quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Bacalhau à Jorginho, uma novidade política.





Foi um memorável fim-de-semana. O Sol escorreu com leveza pelas tardes, emprestando às faldas da Serra de Estrela a luminosidade fria dos Outonos suaves. O João Rui e a Fátima cercaram-nos com a arte de bem receber. Um presunto desafiador e uma fila de enchidos exuberantes abriram alas para a chegada de um arroz de cabidela que nos reduziu ao célebre silêncio do quando se come não se fala. Os doces podiam ter vindo de um convento que concentrasse a sabedoria das gulas discretas das freiras com o sabor a pecado.





A flexigurança, o futuro da Europa, a anemia do PS, a “bronquidão” das oposições, iam sendo acompanhadas com um tinto garboso e traiçoeiro que merecia claramente ser de Silgueiros, embora realmente o não fosse. A deriva neo-liberal, a fúria do ministro Gago contra as Universidades, a evanescência do BE, o “dinossaurismo recreativo” do PC, resistiam mal a um queijo da serra de primeira água que um néctar catalão ladeava com elegância.




A pedido daquela discreta parte de todos nós encarregada das digestões, passeámos tranquilamente por Figueiró. Visitámos a outra casa dos nossos anfitriões, aconchegada entre duas ruas estreitas, em vizinhança solidária com casas irmãs, evocando o carinho espontâneo das avós. Um frio ainda manso ia-nos recebendo pelas ruas, enquanto a tarde se despedia lentamente. Hospitaleiros, os beirões, aflorando aqui e ali, cumprimentavam cordialmente o pequeno destacamento de urbanos. Por minutos, o João Rui vestia a bonomia do João Semana e inteirava-se da saúde deste ou daquele. Cordialmente, a aldeia via-nos passar.




A Igreja, forte da sua talha dourada, exigiu fotografias. O Jorginho cometeu algumas. Por mim, lutei com denodo contra um telemóvel de última geração, carregando com sofreguidão em todos os botões. Mas a máquina, alérgica e mal habituada, resistiu. Fotos, nem uma. Já no remanso de Coimbra, descobri indignado que o que escasseara em fotografias sobrara num vídeo absolutamente indiscreto, que mostra isso mesmo: a minha luta inglória por fotografias que nunca apareceram.

Uma sopa abriu-nos amigavelmente a porta da noite, segura dos seus sabores naturais, orgulhosamente oriundos de Figueiró da Granja. Ainda entrelaçámos algumas conversas. Percorremos alarmados o PS de Coimbra, olhámos para o circo melancólico do PSD e murmurámos qualquer coisa de irrelevante a propósito do PP. Rompendo a custo o grão cerrado de uma televisão ancestral, Portugal e a Arménia entraram pela sala dentro. Seguindo à letra as instruções do Sr. Scollari torcemos galhardamente pela selecção. Foi consensual que sem o nosso vigor apoiante, dificilmente o Hugo Almeida tinha salvo Portugal. Chegou então “ O Meu Tio” ; e enquanto os menos resistentes deslizaram par o vale de lençóis, os mais noctívagos confraternizaram com o saboroso humor do Jacques Tati.

A noite adormeceu-nos, concedendo um frio perfeitamente aceitável. A manhã irrompeu gloriosa com um sol tonitruante a ecoar desde a Serra de Estrela até aos montes que com ela dialogam numa paisagem de urzes e granito. Madrugador, o Alberto, ia conhecendo um a um os vultos de Fornos de Algodres, por intermédio de um compêndio grave, tirado da biblioteca da casa. Os mais relapsos lutavam galhardamente contra a preguiça matinal.




Quando a tribo ficou completa, puseram-se as máquinas em movimento e rumou-se ao passado mais longínquo. Depositados no coração de uma aldeia perdida nos segredos dos montes, lá caminhámos esforçadamente à procura da Necrópole das Forcadas, para encontrarmos um monumento de tranquilidade, serenamente absorto no silêncio dos montes.




Serpenteando um pouco mais, por vales e serranias, eis-nos na Anta de Cortiçô, olhando o céu através das suas pedras e imaginando a robusta arte de as erguer. Estava ganha a manhã. As consciências autorizavam agora que se comesse o almoço.



Com o almoço, aliás, o fim-de-semana caminhava para o seu ápice. Já se preparavam os protagonistas, contidos mas pressurosos. O bacalhau espreguiçava-se numa assadeira de barro preto, deslizando em postas tranquilas. A broa esfarelava-se com profissionalismo e o azeite aguardava sem pressas. O João Rui exercitava uma sabedoria sem falhas na arte de bem aquecer um forno de lenha. Queria oferecê-lo, no seu melhor, ao alegado talento culinário do Jorginho.


Medindo os gestos, imaginando cheiros, cultivando a memória de suculentos sabores, o novo Grande Chefe era agora apenas um artista, um artista do barro preto, um expoente emergente da gastronomia portuguesa. Estava escrito: o Grande Chefe ia ousar um bacalhau com broa.

Entre gulosos e cépticos os convivas aguardavam, entremeando a espera com despreocupadas tarefas e rápidas leituras.



As morcelas e as chouriças chegaram de rompante num derradeiro momento de glória. Um vinho honesto e robusto acompanhou-as discretamente. No forno, o bacalhau seguia um roteiro rigoroso. Os anos 60 pairaram por um momento, para logo serem substituídos pelo PREC, pelos anos dourados de Abril. O desfilar épico dos grandes gestos foi traduzido numa memória suave e bem disposta. Algo de chocante estava em vias de se aproximar. O Alberto não escondia a solenidade do momento: o seu vice-presidente oscilava entre a glória de um bacalhau sem fronteiras e o feroz apupar de convivas frustrados.




A Ção garantia com a sua presença o mínimo de legalidade gastronómica. Num assomo de regionalismo a Fátima Garção elogiava a açorda alentejana, no que teve o meu apoio. A Fernanda preparando-se para a incerteza conseguira um relevante boné. A Fátima e o João Rui, como bons anfitriões encorajavam educadamente o Jorge, que, com uma cara para grandes dias, atravessava temente o último quarto de hora de forno.

Subitamente, à nossa frente, impante de vaidade estava o bacalhau com broa. Com o ritmo repousado das grandes ocasiões, o Grande Chefe delegou na Clara o encargo de servir uma tribo suspensa, que olhava para o barro preto recheado de bacalhau com uma inquietação visível. As postas foram sendo depositadas nos pratos, a broa sorrateira foi-se entremeando com o bacalhau. Um pouco de azeite espreitava aqui e ali.




Foi então que os garfos subiram numa viagem que pareceu eterna, até à boca. O bacalhau chegou assim de mansinho, mas sem hesitações. Por um momento, o Jorginho pareceu empalidecer, o João Rui quase corou de emoção. Houve um curto momento de um imenso silêncio. Um curto momento, quase eterno.


Foi então que num rompante de exacerbamento gastronómico uma exclamação varreu a mesa de ponta a ponta: o bacalhau estava soberbo! O sorriso do Jorge rasgou-se. Só então se atreveu a algumas palavras de modéstia, gabando o forno, exaltando a qualidade do bacalhau. De nada valeu, o grande triunfador fora encontrado. Era precisamente ele o Grande Chefe. Um tinto indignado e invejoso, a quem já ninguém dava atenção, assistiu impotente ao triunfo do bacalhau. Com broa diria qualquer camponês de boa cepa. Concebido e executado pelo Jorginho, diria qualquer jornalista competente.





E por falar nisso: se um esforçado, embora talentoso, aquecedor de chouriças e de peixes, mereceu a capa da revista Visão, levado em ombros como especialista da arte culinária, como se poderia explicar que um Cozinheiro em Chefe de tão alto gabarito, possa continuar escondido dos leitores? Nem a Confraria do Bacalhau o consentiria...

