terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.



O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.

A trovoada mediático-política desencadeada, pelo facto de o Ministro da Defesa ter admitido publicamente que o desaparecimento de armas ocorrido em Tancos, podia não ter tido como causa um assalto, é um pouco vesga , na medida que olha tudo para um lado e nada para o outro.
O próprio Presidente da República se viu obrigado a uns murmúrios ambíguos, como se quisesse evitar que o acusassem de ter ficado calado.
E, no entanto, quando eclodiu a bronca , em separado os "capitães de Abril" Vasco Lourenço e Sousa e Castro disseram publicamente algo de semelhante, mas muito mais clara e argumentadamente. Ficaram sem resposta pública. O silêncio mediático que rodeou essa posição apenas foi rompido num ou dois casos isolados. Os políticos trovejantes que flagelavam o Governo quanto a isso disseram nada.


Que se ache necessário o apuramento da verdade é legítimo e não há quanto a isso divergências. Mas que a verdade apenas seja admitida se confirmar o acerto da sofreguidão antigovernamental da direita e seus acólitos, é que parece ilegítimo.
Não havendo ainda conclusões finais críveis e conhecidas, não se compreende porque se considera algo de politicamente negativo mencionar um tipo de resultado que nada até agora permite excluir por completo.


É aliás estranho que esta hipótese tenha sido ignorada; e seja até considerada como proibida. É que se o que tivesse acontecido fosse uma montagem politico-mediática que ficcionasse um assalto inexistente para pôr em cheque o Governo, nós estaríamos perante uma conspiração política muitíssimo mais grave do que um assalto a um paiol de munições. 


Por que razão os intemeratos cultores da verdade se desinteressam subitamente dela, quando se levanta a hipótese de ter ocorrido uma grave conspiração política antidemocrática?


Por isso, vos confesso que este alarido contra o Ministro da Defesa me deixou desconfiado. 


Alguém quer evitar que se alvitre a hipótese de um falso roubo como parte de uma conspiração política. Investigue-se essa hipótese. Se a hipótese se não confirmar e se chegar á conclusão de que houve realmente um assalto, muito bem. A versão inicial aparente estava certa. Mas perante tanto ruído quem realmente for um servo fiel da verdade , de toda a verdade, só pode congratular-se com a exploração dessa hipótese. Ou será que já o foi e nós ainda não sabemos? Insisto: muito mais grave do que um assalto a um paiol de armas , é uma conspiração anti-democrática.

domingo, 10 de setembro de 2017

Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais



Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais

1.As eleições autárquicas são competições políticas, cuja principal incidência são os municípios e as freguesias, mas que não deixam de ter reflexos importantes na política nacional. Reflexos especialmente marcantes a partir do que ocorra quanto às Câmaras Municipais. Não fazendo, naturalmente, qualquer sentido o menosprezo pela dimensão local dessas pugnas, seria pura miopia política ignorar a repercussão na política nacional dos seus  resultados. Aliás, um simples exercício de memória nos fará lembrar casos concretos em que esses resultados suscitaram quedas de governos centrais, para além de terem tido repercussões menos ostensivas em muitas outras ocasiões.

Quanto a este tipo de eleições, não está instituído um critério, objetivo e consensual, para distinguir uma vitória de uma derrota. E é certo que considerar um resultado bom ou mau depende em larga medida da comparação com resultados anteriores de cada força política em cada local. Pode valorizar-se o total do número de votos obtidos, o total de Presidências de Câmara ou de Juntas de Freguesia conquistadas, os resultados das principais cidades ou das capitais de distrito ou dos municípios mais populosos. A experiência mostra que neste caso tem especial significado a imagem política global projetada pelos resultados das eleições, não sendo predetermináveis os tipos de combinações de resultados que lhe darão origem. Mas há municípios quanto aos quais é inequívoco que os resultados neles ocorridos contribuem especialmente para projetarem uma imagem de derrota, de empate ou de vitória.

Coimbra, sem margem para dúvidas, é um desses casos. E, na atual conjuntura, o principal efeito político nacional destas eleições será o reforço ou o enfraquecimento do Partido Socialista; e, indiretamente, o reforço ou o enfraquecimento do atual governo e, consequentemente, do acordo político que lhe dá suporte. Simetricamente, ocorrerá um reforço ou um enfraquecimento dos partidos da troika (PSD e CDS).

Compreende-se, por isso, que este pano de fundo tenha que estar bem presente, quando se participa em Coimbra na luta política autárquica, nomeadamente, aqueles que hesitem quanto à opção a tomar.


2. À luz o que se acaba de dizer, vale a pena refletir sobre a repercussão nacional da campanha autárquica que está a decorrer em Coimbra. Entre as alternativas a Manuel Machado, atual Presidente da Câmara que lidera a candidatura do Partido Socialista, três delas têm um especial significado político. Refiro-me às duas candidaturas de direita, “Mais Coimbra” e “Somos Coimbra” e à candidatura dos “Cidadãos por Coimbra”.

Todas elas desempenham, objetivamente, o papel de dispositivos de combate político ao governo do PS liderado por António Costa. Na verdade, como já se disse, os resultados que se verificarem em Coimbra não deixarão de pesar na relação de forças nacional. A vitória do PS reforçará o atual governo, melhorando as condições e as virtualidades da sua ação; um mau resultado para o PS não deixará de fazer aumentar os obstáculos à ação do governo.


3. Por isso, os partidos da troika, representados em Coimbra pela coligação “Mais Coimbra”, embora tornando tão pouco ostensiva quanto possível a sua pertença ao séquito de Passos Coelho e de Cristas, são um dispositivo muito importante na estratégia nacional de combate do PSD  e do CDS contra o atual governo. Se eles vencessem em Coimbra, estariam a oferecer um precioso balão de oxigénio ao radicalismo austeritário de Coelho e Cristas, que o bom funcionamento e os resultados positivos da atual solução governativa têm vindo a desacreditar crescentemente.

E isso acontece, quer porque Coimbra é um município com alto valor simbólico, quer porque tem à sua frente o Presidente da Associação Nacional de Municípios. Dir-se-á que, nas atuais circunstâncias, a hipótese de uma vitória da direita em Coimbra é muito remota. É verdade. Mas foi a esperança nisso que levou os partidos da troika a unirem-se e é esse o verdadeiro conteúdo da candidatura “Mais Coimbra”. O resto é meramente instrumental.


4. “ Somos Coimbra” visa o mesmo objetivo, mas opta por outro caminho. Também entende que as eleições autárquicas são uma importante oportunidade para enfraquecer o atual governo do PS e iniciar a reversão do predomínio institucional das esquerdas, mas pensa que se o fizesse em campo aberto e de rosto descoberto, apostando na continuidade das atuais lideranças da direita, teria reduzidas hipóteses de êxito. Por isso, recorreu à liderança de alguém cuja notoriedade não estava predominantemente radicada na política (ainda que consabidamente oriundo da área política do PSD), para montar a ficção e tentar produzir a ilusão de uma candidatura independente "acima" dos partidos.

