terça-feira, 18 de julho de 2017

LULA - um alvo estratégico



Publico hoje mais um texto de Roberto Amaral, extraído da página virtual da excelente revista brasileira CartaCapital. É um texto sobre a recente condenação de Lula. Parece--me muito importante desfazer a cortina de fumo lançada sobre esse triste evento pela grandes empresas brasileiras de comunicação social, que encontra estranhos ecos na comunicação social portuguesa. Que a direita lusitana morda desalmadamente em Lula, compreende-se. É o seu jeito canino de argumentar. Que figuras que se pretendem fora desse espaço também mastiguem dislates e desinformações sobre o assunto  já é um pouco  mais enjoativo. Enfim, leiam o que nos diz um importante político e intelectual brasileiro que nem é membro do PT. Entretanto, para vos pôr mais alerta aqui fica  uma muito breve síntese do seu currículo.

Roberto Amaral nasceu em  1939. Cientista político, jornalista, escritor, conferencista e político militante, tem artigos científicos publicados em revistas académicas do Brasil e de outros países Com vasta colaboração na imprensa brasileira, escreve semanalmente na versão online da revista CartaCapital.
Com a redemocratização, retomou a atividade política legal, tornando-se um dos re-fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1985. Foi seu secretário-geral entre 1985 e 1993 e em seguida vice-presidente, assumindo mesmo a Presidência do PSB em três ocasiões: em 2005, em 2006 e em de 2014. A deriva direitista desse partido levá-lo-ia a abandonar a sua presidência , tendo posteriormente rompido com o próprio partido.
Nos dois primeiros mandatos do presidente Lula e no primeiro mandato da presidente Dilma, representou o PSB no Conselho Político da Presidência da República. Exerceu o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no Governo Lula.
É professor adjunto (licenciado) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor titular da Faculdade Hélio Alonso.É membro titular do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do Pen Clube do Brasil, da Internacional Political Science Association, da International Association of Judicial Methodology. Integrou (2004) o Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.
 
Eis o seu artigo, datado do passado dia 17 de Julho de 2017:

 
Por que Lula? por Roberto Amaral
“Sem surpresa, o País recebeu a anunciada condenação de Lula, sentença que já estava pronta antes mesmo da mal articulada denúncia do Ministério Público Federal, antes mesmo do julgamento na ‘República de Curitiba’, pois, antes de tudo, estava lavrada pelas classes dominantes – os rentistas da Avenida Paulista, as "elites" alienadas, a burguesia preconceituosa, um empresariado sem vínculos com os destinos do povo e de seu país. Uma "elite" movida pelo ódio e pela inveja que alimenta a vendeta. Denúncia, julgamento, condenação constituem uma só operação política, cujo objetivo é avançar mais um passo na consolidação do golpe em progresso iniciado com a deposição da presidenta Dilma Rousseff.
Tomado de assalto o poder, cumpriria agora destruir eleitoralmente a esquerda, numa ofensiva que lembra a ditadura instalada em 1964. Para destruir a esquerda é preciso destruir seu principal símbolo, assim como para destruir o trabalhismo caberia destruir o melhor legado de Getúlio Vargas. Não por mera coincidência, o dr. Sérgio Moro decidiu dar à luz a sentença a ele encomendada no dia seguinte em que o Senado Federal violentava a Consolidação das Leis do Trabalho. 
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Desinformando e formando opinião, exaltando seus apaniguados e difamando aqueles que considera seus inimigos, inimigos de classe, a grande imprensa brasileira promove o cerco político, e tece as base da ofensiva ideológica unilateral, porque produto de um monólogo.
Essa imprensa – um oligopólio empresarial, um monopólio político-partidário-ideológico e na verdade o principal partido da direita – que exigiu e obteve a condenação de Lula (e presentemente tenta justificá-la, embora carente de argumentos) recebeu com rojões juninos a sentença encomendada, mas logo se enfureceu porque Lula recusou o cadafalso político e anunciou sua candidatura à presidência.
Ora, dizem os editoriais, os articulistas, os colaboradores, dizem os "cientistas" políticos do sistema, Lula não pode ser candidato, o que revela a motivação da sentença. Já há "cientistas" exigindo que o TRF-4, em Porto Alegre, confirme sem tardança a condenação, e "filósofos" anunciando que a candidatura Lula é um desserviço à democracia (ela que lidera todas as pesquisas de intenção de voto) porque "polarizaria" o debate e as eleições. Doria, não. Bolsonaro, não. Caiado, não. Alckmin tampouco polariza. Mas Lula, sim; por isso precisa ser defenestrado. 
A "vênus de prata" já começou a campanha visando à condenação de Lula na segunda instância, e o Estadão (edição de 14 último) anuncia que o "Supremo deve manter condenação de Lula”.      
Somos testemunhas da tentativa de revanche da direita brasileira. Impedir a candidatura Lula é a defesa prévia ante a ameaça de a população demolir o golpe com as eleições de 2018.
O fato de o libelo (e jamais sentença) de Moro ser obra conhecida, segredo de polichinelo, não releva seu caráter mesquinho e iníquo, ademais de sua inépcia jurídica, desnudada. Do ponto de vista do direito, a "sentença" é um mostrengo e se fundamenta em ilações, presunções, talvez "convicções", artifícios de raciocínio em conflito com a lógica.
Contrariando o direito, que só conhece propriedade e posse, o juiz inventa a figura do "proprietário de fato". A propriedade, segundo nosso Código Civil, se prova mediante o registro em Cartório, mas para acusar Lula se aceita que uma simples delação do proprietário real seja recebida como transferência, e como esse proprietário supostamente doador, empreiteiro respondendo a processos, é usufrutuário de falcatruas, conclui o juiz açodado que o apartamento deve ter sido dado em retribuição a alguma facilidade propiciada pelo ex-presidente, trata-se, portanto, de uma propina. E se é propina, Lula é agente passivo de corrupção.
E por tais caminhos sinuosos, mediante tal exercício de lógica pedestre, condena à cadeia o ex-presidente, para puni-lo, evidentemente, mas para punir antes de tudo com a decretação de sua inelegibilidade. É disto que se trata. Não cabe, pois, discutir a gramática processualística, simples apoio formal de uma decisão eminentemente política, e, do ponto de vista político, um golpe preventivo em face das eleições de 2018, das quais previamente e precatadamente se elimina o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto. É preciso abater esse candidato, pelo que ele simboliza. E assim, e só assim, as eleições poderão realizar-se, disputada a presidência entre Francisco e Chico.
Como temos insistido, às forças do atraso não bastava o impeachment de Dilma Rousseff, pois, o projeto em andamento é a implantação de um regime de exceção jurídica voltado para a desmontagem de um projeto de Estado social, mal enunciado. E um regime com tais características e com tais propósitos jamais alçaria voo dependendo do apoio popular. Daí o golpe. À sua execução se entregou o Congresso, sem ouvidos para as vozes das ruas, surdo em face dos interesses do País e de seu povo, desapartado da representação popular, a serviço do mercado, como tonitrua, sem pejo,  o atual presidente da Câmara.
A eliminação de Lula é, pois, a conditio sine qua non do novo sistema para manter o calendário eleitoral, pois as eleições, para serem realizadas, não poderão importar em risco. De uma forma ou de outra, trata-se de um golpe, afastando-se uma vez mais do povo o direito de escolher seus dirigentes.  
A identificação de Lula como alvo da reação não é gratuita, nem fato isolado. Lula de há muito transcendeu os limites de eventual projeto pessoal, é mais do que um ex-presidente da República, e é muito mais que fundador e presidente do PT. Independentemente de sua vontade e da vontade de seus inimigos, é, para além  de sua popularidade, o mais destacado ícone da esquerda e das forças populares brasileiras. Lula é, hoje, e em que pesem suas contradições, um símbolo, um símbolo da capacidade de nosso povo fazer-se agente de sua História. É um símbolo das possibilidades de o ser humano vencer suas circunstâncias, romper com as contingências e fazer-se ator. Simboliza a potência do povão, do povo-massa, dos "de baixo", dos filhos da Senzala como sujeitos históricos. Simboliza a possibilidade de o homem comum, um operário, romper com as amarras da sociedade de classes, racista e preconceituosa, e liderá-la num projeto de construção de uma sociedade em busca de menos desigualdade social. Por isso é amado e odiado.
Símbolos assim constituem instrumentos de importância capital nos confrontos políticos por sua capacidade de emocionar e mobilizar multidões. Símbolos deste tipo não surgem como frutos do acaso nem se multiplicam facilmente, nem se constroem da noite para o dia. Emergem em circunstâncias especiais, atendendo a demandas concretas da sociedade. São construídos ao longo de certo tempo de provação, de testes dolorosos, como ocorre com os heróis clássicos, percebidos pela comunidade como portadores de virtudes.
O símbolo Lula não é produto do acaso, nem consequência de um projeto individual. Trata-se do fruto histórico resultante do encontro do movimento sindical com as lutas populares, construindo a primeira liderança política brasileira que emergiu do proletariado, do chão de fábrica, para a Presidência da República. Um feito de dificílima repetição, neste país aferrado ao autoritarismo conservador.   
É contra esse instrumento da luta política de massa que se arma a prepotência das classes dominantes brasileiras, filhas do escravismo, incuravelmente reacionárias, incuravelmente atrasadas, presas à ideologia da Casa Grande, desapartadas dos interesses do povo e da nação, descomprometidas com o futuro do país.
Ao abater Lula, pretende a direita brasileira dizer que o povo – no caso um ex-imigrante do Nordeste profundo, sobrevivente da fome, um ex-metalúrgico, um brasileiro homem-comum, um dos nossos –, não pode ter acesso ao Olimpo reservado aos donos do poder. É um "chega prá-lá", um "conheça o seu lugar", um "não se atreva", um "veja com quem está falando".
 A condenação de Lula tem o objetivo de barrar a emergência das massas, barrar os interesses da nação, barrar o avanço social, barrar o ideal de um Brasil desenvolvido e justo. Visa a barrar não o lulismo, mas todo o movimento popular brasileiro. Quer deter não apenas o PT, mas todas as organizações políticas do espectro popular (que não se enganem a esse respeito aqueles que sonham em crescer nos eventuais escombros do lulopetismo).

