quinta-feira, 20 de agosto de 2015

O BRASIL NO SEU LABIRINTO - 3


Vou hoje transcrever mais um texto da página virtual da CartaCapital, revista brasileira a que recorreo frequentemente , datado do passado dia 18 de agosto, que pode ajudar a compreender o que se está a passar atualmente no Brasil, ao trazer-nos um tipo de informação diferente daquele que nos é dado por outros textos já aqui divulgados. O seu autor é Renan Truffi, repórter  da CartaCapital. “Quem são os manifestantes de 16 de agosto ?"    é a pergunta a que o texto procura responder.” Ei-lo:

“Apesar de ter sido o terceiro grande protesto contra o governo petista e pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a manifestação de 16 de agosto mostrou que essa série de movimentos continua sendo constituída majoritariamente por uma única camada da sociedade brasileira.
É o que revela uma pesquisa com os participantes do ato em São Paulo, estado com o maior número de manifestantes. O perfil de quem tomou as ruas da capital paulista é: homem (57,30%), branco (73,60%), com idade entre 30 e 60 anos (59,2%), renda familiar superior a R$ 3.940 reais (70,9%) e alto nível de escolaridade (65,40%).
“A nossa ideia era um pouco ver se o protesto continuava homogêneo, pessoas com ensino superior completo, brancas. E a primeira conclusão é que o protesto não conseguiu incluir outras classes sociais. É um protesto muito excludente”, afirma Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ela conduziu o estudo com Pablo Ortellado, filósofo da Universidade de São Paulo (USP), e Lucia Nader, da Fundação Open Society, para o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, da USP. O levantamento foi realizado junto a 405 pessoas, entre as 12  horas as 17 horas e 30 minutos do domingo 16, em toda a extensão da Avenida Paulista, tem 95% de nível confiança e margem de erro de 4,9%.
Segundo o estudo, os homens representam 57,30% do público, contra 42,70% das mulheres. A maioria das pessoas possui ensino superior completo (65,40%), enquanto que 13,30% estudaram somente até o ensino médio.
A faixa etária mais representativa é de pessoas com idade entre 50 e 60 anos (22,70%), seguida dos manifestantes que têm entre 30 e 40 anos (22,20%) e daqueles que possuem entre 20 e 30 anos (19,30%).
Na questão da classe social, a maioria (28,9%) possui renda familiar entre 7.880 e 15.760 reais. O segundo grupo mais representativo é o dos que possuem renda familiar com valor entre 3.940 e 7.880 reais: eles são 22,5% dos ouvidos na pesquisa. Além disso, 19% das pessoas dizem ter renda de mais de 15 mil reais.

Quase metade dos manifestantes (48,4%) tem renda superior a 7 .880 reais

A pesquisa também ajuda a desmistificar a tese de que, assim como os grupos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, que organizam os protestos, os manifestantes tenham um pensamento liberal sobre questões que envolvam a presença do Estado na vida dos cidadãos.
Os pesquisadores questionaram as pessoas sobre seus direitos e a grande maioria se mostrou a favor de educação (86,9% dos entrevistados) e saúde (74,3%) providas de forma gratuita. Somente a gratuidade dos serviços de transporte foi rejeitada pelos participantes (48,90%) do protesto em São Paulo.
Apesar de defenderam serviços públicos gratuitos, mais de 80% dos manifestantes também se mostram a favor da redução de impostos de uma maneira geral no País. A explicação para essa contradição pode estar em outra pergunta da pesquisa: quase 90% dos entrevistados acredita que o problema da má qualidade nos serviços públicos se deve à corrupção. Outros 93% colocam o problema como resultado de má administração, e 73% discordam de que a razão seja a “falta de recursos” para manter serviços para todos.
Outra questão foi sobre o financiamento empresarial de campanha. Entre as pessoas que estavam presentes na avenida Paulista, 73% não concordam com esse modelo de financiamento eleitoral. Outros 17,8% defendem o formato e 8,6% dizem que não têm uma opinião sobre o assunto.
A pesquisa também se debruçou sobre as opiniões dos manifestantes quanto ao sistema político. Praticamente todas as pessoas que foram protestar na avenida Paulista, aproximadamente 96,80%, estão insatisfeitas com a política no Brasil. Mas a maioria delas, ou 64,20%, pensa que a solução para a crise política é “entregar o poder para um político honesto”.
Outra parcela considerável (43,70%) pensa que os problemas serão resolvidos se o poder ficar a cargo de um juiz honesto, o que remete a figuras como as do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa e o juiz Sérgio Moro, à frente da Operação Lava Jato.
Se, por um lado, os manifestantes parecem acreditar em uma solução personalista, uma esmagadora maioria (71,10%) rejeita entregar o poder para os militares.
A percepção da corrupção no Brasil também parece variar, mais ou menos, de acordo com o escândalo citado. Aproximadamente 99% dos entrevistados consideram graves as descobertas da Operação Lava Jato e do “Mensalão”. Esse percentual diminui um pouco quando o assunto é o “mensalão do PSDB” e esquema de cartel no Metrô de São Paulo. Ainda assim, mais de 80% dos entrevistados os classificam também como graves.
Parte dos entrevistados nega gravidade de casos como o mensalão do PSDB e mal conhece Operação Zelotes

