segunda-feira, 25 de maio de 2015

UM LIVRO,UM POEMA - 11


Hoje vamos recordar um poema emblemático do grande poeta brasileiro Manuel Bandeira [ Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968]. O livro de onde transcrevo o poema está incluído  numa edição  de 1956, da Editorial Minerva ( Lisboa)." Obras Poéticas " é o título.                
No prefácio, de um algo inesperado Henrique Galvão, comenta-se e procura contextualizar-se a poesia de Manuel Bandeira.  Sucedem-se, ao longo de mais de quatrocentas páginas, vários  livros do autor até então publicados: A Cinza das Horas, Carnaval, O Ritmo Dissoluto, Libertinagem, Estrela da Manhã, Lira dos Cinquent'Anos, Belo  Belo e Opus 10.
 
Lembremos então o poema.
 
Vou-me embora pra Pasárgada



Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada



Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive



E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau de sebo
Tomarei banho de mar !
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada



Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar



E quando eu estiver mais triste
Mais triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

domingo, 24 de maio de 2015

UM LIVRO, DOIS POEMAS - 10


Hoje, o livro  escolhido é de Sidónio Muralha , “Poemas”, publicado pela Editorial Inova ( Porto) em 1971, onde se integram os livros até então por si dados à estampa.
O autor nasceu a 28 de Julho de 1920, no bairro da Madragoa, em Lisboa. Em 1943, emigra para o Congo  belga. No ano de 1960,  regressa à Europa fixando residência em Bruxelas durante dois anos.
No início dos anos 60, Sidónio Muralha chega ao Brasil, país em que viria a viver até ao fim da vida. Aí funda a Editora Giroflé, criando um novo padrão para as publicações dirigidas às crianças. Morre em Curitiba, capital do Estado do Paraná, a 8 de dezembro de 1982.
Em 1941, publica o seu primeiro livro de poemas : Beco. No ano seguinte, participa no Novo Cancioneiro, coleção emblemática do neorrealismo, com um novo livro : Passagem de Nível. Os dois poemas  hoje aqui recordados fazem parte deste livro.
 
 
SONETO  IMPERFEITO  DA CAMINHADA PERFEITA
 
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é um bandeira desfraldada.
 
Ninguém fala em parar ou regressar.
Ninguém teme as mordaças ou algemas.
─ O braço que bater há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas
 
 
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
 
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
 
ROMANCE
´
 
Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
 
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural ?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval …
 
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
─ Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
 
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
 
─ Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval...
 
 
 

terça-feira, 19 de maio de 2015

Convite


domingo, 17 de maio de 2015

UM LIVRO, ALGUNS POEMAS - 9


 


PABLO  NERUDA

Após algum tempo de pausa, regressa a série “um livro, um poema”. Talvez menos regular, mas mais prolongada. Dar-lhe-ei como título, de agora em diante, “Um livro, alguns poemas”, quando se der o caso difundir, numa só postagem, mais do que um poema
 Regresso com um poeta chileno, mas universal. De uma universalidade que chegou ao coração dos povos, antes de ter conduzido Pablo Neruda, ao clube restrito dos que conquistaram o Prémio Nobel da Literatura, em 1971. Um poeta que teceu uma épica emancipatória, enraizada no sofrimento dos explorados e dos oprimidos, exprimindo-a na paisagem calorosa das suas palavras, irmãs de planícies e de montanhas, e da larga respiração da esperança.
Regresso com um livro lendário ─ “Los versos del capitan” ─, publicado pela primeira vez em 1952, em Nápoles, numa edição restrita com omissão da identidade do autor.
 É um livro de júbilo e homenagem que tem as suas raízes num amor que se supõe concreto. São poemas de amor que não se deixam aprisionar na mulher que os inspira, porque constantemente fazem passar através dela, do seu corpo construído pelas palavras mágicas do poeta, o marulhar profundo da cólera dos povos.
Abre-o uma carta vinda de Havana, datada de outubro de 1951, escrita pela suposta musa que fez nascer o livro, Rosario De La Cerda. Como elemento da própria ocultação da identidade do autor, diz-nos ela: “Lamento não poder indicar o seu nome. Nunca soube qual era o verdadeiro, se Martinez, Ramirez ou Sanchez. Eu chamo-o simplesmente meu Capitão e este é o nome que quero conservar neste livro.”
Numa explicação, datada de novembro de 1963 (Isla Negra)  que abre a edição publicada na Argentina pela Editorial Losada, em 1964, escreveu Pablo Neruda :        “ Entrego, pois, este livro sem explicá-lo mais, como se fosse meu e não o fosse: basta que possa andar sozinho pelo mundo e crescer por sua conta. Agora que o reconheço espero que o seu sangue furioso me reconheça também.”
Vou hoje transcrever dois poemas de Pablo Neruda, extraídos de uma tradução em português de Albano Martins que a ambos dignifica. Esta edição do livro ”Os Versos do Capitão” foi publicada no Porto, pelo Campo das Letras, em 1996. Ei-los:


O OLEIRO


Há em todo o teu corpo
uma taça ou doçura a mim destinada.


Quando levanto a mão
encontro em cada lugar uma pomba
qua andava à minha procura, como
se te houvessem, meu amor, feito de argila
para as minhas mãos de oleiro.


Os teus joelhos, os teus seios,
a tua cintura,
faltam em mim como no côncavo
duma terra sedenta
a que retiraram
uma forma,
e, juntos,
estamos completos como um só rio,
como um só areal.

 
O TIGRE

 
Sou o tigre.
Espio-te entre as folhas
largas como lingotes
de mineral molhado.


O rio branco cresce
sob a névoa. Chegas.
Nua, mergulhas.
Espero.


Então, num salto
de fogo, sangue, dentes,
com uma pancada derrubo
teu peito, tuas ancas.



Bebo o teu sangue, despedaço-te
os membros um a um.


E fico a velar
durante anos, na selva,
teus osso, tua cinza,
imóvel, longe
do ódio e da cólera,
desarmado em tua morte,
enredado nos cipós,
imóvel à chuva,
sentinela implacável

do meu amor assassino.

sábado, 2 de maio de 2015

A CRISE DA DEMOCRACIA



  A crise da democracia

A crise da democracia é uma daquelas evidências excessivas que, servindo uma ou outra vez para esclarecer o obscuro, é muitas vezes usada para ocultar o óbvio.

Os mais ladinos capatazes da ideologia dominante usam a alegação dessa crise, principalmente, para corroer a legitimidade do poder político democrático, deixando assim à solta o poder de facto dos seus senhores, do capital financeiro e do seu séquito. A fragilidade da autovigilância crítica de alguns dos mais incendiados opositores afetivos do capitalismo faz com que, muitas vezes, inadvertidamente se associem, no essencial, aos supracitados capatazes.

No campo dos mais discretos e cautelosos, são inúmeras as tonalidades que assume a abordagem tolhida da chamada crise da democracia. Talvez seja acertado, no entanto, salientar, entre todos eles, aqueles que procuram responder a essa crise apenas com propostas, mais ou menos rebuscadas, de uma reforma das instituições do sistema político. Eles agem como se toda a crise em debate adviesse de uma deficiente qualidade da engenharia política utilizada na construção de cada um dos sistemas políticos existentes. Muitos deles, feridos por uma profunda ignorância jurídico-constitucional, deslizam para propostas obviamente toscas, que muitas vezes deixam inadvertidamente a descoberto um perfume fortemente autoritário. Usando a bandeira do combate à crise da democracia, mais não fariam do que agravá-la dramaticamente. Nesse mesmo registo, outros preconizam, para cada país, soluções que já vigoram noutros, com resultados idênticos aos que se querem evitar, menosprezando assim o facto de a chamada crise da democracia ocorrer em países com sistemas políticos de todos os tipos.

Ora, se é naturalmente evidente que, como tudo na vida, a democracia pode ser aperfeiçoada no plano das suas instituições, o que importa compreender é que as raízes mais fundas da sua crise não estão aí.

Numa abordagem sumária, poder-se-ia dizer que o cerne da crise da democracia está na sua autolimitação e na sua incompletude, como se a democracia só pudesse conservar o seu viço se mantivesse um ímpeto expansivo continuado que, além de a tornar  mais profunda em cada um dos seus aspetos, se fosse estendendo aos aspetos em que tem estado mais ausente.

 Ora, atualmente, a deriva autoritária, trazida no seu bojo pelo neoliberalismo, tem vindo a enfraquecer a democracia política, pela subalternização dos órgãos eleitos, em benefício dos poderes de facto do capital financeiro e seus acólitos. E, em perversa conjugação com essa anemia política crescente, tem bloqueado e contrariado tudo o que de democrático impregnava o social e tem procurado esconjurar, como pecado mortal, qualquer impregnação democrática da economia.

