quinta-feira, 26 de setembro de 2013

VALORIZAR COIMBRA - 2


Continuando a difundir o programa eleitoral da candidatura socialista ao município de Coimbra liderada  por Manuel Machado, Valorizar Coimbra, vou  hoje chamar a atenção para alguns excertos seus  que, a meu ver, identificam bem o essencial do que se pretende nos planos  da cultura, da economia social e da saúde.

O objectivo é o de "Abrir Coimbra ao Futuro". Para isso:  "Vamos percorrer, sob diversos ângulos, vários aspetos de uma cidade, cientes de que todos eles são importantes."


01. Uma cidade da cultura, das artes e do conhecimento
A UNESCO reconheceu a Universidade de Coimbra, a Alta e a Rua da Sofia como Património Mundial da Humanidade. Impõe-se assim a abertura de um novo espaço de intervenção da nossa autarquia. Em natural parceria com a Universidade, a Câmara Municipal tem um importante papel a desempenhar na consolidação da prestigiante imagem de Coimbra, agora mais fortemente projectada em todo o mundo.

Este novo impulso cultural, além de valer por si próprio, é um fator relevante para o reforço do turismo, alavanca determinante para o desenvolvimento económico de Coimbra. Para isso, há que robustecer o protagonismo cultural da cidade, valorizando a memória das realizações passadas e incentivando novas aventuras criativas. No teatro, na música, na literatura, nas artes de imagem, nas artes plásticas e em todas as outras artes performativas, Coimbra tem que ser acolhedora e estimulante. Será por isso positivo que se estabeleçam parcerias com os criadores e agentes locais, para a utilização sistemática dos espaços municipais, otimizando a sua gestão. E, neste mesmo registo, considera-se justificado o estímulo a todas as indústrias criativas.

Do mesmo modo, serão incentivadas as iniciativas populares no campo da cultura, valorizando-as como dignificação da vida dos seus protagonistas e como poderoso instrumento de formação e qualificação de novos públicos.

A um lugar de cultura nenhum conhecimento é estranho, pelo que Coimbra tem que procurar estimular e absorver todos os conhecimentos resultantes de toda a ciência que nela se cria, reforçando hábitos de reflexão e debate, estruturantes de um pensamento crítico. Há que incentivar eventos que espelhem todas as vertentes do saber, no plano literário, linguístico, artístico, do pensamento científico e da filosofia.

Apostaremos, assim, no reposicionamento de Coimbra na agenda cultural nacional e internacional, enquanto cidade do conhecimento, da criatividade e da cultura. Nesse sentido, criaremos novas plataformas de apresentação do trabalho artístico da região nos mercados internacionais e fomentaremos a colaboração artística com os países de língua portuguesa. Daremos primazia à criação de novos lugares de encontro entre criadores – de estéticas plurais e proveniências diversificadas – e um público diverso, inter-geracional, com diferentes origens.


02. Uma cidade solidária, mais justa e inclusiva
A indiferença quanto ao bem-estar dos habitantes de uma cidade despe-a de qualquer humanidade. Coimbra não comporta essa indiferença. Quer ser uma cidade solidária, para poder ser mais justa e inclusiva. Daí que, no cerne da nossa política, estejam inscritas a dignificação do trabalho, a promoção do emprego e o combate à pobreza.

 Não nos conformamos com a exclusão social, apostando no reforço da ação social, quer no plano municipal, quer no plano das freguesias.

Na área da Habitação Social, valorizaremos o trabalho de parceria com as Entidades implantadas nos Bairros (Associações, Comissões de Moradores e IPSS), procurando rentabilizar casas devolutas, como resposta habitacional a cidadãos com dificuldades.

Mas é urgente ir ainda mais longe, fazendo repercutir no plano autárquico a política de fomento da economia social que, no plano nacional, tem vindo a expressar-se através de novas instâncias e de novas regras jurídicas. É assim que, como medida concreta adequada à abertura de uma nova geração de políticas autárquicas de fomento da economia social, se propõe a criação de um Conselho Municipal para a Economia Social, capaz de projetar, no plano municipal, aquilo que significa no plano nacional o Conselho Nacional para a Economia Social. Poderá funcionar como instância política informal, como órgão de consulta da Câmara Municipal, enquanto não for criada uma Lei-quadro dos Conselhos Municipais para a Economia Social que o legalize. O seu âmbito corresponde ao que está hoje consagrado na lei, abrangendo, nomeadamente, todas as cooperativas, todas as IPSS, quase todas as fundações, vários tipos de associações e as entidades gestoras dos baldios.

Será igualmente provável que a partir dos Conselhos Municipais para a Economia Social se abra caminho a novas formas de cooperação e a novas sinergias entre as entidades de economia social situadas em cada freguesia, potenciando-se até, naturalmente, o envolvimento das correspondentes entidades autárquicas nesses processos.


03. Uma cidade da saúde
Coimbra afirmou-se como um polo importante na prestação de cuidados de saúde. No que nos competir, vamos cooperar com vista à continuidade e ao robustecimento dessa importância. Pugnaremos firmemente, ao lado dos nossos munícipes, pela efetividade do seu direito à saúde, cientes de que só um Serviço Nacional de Saúde de excelência o pode garantir.

Nesse sentido, sabendo como é decisivo garantir a elevada qualidade dos cuidados de saúde prestados a todos aqueles que para isso nos procuram, estamos disponíveis para uma cooperação sistemática com a Universidade de Coimbra e com instituições de saúde, para ser potenciada a afirmação internacional dos seus institutos e a difusão dos resultados dos seus projetos de investigação.

Esta iniciativa não contende com a necessidade de se conhecer o perfil de saúde do concelho, indispensável para se chegar a um verdadeiro Plano Municipal de Saúde, com uma afetação de recursos pactuada com o poder central, à luz das aspirações dos cidadãos e dos seus direitos. Daremos grande relevo à educação para a saúde e à promoção da saúde.

E se queremos ser uma cidade da saúde temos que procurar a excelência no que diz respeito à higiene pública, nomeadamente, dando prioridade à conclusão da rede de saneamento básico em todo o concelho e à limpeza dos espaços públicos.

Para nós, as questões da saúde são centrais. De facto, estamos cientes de que o SNS, uma das marcas identitárias do Partido Socialista, colocou Portugal nos primeiros lugares mundiais dos principais indicadores de saúde. E o que aqui for feito no campo da saúde terá repercussões relevantes muito para além do concelho."



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A VOCAÇÃO ÚLTIMA DO PSD E DO CDS.


Este candidato do PSD e do CDS, com louvável sinceridade, exprime de um modo certeiro a vocação última dos partidos que  atualmente nos  governam: transformar o nosso país num imenso cemitério. 

E, não duvidem, se os deixarmos é isso mesmo que farão!

VALORIZAR COIMBRA !

