sábado, 8 de novembro de 2008

D.Berlusconi I - o alucinado




O alucinado Primeiro-Ministro italiano, cuja vulgaridade é proverbial, já conseguiu insultar soesmente o Presidente Eleito dos USA.
Não será por acaso que o grande guia de Berlusconi é o mais recente dos Bush.
Eis um texto de comentário ao evento, retirado do site da revista italiana Micromega e escrito por Paolo Flores d'Arcais, seu Director.


L'ultima di Berlusconi:
"Obama bello, giovane e abbronzato"


Flores d’Arcais:
Imbecille sarà lui!

Berlusconi non solo ha trattato il nuovo presidente degli Stati Uniti con un epiteto di tipica “ironia” razzista, ma ha mandato “affanculo” di fronte a giornalisti e telecamere tutti coloro che continuano a non vedere nel suo “apprezzamento” razzista per Obama una carineria, e ha ribadito più volte che tutti costoro sono solo degli imbecilli. Poiché parlare di un nero come di un “abbronzato” è cosa che nessuno degli avversari o dei media americani anche più ostili a Obama si è mai permesso lungo tutta la campagna elettorale, proprio perché negli Usa è consapevolezza comune il carattere razzista di tale “carineria”, imbecilli sono dunque tutti gli americani. Eppure era stato proprio Berlusconi a fare una telefonata di scuse alla giornalista Rula Jebreal, apostrofata appunto di “abbronzata” da quel noto campione di anti-razzismo che è il ministro Calderoli. Ma visto che chi non capisce la “carineria” dell’epiteto è un imbecille, e Berlusconi, quando la pronunciò Calderoli, si scomodò per le scuse, Berlusconi se lo è detto da solo: “imbecille sarai tu!”.

Atenção ao Movimento Cooperativo!



Quase tão espantoso como o descalabro da "casa capitalista", é o esquecimento que tem coberto o facto de a especificidade cooperativa se poder revelar como um recurso precioso, quer na resposta imediata a esta conjuntura dramática, quer como uma das mais esperançosas janelas que se podem abrir para o nosso futuro.
Governos e instituições internacionais parecem prisioneiros dos seus próprios fracassos, encerrados num curto prazo sem horizontes, como se apenas soubessem ver no futuro as sombras das suas próprias frustrações presentes. E pior do que isso, a pouco e pouco como cães batidos que voltassem, pé ante pé, depois da realidade os ter tão violentamente escorraçado, os pregadores do costume regressam com as suas ladainhas neoliberais , recitando melancolicamente o mesmo cantochão como se nada se tivesse passado nestes últimos tempos. E, naturalmente, passam em claro o fenómeno cooperativo, esquecendo os oitocentos milhões de cooperadores espalhados pelo mundo.
E é especialmente escandaloso (Escandaloso : sublinho. É a palavra justa.) que entre os partidos de esquerda, com especial relevo para os que pertencem à Internacional Socialista,por serem os mais naturalmente impregnados pelos valoeres cooperativos, não tenha havido a sombra de uma referência às virtualidades das soluções cooperativas.
E quanto ao PS português, o meu partido, posso perguntar-me com mágoa, porque parece ele ter renunciado à sua matriz sergiana, porque parece ter-se degradado até ao ponto de ter esquecido um dos traços mais futurantes do seu código genético.


Vem isto a propósito do documento[enviado pela FENACOOP] que vou transcrever de imediato, da responsabilidade da Aliança Cooperativa Internacional (ACI), uma organização fundada em 1895, que é desde então a mais representativa organização do movimento cooperativo mundial.

Sublinhe-se que o texto em causa é subscrito pelos mais representativos líderes mundiais da ACI:


Ivano Barberini -Presidente

Stanley Muchiri -Vice-Presidente pela África


Li Chunsheng -Vice-Presidente pela Ásia-Pacífico

Carlos Palacino -Vice-Presidente pelas Américas


Pauline Green -Vice-Presidente pela Europa





CARTA ABERTA AOS GOVERNOS DO G8

A população mundial tem observado, chocada e incrédula, a forma como algumas estruturas financeiras globais se têm desintegrado em pânico, e alguns bastiões do investimento e da indústria bancária têm entrado em colapso e desaparecido. Tem-se admirado como os líderes políticos mundiais têm sido forçados a empenhar vastas quantias do dinheiro dos contribuintes, num esforço para consolidar e estabilizar os bancos e as bolsas de valores, que foram sacudidos até ao âmago pela ganância empresarial e pela má gestão orientada pelo lucro. As pessoas receiam agora o que os efeitos de tudo isto provocarão na economia real.
Ao mesmo tempo, estes mesmos cidadãos do mundo sabem que existe um modelo empresarial alternativo seguro, estável e sustentável, possuído e controlado por 800 milhões de pessoas em todo o mundo. Ele é fiel para com os seus Valores e Princípios globais de auto-ajuda, sustentabilidade, posse e controle pela comunidade, participação democrática, equidade e transparência.
Constitui um modelo empresarial que não está à mercê das bolsas de valores, pois assenta, em vez disso, no financiamento dos membros para a sua valorização; e não está sujeito à manipulação e à ganância, dado que é controlado pelas populações locais para as populações locais. Trata-se de uma actividade em que os excedentes não são apenas distribuídos pelos accionistas, mas revertem para os que realizam transacções com a empresa, mantendo, assim, a riqueza gerada pelas empresas locais na comunidade local em benefício do ambiente e das famílias locais.
Isto é o Sector Cooperativo da Economia Global, que emprega 100 milhões de pessoas em todo o mundo. Não é por coincidência que se dá o caso de as economias mais bem sucedidas e estáveis do mundo terem igualmente as economias mais cooperativas do mundo.
Não é também uma coincidência que as empresas cooperativas que se mantiveram fiéis aos valores e princípios cooperativos são as mesmas que, durante as últimas semanas, têm beneficiado da retirada de depósitos e contas bancárias das sociedades financeiras e dos bancos que se desmoronaram – um reconhecimento da persistente confiança de que são alvo por parte do público em geral.
As pessoas sabem que uma COOPERATIVA significa um modelo empresarial diferente – balizadas por valores e com um espírito comunitário diferente.
Quando os líderes políticos preparam a sua reunião para analisar se as instituições globais que regem o sistema financeiro e bancário estão aptas a fazê-lo, nós, os que temos o privilégio de representar a economia cooperativa global, apelamos aos nossos líderes políticos para que:

1.Utilizem o seu poder político e financeiro combinado para colocar a mesma energia e o mesmo dinamismo na protecção da população mundial face aos piores efeitos da recessão global que enfrentamos actualmente como resultado da má gestão do modelo empresarial capitalista.

2.Assegurem que na luta contra a recessão, e em qualquer reforma das estruturas financeiras globais, tais como um novo sistema regulamentador, tenham em especial atenção a estabilidade e a segurança da economia cooperativa e o seu valor para os milhões de indivíduos e famílias que ela apoia em todos os recantos do mundo, e concedam a este modelo empresarial o reconhecimento e o apoio político que o seu contributo exige.

3.Assegurem condições de concorrência iguais entre países e modelos bancários, e tenham em conta a diversidade do sistema bancário nas futuras regras.
A ACI prontifica-se a contribuir, com a sua componente única de competências, para o trabalho do G8 na resolução destas questões.

[Traduzido do original pelo Secretariado da FENACOOP - JC ]

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Trucidados


Hoje, no Destak, J.L.Pio Abreu, publicou o texto que abaixo se transcreve com a sua autorização.



Trucidados

Um rapaz desconhecido subiu ao palco mediático para proclamar a sentença dos funcionários públicos recalcitrantes: trucidados. Podia dizer que mãos e cabeças serão decepadas para as expor na praça, e o resto do corpo ligado a uma cauda de cavalo que o arrastará até ao cemitério. A sentença vai demorar o tempo suficiente para que os acusados paralisem de medo. Talvez um ou outro seja executado, sem contar com os que optem pelo suicídio ou pela retirada. Mas depois virá a magnanimidade do perdão, seguindo-se dois anos de alegres festejos e comemorações.

Como o poder subalterno não tem imaginação, calculo que o jovem governante ande a ler o livro de Laurentino Gomes 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. É que esta foi a receita que D. João VI aplicou com eficácia aos revolucionários pernambucanos.

Mas os funcionários públicos já estão a ser trucidados. Não os que se opõem à reforma, mas aqueles que a praticam. São trucidados pelas folhas A4 saídas em catadupa de um computador concebido para poupar papel. Em escolas, hospitais, institutos, repartições, é um ver-se-te-avias de projectos, protocolos, relatórios, inquéritos, avaliações e o que mais se verá para entreter toda uma hierarquia de chefes e sub-chefes.

