quinta-feira, 18 de março de 2021

LULA ─ um discurso histórico

 

 


LULA ─ um discurso histórico

 

O ex-Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva proferiu no passado dia 10 de março um discurso inteligente, humano e vibrante, que fará história e merece ser conhecido pelo portugueses. Fê-lo na sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, em São Bernardo do Campo (SP).

Uma decisão não definitiva no Supremo Tribunal Federal anulou na véspera  as principais  condenações da Lava Jato que impendiam sobre ele. Está prestes a ser tomada uma outra que, se também lhe for favorável, pode acentuar mais a evolução favorável da  situação judicial com que procuraram tolhê-lo.

Tudo se radica  no escândalo inenarrável das revelações feitas há tempos atrás, desencadeado pela divulgação pública de conversas entre vários protagonistas do poder judiciário. Elas mostraram que tudo o que os advogados de Lula haviam dito sobre a parcialidade do juiz Moro e sobre as ilegalidades cometidas pela Polícia Federal e pelo MP brasileiro contra Lula era justificado e verdadeiro.

E embora não existam ainda decisões definitivas, o reconhecimento público de uma perseguição tão arbitrária, tão grosseiramente motivada politicamente contra Lula torna impossível elas não lhe serem favoráveis. Se assim não fosse  o poder judicial brasileiro já tão desprestigiado por essa perseguição evidente ficaria mergulhado na lama.

Lula falou em público pela primeira vez após a decisão do juiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), que anulou as condenações proferidas pela 13ª Vara Federal de Curitiba, devolvendo-lhe os direitos políticos.

_____________________________________-

Eis os aspetos mais significativos do extenso discurso de Lula:

[Depois de uma breve frase introdutória, Lula começa por fazer uma pedagogia de cautela sanitária num expressivo contraponto à lendária irresponsabilidade criminosa do atual  presidente do Brasil .]

………………………………………………………………………………………………

“Eu acho que o seguinte: primeiro, espero que todo mundo esteja de máscara aqui, que todo mundo esteja se cuidando, espero que brevemente todos vocês tenham tomando vacina. Eu queria falar com o médico aqui, se eu posso tirar minha máscara pra falar. Eu estou a dois metros de distância, vocês todos já fizeram o teste. Vocês todos estão livres. Então, eu gostaria de tirar minha máscara para poder falar com vocês.”

[De imediato, Lula evoca a sua prisão.]

“Bem, faz quase três anos que eu saí da sede desse sindicato para me entregar à Polícia Federal. Eu fui, obviamente, contra a minha vontade, porque sabia que estavam prendendo um inocente. Muitos dos que estavam aqui não queriam que eu fosse me entregar.

Eu tomei a decisão de me entregar porque não seria correto, um homem na minha idade, um homem com a construção da história construída junto com vocês, pudesse aparecer na capa dos jornais e na televisão como fugitivo. 

Como eu tinha clareza das inverdades contadas sobre mim. Eu então tomei a decisão de provar a minha inocência dentro da sede da Polícia Federal, perto do juiz [Sergio] Moro. 

Antes de eu ir, nós tínhamos escrito um livro. Eu fui a pessoa que dei a palavra final no título do livro, que é A Verdade Vencerá. Eu tinha tanta confiança e tanta consciência do que estava acontecendo no Brasil, que eu tinha certeza de que esse dia chegaria. E ele chegou. “

 

[De seguida, Lula evoca as suas raízes.]

 

“Queria dizer para vocês que eu nasci politicamente nesse sindicato. Em 1969, eu virei delegado de base desse sindicato, trabalhando na Villares. Em 1972, eu virei primeiro secretário, e cuidava da previdência social. Na verdade, eu cuidava dos velhinhos aqui. Em 1975, eu virei presidente. Em 1978, nós fizemos as primeiras greves desde as greves de Osasco e de Contagem, em 1968. E depois vocês já conhecem a história. Veio a criação de muitos dos movimentos que estão aqui, e eu participei de quase todos eles.

E o movimento mais importante foi a minha tomada de consciência de que, através do sindicato, eu não iria conseguir resolver os problemas do país. Eu poderia, no máximo, conseguir alguma conquista dentro da fábrica, mas era uma luta muito economicista. É aquela que você ganha uma hoje, e perde amanhã com a inflação. É aquela que você pensa que está ganhando, e daqui a pouco a empresa fecha, como fechou a Ford aqui, sem prestar contas a ninguém. .

Então, resolvi que era necessário entrar na política e construir uma consciência política no país. Eu digo sempre que eu sou, na política, um resultado da consciência política da classe trabalhadora brasileira. Na hora que ela evoluiu, eu evoluí. E eu acho que isso justifica o convite que eu fiz a vocês para estarem aqui.”

[Depois de algumas frases, evocando a solidariedade que tantos lhe prestaram, Lula aproxima-se um pouco mais do povo, evocando o que sofreu, mas para logo sublinhar como é muito maior no dia-a-dia o sofrimento do povo brasileiro.]

“Quando resolvi marcar esta entrevista, muita gente ficou preocupada com o meu humor. "Como é que o Lula vai estar? Ele vai estar bravo? Ele vai estar xingando alguém? Ele vai falar palavras de esperança?".

E, às vezes, eu me sentia como a história de um escravo que eu li num livro. O escravo foi condenado a tomar 100 chibatadas. Depois que o cara da chibata deu 98, chegou pra ele e falou: "eu vou parar de dar chibatada se você agradecer ao seu dono. Se você agradecer ao seu dono, eu não dou mais as duas que faltam." E o cara falou: "como é que eu vou agradecer? Eu já estou todo arrebentado. Por que eu vou parar? Me dê as outras duas."

Então, se tem um cidadão que tem razão de estar magoado com as chibatadas, sou eu. Não estou. As pessoas pensam que depois de dar chibatadas, joga um pouco de sal e pimenta e a pessoa vai se curar ao longo do tempo. Não importa as cicatrizes que ficam nas pessoas. 

Eu sei que fui vítima da maior mentira jurídica contada em 500 anos de história. E que a minha mulher, a Marisa, morreu por conta da pressão, e o AVC [Acidente Vascular Cerebral] se apressou.

Eu fui proibido até de visitar o meu irmão dentro de um caixão, porque tomaram uma decisão que queria que eu visse para São Paulo, que eu fosse para o quartel do 2º Exército, no Ibirapuera, e meu irmão, dentro do caixão, fosse me visitar. E ainda disseram que não podia ter nenhuma fotografia.

Então, se tem um brasileiro que tem razão de ter muitas e profundas mágoas, sou eu. Mas não tenho. Sinceramente, eu não tenho porque o sofrimento que o povo brasileiro está passando, o sofrimento que as pessoas pobres estão passando neste país é infinitamente maior do que qualquer crime que cometeram contra mim. É maior do que cada dor que eu sentia quando estava preso na Polícia Federal.

Porque não tem dor maior para um homem e mulher em qualquer país do mundo do que levantar de manhã, e não ter a certeza de um café e um pãozinho com manteiga pra tomar. Não tem dor maior para um ser humano do que ele chegar na hora do almoço, e não ter um prato de feijão com farinha para dar pro seu filho. Não tem nada pior do que o cidadão saber que ele está desempregado, e que, no final do mês, ele não vai ter o salário para sustentar a sua família.

É essa dor que a sociedade brasileira está sentindo agora que me faz dizer pra vocês: a dor que eu sinto não é nada, diante da dor que sofre milhões e milhões de pessoas.

