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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

MARIONETES PERIGOSAS

Um pequeno conjunto de marionetes da vulgata neoliberal apossou-se de algumas alavancas do poder político em Portugal. É mau. Mas o pior é que na Europa, no FMI, no Banco Central Europeu, na OCDE e na OMC, dominam os respectivos mestres.

Pela verdura, quase ingénua, que os envolve, aqueles portugueses pequenos levam a sério todos os lugares-comuns ideológicos com que os empanturraram. Os mestres vêem nesses lugares comuns um simples veículo, usado para legitimar a prossecução dos interesses parcelares que representam, bem como para a sedução enganosa das vítimas; mas, sabem também, que deve ser usado com a relatividade com que se recorre às ideologias. As nossas marionetes, pelo contrário, sugaram ferozmente as trivialidades economicistas de que estão possessos, embriagando-se com elas. Agora, ajoelham perante elas, tomando-as por cientificas. E aplicam-nos cegamente como se fossem mandatos divinos.

A realidade imprudente desobedece. E as marionetes até podiam ter o lampejo de arrepiar caminho. No entanto, possuídas por uma fé perigosa e inabalável, baixam a cabeça e investem contra ela. Os mandantes dão-lhes meia dúzia de rebuçados, fazem-lhe pequenos agrados, sorriem com bonomia perante a sua fidelidade canina e lá continuam a demolir, discreta mas persistentemente, o que resta do sonho europeu.

Esses adolescentes políticos vão acumulando displicências e dislates. Deram-lhes o poder político, confundem-no com um jogo de guerra. Deram-lhes uma enorme responsabilidade e eles imaginaram-se protagonistas de uma aventura de fim de semana.


A realidade indiferente segue a sua marcha desregulada, os mestres europeus vão sendo reduzidos a uma substância mole e pegajosa que escorre ao longo dos problemas sem os resolver. Ora, acontece que isto, que pode parecer pouco, é um drama humano pungente para milhões de pessoas. E o respectivo sofrimento é, ainda por cima, dia após dia enxovalhado, miseravelmente, por uma corte de políticos reaccionários e de tecnocratas imbecis. Idiotas, que falam nos massacres sociais com que mimoseiam essas vítimas, como corajosas acções políticas de que se podem vangloriar. É, na verdade, de uma enorme miopia politica, aliás eticamente bem rasteira, que os próprios agressores descrevam as agressões sociais que cometem como actos de coragem. E tudo isso, muitas vezes, temperado por um sorriso alvar, envolvido pela indiferença indecorosa dos mandantes. E, para enlamear , por completo, a conjuntura mencione-se aquiescência pastosa de muitos profissionais da comunicação social, que consentem ser reduzidos a um papel de simples rafeiros, ao serviço de quem suga e atropela os cidadãos, escarnecendo do povo.

Pode ser que o imprudente cinismo reinante não consiga empurrar os povos europeus para uma devastadora rebelião generalizada, mas seguramente que ele não se inclui entre os factores que podem contribuir para a evitar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O VIZINHO ALEMÃO

Uma boa parte das tragédias históricas, duramente escritas com sangue, tiveram nas suas raízes anátemas ou preconceitos, que envolveram povos inteiros. Mas dentro desses povos, seguramente, (e pelo menos) uma boa parte nada fez para que existissem os motivos ou os pretextos que estiveram na base desses anátemas e dessas guerras. Porém, os vendavais não têm reconhecido os culpados.

Assim, um inestimável mérito da construção europeia foi o de ter diminuído drasticamente essas crispações, tantas vezes agudizadas por repetidas guerras, entre os povos que se envolveram nelas.

Nos dias que correm, a vozearia ideológica dominante nos centros de poder europeus tem falado muito numa alegada ligeireza dos europeus do sul, marcados por um hedonismo desbragado que teria levado a Europa às agonias da crise. Essa lenda, que pareceu casar-se minimamente com os factos num primeiro tempo, logo se afastou deles e mais se vai afastando, a cada dia que passa.


Os europeus do sul podem ter sido escolhidos como primeiro alvo por serem relativamente mais fracos no plano económico, mas não por terem infringido, grosseira e injustificadamente, as regras da arte e o consenso europeu. Os europeus do sul, como humanos que são, nem sempre terão seguido os caminhos mais certos, mas não foram os seus erros próprios o que mais contribuiu para as dificuldades que vivem, hoje. Na verdade, é de meridiana evidência que, se há uma força propulsora da crise vivida na Europa, ela está na incapacidade política das lideranças europeias e, em particular, no egoísmo nacionalista dos países mais poderosos, com especial destaque para a Alemanha.