Tirando quem os preenche, ninguém vai ler tais papéis. Mas vão-lhes apor um despacho aleatório que ditará a vida dos que estão na base da hierarquia. Só que estes também já estão a ser trucidados pelo trabalho real que sobra, uma vez que os outros só trabalham para o papel.

J. L. Pio Abreu

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Um texto sobre a vitória de Obama


No site da revista americana Dissent vem hoje publicado um comentário do conhecido politólogo Michael Walzer sobre a vitória de Barak Obama, nas eleições presidenciais que ontem decorreram nos USA. Na floresta de opiniões e de notícias com que nos deparámos, é refrescante seguir um texto reflexivo, como aquele que me permito aqui transcrever.

The Day After: Beginning Again

Michael Walzer (online) - November 5, 2008



NOW WE need to know what kind of a president he will be. Watching returns with my wife, younger daughter and grandchildren in a Greenwich Village apartment, I wept with relief when it became clear that Obama had won—because of the high hopes riding on his candidacy and the sense of desolation and demoralization that would have followed on his defeat. Though the community-organizing style of his campaign suggested to many people that we were watching the birth of a social movement, I suspect that what we have seen is very different: a charismatic candidacy whose charisma would not have survived electoral defeat. How will it fare after victory?
Once Obama starts to govern, charisma will not be enough; he will need the support of organized and mobilized constituencies. So we may see the development of movement politics, as we did in the 1930s and ‘60s, not during but after the election campaign. Obama will need political mobilization outside the Beltway—in the fight for national health care, for a more egalitarian (realistically, a less regressive) tax system, and for new policies on energy, education, immigration, and international trade. One of the first tests of his presidency will be his readiness and ability to stimulate a movement politics that doesn’t depend on the charisma of one man, but is grounded on a coherent program for social change.
He will be, I think (and hope), a more radical president than he wants to be. He has run, smartly, from the center; he has spoken well against the bitter partisanship of Washington politics these last eight years; he aspires to unite a racially divided nation. But the deepening recession will push him (as it pushed Roosevelt, another centrist) to adopt policies that will be fiercely opposed on the right.
Even his proposal on health care will encounter fierce opposition, despite the fact that it falls far short of a single payer plan—remember the losing fight for the Clintons’ proposal, which was intended as a compromise with the insurance companies (but they weren’t ready for compromise). Perhaps policy debates will be conducted on a higher plane under President Obama than they have been under President Bush, but we will not be free of partisanship.
There will be difficult battles, which Obama will have to fight and win, and in those battles he will need the help of partisans. A revitalized Democratic party would be a big help; so would stronger labor unions, able once again to organize large numbers of workers; so would a resurgent civil rights movement and, despite (or because of) Hillary’s defeat, a newly energized feminism. And here at Dissent, we too have a role to play. I these potentially “transformational” moments, ginger groups on the left, full of high spirits and new ideas, can make a difference. Obama’s victory is hugely important, but it remains an opportunity that has to be seized.

[Michael Walzer is Dissent’s co-editor]

Economia Social - Encontros do Monte Branco


Os Encontros do Monte Branco são um forum internacional de dirigentes da economia social que se reúne regularmente desde 2004.
Envolvem dirigentes de organizações de economia social de todo o mundo, destinando-se a impulsionar o respectivo desenvolvimento.


Participam neles universitários, políticos, representantes de movimentos de cidadãos e de instituições internacionais. Querem tornar evidente que a economia social está preparada para responder aos grandes desafios do futuro.

Numa mensagem hoje difundida pelo INSCOOP, informa-se que: "A Associação "Les Rencontres du Mont-Blanc" (RMB) agrupa dirigentes das empresas de Economia Social de todo o mundo. O seu Conselho de Administração decidiu tomar posição sobre a grave crise que afecta a economia planetária, publicando a presente declaração".


Depois transcreve-se a referida declaração, que, por minha vez, vou aqui reproduzir de imediato:


Declaração


"A exuberância irracional dos mercados", para retomar o termo usado casualmente pelo antigo presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, tomou agora proporções de um cataclismo que abalou os principais mercados financeiros do planeta com amplas consequências económicas e sociais, de que começamos a sentir os efeitos devastadores.
Esta crise de excepcional gravidade desmente categoricamente aqueles que, invocando mecanismos de autoregulação do mercado, advogaram uma desregulação sem limites.


O regresso da intervenção pública e da regulação, claramente indispensáveis, não nos deve todavia iludir. Não basta purgar o sistema dos seus efeitos mais nocivos, já que não se atacam as causas profundas na raiz do problema, essencialmente o primado que é dado à maximização do lucro antes de todas outras considerações.

Os dirigentes das empresas de economia social (cooperativas, mutualidades, associações, fundações) de todos os continentes, reunidos no seio da Associação Os Encontros do Monte-Branco querem nesta ocasião lembrar que:

O objectivo principal da finança é estar ao serviço das empresas, o que foi obliterado pela excessiva financiarização da economia.

Existe um modo de empreender e conceber a actividade económica assente em valores que dão a primazia à satisfação das necessidades do maior número, à utilidade social, ao interesse geral, à justa repartição dos ganhos dessa actividade pelos homens antes do objectivo de curto prazo de maximizar lucros.

Este é o caminho seguido pelas empresas de economia social, há mais de um século, em todas as regiões do mundo, com sucesso e para o maior benefício das populações em causa.

Tal abordagem, se seguida com rigor, permite evitar os problemas de que a economia capitalista dá actualmente um triste espectáculo.

A economia social oferece, pois, uma alternativa totalmente credível em que se pode confiar e que abre reais perspectivas à construção de um mundo mais humano e mais solidário.

Os participantes n'Os Encontros do Monte-Branco sublinham que soluções apressadas tomadas pelos governos, consistindo em fazer suportar os custos exorbitantes de salvação das instituições financeiras vítimas dos seus próprios erros pela massa dos cidadãos dos países atingidos, que já são os mais expostos às consequências da crise, podem originar consequências muito injustas, mesmo se a crise necessita de medidas urgentes para evitar a sua propagação.

Finalmente, os participantes n'Os Encontros do Monte-Branco consideram que as decisões das instituições financeiras públicas e dos governos devem ser submetidas a condições de transparência, que permitam aos cidadãos, por intermédio dos seus representantes democraticamente eleitos, exercer um controle efectivo.

Este requisito deve ser traduzido em muito maior transparência que a actualmente exigida para o financiamento dos organismos financeiros e empresas em geral. Sublinham a tal respeito a vantagem das regras seguidas nas cooperativas e mutualidades, em que os utilizadores ou produtores dos serviços são ao mesmo tempo os seus accionistas/membros e têm, por isso, o controlo das empresas.

As decisões e as regras aplicadas devem fazer prevalecer o interesse geral sobre o interesse exclusivo dos operadores de mercado, mesmo na esfera financeira. A remodelação inevitável das instituições financeiras herdadas de Bretton Woods deve encontrar fonte de inspiração nos valores inerentes à economia social. Esta deve estar preparada para que um período de crescimento novo, no quadro de uma globalização plural, reoriente essa globalização para um crescimento mais sustentado, em que os frutos desse crescimento sejam melhor partilhados.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Adivinha





Qual é a semelhança entre o Banco Português de Negócios e um laranjal ?

Culpas trocadas, ou o coração da direita


Alguns expoentes dos partidos preferidos pela maioria dos banqueiros, acham que a grande culpa das alegadas falcatruas, por alguns desses banqueiros cometidas, não é de quem realmente as cometeu, mas dos vigilantes que não conseguiram evitar essas violações da legalidade.

Como usam gravata, fatos de bom corte e são bem falantes, nem os apupam, nem se desmancham a rir, quando os ouvem cantar tão estranhas melodias.

E, no entanto, isso não é menos absurdo do que aquilo que seria, perante um assalto a um banco, qualquer vozearia indignada que vituperasse a polícia, por não ter evitado o assalto e absolvesse os ladrões que, coitados, assaltaram o banco.

É certo, que os desmandos recentemente ocorridos não se podem considerar como verdadeiros assaltos, mas não deixa de ser verdade que os anunciados episódios de gestão danosa, a que nos referimos, causaram,provavelmente, aos respectivos bancos mais prejuízos do que todos os efectivos assaltos a bancos perpetrados em Portugal, nos últimos dez anos.

Efectivamente, os políticos e os banqueiros que têm vindo a público branquear vigarices e culpar as entidades públicas reguladoras, apenas revelam com isso uma enorme desfaçatez e uma grande falta de vergonha.