A crise da democracia não é pois o fruto natural de uma malandragem qualquer, de uma quadrilha oculta que sangra o sistema, de instituições politico-eleitorais tolhidas e inatuais para as quais qualquer cérebro medianamente dotado poderá encontrar em pouco tempo a solução milagrosa. É, isso sim, o fruto da não extensão da democracia aos aspetos sociais, económicos e culturais da vida em sociedade; e, em conjugação com isso, é também o fruto da corrosão da democracia política pelo agravar da deriva neoliberal sob a batuta do capital financeiro. Ou seja, quanto mais a lógica capitalista penetra na sociedade, quanto mais acossadas estiverem as lógicas distributivas e solidárias que, embora subalternas, se lhe opõem, mais a democracia está em perigo, maior é a sua crise.

Portanto, não menosprezando os aspetos consequenciais e colaterais  da crise da democracia, não nos esqueçamos nunca do que é essencial: o cerne da crise da democracia está na sua incompletude e na sua retração, ou seja, a crise da democracia é, fundamentalmente, um importante aspeto da hegemonia do capital financeiro, em contexto capitalista, expressa pelo neoliberalismo.                                       

quinta-feira, 30 de abril de 2015

NÓVOA e o PS - labirinto fatal?



Nóvoa mergulhou formalmente na sua aventura presidencial. Falta saber se chegará á outra margem. Parece suficientemente robusto e apoiado, para não soçobrar na difícil terra de ninguém das primeiras braçadas. Se o xadrez de candidatos da primeira volta for o previsível e não emergir um candidato surpresa que, em maior ou menor grau, perturbe o esperado, Nóvoa tem boas hipóteses de ir à segunda volta. Mas quanto a ser eleito Presidente já as perspetivas são bem diferentes. Aqui a sua candidatura está marcada por um grande ponto de interrogação.

É que Nóvoa tem que esperar que a direita não consiga gerar um candidato unificador, para ela consensual, que seja envolvente e que resulte de um processo de escolha que satisfaça os padrões médios atuais da decência. Pelo contrário, basta que isso aconteça para que as suas dificuldades aumentem muito.

Mas Nóvoa tem também que concitar o apoio de todas as esquerdas. O apoio e quiçá o entusiasmo mobilizador. Tem que desse modo receber o apoio dos partidos com uma maior base eleitoral, PS, PCP e BE. Mas tem que receber esse apoio de modo a que ele se possa converter, natural e eficazmente, no apoio dos respetivos eleitorados.

No caso do PCP, sabe-se que costuma ser forte a capacidade para as instâncias dirigentes do partido projetarem as suas escolhas no respetivo eleitorado. No caso do BE, essa capacidade, sendo aparentemente menor, é ainda relevante. Mas quanto ao PS as coisas são bem diferentes. A obediência do eleitorado às indicações do partido está longe de ser incondicional e resulta de diversos fatores: o prestígio do candidato no seio do partido, o grau de afetividade do povo socialista para com ele, a intensidade com que seja apoiado pelas estruturas partidárias, o nível de democraticidade do processo de escolha e a existência ou não de outros candidatos que sejam pelos eleitores socialistas sentidos como próximos e relevantes. Nos últimos anos, tem ganho terreno a defesa de eleições primárias para escolha de todos os candidatos do PS às diversas eleições. Recordem-se as primárias para escolha do candidato a primeiro-ministro. Cresce a convicção de que, se nas duas últimas eleições presidenciais o candidato apoiado pelo PS tivesse sido escolhido em primárias, Cavaco não teria ganho.  

Perfilam-se assim algumas nuvens de incerteza quanto à medida em que o eleitorado socialistas seguirá a orientação do partido se a escolha recair em Nóvoa.  O problema é que esta parcela do eleitorado é mais do que o dobro do conjunto das parcelas correspondentes às outras esquerdas. 