Flexigurança e reforma das leis laborais.









Ontem, decorreu no Auditório da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra um interessante colóquio sobre as alterações à legislação laboral e sobre a flexigurança. A iniciativa pertenceu ao CES da Fac. de Economia , ao IDET da Fac, de Direito. Os principais impulsionadores da iniciativa foram os Profs. Jorge Leite (FDUC/IDET) e António Casimiro Ferreira (FEUC/CES).
A conferência de abertura foi proferida pelo Prof. Bruto da Costa, da Comissão de Justiça e Paz e da Fac. de Teologia da Universidade Católica. Falaram depois três destacados especialistas em Direito de Trabalho: Prof. João Leal Amado (FDUC/IDET), Prof. Júlio Gomes (UCP) e Profª Regina Redinha (FDUP), que escalpelizaram os aspectos mais controversos da reforma das leis laborais em curso, com os quais articularam a problemática da flexigurança.
A primeira sessão da tarde foi aberta pelo Prof. Silva Lopes com uma intervenção dedicada ao enquadramento económico das questões em debate. Falou depois a Profª. Sara Falcão Casaca (ISEG/SOCIUS) que abordou alguns aspectos da vertente sociológica dos problemas em análise. O Prof. António Casimiro Ferreira (FEUC/CES) explicou com detalhe o sentido e o alcance do conceito de flexigurança, tornando claro o que ele tem de velho e de novo, bem como o que significa a sua aplicação prática para os patrões e para os trabalhadores.
Na Mesa Redonda de encerramento, moderada pelo Prof. Jorge Leite (FDUC/IDET), participaram representantes dos parceiros sociais (CGTP, UGT, CAP, CCP, CIP). As centrais sindicais fizeram-se representar, respectivamente, por Carvalho da Silva e João Proença.
Correspondendo ao interesse do tema e à qualidade dos participantes, o Auditório tinha uma boa assistência, tendo havido uma significativa participação nos debates.
Mencione-se a circunstância de os dois membros da Comissão de reforma das leis laborais que recentemente se demitiram da Comissão (Profs. Júlio Gomes e António Casimiro Ferreira) terem tido uma relevante participação no colóquio.
Predominou entre os oradores um forte cepticismo quanto ao sentido das alterações às leis laborais que se perfilam no horizonte. Foi mostrada surpresa perante o facto de o PS, que foi crítico do actual Código do Trabalho, por considerar que, em alguns aspectos, era lesivo dos interesses dos trabalhadores, em vez de rapidamente ter revogado os preceitos que criticara, quando estava na oposição, inventou uma Comissão que parece querer levá-lo a agravar ainda mais aquilo que, para ele, eram já antes os defeitos do Código.
Estranhou-se, aliás, que tenha escolhido uma Comissão para elaborar uma proposta de reforma das leis laborais na qual integrou representantes de todas os parceiros sociais e de um amplo leque de orientações políticas, tendo imposto como regra de decisão a unanimidade. Ou seja, quando não houvesse consenso não havia alterações. Se realmente assim aconteceu, até um aluno da 1ª classe perceberá que desse modo o mau Código dos governos de direita nunca seria melhorado em nada, por proposta desta comissão. Diga-se, no entanto, que o Governo e a maioria parlamentar estão muito longe de estar obrigados a conformarem-se com o parecer da Comissão. Recorde-se que, num caso semelhante, um outro governo socialista, o Governo Guterres, não seguiu a posição da Comissão do Livro Branco da Segurança Social.
Ao longo, de toda a sessão os únicos defensores da flexigurança foram os representantes das organizações patronais. Os sindicatos foram críticos, a CGTP mais fortemente.
Foi recordado o particularismo dinamarquês, sem ter sido esquecido que desde que implantaram a flexigurança os sociais-democratas dinamarqueses, que estavam no poder praticamente sem interrupção desde o fim da 2ª Guerra Mundial, nunca mais venceram as eleições legislativas.
Ficou claro que a flexigurança é uma designação nova de práticas antigas e uma tentativa de implantar de imediato as alterações que oneram os trabalhadores, sendo deixadas para depois as medidas compensatórias. Ou seja, a flexigurança perfila-se como uma manobra ideológica de propaganda e de anestesia social, para tentar minorar ou iludir a resistência dos trabalhadores a medidas que os prejudicam. Nas circunstâncias actuais de Portugal, parece ser mais um embrulho susceptível de disfarçar uma rendição quase incondicional aos interesses dos patrões do que uma verdadeira estratégia política de concertação.
Na verdade, foi salientado que para ser viável um tipo de equilíbrio compensatório entre as duas faces da flexigurança é indispensável um alto nível de desenvolvimento, um alto nível de educação e de cultura, uma elevada taxa de sindicalização e uma experiência prolongada de concertação social que suscite confiança entre os parceiros sociais. Todas estas condições, reunidas na Dinamarca, estão ausentes de Portugal, pelo que quem honestamente quisesse implantar a flexigurança em Portugal deveria primeiro percorrer o caminho necessário para que fossem alcançadas em Portugal condições próximas das que a Dinamarca preenchia, quando seguiu por esse caminho.
E não esqueçamos que a flexigurança sempre terá de ser no essencial um pacto social estratégico e prolongado entre sindicatos e associações patronais, responsabilizando-se o Governo pelas políticas de protecção social a ela inerentes. Nunca poderá ser uma política governamental imposta aos trabalhadores com o aplauso dos patrões.
Por mim, como militante do PS, saí deste colóquio bem mais preocupado do que para lá entrei. Mas ainda espero estar a ser demasiado pessimista, quando admito a hipótese de um Governo do PS vir a piorar leis laborais que a direita já antes estropiou gravemente. E piorá-las, ironia das ironias, com base numa fé inexplicável nos lugares comuns da vulgata economicista , deixando-se arrastar para uma espiral de medidas, cuja lógica mais funda é o regresso ao capitalismo selvagem, pela via sacra do neoliberalismo.
Estou a exagerar? Talvez... De facto, eu não duvido das boas intenções deste governo, no plano psicológico e no plano ético. Mas duvido, e muito, da utilidade para o povo português em geral, para os trabalhadores, para os excluídos, para o país, de qualquer política subordinada à vulgata neoliberal, mesmo travestida de ciência económica.

domingo, 11 de novembro de 2007

O Dr. Menezes é um tigre de papel!




Como poderia ter dito um dia o Comissário Barroso se já soubesse de tudo : "Luís Filipe Menezes é um tigre de papel !"


De facto, ao procurar mostrar como é realmente feroz a fazer oposição, tem-se reduzido a evidenciar uma irresistível falta de imaginação. E, porventura, a principal razão desta falta estará precisamente no facto de ter imaginado que do que ele mais precisava era de imaginação. Ora, como todos sabemos, nada mais fatal para o imaginar do que o esforço para o conseguir.

Por isso, em vez atacar o primeiro-ministro pelas escolhas básicas do governo, apenas o acusou de indelicadeza para com o leader parlamentar, dando dele a fraca impressão de ser alguém que precisa de um guarda-costas político e tendo que fingir que se esquecera dos rasteiros ataques que o seu Partido, liderado pelo actual leader parlamentar, fez ao actual chefe do Governo.

Mas quando se pensaria que, após essa escorregadela, regressaria o verdadeiro artista da contundência política, em vez de a grandeza de uma orquestra de farpas certeiras, saíram dois arrastados toques de trombone, pífios e ferrugentos.

Na verdade, o Dr. Menezes propõe-se fazer pactos com o Governo, nas áreas de governação que intui venham a ser mais prestigiantes, tendo assim sido obrigado a passar um implícito certificado de qualidade, pelos menos nessas áreas. Esqueceu-se que essa aparente ideia de águia, não era de facto mais do que um tique de pardal: ou seja, um acesso da velha ronha da direita que, quando está no poder, ostenta a legitimidade irrepartível da sua maioria, quando está na oposição propõe à esquerda que renuncie a tudo aquilo a que ela não renunciou, quando esteve no poder.