Valorizar Coimbra, é ambição da candidatura do Partido Socialista à Câmara Municipal de Coimbra encabeçada por Manuel Machado, a qual lidera um amplo leque de candidaturas a todas  as freguesias  do concelho e à Assembleia Municipal de Coimbra.

A ampla divulgação dos seus aspetos mais relevantes, ao longo das últimas semanas, permite-me que aqui apenas venha sublinhar alguns das partes do seu programa eleitoral , “Valorizar Coimbra” que se assume como uma estratégia nova e um compromisso de futuro.

Vou desdobrá-lo em três partes, publicando hoje a primeira.

O documento começa por situar politicamente a candidatura: Vamos liderar a Câmara Municipal de Coimbra, na vigência de um governo de direita, cuja duração não está nas nossas mãos. Dentro de uma Europa esquecida de si própria e do seu futuro, há em Portugal um governo em vias de promover uma verdadeira regressão civilizacional. Uma regressão que tem feito recuar a sociedade portuguesa para patamares de injustiça degradantes, os quais configuram uma verdadeira emergência social e ameaçam a coesão social, para além do que é comportável em democracia.

Por isso, os resultados destas eleições autárquicas significam muito mais do que o habitual. Se o governo puder cantar vitória, a sua fúria predatória aumentará; se for derrotado, sentir-se-á travado por uma verdadeira censura popular.

Em Coimbra, um dos municípios nacionalmente mais emblemáticos, todos sabemos, com base nas estimativas conhecidas, que ou será eleito como Presidente da Câmara o candidato do governo ou o candidato do PS. Se ganhar o candidato do governo, este irá usar essa vitória para nos agredir ainda mais. Se ganhar o candidato do PS, a penalização política do governo será grande, podendo contribuir para uma derrota nacional do governo que só poderá ser benéfica para todas as suas vítimas. Por isso, há nestas eleições uma dimensão nacional que muito as dramatiza e que nos dá uma vontade acrescida de as vencer.”

Segue-se uma síntese introdutória que dá uma ideia geral do tipo de caminho que irá ser percorrido na política autárquica  pela liderança socialista:

“ Coimbra é o nosso concelho. Tem como centro uma cidade lendária, cuja universalidade foi reconhecida pela comunidade internacional. Assim, só pode ter como desígnio um futuro digno do seu passado e enriquecedor da sua identidade. Lugar de sucessivas juventudes, inconformadas e rebeldes, vai aprender a gerar, cada vez melhor, um ambiente humanista e criativo.
Há de inscrever, por isso, no seu caminho o estimulante sonho de ser, cada vez mais, uma cidade do conhecimento. Na verdade, só assim pode dar o justo relevo ao facto de a sua imagem e a sua história estarem marcadas pela Universidade de Coimbra. É, por isso, um município muito especial, que precisa de valorizar o seu passado, caminhando com ousadia para o futuro.
Mas toda esta proximidade com os mais largos horizontes é fruto do trabalho e da sabedoria das pessoas concretas que aqui viveram e vivem. Por isso, encaramos o município de Coimbra como um processo de desenvolvimento específico, ambiental e socialmente sustentável, bem afastado de qualquer economicismo redutor. Integram o nosso projeto autárquico, quer o respeito pela biodiversidade e pela perenidade dos recursos naturais, quer a solidariedade social em todas as suas dimensões.
Como princípio ativo desse processo, valorizamos as suas potencialidades como cidade atrativa. Para isso, pugnamos por uma mudança profunda na sua atitude, quer para com os seus habitantes, quer para quem a procura para nela estudar ou trabalhar, quer para com os visitantes. Do mesmo modo, abriremos novas vias de captação de investimentos produtivos, incentivando-os e acolhendo-os amigavelmente. Essa mudança criará condições objetivas de estímulo à criatividade, ao talento e ao progresso do conhecimento, quer no plano individual, quer no plano coletivo. Paralelamente, incentivaremos os investimentos que melhor se coadunem com o nosso horizonte estratégico, sem prejuízo de uma nova aposta nos investimentos éticos e solidários. Só assim se estimulará um maior afluxo de juventude a Coimbra. Simetricamente, criaremos novas condições, para que a população sénior altamente qualificada que aqui vive interaja com a juventude numa sinergia sistemática, humanizante e fecunda.
A cidade acolhedora por que almejamos só o poderá ser verdadeiramente se assumir uma lógica efetivamente participativa que envolva os munícipes, como protagonistas ativos de um processo de desenvolvimento sustentável.
Mas esse processo não é uma aventura isolada. Pelo contrário, contamos com as vizinhanças geradoras de parcerias solidárias, materializadas em interações qualificantes, assentes na cooperação intermunicipal. E achamos positivo que o nosso município seja um parceiro ativo, em redes sucessivamente mais amplas. Desde os concelhos mais próximos até às cidades mais distantes situadas no centro do país, desde as cidades geminadas até quaisquer outras que connosco partilhem características ou desígnios, na região centro, na Europa ou no mundo, a todos daremos atenção, apostando em redes de cooperação, geradoras de um cosmopolitismo compatível com aquilo que somos.
Como qualquer outro município, não somos uma ilha fechada que escape ao cerco insalubre do actual governo. Um governo apostado em levar até ao extremo do desastre a sua agenda neoliberal, que castiga o povo, despreza os cidadãos, acentua as desigualdades, confisca o futuro, esquece a justiça, caminhando para um retrocesso civilizacional, insuportável e negro. Sofrendo o cerco e o garrote deste poder central, não nos conformamos com ele. Queremos ser um foco de resistência a essa deriva, ocupando no aparelho de Estado o lugar institucional que a Constituição nos garante, ao lado dos que aqui vivem.
Para tão exaltante empreendimento, esta candidatura conta com uma equipa de cidadãos com competências diversificadas e reconhecidas, há muito civicamente despertos, tecnicamente preparados e politicamente determinados a lutar por um concelho e uma cidade que correspondam às aspirações dos munícipes. E isso só poderá acontecer se abrirmos caminho à felicidade dos cidadãos, o que pressupõe uma cidade mais justa e acolhedora."



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

DOIS POETAS DESPEDEM-SE


Dois poetas saíram da vida. Um português: António Ramos Rosa. Outro colombiano: Álvaro Mutis. Caminham agora no bosque das palavras, talvez ouvindo ao vivo o novo som das musas. Talvez descansando da  agitação  das  sílabas que tanto os  possuíram. Vamos homenageá-los,   recordando de António Ramos Rosa , "Não posso adiar o amor para outro século"; de Álvaro Mutis, "Nocturno", numa tradução de Nuno Júdice.