E esse é um escândalo tanto maior, quanto alguns deles são os mesmos que se indignam veementemente com os magros desperdícios, que possam existir, nas atribuição do rendimento mínimo de inserção aos portugueses pobres, mas que não esboçam agora um simples esgar de indignação, contra a atitude dos ricaços que delapidaram milhões que não lhes pertenciam.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

A política brasileira depois das recentes eleições

As recentes eleições municipais brasileiras, realizadas em Outubro passado, projectaram-se na comunicação social através de um amplo leque de comentários, dos quais poucos não pecaram por simplismo. Mesmo alguns jornais europeus de referência [El País,Le Monde] reduziram o seu comentário a breves considerações superficiais sobre os resultados da segunda volta em quatro ou cinco grandes cidades brasileiras. O mesmo aconteceu em Portugal, nalguns jornais e até num site conotado com o Bloco de Esquerda que deturpava o significado dos resultados dessas eleições, reduzindo-o a uma derrota do Presidente Lula.

Sem prejuízo de, eu próprio, ainda não ter abandonado a hipótese de publicar neste mesmo blog um cometário circunstanciado sobre os resultados dessas eleições, achei que nos podia fornecer um quadro muito clarificador do significafo político desses resultados, a reprodução de uma entrevista dada ao diário brasileiro "Folha de S. Paulo", pelo politólogo André Singer [que, por sinal, é filho do eminente economista brasileiro Paul Singer, especialista em economia solidária e membro do actual Governo brasileiro, onde lidera uma Secretaria de Estado que se ocupa da área em que é especialista, e que já esteve por diversas vezes em Portugal, onde proferiu várias conferências de que alguns de vós se lembrarão].
Como se diz nos destaques do jornal brasileiro, André Singer acha que "a parceria PSDB-PT é inviável", acrescentando que "o PMDB não será o fiel da balança entre PT e PSDB, pois sempre se inclina para o favorito".

Em seguida a "Folha de S.Paulo", por intermédio de um membro da sua Redacção, Maurício Puls, apresenta o referido cientista político, destacando aspectos das suas respostas que considera mais relevantes:


"O cientista político André Singer, 50, diz que o PT se consolidou como partido do proletariado, e o PSDB, como partido da classe média. A polarização entre eles impede que o projeto de união entre petistas e tucanos, articulado pelo governador Aécio Neves (PSDB), tenha êxito no plano nacional. Autor de "Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro" (2000) e ex-porta-voz do presidente Lula, Singer diz que o PMDB não será o fiel da balança, mas o termômetro: "O PMDB vai se inclinar para onde o vento estiver soprando" ".



[ André Singer toma o pequeno almoço com o Presidente Lula]

Eis o texto da entrevista:

"Na entrevista a seguir, concedida na quarta, o professor do Departamento de Ciência Política da USP observa que o DEM se converteu em um partido auxiliar da candidatura de José Serra (PSDB) à Presidência.

FOLHA - Sua tese destaca a importância da identificação ideológica para explicar o comportamento do eleitor. Mas, numa eleição local, o que distingue esquerda e direita?Tanto Marta quanto Kassab prometiam construir hospitais, escolas...


ANDRÉ SINGER - A campanha de São Paulo foi uma campanha pouco ideológica de parte dos grandes partidos, mas eu acredito que o corte ideológico está acontecendo por baixo das campanhas, no que diz respeito ao alinhamento do eleitorado: o eleitorado está se alinhando ideologicamente. A eleição revelou alinhamentos que antes não estavam postos da maneira como estão colocados hoje.

FOLHA - Quais são eles?

SINGER - Existe uma consolidação do PT como o partido do proletariado, e do PSDB enquanto um partido da classe média. Esse é um alinhamento de natureza social que envolve aspectos ideológicos da maior importância, e que se revelou melhor na eleição de 2008, que, por ser local, não é puxada por candidatos nacionais. Ficou mais claro o perfil dos partidos.O PT está se consolidando como um partido do proletariado. Se você olha para a Grande São Paulo, o PT perde na capital, que é um distrito eleitoral predominantemente de classe média, mas ganha na maioria das cidades do cinturão proletário de São Paulo -São Bernardo, Diadema, Osasco, Guarulhos. No Rio Grande do Sul, o PT perdeu em Porto Alegre, mas ganhou em Canoas; no Rio, o partido teve pouca expressão na capital, mas ganhou em Nova Iguaçu e Belford Roxo; em Minas, não disputou diretamente em Belo Horizonte, mas ganhou em Betim e Contagem.Já o PSDB vai bem em Franca e São José dos Campos, que têm uma classe média forte. A grande capital que o PSDB ganhou foi Curitiba, típica cidade de classe média. A vitória dos Democratas em São Paulo é também uma vitória do PSDB.Formalmente é uma vitória dos Democratas, porque Serra fez uma costura política muito arriscada que acabou dando certo e que colocou os Democratas como partido auxiliar do PSDB e particularmente da candidatura de Serra à Presidência.

FOLHA - Que papel no espectro ideológico está reservado ao PMDB?

SINGER - O PMDB é o que a gente poderia chamar de um partido da classe política. Não é um partido de classe. O PMDB tem características muito adequadas para abrigar lideranças políticas locais, pois tem a flexibilidade para que essas lideranças possam negociar posições junto ao governo federal. Essa é uma forma que liga eleições municipais às eleições federais e que faz com que lideranças locais que orbitam em torno do centro, mas que podem se deslocar tanto para a direita quanto para a esquerda, encontrem uma legenda nacional que as permita estar em posições diferentes de acordo com as tendências do país. Isso significa que o PMDB, ao contrário do que tem se dito, não é o fiel da balança: ele é o termômetro. O PMDB vai se inclinar para onde o vento estiver soprando. Pouco provavelmente o PMDB estará unido em qualquer das circunstâncias, como já não está unido hoje. O PMDB de São Paulo está com Serra, e o PMDB do Rio está com Lula.

FOLHA - Isso explica por que o PMDB está sempre se dividindo.

SINGER - Possivelmente continuará assim, porque essa é a característica que lhe dá força. O que está se chamando de vitória do PMDB é na realidade a vitória de uma forma política que atrai lideranças locais. A vitória do PMDB em Salvador e Porto Alegre é a vitória de lideranças locais que migraram de outros partidos para o PMDB.

FOLHA - Na prática o PMDB cresceu antes da eleição: elegeu 1.059 prefeitos em 2004, subiu para 1.212 com as trocas, e agora elegeu 1.202.

SINGER - Exatamente. Não é uma vitória eleitoral: é uma vitória do jogo político. É que houve uma migração para o PMDB à medida que o partido se alinhou ao governo Lula. O enfraquecimento do Democratas tem a ver com isso: é que uma parte de sua base migrou para o PMDB porque este se revelou uma legenda mais confortável, porque pode oscilar entre quem está no poder. Isso faz com que o PMDB não tenha uma característica definida, nem ideológica nem social.É diferente do caso dos Democratas, uma legenda que procura se caracterizar ideologicamente: tem uma postura de centro-direita. Essa postura perdeu espaço, e o Democratas está transitando de um partido grande para um partido médio.

FOLHA - Um fato muito ressaltado é a distância entre a aprovação a Lula e a votação dos candidatos que ele apoiou. Por que parte do eleitorado apóia Lula, mas rejeita o PT?

SINGER - As pesquisas mostraram que houve uma ascensão importante da aprovação ao governo Lula. Isso não significa que as pessoas, por aprovarem o governo, votarão automaticamente nos partidos ou candidatos desse governo. Essa ligação não é imediata. Se você considerar que boa parte do PMDB está associada ao governo, é preciso contabilizar esses votos como votos alinhados ao governo Lula, porém não ao PT. O PT tem características próprias, diferentes das características do governo Lula. O PT está se caracterizando agora, mais até do que antes, como partido ligado ao proletariado, e nessa medida ele é fortemente rejeitado pela classe média. A oposição PSDB-PT tem raízes sociais: o PT vai perder as eleições sempre que o centro e a direita estiverem aliados em circunscrições em que eles tenham a maioria. Isso explica por que o PT não tem, e não terá, o tamanho do apoio ao governo Lula.

FOLHA - É cedo para apontar as perspectivas de eventuais candidatos governistas, como Dilma Rousseff, que hoje só tem 3% dos votos?