Mas somam-se indícios de que a candidatura em causa se está deixar envolver em algumas ambiguidades estruturais. Por exemplo, afirma-se como impulso regenerador da vida politica e sente-se confortável com o apoio do PS, mesmo que ele não seja resultado de primárias; afixa uma imagem de independência, mas coloca-se na fila dos ex-presidentes que são militantes do PS como se fizesse parte dela; tenta sugerir-se como fator de congregação das esquerdas, mas revela-se cético quanto à perenidade da clivagem esquerda direita; omite no seu discurso qualquer tonalidade crítica do sistema capitalista, mas assume objetivos que entram em colisão com a perenidade desse sistema; afixa uma independência altaneira em face dos partidos, mas esforça-se por sugerir o apoio tácito do PS. Enfim, parece prisioneiro de uma incongruência, mais ou menos visível, entre alguns objetivos gerais populares , especialmente á esquerda,  e a imagem estrutural que a sua candidatura projeta.

De momento, o PS parece apostar na tática de deixar que pensem que vê Nóvoa com bons olhos, sem contudo se comprometer formalmente com ele. Corre vários riscos. Se a candidatura ganhar asas, pode aparecer como pouco relevante para esse começo de êxito, sendo-lhe no entanto muito difícil deixar de a apoiar. Se a candidatura se atolar na irrelevância, terá muita dificuldade em patrocinar um candidato sucedâneo. Podendo parecer subtil, o PS parece ter-se deixado apanhar numa ratoeira. Deixa que pareça ter tido que engolir um candidato que veio de fora e não pode assumir o ónus de suscitar outro.

Por outro lado, é natural que se procure aumentar a energia eleitoral das candidaturas do PS nas legislativas, através da sinergia com um candidato presidencial suficientemente forte para ser capaz de ter esse efeito político. Ora, se o PS realmente vier a apostar em Nóvoa, parece claro que estamos muito longe de poder esperar desse apoio um qualquer impulso favorável ao PS nas legislativas.

Tudo isto faz recear que uma opção pelo candidato Nóvoa , tomada por uma decisão formal do PS, daqui a algum tempo, não seja seguida por uma parte do seu eleitorado, incomodada pelo método autocrático da escolha e pouco identificada afetivamente com ela. Se isso acontecer, perde Nóvoa como candidato, perde o PS e ganha a direita. Se isso acontecer, fica à mostra o erro político cometido. Melhor, seria evitá-lo.

sábado, 25 de abril de 2015

Melancolia em Abril ?



Melancolia em abril?

As flores de abril
já são conchas de pedra
debruçadas no tempo,

violinos cansados
pelos dedos antigos

ou alarmes caindo
pelas escarpas do medo.

Mas os olhos em riste
que desejam futuro
continuam escavando
sem os braços caídos.

Não deixemos que abril
seja folha caída
que o cortejo dos meses
vai deixando para trás.

Não deixemos que abril
seja o tempo que passa,
de si próprio perdido
por não querer regressar.

Não deixemos que esqueça
sua própria guitarra
nem que fuja das ruas,
nem que seja saudade.

         [ Rui Namorado – 25 de abril de 2015]

 

 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

EM COIMBRA, nesta sexta-feira.


Tertúlia integrada nas comemorações                                         do 25 de Abril


"Liberdade Sobre a Mesa de um Café"

 Café Santa Cruz.

Sexta- feira dia, 24 de abril pelas 18h30

Intervenientes :
 António Arnaut, José Dias e Rui Namorado,


Moderador :
Diogo Teixeira Dias, professor da Aposenior.


O tema em debate  é o 25 de Abril, à  luz daquilo que o precedeu e do que aconteceu depois. O que deixámos para trás ? O que nos espera? O que foi alcançado? O que continua longe?

V ariações em Nóvoa


Anuncia-se intensamente o anúncio da candidatura de Sampaio da  Nóvoa.

Tudo indica que será uma candidatura robusta. Mas uma abordagem realista mostrará que,  tal como se desenha o cenário dos candidatos, dificilmente será o vencedor. Apresenta-se, no cenário atual, como possível contendor na 2ª volta, mas mostra-se como um provável perdedor dessa segunda contenda. Há problemas no seu caminho que poderá ainda  resolver a seu tempo.