A defesa de Lula, a partir de agora, não é uma tarefa, apenas, de seu partido e dos seus seguidores. Ela representa, hoje, a defesa da democracia. É só a primeira batalha, pois muitas nos aguardam até 2018".  

segunda-feira, 3 de julho de 2017

ALCATEIA



A verdadeira natureza do CDS e do PSD é a que aí está, na miserável tentativa de aproveitamento político de quem morreu  num incêndio de verão; nesse desbragado saborear do roubo de armas num paiol do exército, que procuram somar rasteiramente  aos cidadãos que morreram.

Aflitos pelo esquálido apoio popular que lhe sugeriam as sondagens, os “crísticos” do CDS  e os “coelhosos” do PSD agarraram-se a uma desgraça e a um roubo, como duas bóias de salvação, para  através delas poderem atacar e desgastar o Governo.

Uma estranha alcateia de plumitivos graves, de inesperados especialistas todo o terreno, de carpideiras zelosas e de hienas piedosas, associa-se à direita encartada num enjoativo festival de imputações rápidas, ansiosas por decretarem em praça pública o linchamento sumário deste governo.

Esta não é a sociedade que o povo de esquerda almeja,  esta não é a nossa sociedade; por isso é preciso melhorá-la, tornando-a outra. Isso não impede que seja nossa responsabilidade responder com eficácia às adversidades que nela ocorram e construir uma solidariedade que atenue o sofrimento das possíveis  vítimas dos seus defeitos. 

É nossa responsabilidade como partes do povo de esquerda, como apoiantes deste  governo, como cidadãos que lutam por um futuro mais justo. E naturalmente responsabilidade do nosso Governo, deste governo. Por isso, sendo quanto a ele total a solidariedade que lhe devemos, é também total , em face dos seus deveres, a nossa exigência.

Solidariedade e exigência eis o que devemos a este governo. Quanto à segurança das pessoas e quanto à segurança das armas. Estas vítimas, quaisquer vítimas, os seus entes queridos e os seus amigos, merecem o nosso respeito e a nossa tristeza. Não lhos regateamos. Merecem solidariedade e apoio. Não podemos deixar que lhes faltem.

Mas não podemos sofrer  quando há  vítimas  por causa de um incêndio, mas ignorá-las se morrerem às mãos da exclusão social gerada por uma sociedade desigual, às mãos da pobreza. Queremos uma sociedade que faça diminuir todos os riscos para todos os tipos de vítimas, não apenas para alguns. Não lamentamos algumas vítimas para apagarmos a culpa de causarmos outras. Não ficcionamos o paroxismo da indignação quanto às vítimas dos incêndios, para compensarmos a nossa defesa de uma sociedade desigual que condena os mais desfavorecidos a uma exposição permanente à desgraça.

A direita é a conservação das desigualdades que temos, da injustiça estrutural da sociedade. Em muitos casos, chora no imediato por causa das consequências a longo prazo  do modelo de sociedade que defende. A esquerda só tem razão de ser como insurreição contra a injustiça e como solidariedade permanente em face das suas vítimas. A direita, no caso em apreço, procura aproveitar-se da existência de vítimas para conseguir o que não consegue de outra maneira. Em contraponto, o dever deste governo, tal como de todo o povo de esquerda, é praticar uma solidariedade plena em face das vítimas do incêndio, bem como de todas as outras vítimas e pugnar para, no futuro, minorar acidentes e sofrimento.


O CDS , o PSD e a alcateia que os segue têm mostrado o que são e quem são. Por isso, socialistas, gente do PS, não nos esqueçamos. Aprendamos de uma vez por todas que com gente desta não se fazem acordos políticos. Nunca!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?



A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?

Só o decurso do próximo quinquénio da Presidência de Mácron em França nos dirá se a sua entrada de rompante na cena política assinala o princípio do fim da quinta república ou o seu renascimento.
 