Adotou uma velha consigna mistificatória (a que a direita sub-reptícia sempre recorre quando se quer disfarçar) ao afirmar-se nem de direita nem de esquerda. Dotou-se de três ou quatro vultos universitário-empresariais, para ostentar uma patine mais aliciante, embrulhou tudo isso num discurso holístico previsível e arredondado, distribuiu alguns anátemas de circunstância, promoveu uma certa ressonância mediática, e sentiu-se suficientemente irresistível para avançar.

Foi, no entanto, prudentemente tomada por uma discreta pulsão cautelar. Receando que o ilusionismo fosse tão completo que iludisse alguns dos próprios eleitores da direita, deixou transparecer publicamente o apoio explícito de uma das principais liderança do PSD de Coimbra nas últimas décadas que, aliás, já ocupou a Presidência da Câmara de Coimbra, durante mais de um mandato no início deste século. É um outro tipo de tentativa de enfraquecer o atual Governo, mas não deixa de o ser.


5. Pelo seu lado, os Cidadãos por Coimbra deixaram-se aprisionar num dramático dilema: ou subordinam a sua intervenção municipal à sua identificação genérica com a solução política nacional vigente e desvitalizam-se; ou privilegiam e radicalizam a sua intervenção municipal e combatem-se a si próprios no plano nacional, ao vulnerabilizarem o governo do PS e a solução política que o viabiliza (com a qual ao que parece concordam).

É um dilema com duas raízes principais. Em primeiro lugar, os CPC surgiram em 2013 como uma subtil “frente de massas” do Bloco de Esquerda, revestida pela aura de uma intenção frustrada de unidade à esquerda, mas principal e objetivamente dirigida a evitar uma vitória do PS em Coimbra. Falhado o objetivo, ao contrário da CDU, assumiram sempre uma oposição agressiva à Presidência do PS. Uma oposição  assente mais em resmungos e detalhes do que numa serena divergência de horizontes e de projeto.

As eleições legislativas de 2015 impulsionaram a criação do Livre/Tempo de Avançar, novo partido que absorveu a quase totalidade dos CPC exteriores ao BE. Na prática, os CPC transformaram-se assim numa coligação não assumida. A solução de governo saída das eleições teve no PS o protagonista liderante. Englobando o BE, correspondia também no essencial ao preconizado pelo Livre/Tempo de Avançar que só não participou nela por não ter elegido qualquer deputado. Mas esta mudança nacional da conjuntura política não suscitou no comportamento dos CPC qualquer mudança de atitude no plano autárquico. A coligação implícita dos CPC que era favorável ao governo do PS no plano nacional continuou a hostilizá-lo em Coimbra no plano autárquico.

Recentemente, houve uma cisão nos CPC. Um grupo de algumas dezenas de membros, onde se incluía a maior parte dos seus eleitos municipais e várias das suas figuras públicas mais conhecidas, abandonou publicamente os CPC. Os dissidentes pertenciam em grande parte ao Livre/Tempo de Avançar. Duas versões da clivagem percorreram a murmuração política e pairaram nas entrelinhas das posições publicadas. Os que saíram acusam os que ficaram de completa subalternidade e dependência em face do BE, cujo alegado controleirismo vituperam. Os que ficaram acusam os que saíram de almejarem integrar uma aliança política mais ampla e fortemente inclinada à direita. Os que ficaram escolheram para os encabeçar um político com experiência autárquica que pouco antes se desfiliara do Partido Comunista. O tom da campanha que têm vindo a fazer parece dar continuidade à acrimónia habitual quanto à candidatura do PS, dando assim corpo ao dilema atrás referido. Politicamente, pode assim dizer-se que em parte se combatem a si próprios; autarquicamente procuram enfraquecer o mais possível aquilo que defendem nacionalmente.

Para dramatizar o dilema, o atual coordenador dos CPC, pública e simultaneamente, demarcou-se energicamente da candidatura do PS, mas afixou a intenção de convidar o candidato por si rejeitado, para que em conjunto com os CPC e a CDU, logo após as eleições, liderasse um bloco de poder. Ou seja, após as eleições, a exceção de Coimbra desaparecia, reproduzindo-se uma solução paralela à nacional. Isto é, os CPC fazem tudo para impedir o PS de eleger o seu candidato como Presidente (o que significa dar inevitavelmente a Presidência à direita), mas, se o não conseguirem, querem aliar-se com ele.


6. Em contraponto, a candidatura do Partido Socialista liderada por Manuel Machado, tem tornado cada vez mais claro que o seu modo de Valorizar Coimbra respeita realmente a sua densidade simbólica e solidariza-se profundamente com a sua vocação futurante que se propõe incentivar. Não o faz contudo, encerrando-se num bairrismo estéril, mas assumindo por completo a ideia de que valorizar Coimbra é um contributo insubstituível para valorizar Portugal. A contribuição de Coimbra não é substituível por outra qualquer, pelo que sendo naturalmente um desígnio municipal é também necessariamente um desígnio nacional.

Assim, a sinergia entre o atual Governo de Portugal e a atual maioria na Câmara Municipal de Coimbra que se começou a instituir desde que a atual solução governativa iniciou funções há menos de dois anos, abre horizontes muito esperançosos para os próximos anos. O atual governo terá em Coimbra um parceiro que lhe permitirá exercer aqui o seu mandato com plena fecundidade, o governo autárquico de Coimbra liderado por Manuel Machado terá no poder central um parceiro que lhe permitirá valorizar Portugal através da valorização de Coimbra.

Há assim dois tipos de repercussão nacional dos resultados autárquicos de Coimbra. Uns procuram instrumentalizá-los para enfraquecer a atual solução governativa na esperança de trazerem de volta as políticas da troika. Outros procuram reforçar sinergias virtuosas entre os poderes democráticos autárquicos e centrais, em benefício de Coimbra e de Portugal.


Há ainda  os que parecem estar a disparar sem ter uma ideia clara quanto ao alvo a atingir. Por isso, quanto a estes últimos, o que de melhor se pode esperar é que não façam muitos estragos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

COIMBRA, Ó COIMBRA!