É muito menor que a dor que sofrem quase 270 mil pessoas que viram seus entes queridos morrerem. Seus pais, seus avós, sua mãe, sua mulher, seu marido, seu filho, seu neto, e sequer puderam se despedir dessa gente na hora que nós sempre consideramos sagrada: a última visita e o último olhar na cara das pessoas que a gente ama. 

E muito mais gente está sofrendo. E por isso eu quero prestar a minha solidariedade nesta entrevista às vítimas do coronavírus. Aos familiares das vítimas do coronavírus. Ao pessoal da área da saúde, sobretudo. De toda a saúde, privada e pública.

Mas sobretudo dos heróis e das heroínas do SUS, que durante tanto tempo foram descredenciados politicamente. Foram descredenciados no exercício da sua profissão. Porque só mostravam as coisas ruins que aconteciam no SUS, e quando veio o coronavírus, se não fosse o SUS a gente teria perdido muito mais gente do que perdeu. Apesar de o governo tirar tanto dinheiro do SUS e de o governo ser um verdadeiro desgoverno no trato à saúde. “

[Depois desta referência severa ao atual poder político brasileiro, Lula acentua o contraponto em face da sua deriva insalubre.]

“Vocês sabem que a questão da vacina não é uma questão se tem dinheiro ou se não tem dinheiro. É uma questão se eu amo a vida ou amo a morte. É uma questão de saber qual é o papel de um presidente da República no cuidado do seu povo. Porque o presidente não é eleito para falar bobagem e fake news. Ele não é eleito para incentivar a compra de armas, como se nós tivéssemos necessitando de armas.

Quem está precisando de armas são as nossas forças armadas. Quem está precisando de arma é a nossa polícia, que muitas vezes sai pra rua pra combater a violência com um 38 velho todo enferrujado. Mas não é a sociedade brasileira.

Não são os fazendeiros que estão precisando de armas para matar sem terra ou para matar pequenos proprietários. Não são milicianos que estão precisando de armas para fazer um terrorismo na periferia deste país. Para matar meninos e meninas, sobretudo, meninos e meninas negras, que são as maiores vítimas das armas e das balas perdidas neste país. “

[ Em seguida, Lula agradece  os muitos apoios que teve, num quadro de honra com uma diversidade em si própria eloquente e com um peso cívico, político e simbólico da maior relevância. ]

“Nós, então, estamos vivendo um momento delicado. E eu vou querer conversar um pouco com vocês sobre isso. Mas, antes de conversar, eu queria continuar os meus agradecimentos, Wagner.

Primeiro a você, agradecendo, mais uma vez, esse sindicato por ceder esse espaço democrático para que a gente possa fazer essa conversa.

Não poderia deixar de agradecer ao presidente Alberto Fernandez, da Argentina, que teve a decência de, enquanto candidato a presidente da república do seu país, contra a extrema direita, ele teve a coragem de ir à Polícia Federal de Curitiba me visitar. E mais ainda. Eu até pedi pra ele não dar entrevista pra não ser prejudicado pela direita na Argentina. Ele me disse: “Lula, não tenho nenhum problema com o que a direita vai falar. O meu problema é o que eu vim fazer aqui. Eu vim aqui ser solidário a você, porque acredito que você está sendo vítima da maior mentira política já havida na América Latina".

Então, ao presidente Alberto Fernandez, que foi a primeira pessoa a me ligar depois da decisão do Fachin, e ao povo argentino solidário, os meus agradecimentos. 

Meus agradecimentos ao nosso querido papa Francisco. Não só porque ele mandou uma pessoa me visitar em Curitiba, me entregar uma carta, que a Polícia Federal não deixou entrar, porque achou que ele era um "embusteiro", que ele não era representante do papa, e ele era representante do papa. E depois eu recebi a carta do papa, além dos belos pronunciamentos do papa, em vários momentos.

E o fato do papa ter a coragem de me receber no Vaticano, e termos uma longa conversa, não sobre o meu caso, mas sobre a a luta contra a desigualdade, que é o maior mal que hoje paira no planeta Terra, um planeta que é redondo, que não é retangular ou não é quadrado. E o Bolsonaro não sabe disso.

Portanto, é sempre importante reiterar, quem puder: o planeta é redondo. Ele tem um astronauta no governo. O ministro Pontes, da Ciência e Tecnologia, sobrevoou num foguete russo quando eu era presidente. Se ele não dormiu, ele viu que o planeta era redondo.

Então, ele poderia dizer para o presidente dele: "Ô, presidente, não fala mais essa bobagem, não. Não acredita no tal do Olavo de Carvalho, sabe? Assume que o mundo é redondo". Eu, então, sou grato, porque o papa Francisco é, inegavelmente, o religioso mais importante que temos neste momento.

Quero agradecer às pessoas, companheiro Aloizio Mercadante, do Grupo de Puebla. Líderes da América Latina inteira, que foram solidários e confiaram na minha inocência. Quero agradecer ao Foro de São Paulo, que é uma organização da esquerda latino-americana. E quero agradecer a muitos líderes políticos. Eu não poderia deixar de citar aqui o companheiro Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai, uma das pessoas mais extraordinárias que conheci.

Não poderia deixar de reconhecer aqui a solidariedade do Bernie Sanders, um companheiro senador dos Estados Unidos, quase candidato a presidente da república, e que se afastou da campanha. 

Quero reconhecer com muito carinho o comportamento da prefeita Anne Hidalgo, prefeita de Paris, que na disputa da eleição dela, teve a coragem, quando a direita escrevia artigos nos jornais que ela iria perder as eleições porque tinha me levado lá, falou: "Lula, pra mim, a solidariedade vale mais do que uma eleição. Eu trouxe você aqui pra dar um prêmio de cidadão parisiense pra você, e vou ganhar as eleições por conta desse meu gesto". E ganhou as eleições. Por isso, eu quero agradecer à nossa querida prefeita de Paris.

Quero agradecer ao companheiro [José Luis Rodríguez] Zapatero, ao companheiro Evo Morales, à monja Coen, ao nosso querido Martinho da Vila, o nosso querido Chico Buarque, o nosso querido Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais vivos, hoje, na humanidade.

Quero agradecer ao meu querido, velhinho... Antes de falar o nome dele, esse companheiro passou quatro anos querendo dar uma fazenda dele no interior de São Paulo para a USP fazer um campus lá. E a USP passou quatro anos sem dar respostas. Quando foi um dia, ele me procurou, através de um assessor dele, que ele tinha uma fazenda pra doar pra fazer uma universidade.

Em menos de 20 horas, o companheiro Fernando Haddad, que está aqui, aceitou o terreno, e nós pegamos o terreno. E esse companheiro, eu tive o prazer de visitar a universidade com ele, já funcionando. Não sei como ela está hoje, depois da destruição do [Michel] Temer e do Bolsonaro, mas é o meu querido companheiro Raduan Nassar. Companheiro que já está com mais de 80 anos. 

Quero agradecer o companheiro, o meu biógrafo, que nunca termina o meu livro, o companheiro Fernando Morais. Quero agradecer o Martin Schulz, que é ministro na Alemanha e representa a social democracia. O Roberto Gualtieri, do Podemos espanhol, e o ex-primeiro ministro italiano [Massimo] D'Alema. 

Quero agradecer, de coração, o pessoal da vigília. Aqui tem muita gente que foi na vigília, aqui tem muita gente que ficou muito tempo na vigília, mas aquelas pessoas enfrentaram loucuras da Polícia Federal. 