SINGER - É cedo no sentido de que existe a dinâmica econômica entre este momento e 2010, e é cedo no sentido de que sempre existem acontecimentos políticos que influenciam. Mas não é cedo para fazer uma projeção com base nos dados que nós temos hoje. O fato de Dilma ter uma intenção de voto baixa é absolutamente natural. Em Belo Horizonte, Marcio Lacerda tinha baixíssima intenção de voto até o início do horário eleitoral. Grande parte do eleitorado não acompanha a política, não sabe quem são os candidatos e as alianças que estão se formando. Esses eleitores precisarão ser informados a respeito. A partir do momento em que essa informação chegar, ela terá um efeito imediato: uma parte importante do eleitorado quererá, por razões objetivas, votar na continuidade deste governo, e uma parte importante quererá votar contra. Isso independe um pouco de quem seja o candidato. O país está dividido entre uma classe média que votará contra o candidato do governo e um proletariado que votará a favor.Isso significa que a disputa de 2010 será muito dura.

FOLHA - Serra tem uma estratégia de confronto com o governo Lula, enquanto Aécio parece buscar uma candidatura de consenso. Mas, dada a polarização entre PT e PSDB, a opção de Aécio parece cada vez difícil.

SINGER - Na eleição de 2008, Serra conseguiu dois trunfos.Primeiro, conseguiu costurar uma aliança com o Democratas, que foi um dos problemas mais sérios que ele teve em 2002, quando afastou esse grupo da sua candidatura. Neste momento ele fez uma ponte com a ala direita da oposição, e isso aumenta o cacife dele numa região que ele não tinha. O segundo trunfo que ele conquistou foi uma aliança momentaneamente sólida com a seção paulista do PMDB -leia-se Orestes Quércia. Isso significa que ele não tem a maior parte do PMDB, mas tem uma parcela importante, significativa.A distinção entre Serra e Aécio é muito interessante porque há uma espécie de inversão. Serra cresceu porque, tendo sido um homem de esquerda, sabe como fazer política social. Não é por acaso que o governo dele, e depois o de Kassab na cidade, deram continuidade às políticas sociais do PT. Essa foi uma das razões de sua vitória, porque ele soube somar o apoio natural que esse bloco tem junto à classe média com uma certa penetração nas camadas de menor renda. Por outro lado, Aécio, que sempre está dentro do espectro da oposição mais à direita do que o governador Serra, fez uma aliança mais à esquerda, com o PT.O PT de Belo Horizonte fez uma opção que aponta para um possível caminho do PT -um caminho mais centrista. Por razões de como está estruturado o jogo político e ideológico no Brasil, não há nenhuma possibilidade de aliança nacional. E, porque ela não existe, esse experimento de Belo Horizonte é um experimento artificial. Essa característica artificial foi notada pelos eleitores, e por isso Marcio Lacerda teve dificuldades para ganhar no primeiro turno. É um arranjo de conveniências locais com alguma incidência sobre o jogo político nacional, mas que provavelmente não terá muita influência, a menos que Aécio decida sair do PSDB. O que considero muito pouco provável.

FOLHA - É improvável que ele saia candidato pelo PMDB?

SINGER - Acho muito improvável porque me parece que, embora os políticos sejam muito flexíveis, os cortes sociais e ideológicos não são. Aécio sabe disso e sabe que ele terá um prejuízo muito grande saindo do PSDB. A disputa brasileira se dará, por muito tempo, entre dois grandes projetos representados pelo PT e pelo PSDB, que são projetos diferentes, embora eles tenham tentado aliança em Belo Horizonte, que a meu ver não deu certo. Creio que o que aconteceu em Belo Horizonte terá servido mais para Aécio se manter em evidência e participar do jogo numa condição em que, até por sua juventude, lhe permitirá ainda dar muitos passos pela frente e ser um personagem importante da política brasileira. Mas não saindo do PSDB."

domingo, 2 de novembro de 2008

As eleições norte-americanas


No diário espanhol “El País” foi hoje publicado um texto sobre as eleições presidenciais nos USA, da autoria de Paul Krugman, economista norte-americano que recebeu este ano o chamado Prémio Nobel da Economia.
Quando por toda a comunicação social portuguesa, até à exaustão, se mastigam as mais inócuas trivialidades sobre estas eleições ; quando se amontoam jornalistas enviados para os USA para nos darem a ilusão de que ficamos em cima do acontecimento, por vezes através de rasteiras banalidades colhidas in loco; quando se multiplicam os “catedráticos em americância", que nos concedem algumas migalhas da sua enorme sabedoria, como quem generosamente faculta uma esmola − é saudável dar voz a alguém com credibilidade que nos ajude a compreender um pouco melhor o que se está a passar nos USA e o que significam no essencial estas eleições e o seu desenlace.
Por isso, achámos por bem transcrever, com a devida vénia, as partes mais significativas do referido texto. Ei-lo;


En busca desesperada de la seriedad
Paul Krugman

02/11/2008

Es posible que todos los sondeos y opiniones generalizadas se equivoquen, y que John McCain, inesperadamente, gane. Ahora bien, en estos momentos da la impresión de que el triunfo demócrata es inevitable: una victoria sólida, tal vez incluso aplastante, de Barack Obama; gran aumento del número de escaños demócratas en el Senado, tal vez incluso suficientes para darles una mayoría a prueba de bloqueos parlamentarios, y también un amplio avance demócrata en la Cámara de Representantes.
Hace sólo seis semanas los resultados parecían ajustados e incluso levemente favorables a McCain. El momento decisivo de la campaña se vivió a mediados de septiembre, coincidiendo con la repentina intensificación de la crisis financiera tras la bancarrota de Lehman Brothers. Pero ¿por qué la crisis económica y financiera ha beneficiado de una forma tan abrumadora a los demócratas?
Con todo el tiempo que he dedicado a presentar argumentos contra el dogma económico conservador, me gustaría creer que la mala situación convenció a muchos estadounidenses, por fin, de que las ideas económicas de la derecha son erróneas y las ideas progresistas son las acertadas. Y no cabe duda de que hay algo de eso. Hoy, cuando incluso el propio Alan Greenspan reconoce que se equivocó al creer que el sector financiero podía autorregularse, la retórica reaganesca sobre la magia del mercado y los males de la intervención del Gobierno resulta ridícula.
Además, McCain parece asombrosamente incapaz de hablar sobre economía como si fuera un asunto serio. Ha tratado de responsabilizar de la crisis a su culpable favorito, las asignaciones presupuestarias especiales del Congreso, una afirmación que deja atónitos a los economistas. Inmediatamente después de la quiebra de Lehman, McCain declaró: "Los cimientos de nuestra economía son sólidos", por lo visto sin saber que estaba repitiendo casi al pie de la letra lo que dijo Herbert Hoover después de la crisis de 1929.
No obstante, sospecho que la razón fundamental del espectacular giro en las encuestas es algo menos concreto y más etéreo que el hecho de que los acontecimientos hayan desacreditado al fundamentalismo del libre mercado. En mi opinión, a medida que la situación económica ha ido oscureciéndose, los estadounidenses han redescubierto la virtud de la seriedad. Y eso ha beneficiado a Obama, porque su rival ha llevado a cabo una campaña tremendamente poco seria.
Piensen en los temas que han centrado la campaña de McCain hasta ahora. McCain nos recuerda, una y otra vez, que es un heterodoxo, pero ¿qué significa eso? Su heterodoxia parece definirse como un rasgo independiente de su personalidad, no vinculado a ninguna objeción concreta contra la manera de gobernar el país durante los últimos ocho años.
Por otro lado, ha criticado a Obama diciendo que es un "famoso", pero sin explicar en concreto qué tiene eso de malo; se da por supuesto que las estrellas de Hollywood tienen que caernos mal.
Y es evidente que la elección de Sarah Palin como candidata republicana a la vicepresidencia no tuvo nada que ver con sus conocimientos ni sus posturas; fue por lo que era, o lo que parecía ser. Se suponía que los estadounidenses debían identificarse con una hockey mom parecida a ellos.
En cierto sentido, es comprensible que McCain haga campaña apoyándose en nimiedades; al fin y al cabo, en otras ocasiones ha funcionado. El caso más notable fue el del presidente Bush, que si logró colocarse a un paso de la Casa Blanca y que todo dependiera de una cuestión de papeletas mariposa y perforaciones mal hechas fue sólo porque gran parte de los medios, en vez de prestar atención a las propuestas políticas de los candidatos, se centraron en sus personalidades: Bush era un tipo simpático con el que uno podía tomarse una cerveza, mientras que Al Gore era un tieso sabelotodo; y eso era lo importante, no ese lío de los impuestos y la Seguridad Social. Y seamos francos: hace seis semanas parecía que la atención de McCain a las nimiedades estaba dándole buenos resultados.
Pero eso era antes de que la perspectiva de una segunda Gran Depresión captara la atención de la gente.
La campaña de Obama no ha estado tampoco libre de tonterías; en sus primeras fases estaba llena de un vago optimismo. Pero el Barack Obama que ven los votantes hoy es un hombre sereno, tranquilo, intelectual y enterado, capaz de hablar sobre la crisis financiera con una coherencia que McCain no tiene. Y, cuando parece que el mundo se viene abajo, uno no recurre a un tipo con el que le gustaría tomarse una cerveza, sino a alguien que quizá sepa realmente cómo arreglar la situación.
La reacción de la campaña de McCain al ver que disminuyen sus posibilidades de victoria ha sido significativa: en vez de argumentar que McCain está más preparado para hacer frente a la crisis económica ha hecho todo lo posible para volver a frivolizar las cosas. ¡Obama se junta con radicales de los años sesenta! ¡Es un socialista! ¡No ama a Estados Unidos! A juzgar por las encuestas, no parece que esté sirviendo de nada.
¿Persistirá la nueva exigencia de seriedad del país? Quizá no; ¿se acuerdan de que se suponía que con el 11-S iban a acabarse las frivolidades? Pero, de momento, parece que los votantes sí están interesados por los temas que de verdad son importantes. Y eso es malo para McCain y para los conservadores en general: en estos momentos, para parafrasear al cómico Rob Corddry, la realidad es claramente progresista. -

