sábado, 30 de maio de 2020

7- UM LIVRO, UM POETA - Reinaldo Ferreira





Hoje, vamos recorrer a um livro publicado depois da morte do seu autor, Reinaldo Ferreira. “Poemas” é o seu título. Foi editado pela Portugália , na  coleção “POETAS DE HOJE"( 3ª edição- 1970), com um prefácio de José Régio. Reinaldo Ferreira nasceu em Barcelona em 1922 e morreu em Moçambique, em 1959, onde vivia desde 1941. Tinha o mesmo nome que seu pai Reinaldo Ferreira (1897-1935), o célebre  Repórter X, reputado como um dos melhores jornalistas do seu tempo.

Vamos editar hoje dois poemas emblemáticos, como altas expressões de uma resistência futurante, que de algum modo se podem olhar como duas faces de uma mesma moeda. De um lado, a tristeza dos heróis empalhados pelas instituições patrioteiras, do outro lado, o heroísmo sem margens de um povo em armas, para resistir ao fascismo.

Enfim, leiam-se, já que falam realmente por si.





POEMAS  -  Reinaldo Ferreira

 

Receita para fazer um herói

 

Tome-se um homem

Feito de nada como nós,

E em tamanho natural.

Embeba-se-lhe a carne,

Lentamente,

Duma certeza aguda, irracional,

Intensa como o ódio ou como a fome.

Depois, perto do fim,

Agite-se um pendão

E toque-se um clarim.


Serve-se morto.



A que morreu às portas de Madrid

 

A que morreu às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

Teve a sorte que quis

Teve o fim que escolheu.

Nunca passiva e aterrada, ela rezou.

E antes de flor, foi, como tantas, pomo.

Ninguém a virgindade lhe roubou

Depois de um saque ─ antes a deu

A quem lha desejou,

Na lama de um reduto,

Sem náusea mas sem cio,

Sob a manta comum,

A pretexto do frio.

Não quis na retaguarda aligeirar,

Entre «champagne», aos generais senis,

As horas de lazer.

Não quis, ativa e boa tricotar

Agasalhos pueris,

No sossego de um lar.

Não sonhou minorar,

Num heroísmo branco,

De bicho de hospital,

A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

À hora tal, atacou e morreu.

 
Teve a sorte que quis,

Teve o fim que escolheu.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

6 - UM LIVRO, UM POETA - Bertolt Brecht



6 - UM LIVRO, UM POETA -  Bertolt Brecht


“Poemas” de Bertolt Brecht é o livro que hoje me vai servir de apoio. Vou transgredir de novo a regra de um livro- um poema. Vou recordar vários poemas. É uma transgressão compreensível, quando temos pela frente um livro de 667 páginas, com tantos poemas que vivamente ainda hoje nos interpelam. A edição em causa é organizada e prefaciada por António Sousa Ribeiro, correspondendo à versão portuguesa dos poemas da autoria de Paulo Quintela. Foi publicada em 2007, pelas edições ASA.

Bertolt Brecht nasceu na Alemanha em 1898 e faleceu na República Democrática Alemã em 1956, depois de em 1950 se ter naturalizado austríaco. Exilou-se em 1933, por causa do nazismo, tendo vivido em vários países. Regressou à Alemanha (RDA – Berlim Leste), em 1949. Comunista, resistente ao nazismo, não deixaria de assumir alguma distância crítica em face do regime pró-soviético da RDA, como se pode depreender do primeiro poema transcrito. Foi um dos maiores dramaturgos do século XX e foi também um grande poeta.


Poemas de Bertolt Brecht

A (DIS) SOLUÇÃO

Depois da revolta de 17 de junho
Mandou o secretário da Associação de Escritores
Distribuir panfletos na Stalinallee
Nos quais se podia ler que o Povo
Perdera levianamente a confiança do Governo
E só a poderia reconquistar
Trabalhando a dobrar. Pois não seria
Então mais fácil que o Governo
Dissolvesse o Povo e
Elegesse outro?

MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Mas quando caminhava para o cepo onde o iam matar
Caminhava para um cepo que fora feito pelos seus iguais
E também o machado que agora o esperava
Fora feito pelos seus iguais. Apenas eles tinham partido
Ou tinham sido expulsos, mas estavam sempre ali
E presentes na obra das suas mãos. Nem mesmo a luz
Nos corredores por onde passava para a morte
Haveria sem eles. Nem a casa
Donde era levado, nem qualquer outra casa.
Porque é que
Tem ele de estar sozinho, ele que falou por tantos?
Por isto:
Os opressores juntam-se
Mas os oprimidos andam desunidos.


QUEM É O TEU INIMIGO

Ao faminto, que te tirou
O último pão, olha-lo como inimigo.
Mas ao ladrão que nunca passou fome
Não lhe saltas às goelas.

LOUVOR DO REVOLUCIONÁRIO

Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.

Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.

Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?

Onde quer que todos se calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.

Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.

Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

5- UM LIVRO, UM POETA - Egito Gonçalves





5- UM LIVRO, UM POETA -  Egito Gonçalves

Hoje, escolhi para vos recordar um poema de Egito Gonçalves (1920/2001), “Notícias do Bloqueio”. Foi publicado pela primeira vez em livro em 1958, em “Viagem com o teu rosto”, mas, segundo o autor, data de 1952. Logo depois, em 1953, integraria o 4º número da revista de poesia Árvore fundada no outono de 1951, extinta pele máquina repressiva do  fascismo na primavera de 1953, com o número acima referido. Todos os números da “Árvore – folhas de poesia” viriam mais tarde (2003) a ser publicados pelo Campo das Letras em edição fac-similada. Em 1980, Egito Gonçalves fez publicar no Círculo de Poesia da Moraes Editora uma seleção dos seus “Poemas Políticos”(1952-1979) que abre precisamente com as “Notícias do Bloqueio”.
Amado pela resistência e pela poesia, o poema foi ganhando raízes numa e noutra, instituindo-se como uma das mais intensas poesias inscritas na resistência cultural ao fascismo. Uma poesia que nos interpelava e interpela pela sua generosa ternura e pela indómita energia de uma resistência que não se cansa.
De algum modo, há ainda um bloqueio que cerca a ilha imaginária da esperança e faltam ainda víveres na cidade.




