quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O velho navio, os ratos e a prudência.




O navio está carcomido pela ferrugem da mediocridade, diminuído pela pequenez dos horizontes, frágil perante o fragor das tempestades.
Quanto mais parece ter dificuldade em arrastar-se, mais as tempestades se acirram contra ele. Não vai resistir-lhes. As alfândegas tornam-se mais exigentes, os passageiros mais raros, as listas de candidatos a novas viagens minguam. Já ninguém fica no cais preso pela curiosidade de o ver chegar ou partir. O comandante e subcomandante, irmanados na desesperança,trovejam imprecações, distribuem censuras pelos oficiais subalternos e pela tripulação, vociferam contra a criadagem. E, no ápice da crispação, rosnam suspeitas de conspirações.

Mau sintoma , é o facto de já há algum tempo se ter vindo a notar que alguns ratos mais sábios ou mais tementes estão a abandonar o navio. São da casta dos imediatos,dos grumetes, dos cozinheiros, dos guardas nocturnos. Foram dóceis e fiéis servidores do comandante e do sub-comandante até há pouco tempo. Sussurram agora temerosas conspirações e sugerem com prudência um tempo novo para o velho navio, supõe-se que sob a sua discreta e temerosa liderança. Ou seja, têm a bravura da sua própria cobardia.

Mas quem, sendo desse navio, nunca se conformou com os comandos agora em ruína, olha com ironia, cepticismo e desconfiança, o activismo sôfrego de tão prudentes arrependidos.

Dar o comando do navio em perigo aos ratos que o abandonam quando pressentem a agonia é talvez inútil, ou até perigoso.

Não será melhor chamar novos comandantes, escolhidos entre aqueles que não foram nunca cúmplices da desastrosa viagem ?

2 comentários:

aminhapele disse...

Como é de tradição,os ratos "fogem" para sofás mais seguros e com uma super-abonada ração do queijo preferido.
O problema é que o navio está cada vez mais velho e os novos "comandantes" desconhecem como hão-de calafetar os rombos...
Não sei se hoje é ilegal o uso de raticida!
Pelo menos,tratávamos dessa "praga".

André Pereira disse...

E saberão esses puros e virgens pilotar um navio em mares tão tormentosos? Poderemos dispensar os poucos marinheiros que tentar remar contra a maré e se dispõem a jogar o capitão para outro barco? Onde estão as lndas sereias que podem trazer dias serenos e uma frota carregada?