É precisamente isto que torna mais grave a sucessão de atitudes de dirigentes políticos alemães que têm reflectido um dramático regresso a um tempo de preconceitos intra-europeus, em que os povos se combatiam cegamente numa espiral perversa. Para os alemães, os europeus do Sul, e muito particularmente os gregos, são gente de terceira classe, indolente e pouco confiável, sofregamente, à espera do seu ouro.

Ora, acontece que esses povos do sul, e por exemplo os gregos, sofreram, não há muitas décadas, uma brutal e devastadora agressão de invasores alemães. Por isso, se virmos bem, eticamente, talvez os alemães devam aos gregos muito mais do que aquilo que agora regateiam emprestar-lhe.

É claro, que qualquer cidadão do mundo minimamente esclarecido, seja ele ou não europeu do sul ou do norte, nunca deixará esvair-se na sombra do nazismo a inestimável claridade da cultura alemã, dos seus filósofos, dos seus músicos, dos seus escritores. Por mais que os ofendam, com a sua pequenez, os actuais políticos alemães, os expoentes maiores dessa cultura irão sempre ao nosso lado como irmãos e como guias.

Mas os actuais “panzers” da política menor, com seu insalubre hálito de uma usura estreita, têm que que perceber em que vespeiro estão a cutucar, quais os fantasmas que podem despertar, quais os demónios a que estão a abrir uma porta tão custosamente fechada. E bastaria que se lembrassem do que, não há muito tempo, aconteceu aquando da reunificação alemã. Apesar dos graves problemas que ela podia suscitar, no plano económico também, mas principalmente no delicado plano das relações de força dentro da União Europeia, os parceiros da Alemanha souberam acolher sem egoísmo a novidade. Compreenderam bem o que estava em jogo, simbólica e historicamente, tendo tratado a questão com fraternidade, mesmo sabendo o que havia de estruturalmente imprevisível na nova situação. Por isso, se agora a Alemanha fosse generosa não estaria, ainda assim, a ir além da reciprocidade.

Para mais, ao contrário do que possa parecer, para uma média potência mundial sem espaço de irradiação linguística, sem território, sem população que a possam puxar mais para cima, a força da Alemanha só pode firmar-se, diluindo-se subtilmente numa Europa, onde objectivamente pesará sempre muito. Em contrapartida, será essa Europa a não resistir a uma recaída imperial da Alemanha, mesmo que ela se processe pelas melífluas vias de um economicismo neoliberal.


Não resistirá. No entanto, se a Alemanha dispuser de suficiente inteligência política nas suas lideranças , talvez perceba que a generosidade e uma demonstração inequívoca de não querer ser mais do que um povo entre muitos, são um caminho seguro para uma proeminência natural e bem acolhida numa Europa fraterna. É, por isso, que o paroquialismo político da direita alemã, actualmente no poder, correndo o risco de ser fatal par a Europa a curto prazo, trará um enorme prejuízo para a Alemanha, a médio e longo prazo.

Aliás, a vida política oferece amiúde factos inesperados que são verdadeiros artefactos de uma saborosa ironia. É que, foi em pleno festival de menosprezo pelos europeus do sul, coloridamente soprado pelos ventos de Berlim, que o Presidente da República da Alemanha se viu obrigado a demitir-se por um potencial pecado, bem menos recomendável do que os que são imputados aos hedonistas do sul. Pensem, por um momento, no que diria a Srª Merkl, e os seus pretorianos teutões, se o Presidente da República da Grécia se tivesse demitido por um motivo idêntico. Isto, para já não falar nos ascéticos mercados… Pelo contrário, os “bárbaros” do sul tiveram a elegância de quanto a isso não dizer nada.

Enfim, não bastará que a Alemanha se emende e que o Partido Popular Europeu se recorde, ainda que vagamente, da sua raiz cristã, para que o sol nasça de novo na Europa, mas sem que pelo menos isso ocorra, corremos o risco de cair numa espécie de inóspita terra de ninguém, donde não será fácil sair.