A diferença é mais significativa, no entanto, quando se trata da Operação Zelotes, que investiga 74 processos de sonegação de impostos por parte de empresas, entre 2005 e 2013, que envolvem um montante de 19 bilhões de reais. Neste caso, 58,80% dos manifestantes admitem que o caso também é grave, enquanto que 38% não sabem classificar a denúncia.
O que explica, então, o fato de os protestos se voltarem somente contra o PT? “A percepção é de que as pessoas acham que o sistema todo é corrupto. Aí o jogo dos organizadores é canalizar esse descontentamento geral com o sistema só no PT. O PMDB está sendo poupado de tudo, não é alvo, mas é considerado altamente corrupto”, afirma Esther.
Esse fenômeno apresenta uma variação maior quando os manifestantes são questionados sobre figuras políticas. Quase 90% responderam que consideram a presidenta Dilma Rousseff (PT) corrupta. O percentual é maior ainda sobre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), considerado um político envolvido em corrupção para 93,80%.
Apesar de rivalizar com o governo petista, nem o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), passa ileso : mais de 70% dos entrevistados o considera corrupto. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), também é colocado no mesmo grupo por 77%.
Já o governador do Estado, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), é classificado como corrupto para apenas 41,70%, contra 36,30% que rejeitam acreditar na participação dele em esquemas. O senador Aécio Neves (PSDB-MG) também é corrupto para 37,80%, enquanto outros 35% negam essa pecha para o tucano.


terça-feira, 18 de agosto de 2015

MANUEL ALEGRE toma posição quanto às Presidenciais.



No DN de hoje vem publicado um texto de Manuel Alegre que divulga publicamente o seu apoio à provável candidatura presidencial de Maria de Belém. Estamos perante um valioso apoio, mas também perante um facto político relevante.

Na verdade, alguns adversários desta possível candidatura tinham vindo a tentar colar-lhe o estigma de ser uma candidatura confinada a uma facção interna do PS, que cristalizava recentes divisões em disputas internas, além de a procurar situar numa alegada direita interna do PS, da qual seria apenas mais uma expressão. Esta dupla tentativa de estigmatização era em si própria uma falsificação da realidade. A candidatura de Maria Belém, espelhando sua a história pessoal, de modo nenhum podia ser confinada  aos espaços alegados. O artigo de Manuel Alegre veio sublinhar e documentar o que acabo de dizer. Insistir nas imputações redutoras acima referidas traduzirá, daqui para a frente, uma pura agressão propagandística.

É tempo de legislativas. O quadro dos candidatos  presidenciais à esquerda está agora mais claramente definido, embora possa não estar ainda completo, pela possível emergência de candidatos apoiados pelo PCP e pelo BE. As candidaturas de Maria de Belém e de Sampaio da Nóvoa partilham estruturalmente um espaço político, ainda que nesse campo não sejam completamente sobreponíveis. 

Disputam a preferência dos eleitores, não concorrem a um qualquer campeonato de agressões mútuas. Se entre elas o combate for de ideias e de propostas, com drástica subalternização de ataques e imputações pessoais, ambas se dignificarão com isso e dentro da esquerda começar-se-á a ganhar o hábito de se discordar e de se competir cordialmente. Isto é em si positivo, mas quando se percebe que uma das candidaturas precisará dos votos dos apoiantes da outra numa segunda volta, fica clara a razão porque isso será indispensável.

Recordemos, com a devida vénia, o texto de Manuel Alegre hoje saído no DN :

Apoiarei Maria de Belém
por MANUEL ALEGRE

Era minha intenção não me pronunciar sobre presidenciais antes das legislativas, que são, para os socialistas, a prioridade das prioridades.
Mas algumas afirmações feitas ultimamente sobre a pessoa de Maria de Belém obrigam-me a tomar posição.
Está confirmado que Maria de Belém comunicou ao secretário-geral do PS que se candidatará à Presidência da República. É um direito que lhe assiste, merece respeito e não pode ser posto em causa por considerações táticas, interpretações sectárias e inaceitáveis ataques de carácter.
Começo por lembrar que Maria de Lourdes Pintasilgo e eu próprio fomos pioneiros de candidaturas cidadãs à Presidência da República. A engenheira como inde- pendente, eu como militante do PS, embora sem o apoio da sua direção. As candidaturas presidenciais são, por excelência, o espaço da cidadania. Mas este tanto existe dentro como fora dos partidos. Ninguém tem o exclusivo da cidadania. Ser membro de um partido não constitui uma menoridade cívica, como ser independente não confere a ninguém um estatuto de superioridade sobre quem assume a sua filiação partidária.
Posto isto, declaro que a candidatura de Maria de Belém terá o meu apoio. Não tanto por ela ter sido mandatária nacional da minha segunda candidatura, nem por termos estado juntos no Congresso do PS em 2004, defendendo os mesmos valores contra a versão portuguesa da tentação blairista. Mas porque Maria de Belém é uma socialista substantiva, com uma longa biografia política e provas dadas na luta pelos valores da liberdade, pelos direitos sociais, pela igualdade de género e pelos serviços públicos que simbolizam a natureza progressista e igualitária da nossa democracia: Serviço Nacional de Saúde, escola pública, Segurança Social. Sabe-se quem é, que posições tomou, que causas defendeu, em quem votou. A sua atividade, tanto nas lutas académicas anteriores ao 25 de Abril como no processo da construção da democracia, foi sempre orientada pela recusa de qualquer forma de ditadura, pela defesa da liberdade e da justiça social.
É tempo de Portugal ter uma mulher na Presidência da República. Muitas das críticas a Maria de Belém partem de preconceitos sexistas e machistas.
Não há proprietários da esquerda nem monopólio de candidaturas. Maria de Belém, ao contrário do que alguns disseram, não divide, não fratura nem é redutora, antes tem condições para unir, alargar e mobilizar aqueles que, dentro e fora do PS, na sociedade civil e em diversificados setores da vida pública, desejam a mudança, um presidente que respeite a Constituição e seja, de facto, o presidente de todos os portugueses.
Apoiarei uma candidatura de Maria de Belém porque não me considero órfão de ninguém nem admito que o PS e a esquerda se resignem a perder a eleição presidencial. Estes quatro anos de "uma maioria, um governo e um presidente" mostram que, se é fundamental ganhar as legislativas, seria um erro imperdoável menosprezar a importância decisiva das eleições presidenciais. Não vale a pena alimentar ilusões sobre uma hipotética coabitação com outro presidente de direita, fosse ele qual fosse. A experiência de Cavaco Silva devia ter vacinado de vez os socialistas, toda a esquerda portuguesa e todos os que prezam a função institucional do PR como árbitro e garante das instituições democráticas.
A candidatura de Maria de Belém é, em si mesma, um ato de coragem cívica, essencial a qualquer combate político. Partindo da esquerda socialista, terá a abrangência e transversalidade indispensáveis a uma candidatura vencedora. Conheço a sua capacidade de debate e a sua consistência política aliadas a um profundo sentido de tolerância e solidariedade. Maria de Belém é uma falsa frágil. Essa é a sua força. Tem condições para derrotar qualquer candidato de direita.