Por fim, depois de tonitroar as acusações habituais, esmagando o governo de lugares comuns, atirou a suprema farpa: "O governo está com medo do PSD!" E a plateia, saboreando já o PS a refugiar-se temeroso debaixo da mesa e Sócrates titubeante e inseguro olhando apavorado para a sombra do Dr. Menezes, explodiu numa revoada de aplausos. Crescendo para o seu destino o grande chefe abandonou o palco deliciado. Triunfara!

Mas o mundo cá fora, injusto, parecia desconhecer o triunfo. E, gulosamente, o Professor puxou da caderneta laranja, rapou num ápice do lápis vermelha e, zás, ferrou-lhe um sete.

Dizem que o Dr Menezes, quando soube, empalideceu, ligeiramente, mas com denodo enfrentou mais este ataque sulista de entre Cascais-e-Estoril.
Lá longe, o Presidente, olhando para o mundo do alto das suas Américas, sorriu discretamente para Sócrates e não se lembrou de ver o Dr. Menezes.

Indignado, o Dr. Santana Lopes ergueu-se. E bastou-lhe fazer um gesto largo, para que metade do seu grupo parlamentar aplaudisse de pé. Mas isso, já não teve importância.






sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Nova morte do General De Gaulle.




Morreu hoje, em Washington, o General De Gaulle. Matou-o um francês de estatura média, descendente de húngaros, deslumbrado com os ricos, há pouco eleito Presidente da França. Eleito à sombra de um Partido que o General inventou, quando, nos idos dos anos 50 do século passado, salvou a direita francesa.


Como ia dizendo, o irrequieto Presidente foi prestar vassalagem a Bush, dizendo, com o seu conhecido talento cénico, que ia conquistar o coração da América. Mas como podia ele querer conquistar o coração da América, através de um Presidente que já o perdera? Ora, como o irrequieto Presidente está muito longe de ser estúpido, certamente que o sabia. Portanto, provavelmente, apenas queria conquistar o coração de Bush. E foi, possivelmente isso, o que mais matou o General De Gaulle.


As discretas câmaras de televisão mostraram a lua de mel, numa vasta sala cheia de luxo, de luzes e de sorrisos. Discreto, com uma expressão beata de quem subiu ao céu, o Ministro Kouchner , ex-comunista que hoje oscila entre um cripto-socialismo difuso e um "sarkozysmo" de sacristia, partilhava a glória do momento. Esse expoente exuberante da social-moderacia à francesa entrava assim pela porta das traseiras da história. Mas entrava...


Entretanto, o coração da América continua a bater desordenadamente por qualquer coisa que não seja Bush. De facto, a "pax democratica" no Médio-Oriente, que o "Clube dos Mentirosos" prometera para seis meses depois do início da guerra no Iraque , continua a perder-se no nevoeiro das miragens. Por seu lado, a Europa ameaça transformar-se numa orquestra pífia sob a batuta de um Comissário que é membro do Clube ( Para alguns, é certo, ele não fazia parte da reunião. Apenas estava ali para servir os cafés. Mas , de uma maneira ou de outra, sempre ficou na fotografia.).


Em França, pouco entusiasmados com o "western " de Sarkozy, os estudantes protestam. E já outros se preparam para entrar na dança, entre desanimados e furiosos , cansados do paraíso dos outros e das dificuldades próprias. Sarkozy medita, enquanto faz "jogging" no Texas.


Entretanto, confirma-se. Não haverá cerimónias fúnebres, nesta morte do General De Gaulle. Mas o oráculo de Colombey já vaticinou que neste dia o que deve ser celebrado é um requiem pela direita francesa. Na verdade, se a esquerda escapar à louca oscilação entre o trinca-fortismo tonto e a social-moderacia sem horizontes, talvez a direita deva começar a temer. No imediato, é certo, vão chegar-lhe euforias e flores, mas o seu longe é uma nuvem negra. Um dia, talvez se leia na História que aqui começou o seu trágico "canto do cisne".


E, com a imagem do irrequieto Sarkozy a curvar-se perante Bush , o General agonizante disse: "Trouxe-vos para Londres. Voltaram para Vichy."

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Guitarras como tristeza



Numa velha página Web, dedicada ao Luis Cília, encontrei hoje uma referência a um poema meu, musicado e cantado por ele.
Tinha sido publicado na "Antologia de Poesia Universitária ", em 1964. Ouvi-o ser cantado, pela primeira vez, ainda antes do 25 de Abril, por intermédio de um disco chegado subterraneamente a Portugal. Que eu saiba, é o único poema meu que foi musicado. Talvez por isso e pelo seu registo de resistência, dou-lhe um particular valor afectivo.
Será por isso que me lembrei de o transcrever ?
O disco intitula-se :
"Portugal-Angola - Chants de Lutte"


O poema :
"Guitarras como tristeza"

Guitarras como tristeza
Não tocam
Fazem lembrar.

Trazem nas suas mensagens
Histórias dum povo exilado
Nas suas próprias cidades.
Trazem canções como mágoas
Invernos da Liberdade.

Guitarras muitas das vezes
São almas feitas de vento
Que de tragédias cantassem.

Guitarras vozes do povo,
Mensagens, sabor de exílio.

Velasquez





O meu fraco ânimo deambulatório faz de mim um viajante de poucas viagens. Por isso, só uma vez me foi dado andar pelo Museu do Prado. Dizem jornais de hoje que um dos quadros mais célebres de Velasquez ("A Vénus do Espelho"), habitualmente a residir em Londres, vai ali estar de visita, por algum tempo.


Ocasião para me recordar do júbilo tranquilo daquelas horas de peregrinação por tantos quadros, antes apenas espreitados em reproduções ou filmes, que atingiu o seu auge, quando "As meninas" ficaram na minha frente. Olhara para elas dezenas de vezes, em reproduções, mas agoram estavam ali elas, as próprias. E isso era realmente uma outra coisa, era decisivo.




Todas aquelas sombras, eram afinal de uma luminosidade imponente. E os personagens, esculpidos com subtileza, desempenhavam um papel que ia muito para além da tela, muito para além deles. No centro, como se o mundo se concentrasse na sua fragilidade serena e firme, uma das meninas, o centro político de um futuro que se advinhava na subtil textura dos tecidos, na fisionomia suspensa das pessoas. E lá atrás, sombras por detrás de um espelho, os pais da princesa, talvez velando, talvez antecipando o futuro, que ali se esboçava naquela teia de silêncios, densos e contidos.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O essencial de Santana Lopes no debate de hoje



Este menino tirou-me um rebuçado!!

O debate do Orçamento.




Eu é que sou o presidente da junta!!

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Argentina, as eleições e o peronismo







Na excelente revista brasileira CartaCapital, já antes citada neste blog, foi publicado um esclarecedor comentário às eleições argentinas recentemente realizadas, intitulado “Reeleição à argentina” e assinado por Antonio Luiz M. C. Costa.

O texto começa por desvalorizar a importância das diferenças que possam existir entre o casal Kirchner, destacando o que considera politicamente relevante, ou seja, a continuidade entre o actual Presidente e a Presidente eleita. E esclarece: “se o marido não tentou a reeleição, permitida pela Constituição, foi para tentar ficar ainda mais tempo no poder. Dado o personalismo, a volatilidade e o oportunismo da atual política argentina, um segundo e final mandato, logo o reduziria a um “pato manco”. A base de apoio no Congresso se dispersaria entre rivais a disputar a sucessão cada vez mais abertamente. Ou se desperdiçaria capital político em uma luta inglória, de resultado duvidoso, por uma emenda que permitisse o terceiro mandato.
A solução é esse revezamento, que seria difícil de aplicar fora da tradição argentina de matrimonialismo político. A partir de Evita, esperou-se de uma primeira-dama peronista a postura de uma liderança política que, ao mesmo tempo, deve ser unha e carne com o marido. Agora, Néstor não só pode “voltar” em 2011, sem nunca ter saído, como também pode se dedicar desde já, em tempo integral, a construir uma base partidária sólida e duradoura, coisa inexistente no país desde que a conversibilidade arrastou, no colapso, o tradicional bipartidarismo”.