COIMBRA, Ó COIMBRA!
Nas próximas eleições autárquicas, concorrem para disputar a liderança do município de Coimbra várias listas que, para além das suas diferenças políticas e programáticas, usam a palavra Coimbra na sua designação ou na sua divisa. Estou a pensar em quatro: a do Partido Socialista fala em “Valorizar Coimbra”; a dos partidos da “troika” quer “Mais Coimbra”; “Somos Coimbra”, diz-nos uma outra lista radicada no mesmo espaço político da anterior, mas que se alega independente; “Cidadãos por Coimbra”, eis como se apresenta a lista oficialmente independente, mas particularmente apoiada pelo Bloco de Esquerda.
Vale a pena olhar para estas quatro expressões, pois elas, subliminarmente, podem dizer-nos muito quanto ao modo como cada uma delas se relaciona com Coimbra. É como se, sob o verniz das identidades ideológicas ostensivas e das escolhas psicológicas conscientes, se perfilasse oculta  uma revelação estrutural mais profunda.
“Mais Coimbra” revela uma implícita abordagem quantitativa, uma ótica meramente crescimentista que correria o risco de implicar não o desenvolvimento fecundo do município, mas o seu estéril inchaço.
“ Somos Coimbra” é uma expressão indutora de duas possíveis leituras: ou quer-nos informar que, como todos os munícipes deste concelho, eles são de Coimbra, ou pretende proclamar que só os iluminados dessa lista são verdadeiramente de Coimbra. Se o sentido for o primeiro, estamos perante uma evidência trivial e, portanto, desprovida de conteúdo político; se o sentido for o segundo, estamos perante uma arrogância excludente, que reduz a autêntica Coimbra a um pequeno círculo de arautos de uma boa nova. Isto é, ou  eles se acham enormes assumindo-se como a própria substância de Coimbra , ou acham Coimbra suficientemente escassa para caber numa candidatura. Escolha-se: trivialidade ou pesporrência.
Os Cidadãos por Coimbra situam-se num registo idêntico ao anterior, conquanto ligeiramente mais suave. Ou apenas nos querem informar que, sendo cidadãos, como todos nós, se interessam por Coimbra, como todos os conimbricenses; ou muito mais do que isso se querem afirmar os únicos cidadãos que verdadeiramente são “por Coimbra”. Nesta última hipótese, ficaríamos ainda sem saber se quem lhes for exterior deixa de ser considerado um verdadeiro cidadão; ou se, sendo-o, não é todavia “por Coimbra”. Se os CPC não tiverem à sua disposição um medidor de cidadania fiável e um “coimbrómetro” rigoroso que sustentem objetivamente esse implacável juízo, somos reconduzidos ao dilema já mencionado: trivialidade ou pesporrência.

Valorizar Coimbra induz a ideia de haver uma realidade de que se parte e que portanto se respeita para se poder valorizar. Uma realidade que envolve naturalmente não só os munícipes, mas também as suas atividades e as suas organizações, incorporando ainda toda a sua dimensão simbólica, com destaque para a cultura e para a história. Valorizar Coimbra implica ter-se bem presente que já havia Coimbra muito antes de todos nós cá termos chegado e continuará a haver Coimbra depois da memória do que tivermos sido se esvair. Não se pretende, por isso, pôr Coimbra em qualquer pequeno mapa imaginário, nem apoucá-la para se poder dar a entender que vamos ser os seus salvadores. Valorizar Coimbra não envolve uma pulsão localista, sendo pelo contrário um desígnio aberto, um caminho que os conimbricenses podem percorrer para se valorizar Portugal.

domingo, 30 de julho de 2017

Notícia sobre a VENEZUELA.



Transcrevo da página virtual do jornal espanhol  Público [18 e 40 m de hoje] uma notícia sobre o que está a ocorrer hoje em Caracas. Perante a barragem de unilateralismo informativo dos nosso dóceis meios de comunicação social, caninamente alinhados com o complexo mediático internacional dos grandes meios de comunicação social, vale a pena ter-se acesso a uma informação objectiva.
O texto noticioso é do jornalista Alberto Pradilla e tem como tírulo:“Caracas como dos ciudades: una vota y la otra se encierra entre basura”. Abre a notícia o destaque seguinte : “En medio existen grises pero la diferencia es abismal entre el centro y el oeste, donde la mayor parte de colegios están abiertos, y el este, encerrado en sí mismo, lleno de barricadas y con la basura desparramada por el suelo.”
Eis a notícia, propriamente  dita:
“Con música y cohetes, antes de que amanezca, feudos del chavismo como el barrio 23 de enero despertaban a los votantes a las 6 de la mañana. La hora es intempestiva para un domingo, pero en Venezuela es tradición madrugar mucho, hacer cola para votar lo antes posible y ya disponer de toda la jornada. “Queremos ser los primeros para venir”, decía Carmen Romero, una mujer que llevaba desde las 5 esperando para votar en la escuela pública de la popular barriada. “Estamos viviendo en nuestras carnes la cuestión de los terroristas que están en el este. Aquí, por el contrario, estamos tranquilos y votamos para frenar la violencia”, afirmaba. El votante más ideológico habla de “profundización en el proceso” para explicar su participación electoral. En las filas, antes de las urnas, lo que más se escucha es un llamamiento a votar por la pacificación.
Hoy, cuando 19 millones de electores de un censo total de 30 millones está convocado a las urnas, siguen existiendo dos Caracas que viven de espaldas una a la otra. En medio existen grises, que no todo es tan fácil, pero la diferencia es abismal y real entre el centro y el oeste, donde la mayor parte de colegios están abiertos, y el este, encerrado en sí mismo, lleno de barricadas y con la basura desparramada por el suelo.
Habrá que ver hasta dónde están dispuestos a llegar los opositores durante las protestas. Sus fuerzas flaquean
“Hoy es uno de los días más importantes para que el venezolano chavista salga a votar”. Gustavo Borges, calado con gorra verde de estrella roja y el brazalete con la bandera de Venezuela, también es de los primeros en el colegio del 23 de enero. Insiste en que la constituyente convocada por el presidente, Nicolás Maduro, es la vía para destensar la situación. Quizás para dar ejemplo, que aquí son mucho de simbología, el jefe de Gobierno ha sido también madrugador a la hora de cumplir con la papeleta. Pasadas las 6 de la mañana, el máximo mandatario venezolano reivindicaba que el suyo era “el primer voto por la paz, por la soberanía, la independencia y la tranquilidad futura de Venezuela”.
La situación es completamente distinta en el este del país (por cierto, más opulento pero con menor proporción de habitantes). La oposición rechaza participar en las elecciones y ha llamado a manifestarse hoy a las 10.00 horas (las 18.00 en España). A las 8, en Altamira no había un alma. Una única señora preguntaba dónde había que concentrarse, asegurando que la convocatoria comenzaba a las 4 de la mañana. “No tenemos nada, estamos pasando hambre y por muchas dificultades”, aseguraba. La tensión es palpable. En Chacao, justo antes de llegar al feudo opositor, un grupo de motorizados partidarios del chavismo se enfrentaban con unos encapuchados que pretendían colocar una barricada. No lo consiguieron. Al final, los opositores abandonaban el lugar a la carrera. Da la sensación de que trancar las calles es la única estrategia sostenible para los antichavistas. Permite, con un número relativamente pequeño, dar una sensación de caos. Aunque lo de llenar de basura tu propio barrio es más incomprensible.
Habrá que ver hasta dónde están dispuestos a llegar los opositores durante las protestas de hoy, especialmente si se toma en cuenta que parece que sus fuerzas flojean. La víspera, Henrique Capriles y Leopoldo López llamaban conjuntamente a manifestarse. En realidad, es un modo de intentar tapar bocas, ya que en las últimas horas se había extendido la sombra de la duda en sus propias bases. Los más duros acusan a la dirigencia de ser excesivamente condescendientes con el chavismo. Sí. Han oído bien. Excesivamente condescendientes. La gestión de la frustración por asegurar que se frenarían unas elecciones que no podían suspender.