Não posso adiar o amor para outro século









Nocturno


OLHAR PARA AS ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS






1.  As eleições autárquicas aproximam-se. Vão ser uma  importante prova de fogo para o atual governo. Se ele encontrar um ângulo de análise dos resultados que traduza algo de positivo para os partidos que o apoiam, vai usar o seu poder mediático para o tornar no único relevante. Mas a frágil expressão municipal do CDS faz com que o PSD seja o fator decisivo no êxito ou no fracasso do governo. Contudo esta proeminência não deve fazer esquecer que os dois partidos do Governo vão coligados em muitos municípios, o que, uma vez que quase todas as coligações são encabeçadas pelo PSD, vai fazer com que este tenha provavelmente mais presidências de câmara do que aquelas que teria se concorresse sempre sozinho.
Naturalmente que as modificações no xadrez político, suscitadas por estas  eleições também se vão repercutir nas oposições. O BE, condicionado pela sua inexpressiva implantação autárquica, diluiu-se em listas de independentes nalguns concelhos importantes, como é pelo menos o caso de Coimbra e de Braga. Fará certamente o balanço dos seus resultados, tendo em conta as duas vias que utilizou. Tudo indica que não conquistará qualquer nova presidência de câmara, faltando saber se conserva a única que já teve. Pode ostentar como êxitos o número de votos conseguidos e o número de eleitos, se for caso disso, mas o seu peso político nos resultados vai depender da medida em que  contribua para que  o PS perca presidências de câmara em benefício da direita.
O PCP vai procurar manter a sua implantação autárquica no Alentejo e na Grande Lisboa, sem deixar de tentar recuperar câmaras emblemáticas, antes perdidas para o PS, como é o caso de Beja e de Évora. O seu êxito vai medir-se pelo número e pela importância das presidências de câmaras conquistadas e perdidas. Se isso lhe convier, destacará também o número de votos obtido e o número de mandatos autárquicos. Provavelmente, o seu eventual êxito penalizará mais o PS do que o governo, no que diz respeito às presidências conquistadas.
O PS terá uma vitória expressiva se conquistar a presidência da Associação Nacional de Municípios. Dada a geografia eleitoral portuguesa e as coligações de direita existentes é uma vitória muito difícil para o PS, que aliás até já venceu politicamente as eleições autárquicas sem conseguir atingir esse patamar. Por isso, para o PS será uma vitória política a obtenção do maior número de votos, desde que vença num conjunto significativo de câmaras importantes. A imagem deste conjunto é uma imagem política e não estatística, mas poderíamos com alguma propriedade valorizar o conjunto das capitais de distrito e dos municípios com mais de cem mil habitantes.

2. Neste contexto, para o governo está  principalmente em causa o número de presidências que o PSD conquiste. Num segundo plano, o PSD valorizará também a sua relação de forças com o PS. Uma derrota conjugada com um bom resultado do PS será pior para o PSD do que se for acompanhado por um mau resultado do PS. Hipótese aliás  pouco provável, por implicar que no mesmo dia os eleitores punissem o PS numa parte do país e o premiassem na outra.
Note-se, que esse improvável comportamento eleitoral só poderia ter lugar em cerca de meia centena de municípios do Alentejo e da grande Lisboa. No resto do país, excluídos dois ou três casos de listas de independentes com hipóteses de disputar a vitória, só o PS ou o PSD (sozinho ou coligado) podem ganhar a presidência da câmara.
Por isso, em todos estes casos, um resultado eleitoral desagradável para os partidos do governo não o pode ser para o PS. Para desagradar ao PS, por perder presidências de câmara, tem que agradar ao governo, uma vez que, se o PS as perder, serão os partidos do governo quem as ganhará.

3. O PCP e o BE, com registos diversificados e intensidades variadas, têm apostado na ideia de que há que votar contra o governo e contra o PS. No atual mapa político português, como resulta do que atrás escrevi, esse é um caminho impossível. Os partidos do governo só serão vencidos, em termos de presidências de câmara conquistadas, à custa de uma vitória do PS; e o PS só será derrotado nesse plano à custa de uma vitória dos partidos do governo. Ignorar isto é ignorar a realidade. O que faz com que a luta do PCP e do BE contra o governo, nesta campanha eleitoral, esteja enredada numa contradição: ao colocarem o PS e o atual governo dentro do mesmo saco, anulam parte da energia que põem nos ataques ao governo; ao usarem  esse ângulo de combate estão a neutralizar à partida uma parte dos efeitos que poderiam produzir se atacassem o governo,  separando-o do PS.
Isto não é uma novidade. É um passo mais num caminho há muito trilhado. O senso comum já compreendeu que não haverá nenhuma alternativa de governo em Portugal  aos governos de direita, excluindo-se o PS. Não creio que as direções do PCP e do BE o ignorem, mas aceito que não tenham ainda encontrado um modo não muito doloroso de procederem a essa dramática conversão estratégica. Vão oscilando entre um mirífico governo de esquerda sem o PS e um velho sonho de mais de quarenta anos de dividir o PS em duas partes, uma das quais se lhes juntaria. Duas hipóteses suficientemente improváveis para não poderem servir de base a uma estratégia verosímil.  
Não quero com isto dizer que o PS nunca contribuiu, para dificultar uma conjugação de forças à esquerda, mas nesta campanha não há dúvida que tem concentrado nos partidos do governo o seu poder de fogo. Quanto às outras oposições, apenas tem respondido a alguns dos ataques recebidos; e, mesmo assim, esporádica e comedidamente.
Por outro lado, para além da conjugação das esquerdas, só  ele dentro da esquerda pode tentar repetir uma maioria absoluta no plano parlamentar, embora seja visível a grande dificuldade que isso comporta. Todavia, uma maior capacidade cooperativa no seio das esquerdas continua a ser um elemento da maior relevância para atenuar as sequelas do cerco a que qualquer governo de esquerda está sujeito num contexto capitalista. Disto, é irrealista fugir-se.
Já se vê assim que o combate do PCP e do BE contra o PS nestas eleições agrava um dos mais poderosos fatores de fragilidade da resistência popular à deriva neoliberal. Se esse combate fosse um aspeto de uma estratégia insurrecional que usasse as disputas eleitorais institucionais, apenas para reforçar politicamente as forças disponíveis para uma insurreição, eu estaria contra essa estratégia, mas compreenderia a sua lógica. Mas renunciar à via insurreccional  conservando os métodos, as atitudes, as avaliações e as crispações  que lhe corresponderiam é que me parece incongruente.