Tinha um delegado, que eu não sei se ele era saudável ou não, se ele bebia ou não, mas ele provocava a vigília. Chegou a atirar pra fazer medo à vigília.

Tinha polícia, tinha vizinhos que ofendiam gente da vigília todo dia. E esse pessoal ficou lá 580 dias. Todo santo dia de manhã, de domingo a domingo, gritando "presidente Lula", almoçando e gritavam "presidente Lula", às duas horas da tarde. E às sete horas da noite, gritavam "presidente Lula". E todo santo dia. Eu acordava, almoçava e dormia com mulheres e homens do Brasil inteiro gritando o meu nome. 

Então, a cadeia não foi o sofrimento que eu pensava que fosse, porque eu não sei quantos presos na história da humanidade tiveram tanta gente. 

E aí eu tenho que agradecer ao movimento sindical. Agradecer, João Paulo, ao Movimento Sem Terra, porque o companheiro Baggio, lá no Paraná, foi um herói.

Agradecer aos companheiros do MAB [Movimentos dos Atingidos por Barragens], que trabalharam de forma extraordinária, e aos companheiros dos partidos de esquerda que estão aqui. Eu lamentavelmente não tenho o nome de todas as pessoas, mas eu tenho que agradecer.”

[ Lula denuncia então, com simplicidade e força, a comunicação social dominante pela sua duplicidade. Pela sua incapacidade de mesmo agora dar por completo o braço a torcer. ]

“Antes de agradecer aos meus advogados, e aos outros advogados, que não sendo meus advogados no processo, foram advogados, participaram de solidariedade, fizeram muita coisa nesse país. 

Eu quero agradecer a uma pessoa, que eu não conheço, mas é uma pessoa chamada Claudio Wagner. Esse é o perito que está investigando todas as mensagens do hacker pra provar a veracidade da denúncia. 

O que é engraçado é que durante longos cinco anos, amplos setores da imprensa não exigiram nenhuma veracidade do Moro. Não exigiram nenhuma veracidade dos procuradores, não exigiram nenhuma veracidade da Polícia Federal para divulgar as mentiras que eles contavam ao meu respeito.

Mas agora nós estamos com perito, fazendo investigação nos documentos, que está na Polícia Federal. Portanto, não é uma coisa do PT, é da Polícia Federal, autorizado pelo ministro da Suprema Corte. E, mesmo esse perito avalizando, vocês acompanham a imprensa.

E eu acho muito engraçado porque o Moro fala "não reconheço essa veracidade". Os procuradores falam "não reconheço", mesmo tendo uma peritagem, e a divulgação sendo autorizada pela Suprema Corte. 

No meu caso, eles nunca pediram autorização. Era até engraçado porque muitas vezes eu ia fazer o inquérito, e a maior preocupação do delegado que ia fazer o inquérito não era com a pergunta, era com o vazamento. E o vazamento era selecionado. 

Tinha jornalista específico na Folha; jornalista específico no Estadão; jornalista específico na Época, na Veja, na IstoÉ; jornalistas específicos em vários canais de televisão. E todo mundo se lembra.

Quantas e quantas matérias do principal jornal da televisão aparece um oleoduto, uma gasoduto saindo dinheiro, para falar vinte ou trinta minutos das denúncias dos procuradores, sem nenhuma prova.

[ E indo ao fundo do que verdadeiramente move o cerco que lhe é feito, a hostilidade raivosa que o rodeia, Lula faz-se ouvir pelos seus ,  falando a partir do sofrimento do povo. De um sofrimento que ele experimentou também  pessoalmente, dentro do qual ele próprio nasceu. Por isso, nele os pobres e os excluídos veem sempre um dos seus. E é essa sua  força terrível e magnífica que mais assusta os seus inimigos. ]

“Mas eles colocavam. Contra o Lula não precisava provar que o documento tinha seriedade. Era preciso destruir. Afinal de contas, um torneiro mecânico, sem dedo, já tinha feito demais nesse país. Era preciso evitar que esse cidadão pensasse em voltar a governar o país.

Porque a América Latina nunca trabalhou em 500 anos com política de inclusão social. A inclusão social é pra 35% da sociedade. Quem pode ir a teatro é uma parte pequena da sociedade. Quem vai a cinema é uma parte pequena. Quem vai a restaurante é uma parte pequena. Quem vai aos parques bonitos, quem vai às vernissages nesse país, quem vai às exposições é só uma parte pequena. 

À maioria, fique no seu lugar. Afinal de contas, o papel do trabalhador é trabalhar. E o papel dos pobres é esperar as políticas de ajuda do governo quando ela vem.

E, por conta disso, eu digo pra vocês, anteontem foi um dia gratificante. Eu sou agradecido ao ministro Fachin porque ele cumpriu uma coisa que a gente reivindicava desde de 2016.

A decisão que ele tomou, tardiamente, cinco anos depois, foi colocada por nós desde 2016. “

………………………………………………………………………………………………..

[Mais adiante, Lula fala da comunicação social com a força da simplicidade e da razão.]

“Eu fiquei muito feliz porque, depois da divulgação de tanta mentira contra mim, ontem [terça-feira] eu acho que nós tivemos um Jornal Nacional épico. Ontem, eu acho que quem assistiu televisão não estava acreditando no que estava vendo. Pela primeira vez, a verdade prevaleceu.

Dita, não por alguém do PT, dita pelo presidente da segunda turma do STF no discurso do Gilmar Mendes; dita pelo Ricardo Lewandowski e dita até pela Carmen Lucia, que nunca tinha visto nada igual àquilo. 

E eu, como acho que tenho um pouco de experiência, fiquei feliz com a verdade, porque é pra isso que servem os meios de comunicação. Jornalista não existe pra sair pra rua pra cumprir a ordem do editor.

Vocês não sabem, mas aqui nesta sala não tem ninguém que tenha lidado com a imprensa 10% do que eu lidei. Desde 1975 eu lido com a imprensa, e com muita imprensa. E eu sempre disse que o papel da imprensa, quando o jornalista sai pra rua, ele sai com o compromisso de dizer a verdade. A verdade nua e crua.

Não tem importância que ela seja contra o PT, contra o PCdoB, contra o PSOL, contra o PMDB, contra qualquer um. A verdade nua e crua, é pra isso que nós precisamos de imprensa livre.

Não é uma imprensa que divulga aquilo que politicamente ou que ideologicamente ela quer. A ideologia da notícia, do jornal, da televisão ou da revista deve ser colocada num cantinho, no editorial, como pensamento da revista. Mas vocês, jornalistas, precisam ser livres. E o compromisso de vocês é escreverem o que vocês viram. É escreverem o que as pessoas falaram pra vocês, e não escrever o que o editor quer que vocês escrevam.

Portanto, eu fiquei feliz porque eu espero que a verdade, a verdade versada pela Globo ontem, seja o novo padrão de comportamento da Globo com a verdade.

Globo não tem que gostar ou não gostar de presidente. Ela não tem que gostar ou não gostar de partido. Isso ela decide na hora de votar. Mas na hora de informar, tem que informar a verdade, e apenas, somente, a verdade.

E ontem eu fiquei feliz porque eu vi a verdade proferida na íntegra por dois ministros da Suprema Corte. E eu espero que continue assim. Porque antes o Gilmar [Mendes] também não aparecia. Antes, o Lewandowski também não aparecia. Apareciam os acusadores durante meia hora, e, às vezes, o Gilmar e o Lewandowski, que se votassem contra os acusadores, tinham 30 segundos.