(Traducción de María Luisa Rodríguez Tapia).

sábado, 1 de novembro de 2008

Os ricos, os pobres e Paulo Portas


O Dr. Paulo Portas é um verdadeiro cruzado contra o rendimento mínimo de inserção. Mas, talvez, temeroso de que o acusassem de cutucar empedernidamente na desgraça dos que mais precisam, resolveu reivindicar o desvio desse grande "desperdício", para as pensões de reforma mais baixas. Ou seja, Paulo Portas defende que se tire aos pobres para dar aos pobres.


Generosos e aliviados, os ricos só podem aplaudir. Essa é a política de justiça social que lhes interessa: deixar os pobres repartir a miséria equitativamente entre si, amarrando-os às suas carências, deixando os ricos em paz com a sua riqueza.


É, por isso, que o Partido Popular é visto como um partido de ricos; e o Dr. Paulo Portas como um cínico cruzado sempre piedosamente vigilante, quanto ao mais frágil abuso dos pobres, mas adequadamente esquecido do hemisfério dos ricos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Arcaicos e vaidosos!


Paleontólogos chineses descobriram o pavãosauro. É uma simbiose de pavão e lagarto, tendo vivido neste nosso planeta há 160 milhões de anos. Com uma cauda colorida semelhante à do pavão, não conseguia, no entanto, voar. Segundo alguns cientistas, o pavãosauro é o dinossauro mais próximo das aves.

A referência à sua incapacidade para voar é que me levou a procurar com atenção alguns sobreviventes no Portugal de hoje. Rapidamente, me apercebi de como era grande em Portugal o número de dinossauros que se pavoneavam pelas ruas num exacerbar de vaidade. Arcaicos e vaidosos ? Mas isso é o pavãosauro!

Afinal, muito antes dos paleontólogos chineses, já os portugueses conviviam todos os dias com dinossauros vaidosos que nem pavões.

Círculos crispados


Vi uma parte da mais recente “Quadratura Círculo”. Desta vez só com a participação de Pacheco Pereira (PP) e Lobo Xavier (LX).

LX pareceu algo tenso. PP pareceu-me crispado. Crispado, como se estivesse revoltado contra a realidade, como se a crise, antes de mais, lhe tivesse pregado uma partida. Um e outro, mas principalmente o segundo, estavam verdadeiramente ferozes contra tudo o que cheirasse a governo. Hiper-reactivos contra Sócrates. Aveludadamente, complacentes quanto à Dr.ª Ferreira Leite.

Ambos pareciam saber que a crise em curso deixou a direita de governo ideologicamente descalça, que o neoliberalismo dominante ficou drasticamente deslegitimado. E é isso, decerto, que tanto os preocupa.

Esperemos que não seja a inépcia da esquerda a permitir-lhes , a curto prazo, respirarem de alívio. E isso poderá muito bem acontecer, se a esquerda se repartir entre os que exigem o enterro do capitalismo nos próximos dias, e os que continuam a engolir os embustes ideológicos com que direita os tem paralisado, deixando-se arrastar para uma perigosa irrelevância histórica.

Fraternidade



Com a autorização do autor, publico o texto do J.L.Pio Abreu, "Fraternidade" que saiu hoje no Destak. É de algum modo um diálogo com o Alberto Martins. Conversa entre velhos amigos.

Fraternidade

"Com a queda do muro de Berlim, acabou o fundamentalismo de Estado; com crise actual, acabou o fundamentalismo de Mercado". Foi assim que o Dr. Alberto Martins, na Assembleia da República, assinalou o fim das soluções radicais para as aspirações humanas. O fundamentalismo de Estado tentou promover a igualdade à custa da liberdade. O Mercado, sem contenção, promove a liberdade mas também a desigualdade.

Liberdade e igualdade fazem parte dos ideários utópicos desde a Revolução Francesa. No entanto, podem ser antagónicas. Muito sabiamente, os revolucionários tiveram de lhes acrescentar a fraternidade para resolver a contradição. Não o conseguiram, como logo se percebeu pelo uso excessivo da guilhotina.

Ernst Friedrich Shumacher, autor de Small is Beautiful, escreveu no seu último livro, Um Guia Para os Perplexos, que os problemas humanos são tipicamente divergentes e levam a soluções contraditórias. Para os resolvermos, teremos de subir a outro nível e elevarmo-nos um pouco mais na nossa humanidade.

A fraternidade é um valor de nível superior que concilia liberdade e igualdade. Nem os franceses revolucionários nem os sistemas seguintes foram capazes de subir a esse nível. Sabendo dos enganos, seremos nós capazes de o fazer?

A resposta pode estar na tecnologia da globalização que o capital aproveitou desde a primeira hora. O capital não é fraterno. Mas cada pessoa pode agora usar a mesma tecnologia para promover a fraternidade.

J. L. Pio Abreu

O doce perfume da banca privada


Num artigo publicado no Diário de Notícias de hoje, assinado por Helena Tecedeiro, sobre a Islândia, foram integradas falas de islandeses.

Cito dois extractos com ecos dessas falas: “Zangados com o Governo que privatizou os bancos e com os banqueiros que deixaram o país à beira da falência, os islandeses garantem que vão superar a crise e sair reforçados.” E mais adiante: “E os alvos do descontentamento são vários: o Governo de Geir Haarde por ter privatizado os bancos, mas também, e sobretudo, os próprios banqueiros”.

Foi preciso que a palavra dos islandeses levantasse o véu e dissesse o que o complexo mediático –neoliberal cuidadosamente ocultou, apesar da floresta de notícias sobre a Islândia com que nos tem brindado e onde tudo foi dito menos esta incómoda verdade. Pode dizer-se: privatização escondida com falência de fora.

Aguardo pois com curiosidade a voz sábia dos papagaios de penugem economicista que desde sempre nos bombardeiam com diatribes contra o arcaísmo da banca pública e com a excelência modernaça da banca privada.


Mas espero, também, que nenhum douto pavão laranja ( ou de uma qualquer cor afim) nos continue a vender a urgência da privatização da Caixa Geral de Depósitos, como ápice virtuoso de uma economia saudável.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Caridade aos pobres banqueiros !


No diário espanhol Público, foi hoje difundida esta pequena pérola de humor que vos faculto, com a devida vénia.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Desastre financeiro ou crise sistémica?


Do site da revista internacional Utopie-Critique, retirei o texto de Samir Amin que abaixo transcrevo.


Este reputado intelectual africano, nasceu em 1931 no Cairo, filho de pai egípcio e de mãe francesa, ambos médicos. Em Paris, estudou política, estatística e economia. Entre 1957 e 1960, trabalhou na administração egípcia, na área do desenvolvimento económico. Nos três anos seguintes, foi Conselheiro do Governo do Mali. Entre 1970 e 1980, foi director do Instituto Africano de Desenvolvimento Económico (IDEP), com sede no Senegal (Dakar). Desde 1980, é director do Foro do Terceiro Mundo (Third World Forum), uma associação internacional, constituída por intelectuais da África, Ásia e América Latina, sediada em Dakar. É também autor de uma vasta e prestigiada obra.

No texto que se segue, ele procura discutir se estamos a viver um desastre financeiro ou uma verdadeira crise sistémica. Para além do mérito intrínseco do texto, o seu interesse é reforçado pelo facto de exprimir um ponto de vista de um intelectual do Sul. De facto, é sempre útil caldear o eurocentrismo endémico, que tantas vezes nos ilude, com a argúcia de outros olhares experientes, vindos de outras paragens.