De facto, a crise que antecedeu a vitória de Nestor Kirchner, em 2003, destroçou a União Cívica Radical (UCR,) e fragmentou ainda mais o Partido Justicialista de obediência peronista. De facto, dos quatro candidatos mais votados nas recentes eleições , o 1º, o 3º e o 4º, representam antigas facções do peronismo. Assim, os três candidatos de raiz peronista − Cristina Kirchner ( 45%), Roberto Lavagna ( 17%) e Alberto Rodríguez Saá ( 8%) − se pudessem juntar as suas forças teriam atingido os 70% dos votos expressos. A única candidata não peronista que conseguiu alguma expressão, foi Cristina foi Elisa Carrió, que ficou em segundo lugar, com 23%, à frente de uma “Aliança por uma República de Iguais (ARI)”, que é uma dissidência da UCR.

E o artigo citado acrescenta: “ela conquistou a maioria das classes médias e, portanto, da capital, cujos subúrbios pobres constituem municípios separados. Seu partido terá a segunda maior bancada da Câmara, com 35 cadeiras”. O candidato apoiado pelo carismático e conservador Prefeito de Buenos Aires, Maurício Macri, não passou do 1,5%, mas o candidato ao governo do Estado de Buenos Aires, em consonância com os Kirchner, ganhou com mais de 60% dos votos.

Comparando o que se passa na Argentina com a conjuntura brasileira, prossegue A. L. Costa : “sinal de que os Kirchner, como Lula, não contam com a simpatia da maior parte das elites de seu país. Mas também de que esse setor está ainda mais perplexo que seu equivalente brasileiro, pois foi o mesmo que pôs o conservador Macri na prefeitura. É quase como votar em Alckmin para governador e Heloísa Helena para presidente.
Também como no Brasil, o emprego se recuperou, mas principalmente para as camadas de baixa renda, e os pobres recebem auxílios comparáveis ao Bolsa Família. Por outro lado, Cristina conta com uma maioria bem mais confortável: kirchneristas e aliados ficarão com 153 das 257 cadeiras da Câmara e 44 das 72 do Senado.
Esse é o cenário político no qual os Kirchner governarão e tentarão criar um novo sistema partidário”.

Comenta-se depois a vertente económica dos problemas que se colocam ao novo governo, percebendo-se que tem pela frente uma equação complexa, onde intervêm o Brasil, a Venezuela e o próprio Chile, mas de onde está ausente a sombra de um qualquer Império, que possa ditar leis e distribuir anátemas. Se as esquerdas que estão no poder na América latina , souberem conjugar as suas óbvias diferenças com uma sólida solidariedade frente às tentações hegemónicas do Império, terão entrado num patamar de independência verdadeiramente precioso.

E no plano interno ? “No cenário interno − conclui o texto que temos vindo a seguir − os Kirchner precisarão, muito em breve, tomar medidas mais eficazes para lidar com a inflação. As práticas de congelar tarifas, controlar preços, maquiar índices e convidar o povo a boicotar produtos em alta estão chegando a seus limites.
As soluções, porém, não serão necessariamente de molde a melhorar o humor da classe média. Já pressionada pela alta das mensalidades das escolas particulares e dos planos de saúde privados, provavelmente terão de absorver a maior parte do reajuste das tarifas públicas congeladas desde janeiro de 2002, do qual os setores mais pobres deverão ser protegidos, pois são os aliados dos quais o casal mais necessita para governar”.

Recordemos que, nas eleições de 11de Março de 1973, que puseram termo a uma ditadura militar, os peronistas representados por Hector Câmpora obtiveram 49% dos votos e os radicais com Ricardo Balbín conseguiram 21%. Passaram-se quase 35 anos, mas, atravessando uma enorme variedade de vicissitudes ( algumas bem dramáticas), o peronismo tem-se conseguido perpetuar. Mérito de raízes que se tenham gravado no povo argentino ou a força subtil de uma heterogeneidade quase sem limites?

sábado, 3 de novembro de 2007

Clubes Políticos de Esquerda em França





A revista francesa Marianne publicou um comentário detalhado sobre a eclosão em França de um surto de iniciativas tendentes a fundar ou a reanimar clubes políticos no seio da esquerda. Retoma-se assim uma tradição que vem de longe. Recorde-se, por exemplo, como foi importante a participação de clubes políticos socialistas na refundação do PSF, liderada por François Miterrand em 1971, no Congresso d’Épinay.
Como se diz na Marianne, trata-se de constituir o que poderão vir a ser verdadeiros “think tanks” que ganhem peso na oposição republicana a Sarkozy. Da lista fornecida pela citada revista, destacamos os seguintes clubes :

1. « Gagner en 2012 »

Orientation : PS Avec : Guillaume Bachelay (qui prendra, à la rentrée, la place de Laurent Fabius au bureau national du PS), Laurent Baumel (responsable national aux études du PS, proche de Dominique Strauss-Kahn) Objectifs : rédéfinir les valeurs de la gauche, dépasser les points de clivage qui ont divisé les socialistes et inventer de nouvelles façons de militer. Site Web : http://www.gagner-2012.net/
2. « La Forge »

Orientation : PS Avec : Benoît Hamon (député européen, secrétaire national à l'Europe du PS) et « des intellectuels, des politiques, des responsables syndicaux… » Objectifs : « répondre à l'agenda du gouvernement par un harcèlement culturel contre les présupposés libéraux ». Ouverture prévue : à la rentrée

3. « Agir pour l'égalité XXème »

Orientation : PS Avec : Michel Charzat (maire PS du XXème arrondissement de Paris), Laurent Fabius Objectifs : « participer activement à la refondation de la gauche, pour que la gauche cesse d'être une anti-droite et propose des alternatives crédibles ».

4. « Gauche avenir »

Orientation : PS-PCF Avec : Marie-Noëlle Liennemann (députée européenne PS), Francis Wurtz (député européen PCF), Claude Cabanes (journaliste à l'Humanité), Gilles Candar (historien) Objectifs : « reprendre pour la gauche française le combat des idées et offrir une perspective culturelle, voire civilisationnelle ». Site Web : http://www.gaucheavenir.org/

5. « Maintenant, à gauche ! »

Orientation : PCF-LCR : Avec : Clémentine Autain (apparentée PCF), Christian Piquet (LCR courant minoritaire) Objectifs : rapprocher « altermondialistes, communistes, militants de la gauche radicale, écologistes, syndicalistes, féministes, républicains de gauche » afin de conquérir une « majorité à gauche » ,« hors de toute ambiguïté sociale-libérale ». Site Web : http://www.maintenantagauche.org/

6. « Mémoire des luttes »

Orientation : « think tank de la gauche radicale de gouvernement » Avec : Bernard Cassen (Attac), Ignacio Ramonet (Le Monde diplomatique) Objectifs : « Redéfinir un socle idéologique à opposer au projet néolibéral, comme à ses variantes sociales-libérales dans la perspective de la conduite d'une action gouvernementale ». L'association Mémoire des luttes, créée en 2000 et jusqu'ici en sommeil, se réactive dans le cadre d'une collaboration avec la revue Utopie critique. Site Web : à venir

6. « Pour la République sociale »