sexta-feira, 14 de agosto de 2015

O BRASIL NO SEU LABIRINTO - 2


Mino Carta é um dos mais representativos jornalistas da revista brasileira CartaCapital. Os seus textos, independentemente de com eles concordarmos , dão-nos informação honesta e crível, ajudando-nos a pensar.
Vou transcrever um artigo seu, publicado hoje (14/08/2015) na página virtual da referida revista. Ele comenta a atual conjuntura política brasileira. Intitula-se : “A fênix nativa”; e tem como sub-título: “Se o golpe não convém ressuscite-se a conciliação”.
É muito esclarecedor. Ei-lo:Info

“Com K ou sem K, a palavra caos se oferece a diversas interpretações. Em 1964, havia quem acreditasse que o golpe de Estado salvaria a pátria ao sustar o caos no nascedouro. Passados 51 anos, não falta quem entenda que do golpe nasceria o caos.

Cinquenta e um anos atrás, e mesmo desde agosto de 1961 com a renúncia de Jânio Quadros, a casa-grande deu para sentir-se ameaçada por Jango Goulart, o vice alçado à Presidência. O mundo era outro, dividido ao meio entre dois impérios, beligerantes de uma guerra dita fria. Os graúdos nativos apreciavam a condição de súditos do império do Oeste, o qual padecia, porém, de uma espinha no flanco, fincada bem ali a 100 quilômetros da Flórida, Cuba fidelista.

Jango ostentava um passado buliçoso, a começar pela origem getulista, e a prosseguir pela valente militância petebista, sem exclusão da perigosa proximidade com o cunhado Leonel Brizola. Só faltava chamar San Tiago Dantas para a Chancelaria. Implorada pela casa-grande e seus porta-vozes midiáticos, sustentada por Washington, a intervenção militar se deu sem derramar uma única, escassa gota de sangue nas calçadas. Falsos pretextos fazem parte do jogo.

O golpe de 64 é uma das grandes desgraças brasileiras, a mais recente. Interrompeu um processo natural que, ao longo dos anos, décadas talvez, demoliria a casa-grande e a senzala. Sofremos até hoje suas consequências.

Em relação à situação atual, gravemente turvada pelo descontrole parlamentar, pelo fracasso petista, pelo reacionarismo tucano, pelo terrorismo da mídia em meio a uma profunda crise econômica provocada tanto pela fé neoliberal que assola a Terra quanto por erros governistas, a posição de CartaCapital já foi exposta inúmeras vezes. Entendemos como golpismo puro qualquer propósito de impeachment ou de convocação de novas eleições.

Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das elites velhas de guerra, fênix nativa.

Poderia causar estranheza o fato de cidadãos graúdos, federações empresariais, dois jornalões e as próprias Organizações Globo se pronunciarem publicamente contra qualquer tentativa de apear Dilma Rousseff. Se bem entendemos editoriais, manifestos e entrevistas, desta feita a sanha golpista, caso satisfeita, precipitaria o caos, que agora é obrigatório evitar. Mudaram de ideia, e não me queixo. Até ontem os barões da mídia trombeteavam as manobras e, em geral, as manifestações anti-Dilma, e eis que aderem ao senso comum.

Por que, pergunto intrigado aos meus pensativos botões. Respondem que o mundo também mudou, o maniqueísmo dos anos 60 assumiu formas e cenários adequados a alterações fatais. Ao observar a conjuntura mundial, constata-se que o Brasil deixou de ser aquele súdito submisso de Tio Sam graças à política exterior praticada por Lula, ainda que Dilma tenha baixado um tanto a bola. Vale também registrar que o velho Sam perdeu muito do vigor de antanho. E, de resto, o Demônio hoje em dia não é o comunista. Além disso, as Forças Armadas, conquanto incutam um inextinguível temor como númeno, deixaram de ser, como fenômeno, um exército de ocupação pronto ao papel de jagunço da casa-grande.

É o pano de fundo. Na ribalta, a “guerrilheira” Dilma não é Jango, e seu governo oferta à casa-grande garantias suficientes para pôr em sossego seus inquilinos. Não é por acaso que o diligente bancário Joaquim Levy lá está para executar a lição da própria. Por que intervir, se a vivenda dos especuladores e dos rentistas está em ordem? E, de outro ângulo, por que enfrentar a incógnita do pós-Dilma, se por ora o governo acuado se dispõe a levar em conta, e se possível executar, um pacote de providências excogitadas pelo Senado, reduto, aliás, de numerosos oligarcas?

Melhor assim. Melhor que a tensão diminua e que o pior seja evitado. Nada impede que paneleiros incapacitados para o exercício do espírito crítico, e mesmo para a consciência da cidadania, renovem no domingo 16 seu protesto insensato. Pouco importa, prevalecerá a tendência desenhada pelos graúdos, tão escassamente preocupados com a fragilidade da democracia verde-amarela, mas sobremaneira com sua própria paz espiritual e material.

