segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ECONOMIA SOCIAL - cerimónia em Coimbra



O texto que se segue reproduz uma intervenção feita por mim, na Cerimónia Pública Solene de entrega, nas suas várias modalidades, do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2107, que decorreu em Coimbra, no Convento São Francisco, em 22 de janeiro de 2018.

Esta cerimónia ilustra bem a amplitude e a riqueza da economia social. Documenta o processo de autoconstrução de uma identidade que congrega um vasto leque de organizações e movimentos de tradições diversas, todas profundamente enraizadas na sociedade portuguesa e apostadas em contribuir para um futuro que realize as melhores esperanças.

A decisão tomada, em Novembro passado, no 1º Congresso Nacional da Economia Social de constituir a Confederação da Economia Social Portuguesa, coroou um virtuoso processo de convergência, abrindo as portas a um novo protagonismo coletivo apontado ao futuro.

Esta dinâmica sociopolítica, geradora do novo rosto da economia social, não está isolada, nem no plano europeu, nem no plano universal, mas tem particularidades nacionais que não podem ser esquecidas ou menosprezadas; muito especialmente no relacionamento com a União Europeia.

Nos últimos anos a economia social tem reforçado muito a consciência de si própria, ao mesmo tempo que tem aumentado a sua visibilidade social e mediática, embora esta esteja ainda longe de espelhar a sua real importância.
Tem também vindo a tornar-se mais evidente a sua indispensabilidade como fator de equilíbrio e dinamização da sociedade, na medida em que esta queira materializar mais liberdade, mais igualdade, mais justiça e mais democracia.

É por isso natural que a economia social atraia novos protagonistas, novas cumplicidades e novos apoios. Mas numa sociedade como a nossa, ainda sulcada por tantas desigualdades e injustiças, é também de esperar que ela suscita a hostilidade de muitos. Principalmente de quem é beneficiado por essas desigualdades e as quer, por isso, perpetuar e agravar.

Os comportamentos e as campanhas que a hostilizam são, por isso, quase sempre, mais uma consequência dos seus êxitos do que dos seus defeitos e incompletudes. Mas procurar mitigar os erros e preencher as incompletudes da economia social retira força aos seus inimigos.

Nessa medida, os protagonistas da economia social estão obrigados a aperfeiçoar-se cada vez mais na prossecução dos seus objetivos, corrigindo erros e potenciando virtudes, no respeito sem mácula pela sua identidade histórica e pela fidelidade persistente à sua ambição humanista e emancipatória quanto ao futuro.

Para isso, é indispensável robustecer um pensamento crítico da economia social sobre si própria, radicado numa informação ampla e rigorosa, num conhecimento refletido e numa ousada imaginação utópica.

Sejamos exigentes para nós próprios, no cuidado em conhecermo-nos cada vez melhor. Aprendamos a olhar a economia social e a sociedade no seu todo, com os nossos próprios olhos, bem longe das distorções induzidas por interesses alheios e por preconceitos arcaicos.

Mas sejamos impiedosamente claros e diretos no combate à ignorância, à superficialidade, ao simplismo irresponsável, quando incidam na economia social. Quer provenham de esfinges ocas, quer de numerólogos sem bússola, quer de tecnocratas unidimensionais.

Façamos com que quem se arvore publicamente em especialista em economia social passe a envergonhar-se de não ter ao menos uma pálida ideia daquilo sobre que está a falar. Façamos com que a comunicação social passe a dar voz aos protagonistas da economia social e menos acolhimento aos dislates que a estropiem, mesmo que tenham a assinatura de nomes sonantes.

Desmascaremos as campanhas de raízes dissimuladas que combatem a economia social, esquecendo a sua contribuição para o bem-estar dos portugueses, ignorando o interesse nacional e desprezando a herança de Abril. Campanhas quase sempre baseadas na deturpação do que é a economia social e no desconhecimento quanto ao trabalho que desenvolvem, dia após dia, as dezenas de milhares de entidades e os milhões de cidadãos que dão vida à economia social.

Quando os automatismos económico-sociais dominantes, movidos por uma lógica anti-humanista oposta à economia social, tingem de negro os horizontes futuros, cabe aos protagonistas desta última, assumindo uma autenticidade plena, aprofundar as lógicas cooperativas, reciprocitárias e solidárias que os movem.

Tendo como horizonte uma sociedade de liberdade e justiça, radicada na fruição coletiva e igualitária dos bens comuns e na sobrevivência digna de todos, cabe aos protagonistas da economia social assumirem uma sinergia plena com o Estado social, que a nossa Constituição garante juridicamente, envolvendo-se com ele numa mesma dinâmica esperançosa e transformadora.

É neste contexto que felicito vivamente todos os premiados de hoje, expoentes de excelência em várias constelações da economia social, generosos criadores de futuros, cultores do inconformismo e da esperança.

                                                   Rui Namorado
                                                        [22/01/2108]


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