 No entanto, há um que parece tender a complicar-se e que lhe pode ser fatal: o modo como se tem vindo  a relacionar com o eleitorado do PS.É uma dificuldade, aliás, suscitada quer  pelo modo como se tem vindo a impor como candidato, quer pelo modo como a direção do PS tem lidado com essa ( pelo menos) aparente imposição. De facto, nas atuais circunstâncias, depois de terem sido alvitrados nomes que se autoapagaram e nomes que obtiveram um eco demasiado discreto, traduzindo sensibilidades distintas dentro do PS e do seu eleitorado,  o nome de Nóvoa, ou o de qualquer outro potencial candidato, só logrará um apoio sólido da parte ( do eleitorado) do PS se resultar de uma decisão tomada em eleições primárias realmente abertas ( modelo francês). Ignorar isto, é brincar com o fogo, pois mesmo que as instâncias dirigentes do PS alcancem uma aparência unanimista em torno de um candidato, seja ele qual for entre os possíveis, sempre se correrá o risco de o eleitorado se rebelar , farto de ser posto perante factos consumado.

Mas se o candidato apoiado vier a ser um independente que, como Nóvoa, tenha afirmado publicamente que o seu "herói" de referência é Eanes, enquanto Presidente da República, as dificuldades podem crescer ainda mais. O eleitorado que vota habitualmente no PS pode legitimamente interrogar-se sobre essa admiração tão estruturante. É um sinal de que Nóvoa se fosse eleito faria o que fez Eanes? Ou seja, procurar destruir o PS, criando um novo partido político que tente  substituir o PS, disputando-lhe a mesma área, a partir do  cargo de Presidente da República.

Por mim, enquanto eleitor preciso de ver por completo apagada a dúvida, criada por Nóvoa, quanto ao seu próprio desígnio. Não faria sentido que votasse num candidato que tem como desígnio, mais ou menos claro, a destruição do partido a que pertenço; ou que, pelo menos, escolhe como referência alguém que o tentou no passado , sem êxito mas com um elevado preço político que todos os portugueses pagaram , em especial  o povo de esquerda.

Mas se, contra toda a razoabilidade política, a direção do PS vier a optar pela via estreita que se receia, isso tem um outro efeito colateral negativo: dificulta uma outra candidatura verdadeiramente a sério apoiada pelo PS, amarrando-o assim   à sorte incerta do candidato Nóvoa. E isso, repito, pode ser fatal. É que , não sendo suficiente o apoio da generalidade do eleitorado do PS, sem esse apoio a vitória nas presidenciais de um candidato de esquerda é uma miragem. E esse apoio de muitas centenas de milhar de eleitores nunca é o resultado automático de um ordem de serviço burocrático-política, mas sim a consequência amadurecida de um envolvimento profundo desse eleitorado no processo de escolha e de afirmação de um candidato, que é possível estimular, mas que não se estimula de qualquer maneira.

 Receio que os vários protagonistas ( diretos e indiretos) do referido processo de candidatura se tenham deixado  reduzir a quase-autómatos políticos que seguem um roteiro que sabem intuitivamente que os vai conduzir à derrota, mas do qual não sabem como fugir. O PS está a deixar-se envolver nesse automatismo fatal. É ainda tempo de lhe escapar, parecendo claro que para isso  não chegará a repetição até à  exaustão da subalternidade das eleições presidenciais em face das legislativas.

Se tudo acabar realmente por correr mal, será fácil que os vários protagonistas se culpem mutuamente. E, nessa hipótese, até talvez, todos eles tenham alguma razão. Só que, nesse caso, não poderão esquecer-se de assumir também as culpas próprias. Não lhes pode faltar a lucidez de assumirem as eventuais culpas próprias. Por mim , preferia que os acontecimentos tornassem tudo isso desnecessário, mas tenho algum receio que assim não seja.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Regresso a 17 de Abril


 
Regresso a 17 de Abril

 
Há um regresso aqui, que nunca dói,
como se fosse futuro     no passado.


Há sonhos que regressam neste dia,
como se fossem livres e cantassem.


O tempo adormeceu dentro de nós
e o sonho é a memória desse dia.


Coimbra ganha o som de uma guitarra,
que os dedos da revolta repetiram.


Voltamos ao começo do que somos
e é esse o  nosso pão de cada dia.


Saudade é a colheita que não queremos,
no coração que chore a nossa ausência.


Olhamos a tristeza, sem rancor,
esquecemos o ódio ressequido.


Lembramo-nos da  pele da alegria,
da madrugada  súbita da esperança.


Na mão que nos acolhe transportamos
os meses que inventaram o destino.