Tengan claro que el nivel de intimidación y presión es tal en los feudos opositores que el Gobierno ha tenido que habilitar cuatro centros de contingencia en Los Teques, Caracas, Maracaibo y Aragua. Es decir, que se han abierto polideportivos para que puedan votar personas que no pueden depositar su voto en su lugar de origen. Ayer, en el Poliedro, el centro preparado para los votantes de Caracas, varias personas explicaban que tenían que trabajar por las elecciones casi de modo clandestino. Además, algunos colegios han sido atacados y el material electoral ha tenido que ser trasladado a otros lugares.”

terça-feira, 18 de julho de 2017

LULA - um alvo estratégico



Publico hoje mais um texto de Roberto Amaral, extraído da página virtual da excelente revista brasileira CartaCapital. É um texto sobre a recente condenação de Lula. Parece--me muito importante desfazer a cortina de fumo lançada sobre esse triste evento pela grandes empresas brasileiras de comunicação social, que encontra estranhos ecos na comunicação social portuguesa. Que a direita lusitana morda desalmadamente em Lula, compreende-se. É o seu jeito canino de argumentar. Que figuras que se pretendem fora desse espaço também mastiguem dislates e desinformações sobre o assunto  já é um pouco  mais enjoativo. Enfim, leiam o que nos diz um importante político e intelectual brasileiro que nem é membro do PT. Entretanto, para vos pôr mais alerta aqui fica  uma muito breve síntese do seu currículo.

Roberto Amaral nasceu em  1939. Cientista político, jornalista, escritor, conferencista e político militante, tem artigos científicos publicados em revistas académicas do Brasil e de outros países Com vasta colaboração na imprensa brasileira, escreve semanalmente na versão online da revista CartaCapital.
Com a redemocratização, retomou a atividade política legal, tornando-se um dos re-fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1985. Foi seu secretário-geral entre 1985 e 1993 e em seguida vice-presidente, assumindo mesmo a Presidência do PSB em três ocasiões: em 2005, em 2006 e em de 2014. A deriva direitista desse partido levá-lo-ia a abandonar a sua presidência , tendo posteriormente rompido com o próprio partido.
Nos dois primeiros mandatos do presidente Lula e no primeiro mandato da presidente Dilma, representou o PSB no Conselho Político da Presidência da República. Exerceu o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no Governo Lula.
É professor adjunto (licenciado) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor titular da Faculdade Hélio Alonso.É membro titular do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do Pen Clube do Brasil, da Internacional Political Science Association, da International Association of Judicial Methodology. Integrou (2004) o Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.
 
Eis o seu artigo, datado do passado dia 17 de Julho de 2017:

 
Por que Lula? por Roberto Amaral
“Sem surpresa, o País recebeu a anunciada condenação de Lula, sentença que já estava pronta antes mesmo da mal articulada denúncia do Ministério Público Federal, antes mesmo do julgamento na ‘República de Curitiba’, pois, antes de tudo, estava lavrada pelas classes dominantes – os rentistas da Avenida Paulista, as "elites" alienadas, a burguesia preconceituosa, um empresariado sem vínculos com os destinos do povo e de seu país. Uma "elite" movida pelo ódio e pela inveja que alimenta a vendeta. Denúncia, julgamento, condenação constituem uma só operação política, cujo objetivo é avançar mais um passo na consolidação do golpe em progresso iniciado com a deposição da presidenta Dilma Rousseff.
Tomado de assalto o poder, cumpriria agora destruir eleitoralmente a esquerda, numa ofensiva que lembra a ditadura instalada em 1964. Para destruir a esquerda é preciso destruir seu principal símbolo, assim como para destruir o trabalhismo caberia destruir o melhor legado de Getúlio Vargas. Não por mera coincidência, o dr. Sérgio Moro decidiu dar à luz a sentença a ele encomendada no dia seguinte em que o Senado Federal violentava a Consolidação das Leis do Trabalho. 
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Desinformando e formando opinião, exaltando seus apaniguados e difamando aqueles que considera seus inimigos, inimigos de classe, a grande imprensa brasileira promove o cerco político, e tece as base da ofensiva ideológica unilateral, porque produto de um monólogo.
Essa imprensa – um oligopólio empresarial, um monopólio político-partidário-ideológico e na verdade o principal partido da direita – que exigiu e obteve a condenação de Lula (e presentemente tenta justificá-la, embora carente de argumentos) recebeu com rojões juninos a sentença encomendada, mas logo se enfureceu porque Lula recusou o cadafalso político e anunciou sua candidatura à presidência.
Ora, dizem os editoriais, os articulistas, os colaboradores, dizem os "cientistas" políticos do sistema, Lula não pode ser candidato, o que revela a motivação da sentença. Já há "cientistas" exigindo que o TRF-4, em Porto Alegre, confirme sem tardança a condenação, e "filósofos" anunciando que a candidatura Lula é um desserviço à democracia (ela que lidera todas as pesquisas de intenção de voto) porque "polarizaria" o debate e as eleições. Doria, não. Bolsonaro, não. Caiado, não. Alckmin tampouco polariza. Mas Lula, sim; por isso precisa ser defenestrado. 
A "vênus de prata" já começou a campanha visando à condenação de Lula na segunda instância, e o Estadão (edição de 14 último) anuncia que o "Supremo deve manter condenação de Lula”.      
Somos testemunhas da tentativa de revanche da direita brasileira. Impedir a candidatura Lula é a defesa prévia ante a ameaça de a população demolir o golpe com as eleições de 2018.
O fato de o libelo (e jamais sentença) de Moro ser obra conhecida, segredo de polichinelo, não releva seu caráter mesquinho e iníquo, ademais de sua inépcia jurídica, desnudada. Do ponto de vista do direito, a "sentença" é um mostrengo e se fundamenta em ilações, presunções, talvez "convicções", artifícios de raciocínio em conflito com a lógica.
Contrariando o direito, que só conhece propriedade e posse, o juiz inventa a figura do "proprietário de fato". A propriedade, segundo nosso Código Civil, se prova mediante o registro em Cartório, mas para acusar Lula se aceita que uma simples delação do proprietário real seja recebida como transferência, e como esse proprietário supostamente doador, empreiteiro respondendo a processos, é usufrutuário de falcatruas, conclui o juiz açodado que o apartamento deve ter sido dado em retribuição a alguma facilidade propiciada pelo ex-presidente, trata-se, portanto, de uma propina. E se é propina, Lula é agente passivo de corrupção.
E por tais caminhos sinuosos, mediante tal exercício de lógica pedestre, condena à cadeia o ex-presidente, para puni-lo, evidentemente, mas para punir antes de tudo com a decretação de sua inelegibilidade. É disto que se trata. Não cabe, pois, discutir a gramática processualística, simples apoio formal de uma decisão eminentemente política, e, do ponto de vista político, um golpe preventivo em face das eleições de 2018, das quais previamente e precatadamente se elimina o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto. É preciso abater esse candidato, pelo que ele simboliza. E assim, e só assim, as eleições poderão realizar-se, disputada a presidência entre Francisco e Chico.
Como temos insistido, às forças do atraso não bastava o impeachment de Dilma Rousseff, pois, o projeto em andamento é a implantação de um regime de exceção jurídica voltado para a desmontagem de um projeto de Estado social, mal enunciado. E um regime com tais características e com tais propósitos jamais alçaria voo dependendo do apoio popular. Daí o golpe. À sua execução se entregou o Congresso, sem ouvidos para as vozes das ruas, surdo em face dos interesses do País e de seu povo, desapartado da representação popular, a serviço do mercado, como tonitrua, sem pejo,  o atual presidente da Câmara.
A eliminação de Lula é, pois, a conditio sine qua non do novo sistema para manter o calendário eleitoral, pois as eleições, para serem realizadas, não poderão importar em risco. De uma forma ou de outra, trata-se de um golpe, afastando-se uma vez mais do povo o direito de escolher seus dirigentes.  
A identificação de Lula como alvo da reação não é gratuita, nem fato isolado. Lula de há muito transcendeu os limites de eventual projeto pessoal, é mais do que um ex-presidente da República, e é muito mais que fundador e presidente do PT. Independentemente de sua vontade e da vontade de seus inimigos, é, para além  de sua popularidade, o mais destacado ícone da esquerda e das forças populares brasileiras. Lula é, hoje, e em que pesem suas contradições, um símbolo, um símbolo da capacidade de nosso povo fazer-se agente de sua História. É um símbolo das possibilidades de o ser humano vencer suas circunstâncias, romper com as contingências e fazer-se ator. Simboliza a potência do povão, do povo-massa, dos "de baixo", dos filhos da Senzala como sujeitos históricos. Simboliza a possibilidade de o homem comum, um operário, romper com as amarras da sociedade de classes, racista e preconceituosa, e liderá-la num projeto de construção de uma sociedade em busca de menos desigualdade social. Por isso é amado e odiado.
Símbolos assim constituem instrumentos de importância capital nos confrontos políticos por sua capacidade de emocionar e mobilizar multidões. Símbolos deste tipo não surgem como frutos do acaso nem se multiplicam facilmente, nem se constroem da noite para o dia. Emergem em circunstâncias especiais, atendendo a demandas concretas da sociedade. São construídos ao longo de certo tempo de provação, de testes dolorosos, como ocorre com os heróis clássicos, percebidos pela comunidade como portadores de virtudes.
O símbolo Lula não é produto do acaso, nem consequência de um projeto individual. Trata-se do fruto histórico resultante do encontro do movimento sindical com as lutas populares, construindo a primeira liderança política brasileira que emergiu do proletariado, do chão de fábrica, para a Presidência da República. Um feito de dificílima repetição, neste país aferrado ao autoritarismo conservador.   
É contra esse instrumento da luta política de massa que se arma a prepotência das classes dominantes brasileiras, filhas do escravismo, incuravelmente reacionárias, incuravelmente atrasadas, presas à ideologia da Casa Grande, desapartadas dos interesses do povo e da nação, descomprometidas com o futuro do país.
Ao abater Lula, pretende a direita brasileira dizer que o povo – no caso um ex-imigrante do Nordeste profundo, sobrevivente da fome, um ex-metalúrgico, um brasileiro homem-comum, um dos nossos –, não pode ter acesso ao Olimpo reservado aos donos do poder. É um "chega prá-lá", um "conheça o seu lugar", um "não se atreva", um "veja com quem está falando".
 A condenação de Lula tem o objetivo de barrar a emergência das massas, barrar os interesses da nação, barrar o avanço social, barrar o ideal de um Brasil desenvolvido e justo. Visa a barrar não o lulismo, mas todo o movimento popular brasileiro. Quer deter não apenas o PT, mas todas as organizações políticas do espectro popular (que não se enganem a esse respeito aqueles que sonham em crescer nos eventuais escombros do lulopetismo).

A defesa de Lula, a partir de agora, não é uma tarefa, apenas, de seu partido e dos seus seguidores. Ela representa, hoje, a defesa da democracia. É só a primeira batalha, pois muitas nos aguardam até 2018".  

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ALCATEIA



A verdadeira natureza do CDS e do PSD é a que aí está, na miserável tentativa de aproveitamento político de quem morreu  num incêndio de verão; nesse desbragado saborear do roubo de armas num paiol do exército, que procuram somar rasteiramente  aos cidadãos que morreram.

Aflitos pelo esquálido apoio popular que lhe sugeriam as sondagens, os “crísticos” do CDS  e os “coelhosos” do PSD agarraram-se a uma desgraça e a um roubo, como duas bóias de salvação, para  através delas poderem atacar e desgastar o Governo.

Uma estranha alcateia de plumitivos graves, de inesperados especialistas todo o terreno, de carpideiras zelosas e de hienas piedosas, associa-se à direita encartada num enjoativo festival de imputações rápidas, ansiosas por decretarem em praça pública o linchamento sumário deste governo.

Esta não é a sociedade que o povo de esquerda almeja,  esta não é a nossa sociedade; por isso é preciso melhorá-la, tornando-a outra. Isso não impede que seja nossa responsabilidade responder com eficácia às adversidades que nela ocorram e construir uma solidariedade que atenue o sofrimento das possíveis  vítimas dos seus defeitos. 