Orientation : PS-PCF Avec : Jean-Luc Mélenchon (sénateur PS) Objectifs : « Refonder une alternative de gauche à la domination matérielle et culturelle du capitalisme de notre époque » et fonder un Linkspartei à la française, sur le modèle du parti dirigé par Oskar Lafontaine, rassemblant des socialistes, des communistes et des altermondialistes. Site : http://www.pourlarepubliquesociale.org/

7. « La République des idées »

Orientation : social-démocrate Avec : Pierre Rosanvallon (professeur au collège de France, co-créateur avec François Furet de la Fondation Saint-Simon dissoute en 1999) Objectifs : constituer un atelier intellectuel pour « faire avancer l'idée d'une modernisation politique » dans une « logique d'échange et de confrontations d'idées neuves » avec une large capacité de diffusion. La République des idées publie des essais dans la collection éponyme, au Seuil, qui rencontre un franc succès. Site Web : http://www.repid.com/

8 . « Fondation Res Publica »

Orientation : République, mondialisation, dialogue des civilisations et des nations Avec : Jean-Pierre Chevènement Objectifs : constituer un réservoir d'idées pour nourrir les politiques publiques à long terme. Reconnue d'utilité publique en décembre 2005, la Fondation Res Publica a déjà organisé plus de vingt colloques. Plus de 10 colloques sont déjà programmés à partir de la rentrée. La Fondation Res Publica parraine des ouvrages dans la collection « L'idée républicaine » aux éditions Fayard. Site web : http://www.fondation-res-publica.org/

9. « Fondation Copernic »

Orientation : PCF-LCR-altermondialiste Avec : Évelyne Sire-Marin (magistrate, syndicaliste) et Yves Salesse (Haut-fonctionnaire) Objectifs : donner des outils intellectuels à « toutes les organisations politiques, syndicales et associatives ainsi qu'à toutes celles et tous ceux qui ne se résignent pas à l'ordre néo-libéral » pour « remettre à l'endroit tout ce que le libéralisme fait fonctionner à l'envers ». La Fondation Copernic publie ses notes aux éditions Syllepses. Site Web : http://www.fondation-copernic.org/

10. « Politique Autrement »

Orientation : « Politique Autrement » souhaite se placer en dehors des clivages partisans, tout en précisant que ses intervenants « excluent tout extrémisme de droite comme de gauche, toute politique ne respectant pas l'autonomie de la société et des individus. » Avec : Jean-Pierre Le Goff, président de « Politique Autrement », philosophe et sociologue. Objectifs : Réfléchir aux conditions d'un renouveau de la démocratie et de la citoyenneté dans les sociétés développées. Site Web : http://www.politique-autrement.org/

Aeroporto no Rio de Janeiro


Este é que é o Aeroporto Santos Dumont, embora num dia cinzento.

Europa de costas voltadas à regulação





Com a devida vénia, transcrevo a entrevista que os meus colegas Júlio Mota e Margarida Antunes deram ao Diário de Coimbra, onde hoje foi publicada.
Ela vale por si, pelo modo simples e clarificador, usado na abordagem de temas da maior relevância para a vida dos cidadãos e que tanto afligem muitos deles.
Mas tem uma importância acrescida, por ser uma espécie de alerta para uma realização que decorrerá na FEUC, na próxima 2ª feira, dia 5 de Novembro e que se insere numa série de iniciativas sobre temas da mesma natureza, que tem vindo a decorrer na FEUC, sob a responsabilidade da mesma equipa.
Não quero deixar de elogiar a atenção competente que o Diário de Coimbra tem vindo a dar a estas iniciativas.


“Europa de costas voltadas à regulação”

Deslocalização de empresas discutida em Coimbra

O desinvestimento das empresas nos países desenvolvidos lança trabalhadores no desemprego e alimenta trabalho precário sob a quase passividade das instituições comunitárias, alertam os docentes da FEUC, segundo Margarida Antunes e Júlio Mota. Para estes, a escolha de ausência de política, ela mesma também política, é a principal responsável.

Entrevista conduzida por CATARINA PRELHAZ


Diário de Coimbra (DC) – As empresas estão a fugir de Portugal e da Europa?

Margarida Antunes (MA) – É um fenómeno bastante difícil de avaliar, desde logo porque há muitas definições. A mais completa que conheço é dada num documento da Assembleia Nacional Francesa que considera que ocorre uma deslocalização, quando uma empresa renuncia a manter, desenvolver ou criar actividades no seu próprio país e passa a produzir ou a subcontratar num país estrangeiro, para exportar para o país de origem ou para mercados de exportação já existentes ou potenciais.

DC – Há números?

MA – Há países que têm indicadores, como a França, que entre 1995 e 2001 perdeu por ano 13.500 empregos devido a deslocalizações. Na Europa, o sector têxtil-vestuário perdeu em nove anos 750 mil postos de trabalho.

DC – E em Portugal?

MA – Não se consegue dizer com clareza; sabemos que em Portugal o sector têxtil tem um peso económico relevante, sendo clara a pressão a que este sector tem estado a ser sujeito. Mas a análise do fenómeno é complexa.
É preciso também ter presente a ideia de perda potencial, isto é, de empregos que se deixam de criar no país, porque se opta por investir no estrangeiro. São as chamadas não localizações.

Júlio Mota (JM) – E há relocalizações, porque o tempo de permanência de uma empresa num dado país é, em geral, muito curto. Se supusermos que há dez mil postos de trabalho deslocalizados, pode haver outros dez mil que podem ser relocalizados no país de origem. Contudo, ainda que fosse assim, não se trata exactamente dos mesmos empregos, o que significa tensões no mercado de trabalho, que está cada vez menos protegido. Mas o que acontece é que as empresas que voltam ao país de origem precisam de menos 30 ou 40 por cento de mão-de-obra, por causa de desenvolvimentos tecnológicos, como a robotização. Há até deslocalizações no local: ou seja, sem sair do país, a empresa vai buscar recursos e mão-de-obra ao estrangeiro, sendo então o seu próprio país apenas o espaço onde ela se instala. Por exemplo, é o que se tem passado no sector da construção naval, em França. Em paralelo, uma mesma empresa que tenha unidades de produção em três ou quatro países, produzindo os mesmos produtos, pode colocar todos os seus trabalhadores, portanto independentemente do país onde estejam a trabalhar, a concorrerem entre si para manterem os seus postos de trabalho, de modo a conseguir reduzir os custos salariais.

MA – Alguns autores estimam que a longo prazo há efeitos de compensação. Mas o que é o longo prazo? Um efeito eventualmente positivo não conforta os trabalhadores que no curto prazo ficaram sem emprego. Esses autores dizem que há efeitos de compensação porque a deslocalização faz com que a empresa diminua os seus custos de produção e aumente os lucros, os quais vão ser investidos no país de origem. Portanto, haveria um ganho para este país. Mas isto está longe de ocorrer. E
mais, por vezes nem sequer há descida dos preços para o consumidor, porque o objectivo da deslocalização é reduzir custos para aumentar os lucros.

JM – Mesmo se os preços baixassem, poderíamos até assumir que as famílias estariam mais ricas. Ora, isso não é verdade. Primeiro, porque o desemprego tem um custo social que não é de forma alguma superável. Por outro lado, temos uma sociedade cada vez mais dual: uns têm cada vez mais poder de compra e outros cada vez menos, apesar dos preços diminuírem.

DC – Porquê?

JM – Porque os trabalhadores que perdem um emprego com a deslocalização de uma empresa ou não encontram um novo emprego ou no caso de o encontrarem, sujeitam-se a reduções salariais, algumas significativas. As pessoas aceitam porque não têm outra hipótese e porque os Estados se demitem cada vez mais da protecção do emprego e de políticas que assegurem estabilidade nos rendimentos dos agregados familiares. Em alternativa, o sistema inventou um esquema diabólico: o endividamento como forma de acelerar a procura.

