espanto, perante tão luminosa inovação político-institucional. A ciência política abriu a sua exigente porta e acolheu desvanecida este assomo de criatividade: Debates quinzenais!

Esta é a história que conta como o transcendente Rangel se acendeu como um pirilampo mágico na alegada escuridão lusitana.

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

 PASTÉIS DE BELÉM?

Perpassou levemente pelo espaço mediático a sombra de uma notícia incómoda. Um ou outro raro jornalista, honesto ou distraído, deu-lhe breve e discreta existência.
Afinal o tonitruante caso da possível substituição do Chefe do Estado- Maior da Marinha não foi uma desastrosa secreção ministerial, com o perverso dedinho do Primeiro-Ministro. Não foi uma tenebrosa conspiração oculta, apontada à autonomia das forças armadas, fruto distante mas efetivo da lendária sofreguidão controladora do PS. Terá sido afinal , muito subtil e prosaicamente, um malabarismo radicado numa das casas que atuam no Palácio de Belém. Possivelmente forçando ligeiramente a mão do Presidente, mas seguramente entrando no jogo de sombras de humanas ambições almiranteares, que ousaram corroer o trajeto do grande chefe das vacinações nacionais.
A contenção discreta da nossa comunicação social e mesmo da feroz orquestra dos grandes comentadores não me deixaram afinal saber mais, ter uma certeza. É certo que achei algo estranho que quem foi tão intensivo na demolição de um ministro e na corrosão de um Governo tenha agora deslizado para um discreto silêncio que, parecendo distraído, não deixa de ser muito generoso para Belém e para as suas azougadas casas.
Por mim, caí num espanto ligeira por esta diferença de intensidade e de atitude, embora reconheça que a imparcialidade da nossa comunicação social e dos oráculos políticos mais evidenciados não é a sua qualidade mais evidente ( se é que ela realmente existe).
Mesmo assim não perdi a esperança de ouvir alguma trovoada , pelo menos por parte dos irrequietos porta-vozes que se julgam à esquerda do PS. E, mínimo dos mínimos, da nossa intemerata comentadora dos domingos.
É bem certo : a esperança é a última a morrer !

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

PENSANDO UM POUCO SOBRE O PRESENTE


A política não é uma sucessão de julgamentos morais em que se distribuam condenações, absolvições e louvores. Aproxima-se mais de ser uma pugna entre quem quer conservar o inigualitarismo social atualmente dominante e quem o quer combater e erradicar. Em Portugal, as esquerdas todas juntas( que são tendencialmente o primeiro desses dois lados) não têm por enquanto força suficiente para protagonizarem um processo de transformação social efetivo e duradouro. Depende de cada uma delas e do seu potencial de conjugação o aumento dessa força. Ao lutarem entre si não caminham no sentido do seu reforço, ficando mais longe de conseguirem uma efetiva mudança social que traga justiça e igualdade; ficam mais longe de responderem na prática às aspirações da respetiva base social. Aumenta assim o risco de explosões sociais dissipativas, que deixem o campo institucional aberto a um prolongamento da hegemonia da direita. E consequentemente aumenta o risco de um esvaziamento do envolvimento político-social do povo na resistência ao tipo de sociedade em que vivemos; ou seja das suas vítimas. E isso leva a um risco de anulação dos partidos de esquerda.
Será depois irrelevante apurar-se quem teve culpa do descalabro histórico, mas Portugal se isso acontecer cairá num severo buraco histórico; os portugueses ficarão bem longe dos seus mais legítimos anseios. É isto que está hoje em causa e não a esgrima florentina de lugares comuns, ainda que impregnados por uma aparente generosidade. A repetição de slogans previsíveis numa dialética inócua, um dia a dia previsível de diatribes cruzadas e cansativas.

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

A força do destino…

 

A força do destino…

O actual panorama político mostra as direitas mais perto de uma frente comum pré-eleitoral do que as esquerdas. Apenas a  eclosão do Chega perturba essa tendência. E as esquerdas não se mostram apenas longe de uma frente pré-eleitoral, mostram-se distantes de qualquer tipo de frente. A manutenção desta diferença parece ser a única esperança de a direita ganhar legitimidade democrática para governar em Portugal.

Se cada uma das esquerdas se limitar a mostrar que a culpa da dispersão é das outras, tudo tenderá a ir-se complicando cada vez mais. Mas este bloqueio não é um mero jogo de xadrez político. Por enquanto, tudo indica que há uma maioria social e eleitoral de esquerda. Mas a maioria social pode deixar de ser uma maioria eleitoral, se os partidos da esquerda insistirem em resistir a uma conjugação estável de esforços que conduza a entendimentos ou alianças com ambição duradoura. Eleitoralmente podem pagar caro a persistência na divisão, dando ainda um inestimável presente às direitas; abrindo-lhes desastradamente as portas da governação.