Os meus advogados eu nem falo, porque o esforço para que meus advogados aparecessem 30 segundos era monumental, e nem sempre apareciam. Mesmo assim eu continuo dizendo que a liberdade de imprensa é uma das razões maiores pela manutenção da democracia em qualquer país do mundo, em qualquer lugar do planeta Terra.”

………………………………………………………………………………..

[ E depois de agradecer aos seus advogados a quem elogiou e de tecer mais algumas considerações relacionadas com os processos que enfrenta, continuou.]

“Eu estou muito tranquilo. O processo vai continuar? Vai. Tudo bem, eu já fui absolvido de todos os processos fora de Curitiba. Mas nós vamos continuar brigando para que o Moro seja considerado suspeito. Porque ele não tem o direito de se transformar no maior mentiroso da história do Brasil, e ser considerado herói por aqueles que queriam me culpar. Deus de barro não dura muito tempo. 

Eu tenho certeza que hoje ele deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. Eu tenho certeza que o [procurador Deltan] Dallagnol deve estar sofrendo muito mais do que eu sofri. Porque eles sabem que eles cometeram erros, e eu sabia que eu não tinha cometido erro.

Então, meus agradecimentos aos meus advogados. E meus agradecimentos a todos os advogados do Brasil que foram solidários. Todos. Teve muita gente que foi solidária a mim, muitos documentos assinados, e eu sou, sinceramente, agradecido a todo mundo. 

…………………………………………………………………………….

[E mais adiante, criticando o conluio entre a gande comunicação social e o aparelho judicial, salientou:]

“A gente não pode ficar divulgando o nome das pessoas antes de ter prova. A gente não pode tentar criminalizar as pessoas antes de provar que cometeram um crime. E foi o que aconteceu. A Lava Jato fez um pacto com o setor da mídia. E que era preciso, porque essa era a teoria do Moro, num artigo que ele escreveu em 94 em que ele dizia: "só a imprensa pode ajudar condenar as pessoas." E aí vale qualquer coisa. “

[ E adiante falou de algo extraordinário.]

“Eu ganhei duas amizades extraordinárias, pessoas que eu não conhecia, dois advogados de Curitiba que me visitaram durante 580 dias, todo santo dia. Um ia de manhã e o outro à tarde. Só não ia de sábado e domingo. Mas imagina o que que é duas pessoas irem me visitar todo santo dia. 

Um chegava com almoço, mandado pela Janja, e outro chegava à tarde pela janta mandada pela Janja. Sabe, às vezes a comida chegava fria, mas eu comia e não reclamava, porque sabia que o povo estava passando fome lá fora. Eu esquentava porque eu tinha um negocinho de esquentar comida. Peão de fábrica sabe como esquentar marmita. Então, eu não comi comida fria não, era toda quentinha.”

…………………………………………………………………………………..

[ Trazendo à colação a situação dramática que o Brasil vive , afirmou:]

Eu quero agradecer os governadores Rui Costa, Wellington Dias, Camilo Santama, Fátima Bezerra e todos os governadores do Nordeste que estão brigando, sabe, e do país inteiro, para dar vacina.

É uma luta titânica contra um governo incompetente, contra um ministro da Saúde incompetente e contra as pessoas que não respeitam a vida. Então aos governadores, a minha solidariedade”.

……………………………………………………………………..

[Revelando bem o seu perfil político, generoso e democrático, dirigiu-se à imprensa, essa imprensa que na sua maioria tanto ajudou a vilipendiá-lo.]

“E quero agradecer a vocês, a imprensa brasileira, porque depois de tudo que falei aqui, vocês podem ter certeza que nem o João Roberto Marinho gosta mais da imprensa do que eu. Nem ele quer mais democracia do que eu na imprensa, e muito menos o presidente da República.

Meus agradecimentos a vocês. Porque eu sei que vocês vão continuar trabalhando para tentar melhorar o papel da imprensa na construção da democracia brasileira.”

……………………………………………………………………

[ Lula então falou dele como pessoa, mas  para fazer pedagogia de saúde pública , demarcando-se frontalmente do cretinismo bolsonarista.]

“Eu tenho 75 anos de idade. Eu falo brincando que eu tenho energia de 30 e tesão de 20. Eu acho que é por isso que eu não tomei vacina ainda, porque o pessoal não sabe se é 30, se é 20 ou 75. Então, agora eu estou dizendo que é 75 e na semana que vem, se Deus quiser, eu vou tomar a minha vacina. Vou tomar a minha vacina. Não me importa de que país, não me importa se é duas ou uma só; sabe, eu vou tomar minha vacina e quero fazer propaganda pro povo brasileiro.

Não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da República ou do ministro da Saúde. Tome vacina. Tome vacina porque a vacina é uma das coisas que pode livrar você do covid.

Mas mesmo tomando vacina, não ache que você possa tomar vacina e já tirar a camisa, já ir pro boteco e pedir uma cerveja gelada e ficar conversando, não! Você precisa continuar fazendo o isolamento, e você precisa continuar utilizando máscara e utilizando álcool em gel. Pelo amor de Deus.

Esse vírus, essa noite, matou quase 2 mil pessoas. É que as mortes estão sendo naturalizadas, porque a gente ouve de manhã, de tarde e de noite, a gente liga um canal de televisão, lê um jornal, liga um rádio, ou seja, é falando da morte, então você vai naturalizando na cabeça das pessoas, mas eram mortes que, muitas delas, poderiam ser evitadas. Evitadas se a gente tivesse um governo que tivesse feito o elementar.

Você sabe que a arte de governar não é fácil; é a arte de saber tomar decisão. Então, o presidente da República que se respeitasse e que respeitasse o povo brasileiro, a primeira coisa que ele teria feito em março do ano passado, era criar um comitê de crise. 

Envolvendo o seu ministro da Saúde, envolvendo secretários da Saúde dos estados, envolvendo cientistas da Fiocruz, cientistas do Butantan e outros cientistas. E toda semana orientar a sociedade brasileira sobre o que fazer.

Era preciso priorizar o dinheiro e comprar as vacinas que pudesse comprar em qualquer lugar do planeta Terra. Nós tivemos momentos que teve vacina que a gente sequer aceitou. A própria Pfizer tentou oferecer vacina, e a gente não quis, a Organização Mundial da Saúde.

Porque nós tínhamos um presidente que inventou uma tal de cloroquina. Nós tínhamos um presidente que falava que quem tem medo do covid é maricas, que o covid era uma gripezinha, que o covid era coisa de covarde, que ele era ex-atleta, e que portanto ele não ia pegar. Esse não é o papel, no mundo civilizado, de um presidente da República.

Um presidente da República deveria ter esse comitê de crise, e toda semana ter uma voz oficial do comitê de crise orientando a sociedade, visitando os estados, visitando as cidades, vendo as condições dos hospitais, trabalhando pra fazer hospital de campanha onde não tivesse hospital. Tentando evitar que faltasse oxigênio como faltou em Manaus. Esse era o papel do presidente da República.

Agora, ele não sabe o que é ser presidente da República. Ele a vida inteira não foi nada. Ele não foi nem capitão. Era tenente e foi promovido porque se aposentou. E se aposentou porque queria explodir quartel, porque ele virou um dirigente sindical dos soldados, queria mais aumento de salário.