NOTÍCIAS DO   BLOQUEIO

                        -Egito Gonçalves –

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para  enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.


Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos  ─ contrabando ─ aos teus cabelos.


Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta 
─ único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas



Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…


Dirás como trabalhamos em silêncio,
como comemos silêncio, bebemos
silêncio, nadamos e morremos
feridos de silencio duro e violento.


Vai pois e notícia com um archote
aos que encontrares de fora das muralhas
o mundo em que nos vemos, poesia
massacrada e medos à ilharga.


Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.


Mas diz-lhes que se mantém indevassável
o segredo das torres que nos erguem,
e suspensa delas uma flor em lume
grita o seu nome incandescente e puro.


Diz-lhes que se resiste na cidade
desfigurada por feridas de granadas
e enquanto a água e os víveres escasseiam,
aumenta a raiva
                           e a esperança reproduz-se.




quarta-feira, 27 de maio de 2020

4- UM LIVRO, UM POETA – Manoel de Barros






4- UM LIVRO, UM POETA – Manoel de Barros

Publico hoje o último poema  do Livro das Ignorãças,  do qual é autor Manoel de Barros, poeta brasileiro nascido em 1916 e falecido em 2014.  Advogado, fazendeiro e poeta, é um dos expoentes da poesia brasileira do século XX, mas a sua criatividade ousada transbordou  para o século atual e prepara-se para ocupar um lugar de relevo no futuro da poesia e da língua portuguesa.



AUTO-RETRATO  FALADO
                                   -Manoel de Barros

  Venho de um Cuiabá garimpo e de ruelas entortadas.


  Meu pai teve uma venda de bananas no Beco da
            Marinha, onde nasci.

   Me criei no Pantanal de Corumbá, entre bichos do
            chão, pessoas humildes, aves, árvores e rios.

Aprecio viver em lugares decadentes por gosto de
 estar entre pedras e lagartos.

Fazer o desprezível ser prezado é coisa que me apraz.
Já publiquei 10 livros de poesia; ao publicá-los me

           sinto como que desonrado e fujo para o
            Pantanal onde sou abençoado a garças.

Me procurei a vida inteira e não me achei --- pelo
            que fui salvo.

Descobri que todos os caminhos levam à ignorância.
Não fui para a sarjeta porque herdei uma fazenda de

              gado. Os bois me recriam.
Agora eu sou tão ocaso!

Estou na categoria de sofrer do moral, porque só
            faço coisas inúteis.

No meu morrer tem uma dor de árvore.

terça-feira, 26 de maio de 2020

3- UM LIVRO, UM POETA – Carlos de Oliveira


3- UM LIVRO, UM POETA – Carlos de Oliveira



Carlos de Oliveira  nasceu no Brasil, em Belém do Pará, em1921 e faleceu em Lisboa, em 1981. Regressou a Portugal com a família, nos primeiros anos de vida. Fixou-se em Febres, onde o pai exerceu medicina. Em 1941 ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Em 1947 licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas. Pouco depois, foi viver para Lisboa.

Através do seu livro, “Turismo” (1942), participa na colecção “Novo Cancioneiro”, um dos marcos fundadores do neo-realismo no campo da poesia.  Em 1976, reúne toda a sua poesia em dois volumes, sob o título de "Trabalho Poético”. Hoje publicamos dois  poemas saídos no primeiro.



Em 2011, escrevi neste mesmo blog, a seguinte frase, a propósito do mesmo poema que aqui vou recordar hoje: Quando os filhos das Parcas encharcam de um medo cinzento e abafado os caminhos do futuro, os poetas podem ajudar-nos a varrer com a luz da esperança este tempo de abutres. Convoquemos hoje um grande poeta da língua portuguesa, do século XX, de Coimbra. Deixemos que
Carlos de Oliveira nos ofereça o seu "Soneto".
Hoje, acrescento-lhe uma cantiga própria daquele tempo de chacais

Soneto

Acusam-me de mágoa e desalento,

como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,

quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:

até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:

se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros? 



segunda-feira, 25 de maio de 2020

2- UM LIVRO, UM POETA - Giuseppe Ungaretti


2- UM LIVRO, UM POETA - Giuseppe Ungaretti 

O livro de hoje  é uma colectânea de poemas, Sentimento do Tempo, da autoria  do poeta italiano, Giuseppe Ungaretti ( 1888-1970), publicada em  Portugal, em 1971, pelas Publicações Dom Quixote. Ungaretti conheceu o exílio no tempo de Mussolini.  
A tradução, com a habitual mestria, é de Orlando de Carvalho, também ele poeta e sábio tradutor; e ainda  jurista eminente, combatente político e saudoso amigo.
Dada a sua  dimensão , em vez de um, escolhi três pequenos poemas. Permito-me chamar a vossa a atenção para a enorme força desse poema tão simples contra a guerra: "Soldados".

1. Eterno

Entre uma flor colhida e outra dada
o inexprimível nada

2. Manhã

Deslumbro-me
de imenso

3. Soldados

Estão como
no outono
nas árvores
as folhas