4. De facto, dizer que a direita e o PS são a mesma coisa, ou, não o dizendo, tratá-los politicamente como se o fossem, é dar à direita um imerecido descanso e alienar uma área política sem a qual não se vislumbra como provável  uma vitória eleitoral de qualquer bloco político que se oponha à direita. Mas dizê-lo em Portugal na vigência deste governo roça o absurdo, de tal modo ele se apurou a agravar tudo o que de desagradável possa ter resultado do anterior; e de tal modo inovou nas agressões aos cidadãos e se excedeu no aprofundar da desigualdade. Na verdade, só por puro sectarismo se não admite que o atual governo é qualitativamente diferente do anterior, para muito pior.
O combate ao neoliberalismo é uma luta política global. Tudo o que divida, enfraqueça, ou crispe entre si as áreas político-sociais por ele mais agredidas e por isso mais vocacionadas para o combaterem, é uma preciosa ajuda para os seus “cães de guarda”. Desse modo, em todos os combates políticos, por mais circunscritos que sejam, é importante, não só  o que em cada um deles estiver em causa, mas também o que ele significa como parte do combate global. As próximas eleições autárquicas não fogem a essa regra.
Para concluir, vale a pena lembrar que em plena ascensão do nazismo alemão, com razões alegadamente fortíssimas, o Partido Comunista Alemão adotou uma palavra de ordem, clara e enérgica: “enterrar o nazismo sobre o cadáver da social-democracia”. Atuaram em conformidade e o resultado é conhecido: os nazis enterraram os comunistas e os sociais-democratas.

Que essa memória dolorosa sirva, ao menos, para se evitar que as pequenas razões, por mais impressivas que sejam, nos afastem da razão, que a fixação do olhar no caminho de hoje nos faça esquecer o horizonte.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

SOLIDARIEDADE EUROPEIA

Duas observações:1) os nossos empresários capitalistas merecem bem que lhes baixem os impostos pelo patriotismo que os seus actos mostram tão bem; 2 ) as nossas empresas merecem bem que lhes baixem os impostos para contribuírem para o progresso de economia holandesa.

Pergunta inconveniente: que estranho mecanismo é este que leva a que as regras europeias permitam que os países ricos do norte, como a Holanda, suguem os países pobres do sul, como Portugal ?

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PENSAR A POLÍTICA

Eis uma entrevista de Marilena Chauí, que transcrevo da página web  da CartaCapital, a qual remete para o blog de Cynara de Menezes, Socialista Morena.Não é a primeira vez que dou voz  neste blog a esta importante filósofa política brasileira. Aliás, já foi possível ouvi-la em pessoa, mais do que uma vez, em Coimbra  em iniciativas do CES.

Neste tempo, em que um mediatismo em aceleração paroxísitca tenta cretinizar os cidadãos, impedindo-os de pensar politicamente a política, é um exercício mental muito salutar seguir a reflexão de quem olha para os grandes problemas do nosso tempo, sem concessões às vulgatas e sem complacência para com  o unidimensionalismo neoliberal. Mesmo quando não se concorda com ele , por completo, o seu pensamento exigente e caloroso estimula-nos e desafia-nos.

Por isso, da fonte acima mencionada, transcrevo uma notícia sobre um episódio em que Marilena Chauí foi protagonista e uma entrevista. 
1.
“Eu odeio a classe média!”, bradou a filósofa e professora da USP Marilena Chauí em uma palestra em maio, causando furor na direita e perplexidade em parte da esquerda. “A classe média é uma abominação política porque é fascista; é uma abominação ética porque é violenta; e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, completou. Confesso que eu mesma fiquei confusa com a afirmação. Não somos todos nós, progressistas, também classe média? Não seria uma generalização? Ou é apenas uma provocação?
O leitor João Paulo Martins, estudante de jornalismo na Cásper Líbero, fez uma entrevista com Marilena onde ela fala das manifestações pelo país, de Espinoza, do ENEM e também explica a que classe média se referia em sua diatribe. E diz mais: para Chaui, a tal “nova” classe média não é classe média coisa nenhuma, mas sim “uma nova classe trabalhadora”.
Eu ainda tô na dúvida. Concordo quando ela diz que “ideologicamente, vitoriosa é a classe média”, porque se refere a uma determinada linha de pensamento que, desafortunadamente, vem ganhando espaço no País –inclusive nesse “nova” classe ascendente que a filósofa diz que é a “trabalhadora”. Mas continuo achando que há várias classes médias e não apenas uma. Me digam o que vocês pensam.
***
2. 
[entrevista feita por João Paulo Martins]

Como a senhora analisa as manifestações que estão acontecendo pelo Brasil?
Marilena Chauí: Embora pareçam vários movimentos sociais dispersos, o importante é perceber que há alguns elementos unificadores. Existe um tema que eu denomino inferno urbano. O inferno urbano, em sua totalidade, significa a verticalização dos condomínios e shopping centers, o aumento demográfico e a expulsão dos moradores das regiões de exploração imobiliária para as periferias cada vez mais distantes. Complementando o inferno urbano, você tem o problema do transporte coletivo que é indecente, indigno e mortífero, além de a cidade ser construída privilegiando o veículo individual. Os culpados por este inferno urbano são as montadoras com a produção de carros, as empreiteiras responsáveis pela explosão imobiliária e os cartéis de transporte urbano que contribuíram para sua ineficácia. Disto tudo, podemos ver a luta pela moradia, pelo aluguel, pelo sistema viário da cidade, pela educação e pela saúde. Todas estas causas formam um movimento unificado contra a produção do inferno urbano.
Em contrapartida a este panorama, venho percebendo declarações de muitos jovens em defesa do apartidarismo e com um posicionamento radical contra a política. Eles acabaram aderindo à ideologia neoliberal das empresas de comunicação que desqualificam os partidos políticos porque querem ocupar o espaço público em seus lugares. Ver alguns segmentos de manifestantes se pronunciarem desta forma me preocupa muito, pois a situação dos partidos políticos minoritários no Brasil é a pior possível. Vivemos em uma sociedade conservadora que transformou os partidos políticos em clubes privados que operam por clientela, tutela e cooptação. Ainda de quebra, há o pacote Abril do general Golbery que monta o sistema partidário brasileiro e força a justiça eleitoral com um entulho autoritário através de campanhas de coalizão. Vejo todas estas questões como pautas de reformas políticas e motivos para manifestações populares. Ainda assim, apesar de dispersos, os movimentos têm tudo para se organizarem em um tema unificador. Sem isto, perde-se o saldo organizativo, fazendo com que eles se enfraqueçam.

Uma característica comum a estes movimentos é  a organização sem uma liderança específica. A senhora considera isto positivo?
M.C.: Sim. Você não precisa ter a forma tradicional de divisão entre lideranças e liderados. Esta hierarquia não precisa aparecer. Eu mesma participei de inúmeros movimentos sociais onde a forma  de organização era a autogestão. Operando desta maneira, você consegue um movimento muito mais libertário, sem a introdução de nenhuma diferença entre os participantes. É um equívoco pensar que a verticalização hierárquica traz eficácia aos movimentos. Em toda minha vida, os movimentos que vi chegarem mais longe e conseguirem mudanças importantes para suas épocas foram os organizados desta maneira, sem eleger uma liderança específica, o que democratiza a opinião dos integrantes.