Na circunstância, melhor assim, repito. Nem por isso perco a oportunidade de assinalar: casa-grande e senzala continuam de pé. Vivemos a enésima versão, revisada e corrigida, da conciliação das elites velhas de guerra, fênix nativa. Percebo que neste momento mexe as asas debaixo das cinzas.” 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O BRASIL NO SEU LABIRINTO


Na página virtual da revista brasileira CartaCapital, uma das raras vozes audíveis da comunicação social que no Brasil não alinha no fanatismo reaccionário que visa a presidente Dilma Roussef, Lula e o PT, numa deplorável táctica golpista que desonra partidos e políticos que já tiveram outros horizontes, encontrei um límpido texto de Roberto Amaral que vou transcrever. Já não é o primeiro texto que aqui publico deste reputado político brasileiro, que abandonou a presidência do Partido Socialista Brasileiro, quando nas últimas eleições presidenciais este decidiu apoiar na segunda volta Aécio contra Dilma.
“ Para vencer o golpismo”- é o título do referido texto. Sem ambiguidades, com clareza e simplicidade, dá-nos um panorama esclarecedor sobre o que se passa atualmente no Brasil. Merece ser lido com atenção.

Para vencer o golpismo

 
 “O Brasil não é uma republiqueta, e aqui não se repetirão os bem sucedidos ensaios do Paraguai e de Honduras. Nem outros, porque a sociedade também não mais aceitará a quebra da legalidade reconquistada após mais de 20 anos de ditadura militar. Muitas de suas cicatrizes ainda estão vivas, outras coçando para nos lembrar do que não poderemos jamais esquecer.  

É o que não entendem as novas vivandeiras, felizmente ainda sem tropas para cortejar. Tampouco Aécio é Carlos Lacerda, em comum apenas o desapreço ao jogo democrático. E os muitos desvios de caráter. Também não surpreende a nova postura de FHC: antes dele, muitos homens públicos envelheceram sem sabedoria. É mesmo muito difícil sobrevier à propria biografia.  

Eduardo Cunha é um Severino urbano, mais articulado, e com as mesmas raízes no atraso, a que se somam seus negócios com a ala mercenária do pentecostalismo. E por isso mesmo incontrolavelmente audacioso e na mesma medida perigoso. Renan Calheiros é o último vagido do latifúndio canavieiro do Nordeste. Mas todos estão na ativa. Um presidente da Câmara dos deputados, outro presidente do Senado Federal e do Congresso. Todos na linha constitucional da sucessão presidencial.

Há no país uma coorte assumidamente golpista reunindo imprensa – o maior partido da oposição –, setores ponderáveis da avenida Paulista e partidos políticos. Esta é, oficialmente, a postura do PSDB, açulado pela oscilação macunaímica [com o perdão a Mario de Andrade] de um PMDB que, não sabendo se é governo ou oposição, joga maliciosamente nas duas pontas contra a Presidente.

Mas esse PMDB, artífice da chantagem, é o maior partido da base do governo, que dele depende para governar! Desse PMDB é vice-presidente da República e articulador politico do governo o Sr. Michel Temer, que, em convescote em Nova Iorque anuncia, para aplauso dos presentes, que ‘manteria o Levy no Ministério’. Em quais circunstâncias isso seria possível?

De um lado, portanto, está um PMDB poderoso e inconfiável. De outro, um PSDB ensandecido pela paixão golpista. Uma união diabólica. Girando como pião entre uma força e outra, uma base parlamentar flébil, acuada, e um PT que do velho e aguerrido Partido dos Trabalhadores de anos passados guarda só a sigla.

Nessas circunstâncias movem-se as peças de um oposicionismo canhestro propelido pela irracionalidade da inveja, pelo despeito que alimenta o ódio hepático. Esse filme o Brasil conhece e repudia: já o viu em 1954 e em 1964 e sabe qual foi o preço pago pela democracia em ambas as  oportunidades. Rejeitamos sua reprise masterizada.

O golpismo se desenvolve em cascata: o primeiro passo foi a recusa em reconhecer o pleito e sua lisura e a tentativa de ‘recontagem’, insinuação de fraude eleitoral; depois as ridículas tratativas visando a impedir a posse, depois os reiterados ensaios de impeachment (ora por motivação política, ora judicial, ora por isso e ora por aquilo, e sempre sem fundamentação ética ou legal); depois, promessa de ‘sangrar a presidente’, inviabilizando seu governo, ainda que isso cobre preço altíssimo à economia nacional e à vida de nosso povo. A tentativa é asfixiar o governo para vê-lo irremediavelmente sem fôlego.

Essa gente não leva em conta as consequências para a economia do país. Aí entra em cena a felonia do PMDB, que escala os presidentes da Câmara dos Deputados (este na expectativa de ser processado por crime comum [extosão] pelo STF) e do Senado Federal, de biografias conhecidas, para o ofício da sabotagem. São eles os verdadeiros líderes da oposição, juncando de trambolhos o governo da presidente Dilma, no afã de jogá-la e seu partido contra a população.

Na verdade, não se trata do salutar exercício da oposição – sem a qual não existe democracia digna do nome –, mas da tentativa de exterminar politicamente a presidente e seu partido, tentativa que em si mesma nega e repele o processo democrático. O leitmotif dessa oposição desvairada deixa de ser a crítica pontual ou em tese ao governo. Em seu lugar se instala a lógica do ódio que gera ódio, o mais eficaz fermento da intolerância que gera a violência, que descamba da ofensa verbal para a agressão física.