É nossa responsabilidade como partes do povo de esquerda, como apoiantes deste  governo, como cidadãos que lutam por um futuro mais justo. E naturalmente responsabilidade do nosso Governo, deste governo. Por isso, sendo quanto a ele total a solidariedade que lhe devemos, é também total , em face dos seus deveres, a nossa exigência.

Solidariedade e exigência eis o que devemos a este governo. Quanto à segurança das pessoas e quanto à segurança das armas. Estas vítimas, quaisquer vítimas, os seus entes queridos e os seus amigos, merecem o nosso respeito e a nossa tristeza. Não lhos regateamos. Merecem solidariedade e apoio. Não podemos deixar que lhes faltem.

Mas não podemos sofrer  quando há  vítimas  por causa de um incêndio, mas ignorá-las se morrerem às mãos da exclusão social gerada por uma sociedade desigual, às mãos da pobreza. Queremos uma sociedade que faça diminuir todos os riscos para todos os tipos de vítimas, não apenas para alguns. Não lamentamos algumas vítimas para apagarmos a culpa de causarmos outras. Não ficcionamos o paroxismo da indignação quanto às vítimas dos incêndios, para compensarmos a nossa defesa de uma sociedade desigual que condena os mais desfavorecidos a uma exposição permanente à desgraça.

A direita é a conservação das desigualdades que temos, da injustiça estrutural da sociedade. Em muitos casos, chora no imediato por causa das consequências a longo prazo  do modelo de sociedade que defende. A esquerda só tem razão de ser como insurreição contra a injustiça e como solidariedade permanente em face das suas vítimas. A direita, no caso em apreço, procura aproveitar-se da existência de vítimas para conseguir o que não consegue de outra maneira. Em contraponto, o dever deste governo, tal como de todo o povo de esquerda, é praticar uma solidariedade plena em face das vítimas do incêndio, bem como de todas as outras vítimas e pugnar para, no futuro, minorar acidentes e sofrimento.


O CDS , o PSD e a alcateia que os segue têm mostrado o que são e quem são. Por isso, socialistas, gente do PS, não nos esqueçamos. Aprendamos de uma vez por todas que com gente desta não se fazem acordos políticos. Nunca!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?



A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?

Só o decurso do próximo quinquénio da Presidência de Mácron em França nos dirá se a sua entrada de rompante na cena política assinala o princípio do fim da quinta república ou o seu renascimento.
 
A primeira volta das eleições legislativas confirmou a vaga de fundo a seu favor que as sondagens haviam anunciado. Embora só após a segunda volta se fique a saber a dimensão da vitória do “La Republique en Marche“ (LRM), não há dúvida de que ela será retumbante, quanto ao número de deputados eleitos. Feitas as contas, talvez seja mesmo impossível que lhe venha a escapar a maioria absoluta, mesmo que haja uma reviravolta improvável, na segunda volta.
 
As projeções de resultados apontam como possível que os macronianos tenham mais do dobro dos deputados de todos os outros partidos juntos; entre 415 e 455 num parlamento com 577 lugares. Deste modo, na Assembleia Nacional o seu predomínio será esmagador. Veremos que força virão a ter no Senado, bem como  nos órgãos de poder regional e local, dada a anunciada deserção a seu favor de alguns dos respetivos protagonistas, vindos da esquerda e da direita.  
 
Mas o binómio Presidente da República/ maioria parlamentar, com esse peso institucional avassalador, que base eleitoral terá, em termos reais? Que percentagem do eleitorado votou nos deputados macronianos? Quantos franceses votaram neles, nesta primeira volta das legislativas?
 
O jornal francês  “Le Monde” publicou uma análise comparativa que vale a pena ter em atenção. Comparou as percentagens obtidas pelo partido ou partidos que apoiaram o Presidente da República eleito nas primeiras eleições legislativas subsequentes à respetiva eleição. Tendo em conta situações semelhantes que ocorreram em 1981, 1988, 2002, 2007 e 2012,a percentagem obtida pelos apoiantes de Mácron, na primeira volta das legislativas de 2017, foi a mais baixa de todas; obteve 32,2 %, dos quais 28,1% foram conseguidos pelo LRM. Se compararmos com o que ocorreu com Hollande há cinco anos, verificamos que na primeira volta das legislativas subsequentes à sua eleição, os partidos que o apoiavam obtiveram 46,77 % , tendo o PSF sozinho atingido 29,35 %.
 
Paralelamente, a abstenção subiu, de uma eleição para a outra, mais de 5 milhões de eleitores. Na primeira volta destas últimas legislativas, os partidos de esquerda (como um todo) foram laminados, embora o desastre do PS tenha sido de longe o maior e tenha havido um reforço da França Insubmissa/Partido Comunista Francês (FI/PCF). Somando as percentagens atingidas por todas as esquerdas, vemos que elas chegaram a 28,32%, em confronto com os 32,21 % da maioria macroniana. A maioria macroniana tem duas parcelas, LRM -28,21% e MODEM -4,11%. Assim, o conjunto de todas as esquerdas tem uma vantagem muito ligeira em número de votos relativamente aos macronianos “puro sangue”.
 
No entanto, as projeções apontam para uma relação de forças em número de deputados em que a maioria macroniana pode chegar aos 455 deputados eleitos, enquanto que as esquerdas somadas, na pior das hipóteses, podem ficar-se pelos 27 deputados (20-PS; 7- FI). O que separa os dois blocos, no plano do apoio popular efetivo, é a diferença entre sete milhões e trezentos mil e seis milhões e quatrocentos mil eleitores. Diferença distorcida pelo tipo de conversão de votos em mandatos que faz com que uma relação de forças, em que a vantagem da maioria presidencial se reduz ao peso do MODEM (4%), se converta na abissal diferença entre 455 e 27.
 
Esta anomalia  democrática, suscitada pelo cruzamento entre um sistema uninominal a duas voltas e uma nova relação de forças entre os grandes espaços políticos franceses, não se circunscreve ao que se acaba de escrever. Recorramos, uma vez mais , ao Le Monde  que procedeu a um cálculo simulado que mostrasse quantos deputados teriam sido eleitos por cada partido  para o parlamento francês, no caso de os votos obtidos no passado domingo terem sido convertidos  em mandatos segundo o método proporcional. A maioria presidencial de Mácron, em vez de se fixar em 455 deputados, como as projeções mais otimistas lhe vaticinam no quadro do atual sistema eleitoral, ficar-se-ia pelos 186; ou seja, mais de cem deputados abaixo da maioria absoluta ( que é de 289). Os socialistas e aliados teriam 80 deputados em vez de um máximo de 30; a FI e o PCF teriam 84 em vez de 12.
 