DC – Diabólico?

JM – O sistema cria desemprego e as pessoas precisam de trabalhar e aceitam que os salários diminuam. Mas este sistema só sobrevive se existir procura. Então, incentiva o endividamento para que as pessoas tenham poder de compra. Foge-se de crise em crise, ao mesmo tempo que o Estado se demite e aponta como saída a flexigurança.

DC – O que é afinal a flexigurança?

MA – É um “modelo” triangular: num vértice, temos a facilitação dos despedimentos; noutro, um regime de subsídios de desemprego mais generoso; e no terceiro, políticas de emprego e requalificação numa lógica
de formação ao longo da vida. Na Dinamarca, os desempregados têm direito a subsídio durante um período que pode ir até quatro anos, perfazendo nalguns casos até 90 por cento do último salário. Mas a Dinamarca não pertence à Zona Euro e não está sujeita como nós às restrições do Pacto de Estabilidade e Crescimento.

DC – Que restrições?

MA – O subsídio de desemprego é uma despesa pública. Com a flexigurança “à dinamarquesa” as despesas disparariam, mas a Zona Euro obriga a que Portugal respeite um limite de défice público. Também no caso das políticas de emprego, mesmo que sejam financiadas pela União Europeia, o orçamento nacional terá sempre de comparticipar. Parece-me difícil conciliar tudo isto.


DC – Quais são os sectores mais afectados pelas deslocalizações?


MA –São aqueles que têm técnicas relativamente banalizadas: o têxtil, o calçado, os produtos eléctricos.

DC – E para onde é que se deslocaliza?

MA – Existem deslocalizações dentro e para fora da Europa, aproveitando as diferenças salariais. Por exemplo, Portugal tem sofrido deslocalizações para os países de Leste. Já a França deslocaliza maioritariamente para países desenvolvidos, porque procura mão-de-obra qualificada ou recursos específicos desses países. Mas os países de Leste, a China, a Índia e a América Latina são destino preferencial destes fenómenos. Muitas das vezes, também porque têm uma legislação ambiental deficiente ou não a têm de todo.

JM – A China é a primeira da lista, porque vive na base das regras do sistema comercial ocidental preconizado pela Organização Mundial do Comércio, com um regime político que não tem nada a ver com os regimes políticos ocidentais, capaz de se regular de acordo com os seus próprios interesses, mesmo que seja à margem dos Direitos do Homem. Posso dar um exemplo: têm a sua moeda ligada ao dólar e fortemente subavaliada relativamente a esta moeda. Ora, com o dólar em queda, são as exportações
chinesas as grandes beneficiárias. E isto para não falar também das diferenças salariais: enquanto nos EUA o salário horário atinge mais de 15 dólares, no México 1,5 a 2 dólares, na China esse valor é de cerca de 0,25 dólares. E não estamos só a falar da deslocalização da produção de artigos da loja dos 300, mas de mercadorias de média ou mesmo de topo de gama. Uma mesma empresa tem unidades em três ou quatro países, concorrendo entre si, para ver qual delas apresenta menores custos de produção, com todas as consequências que daí advêm.

DC – Há alguma solução?

MA –Isto é uma decisão completamente política: decide-se politicamente não haver política. Isto não é um processo inevitável. A ideia prevalecente é a de que se deve deixar funcionar o princípio da livre concorrência. Em relação às deslocalizações que ocorrem entre países europeus não se faz nada, porque tal poria em causa o princípio da liberdade de estabelecimento dos nacionais de um país-membro num outro país-membro. A 1 de Janeiro deste ano entrou em vigor o Fundo Europeu de Ajustamento à Globalização para atenuar os efeitos sobre o emprego apenas das deslocalizações extracomunitárias, que prevê apoio financeiro, limitado anualmente e dependente de créditos orçamentais não utilizados. Este apoio está previsto somente para situações que criem no mínimo mil desempregados, o que limita fortemente a sua aplicação numa Europa onde predominam pequenas e médias empresas. Mas ainda é cedo para avaliar resultados.

JM – A Europa cala-se, porque está de costas voltada à regulação. É possível e deve haver globalização, desde que com rendimento e emprego seguros.

MA – Segundo a Organização Internacional do Trabalho, nos últimos dez anos surgiram no mundo mais 34 milhões de desempregados. Ora, se esta globalização gera desemprego, não é economicamente eficiente.

JM – E a solução só pode ser equacionada no plano internacional, nomeadamente através de uma reforma da ONU e de todas as Instituições internacionais que lhe estão ligadas. Não pode ser apenas a Europa por si. O drama está aí: não se vê nenhum passo nesse sentido. A máxima é liberalizar, flexibilizar, rivalizar, desregulamentar e o resultado está à vista com os 34 milhões de desempregados adicionais.


Esta entrevista certamente que vos acicatará o interesse em saber:

“Como é que se pode resistir?”

O Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), coordenado pelos docentes de Economia Internacional com o apoio do Núcleo de Estudantes de Economia da AAC, recomeça segunda-feira (5/11) às 15h00, no auditório da instituição com o tema “Globalização e deslocalizações: as dificuldades na reprodução da relação salarial”.
A sessão contará com a participação dos investigadores El Mouhoud Mouhoub (Universidade de Paris XIII e director do Centro de Economia da Universidade de Paris Norte), Edward Gresser (do Progressive Policy Institute, EUA), Paulo Pedroso (ISCTE e antigo ministro do Trabalho e da Solidariedade Social e Margarida Antunes (FEUC).
Às 21h15, o Teatro Académico Gil Vicente projecta o filme “Como é que se pode resistir?" Histórias de trabalhadores numa fábrica americana”, de Alexandra Lescaze. O acesso a ambos os eventos da terceira sessão do ciclo da FEUC é livre e gratuito.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Itália: O Partido Democrático em seu labirinto



Está a nascer na Itália um partido político que é, em si próprio, uma novidade: o Partido Democrático.

Mas se é uma novidade, quanto ao processo que o fez nascer e até quanto ao modo como parece ir funcionar, vai por um caminho que nada tem de novo no que diz respeito à linha e ao posicionamento políticos.


Seria estulto fazer previsões de médio prazo, vaticinar antecipadamente desgraças ou êxitos. Seria precipitado prospectivar os seus reflexos na União Europeia, ou na esquerda europeia, em particular. Mas pode ser esclarecedor, respigar memórias e sistematizar dados de facto.


O PD é fruto de um processo radicado na decisão política dos dois maiores partidos da actual Coligação de Esquerda que governa a Itália, ao aceitarem dissolver-se no novo sujeito político. Mas essa decisão foi apenas o ponto de partida para um processo aberto, cujo momento alto foi a eleição de um leader para o novo partido num plebiscito nacional, onde votaram milhões de italianos. Nesse sentido, o PD é bem mais do que a soma desses dois partidos. Walter Veltroni foi de muito longe o candidato mais votado, rondando os 75% de votos expressos. Actual presidente da Câmara de Roma, era um dos principais expoentes dos DS ( democratas de esquerda) com os quais convergiram no PD os democratas-cristãos de esquerda congregados num partido conhecido como " Margherita", numa alusão ao seu emblema, centrado nessa flor.

Deve no entanto dizer-se que ficaram fora do PD diversos partidos da Coligação, a começar pelas duas tendências minoritárias dentro dos DS, que em conjunto corresponderam a 22% dos delegados presentes no Congresso em que os DS resolveram dissolver-se, para darem origem ao PD. Desses, 15% são liderados pelo actual Ministro das Universidades, Fábio Mussi; e 7% pelo Senador , Gavino Angius.
Mas ficaram também fora do PD,diversas forças políticas de menor expressão, tais como,os Verdes, a Itália dos Valores (do ex-juiz Di Pietro), os Radicais, os liberais de esquerda, os cristãos-democratas da UDC e os pequenos grupos do velho PSI, que alinhavam com a Coligação. E claro, ficaram também de fora os dois Partidos Comunistas (a Refundação Comunista o Partido dos Comunistas Italianos), ambos membros da Coligação no poder.