A primeira volta das eleições legislativas confirmou a vaga de fundo a seu favor que as sondagens haviam anunciado. Embora só após a segunda volta se fique a saber a dimensão da vitória do “La Republique en Marche“ (LRM), não há dúvida de que ela será retumbante, quanto ao número de deputados eleitos. Feitas as contas, talvez seja mesmo impossível que lhe venha a escapar a maioria absoluta, mesmo que haja uma reviravolta improvável, na segunda volta.
 
As projeções de resultados apontam como possível que os macronianos tenham mais do dobro dos deputados de todos os outros partidos juntos; entre 415 e 455 num parlamento com 577 lugares. Deste modo, na Assembleia Nacional o seu predomínio será esmagador. Veremos que força virão a ter no Senado, bem como  nos órgãos de poder regional e local, dada a anunciada deserção a seu favor de alguns dos respetivos protagonistas, vindos da esquerda e da direita.  
 
Mas o binómio Presidente da República/ maioria parlamentar, com esse peso institucional avassalador, que base eleitoral terá, em termos reais? Que percentagem do eleitorado votou nos deputados macronianos? Quantos franceses votaram neles, nesta primeira volta das legislativas?
 
O jornal francês  “Le Monde” publicou uma análise comparativa que vale a pena ter em atenção. Comparou as percentagens obtidas pelo partido ou partidos que apoiaram o Presidente da República eleito nas primeiras eleições legislativas subsequentes à respetiva eleição. Tendo em conta situações semelhantes que ocorreram em 1981, 1988, 2002, 2007 e 2012,a percentagem obtida pelos apoiantes de Mácron, na primeira volta das legislativas de 2017, foi a mais baixa de todas; obteve 32,2 %, dos quais 28,1% foram conseguidos pelo LRM. Se compararmos com o que ocorreu com Hollande há cinco anos, verificamos que na primeira volta das legislativas subsequentes à sua eleição, os partidos que o apoiavam obtiveram 46,77 % , tendo o PSF sozinho atingido 29,35 %.
 
Paralelamente, a abstenção subiu, de uma eleição para a outra, mais de 5 milhões de eleitores. Na primeira volta destas últimas legislativas, os partidos de esquerda (como um todo) foram laminados, embora o desastre do PS tenha sido de longe o maior e tenha havido um reforço da França Insubmissa/Partido Comunista Francês (FI/PCF). Somando as percentagens atingidas por todas as esquerdas, vemos que elas chegaram a 28,32%, em confronto com os 32,21 % da maioria macroniana. A maioria macroniana tem duas parcelas, LRM -28,21% e MODEM -4,11%. Assim, o conjunto de todas as esquerdas tem uma vantagem muito ligeira em número de votos relativamente aos macronianos “puro sangue”.
 
No entanto, as projeções apontam para uma relação de forças em número de deputados em que a maioria macroniana pode chegar aos 455 deputados eleitos, enquanto que as esquerdas somadas, na pior das hipóteses, podem ficar-se pelos 27 deputados (20-PS; 7- FI). O que separa os dois blocos, no plano do apoio popular efetivo, é a diferença entre sete milhões e trezentos mil e seis milhões e quatrocentos mil eleitores. Diferença distorcida pelo tipo de conversão de votos em mandatos que faz com que uma relação de forças, em que a vantagem da maioria presidencial se reduz ao peso do MODEM (4%), se converta na abissal diferença entre 455 e 27.
 
Esta anomalia  democrática, suscitada pelo cruzamento entre um sistema uninominal a duas voltas e uma nova relação de forças entre os grandes espaços políticos franceses, não se circunscreve ao que se acaba de escrever. Recorramos, uma vez mais , ao Le Monde  que procedeu a um cálculo simulado que mostrasse quantos deputados teriam sido eleitos por cada partido  para o parlamento francês, no caso de os votos obtidos no passado domingo terem sido convertidos  em mandatos segundo o método proporcional. A maioria presidencial de Mácron, em vez de se fixar em 455 deputados, como as projeções mais otimistas lhe vaticinam no quadro do atual sistema eleitoral, ficar-se-ia pelos 186; ou seja, mais de cem deputados abaixo da maioria absoluta ( que é de 289). Os socialistas e aliados teriam 80 deputados em vez de um máximo de 30; a FI e o PCF teriam 84 em vez de 12.
 
Ou seja, o conjunto da esquerda, com 164 deputados, ficaria com menos 22 deputados do que os 186 de Mácron. No atual sistema de distribuição de mandatos, com a mesma diferença em número de votos a esquerda no seu todo poderá ficar, na melhor das hipóteses com 42 deputados em face dos 455 dos macronianos. Ou seja, com menos 4% de votos do que a maioria presidencial, a esquerda  ficará com menos de um décimo dos deputados que caberão aos macronianos.
 
O resto da Assemblée Nationale agrava a disfuncionalidade deste panorama. A FN, que poderá ter no máximo 5 deputados no sistema atual teria 85, se o escrutínio fosse proporcional. Apenas a direita tradicional é menos severamente atingida. Na verdade, conta-se que tenha no máximo 110 deputados no sistema vigente, enquanto chegaria aos 124 numa distribuição proporcional. No total, a maioria presidencial ficará com mais de 78% dos deputados, embora só disponha de menos de um terço dos votos; mas os outros dois terços de votos ficarão representados por pouco mais de 20% dos deputados.
 
De um ponto de vista institucional, a legitimidade de Mácron  e da maioria parlamentar que o apoia é inquestionável, mas os cidadãos que o apoiam não se multiplicam por prestidigitação e os que não se reveem no seu projeto não se evaporaram. Em mais de 45 milhões de inscritos, houve mais de 24 milhões de franceses que se abstiverem, não tendo assim votado nem nos apoiantes de Mácron, nem nos outros. Ao fim e ao cabo, apenas 7 milhões e trezentos mil franceses se mostraram identificados com o projeto Mácron, enquanto mais de 15 milhões e quinhentos mil se mostraram alinhados com outras posições ao votarem nelas . Portanto, a enorme vaga institucional de apoio a Mácron não pode deixar de ser redimensionada, à luz da relativa modéstia da sua efetiva irradiação social.
 
É certo que ele vai ter a força que resulta do enfraquecimento dos outros. A direita clássica ainda não sabe a extensão dos danos sofridos, não calculou ainda o grau de oposição que vai ter  e os seus punhais já a ser afiados não sabem ainda em que costas “amigas” se vão cravar. A extrema-direita está em pausa, hesitando entre a continuidade e a habilidade, esperando perceber que espaço sociopolítico lhe vai ser concedido pelo macronianismo. À esquerda, os ecologistas parecem em suspenso, vagamente receosos de uma irrelevância duradoura. A FI tornou-se, em conjugação com o PCF, a força numericamente predominante á esquerda, ainda que não deva vir a ter o conjunto de deputados relativamente mais numeroso. A conjugação deste reforço com a perenidade ou não do PCF projeta neste espaço uma equação complexa.
 