Como a senhora analisa o posicionamento da mídia em relação às manifestações no Brasil?
M.C.: A atitude da mídia foi a esperada. No primeiro instante, ela criminalizou os movimentos pelo fato de terem sido oriundos da esquerda. Quando os movimentos passaram a ser divulgados pelas redes sociais, se tornaram de massa e o caráter de esquerda foi se diluindo entre as reivindicações populares. Então, ela passou a celebrar as manifestações e levá-las para o lado mais conservador e reacionário dentro da sociedade. A mídia detém quase um monopólio político em termos mundiais, exercendo o controle econômico de muitos setores através da propaganda. Sendo bem direta, eu diria: nada de novo no front.

Como a senhora analisa o panorama geral da educação brasileira nos últimos dez anos?
M.C.: Eu pontuaria como positivo do ponto de vista da democratização do acesso e da revalorização da escola pública em todos os níveis, mas problemática na questão das estruturas básicas educacionais. E isto não é por falta de recursos, mas sim por inabilidade em usá-los da maneira correta. Recuperar esta estrutura educacional após 20 anos de ditadura e 20 anos de políticas neoliberais não é uma tarefa fácil para o governo.

Sobre o ENEM, por que a senhora acha que a USP não aderiu ao exame até hoje?
M.C.: A decisão sobre a adesão ou não ao ENEM é tomada pelo conselho universitário da reitoria, que é majoritariamente ligada ao PSDB. Então, eu não diria que é uma ação imediata e direta do governo estadual para contrapor a proposta de democratização do ensino feita pelo governo federal, mas sim uma ação indireta de PSDBistas ligados à reitoria da USP, um fato deplorável no meu ponto de vista. Esta resistência por parte da USP me entristece muito. Sou muito cautelosa ao concordar que somos a vanguarda do ensino. Podemos até ser em algumas áreas, porém em outras eu diria que somos a pior retaguarda de todas, principalmente nas questões políticas que dizem respeito à democratização dos direitos humanos.

O Brasil conseguiu avanços significativos do ponto de vista econômico e social nestes últimos anos. De que maneira a senhora enxerga termos estes avanços por um lado, mas por outro observarmos uma intensa retração nos direitos humanos, como a liderança do deputado Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara e a presença massiva da bancada evangélica no Congresso?
M.C.: Isto acontece porque o governo conseguiu a hegemonia do ponto de vista das políticas sociais e dos movimentos sociais, mas não do ponto de vista ideológico. Ideologicamente, o que nós temos vitoriosa é a classe média. Do lado pentecostal, temos a Teologia da Prosperidade, e no que se relaciona ao conservadorismo típico, temos a ideologia do empreendedorismo. Isso significa uma visão da sociedade individualista, competitiva e sem as relações de solidariedade e cooperação. Fatos que estão ligados ao núcleo do pensamento da classe média: a ordem e a segurança. Em uma sociedade onde se deseja um progresso no sentido ideológico, a presença forte desta ideologia regressista é um empecilho tremendo. Por isto, ainda observamos estes absurdos como o projeto de “cura gay” e outros insultos aos direitos humanos. O entrave está aí: a hegemonia progressista não é total, e a ideologia prevalecente é a conservadora, que impede termos uma sociedade mais justa, solidária e humanitária, principalmente com as minorias sociais.

A senhora criou enorme polêmica ao atacar a classe média. Algumas críticas vieram inclusive de teóricos da própria esquerda. Gostaria que deixasse claro a qual classe média seus ataques se referiam: a que já era estabelecida como classe social ou a que entrou em ascensão após o governo do PT?
M.C.: Não acredito que os programas sociais do governo tenham criado uma nova classe média no Brasil. O que eles criaram foi uma nova classe trabalhadora. Ela é nova, pois foi criada nos quadros do neoliberalismo. A classe trabalhadora clássica no Brasil se tornou minoritária com o tempo. Isto tudo se deu pela fragmentação e precarização de seus serviços, juntamente à desarticulação de suas formas de identidade, resistência e luta. Então, as políticas governamentais originaram uma nova classe trabalhadora heterogênea, desorganizada e precária no sentido de não possuir um ideário pelo qual lutar. Esta nova classe trabalhadora é que absorve a ideologia da classe média: o individualismo, a competição, o sucesso a qualquer preço, o isolamento e o consumo. Sendo assim, não é que exista uma nova classe média, mas sim uma nova classe trabalhadora que é sugada pelos valores da classe média já estabelecida. A classe média estabelecida é a que sempre existiu. O que há de novo é o fato de ela ter crescido quantitativamente e do ponto de vista econômico, ou seja, ela vai mais vezes a Miami e à Disney por ter se tornado mais abonada. É justamente esta classe média estabelecida e poderosa que eu ataco, e não a nova classe trabalhadora criada nos quadros sociais do neoliberalismo.
O que distingue uma classe social da outra não é a renda ou a escolaridade. O que distingue uma classe social da outra é a maneira de ela se inserir no modo social de produção. Se você se insere como proprietário privado dos meios sociais de produção, você é capitalista. Se você é assalariado que vende sua força aos proprietários privados dos meios sociais de produção, você é proletário. Quando não se é nenhum dos dois, ocupando uma posição intermediária da pequena propriedade comercial, agrícola e das profissões liberais, você constitui a classe média. Esta classe média já estabelecida que é petulante, arrogante, ignorante e fascista. Ela é movida por um sonho de se tornar a burguesia detentora dos meios sociais de produção e possui um pavor de se tornar parte da classe trabalhadora. Porém, ela nunca se tornará esta burguesia, pois não entende o processo social para se tornar burguês, mas sustenta seu sonho através da ordem, da repressão e da segurança. Realmente a tal classe média é uma flor que não se cheira.

Analisando o panorama de mudanças sociais e políticas no mundo hoje, a senhora ainda concorda com a afirmativa de Espinoza de que a paz é uma virtude e, portanto, a guerra é um vício?
M.C.: A guerra não é um vício. A guerra é o que acontece quando você não tem a paz. Espinoza diz o seguinte: ‘A finalidade da vida política é fazer com que não haja nas pessoas medo nem insegurança’. Nós temos medo e insegurança porque não sabemos o que será do futuro. Mas quando eu tenho medo, este medo vem sempre acompanhado de esperança. Este jogo de medo do mal e esperança pelo bem faz com que Espinoza afirme sobre a finalidade da vida política em assegurar ao indivíduo a inexistência de receios para o futuro. E a política faz isto através do direito, do sistema de leis e instituições que me permitem acordar sabendo que se houver uma tragédia não ficarei desamparada. A guerra, por outro lado, é a reintrodução do medo. Ela repõe o medo como forma das relações sociais e destrói aquilo que é o núcleo da vida social e política. Eu diria que ela ainda é um vício desde este ponto de vista.