                                   [Rui  Namorado- 17/ 04/ 2015]

sábado, 11 de abril de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 8


Vamos, hoje, recorrer à 33ª edição da “Morte e Vida Severina e outros poemas em voz alta” do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto (José Olympio – Editora, Rio de Janeiro, 1993).
“Morte e Vida Severina” é um “auto de natal pernambucano”, escrito entre 1954 e 1955 e publicado em 1955. Radica-se na saga dos trabalhadores pobres do nordeste ("retirantes") que emigravam para a parte mais rica do Brasil, em longas caminhadas, em busca da sobrevivência. Editado pela primeira vez nos anos cinquenta, fala por si o número de edições publicadas. Como sugere o título da coletânea, está escrito num registo de oralidade. O “auto de natal” foi teatralizado, declamado, cantado. Através dele, sentimos respirar o sofrimento ancestral do povo brasileiro, a sua profunda dignidade e a marca dorida de uma esperança improvável, mas irremovível.

A poesia de João Cabral de Melo Neto é tecida por versos secos, por sílabas medidas , sem enfeites; como se a aridez, por vezes dramática, do real, apenas precisasse de palavras exatas para ser dita. Escreve com “facas”, com “pedras”, com “arestas”, atravessando paisagens de uma aridez cortante. É um dos grandes poetas de língua portuguesa do século XX.

João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife (9 de janeiro de 1920) e morreu no  Rio de Janeiro (9 de outubro de 1999). Foi diplomata.

Hoje, vamos publicar  três extratos da “Morte e Vida Severina”: o início, o fim e uma parte intermédia, especialmente conhecida.
 
 

Morte e Vida Severina  (extratos)
                          João Cabral de Melo Neto

1. O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.  


2. ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO

—   Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
— É de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
— Não é cova grande,
é cova medida,
á a terra que querias
ver dividida.
— É uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
— É uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
— É uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.


3. O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE ESTEVE DE FORA, SEM TOMAR PARTE EM NADA

— Severino retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga.
É difícil defender,
só com palavras, a vida,

ainda mais quando ela é
esta que vê, severina;
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.


E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

UM LIVRO, UM POEMA - 7


 
Hoje, vamos recorrer a um livro publicado depois da morte do seu autor, Reinaldo Ferreira. “Poemas” é o seu título. Foi editado pela Portugália , na  coleção “POETAS DE HOJE"( 3ª edição- 1970), com um prefácio de José Régio. Reinaldo Ferreira nasceu em Barcelona em 1922 e morreu em Moçambique, em 1959, onde vivia desde 1941. Tinha o mesmo nome que seu pai Reinaldo Ferreira (1897-1935), o célebre  Repórter X, reputado como um dos melhores jornalistas do seu tempo.

Vamos editar hoje dois poemas emblemáticos, como altas expressões de   uma resistência futurante, que de algum modo se podem olhar como  duas faces de uma mesma moeda. De um lado, a tristeza dos heróis empalhados pelas instituições patrioteiras, do outro lado, o heroísmo sem margens de um povo em armas, para resistir ao fascismo.

Enfim, leiam-se, já que falam realmente por si.





POEMAS  -  Reinaldo Ferreira

 





Receita para fazer um herói

 

Tome-se um homem

Feito de nada como nós,

E em tamanho natural.

Embeba-se-lhe a carne,

Lentamente,

Duma certeza aguda, irracional,

Intensa como o ódio ou como a fome.

Depois, perto do fim,

Agite-se um pendão

E toque-se um clarim.


Serve-se morto.



A que morreu às portas de Madrid

 

A que morreu às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

Teve a sorte que quis

Teve o fim que escolheu.

Nunca passiva e aterrada, ela rezou.

E antes de flor, foi, como tantas, pomo.

Ninguém a virgindade lhe roubou

Depois de um saque ─ antes a deu

A quem lha desejou,

Na lama de um reduto,

Sem náusea mas sem cio,

Sob a manta comum,

A pretexto do frio.

Não quis na retaguarda aligeirar,

Entre «champagne», aos generais senis,

As horas de lazer.

Não quis, ativa e boa tricotar

Agasalhos pueris,

No sossego de um lar.

Não sonhou minorar,

Num heroísmo branco,

De bicho de hospital,

A aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,

Com uma praga na boca

E a espingarda na mão,

À hora tal, atacou e morreu.

 
Teve a sorte que quis,

Teve o fim que escolheu.