Quanto ao Partido Socialista Francês passou de 29,35 % de votos na primeira volta das legislativas de 2012, para 7,44%, cinco anos depois; tendo perdido quase seis milhões de votos nestes últimos cinco anos. Despindo-o dos seus aliados habituais, ele próprio considerado isoladamente ficou ligeiramente abaixo de um milhão e setecentos mil votos. Não é neste momento totalmente clara a medida em que está internamente dilacerado entre dinâmicas inconciliáveis. É ainda incerto se tentará liderar uma esquerda, no seio da qual conviverá outros sujeitos políticos, se será vítima de uma fatal atração pela maioria presidencial, se será repartido entre esses dois caminhos.
Depois do próximo domingo, voltaremos a falar sobre tudo isto. Especialmente, a propósito do PSF; dos seus desígnios e do seu horizonte.
 
Com o tempo irá ficando inequivocamente a descoberto a matriz do macronianismo, cujo primeiro-ministro é já hoje um antigo expoente da direita clássica. O que ocorreu nestas duas mais recentes eleições de maio e junho, é desde já um golpe profundo nos socialistas franceses, que vem somar-se a outros desaires socialistas noutros países, se bem que não em todos. Só por isso, teria sido um golpe relevante no panorama politico-partidário da França. Mas o que acabo de escrever mostra bem que, mais do que isso, o que está em cima da mesa é uma crise profunda no sistema político francês.
Na verdade, é uma aventura imprudente aceitar um tipo de conversão de votos em mandatos que empola escandalosamente uma minoria, por ser ela a maior minoria , em detrimento de várias outras minorias que sendo menores, uma a uma, consideradas em conjunto valem o dobro daquilo que vale a minoria maior; aquela  que se prepara para um açambarcamento desmesurado do poder.  
 
O foguetório dos “robertos” da comunicação social  europeia festejou a derrota da extrema-direita representada pela vitória de Mácron. Mas nada pode ser mais favorável á FN em França do que ficcionar como democraticamente aceitável o exercício de um poder baseado num sistema eleitoral que dá o predomínio absoluto a um terço do eleitorado e deixa fora do jogo institucional os outros dois terços. Esta relativização da democracia, se for por diante com a arrogância que se já se adivinha  e com o menosprezo das minorias e mundo do trabalho, pode fazer exultar os alegados mercados, mas não deixa de ser, principalmente, uma inesperada vitória simbólica da Frente Nacional.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

O resultado oculto das eleições britânicas



O resultado oculto das eleições britânicas
As diversas tonalidades de opinião, quanto ao resultado das recentes eleições britânicas, não se afastam muito da imagem geral de um punição à sofreguidão da líder do governo conservador, quando provocou a antecipação de eleições para tornar mais forte a maioria absoluta de que o seu partido já dispunha no parlamento. Teria , aliás, querido matar dois coelhos com uma cajadada: ficava com uma posição mais forte para negociar o “brexit” com a União Europeia e reduzia a uma dramática insignificância os trabalhistas, aos quais as sondagens colocavam com uma desvantagem de 20%.

Uma dramática insignificância que era especialmente aliciante para a Srª May , dado que a esperada  derrocada dos trabalhistas seria a alegada consequência do posicionamento político  do seu líder, que os arautos  e os escudeiros do pensamento único consideravam como demasiado à esquerda, demasiado radicado no imperativo de superação das dificuldades dos britânicos que realmente as têm.

Na verdade, a Srª May ficou abaixo da maioria absoluta na Câmara dos Comuns, precisando de um acordo, que se adivinha volátil, com os unionistas irlandeses, para ter possibilidades de formar governo. Com os seus 318 deputados, precisa dos 10 dos unionistas para passar a barreira dos 326 votos de que necessita. Ficará com uma coligação ou com um acordo mais frágil do que aquilo que era a maioria exclusivamente do seu partido antes das eleições. Os trabalhistas terão 262, os nacionalistas escoceses 35 e os republicanos irlandeses 7.

Do ponto de vista institucional, o significado político dos resultados verificados é realmente o que se acaba de mencionar. Um significado que é a projeção da relação de forças em termos de apoio popular, no modo de distribuição de mandatos inerente ao sistema eleitoral britânico.

Mas isso não impede que seja relevante olhar também para esses resultados eleitorais, valorizando o apoio popular obtido por cada partido, o número de eleitores que optaram por cada um dos partidos. E, assim, vê-se desde logo que os conservadores chegaram aos 42,4%, subindo 5,5 % em relação às anteriores eleições; enquanto os trabalhistas chegaram aos 40%, subindo 9,6 %. Ou seja, os alegados 20% de diferença prometidos nas sondagens, ficaram reduzidos a uns magros 2,4 %. Ou seja, em termos de apoio popular os trabalhistas de Corbyn, apesar da barreira de hostilidade que enfrentou, ficaram a 2,4% dos conservadores, apesar destes terem subido 5,5 %. Parece assim que a Srª May não se enganou quanto ao reforço de apoio que realmente obteve, mas quanto ao apoio popular a uma agenda de esquerda centrada na luta contra a desigualdade e radicada numa aspiração frontal por uma sociedade mais justa. Ela partiu do pressuposto de que Corbyn seria o coveiro dos trabalhistas, quando afinal lhes trouxe um vigor renovado.

Mas esta relação de forças não pode ser verdadeiramente avaliada, se for esquecido que a direita radical, que foi uma alavanca decisiva para a ocorrência do “brexit”, o UKIP, ficou reduzida a 1,8 % (zero deputados), tendo por isso descido 10.8 % desde as eleições anteriores. Isto sim foi um desmoronamento. E os conservadores puderam absorver uma parte do que antes haviam perdido para a direita radical.

Os liberais democráticos, tidos como os campeões da coerência anti--brexit, tendo subido 3 lugares, perderam no entanto 0,5 % do voto popular.

Os nacionalistas escoceses, embora continuando a ser na Escócia o partido mais forte, perderam 19 deputados em 54, ficando apenas com 35, passando assim à escala nacional de 3% para 1,7%.

Algumas conclusões parecem nítidas perante o apoio popular obtido pelas diversas posições. Desde logo, vê-se que os britânicos, embora não indiferentes ao problema do “brexit”, estão mais preocupados com as políticas que internamente vão condicionar a sua vida do que com a alegada performance negocial no plano europeu, deste ou daquele. Nem o UKIP foi recompensado pela sua vitória no referendo pelos que o apoiaram, nem os liberais democratas foram compensados pelo seu europeísmo claro, pelos que são contra o “brexit”.

No seu conjunto, os dois maiores partidos superaram a barreira dos 80% dos votos, repartindo o apoio eleitoral obtido em partes quase iguais. Mas a grande novidade está no facto de os trabalhistas terem atingido os 40%, subindo assim quase dez por cento, com uma proposta política inequivocamente situada á esquerda, esvaziando assim a velha lenda de  que a esquerda só pode ganhar um apoio eleitoral significativo se fizer concessões á direita, de modo a fazer-se passar por uma esquerda  que afinal é centro.

É certo que os “chiens de garde” , os ideólogos do neoliberalismo qualificam como de um século passado todas as propostas que visem uma demarcação em face da atmosfera predatória do capitalismo atual, ambicionando  uma sociedade menos injusta  porque mais igualitária. Propostas que reflitam uma efetiva determinação em acabar com a pobreza, em cortar nos privilégios, suscetível de abrir as portas a um futuro decente para todos. É muito antigo o expediente de qualificar sumariamente como do passado aquilo que não se sabe ou se não quer combater substancialmente em campo aberto no presente . Na verdade, esse expediente é que é realmente do passado.