Depois que ele se aposentou, ele nunca mais fez nada na vida. Ele foi vereador e deputado durante 32 anos. Exerceu o mandato e conseguiu passar pra sociedade a ideia de que ele não era político”.

…………………………………………………………………………

[Lula sintetiza o contraponto entre o seu tempo e o presente bolsonarista.]

“Quando esse país tinha como presidente da República um metalúrgico em 2008, a indústria automobilística vendia 4 milhões de carros por ano nesse país. Passados 13 anos, esse país vende 2 milhões de carros. Ou seja, hoje a indústria automobilística é metade do que era em 2008. Porque não há possibilidade de investimento se não houver demanda. Para ter demanda, tem que ter emprego. 

Porque vocês acham que o PT está brigando por um salário emergencial de R$ 600? Não é porque a gente acha que o Estado tem que pagar R$ 600 a vida inteira. É porque o Estado só pode deixar de pagar quando o Estado tiver gerando emprego e as pessoas tiverem obtendo renda, às custas do seu trabalho, aí não precisa do salário emergencial.

Mas, enquanto o governo não cuida de emprego, não cuida de salário, não cuida de renda, você tem que ter um salário emergencial para que as pessoas não morram de fome. Isso não precisa ler Marx pra entender, não precisa artigo do Delfim Neto pra entender. É a lógica da casa de vocês.

Se a mulher tiver dinheiro, a mulher de vocês e a família tiver dinheiro, ela vai no supermercado, vai na feira, vai comprar um caderno novo, vai comprar um sapato, vai comprar uma camisa e tudo começa a funcionar. Se não tem, ela fica em casa prostrada, na frente de um fogão esperando: “quando é que eu vou ter dinheiro pra comprar alguma coisa?”.

……………………………………………………………

“Eu tinha um conselho com 100 pessoas. Participavam os dirigentes dos sindicatos, os grandes empresários, participava índio, participava pastor da igreja evangélica, participava padre, participava bispo, participava negro. Porque eu queria ouvir a sociedade. Nós fizemos, no meu mandato, 74 conferências nacionais pra ouvir o que a sociedade queria.

O Bolsonaro não junta ninguém. Ele junta os milicianos. Não mostra a cara nas entrevistas. Na saída do Palácio, para pra dizer: “Tô liberando armas, tô liberando mais quatro armas, mais dois fuzil, logo logo vai ter canhão pra todo mundo”. 

Esse povo não está precisando de armas, David. Esse povo está precisando de emprego, de carteira profissional, de salários, de livros, de educação. O Estado precisa estar presente na periferia desse país. O Estado tem que estar lá com educação, com cultura, com saúde, com política de assistência social. É esse o papel de um presidente da República”.

…………………………………………………………………………………

“Por último, companheiros e companheiras, eu queria dizer pra vocês, que quando você chega na idade que eu cheguei e quando você obtém de Deus a generosidade que eu recebi, não há mais espaço pra guardar ódio, não há mais espaço pra perder tempo remoendo, eu diria, raiva ou ódio. Eu sou abençoado por Deus por muitas coisas.

Se a gente for olhar do ponto de vista sociológico ou filosófico - gostou Boulos, de eu falar sociológico? - se a gente fosse analisar Haddad, por conta disso, a gente não teria feito aqui, ô Nobre, a revolução da criação do novo sindicalismo em 78, porque era impossível criar qualquer coisa, e a gente criou.

A gente não teria criado a liberdade de organização partidária, e eu não teria tido o prazer de criar o partido mais importante da esquerda latino americana. E muito menos eu ser presidente.

Vocês lembram com quem eu disputei a primeira eleição, com dr. Ulisses Guimarães, com dr. Leonel de Moura Brizola, com dr. Paulo Salim Maluf, com dr. Mario Covas, com dr. Afif, com dr. Aureliano... era só doutor.

O único cara que não era doutor era eu. E fui pro segundo turno.  E não ganhei porque a Globo me roubou. A Globo fez aquela mutreta do debate, reconhecido pelos diretores da Globo da época. 

Bem, então eu sou abençoado por Deus, então quero terminar dizendo pra vocês o seguinte: eu tô muito de bem com a vida. A Lava Jato desapareceu da minha vida. Eu não espero que as pessoas que me acusam parem de me acusar, não espero.

Eu estou satisfeito que tenha sido reconhecido aquilo que os meus advogados vêm dizendo há muito tempo: o presidente é inocente, o presidente não é dono do apartamento.

Nós derrubamos 11 ações ao longo de cinco anos. Ou seja, nós tivemos 100% de êxito na decisão do Fachin. De repente, eu tinha quatro processos e eles desapareceram. Por que o Fachin não fez isso antes? Eu estou dizendo isso há cinco anos.

Eu sei que é constrangedor para muita gente que me acusou, parar de acusar. É duro, porque quando você envereda no caminho da mentira, é difícil voltar atrás. Mas olha como eu estou muito mais sereno do que o William Bonner ontem dando a notícia. Ó como eu estou com o semblante tranquilo, de que a verdade venceu, de que a verdade vai continuar vencendo.

Por isso, companheiros e companheiras, eu quero dizer para vocês: eu quero dedicar o resto de vida que me sobre, e eu espero que seja muita, muita eu espero. A gente começa a gostar da vida quando está mais próximo do céu. Eu quero voltar a andar por esse país para conversar com esse povo.

O povo não tem o direito de permitir que um cidadão que causa os males que o Bolsonaro causa ao país continue governando e continue vendendo o país. Eu não sei qual é a atitude, mas alguma atitude nós vamos ter que tomar, companheiros, para que esse povo possa voltar a sonhar.

Esse país já sonhou, esse país já realizou. Ô, gente, a gente sonhava em fazer esse país ser grande. Nós construímos e fortalecemos o Mercosul. Nós construímos a Unasul, porque a gente queria criar um grande bloco econômico latino americano, um bloco de 400 milhões de habitantes, de um PIB razoavelmente grande, para negociar em condições de igualdade com a Europa.

Porque a Europa só quer negociar para eles venderem os produtos industriais deles e a gente vender os produtos agrícolas. Não. A gente não quer fazer do agronegócio, a gente respeita o agronegócio, eu acho que o agronegócio tem muita tecnologia, é muito importante, mas o Brasil quer ser um país industrializado. O Brasil quer ter novas indústrias, o país quer ter novas tecnologias.

A gente sonhava com isso. Nós criamos os Brics, nós criamos o banco dos Brics, nós criamos o banco do Sul. O Brasil tinha um projeto de nação, o Brasil tinha um projeto de soberania. Porque faz 500 anos que nós fomos descobertos.

Quando é que nós vamos tomar conta do nosso nariz? Quando é que eu vou acordar de manhã sem ter que pedir licença pra respirar para o governo americano? Quando é que eu vou levantar de manhã sabendo que o meu povo está tomando café, que ele vai almoçar e vai jantar, que as crianças estão na escola, que as crianças estão tendo acesso à saúde e à cultura? Quando é que nós vamos acordar? Isso é possível. Nós provamos isso.

Então, companheiros e companheiras, é pela construção desse sonho e ajudar a torná-lo realidade que eu me sinto muito jovem. Me sinto jovem para brigar muito. Então, eu queria que vocês soubessem: desistir, jamais; a palavra desistir não existe no meu dicionário.