Este é um labor mesquinho, quando todos deveríamos estar unificados na busca de saída para a crise. Esta é a hora de buscar compromissos honrosos, é o momento de abandonar a mesquinhez da luta pequena que empobrece a política e passara pensar no país.

Que tempestades espera a oposição colher com os ventos que ora sopra?

A análise só se justifica como instrumento de ação. Se a tentativa de golpe está posta, que se erga a defesa do governo. Sem lamentar a oposição, mas, denunciando seus arreganhos golpistas, cuidar de sair do imobilismo em que se acham a centro-esquerda e os liberais. O momento, portanto, não permite nem a contemplação inativa nem a autocomiseração (“estamos no volume morto!” “temos que ser punidos pelas besteiras que fizemos!”).

Essas duas alternativas, se escolhidas por nós, favorecem o conservadorismo. Há uma terceira que igualmente nos enfraquece, a da automistificação (“O petismo no poder foi revolucionário, emancipou as massas e alijou do poder as classes dominantes!”). O primeiro passo, agora, é distinguir o fundamental do acessório. E o fundamental me parece ser, nas atuais circunstâncias, a sustentação do governo Dilma, até para poder alterar-lhe a equivocada política econômica. A pura crítica nossa só interessa, neste momento, aos setores golpistas.

Mas o governo tem que ajudar: ele precisa definir de que lado está. A presidente Dilma Rousseff precisa se convencer de que: 1) O Brasil não vive um 'pacto de classes': um esboço desse pacto, encarado taticamente pela burguesia, foi feito no governo Lula, pois o projeto tucano havia se esfacelado;

2) Fortalecida, a direita já fez sua opção, e ela é, neste primeiro momento, Aécio Neves, candidato ‘consagrado’ em uma campanha que para ela não acabou nem acabará antes de seu triunfo, independentemente do preço a pagar; 3) Logo, só é possível ocupar o espaço da centro-esquerda, deixado vago, em parte, pelo próprio governo petista, com sua tática de conciliação permanente. 

Isso implica definir uma agenda progressista mínima e buscar implementá-la na medida que as circunstâncias permitirem. Contrário senso, limitar as concessões à direita ao mínimo indispensável para sobreviver. Ou seja, procurar só fazer recuos que permitam avançar. Se necessário, dois passos à frente e um atrás, jamais o contrário. “

quinta-feira, 30 de julho de 2015

ViIAGEM COM ADRIANO

O tempo é uma brisa que corrói. Passa como se fosse uma leve carícia, para de súbito nos agarrar de supetão, lembrando-nos bruscamente que passou.

Vem isto a propósito da fotografia que o meu irmão Luís hoje me mostrou, pescada na sua vasta arca de memórias. Foi assim que ele nos viu, nos longínquos anos 70, quando o 25 de abril era ainda um incêndio de esperanças, a mim e ao Adriano Correia de Oliveira. O cálido agosto algarvio oferecia-nos o mar de todas as viagens, mas os barcos aconchegados no remanso das praias hesitavam e resistiam ao perigoso canto das sereias.

Pouco anos depois o Adriano havia de partir na longa viagem de que não se regressa, mas a sua voz continua a procurar-nos como um toque de alvorada.

Porém, naquela tarde, naquele breve momento , os barcos da alegria ousavam a partida como se o oceano coubesse na esperança tranquila que nos envolvia.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Palavras de apresentação de de um livro de poemas


Só agora me apercebi que já estava no Youtube este excelente video da autoria do António Cravo, a quem agradeço vivamente . Espero conseguir torná-lo acessível através do meu blog. Ele  mostra a sessão de apresentação do meu livro de poemas  " Os dias imensos" que decorreu em Coimbra, na Casa da Cultura, no passado dia 5 de Junho de 2015. Na mesa,sentei-me entre os dois outros participantes : à minha direita,  Abílio Hernandez a quem muito agradeço por ter falado acerca do meu livro; à minha esquerda,  Adelino Castro , da editora Lápis de Memórias, cujo cordial acolhimento nunca esquecerei.Ouçam.


domingo, 26 de julho de 2015

GRAU ZERO DA POLÌTICA



No FaceBook percorro em regra grupos de esquerda , em especial ligados ao Partido Socialista. É preocupante a escassa publicação de textos de reflexão ou de crítica e a abundante difusão de insultos. Especialmente lamentável é o ódio que transparece  no seio de muitos que se dizem do PS no modo como atacam "camaradas" do mesmo Partido. Não há uma ética do insulto. No debate político todo o insulto  é uma falta de ética e um sinal de fraqueza de quem insulta. Mas se formos para além da avaliação ética individual, não podemos deixar de nos interrogar sobre as causas dessa triste paisagem. Talvez o PS não se tenha conseguido afirmar suficientemente como uma instância de debate político, com uma habitualidade suficiente para estabelecer relações de maior proximidade entre os seus inscritos. Talvez o PS seja demasiadamente uma organização de eventos políticos esporádicos, ainda  que a muitos deles não falte interesse. Se alargarmos o espaço em observação a toda a esquerda o tom de agressividade não diminui. A agressividade intrapartidária não é menos grave do que a agressividade interpartidária. Como fator de esclarecimento é fraca , como exacerbador da conflitualidade é eficaz. O FaceBook não é uma conversa de café entre amigos. Talvez  seja menos do que um espaço público alargado, mas transcende muito a esfera privada.  Por isso, quando à esquerda se gastam munições no insulto intrapartidário ou interpartidário  é a direita que se beneficia. E estejam certos disto: os objetivos da direita estão longe de se limitarem a ter uma civilizada vitória eleitoral, Não, a direita visa o essencial da vida coletiva, das nossas vidas individuais, tornando-nos vítimas da sua necessidade de manterem  um tipo de sociedade que gera desigualdade, injustiça e opressão. A crítica, o debate de ideias , o confronto entre opiniões políticas diferentes são o oxigénio da atividade política. Devem ser uma componente central de uma posição de esquerda. O insulto, particularmente se  for esgrimido contra outros cidadãos de esquerda, e em especial da mesma área político-partidária, são uma praga que degrada a democracia e desqualifica a ação politica.  Não digo que seja fácil perder esse hábito, tão insalubre mas tão arreigado, mas sem o conseguirmos dificilmente teremos a força de transformação das sociedade de que precisamos e que é a razão de ser dos partidos de esquerda.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cinzento escuro, quase noite