Mas talvez o mais decisivo tenha sido o facto de Corbyn ter deixado transparecer que o cerne do seu envolvimento político não era uma simples oferta de um programa eleitoral, mas a partilha de um combate. Ora, o povo de esquerda está cansado de ser laminado pela máquina trituradora do neoliberalismo, enquanto partidos que deviam ser seus se mostram mais inclinados a agradar aos poderes económicos de facto do que a ocupar dentro do povo de esquerda o lugar que justifica a sua própria existência. E ele ouve cada vez menos quem apenas lhe peça para votar periodicamente num programa mais ou menos redondo, onde apenas reluz aquilo que mais longe está de poder ser cumprido por quem continuar manso como de costume.

Em contrapartida, o povo de esquerda tem vindo a dar, em diversas circunstâncias  num e noutro país, sinais inequívocos de que está disposto a bater-se e mesmo  a confiar nos partidos que não se conformem com o tipo de sociedade hoje dominante, mostrando-se capazes de apostar na sua transformação, rumo a um pós-capitalismo democrático e emancipatório.

 Os povos parecem cada vez menos dispostos a ser dóceis e a  aceitarem que a máquina trituradora do capitalismo lhes esmague o futuro, sempre legitimada pelos que lhe dizem que não há outra solução. Falta saber se encontrarão um caminho que os transforme numa energia qualificante que possa fazer acontecer a esperança ou se ficarão aprisionados num desespero estéril  que apenas seja suscitável de fazer implodir o que existe numa deriva dissipativa e fatal.

Se os partidos de esquerda forem capazes de ser parceiros fraternos dos seus povos, mergulhando neles as suas raízes, partilhando com eles a procura de uma verdadeira superação democrática do capitalismo, a primeira hipótese é mais provável. Mas se forem enredados nas suas próprias tergiversações ou se sucumbirem à sofreguidão de um imediatismo atabalhoado, estarão a contribuir para que seja maior o risco da verificação da segunda hipótese.

Não deixemos pois reduzir o resultado das recentes eleições britânicas a esse croquete de evidências e banalidades que procura fazer luzir ao máximo as aparências, para que desistamos de pensar no que realmente ele nos mostra. Isto naturalmente sem o encarar como uma dádiva que apenas  nos caiba fruir; mas vendo-o como um sinal incontornável que vale a pena e é possível  lutar politicamente por um futuro mais justo.

Como apontamento caricatural e simbólico, Tony Blair, esse brilhante sargento do general Bush, veio publicamente antes da campanha juntar-se á matilha, tentando apoucar Corbyn. Julgou-o talvez moribundo, mas o que realmente deixou a descoberto foi  a fraqueza da sua lealdade e a falta de decência para com o partido que liderou e para com algué que ocupa hoje a posição que ele antes ocupara. Talvez tenha sido pedagógico,  porque nos fez  lembrar quem realmente é e nos fez recordar a medida em que contribuiu, com a sua via de rendição ao neoliberalismo, para o enfraquecimento dramático de alguns dos partidos que integram o Partido Socialista europeu e que seguiram por ela.

Tavez , Corbyn não lhe tenha ligado muito, mas implicitamente deu-lhe uma resposta demolidora. E tornou ainda mais difícil de contornar a evidência de que o “blairismo” é uma política morta, marcada indelevelmente por uma imprestável cobardia estratégica.

sábado, 27 de maio de 2017

Alter do Chão - memória das raízes


Em 25 de maio de 2017 algumas perspectivas da antiga Escola Primária de Alter do Chão, hoje transformada num Pavilhão Multiusos.






No mesmo local, cerca de cem anos antes ( início da década de 20 do século XX), junto á escola onde era Professora Maria Augusta Vitorino Namorado, num pequeno carro puxado por póneis, os seus quatro filhos mais velhos:na frente, António Namorado e Joaquim Namorado; atrás, Maria José Namorado e Egídio Namorado.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

COIMBRA – a discreta sombra de um labirinto



COIMBRA – a discreta sombra de um labirinto

Vai sendo mais audível o tinir das espadas. Aproximam-se os combates autárquicos. A parte dos Cidadãos por Coimbra (CpC) que melhor se harmoniza com o Bloco de Esquerda deu recentemente um importante passo na materialização da sua candidatura, quando anunciou grande parte das suas listas candidatas ás próximas eleições autárquicas.

A sua ambição é  robusta. Propõe-se passar a ser a terceira força no âmbito concelhio de Coimbra, para o que quer triplicar o número de vereadores que antes elegeu. Isso já seria uma progressão espantosa, mesmo que tudo lhes tivesse corrido de feição durante o quadriénio. Mas não foi isso que aconteceu. Ainda,recentemente, foi tornada pública uma cisão ocorrida no seu seio, que a fez perder a quase totalidade dos seus elementos com maior notoriedade pública, entre os quais o seu vereador e os seus deputados municipais. Subsistiram, como elementos com notoriedade pública, os expoentes mais destacados do Bloco de Esquerda no concelho. Por isso, à primeira vista, percebe-se mal por que razão  o BE não se  submete ao sufrágio dos eleitores de Coimbra, sem recorrer ao véu difuso, ainda que virtuoso, dos CpC. 

Tendo tudo isto em conta, o ambicioso desígnio da triplicação dos vereadores  podia ser simplesmente  considerado como um artifício de propaganda, decerto ousado,   mas algo irrealista e, diga-se sem acrimónia,  um tanto caricato. Mas não é um artifício aleatório. No fundo, parece destinar-se a projectar   uma imagem dos CpC que sugira  um potencial efectivo de participação no poder municipal.

Esse quase milagre da triplicação dos vereadores não é por isso uma simples bravata, tão comum em disputas eleitorais. Pelo contrário, é o elemento chave de uma estratégia. Eles querem três vereadores para partilharem o governo do município. Não um governo qualquer,  mas uma solução governativa autárquica  que envolva o PS e a CDU. Registe-se que estes CpC não parecem ter sido contaminados por uma vertigem de serviço público tão forte que os levasse a ser aliciados por um moreirismo qualquer, ainda que atenuado por um leve perfume de choupal. Mas é precisamente a sua louvável virtude geringoncista que os coloca num difícil labirinto.

Na verdade, três vereadores são obra, mas não são suficientes para que os CpC elejam eles próprios o Presidente. E, tendo em conta o peso eleitoral das várias forças politicas de esquerda, revelado em anteriores eleições, o mais provável  é que a sugestão geringoncista , em que almejam participar,  implique a eleição para Presidente do candidato do PS. Ou seja, a sugestão dos CpC pressupõe a vitória do PS.

E aqui é que está o busílis. Na verdade, uma das dificuldades que apresenta essa linha de orientação resulta do facto de só poder haver uma solução geringoncista na vereação de Coimbra, se o PS fizer eleger para Presidente o seu candidato. Se assim não for, teremos, pela força das coisas, um governo municipal de direita, nada podendo fazer contra isso os hipotéticos três futuros vereadores dos Cidadãos. Pela força das coisas,o seu êxito relativo representaria necessariamente uma derrota absoluta do seu principal  desígnio: uma geringonça autárquica. 