E, ouso repetir, cada dia que passa, é mais evidente a urgência de se apostar num novo pensamento crítico, como ponto de partida para que novos horizontes possam ser pensados e se encontrem caminhos que nos levem até eles.


Debacle financière, crise systémique ?
Réponses illusoires et réponses nécessaires
La crise financière était inévitable

Nous n'avons pas été surpris par l'explosion brutale de cette crise, que j'avais d'ailleurs évoquée il y a quelques mois alors que les économistes conventionnels s'employaient à en minimiser les conséquences, notamment en Europe. Pour saisir sa genèse, il faut se débarrasser de la définition courante du capitalisme que l'on définit aujourd'hui comme « néo-libéral mondialisé ». Cette qualification est trompeuse et cache l'essentiel. Le système capitaliste actuel est dominé par une poignée d'oligopoles qui contrôlent la prise des décisions fondamentales dans l'économie mondiale. Des oligopoles qui ne sont pas seulement financiers, constitués de banques ou d'assurances, mais de groupes intervenant dans la production industrielle, dans les services, les transports, etc. Leur caractéristique principale est leur financiarisation. On doit entendre par là que le centre de gravité de la décision économique a été transféré de la production de plus value dans les secteurs productifs, vers la redistribution des profits occasionnée par les produits dérivés des placements financiers. C'est une stratégie poursuivie délibérément non par les banques mais par les groupes « financiarisés ». Ces oligopoles ne produisent d'ailleurs pas de profits, ils raflent tout simplement une rente de monopoles par le biais de placements financiers.
Ce système est extrêmement profitable aux segments dominants du capital. Ce n'est donc pas une économie du marché, comme on veut le dire, mais un capitalisme d'oligopoles financiarisés. Cependant la fuite en avant dans le placement financier ne pouvait pas durer éternellement, alors que la base productive ne croissait qu'à un taux faible. Cela n'était pas tenable. D'où la dite « bulle financière », qui traduit la logique même du système de placements financiers. Le volume des transactions financières est de l'ordre de deux mille trillions de dollars alors que la base productive, le PIB mondial est de 44 trillions de dollars seulement. Un multiple gigantesque. Il y a trente ans, le volume relatif des transactions financières n'avait pas cette ampleur. Ces transactions étaient destinées à titre majeur à la couverture des opérations directement exigées par la production et le commerce intérieur et international La dimension financière de ce système des oligopoles financiarisés était - ais je déjà dit - le talon d'Achille de l'ensemble capitaliste. La crise devait donc être amorcée par une débâcle financière.

Derrière la crise financière, la crise systémique du capitalisme vieillissant

Mais il ne suffit pas d'attirer l'attention sur la débâcle financière. Derrière elle, se dessine une crise de l'économie réelle car la dérive financière elle-même va asphyxier la croissance de la base productive ; les solutions apportées à la crise financière ne peuvent que déboucher sur une crise de l'économie réelle. C'est-à-dire une stagnation relative de la production, avec ce qu'elle va entraîner ; régression des revenus des travailleurs, accroissement du chômage, précarité grandissante et aggravation de la pauvreté dans les pays du sud. On doit maintenant parler de dépression et non plus de récession.
Et derrière cette crise se profile à son tour la véritable crise structurelle systémique du capitalisme. La poursuite du modèle de la croissance de l'économie réelle telle que nous le connaissons et de celui de la consommation qui lui est associé, est devenu, pour la première fois dans l'histoire, une véritable menace pour l'avenir de l'humanité et de la planète.
La dimension majeure de cette crise systémique concerne l'accès aux ressources naturelles de la planète, devenues considérablement plus rares qu'il y a un demi siècle. Le conflit Nord/Sud constitue de ce fait l'axe central des luttes et des conflits à venir.
Le système de production et de consommation/gaspillage en place interdit l'accès aux ressources naturelles du globe à la majorité des habitants de la planète, les peuples des pays du sud. Autrefois un pays émergent pouvait prélever sa part de ces ressources sans remettre en question les privilèges des pays riches. Mais aujourd'hui, ce n'est plus le cas. La population des pays opulents - 15% de la population de la planète - accapare pour sa seule consommation et son gaspillage 85% des ressources du globe, et ne peut pas tolérer que des nouveaux venus puissent accéder à ces ressources, car ils provoqueraient des pénuries graves qui menaceraient les niveaux de vie des riches.
Si les Etats-unis se sont donnés l'objectif du contrôle militaire de la planète, c'est parce qu'ils savent que sans ce contrôle ils ne peuvent pas s'assurer l'accès exclusif à ces ressources. Comme on le sait, la Chine, l'Inde et le sud dans son ensemble ont également besoin de ces ressources pour leur développement. Pour les Etats-Unis, il s'agit impérativement d'en limiter l'accès et, en dernier ressort, il n'y a qu'un moyen, la guerre.
D'autre part, pour économiser les sources d'énergie d'origine fossile, les Etats-Unis, l'Europe et d'autres développent des projets de production d'agro-carburants à grande échelle, au détriment de la production vivrière dont ils accusent la hausse des prix.

Les réponses illusoires des pouvoirs en place

Les pouvoirs en place, au service des oligopoles financiers, n'ont pas de projet autre que celui de remettre en selle ce même système. Les interventions des Etats sont d'ailleurs celles que cette oligarchie leur commande. Néanmoins le succès de cette remise en selle n'est pas impossible, si les infusions de moyens financiers sont suffisants et si les réactions des victimes - les classes populaires et les nations du Sud - demeurent limitées. Mais dans ce cas le système ne recule que pour mieux sauter et une nouvelle débâcle financière, encore plus profonde, sera inévitable, car les "aménagements" prévus pour la gestion des marchés financiers et monétaires sont largement insuffisants, puisqu'ils ne remettent pas en cause le pouvoir des oligopoles.
Par ailleurs ces réponses à la crise financière par l'injection de fonds publics faramineux pour rétablir la sécurité des marchés financiers, sont amusantes : alors que les profits avaient été privatisés, dès lors que les placements financiers s'avèrent menacés, on socialise les pertes! Pile, je gagne, face, tu perds.