Eu aprendi com a minha mãe: lute sempre, acredite sempre, tente sempre, porque se a gente não acreditar na gente, ninguém vai acreditar. Se você não se respeitar, ninguém vai ter respeitar. 

Às pessoas que me destratam durante todos esses anos, eu quero dizer pra vocês. Eu quero conversar com a classe política. Porque, muitas vezes, Haddad, muitas vezes, Boulos, muitas vezes, a gente se recusa a conversar com determinados políticos; é da nossa natureza.

Mas veja, eu gostaria que no Congresso Nacional só tivesse gente boa, gente de esquerda, gente progressista, mas não é assim. O povo não pensou assim. O povo elegeu quem ele quis eleger. Nós temos que conversar com quem está lá para ver se a gente conserta esse país. 

Eu preciso conversar com os empresários. Eu quero saber aonde é que está a loucura deles de não perceberem que, se eles quiserem crescer economicamente, se eles quiserem que a bolsa cresça, se eles quiserem que a economia cresça, é preciso garantir que o povo tenha emprego, que o povo tenha renda, que o povo possa viver com dignidade, senão não há crescimento.

Será que é difícil ou será que nós vamos ficar reféns do “Deus mercado”, que só quer ganhar dinheiro não importa como?

Nós já vimos a experiência da crise de 2008, com o subprime americano e, depois, com a quebra do Lemman Brothers. E quando eles quebram, quem é que coloca dinheiro para salvá-los? O Estado! O Estado que eles repudiam, o Estado que eles destroem. Quando eles quebram, quem põe dinheiro é o Estado pra salvá-los.

Nos Estados Unidos, quando quebrou o sistema habitacional pela bolha, com o subprime, eles ajudaram primeiro os bancos, para somente depois pensar nos coitados que perderam as casas. Quando é que a gente vai pensar nos debaixo primeiro?

 

 

Então, não tenham medo de mim. Eu sou radical. Eu sou radical porque eu quero ir à raiz dos problemas desse país.

Eu sou radical porque eu quero ajudar a construir um mundo justo. Um mundo mais humano. Um mundo em que trabalhar e pedir aumento de salário não seja crime. Um mundo em que a mulher não seja tripudiada por ser mulher. Um mundo em que as pessoas não sejam tripudiadas por aquilo que querem ser. Um mundo em que a gente venha a abolir definitivamente o maldito preconceito racial nesse país. Um mundo que não tenha mais bala perdida. Um mundo em que o jovem possa transitar livremente pelas ruas de qualquer lugar sem a preocupação de tomar um tiro. 

Um mundo em que as pessoas sejam felizes onde quiserem ser, que as pessoas sejam o que elas decidirem. Um mundo em que a gente tem que respeitar a religiosidade de cada um, cada um é o que quer, cada um tem a espiritualidade que quiser. Ninguém é obrigado a ser da minha religião, seja a que você quiser, a que você acredita. As pessoas podem ser LGBT, e a gente tem que respeitar o que as pessoas fazem. Esse mundo é possível, esse mundo é plenamente possível.

[ E Lula conclui com uma ressonância da conjuntura, fraterna, preocupada, pedagógica, gritando objetivamente a sua diferença de natureza em face do bolsonarismo reinante. ]

“E é por isso que eu convido vocês para a gente lutar nesse país para garantir que todo, todo, todo brasileiro, independentemente da idade, tome vacina.

E, para isso, a gente tem que obrigar o governo a comprar a vacina, mas, ao mesmo tempo, nós temos que brigar pelo salário emergencial, e ao mesmo tempo brigar por investimento em geração de emprego, sobretudo a partir de infraestrutura.

Temos que brigar por uma política de ajuda aos microempreendedores, ao pequeno empresário brasileiro, que não se suporta e quebra. Quantos restaurantes estão fechando? Quantas farmácias estão fechando. Quantas lavanderias estão fechando. Quantos institutos de beleza estão fechando? Para que que existe governo? É para tentar encontrar solução para essa gente. 

Então, gente, eu agora quero pedir desculpas a vocês, porque como o Gilmar Mendes falou muito ontem, eu também falei muito hoje, mas vocês hão de convir que faz cinco anos que eu não falo com a imprensa.

Você sabe qual foi a última vez que dei uma entrevista pra televisão? Foi pro Roberto D'avila, na Globonews, há uns 5 ou 6 anos atrás. Uns 4 anos atrás.

Eu virei uma espécie de vírus: não encosta no Lula, não ouça o Lula. Uma vez eu fui condenado a três anos de cadeia em Manaus. Sabe qual era a minha arma? O juiz disse que eu tinha a língua felina. Então, eu quero dizer pra vocês, para defender o povo brasileiro, para defender as coisas que vão salvar esse país, vou continuar com minha língua felina.

E quero agradecer porque, se não fossem vocês, possivelmente eu não teria chegado aqui. Muito obrigado.”

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

ECONOMIA SOCIAL - hoje, virtualmente em Coimbra

 ECONOMIA  SOCIAL - hoje, virtualmente em Coimbra



domingo, 7 de março de 2021

Fantasma de um pesadelo passado

 


Fantasma de um pesadelo passado

 

Cavaco Silva explodiu numa suave reunião de senhoras do PSD. A comunicação social dominante fez respeitosamente ecoar a voz tonitruante do seu antigo senhor.

Como se de um ousado pirilampo se tratasse, a sua rápida e modesta luz prometeu salvar-nos não se sabe bem de quê. Qual arcanjo providencial, veio ostentar uma  determinação firme: a de nos salvar, salvando a nossa democracia da terrível mordaça que a malévola geringonça (que assim ressuscitou) tem vindo a perpetrar contra todos nós.

Com argúcia pôs a nu os sinais mais fortes e mais preocupantes da opressiva mordaça que cerceia a nossa democracia: o ex-Presidente do Tribunal de Contas não foi reconduzido quando terminou o mandato para que havia sido nomeado, o mesmo tendo acontecido com a anterior Procuradora Geral da República. Neste caso o implacável fantasma de si próprio não hesitou em causar um dano colateral no seu sucessor na Presidência já que foi em última instância ele quem a nomeou. Terá o seu olhar de lince da Serra da Malcata descoberto nas brumas do mistério uma secreta implicação do Presidente Marcelo nas perversas maquinações de uma geringonça que afinal existe? O oráculo de Boliqueime deixa crer que talvez.

O ponto fraco desta paixão pela democracia que quer desamordaçar é ter uma intensidade demasiado forte. Tão forte que é dificilmente  harmonizável com a mansidão com que ele suportou  essa coisa que existiu em Portugal antes do 25 de abril e que certamente nem a sua percuciência consegue considerar como algo menos amordaçado do que o agora o atormenta. Pode ser que andasse então apenas distraído e que com o nobre peso dessa distração no seu inconsciente freudiano se exceda agora num paroxismo compensatório de vigilância democrática. Pode também ser um prosaico problema de maus fígados associado a uma possível falta de tempo para encontrar algo de aparentemente consistente que legitimasse algumas farpas mais agressivas no PS, no Governo e na alegada geringonça.

Será talvez a mesma falta de tempo para dar mais consistência ás suas pirilampices que o fez sugerir sem subtileza que os mortos da covid 19 são fundamentalmente culpa do atual governo. Só não se percebeu se o oráculo de Boliqueime imputava ao governo português a culpa apenas pelas consequências nacionais do vírus ou se a estendia à Europa e ao mundo. Não se sabe. De certeza certa, apenas se sabe que sentiu vergonha.