Esse hipotético e glorioso  trio correria o risco de implicar pois, em si mesmo, uma vitória da direita em Coimbra. E sendo assim os CpC, em tese, teriam que optar entre continuar fora dessa maioria autárquica ou venderem a alma ao diabo [como certamente diria um conhecido Coelho], fazendo assim as pazes com a direita, com os delegados municipais da gente da troika, que à escala nacional certamente combate. Seria para mim uma enorme surpresa se os CpC não optassem pela primeiro hipótese.

Ou seja, os CpC arriscar-se-iam-se a contribuir para um resultado autárquico em Coimbra que prejudicaria grandemente a solução política nacional que eles próprios defendem, beneficiando em Coimbra aqueles que eles combatem no plano nacional. É um pouco estranho. Um verdadeiro labirinto.

Na prática, embora não o  digam (e mesmo que o não desejem), propõem-se tudo fazer para derrotar o PS em Coimbra, dando assim a Presidência da Câmara à direita, para logo de seguida, se não o conseguirem, se proporem  governar a autarquia em aliança com quem tudo fizerem  para ver derrotado. Lutam pela derrota do PS, mas precisam da sua vitória para dar corpo à via política que preferem. Grande agilidade, grande paradoxo.

Vê-se assim que, como acontece com várias outras forças políticas, os CpC têm certamente propostas interessantes e desígnios legítimos. Pode até talvez dizer-se que têm alguma agilidade no rendilhado dos pequenos  detalhes,  cultivando uma respiração de novidade que  querem aberta. Mas quanto ao essencial  a linha de orientação estratégica deixaram-se enredar num labirinto, cuja saída se não vislumbra. Na verdade, se tivessem êxito, obteriam afinal um resultado que seria  um golpe profundo naquilo que eles próprios defendem à escala nacional.

Ora, em política, quem se deixe encerrar num qualquer  labirinto pode andar muito, mas avançará sempre pouco, arriscando-se a não sair do mesmo sítio. E quando, como hoje, vivemos um verdadeiro tempo de avançar, é indispensável evitarmos o labirinto das nossas pequenas razões, das nossas motivações paroquiais, por mais legítimas que elas nos possam parecer, para podermos caminhar. 

E como última observação: se realmente o BE tem alguma proposta política a fazer ao PS, ao PCP e aos Verdes, no sentido de repercutir no município de Coimbra um acordo que reproduza aquele  que sustenta o actual governo de Portugal, talvez fosse mais apropriado começar por utilizar os canais formais de contacto existentes, em vez de começar por pôr em praça pública uma tão importante sugestão. E, para mais,  fazê-lo através de uma tomada de posição pública de uma estrutura difusa e volátil, não parece um caminho recomendável. Quem o percorra pode dar a impressão de não estar  realmente interessado no que sugere. Pode, na verdade, dar a impressão, quiçá injusta, de que o que verdadeiramente  importa aos proponentes é tornarem publicamente ostensivo o seu apoio á solução de governo actualmente vigente no país, sendo a proposta municipal concreta meramente instrumental e descartável.

Este e outros labirintos lançam uma sombra sobre nós.Por mim, cada vez mais me convenço que é  muito melhor as esquerdas partilharem entre si solidariamente uma difícil respiração do futuro, do que estacionarem na eterna questão de se saber qual a justa medida em que devem ser repartidas entre todas elas as culpas pelas vitórias da direita.


domingo, 21 de maio de 2017

Nem esquerda, nem direita, antes pelo contrário.



Nem esquerda, nem direita, antes pelo contrário.

1. A ideia de que a dicotomia esquerda/direita em política está ultrapassada tem sido objeto de uma grande insistência, nos últimos tempos. Essa insistência é, por vezes, mais intensa em certas conjunturas de alguns países.
Ela pode refletir estratégias e convicções diversas. Pode ser um aspeto parcelar de uma certa maneira de olhar a sociedade, mas também pode ser um simples instrumento tático na luta política. Neste último registo, pode ser um estratagema de camuflagem da verdadeira identidade do seu protagonista ou pode ser uma tentativa de enublar a paisagem política para ocultar a realidade. É essa camuflagem  que se combate, ao defender-se que quem se afirma como “nem de direita nem de esquerda” mostra que é de direita.

2. Em França, esta problemática é de absoluta atualidade. Ela está inscrita no cerne da conjuntura aí vivida, após a eleição de Mácron para a Presidência da República. Aliás, a sua candidatura já inscrevera a superação da dicotomia esquerda / direita como a sua mais funda raiz. Procurou depois conjugá-la com uma outra ideia que difundiu mais contidamente : a de que  era a expressão cimeira do lançamento no caixote do lixo da história de uma política alegadamente velha, personificando uma nova política arejada e limpa. Descartadas as velhas elites, emergiam as novas. Ao povo estava reservada a honrosa tarefa de aplaudir.

Desde logo, a suposta pureza desse corte virtuoso ficou algo embaciada pela presença de algumas velhas raposas no doce galinheiro macroniano que o novo governo quis fazer crer que era. Mas o que acabou por demolir o angelismo político afixado por essa operação governamental , deixando a descoberto uma verdadeira reserva mental, foi  a afirmação pública e tonitruante do Primeiro-Ministro  do novo governo de que era um  homem de direita.

Ou seja, a via macroniana, esse artefacto puro do “nem esquerda/nem direita”, dava o lugar chave da sua dimensão governamental  a um homem de direita, que  na primeira oportunidade mediática achou importante proclamar-se solenemente como tal.

O número dois da “macronarquia” achou importante como elemento estruturante da sua identidade política afirmar-se como um homem de direita. Pergunta-se : mas afinal a diferença entre direita e esquerda existe e é relevante  ou não ? Macron quis fazer crer aos eleitores que não, mas o seu primeiro-ministro quis  deixar bem claro que sim, quiçá, para que o capital financeiro tomasse boa nota e continuasse tranquilo.

Mas esta prestidigitação política acabará por deixar à mostra aquilo que queria esconder. De facto, a encenação macroniana,  em si própria uma operação de ilusionismo, um respirar perverso de virtudes  virtuais e não vividas, logo nos  seus primeiros passos, tropeçou  na confissão estranha , mas compreensível do seu Primeiro-ministro.


Mais um indício de que, raspado o efémero verniz da circunstância  e decorrido o breve estado de graça das ilusões, a salvação macroniana  ficará acomodada na velha máxima lampedusiana : “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

UMA LIÇÃO BRASILEIRA





A "Caixa de Pandora" aberta pelos conspiradores que derrubaram Dilma e querem impedir Lula de disputar as presidenciais de 2018, não mostra sinais de poder ser fechada. A política antipopular do governo Temer, aliás,  mostra bem quem realmente são e o que querem os golpistas instalados no poder no Brasil.