Les conditions d'une réponse positive véritable aux défis

Il ne suffit pas de dire que les interventions des Etats peuvent modifier les règles du jeu, atténuer les dérives. Encore faut il en définir les logiques et la portée sociales. Certes on pourrait en théorie revenir à des formules d'association des secteurs publics et privés, d'économie mixte comme pendant les trente glorieuses en Europe et de l'ère de Bandoung en Asie et en Afrique lorsque le capitalisme d'Etat était largement dominant, accompagné de politiques sociales fortes. Mais ce type d'interventions de l'Etat n'est pas à l'ordre du jour. Et les forces sociales progressistes sont elles en mesure d'imposer une transformation de cette ampleur ? Pas encore à mon humble avis.
L'alternative véritable passe par le renversement du pouvoir exclusif des oligopoles, lequel est inconcevable sans finalement leur nationalisation pour une gestion s'inscrivant dans leur socialisation démocratique progressive. Fin du capitalisme ? Je ne le pense pas. Je crois en revanche que de nouvelles configurations des rapports de force sociaux imposant au capital à s'ajuster, lui, aux revendications des classes populaires et des peuples, est possible. A condition que les luttes sociales, encore fragmentées et sur la défensive dans l'ensemble, parviennent à se cristalliser dans une alternative politique cohérente. Dans cette perspective l'amorce de la longue transition du capitalisme au socialisme devient possible. Les avancées dans cette direction seront évidemment toujours inégales d'un pays à l'autre et d'une phase de leur déploiement à l'autre.
Les dimensions de l'alternative souhaitable et possible sont multiples et concernent tous les aspects de la vie économique, sociale, politique. Je rappellerai ici les grandes lignes de cette réponse nécessaire :
(i) la ré invention par les travailleurs d'organisations adéquates permettant la construction de leur unité transcendant l'éclatement associé aux formes d'exploitation en place (chômage, précarité, informel).
(ii) la perspective est celle d'un réveil de la théorie et de la pratique de la démocratie associée au progrès social et au respect de la souveraineté des peuples et non dissociée de ceux-ci.
(iii) se libérer du virus libéral fondé sur le mythe de l'individu déjà devenu sujet de l'histoire. Les rejets fréquents des modes de vie associés au capitalisme (aliénations multiples, patriarcat, consumérisme et destruction de la planète) signalent la possibilité de cette émancipation.
(iv)se libérer de l'atlantisme et du militarisme qui lui est associé, destinés à faire accepter la perspective d'une planète organisée sur la base de l'apartheid à l'échelle mondiale.
Dans les pays du Nord le défi implique que l'opinion générale ne se laisse pas enfermer dans un consensus de défense de leurs privilèges vis-à-vis des peuples du Sud. L'internationalisme nécessaire passe par l'anti impérialisme, non l'humanitaire.
Dans les pays du Sud la stratégie des oligopoles mondiaux entraîne le report du poids de la crise sur leurs peuples (dévalorisation des réserves de change, baisse des prix des matières premières exportées et hausse de ceux des importations). La crise offre l'occasion du renouveau d'un développement national, populaire et démocratique autocentré, soumettant les rapports avec le Nord à ses exigences, autrement dit la déconnexion. Cela implique :
(i)la maîtrise nationale des marchés monétaires et financiers
(ii)la maîtrise des technologies modernes désormais possible
(iii)la récupération de l'usage des ressources naturelles
(iv)la mise en déroute de la gestion mondialisée dominée par les oligopoles (l'OMC) et du contrôle militaire de la planète par les Etats-Unis et leurs associés.
(v)se libérer des illusions d'un capitalisme national autonome dans le système et des mythes passéistes.
(vi)La question agraire est en effet au cœur des options à venir dans les pays du tiers monde. Un développement digne de ce nom exige une stratégie politique de développement agricole fondée sur la garantie de l'accès au sol de tous les paysans (la moitié de l'humanité). En contrepoint les formules préconisées par les pouvoirs dominants - accélérer la privatisation du sol agraire, et transformer le sol agraire en marchandise- entraînent l'exode rural massif que l'on connaît. Le développement industriel des pays concernés ne pouvant pas absorber cette main d'œuvre surabondante, celle ci s'entasse dans les bidonvilles ou se laisse tenter par les aventures tragiques de fuite en pirogue à travers l'Atlantique. Il y a une relation directe entre la suppression de la garantie de l'accès au sol et l'accentuation des pressions migratoires.
(vii)L'intégration régionale, en favorisant le surgissement de nouveaux pôles de développement, peut elle constituer une forme de résistance et d'alternative ? La régionalisation est nécessaire, peut être pas pour des géants comme la Chine et l'Inde, ou même le Brésil, mais certainement pour beaucoup d'autres régions, en Asie du sud-est, en Afrique ou en Amérique Latine. Ce continent est un peu en avance en ce domaine. Le Venezuela a opportunément pris l'initiative de créer l'Alba (Alternative bolivarienne pour l'Amérique latine et les Caraibes) et la Banque du Sud (Bancosur), avant même la crise. Mais l' Alba - un projet d'intégration économique et politique - n'a pas encore reçu l'adhésion du Brésil ni même de l'Argentine. En revanche, le Bancosur, censé promouvoir un autre développement, associe également ces deux pays, qui jusqu'à présent ont une conception conventionnelle du rôle de cette banque.
Des avancées dans ces directions au Nord et au Sud, bases de l'internationalisme des travailleurs et des peuples, constituent les seuls gages de la reconstruction d'un monde meilleur, multipolaire et démocratique, seule alternative à la barbarie du capitalisme vieillissant. Plus que jamais le combat pour le socialisme du 21 ième siècle est à l'ordre du jour.
( Este texto é uma versão abreviada da apresentação feita por Samir Amin, Presidente do Forum Mundial das Alternativas, num encontro ocorrido em Caracas, em 13 de Outubro passado. O título original da apresentação foi,”À luz da crise em curso, as condições de uma renovação socialista”).

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ainda os resultados das eleições no PS


A lista liderada por Mário Ruivo distribuiu uma nota informativa em que corrigia os dados transmitidos pela comunicação social, quanto aos resultados verificados nas recentes eleições ocorridas na Federação de Coimbra do PS. Assim diz-nos que:

O número total de votantes foi de 3510 (+80) [ultrapassa em 10 votantes, os 50% de 7000]
A Lista liderada por VB teve 2086 (+32) -59,43 %
A Lista liderada por MR teve 1424 (+48) -40,56 %

Informa também que triunfou nos concelhos de Arganil, Mira, Oliveira do Hospital, Pampilhosa da Serra e Vila Nova de Poiares. Inclui ainda neste conjunto o concelho de Coimbra, mas acrescentando o inciso”incluindo sectoriais”. Como não são indicados números, ficamos sem saber se essa vitória depende dos resultados das secções sectoriais. Se assim for, a informação não é exacta, dado que as secções sectoriais não têm âmbito concelhio, mas sim distrital, pelo que não devem se imputadas a qualquer dos concelhos, individualmente considerado.

Enumera ainda as secções em que saiu vitoriosa, mas uma vez que não indica o os números não podemos avaliar a importância de cada uma dessas vitórias.

Por fim, esclarece que para a eleição de delegados ao XIII congresso distrital essa candidatura não apresentou lista de delegados em 27 secções. Provisoriamente, informa que a Lista A elegeu 275 delegados e a Lista B 418.

domingo, 26 de outubro de 2008

PS de Coimbra: comentando as eleições internas


1. O abalo mundial destas últimas semanas, ao tornar ostensiva a inviabilidade estrutural do modelo capitalista neoliberal, trouxe para a praça pública mais um indício da inviabilidade da sobrevivência da humanidade (ou, pelo menos, de sociedades que não sejam pesadelos), num contexto capitalista.
É certo que não foi lavrada nenhuma escritura que assegure o fim do capitalismo e a correspondente eclosão de novos amanhãs que cantem. Mas foi inequivocamente aberta uma nova era de responsabilidade e risco para os Partidos da Internacional Socialista.
Pelo menos na Europa, eles têm que se tornar em partidos muito diferentes daquilo que hoje são, se quiserem estar em condições de desempenhar um papel impulsionador, numa via reformista que apresse a saída do capitalismo tal com ele é, remediando, porém, desde já as injustiças e desigualdades sociais mais gritantes, de modo a tornar realista a aspiração a que o provável despontar de um pós-capitalismo tenha o rosto socialista.

Esta é uma questão estratégica, de longo prazo, que não pode ficar de fora das preocupações de cada socialista, individualmente considerado. E, por isso mesmo, se qualquer movimentação colectiva, dentro dos partidos socialistas, ocorrer à margem desta nova problemática, dificilmente não se está perante uma simples e inócua rotina que, parecendo ser acção, pode não ser mais do que um mero sonambulismo político.

Todos os que estiveram atentos à campanha interna, que decorreu até ontem na Federação de Coimbra do PS, terão podido constatar que a exuberância de eventos, de declarações de apoio e de textos de opinião que procuraram mostrar o músculo político dos candidatos, só muito ao de leve deixaram penetrar nesse círculo de ferro a atmosfera agitada do mundo em que vivemos.

2. O resultado do acto eleitoral que ontem decorreu, fazendo fé no site do Diário de Coimbra, foi de quase 60%, para Victor Baptista (VB) e de pouco mais de 40%, para Mário Ruivo (MR), não tendo a soma dos votos em ambos superado a barreira dos 50% dos eleitores, em condições de votar, que, segundo dados oficiosos, era de 7000 inscritos.

De facto, de acordo com a referida fonte, VB teve 2054 votos e MR 1376, o que somando apenas 3430, ficou abaixo de metade de 7000. Portanto, VB teve 29,3% de apoio relativamente ao universo dos possíveis votantes e MR teve o apoio de 19,6 % desse mesmo conjunto. Constata-se, também, que ambos os candidatos não conseguiram ter os votos correspondentes ao número de militantes que anunciaram como seus apoiantes, ou como participantes na soma dos seus jantares e reuniões. Houve pois uma larga fatia de militantes socialistas que não se sentiram motivados a manifestar uma opção expressa nesta consulta, embora o tenham feito, com toda a probabilidade, por razões entre si muito diversas.

Deve sublinhar-se, aliás, que o problema do fraco índice de mobilização dos inscritos no PS em eleições internas, nem é um problema novo, nem é um problema que se circunscreva a Coimbra, mas é claramente um problema que hoje existe na Federação de Coimbra. Será sempre um problema que justifica que se procure minorá-lo, mas é um índice particularmente preocupante, quando se está à beira de uma decisiva série de eleições.