Em contrapartida, Espinoza diz o seguinte sobre a paz: ‘A paz é diferente da ausência de guerra’. A ausência de guerra não significa que você tem paz, significa que não estão explicitados conflitos violentos que poderão surgir a qualquer momento. A paz, portanto, é a afirmação de que a qualidade das instituições, direitos e leis garantem que estes conflitos podem existir sem que se destrua o corpo político da sociedade. Eles podem ser trabalhados, pois a paz –diferentemente da guerra–, não criminaliza os conflitos. Neste panorama que ainda permeia nossa sociedade, estou de acordo com esta afirmação, ainda que muitas instituições componentes do corpo político do Brasil e do mundo não assegurem necessariamente a paz às pessoas.

domingo, 4 de agosto de 2013

HOJE - um poema especial num dia especial


                                                                [ João de Deus ]

Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta-feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse…
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez  a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los, queira ou não queira!

 [ João de Deus ]

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

LARANJODUTO



Foi-lhe atribuído o papel de protagonista impoluto, a ele um pré-cavaquista que já liderou o PSD. Naquele jardim relvado, cheio de portas, portinhas e portinholas, deveria ser o ministro grave que faria esquecer os álvaros e os alvaríssimo, a tempestade albuquérquica e todas as outras sombras de gaspar que teimassem em persistir. Passearia pelos corredores solenes da Europa a sua patine americana, adquirida na Fundação adequada. Deixaria escapar subtilmente a sua pertença a um governo do bloco central, na penumbra dos últimos tempos do século passado. Enfim, por entre as prováveis traquinices da miudagem, passearia agora um senhor.

Mas, apesar das suas sombras, a luz crua do mediatismo não foge de algumas virtudes. Rapidamente, lançou o odor ácido da sua “podridão” sobre as navegações financeiras do vulto.
Alegou-se, num primeiro momento, uma vaga inocência, pontuada de altaneiros silêncios e refugiada na penumbra discreta do mundo dos negócios. Mas o demónio dos factos incómodos regressou no bojo da referida ”podridão” tão incrivelmente apostada em divulgar acontecimentos pouco recomendáveis. 







quinta-feira, 1 de agosto de 2013

RAPOSAS, RAPOSINHAS E RAPOSÕES

Uma deputada do BE, Ana Drago, usou a feliz metáfora de uma raposa numa capoeira, para se insurgir contra a nomeação para o actual Governo de um secretário de estado, que ao serviço da banca tentara vender, sem êxito,  swaps altamente tóxicos ao governo anterior.

Ele seria uma verdadeira raposa na capoeira dos dinheiros públicos. A sua conexão com a ministra albuquerca apenas nos obrigaria a ficar ainda mais alerta.

Fui pensando espantadamente  com os meus botões, porque razão os nossos iluminados três estarolas teriam deixado a galguista-mor do "reino" ser acompanhada de  tão amatreirada predadora.A resposta chegou com a súbita luz da evidência. Não foi por distracção ou incúria, que deixaram entrar uma raposa nos seus domínios. Realmente, todos eles, governo e presidência, são em si próprios uma autêntica  raposa, o arquétipo da raposa, o espírito da raposa.

 Em suma, estamos envolvidos numa autêntica uma raposada a que, para nosso mal, pouco pode já acrescentar um especialista em vender swaps. Ou seja, uma simples gota de raposice dificilmente pode agravar um  farto raposal. 

Pobre galinheiro!!

quarta-feira, 31 de julho de 2013

A MENTIRA TEM PERNA CURTA.

A ministra albuquerca recitou ontem na Assembleia da República um guião argumentativo cuidadosamente preparado por especialistas. O essencial da táctica seguida foi ocultar sob uma catadupa de considerações e informações técnicas o que estava realmente em causa. E o que estava realmente em causa, neste caso, quanto à ministra,  só indirectamente tinha a ver como a tarefa central da  Comissão Parlamentar. O que estava em causa no imediato era saber se a ministra tinha ou não mentido, sendo para esse efeito meramente instrumental o conteúdo do que disse.

Estava pois em causa  uma afirmação sua prestada na Comissão, através da qual expressamente disse que o anterior Governo não tinha dado qualquer informação sobre contratos "swaps” ao actual governo. Não foi uma afirmação desvalorizadora do tipo de informação recebida foi uma explícita alegação da sua completa ausência.

 Ora os próprios elementos factuais usados pela ministra na sua intervenção desmentem a veracidade dessa ausência. Ela adjectivou depreciativamente as informações recebidas, mas ao fazê-lo reconheceu implícita mas inequivocamente que as tinha recebido Tentar modular negativamente a qualidade da informação recebida, desvalorizando-a é, em si, um reconhecimento tácito de que, quando a ministra  alegou ausência de informação por parte do anterior governo, mentiu. Portanto, a alegadamente feliz prestação da ministra albuquerca na Comissão Parlamentar de ontem realmente não foi mais do que uma confissão, quiçá involuntária, de que realmente mentira aos deputados numa sessão anterior.


Aliás, se assim não fosse, não teria feito sentido um comunicado do ex-Ministro  Gaspar no qual, na sequência da mentira da ministra, se viu obrigado a vir a público desdizê-la, ao afirmar expressamente que ele próprio havia recebido informações sobre o assunto do anterior governo.

Apesar da grande lavagem mediática, sofregamente posta em prática pela máquina de propaganda do governo e pelos seus lacaios comunicacionais, ficou claro que na verdade a ministra mentiu. Todo o circo montado e toda a estratégia de ocultação desenvolvida servem para sublinhar o facto de não estarmos perante um deslize circunstancial próprio da inexperiência política de quem nele incorreu, mas perante uma mentira propositadamente dita para desacreditar falsamente um outro governo. Mostrando quão volátil é a sua ética, uma vez descoberta a albuquerca fugiu para diante, recusando-se a admitir a verdade da sua mentira e insistindo arrogantemente nas suas diatribes. O primeiro-ministro declarou-lhe apoio , mostrando assim quão hipócrita é o seu estender de mão ao PS, na conjuntura que atravessamos. De facto, estender melifluamente a mão a um partido e apoiar contra ele um comportamento tão rasteiro como o que a albuquerca teve não é uma linha política é uma hipocrisia militante. 

terça-feira, 30 de julho de 2013

PALHAÇOS ?


Um grupo de cidadãos, como acima se pode ver [entre os quais identifico um velho amigo], resolveu assistir a um debate  na Assembleia da República. Alguns deles, por misteriosas razões, resolveram reforçar o respectivo nariz com uma bola vermelha, semelhante às que alguns palhaços usam, por vezes, quando se divertem e nos divertem.

Uma revoada de polícias desabou de imediato sobre eles, arrancando-lhes os referidos apêndices. Apreciei a diligência dos "cívicos". Mas fiquei a pensar para com os meus botões.