Ou seja, o conjunto da esquerda, com 164 deputados, ficaria com menos 22 deputados do que os 186 de Mácron. No atual sistema de distribuição de mandatos, com a mesma diferença em número de votos a esquerda no seu todo poderá ficar, na melhor das hipóteses com 42 deputados em face dos 455 dos macronianos. Ou seja, com menos 4% de votos do que a maioria presidencial, a esquerda  ficará com menos de um décimo dos deputados que caberão aos macronianos.
 
O resto da Assemblée Nationale agrava a disfuncionalidade deste panorama. A FN, que poderá ter no máximo 5 deputados no sistema atual teria 85, se o escrutínio fosse proporcional. Apenas a direita tradicional é menos severamente atingida. Na verdade, conta-se que tenha no máximo 110 deputados no sistema vigente, enquanto chegaria aos 124 numa distribuição proporcional. No total, a maioria presidencial ficará com mais de 78% dos deputados, embora só disponha de menos de um terço dos votos; mas os outros dois terços de votos ficarão representados por pouco mais de 20% dos deputados.
 
De um ponto de vista institucional, a legitimidade de Mácron  e da maioria parlamentar que o apoia é inquestionável, mas os cidadãos que o apoiam não se multiplicam por prestidigitação e os que não se reveem no seu projeto não se evaporaram. Em mais de 45 milhões de inscritos, houve mais de 24 milhões de franceses que se abstiverem, não tendo assim votado nem nos apoiantes de Mácron, nem nos outros. Ao fim e ao cabo, apenas 7 milhões e trezentos mil franceses se mostraram identificados com o projeto Mácron, enquanto mais de 15 milhões e quinhentos mil se mostraram alinhados com outras posições ao votarem nelas . Portanto, a enorme vaga institucional de apoio a Mácron não pode deixar de ser redimensionada, à luz da relativa modéstia da sua efetiva irradiação social.
 
É certo que ele vai ter a força que resulta do enfraquecimento dos outros. A direita clássica ainda não sabe a extensão dos danos sofridos, não calculou ainda o grau de oposição que vai ter  e os seus punhais já a ser afiados não sabem ainda em que costas “amigas” se vão cravar. A extrema-direita está em pausa, hesitando entre a continuidade e a habilidade, esperando perceber que espaço sociopolítico lhe vai ser concedido pelo macronianismo. À esquerda, os ecologistas parecem em suspenso, vagamente receosos de uma irrelevância duradoura. A FI tornou-se, em conjugação com o PCF, a força numericamente predominante á esquerda, ainda que não deva vir a ter o conjunto de deputados relativamente mais numeroso. A conjugação deste reforço com a perenidade ou não do PCF projeta neste espaço uma equação complexa.
 
Quanto ao Partido Socialista Francês passou de 29,35 % de votos na primeira volta das legislativas de 2012, para 7,44%, cinco anos depois; tendo perdido quase seis milhões de votos nestes últimos cinco anos. Despindo-o dos seus aliados habituais, ele próprio considerado isoladamente ficou ligeiramente abaixo de um milhão e setecentos mil votos. Não é neste momento totalmente clara a medida em que está internamente dilacerado entre dinâmicas inconciliáveis. É ainda incerto se tentará liderar uma esquerda, no seio da qual conviverá outros sujeitos políticos, se será vítima de uma fatal atração pela maioria presidencial, se será repartido entre esses dois caminhos.
Depois do próximo domingo, voltaremos a falar sobre tudo isto. Especialmente, a propósito do PSF; dos seus desígnios e do seu horizonte.
 
Com o tempo irá ficando inequivocamente a descoberto a matriz do macronianismo, cujo primeiro-ministro é já hoje um antigo expoente da direita clássica. O que ocorreu nestas duas mais recentes eleições de maio e junho, é desde já um golpe profundo nos socialistas franceses, que vem somar-se a outros desaires socialistas noutros países, se bem que não em todos. Só por isso, teria sido um golpe relevante no panorama politico-partidário da França. Mas o que acabo de escrever mostra bem que, mais do que isso, o que está em cima da mesa é uma crise profunda no sistema político francês.
Na verdade, é uma aventura imprudente aceitar um tipo de conversão de votos em mandatos que empola escandalosamente uma minoria, por ser ela a maior minoria , em detrimento de várias outras minorias que sendo menores, uma a uma, consideradas em conjunto valem o dobro daquilo que vale a minoria maior; aquela  que se prepara para um açambarcamento desmesurado do poder.  
 
O foguetório dos “robertos” da comunicação social  europeia festejou a derrota da extrema-direita representada pela vitória de Mácron. Mas nada pode ser mais favorável á FN em França do que ficcionar como democraticamente aceitável o exercício de um poder baseado num sistema eleitoral que dá o predomínio absoluto a um terço do eleitorado e deixa fora do jogo institucional os outros dois terços. Esta relativização da democracia, se for por diante com a arrogância que se já se adivinha  e com o menosprezo das minorias e mundo do trabalho, pode fazer exultar os alegados mercados, mas não deixa de ser, principalmente, uma inesperada vitória simbólica da Frente Nacional.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

O resultado oculto das eleições britânicas



O resultado oculto das eleições britânicas
As diversas tonalidades de opinião, quanto ao resultado das recentes eleições britânicas, não se afastam muito da imagem geral de um punição à sofreguidão da líder do governo conservador, quando provocou a antecipação de eleições para tornar mais forte a maioria absoluta de que o seu partido já dispunha no parlamento. Teria , aliás, querido matar dois coelhos com uma cajadada: ficava com uma posição mais forte para negociar o “brexit” com a União Europeia e reduzia a uma dramática insignificância os trabalhistas, aos quais as sondagens colocavam com uma desvantagem de 20%.

Uma dramática insignificância que era especialmente aliciante para a Srª May , dado que a esperada  derrocada dos trabalhistas seria a alegada consequência do posicionamento político  do seu líder, que os arautos  e os escudeiros do pensamento único consideravam como demasiado à esquerda, demasiado radicado no imperativo de superação das dificuldades dos britânicos que realmente as têm.

Na verdade, a Srª May ficou abaixo da maioria absoluta na Câmara dos Comuns, precisando de um acordo, que se adivinha volátil, com os unionistas irlandeses, para ter possibilidades de formar governo. Com os seus 318 deputados, precisa dos 10 dos unionistas para passar a barreira dos 326 votos de que necessita. Ficará com uma coligação ou com um acordo mais frágil do que aquilo que era a maioria exclusivamente do seu partido antes das eleições. Os trabalhistas terão 262, os nacionalistas escoceses 35 e os republicanos irlandeses 7.

Do ponto de vista institucional, o significado político dos resultados verificados é realmente o que se acaba de mencionar. Um significado que é a projeção da relação de forças em termos de apoio popular, no modo de distribuição de mandatos inerente ao sistema eleitoral britânico.