O militante do PSD Cavaco Silva aproveitou o fato de ser Presidente da República para promover um tempo de antena do seu partido. Marcou a data das eleições. Perdeu-se num labirinto de instruções confusas aos eleitores, preconizando a realização de coligações, como se em Portugal elas não existissem, como se os partidos políticos devessem seguir os seus conselhos, coligando-se entre eles entusiasticamente.

Fiquei surpreendido. Estava perante mim um misterioso agente do pensamento esotérico ou um agente despudorado, ainda que algo emaranhado, de uma pressão política sobre o PS?

Realmente, estando ele a falar no termo  de uma legislatura, em que houve um Governo de coligação durante toda ela, que sentido faz ele falar em coligações como algo que não costuma existir em Portugal ? Ou será que, sem ter o desplante de o dizer às claras, ele quer pressionar o PS para que se  coligue com a direita se ele ganhar as eleições sem maioria absoluta? Ou, pior, estará ele a tentar inculcar na opinião pública a ideia de que pode haver uma vitória da coligação da direita sem maioria absoluta, mas geradora do direito de ter primazia na iniciativa de formar Governo, devendo nesse caso ter o apoio do PS ?

No primeiro caso, o PS pode formar um governo minoritário ( como Guterres fez ) ou procurar uma coligação ou um acordo parlamentar fora dos partidos que formam o actual Governo. Não poderá nunca coligar-se com quem acaba de ser derrotado e de fazer contra  o PS uma das mais miseráveis e mais reaccionárias campanhas de que há memória; não poderá coligar-se com os agentes políticos diretos dos poderes de facto financeiros que o PS terá que conter e contrariar quando for Governo.

No segundo caso, a coligação de direita desaparecerá no momento de fecho das urnas. Depois conta apenas o número de deputados de cada partido para se determinar qual deles tem mais deputados, o que lhe dá o direito de ser encarregado de formar governo , em primeiro lugar.

 Se a coligação de direita tivesse em conjunto mais deputados do que o PS, mas não chegasse à maioria absoluta e o PSD tivesse menos deputados do que o PS, seria o PS a ser chamado para formar Governo em primeiro lugar. A máquina de propaganda dos poderes instituídos está a tentar legitimar um golpe de Estado (que é aquilo que se deverá  chamar a qualquer decisão do PR que, por hipótese, ignore o número de deputados conquistado por cada partido, dando à coligação de direita o estatuto de partido unificado, colocando o PS artificialmente em segundo lugar, mesmo com mais deputados do que o PSD).

O PR não sustentou expressamente esta via golpista, mas tudo aquilo que disse não é incompatível com ela.

Por tudo isto, mais uma vez insisto. O PS deve varrer estas toscas tentativas de perpetuar no poder  os partidos da direita, mesmo sendo eles derrotados nas eleições.

 Se a coligação PSD/CDS tiver maioria absoluta ganha as eleições , caso contrário perde-as, mesmo que tenha em conjunto mais votos do que o PS sozinho. Realmente, sendo claro que o PSD está muito longe do PS, finge-se que é a coligação que conta como se fosse um partido e dá-se verosimilhança à ficção de  uma disputa apertada com o PS.

O PS pode deixar correr o marfim , calculando que a ficção da direita pode alimentar o voto útil á esquerda, mas por mim acho mais acertado denunciar um golpe de estado, quando o vemos, ainda que seja melífluo e suave.


Enfim, o discurso do PR de hoje chamou a nossa atenção para a necessidade de o PS como partido tudo fazer para impedir que a direita se perpetue em Belém. Não nos deixemos confundir . Os presidentes de direita  não tratam a esquerda da mesma maneira que os presidentes de  esquerda tratam a direita. Não foi por acaso que o PSD tanto sonhou com o célebre tripé que tiveram durante estes quatro anos: uma maioria, um governo, um presidente. 

terça-feira, 21 de julho de 2015

COM RAZÃO OU SEM ELA


Num número da revista VÉRTICE do já distante mês de fevereiro de 1973, nas páginas verdes do seu inesquecível Jornal, ao percorrer com saudade aquelas páginas e aqueles nomes, deparei com a versão livre de uma “velha história chinesa” escrita por Joaquim Namorado. “A narceja e a ostra” era o seu título. Ei-la:

“Na praia, uma grande ostra entreabre a concha para expor-se aos raios do sol. Uma narceja, que passava, estende o bico, querendo saborear a carne saborosa do molusco, que fecha a concha num repente.
O pássaro tenta inutilmente libertar o bico da prensa que o aperta.
A ostra, por seu lado, não consegue libertar-se do bico que a prende.
Ambas não conseguem mais do que sussurrar a disputa em que se envolvem.
A pernalta diz:
Se não chove nem hoje nem amanhã, vai haver uma ostra a menos.
Ao que a ostra replica:
Tal como entre as narcejas se não te largar o bico nem hoje nem amanhã.
Sem nenhuma querer ceder continuou a querela, até que passou um pescador as agarrou sem dificuldade e meteu no saco.”