 Anda a OMS na China à procura da raiz da pandemia, quando facilmente evitaria perdas de tempo e dinheiro se perguntasse a Cavaco. Se estiver atenta é o que fará. Terá talvez apenas de inquirir se a culpa foi principalmente do Primeiro-Ministro, da Ministra da Saúde ou de todo o Governo. Aguardemos.

Também foram comoventes as melífluas alfinetadas que espetou em Rui Rio. Não se sabe se para o estimular se para o enfraquecer. Mas foi particularmente brilhante a lógica que uniu a sua enérgica diatribe desqualificativa do PS e a recomendação dirigida ao PSD para atrair os eleitores que têm preferido o PS. Rui Rio ficou tonto:" Então para conquistar os eleitores do PS insulto a escolha que eles fizeram?" Isso o oráculo de Boliqueime não explicou.

Mas onde ele mais se excedeu em rasgo, foi no críptico conselho dado a Rui Rio para lidar com o Chega. Não fale nele. Nunca responda a qualquer pergunta sobre ele. Seja inerte perante qualquer enormidade que venha dele. Notável como Cavaco, que foi tão eloquente em imaginar mordaças para as imputar ao atual  governo, numa pose de intransigente excelência democrática, tenha ficado preso numa bonomia inerte perante as piruetas neofascistas do Chega. Estranho! Tão estranho que é legítimo suspeitar-se que o aferidor de democracia que ele usa está notoriamente avariado. Ou então é o próprio oráculo de Boliqueime que está desbussolado, tendo-se perdido do norte e do simples bom senso.

Cavaco voltou, a direita mais linha do Estoril adorou, o jornalismo mole da matilha dominante mastigou penosamente as banalidades básicas. Mas se me perguntassem em que tipo de programa o colocaram não saberei dizer se foi um programa cómico ou trágico.

sexta-feira, 5 de março de 2021

As próximas eleições autárquicas em Coimbra

 


As próximas eleições autárquicas em Coimbra

I - Crítica das críticas

 

1. Este é o primeiro de uma pequena série de textos através dos quais tenciono abordar a problemática autárquica no quadro das eleições de outubro próximo. O meu ponto de vista não é imparcial, uma vez que militando no PS apoio politicamente em termos gerais a atual gestão autárquica no município de Coimbra. Mas, pretendendo hoje fazer uma crítica das críticas, procurarei encará-las com objetividade, no quadro de um debate democrático frontal mas sem crispação. Não vou discuti-las em si próprias, apreciando o seu conteúdo. Vou tentar comentar a tipologia de algumas delas em termos genéricos, sem a pretensão de exaustividade.

Muitas vezes, as críticas foram metodológicas ou de estilo, suscitadas por episódios políticos ou por casos isolados, tentando-se através delas desgastar o prestígio da atual gestão municipal. Este tipo de críticas envolve um risco grande de descambar em ataques pessoais que suscitam uma crispação intensa entre os protagonistas e tornam mais difícil um diálogo profícuo, encorajando um clima de suspeições mútuas e de ressentimento.

Em si, não envolvem a promessa de qualquer programa alternativo ou de iniciativas novas. São ataques que procuram menorizar os visados, mas não nos dizem nada quanto ao que há a esperar de uma gestão autárquica dos críticos. Podem dar sinais quanto à sua ferocidade, mas não quanto ao seu programa e à sua competência. Podem mostrar uma demarcação genérica intensa, mas não revelam o que fariam de diferente se estivessem na mesma posição.

 

2. Outro tipo de críticas centra-se em insuficiências estruturais do concelho e na subsistência de lesões no tecido social inerente às desigualdades sociais. Há duas verificações prévias a fazer. A primeira, para apurar se essas lesões são insuficiências específicas do nosso município ou ressonância inevitável do tipo de sociedade em que vivemos, inigualitária e desumana, dominada por uma lógica de proeminência do capital em face das pessoas. No primeiro caso, estamos sob a alçada da política autárquica; no segundo não. No primeiro caso, é legítimo, positivo e necessário discutir caminhos para a sua superação no quadro da dinâmica autárquica; no segundo transcende-se o plano autárquico, o que induz a necessidade de se agir no quadro de instâncias nacionais ou europeias.

Quanto às insuficiências estruturais, há que apurar se cabem no poder auto regenerador da autarquia ou  se implicam deliberações da competência de entidades nacionais ou europeias. No primeiro caso, estamos perante um problema político autárquico, no outro não.

Imputar responsabilidades e discutir políticas que caibam na área das atribuições e competências legais das autarquias é um exercício natural da democracia. Criticar o poder autárquico por desvios e omissões inerentes a espaços políticos onde a competência é de outras entidades não faz sentido, podendo confundir-se com pura demagogia. Desenhar programas políticos para um município envolvendo medidas cuja competência cabe a outras entidades (nomeadamente, nacionais) é propaganda mistificatória e desonesta.

A distinção entre aquilo que cabe nas atribuições do município e aquilo que as transcende é tanto mais importante quanto estamos numa fase em que está em mutação profunda o leque de competências atribuídas aos municípios, o que é especialmente relevante em espaços municipais relativamente amplos e complexos como é o caso de Coimbra.

 

3. Uma das atitudes críticas mais frequentes radica-se na comparação de Coimbra com outras cidades, especialmente cidades de outros países, no plano das políticas autárquicas. Fazem-se por vezes comparações gerais, outras vezes propõe-se a aplicação aqui de políticas praticadas noutros lados. Se a comparação for além de uma mera alegação genérica, reprodutora de um simples impressionismo fruto de um senso comum turístico, estamos perante um exercício útil potencialmente fecundo.

São recomendáveis algumas precauções contextualizadoras. Em primeiro lugar, há que comparar o nível de desenvolvimento do nosso país com o dos países das cidades que se comparam com Coimbra. Depois, a qualidade do tecido económico-social das regiões circundantes. Por fim, o peso demográfico de cada um dos termos da comparação.

Tudo isso tem que ser ponderado para a plena fecundidade das comparações. Todas as cidades envolvidas têm uma história, percorreram uma trajetória geradora de uma identidade, o que impõe uma abordagem diacrónica. Não parece útil por isso procurarmos inserir na trajetória de Coimbra como prótese circunstancial uma ideia, uma medida, um projeto que tenham sido extraídos do seu lugar de origem, sem uma contextualização que aí os situe. Pelo contrário, o que se impõe é aproveitar as comparações como energia nova no percurso de Coimbra, intensificando-lhe o ritmo, ajustando-lhe a trajetória, melhorando o modo como caminhamos.

É desta cidade concreta, numa fase precisa da sua vida, da sua trajetória, que estamos a falar. Não se trata de trazer do nada uma cidade ideal, de implantar um sonho de cidade, por mais belo que ele seja, trata-se de interferir num devir específico, inscrevendo-nos numa trajetória de cidade que tem séculos. Não faz sentido esculpir com a nossa imaginação uma cidade nova virtual que esqueça a cidade que existe, que não esteja enraizada numa ambição irrestrita pela qualidade de vida dos munícipes concretos  que lhe dão vida. Os sonhos de imaginação do futuro são preciosos para darem viço à Coimbra que existe, rasgando novos horizontes no seu caminho, ajudando a suprir as suas incompletudes e a superar as suas mazelas. Mas dificilmente se pode conseguir isso, se não se tiver presente o que já se atingiu, os contornos do prestígio nacional e internacional já conseguido. Só será possível  atenuarmos os nossos defeitos e romper as nossas limitações, se transmitirmos energia às nossas qualidades, enriquecendo as nossas virtudes. Para isso não as podemos ignorar e muito menos enxovalhá-las, submergindo-as no paroxismo insalubre da propaganda política presa ao imediatismo estéril da sofreguidão de poder.