O seu golpe foi uma operação sofisticada que começou longe e ainda está em curso. Não seguiu  o modelo de outros tempos: tanques nas ruas, polícia nas casas, militares no poder  e  povo nas prisões. Foi tecido com a participação de juízes e outros magistrados, de políticos, de polícias, de empresários e da grande comunicação social. Mas uma orquestra de indignidades, por mais subtil que seja,  não dispensa um maestro, um estado-maior competente  que meça os golpes a dar, que escolha os ritmos, que decida  as pausas, que doseie o ruído, que gradue  os estímulos que hão de encher as ruas. Era bem mais fácil no tempo dos militares: tudo  simples, brutal e linear. Para o comando bastavam alguns generais.

Mas com o novo tipo de golpe a história é outra. Vários tipos de protagonistas têm que ser coordenados, articulados, postos em sinergia. Falei numa orquestra, mas verdadeiramente são várias. Conjugá-las potencia a dificuldade que há  para reger cada uma delas.
Os maestros deveriam ser subtis e estar consonantes entre si.  

Ora, nós vimos ao vivo na televisão, quando se decidiu  o impeachment  de Dilma no Congresso brasileiro, que  noventa por cento dos seus membros, eram verdadeiras nulidades políticas. Eles seriam incapazes de reger sequer um conjunto de pífaros. A única coisa para que parecem habilitados é para dizerem meia-dúzia de alarvidades reaccionárias.

É o protagonismo de gente dessa que faz com que  hoje assistamos ao estrangular acelerado de um grande país. Uma clique de direita , politicamente  analfabeta e eticamente desqualificada dispara e foge em todas as direcções.  O processo golpista descarrilou. As hienas  que  protagonizaram o golpe mordem-se agora umas às outras.

Os chefes golpistas sentindo-se acossados  tendem a entre devorar-se. Os núncios atacam os mandantes. Os subalternos derrubam os chefes.  Os narradores já não sabem o que hão de narrar, de calar e de gritar. Os cães viram-se contra os donos.  A sinfonia golpista que se julgava  triunfante tornou-se num ruído insuportável de recriminações e renúncias.

Há uma lição brasileira que começa a ser esboçada: quem não sabe música não deve cantar ópera.

FRANÇA - o holograma perverso


Quando no futuro os historiadores se ocuparem da história política de França nos primórdios do século XXI, hesitarão possivelmente entre três hipóteses, quando procurarem saber o que se passou durante os cinco anos de presidência de François Hollande. Uns dirão que quem ocupou o Palácio do Eliseu, durante aqueles cinco anos foi um sósia de Hollande, outros dirão que foi apenas um estranho fantasma e outros, finalmente, dirão que a França sofreu durante cinco anos um holograma perverso.

Sósia, fantasma ou holograma, esse aparente Hollande presidiu à França como se em larga medida fosse muito diferente do François Hollande que ganhou as eleições presidenciais, com uma agenda radicada na resistência ao capital financeiro e na solidariedade para com o mundo do trabalho, prometendo devolver à França uma atitude republicana, em face da Alemanha imperial e dando à Europa a oportunidade de voltar a respirar.

Por mim, se tivesse que escolher entre as três hipóteses citadas, optaria pelo holograma perverso. Algum sábio inventou, no segredo dos labirintos da altíssima política, essa tecnologia de assombração,  que permite gerar o holograma de alguém, deturpando-o, pervertendo o que de mais fundo anima o hologramado.

São vários os indícios que concorrem para a verosimilhança desta hipótese. O alegado holograma de Hollande, que a Europa esperava ver erguer-se como um tigre perante Berlim, para salvar a Europa da sombra de um império, transformou-se em pouco tempo num bichano grave, mas ronronante, que a Sr.ª Merkel se dava ao luxo de passear com carinho pelos areópagos europeus.

O alegado holograma de Hollande que a França esperava ver desembainhado como espada virtuosa contra o capital financeiro ficou reduzido a um pequeno punhal que apenas servia para ir insidiosamente apunhalando os direitos dos trabalhadores.

Quando pareceu que o verdadeiro Hollande ia voltar, esconjurando o citado holograma, eis que foi este afinal que se impôs, colocando Valls  como novo primeiro –ministro. Valls  esse expoente da ala direita do Partido Socialista Francês, que, aliás, projetando-se a si próprio há muito defendia que se deixasse de chamar socialista. Valls que se viria a revelar como um dos mais eloquentes exemplos da traição política.

Hoje, uma vez tornado institucionalmente público o olimpo macroniano, percebemos que a sua espinha dorsal foi construída pela ligeireza ou pela insídia do citado holograma. Foi ele quem colocou no Eliseu  como seu conselheiro económico o hoje Presidente Mácron, nomeando-o depois Ministro para lhe dar mais consistência. Foi ele que sentou no seu governo como Ministro da Defesa um dos esteios do atual governo macroniano. Foi um dos seus tradicionais apoiantes que pegou ao colo no jovem Mácron, dando-lhe a partir da autarquia de  Lyon um decisivo empurrão; e sendo agora seu ministro.

Enfim, esse holograma perverso  não só estropiou a política do verdadeiro Hollande como distribuiu os vários punhais que o foram atingindo. E soube  ainda  agredir rudemente o Partido Socialista, parecendo agora exultar  com um sorriso entupido pelo facto de o seu ex-escudeiro, e agora  Presidente nem de esquerda nem de direita, ter  nomeado afinal um primeiro-ministro de direita. De uma direita retinta e expressamente assumida.

Estamos ainda num tempo de neblina, mas é possível intuir desde já que se abre o reino da  prestidigitação em que os lobos se vão vestir de cordeiros e a política vai ser em França, de uma maneira mais absoluta, a arte de fazer com que o que é não pareça. Premonição ou maestro, o holograma perverso está no cerne dessa neblina .

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Um novo governo em FRANÇA



Está constituído o primeiro governo Macron .Numa primeira análise, pode dizer-se que tem o perfil esperado. Não é uma explosão de novidade, nem é um flop. Não é um sinal exuberante de um próximo êxito nas legislativas de junho, mas também não é chumbo que prenuncie afundamento.

Numa perspetiva distante de quem não conhece em detalhe os meandros da política francesa, mistura ex-socialistas hollandistas, ex-gaullistas, inclui o velho centro ao mais alto nível, consegue um ecologista mediático prestigiado e incorpora naturalmente alguns macronianos de raiz.

Embora já tenham sido dados alguns sinais, não é ainda conhecida a reação dos socialistas, por um lado, dos gaullistas, por outro. Agirão disciplinarmente contra os trânsfugas ostensivos? Conjugarão desistências em casos especiais? Que resultado advirá do comportamento adotado no que respeita à respetiva coesão interna? Assumirão ou não uma exterioridade plena em face de uma maioria presidencial, por enquanto apenas ainda desejada?

Na extrema –direita  e na outra esquerda, promete-se  desde já uma oposição frontal. Mélanchon acena mesmo com uma possível coabitação com Macron, hipoteticamente advinda de uma vitória sua nas legislativas. Mas em nenhum destes dois blocos há tranquilidade plena na preparação das listas candidatas às legislativas.

O novo governo não torna mais claro se estamos à beira de uma mutação profunda na paisagem político-partidária em França, que a possa duravelmente oxigenar rumo à promessa de uma salvadora sexta república, ou se apenas estamos a assistir a um canto do cisne político que melancolicamente traga no seu bojo uma caricatura da defunta quarta república.