O PD tem sido cotado, nas sondagens mais optimistas, como podendo atingir os 29%, num momento em que a popularidade do Governo Prodi parece fraca. Alguns analistas defendem que ele pode ter uma margem de crescimento até aos 35% e o seu leader assumiu recentemente a possibilidade de atingir os 40%. Mas em concreto, nas sondagens até hoje realizadas, nunca chegou aos 30%, o que significa que pouco mais vale do que a soma dos dois partidos que mais concorreram para a sua criação ( DS e "Margherita").


Com esta força eleitoral, o PD está posto perante a necessidade de assumir uma política de alianças, para poder ser Governo. E aí são já claras duas sensibilidades: a dos que defendem uma continuidade da política de alianças à esquerda; e a dos que defendem uma abertura ao centro que, diga-se em abono da verdade, é, por enquanto, mais virtual do que real, já que, fora da Coligação de Esquerda actualmente existente, a oposição de direita está também, toda ela coligada, na "Casa das Liberdades". Entre ambas, há apenas alguns resíduos políticos inexpressivos.


Por outro lado, o novo PD nasce com uma ambiguidade genética que lhe pode trazer dificuldades. De facto, durante o processo até agora decorrido, não ficou clara qual a família política internacional e, desde logo, europeia, onde se pretende situar. Uma parte entende que ele só pode integrar-se no Partido Socialista Europeu, do qual aliás faziam parte os DS; mas nos sectores oriundos da democracia-cristã, sustenta-se que, no plano europeu, o PD só pode criar um grupo autónomo exterior ao Grupo Socialista. Não é um problema menor, tendo sido uma das causas que levou à recusa do PD, por parte de significativos sectores dos antigos DS.


O nascimento do PD parece ter frustrado um outro projecto há muito sugerido, em surdina: a reunificação dos democratas-cristãos oriundos quer da direita, quer da esquerda, quer dos tais resíduos centristas, de modo a procurar o protagonismo que a democracia-cristã italiana já teve.

Em contrapartida, parece ter encorajado uma dinâmica simétrica na direita italiana com o partido de Berlusconi ( Forza Itália) a assumir-se como eixo da criação de um grande partido de direita que faça frene ao PD.


Mas as dinâmicas de convergência no âmbito da esquerda italiana não se limitam ao PD. De facto, os dois partidos comunistas e a facção dissidentes dos DS, liderada por Fábio Mussi ( Sinistra Democratica), estão a preparar formas de cooperação permanente que podem levar a um processo de federação que origine um novo sujeito político. No plano parlamentar, essa cooperação é já uma realidade.


Com uma dimensão mais reduzida, mas com uma margem de crescimento maior, está o processo de reconstituição do do Partido Socialista Italiano, no qual se integraram já todas as facções significativas que haviam resultado da fragmentação do PSI, aquando da operação "Mãos Limpas". O novo partido assume-se como continuador do PSI, cuja expressão eleitoral nos seus últimos anos não excedia muito os 10%, mas não se reduz a aos seus antigos membros, como se pode ver pelo facto da e a dissidência dos DS, liderada por Gavinio Angius se ter associado ao processo. Ao contrário do PD, o novo PSI assume-se como membros do Partido Socialista Europeu, abrindo assim um foco de pressão acrescida contra a indefinição internacional do PD. Diga-se aliás que também a Sinistra Democratica de Fábio Mussi se assume como parte do Partido Socialista Europeu.


Como se vê, o cenário político italiano está longe de ser linear. Para além deste complicado xadrez da recomposição política, pesa a fragilidade do actual governo, com risco de queda e de eleições antecipadas, com esta ou outra lei eleitoral. Está por determinar como se repercutirá no plano sindical toda esta recomposição, sendo certo que tem havido alguma crispação entre alguns sectores sindicais relevantes e o actual governo, com o qual , naturalmente, se identifica muito o PD. Falta analisar o factor Igreja, em Itália particularmente relevante, o que exigiria um outro texto .


Num relance perpectivador, pode olhar-se para o PD como desenlace longínquo da linha do compromisso histórico assumida, em plena guerra fria, pelo velho Partido Comunista Italiano e dirigido à Democracia-Cristã, talvez para curto-circuitar o velho PSI, bem como todo o pólo republicano laico de que ele era a força agregadora. O PCI transformou-se em PDS, depois em DS, para agora desaparecer no Partido Democrático. Saiu do movimento comunista rumo à Internacional Socialista, parecendo agora sentir-se pouco confortavelmente dentro dela. O desaparecido PSI ameaça reemergir e à esquerda do PD há um pólo de que pode ganhar consistência.


Será que o PD verá as suas limitações compensadas e corrigidas pelo sopro saudável da sua democraticidade e da sua inovação? Ou limitar-se-á a ser um cartel de sensibilidades moderadas com força eleitoral para contar institucionalmente , mas sem vigor para levar a Itália para novos horizontes? Os dados estão lançados. Quem ganhará o jogo?


quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Saudades do Rio de Janeiro




quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Espanha: Lei de Memória Histórica




Foi aprovada pelo parlamento espanhol a Ley de Memoria Histórica , com os votos contra do Partido Popular.
Foi hoje lida a sentença que condenou os autores do atentado ocorrido em Madrid, em 11 de Março de 2004, a pesadas penas de prisão. Faltavam então poucos dias para as eleições parlamentares. Numa manobra eleitoralista, o PP, à época no governo, resolveu ficcionar o envolvimento da ETA no atentado. Falhou. A manipulação ficou a descoberto e o PP perdeu umas eleições que esperava ganhar.
Com a leitura da sentença ficou confirmada a tese da não implicação da ETA. Mas o PP , numa atitude de enorme crispação, que aliás tem estendido a muitas áreas da vida política espanhola, resistiu a reconhecer o erro, deixando perceber que não desistiu ainda do absurdo de considerar aquilo que inventou como realidade.
O radicalismo do PP tem, na verdade, degradado a atmosfera política em Espanha . Os fantasmas da guerra civil parecem não ter desaparecido, por completo. Também por isso, tem um grande significado simbólico, cívico e pedagógico a lei hoje aprovada.
Achei útil, por isso, transcrever do diário espanhol "Público" de hoje, o texto que se segue, o qual me parece esclarecedor e relevante.
Las diez claves de la nueva ley

La Ley de Memoria Histórica nace para "cerrar heridas" y satisfacer a las víctimas de la Guerra Civil y ¡la dictadura franquista



1.- ¿Por qué es necesaria la ley?
Para reconocer y ampliar derechos a favor de quienes padecieron persecución o violencia, por razones políticas, ideológicas o de creencia religiosa durante la Guerra Civil y la dictadura, y para adoptar medidas complementarias destinadas a suprimir elementos de división entre los ciudadanos.

2.- Condena del franquismo.
La ley hace una condena expresa del franquismo, atendiendo a lo aprobado tanto por la Comisión Constitucional del Congreso en 2002 como por el Consejo de Europa en 2006.

3.- ¿A quiénes se pretende "recuperar y honrar"?
A todos aquellos que sufrieron las consecuencias de la Guerra Civil y del régimen dictatorial por motivos políticos, ideológicos o de creencias religiosas. A quienes perdieron su vida o su libertad y a los que lucharon por la defensa de los valores democráticos: Cuerpo de Carabineros, brigadistas internacionales, combatientes guerrilleros y la Unión Militar Democrática.