Mas isso não impede que seja relevante olhar também para esses resultados eleitorais, valorizando o apoio popular obtido por cada partido, o número de eleitores que optaram por cada um dos partidos. E, assim, vê-se desde logo que os conservadores chegaram aos 42,4%, subindo 5,5 % em relação às anteriores eleições; enquanto os trabalhistas chegaram aos 40%, subindo 9,6 %. Ou seja, os alegados 20% de diferença prometidos nas sondagens, ficaram reduzidos a uns magros 2,4 %. Ou seja, em termos de apoio popular os trabalhistas de Corbyn, apesar da barreira de hostilidade que enfrentou, ficaram a 2,4% dos conservadores, apesar destes terem subido 5,5 %. Parece assim que a Srª May não se enganou quanto ao reforço de apoio que realmente obteve, mas quanto ao apoio popular a uma agenda de esquerda centrada na luta contra a desigualdade e radicada numa aspiração frontal por uma sociedade mais justa. Ela partiu do pressuposto de que Corbyn seria o coveiro dos trabalhistas, quando afinal lhes trouxe um vigor renovado.

Mas esta relação de forças não pode ser verdadeiramente avaliada, se for esquecido que a direita radical, que foi uma alavanca decisiva para a ocorrência do “brexit”, o UKIP, ficou reduzida a 1,8 % (zero deputados), tendo por isso descido 10.8 % desde as eleições anteriores. Isto sim foi um desmoronamento. E os conservadores puderam absorver uma parte do que antes haviam perdido para a direita radical.

Os liberais democráticos, tidos como os campeões da coerência anti--brexit, tendo subido 3 lugares, perderam no entanto 0,5 % do voto popular.

Os nacionalistas escoceses, embora continuando a ser na Escócia o partido mais forte, perderam 19 deputados em 54, ficando apenas com 35, passando assim à escala nacional de 3% para 1,7%.

Algumas conclusões parecem nítidas perante o apoio popular obtido pelas diversas posições. Desde logo, vê-se que os britânicos, embora não indiferentes ao problema do “brexit”, estão mais preocupados com as políticas que internamente vão condicionar a sua vida do que com a alegada performance negocial no plano europeu, deste ou daquele. Nem o UKIP foi recompensado pela sua vitória no referendo pelos que o apoiaram, nem os liberais democratas foram compensados pelo seu europeísmo claro, pelos que são contra o “brexit”.

No seu conjunto, os dois maiores partidos superaram a barreira dos 80% dos votos, repartindo o apoio eleitoral obtido em partes quase iguais. Mas a grande novidade está no facto de os trabalhistas terem atingido os 40%, subindo assim quase dez por cento, com uma proposta política inequivocamente situada á esquerda, esvaziando assim a velha lenda de  que a esquerda só pode ganhar um apoio eleitoral significativo se fizer concessões á direita, de modo a fazer-se passar por uma esquerda  que afinal é centro.

É certo que os “chiens de garde” , os ideólogos do neoliberalismo qualificam como de um século passado todas as propostas que visem uma demarcação em face da atmosfera predatória do capitalismo atual, ambicionando  uma sociedade menos injusta  porque mais igualitária. Propostas que reflitam uma efetiva determinação em acabar com a pobreza, em cortar nos privilégios, suscetível de abrir as portas a um futuro decente para todos. É muito antigo o expediente de qualificar sumariamente como do passado aquilo que não se sabe ou se não quer combater substancialmente em campo aberto no presente . Na verdade, esse expediente é que é realmente do passado.

Mas talvez o mais decisivo tenha sido o facto de Corbyn ter deixado transparecer que o cerne do seu envolvimento político não era uma simples oferta de um programa eleitoral, mas a partilha de um combate. Ora, o povo de esquerda está cansado de ser laminado pela máquina trituradora do neoliberalismo, enquanto partidos que deviam ser seus se mostram mais inclinados a agradar aos poderes económicos de facto do que a ocupar dentro do povo de esquerda o lugar que justifica a sua própria existência. E ele ouve cada vez menos quem apenas lhe peça para votar periodicamente num programa mais ou menos redondo, onde apenas reluz aquilo que mais longe está de poder ser cumprido por quem continuar manso como de costume.

Em contrapartida, o povo de esquerda tem vindo a dar, em diversas circunstâncias  num e noutro país, sinais inequívocos de que está disposto a bater-se e mesmo  a confiar nos partidos que não se conformem com o tipo de sociedade hoje dominante, mostrando-se capazes de apostar na sua transformação, rumo a um pós-capitalismo democrático e emancipatório.

 Os povos parecem cada vez menos dispostos a ser dóceis e a  aceitarem que a máquina trituradora do capitalismo lhes esmague o futuro, sempre legitimada pelos que lhe dizem que não há outra solução. Falta saber se encontrarão um caminho que os transforme numa energia qualificante que possa fazer acontecer a esperança ou se ficarão aprisionados num desespero estéril  que apenas seja suscitável de fazer implodir o que existe numa deriva dissipativa e fatal.

Se os partidos de esquerda forem capazes de ser parceiros fraternos dos seus povos, mergulhando neles as suas raízes, partilhando com eles a procura de uma verdadeira superação democrática do capitalismo, a primeira hipótese é mais provável. Mas se forem enredados nas suas próprias tergiversações ou se sucumbirem à sofreguidão de um imediatismo atabalhoado, estarão a contribuir para que seja maior o risco da verificação da segunda hipótese.

Não deixemos pois reduzir o resultado das recentes eleições britânicas a esse croquete de evidências e banalidades que procura fazer luzir ao máximo as aparências, para que desistamos de pensar no que realmente ele nos mostra. Isto naturalmente sem o encarar como uma dádiva que apenas  nos caiba fruir; mas vendo-o como um sinal incontornável que vale a pena e é possível  lutar politicamente por um futuro mais justo.

Como apontamento caricatural e simbólico, Tony Blair, esse brilhante sargento do general Bush, veio publicamente antes da campanha juntar-se á matilha, tentando apoucar Corbyn. Julgou-o talvez moribundo, mas o que realmente deixou a descoberto foi  a fraqueza da sua lealdade e a falta de decência para com o partido que liderou e para com algué que ocupa hoje a posição que ele antes ocupara. Talvez tenha sido pedagógico,  porque nos fez  lembrar quem realmente é e nos fez recordar a medida em que contribuiu, com a sua via de rendição ao neoliberalismo, para o enfraquecimento dramático de alguns dos partidos que integram o Partido Socialista europeu e que seguiram por ela.

Tavez , Corbyn não lhe tenha ligado muito, mas implicitamente deu-lhe uma resposta demolidora. E tornou ainda mais difícil de contornar a evidência de que o “blairismo” é uma política morta, marcada indelevelmente por uma imprestável cobardia estratégica.