Em que lei se basearam as policiais criaturas para tão celeremente arrancarem os suplementos de nariz a pacatos cidadãos ? Haverá nos parágrafos mais escondidos do regulamento da AR um preceito que proíba suplementos de nariz ? Todos os narizes, ou só os vermelhos? Só nas galerias ou também na sala do Plenário da AR ? Em caso afirmativo, a proibição estende-se ao Governo, ou apenas abrange os deputados ? Todo o Governo ou só os ministros mais histriónicos?

Interroguei-me também sobre o impulso enérgico que animou os polícias. Considerariam eles que uma tão inovadora forma de expressão só podia ser uma tentativa  de agressão ao Governo, o qual  para os policiais era o único  destinatário óbvio da imputação de palhaços?

É o que pode chamar efeito "boomerang", em termos simbólicos: ao atropelarem os direitos civis dos cidadãos com nariz vermelho, para defesa do Governo, os polícias mostraram que os únicos palhaços verosímeis presentes na AR eram os membros do Governo.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PIXORDICES 30 - a falsa desmentira


O PAPA VISTO POR LEONARDO BOFF.


“Este é o papa da ruptura” : é o título de uma entrevista feita a Leonardo Boff teólogo brasileiro e um dos mais altos expoentes da teologia da libertação. Foi publicado no site da Deutsche Welle /Brasil . Foi feita antes da ida do papa ao Brasil, publicada no passado dia 22 de julho, podendo agora ser confrontada com o modo como a visita  decorreu. A entrevista é mais um elemento para nos ajudar a compreender se há algo de potencialmente novo na Igreja Católica na esteira deste Papa. No caso português, apesar da marca conservadora predominante na hierarquia católica, não se pode deixar de valorizar tudo o que lhe diga respeito, tão significativa é a percentagem de portugueses que são católicos.  Se o novo Papa conduzir realmente a Igreja Católica para dentro dos explorados e oprimidos, se a tornar amiga dos pobres e realmente inimiga da pobreza, muita coisa poderá mudar na paisagem político-social do nosso país.
 Num pequeno texto que antecede a entrevista, Boff  é apresentado como , “um dos principais críticos do conservadorismo católico”, referindo-se que ele  “elogia Francisco, afirmando que ele começou uma reforma do papado e pode dar início a uma dinastia de papas de países do Terceiro Mundo.”
E prossegue : O papa Francisco vai inaugurar uma nova era para a Igreja Católica durante a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Essa é a convicção do teólogo Leonardo Boff, que em 1992 deixou todos os cargos na igreja, após ser censurado pelo Vaticano”.
E o texto de apresentação continua : Em entrevista à DW Brasil na sua casa em Petrópolis (RJ), o teólogo elogiou Francisco, afirmando que ele é o papa da ruptura. "Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade", avaliou Boff.
O teólogo, um dos expoentes da Teologia da Libertação, disse acreditar que Francisco vai falar sobre os recentes protestos no Brasil. "Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho."


DW Brasil: No Rio de Janeiro, mais de um milhão de fiéis católicos vão se reunir e celebrar a fé durante a Jornada Mundial da Juventude. No século 21, o cristianismo ainda precisa da figura de um papa?
Leonardo Boff: Fundamentalmente não precisaria de um papa. A igreja poderia se organizar numa vasta rede de comunidades. Mas, à medida em que a igreja foi se transformando numa instituição e assumindo uma função política no Império Romano, ela assumiu também os símbolos do poder: o próprio nome "papa", que era exclusivo dos imperadores, e aquela capinha cheia de ouro, que só os imperadores podiam usar, mas que os papas todos usavam. Então, esse curso de uma igreja que tem uma função política dentro do Império Romano em decadência obrigava a igreja a ter um centro de referência. Francisco, quando ofereceram a ele aquela capinha, disse "O carnaval acabou, não quero isso".
Então, esse papa chegou para mudar?
Eu acho que esse é o papa da ruptura. Essa é a palavra que Bento 16 e João Paulo 2º mais temiam. Eles acreditavam que a igreja tinha que ter continuidade, portanto o Concílio Vaticano Segundo não poderia significar ruptura com o Primeiro. Mas não, agora há uma ruptura, a figura do papa não é mais a clássica, é outra. Francisco não começou com a reforma da cúria, começou com a reforma do papado.
O que você quer dizer com "reforma do papado"?
Na Europa vivem só 24% dos católicos. Na América Latina são 62%, e o restante está na África e na Ásia. Então hoje, o cristianismo é uma religião do Terceiro Mundo, que um dia teve origem no Primeiro Mundo. Acho que o papa Francisco vai criar uma dinastia de papas do Terceiro Mundo. Além disso, as nossas igrejas já não são mais igrejas de espelho, imitando as europeias; são igrejas fonte, criaram suas tradições, têm os seus mártires, seus mestres, suas formas de celebrar, têm suas teologias e profetas e figuras importantes, como dom Hélder Câmara e Óscar Romero. Essas igrejas estão dando vitalidade ao cristianismo.
Por que o senhor está tão otimista? Os problemas da Igreja Católica continuam: a exclusão dos divorciados, a discriminação dos homossexuais, a proibição de mulheres-sacerdotes...
O papa deu um exemplo claro. Ele soube que um pároco em Roma negou o batismo ao filho de uma mulher solteira. E o papa disse: "Esse padre está errado, porque não existe mãe solteira. Existe mãe e filho. E ela tem o direito de ver o filho batizado, porque a igreja tem que ter as portas abertas, pouco importa a condição moral da pessoa". E ele foi mais fundo ao dizer que não se pode inventar um oitavo sacramento, proibindo os fiéis que não se enquadrem na disciplina eclesiástica de participar da vida da igreja e dos sacramentos. Até agora, os temas de moral sexual, de moral familiar, de celibato e de homossexualidade eram proibidos de serem discutidos. Se um teólogo ou um padre discutisse esse assunto, era logo censurado. Agora, ele vai permitir a discussão.
No Brasil, nas últimas semanas, milhares de jovens foram às ruas protestar contra os políticos corruptos e os altos investimentos nos estádios de futebol. Qual é o recado que o papa vai dar aos jovens?
Ele fez uma declaração corajosa em Roma, dizendo que os políticos têm que escutar os jovens na rua; que a causa dos jovens é legítima, justa e que estaria em conformidade com o evangelho. Eu acho que ele vai fazer uma convocação crítica aos políticos, para que eles não sejam mais corruptos e passem a servir mais ao povo. E vai fazer um desafio aos jovens de continuar a transformação da sociedade, mas sem violência. E aí exclui todos esses vândalos que nos últimos dias mostraram uma violência absolutamente injustificável e estúpida.
O senhor disse que os programas sociais no Brasil "incluíram uma Argentina inteira na sociedade brasileira". Por que então as pessoas protestam contra o governo brasileiro?
Curiosamente, elas não são contra o PT, a Dilma ou o Lula. Elas mostram uma insatisfação geral com o Brasil que temos, que é um país com profundas desigualdades. São 5.000 famílias brasileiras que controlam 43% de toda a riqueza nacional. Além disso, o próprio PT atingiu o seu teto. Ou ele muda e refaz a sua relação orgânica com os movimentos sociais, ou ele se transforma num partido como os demais, que buscam o poder e acabam se corrompendo.
A classe média brasileira parece não estar gostando tanto dos programas de inclusão social do governo brasileiro. Ela foi deixada de lado?
Com Lula, os ricos ficaram mais ricos, e os pobres saíram da pobreza. Todo mundo ganhou. Eu creio que o governo do PT não fez só uma distribuição de renda, favorecendo os pobres, mas também fez uma redistribuição. Tirando de quem tem e passando para quem não tem. Só que ele não aplicou isso às grandes fortunas. Ele tirou da classe média, que ficou mais pobre.
O senhor acredita que os políticos vão atender ao recado do papa na Jornada Mundial da Juventude?
Eu acho que ele vai ser muito importante para a América Latina, porque o modo de ser dele vai reforçar as novas democracias, que nasceram na resistência aos militares e estão fazendo boas políticas sociais para os pobres, com inclusão. Então, ele tem uma função política importante. A Cristina Kirchner, que vivia em polêmica com ele, entendeu a lição e fez as pazes. Mas por quê? Porque o papa move multidões. Talvez ninguém no mundo hoje possa reunir um milhão de pessoas. Político nenhum, nem mesmo o Obama.
Mas a Igreja Católica perdeu poder e influência?
Institucionalmente, a igreja no Brasil está numa profunda crise. Pelo número de católicos, deveríamos ter 100 mil padres. Temos 17 mil. Criou-se um vazio, pelo qual entraram as igrejas pentecostais. E com razão. Como o povo é religioso, quem vem falar de Deus, ele [o povo] adere, porque indo para Deus, podemos somar sempre. Para batismo, casamento e enterro, é a Igreja Católica. Para saber o outro lado do mundo, ele vai para o espiritismo. Para as questões de sorte e amor, ele vai num centro de macumba. O povo não tem uma visão doutrinária, tem uma visão prática. É um supermercado religioso, com muitos produtos, e o povo vai se servindo.
Com Francisco, a Teologia da Libertação vai voltar?
Com este papa, ela vai ganhar visibilidade. Antes se dizia que a Teologia da Libertação era uma teologia marxista. Agora se diz que ela é uma teologia católica. Isso muda a atmosfera da igreja.
[Autoria: Astrid Prange, do Rio de Janeiro
Edição: Alexandre Schossler ]