Recordemos, aliás, as consequências da incapacidade de nos anos 80, o PS, o PCP e o PRD se entenderem para governar. Estruturalmente, ela gerou o “cavaquismo” e a prazo  levou à extinção do PRD. O PS e o PCP foram subalternizados durante uma década. Todos deveriam ter aprendido.

É claro que, atendendo à nossa história pós 25 de Abril , não será simples nem fácil. Podem ser diversas as eventuais resistências de cada um. Compreensíveis. Mas não há outro caminho que corresponda politicamente à actual relação de forças na sociedade portuguesa e que limite os riscos inerentes ao futuro incerto que temos pela frente.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Frutos amargos

 

Mais tarde, poderei vir a fazer um comentário político global aos resultados das recentes eleições autárquicas. Deixemos assentar a poeira. Hoje, vou-me limitar a um comentário muito circunscrito, sem pretensões que transcendam o seu conteúdo visível. Vou falar muito genericamente da campanha do BE e dos seus resultados.

Se olharmos para o seu conteúdo, podemos dizer que as suas propostas estiveram em linha com o essencial da sua linha política. Mas esse conteúdo  foi expresso no quadro de uma estratégia que visou dois objectivos principais: aumentar o número de vereadores eleitos pelo BE e impedir maiorias absolutas do PS nos casos em que esse perigo  (na perspectiva do BE) existisse.

O primeiro objectivo falhou, já que o BE perdeu mais de metade das cerca de duas dezenas de vereadores que tinha.

O segundo, como o caso de Lisboa documenta, foi mais do que atingido: o PS mais do que não ter chegado à maioria absoluta não chegou sequer a uma maioria; perdeu as eleições. Tornou-se impossível assim ao BE obrigar o PS a comportar-se de acordo com as suas virtuosas indicações. Pelo que nos podemos interrogar sobre se este resultado é o pleno cumprimento do objectivo do BE ou a sua absoluta frustração.

Podemos andar às voltas de tudo isto com a imaginação própria das preferências de cada um de nós. Mas dificilmente podemos deixar de constatar que, se é certo que se pode envolver em subtis justificações a relação entre os resultados pretendidos e os conseguidos pelo BE, parece claro que com o modo como essa estratégia se concretizou a direita lucrou fartamente.

Os entusiasmos de Catarina tiverem pois alguns frutos, mas certamente amargos. Os vereadores salvadores com que ambicionava polvilhar as governações do PS de vários municípios não vão poder agir; ou porque não chegam a existir ou porque é a direita que está no poder.

Faço a justiça ao BE ao imaginar que estes frutos lhe são amargos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PEDIR POUCO

 

Enérgica e perentória, Catarina apela à eleição de mais um vereador para o BE, em Lisboa ou noutro lugar, para assim abrir as portas  às coisas boas que os aturdidos munícipes já não esperavam .Uma chama incendeia-lhe o olhar, a felicidade está ao alcance das nossas mãos. Deem mais um vereador a Catarina e tudo será diferente.

É certo que podia pedir uma maioria absoluta para o BE, que assim teria os meios para realizar as suas esperanças. Mas Catarina é modesta. Tão modesta quanto entusiasta: não quer tanto, basta-lhe mais um vereador.

E é tão modesta que se inibe de ostentar toda a extensão do que nos promete. De facto, o seu contido desejo de mais um vereador, para além de poder ser a chave de uma boa fortuna, é muito mais do que isso, o princípio de um milagre. Não tão extraordinário, é certo, como o das rosas, mas seguramente também notável.

De facto, de um PS pesadão e relapso,  alérgico à abertura das generosas portas de Catarina, rumo a um início de respiração do paraíso, ela fará uma coleção de arcanjos, vocacionados para  o cometimento de todas as propostas  almejadas pelo BE. E afinal com uma condição muito simples: mais um vereador  para Catarina.  E, já agora, se não for pedir muito, não concedam ao PS maiorias absolutas.

Um cético oráculo da Grécia antiga talvez insidioso  encolhesse os ombros e regougasse : “Delírio, puro delírio”. Mas eu que sou um otimista do século XXI , generoso para com a alma humana ,afirmo com firmeza: “ Nada disso. Entusiasmo, voluntarismo , sonho  “.

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Homenagem a um amigo

 

Jorge Sampaio sempre

 

Escreveste o teu futuro firmemente

na parede mais branca do destino

 

Colheste os labirintos do poder

sem medo sem soberba sem pudor

de mãos nuas e limpas   desarmadas

 

Os pássaros da noite não tolheram

a força tranquila dos teus gestos

o diamante intenso da revolta

 

Na inquieta bruma das palavras

disseste sempre todo o pensamento

sem que o gume do ódio te perdesse

 

Sentiste em ti o coração do mundo

batendo através de Portugal

gritando   gritando  humanidade

 

O grande rio do povo recolheu-te

e aí é que encontraste o teu lugar