Imagino o sorriso do meu tio Joaquim, se pudesse fruir este momento se suprema ironia, mais de quarenta anos depois. Quanto à narceja e à ostra, asseguram-me que o pescador afirmou ser-lhe indiferente saber qual delas tinha razão.

domingo, 12 de julho de 2015

Amanhã- 2ª feira - em COIMBRA


Atenção  
- relembrando lançamento de um livro




quarta-feira, 8 de julho de 2015

Homenagem a Maria Barroso


A irmã dos poetas
  - homenagem Maria Barroso


Foi  a voz liberta das palavras
que os poetas fizeram por dizer.


As sílabas fugiam-lhe dos lábios
como sabores do vento e liberdade.


Dizia os versos como se inventasse
a cólera mais solta e mais cortante.


No regaço mais extremo dos poemas,
navegava em silêncio a sua voz.


Foi seta de luz rasgando a noite,
sentida pelo povo como espada.


Dizia os versos como se voasse
nas asas mais libertas do destino.


Irmã livre de todos os poetas
que escavaram no tempo a nossa hora,


quando o vento se erguer será ouvida
e o mar há de sentir a sua voz.
[ Rui  Namorado]

terça-feira, 7 de julho de 2015

sexta-feira, 3 de julho de 2015

CAMINHAR PARADO - a sina de Sampaio da Nóvoa.


1.Sampaio da Nóvoa obteve o conforto político de receber o apoio público do Livre/Tempo de Avançar, tendo tido quase 80% dos 867 votantes que acharam dever pronunciar-se. Na consulta, competiu com Henrique Neto e com Cândido Ferreira, viu-se confrontada com uma Sr.ª Castanho de proveniência desconhecida e teve como principal adversário nas preferências dos votantes, com quase 8% dos votos, um candidato de direita (Paulo Morais). Os cerca de 700 apoiantes que se manifestaram fizeram murchar um pouco mais o significado do apoio de uma força política que tem reunido nas sondagens cerca de 2% das intenções de voto. Ou seja, manifestaram-lhe apoio menos de 10% dos cidadãos que se haviam inscrito para participarem nas primárias dessa força política, recentemente realizadas, e cerca de 1/3 dos que nelas votaram. Se procurássemos uma palavra para espelhar fielmente o acontecido, ela não seria decerto “entusiamo”.

2.Sampaio da Nóvoa aproximou-se, quiçá por ligeireza, de uma gaffe política cometida há algumas décadas por um dos seus público abençoadores. Estou a referir-me a Eanes, quando depois de ter recebido o apoio do PS ao tentar a sua reeleição, veio confessar publicamente a sua proximidade política com a AD, o que lhe custou a perda do apoio de Mário Soares, ainda que mantivesse a do PS como partido, receoso de ver Soares Carneiro em Belém.
Desta vez, a tentação de Nóvoa levou-o a afirmar publicamente, depois de ter estado na Convenção Nacional do PS, que também poderia ir a realizações semelhantes do PSD e do CDS se para tal o convidassem. A, por ele, tão procurada sombra de Eanes desta vez atingiu-o mesmo. Tivesse Sampaio da Nóvoa uma alergia menos intensa às prosaicas coisas da política e não teria certamente tido um tropeção tão semelhante ao de uma das suas mais sublinhadas referências; e tão conhecido por quem se interessa por essas coisas.

3. Numa recente sondagem, Sampaio da Nóvoa não chegava a ter o triplo das intenções de voto das que confluíam em Henrique Neto, um candidato politicamente irrelevante, destinado apenas a cumprir calendário. Perante os mais prováveis candidatos de direita as hipótese espelhadas pela sondagem eram para ele  pouco mais do que nulas. Apesar do entusiasmo do Candidato as coisas parecem não estar fáceis.

4. Mesmo que o PS resista a fazer o que deve ( ou seja, primárias para escolher qual o candidato presidencial  que decide apoiar), dificilmente irá apoiar um candidato que tão aceleradamente colecciona indícios de que será um candidato perdedor. Realmente, aceitar que o façam engolir um candidato inventado fora dele, sabendo-se de antemão que lhe oferecem uma derrota é politicamente suicida.

domingo, 28 de junho de 2015

O Episódio Grego não é um Episódio

O que está em marcha na UE é uma desconsideração estrutural  da política em benefício de um unilateralismo economicista que serve automaticamente os interesses do capital financeiro. Essa desconsideração traduz-se na secundarização da democracia. E assim fica a descoberto um divórcio até agora inconfessado.No mundo de hoje,o capitalismo respira tanto mais facilmente quanto mais despreze a democracia - é isso que nos diz o comportamento da burocracia económico-financeira que atrofia a Europa. De momento, a vítima é o povo grego. Mas os capatazes políticos do capital financeiro que dominam os lugares de decisão das instâncias relevantes, embora ágeis enquanto aspirantes a agiotas, são anões políticos. Anões incapazes de terem respostas politicas consistentes para os problemas que tem levantado a sua lamentável inconsistência estratégica, mesmo que ancoradas na sua mundividência. No grande jogo xadrez da geopolítica mundial comportam-se como jogadores de damas, simples consumidores lineares do seus próprios ócios. Perdidos nos automatismos cegos que não sabem controlar deixam  que toda esta deriva antidemocrática vá assumindo paulatinamente o rosto da Alemanha, o que faz correr o risco de ressurreição de velhos medos e velhos fantasmas. Tudo isto se faz sob a batuta dos partidos liberais-conservadores da Europa, abusivamente sugeridos como democratas-cristãos, à sombra do rótulo hipócrita de Partido Popular Europeu. Tudo isto é dramaticamente agravado pelo facto de os partidos membros do Partido Socialista Europeu se terem deixado aprisionar no predomínio ideológico dos conservadores, deixando-se reduzir ao papel triste de agentes moderados das malfeitorias dominantes. Em poucos casos, as outras esquerdas compensam essa anemia com uma nova pujança. Mas a extrema-direita vai crescendo, de momento parecendo desafiar o "status quo neoliberal", amanhã assumindo o rosto musculado do fim da democracia,  que o capital financeiro prepara como plano B, no caso de as atuais instituições colapsarem por completo. Por isso, os socialistas europeus não estão apenas perante um encruzilhada política, como tantas outras que a História põe no caminho dos seus protagonistas. Estão perante um encontro histórico com a sua identidade e o seu destino --- perdem-se no triste papel de acólitos das direitas europeias ou assumem uma refundação estratégica que os reconduza  à sua razão de ser, ao seu lugar no coração do futuro. E o modo como os partidos membros do Partido Socialista Europeu lidarem com o caso grego pode muito bem ser  o sintoma incontornável do caminho que vão percorrer. E não vale a pena ter ilusões. Desta vez o discurso suave e redondo, que sugere tudo sem dizer nada, não é uma opção, mesmo que seja má. É uma rendição; com tudo o que isso tem de cobardia política e irremediável desencontro com o povo de esquerda.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