sábado, 27 de julho de 2013

DUAS PERGUNTAS SIMPLES

Uns estão determinados a destruir-nos, outros acham que não há outra solução que não seja a nos destruir. Os primeiros estão certos que só eles são rigorosos nessa lúgubre coragem. Os segundos consideram-se longe da malvadez dos primeiros, cobertos de generosidade e estão convencidos que não são cúmplices da destruição.


1. Se houvesse banco de réus para o julgamento deste crime só lá tinham lugar os primeiros?

2. Porque razão há-de o PS vergar-se perante aqueles  o querem destruir, para poderem destruir o país mais tranquilamente ?

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O IMBECILÉRIO CONTRA A BOLÍVIA.


É preciso determinar com especificação púbica quem foi o imbecil que fez  juntar o nome de Portugal ao lamentável episódio internacional de servilismo aos USA, dirigido contra o Presidente da República da Bolívia.
Não está em causa a consistência  das motivações  invocadas, evidentemente fúteis e alheias ao interesse nacional, dado que são inequivocamente insuficientes para justificarem a proibição de sobrevoo  de Portugal pelo avião presidencial boliviano. Esconder o servilismo político em face dos USA numa alegação de vagas e indetetáveis “razões técnicas” é apenas um agravamento da rasteirice cometida, pelo cobardia política que revela.
Sendo uma das raras áreas da politica externa portuguesa  que o governo PSD/CDS não  destroçou , a valorização da amizade ibero-americana, especialmente importante na atual conjuntura de crise, foi varrida num momento de excesso de zelo gratuito e idiota. É uma metáfora sugestiva da ligeireza política “portocoelhista” que tem assombrado Portugal.
Que tudo isso tenha sucedido à notícia de que os USA espiavam a União Europeia é apenas  um acréscimo de ridículo.
Que um governo francês de esquerda tenha alinhado  no dislate em causa é mais um motivo de melancolia.

Ficamos com vontade de dizer: sejam gente ! Dêem  pelo menos a  impressão de alguma verticalidade.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

SUBTRAÍRAM O GASPAR !

A Albuquerca, uma shuopa de eleição, foi erguida até ao cume do inefável colectivo que tem no governo arcado com a pesada tarefa de destruir Portugal. O Zé Povo, teimoso,  e o fantasma do Dom Afonso, de toledana em punho, têm resistido, tornando as coisas ainda mais  difíceis e o mérito  do actual ingoverno  desportuguês mais inquestionável . Reconheçamos que a perda do mais rápido licenciado da história portuguesa, o apressado Relvas, veio tornar mais frágil a artilharia mediática dos referidos “muchachos”. Substituíram-no por um brilhante currículo ambulante, a abarrotar de títulos autênticos e certificados, autor de afirmações de transcendente profundidade, conquanto feridas pelo ligeiro senão de nenhum mortal lhes descobrir uma qualquer importância, ainda que ligeira. Por isso, quando o autómato Gaspar cometeu a desequação  de se demitir do ingoverno desportuguês um perigoso sopro lírico assombrou a serenidade numérica da Gasparlândia. Por uma vez na vida, o homem tão habituado a subtrair-nos o nosso dinheiro subtraiu-se a si próprio da arena pública. Consta que vai ocupar num grande banco internacional a chefia do departamento dos modelos errados,  mas com forte aptidão de gerar lucros aos banqueiros à custa dos cidadãos.
Vozes inconvenientes já disseram que a Albuquerca, coberta de condecorações  por negócios ruinosos, não conseguiu chegar tão alto como  o bichano Gaspar. Ele e mais ninguém roubou ao versátil Portas o lugar mais junto de Coelho. A Albuquerca ficará com a pasta das finanças mas um enorme degrau abaixo de Portas.Tragédias no copo de água que alegadamente nos governa.

Por mim, tudo isto vai fazendo com que  o atual ingoverno desportuguês  vá deixando de ser um tema de política, mesmo quando baixa, para se transformar num filme de humor. Porém,
 atendendo aos estragos que faz na vida das pessoas: de humor negro.