4.- Declaración de ilegitimidad de los juicios franquistas.
La ley declara la ilegitimidad de las condenas y sanciones dictadas por motivos políticos, ideológicos o de creencia por cualesquiera tribunales u órganos penales o administrativos durante la dictadura.

5.- Símbolos y monumentos públicos.
Las administraciones tomarán las medidas oportunas, incluida la retirada de subvenciones públicas, para la retirada de escudos, insignias, placas u otros objetos o menciones conmemorativas de exaltación de la sublevación militar, de la Guerra Civil y de la represión de la Dictadura. Se excluyen las menciones que sean de estricto recuerdo privado sin exaltación de los enfrentados, o cuando concurran razones artísticas o artístico-religiosas protegidas por la ley.

6.- Valle de los Caídos.
Se prohíben los actos de naturaleza política ni exaltadores de la Guerra Civil, de sus protagonistas o del franquismo en este recinto.

7.- Indemnizaciones.
La ley prevé el derecho a una indemnización en favor de todas aquellas personas que perdieron la vida en defensa de la democracia y que no habían recibido la compensación debida.

8.- Fosas comunes.
La administración facilitará a los interesados que lo soliciten las tareas de localización y, en su caso, identificación de los desaparecidos, algunos aún en fosas comunes.

9.- Información histórica sobre la Guerra Civil.
Con el fin de facilitar la recopilación el acceso a esta información se refuerza el papel del Archivo General de la Guerra Civil de Salamanca, integrándolo en el Centro Documental de la Memoria Histórica, también con sede en la ciudad castellana.

10.- Adquisición de la nacionalidad española.
Se amplía esta posibilidad a los descendientes hasta el primer grado de quienes perdieron la nacionalidad española por el exilio a consecuencia de la Guerra Civil o la Dictadura

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Os banqueiros e nós





Chegou trovoada, por causa de privilégios concedidos a administradores do Banco de Portugal.

Com uma segurança algo inocente, o Sr. Ministro das Finanças diz que é a lei quem consente no favor, acrescentando com uma subtileza demasiado ostensiva que o caso é antigo, deixando-nos assim saber que estamos perante eventos ocorridos sob a égide de um dos governos anteriores.

Mas o Sr. Ministro não disse por que razão o seu Governo, tão célere em cortar vantagens aos "pequenos", deixou estes "grandes" continuarem a fruir gulosamente essas vantagens realmente corporativas.

E não nos venha dizer o Sr. Ministro que essas vantagens, globalmente encaradas, não passam de uma levíssima sobrecarga no erário público, enquanto o confisco das magras vantagens antes auferidas pelos "pequenos", somadas umas às outras, representou uma soma bem gorda.

É que nenhum Ministro se pode esquecer que qualquer medida que tome (ou qualquer omissão que assuma) é também política, pelo que não pode avaliá-la apenas pela suas repercussões extra-políticas, mesmo que essas repercussões, sendo de natureza económica, adquiram óbvia relevância.

Por isso, é de uma enorme ligeireza aceitar atingir os "pequenos" nos seus direitos, antes de se assegurar que, pela lógica assumida, não subsistem privilégios na esfera dos mais fortes que devam ser abolidos . De facto, se subsistirem, os "pequenos", que são muitos, hão-de sentir-se injustiçados. E será mais fácil que se revoltem contra o que sentirão como injusto. Ou seja, podem sentir que o Governo tem força legal para fazer o que faz , mas dificilmente acharão que tenha legitimidade para isso. Não vê o Sr. Ministro que essa insólita assimetria lhe retira legitimidade ética para exigir aos "pequenos" quaisquer sacrifícios ?

Ora, não se esqueça Sr Ministro que os "grandes " são naturalmente poucos, mas os "pequenos" , pelo contrário, são muitos. Com uma particularidade interessante: o voto de cada um dos "pequenos" vale tanto como o voto de cada um dos "grandes".

Portanto, se o problema está na lei, mude-a.



















domingo, 28 de outubro de 2007

Argentina - a esquerda peronista ganha de novo




Tal como previam todas as sondagens, Cristina Kirchner ganhou as eleições presidenciais argentinas. Não será necessária 2ª volta, uma vez que obteve cerca de 46% dos sufrágios, ficando a segunda classificada a cerca de 20% de diferença.


De facto, a lei argentina obriga a que , para ganhar à primeira volta, o candidato mais votado tenha de obter mais do que 45% dos votos, ou então, 40% dos votos, desde que tenha também mais do que 10% de vantagem sobre o segundo classificado.

Mais vale prevenir do que remediar...


O jornal espanhol "El País" publicou hoje um texto de José Comas que com a devida vénia transcrevemos. Os socialistas portugueses, em especial os órgãos nacionais do partido, não podem ignorar os factos e as indicações que o Congresso aqui relatado lhes oferece. Nós ainda estamos a tempo de evitar seguir o mesmo triste trajecto. Como o povo nos ensina : "Vale mais prevenir do que remediar."
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El SPD contenta a la izquierda con sus nuevas propuestas

Las iniciativas del congreso socialdemócrata alemán disgustan a la CDU, su aliada en el Gobierno federal

JOSÉ COMAS - Berlín - 28/10/2007

Las resoluciones del congreso que los socialdemócratas alemanes celebran este fin de semana en Hamburgo han tenido buena acogida en los partidos de oposición, La Izquierda y Los Verdes, pero recibieron fuertes críticas por parte de los democristianos (CDU/CSU), socios del SPD en el Gobierno federal.
En el congreso intervino ayer el vicecanciller y ministro de Trabajo, Franz Müntefering, que en las últimas semanas libró una dura batalla contra su presidente del SPD, el primer ministro de Renania-Palatinado, Kurt Beck, para no modificar los recortes que la Agenda 2010 de Schröder había aprobado para los parados. Müntefering no tocó el tema en su discurso. El conflicto ha quedado barrido bajo la alfombra y al concluir su discurso se estrechó la mano con Beck en un gesto de reconciliación.
El SPD y Beck intentan por todos los medios frenar la irresistible caída del partido en los sondeos de intención de voto, que se mueven en torno al 25%, casi quince puntos menos que la CDU/CSU. El partido, que en 140 años de historia adquirió la fama de ser el defensor de los más débiles y paladín de la justicia social, pagó con una enorme sangría de votos y militantes la política de recortes sociales que llevó adelante el canciller Gerhard Schröder (SPD) en coalición con Los Verdes. Beck parece haber encontrado en la corrección de esa política un trampolín para intentar subir la cotización demoscópica del SPD.
Cambio climático
El congreso del SPD camina en esta dirección, dar marcha atrás en algunas de las reformas y actuar como contrapeso al socio de coalición, los democristianos (CDU/CSU), a los que acusan de neoliberalismo desalmado. La tarea del SPD no resultará nada fácil. La canciller Angela Merkel (CDU) se ha destapado como una especie de criptosocialdemócrata que ha sorprendido a los sectores más conservadores de su partido y le ha robado el espectáculo al SPD en temas como el clima o la política de protección a la familia.
Conscientes de la necesidad de recuperar la imagen progresista, los delegados del SPD aprobaron mociones en esa dirección. La sorpresa ayer fue la resolución a favor de limitar la velocidad en las autopistas a 130 kilómetros por hora para reducir la emisión de gases nocivos, en contra de la dirección del partido. La no limitación de velocidad es una de las vacas sagradas en Alemania, defendida por la industria del automóvil y muchos ciudadanos. Cuando llegó a adquirir visos de realidad la posibilidad de reducir la velocidad, surgieron las pegatinas en los coches con la frase "ciudadanos libres exigen vía libre". La resolución de limitar la velocidad es en realidad un brindis al sol, porque no tiene la menor posibilidad de lograr una mayoría parlamentaria, pero queda como un gesto, un mensaje que el antiguo socio de coalición Los Verdes acogió con satisfacción.