 

4. Todas as autarquias são realidades sociopolíticas dinâmicas inseridas num contexto nacional em permanente evolução num espaço europeu que ajuda a projetá-lo no mundo. Mas algumas delas em certos períodos atravessam fases onde convergem várias dinâmicas.

 Parece-me ser esse o caso de Coimbra. Para além da sua própria trajetória como município que envolve uma cidade histórica com energia futurante, incorpora uma universidade centenária com forte índice de internacionalização, apreciável relevância nos países da lusofonia animada pela ambição de inovar. Além disso, cabe-lhe objetivamente um papel irrenunciável numa dinâmica nacional de resistência a uma deriva de bipolaridade no desenvolvimento nacional que pode convertê-lo num destino aleijado em que duas grandes áreas metropolitanas desertificam indiretamente o resto do país e se autocongestionam insalubremente numa urbanização de pesadelo. Não deixa também de dispor de um especial protagonismo no campo da saúde o que na presente conjuntura terá necessariamente um apreciável relevo no caminho a percorrer.

Naturalmente que a relação sinérgica com a Universidade de Coimbra deve ser conjugada com a adequada valorização de outras instituições de ensino superior aqui radicadas, estimulando a instituição de um espaço diversificado de afirmação científica e tecnológica que possa cumprir uma tarefa decisiva na qualificação dos portugueses.

São estes alguns dos trilhos a percorrer por Coimbra para enriquecer como um todo a sua história projetando-a no futuro, para ser cada vez mais fiel ao melhor de si própria ao progredir numa cada vez mais intensa respiração do futuro e do mundo. E assim afirma uma irredutível identidade própria como um recurso de Portugal. Estes caminhos podem questionar-se na procura de alternativas mais fecundas, mas não podem anular-se substituindo-se por nada. Esses trilhos que não devem ser encarados como caminhos fechados num perfil antecipado ao detalhe, mas como grandes linhas de orientação; nítidas, mas a necessitarem de uma criatividade continuada que as vá materializando.

O debate em torno das grandes linhas de orientação e do modo como são materializadas é dos mais úteis e assumi-lo como tal qualifica muito a fisiologia democrática da autarquia, permitindo que as alternativas à atual gestão autárquica se identifiquem realmente, revelando a profundidade ou  vacuidade dos horizontes que proponham e mostrando as suas diferenças.

 

5. Parecem-me apropriadas duas observações finais. Como atrás se sublinhou, o município de Coimbra, como qualquer outro, move-se num espaço bem delimitado de atribuições e competências legalmente definidas que não pode transcender. Mas para além disso, o seu exercício tem também limites orçamentais aprovados por órgãos com essa competência que não podem ser excedidos.

Desse modo, quaisquer projetos, quaisquer planos têm que caber não só nas competências legais da autarquia mas também no seu orçamento. E o orçamento depende das receitas objetivamente previsíveis e não do arbítrio de quem quer que seja. Por isso, quaisquer projetos ou propostas que ignorem esses limites são simples expressões de uma demagogia gratuita. Assim, as críticas que assentem numa alegação de omissões para serem sérias têm que demonstrar a possibilidade delas serem colmatadas sem romper os limites orçamentais.

Uma outra observação tem a ver com o funcionamento da máquina administrativa autárquica que em Coimbra atinge uma dimensão e uma complexidade apreciáveis, as quais foram potenciadas pela expansão das competências que tem que exercer. É certo que essa máquina tem uma existência própria independente da direção política escolhida para a autarquia nas respetivas eleições. Mas é indispensável que essa direção política coordene e oriente politicamente toda a máquina administrativa materializando a escolha dos eleitores. Essa tarefa é um aspeto decisivo da gestão autárquica e assegurá-lo com proficiência é determinante para o bom funcionamento do município e assim para a qualidade de vida dos munícipes,

Por isso, a credibilidade das críticas a qualquer administração autárquica depende também da capacidade dos críticos darem sinais inequívocos de que serão capazes de responder a essa importantíssima vertente do quotidiano autárquico. Não lhes basta ostentar sonhos e horizontes de ambição, têm que mostrar credenciais que induzam confiança na sua capacidade de gerir competentemente no quotidiano o muito que já existe.

Tudo o que acabei de escrever projeta uma imagem clara dos pressupostos de um ambiente político menos insalubre consubstanciado num debate, certamente sem complacências, mas também sem crispações que degradem a convivialidade democrática e um diálogo político que induza sinergias e facilite alguns espaços de convergência. Dado o histórico dos últimos anos não será fácil, mas não é impossível.

 

 

 

segunda-feira, 1 de março de 2021

Leituras criativas de uma sondagem

 

  Leituras criativas de uma  sondagem

1. A parte do complexo mediático dominante que mais ou menos ostensivamente partilha com a direita o seu modo de encarar a realidade teve hoje uma notícia que lhe deu um pequeno alento. Um barómetro de opinião da Aximage revelou uma descida de 2,3% em comparação com o mês anterior nas intenções de voto no PS. Soube-lhes a pouco, dada a furiosa campanha que desenvolveram contra o governo, em consonância com a vozearia histérica dos partidos da direita. Mas para empalidecer um pouco mais a  alegria da matilha mediática, o PSD, ao descer uns irritantes 0,1 % quedou-se nus modestos 26,5% que o mantêm bem longe do PS (37,6%). O CDS manteve uns agonizantes 0,8% e até o irresistível Chega, em vez de subir, desceu de 7,7%  para  6,5%.Foi necessário a IL para salvar a honra do convento, ao subir 2,2 % para chegar a 5,7%.  Só em conjunto a direita podia esconder o quão esquálidos eram estes resultados para os seus objetivos.

Na verdade, embora em relação ao barómetro do mês anterior no seu todo tivesse apenas  subido de uns pífios 0,9 %, a descida de 2,3% do PS permitiu-lhe ter em conjunto uma percentagem de preferências superior em 1,9%  à do PS.

Estranhamente, esta magra vantagem destituída de qualquer significado prático foi o grande aspeto que ridiculamente quiseram extrair da sondagem os vozeadores correntes. Esqueciam assim grosseiramente os 14, 8% dos  outros três partidos de esquerda considerados na sondagem ( BE-7,7; CDU -5,8; Livre- 1,3), bem como os 4% do PAN.

2. Este exercício estéril, de mero aproveitamento mistificatório de uma sondagem, tem como efeito banalizar politicamente um pouco mais os neofascistas do Chega, ao considerá-los em conjunto com a direita democrática. Talvez porque sem eles a direita democrática penaria nuns frágeis 33% que a colocariam ainda mais longe de um governo seu, afinal  com a mesma percentagem que tinham alcançado em 2019.

Na verdade, contra os 52,4% do conjunto da esquerda de que valem os 39,6% do conjunto da direita? Em termos de um possível governo - nada.

A não ser que queiram ressuscitar o fantasma apagado em 2015: o sonho de que o PS se tiver menos votos do que a direita a deixará formar governo e governar. Sonho tolo! Convençam-se de uma vez por todas: se quiserem formar um governo democrático  de direita conquistem uma maioria parlamentar de direita.