AMANHÃ EM COIMBRA

Relembrando a apresentação de um livro de poemas.


terça-feira, 2 de junho de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 13



Hoje, vamos lembrar António Nobre, poeta português do fim do século XIX, nascido no Porto em 1867, cidade onde viria a morrer em 1900. Evocá-lo a seguir a Cesário Verde permite-nos sentir as diferenças e a proximidade que os unem. Ambos  se abriram a uma modernidade que cada um a seu modo prenunciou. António Nobre explorou a fundo a melancolia do sofrimento, como se a tristeza fosse a sua respiração, sem deixar de acolher os reflexos da natureza que o rodeava, quase como um sonho que sentia ser breve.

"Só", a sua principal obra, foi editada em Paris em 1892. António Nobre havia-se matriculado em Direito, na Universidade de Coimbra. Tendo reprovado por duas vezes, optou por ir para Paris, frequentar a “École Libre des Sciences Politiques”, onde se licenciou em Ciências Políticas em 1895.

Vamos recordar extratos de um poema incluído no “Só”, para o seu autor “o livro mais triste que há em Portugal”, cujos poemas foram na sua maior parte escritos em Paris. “Carta a Manoel” foi escrito em Coimbra, entre 1888 e 1890. É uma evocação de Coimbra e do modo como o poeta a sentiu, sem transigências, mas com afeto. Coimbra não o esqueceu. A Torre d’Anto, onde o poeta viveu, é dos ex-libris da cidade, uma homenagem permanente.



Carta a Manoel

Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
Foi Coimbra. Foi esta paisagem triste, triste,
A cuja influencia a minha alma não reziste,
Queres notícias? Queres que os meus nervos falem?
Vá! dize aos choupos do Mondego que se calem...
E pede ao vento que não uive e gema tanto:
Que, enfim, se sofre abafe as torturas em pranto,
Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
Quanto isto me faz mal! Pior que as sabatinas
Dos ursos na aula, pior que beatas correrias
De velhas magras, galopando Ave-Marias,
Pior que um diamante a riscar na vidraça!
Pior eu sei lá, Manoel, pior que uma desgraça!

………………………………………………………………
Ó Rio Doce! túnel d’água e de arvoredo!
Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote...
E, ao sol do meio-dia, os banhos em pelote,
Quando íamos nadar, á Ponte de Tavares!
Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
Tudo se foi...

    Hoje, mais nada tenho que esta
Vida claustral, bacharelática, funesta,
N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
Bem me dizias tu, como que adivinhando
O que isto para mim seria, Amigo, quando
O ano passado, vim contra tua vontade
Matricular-me, aí, n'essa Universidade:
«Anto não vás...» dizias tu. Eu, fraco, vim.
Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
Ah quanto fora bem melhor a formatura,
Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
Que ótimas preleções as preleções modernas,
Cheias de observação e verdades eternas,
Que faz diariamente o Prof. Oceano!
Já tinha dado todo o Coração Humano,
Manoel! faltava um ano só para acabar
Meu curso de Psicologia com o Mar.
Porque troquei pela Coimbra inútil, vã,
Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
Talvez... preguiça, eu sei... A cabra é a cotovia:
As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

Que tédio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
Era a distância, o além, que me impressionava:
Tinha a poesia do sol-pôr, d'uma esperança.
Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança...)
Tudo rolou no solo! A Tasca das Camelas
Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrelas:
Nossa Senhora a dar de cear aos estudantes
Por 6 e 5! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
Tia Camela... só ficou a camelice.

Contudo, em meio d'esta fútil coimbrice,
Que lindas coisas a lendária Coimbra encerra!
Que paisagem lunar que é a mais doce da Terra!
Que extraordinárias e medievas raparigas!
E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
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Olha... São os Gerais, no intervalo das aulas.
Bateu o quarto. Vê! Vem saindo das jaulas
Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
Ao vê-los, quem dirá que são os descendentes
Dos navegantes do seculo XVI?
Curvam a espinha, como os áulicos aos reis!
E magros! tristes! de cabeça derreada!
Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
- E os doutores? - Aí, os tens graves, á porta.
Porque te ris? Olha-los tanto... Que te importa?
Há duas exceções: o mais, são todos um,
Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum...

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Manoel, vamos por aí fora
Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
Por esses lindos, deliciosos arredores,
Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
Torres, Condeixa, Santo António de Olivais,
Lorvão, Cernache, Nazaré, Tentúgal, Celas!
Sítios sem par! Onde há paisagens como aquelas?
Santos Lugares, onde jaz meu coração!
Cada um é para mim uma recordação...
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