Só as eleições de junho e o subsequente perfil do poder político que daí resultar nos dirão quanto a isso alguma coisa mais clara.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O regresso dos gambuzinos



Tudo o que se passa de mau na vigência do actual Governo é da sua exclusiva responsabilidade, é totalmente culpa sua.

Tudo o que se passa de bom resulta do feliz concurso das instâncias europeias , do misterioso respirar dos mercados, da generosidade atávica dos banqueiros centrais europeus. Do mérito de todos eles, mas principalmente , muitíssimo principalmente, da excelência do governo anterior, da coligação Passos/Troika.

Diga-se aliás que esta última alegação foi luminosamente produzida por uma inesperada deputada do PSD que eu  chamaria Aldegundes, se não merecesse também ser Procópia.

Podemos portanto estar descansados. Os gabirus de Bruxelas, as agências de ratos, a brigada do reumático das finanças públicas e as deputadas Procópio-aldegundianas do PSD, estarão cuidadosamente atentos para que a realidade não erre, para que os factos não desmintam as belas ideias de toda essa vigilante tropa fandanga.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Os macronianos chegam ao anoitecer



Os macronianos chegam ao anoitecer

Como se esperava Macron foi eleito Presidente da República em França. Embora o simples risco de a Srª Le Pen ser eleita seja um péssimo sinal de insalubridade política e um aflitivo sintoma quanto ao caminho seguido pela Europa, houve uma excessiva dramatização  do risco dessa alarmante vitória. O facto de ela não ter ocorrido tem sido objeto de um recíproco exagero. A Europa está exatamente na mesma , mas respira festa como se tivesse finalmente acordado.

De momento, não é ainda possível saber-se, com alguma segurança, se o quinquénio de Macron virá a demonstrar a sua argúcia ou se apenas ilustrará a ideia de que estamos  perante um epifenómeno suscitado por bloqueamentos políticos acumulados não  perante uma absoluta afirmação de  mérito. Não é ainda possível sabermos se ele virá a reinar olimpicamente instalado numa  maioria parlamentar própria, ou se vagueará pelos corredores do Eliseu, assombrado por uma maioria parlamentar que lhe seja exterior.

Mas , não sendo certo, será  natural que o próximo futuro lhe corra relativamente bem; ou que pelo menos não lhe corra muito mal. Ver-se-á. Irá marcar muito o futuro, o resultado das eleições legislativas do próximo mês de junho. Olhando à distância o que se está a passar em França, portanto, sem conhecer minimamente as manobras florentinas que seguramente lá estão a ocorrer, num incerto labirinto de esperanças e traições, há talvez algumas considerações gerais que se podem arriscar.

Não é ainda claro se o centrismo de Macron  virá a ter um perfume de esquerda ou um odor de direita, sendo certo que a esquerda que quer continuara a sê-lo preferirá talvez  que ele vire para a direita, enquanto a direita que queira persistir como tal  há de  preferir vê-lo encostar-se  à  esquerda. Claro que ele pode tentar situar-se rigorosamente ao centro, sonhando com uma avalanche  de apoios vindos dos dois lados, mas correndo o risco de ficar numa terra de ninguém com pouca gente. A escolha que venha a fazer quanto ao seu futuro Primeiro-Ministro pode fazer  alguma luz sobre o caminho que prefere.

De momento, a direita clássica, apesar de assombrada com o relativo fulgor da extrema-direita lepenista, parece menos aflita do que o Partido Socialista Francês (PSF). Talvez pelo facto de ter sido menos severa a sua derrota.

Na verdade, de momento, dentro do PSF parecem desenhar-se três grandes linhas : uma, consubstanciada na sua ala esquerda, em torno de B. Hamon, aposta na valorização  da união da esquerda, assumindo uma atitude de oposição à linha da maioria  presidencial; outra, representada principalmente pela maioria da direção atual, aposta numa afirmação autónoma do PSF que não o inclua numa possível maioria presidencial; outra, polarizada por Valls, preconiza a entrada na maioria presidencial. Este ex-primeiro-ministro já tornou público que será candidato no seio da maioria presidencial, o que parece excluí-lo do PSF. Alguns dos seus apoiantes já se demarcaram publicamente dessa posição, sendo possível que ele venha em breve a ser formalmente excluído do PSF ou pelo menos das suas listas. Se assim for, falta saber se será seguido por muitos. Se o PSF for complacentes para com ele, falta saber se haverá  outros a sair. O risco de estilhaçamento do partido é real. Tudo isto se resolverá em breve. Mas depois ficará ainda por se conhecer a dimensão de um possível desastre já  anunciado para os socialistas franceses nas próximas legislativas.

Todavia, o sistema eleitoral francês e a atual correlação de forças entre as várias correntes políticas , conjugando-se, tornam possível que, afinal,venha a ocorrer uma atenuação relevante do desastre anunciado, mas também permitem que , pelo contrário, esse desastre possa vir a ser ainda maior. Para esta incerteza contribui a dificuldade que representa para os insubmissos de Mélenchon o facto de o Partido Comunista Francês (PCF) , que neles se  integrou, se apresentar às eleições com listas próprias, admitindo-se acordos entre ambos mas não que os comunistas se diluam nos insubmissos. Este desfasamento  pode, aliás,  ter efeitos bastante  desestabilizadores, em virtude de ser conhecida uma certa discrepância entre os insubmissos e os comunistas, quanto à necessidade de acordos eleitorais com o socialistas. O PCF aposta tradicionalmente nesses acordos.

Em menor medida, contribui para esta incerteza o modo como o PSF se irá relacionar com os Verdes e com os radicais de esquerda; e a intensidade da atração sofrida pelas hostes de uns e de outros quer por força dos insubmissos, quer por força dos macronianos. Quanto mais intensa ela for, mais dificuldades terão os socialistas.

Macron, acolitado pelos cavalos de Troia que entraram  no PSF,  parece querer destruir esse partido. Não é certo que o consiga. Mas se o conseguisse, deixaria sem companhia os insubmissos, assim transformados  na única força relevante da esquerda francesa, no plano institucional. Isso talvez permitisse  a Macron governar durante algum tempo  com menos sobressaltos institucionais, mas potenciaria a força das resistências extra institucionais e dos protestos. E a eventual  deliquescência da direita clássica pode muito bem torná-la num terreno de caça mais fácil para a extrema-direita.

Um poder político sustentado por um centro pastoso, diluído na vaguidade do nem esquerda/ nem direita, inchado pela possível anemia, quer do centro-esquerda quer do centro-direita, e concorrendo com uma extrema-direita em expansão e com uma esquerda mais radical desprovida de parceiros que a liguem á realidade, um poder político assim será a prazo um risco mais forte e mais fundo do que o induzido pelos mais nefastos resultados eleitorais.

Os macronianos chegaram como se viessem de novo ; talvez como se fossem o rosto de uma direita convertida civilizadamente ao centro, merecendo por isso talvez  as boas vindas,  mas pode ser afinal   a auto punição de uma esquerda leve  que se renega, embora tente disfarçar-se  de uma imaginação do futuro que se renova. Chegam ao anoitecer; talvez estejam apenas de passagem.