Na verdade, dificilmente se atingirão nessas eleições os resultados de que o PS precisa, para prolongar com estabilidade o ciclo da sua hegemonia político-institucional, se ele não conseguir mobilizar e transmitir ao seu eleitorado um novo entusiasmo. E será improvável consegui-lo, se não partir para as lutas eleitorais com os seus militantes mobilizados e dispostos a baterem-se realmente.
Para isso, há condições políticas a preencher que têm natureza nacional; mas, não deixa de haver outras com dimensão distrital. Nomeadamente, pode ser verdadeiramente devastador pensar-se que basta a repetição aplicada das rotinas para se abrirem novas portas, tal como é necessário.
E, particularmente, quer as federações distritais, quer as estruturas concelhias, podem ser decisivas no êxito dos combates autárquicos. Mais uma vez, fazendo o que é preciso fazer para que se lancem grandes movimentos populares de apoio aos candidatos do PS e evitando deixarem-se encerrar no “tricot” dos pequenos poderes, das pequenas ambições, das pequenas carreiras, que, por mais humanamente compreensíveis que sejam, podem ser nesta conjuntura um erro fatal.

3. Um balanço completo desta campanha e das virtualidades e limitações envolvidas pela conjuntura saída desta pugna interna do PS só tem sentido depois de realizado o Congresso federativo. Por enquanto, são apenas possíveis considerações introdutórias como as que acabo de fazer.

sábado, 25 de outubro de 2008

Pixordices 19 - A distracção de Salazar




O Sr. Santos escreveu mais um livro. Por profissão é megafone de televisão: diz notícias nos telejornais e faz perguntas parvas aos senhores que se sentam à sua frente para dizerem umas tantas sábias larachas, sobre assuntos de que se dizem especialistas.

O Sr. Santos baseou-se nas vidas do vô-vô e da vó-vó que namoraram sem autorização. Gente antiga, vivente nos anos trinta do século passado, em pleno salazarismo.

Ora, do alto dos seus romances o Sr. Santos quis dizer-nos como eram toscos os democratas que espalharam a lenda de uma desafeição dos portugueses, quanto ao Dr."Botas" de Santa Comba. E, luminoso, esclareceu-nos, dizendo que o povo estava farto da primeira república e, por isso, considerou o salazarismo um verdadeiro bálsamo. O Sr. Santos esqueceu-se de que essa novidade era afinal, simplesmente, a lenga-lenga repetida pela propaganda oficial do regime fascista, ao longo de dezenas de anos.E assim não se terá apercebido que apenas levianamente estava a ressuscitar a versão oficiosa do salazarismo sobre Salazar.
Se o que Sr. Santos afirmou, tivesse sido verdade, poderia ter-se dito: Pena terá sido que o Dr. Salazar não tivesse sabido dessa grande novidade. De facto, se na época ele desconfiasse que tinha esse apoio acrisolado do povo português não teria certamente hesitado: teria feito eleições livres e decentes, uma vez que era certo ganhá-las. Como julgava o contrário, o nosso Ditador não fez tal coisa.
Pois é . Ficámos a saber que, ao contrário do que ele próprio julgava, o Dr. Salazar tinha afinal o apoio do povo português.

É pelo menos o que pretende o inefável Sr. Santos, mostrando uma infeliz verdade: o facto de se terem escrito dois, três ou mesmo quatro romances, mesmo lidos por muita gente, não vacina contra o dislate.

Sugiro um título para o novo romance do Sr. Santos: "Um Santos contra a república" ou "D. Salazar I, o bem-amado".

Na FEUC: mais uma sessão do Ciclo Integrado



Uma vez mais, do Júlio Mota recebi o anúncio de evento que abaixo reproduzo na íntegra. Chama-nos à atenção para mais uma realização sobre um tema de actualidade. Não a devemos perder.


Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC

27 -10-2008


Ciclo temático:


Economia Global, Mercadorização e Interesses Colectivos:


Pessoas, Mercadorias, Ambiente e Paraísos Fiscais


Auditório da Faculdade de Economia

Teatro Académico Gil Vicente.

" O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador (em colaboração com os estudantes do Núcleo de Estudantes de Economia da FEUC e com o apoio da Coordenação do Núcleo de Economia) do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC vem com a presente informar que irá decorrer, a 27 de Outubro, a segunda sessão do ciclo temático Economia Global, Mercadorização e Interesses Colectivos: Pessoas, Mercadorias, Ambiente e Paraísos Fiscais, no auditório da Faculdade de Economia e no Teatro Académico Gil Vicente.
.
A segunda sessão deste Ciclo enquadra-se na problemática Economia global e interesses Colectivos versus mercadorização e tem como tema central Novas Forças de Poder na Economia Global, Financeirização e Processos de Mercadorização Nesta sessão falar-se-á assim da Economia Global a partir de dois ângulos de análise: por um lado, o peso predominante da dimensão financeira, análise esta que ficará a cargo de Ben Fine, da Universidade de Londres; e, por outro, o da violência da apropriação dos recursos de África, exemplo típico do que se entende por mercadorização, violência essa que é o ponto de passagem, o ponto da transformação dos produtos em mercadorias no mercado global. Estes últimos aspectos ficarão sobretudo a cargo de Brice Mackosso, do Congo Brazaville.
A sessão começa às 15 horas com as conferências de Ben Fine e Brice Mackosso na Faculdade de Economia sendo comentadores Adelino Fortunato e Stuart Holland, ambos da FEUC. À noite, no Teatro Académico de Gil Vicente, será projectado o filme Sombra do livro sagrado de Arto Halonen, Finlândia que, na semana passada, foi nomeado para melhor filme documentário europeu de 2007.



Programa detalhado

Hora: 15:00
Local: Auditório da Faculdade de Economia

Conferências:


Ben Fine

Da financeirização ao neo-liberalismo: O envolvimento neo-liberal


Brice Mackosso

A gestão dos recursos naturais na África: impacto político económico e social

Comentários:


Adelino Fortunato (FEUC)
Stuart Holland (FEUC)


Hora: 21:15
Local: Teatro Académico de Gil Vicente

Filme/Documentário:

Sombra do livro sagrado


Arto Halonen, 2007


Debate

O filme Sombra do livro sagrado, de Arto Halonen, já foi premiado em diversos festivais.
No Teatro Académico Gil Vicente, serão distribuídas gratuitamente duas brochuras: uma com os textos base das conferências e com um texto inédito de Stefaan Marysse (Universidade de Antuérpia) sobre as relações entre África e a China, sobre a questão se assistimos ou não à existência de um imperialismo vermelho em marcha; e uma segunda brochura com textos sobre o filme e sobre a ética (ou ausência dela) das multinacionais a operarem em países ricos em matérias-primas.

Sinopse do filme

O filme Sombra do Livro Sagrado é uma audaciosa e exuberante sátira política que nos fala da cumplicidade das empresas multinacionais no apoio e na legitimação do ditador Saparmurat Niyazov, do Turquemenistão, um dos mais notórios e brutais violadores à escala mundial dos direitos humanos. Niyazov, auto-nomeado presidente vitalício, transformou uma remota república da Ásia central num dos regimes mais opressivos, megalómanos e estranhos da história recente. O Turquemenistão, que faz fronteira com Kazakistão, Uzbequistão, Afeganistão e Irão, é igualmente uma das maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. Esta dotação de recursos atraiu os líderes mundiais e as maiores empresas multinacionais, que deixam de lado os conceitos morais e ajudam a manter o regime de pé, para garantir negócios altamente rentáveis.
A expressão “Livro Sagrado” no título do filme refere-se ao livro Ruhnama escrito por Niyazov, que é uma mistura da lenda e do seu próprio pensamento neurótico e que funciona como peça central na arquitectura da sua ditadura, mesmo mais do que serviu “o pequeno livro vermelho” de Mao. O Ruhnama foi inteiramente integrado no sistema educativo do Turquemenistão, ensinado nas aulas de literatura e matemática, e a sua memorização é exigida mesmo para obter uma carta de condução. Desejando ser o 13º profeta do Islão, Niyazov irritou muitos dos líderes religiosos muçulmanos do país com as suas tentativas de tornar o Ruhnama tão proeminente como o Corão, encarcerando mesmo aqueles que o criticam.
Sombra do Livro Sagrado revela que os royalties que estas empresas pagaram ao regime de Niyasov nunca beneficiaram o povo do Turquemenistão. Em vez disso, os lucros são esbanjados no embelezamento da capital do país, Ashgabad, com estátuas de Niyasov em ouro e uma enorme escultura, iluminada, do Ruhnama no parque central da cidade.
Quando, em 2006, Niyasov morreu vítima de um ataque cardíaco, vislumbrou-se uma curta oportunidade para democratizar o sistema político. Mas, a comunidade internacional e as empresas multinacionais reagruparam-se em torno de um novo ditador, Gurbanguly Berdymuhammadov, que apresenta grande semelhança física com o anterior ditador. Diz-se que também está a escrever um livro.…


Sem outro assunto e certos da vossa atenção e da vossa presença, que antecipadamente agradecemos, apresentamos os nossos cumprimentos. "

Pela Comissão Organizadora


Júlio Marques Mota