quinta-feira, 21 de março de 2019

Dia Mundial da Poesia - 2 poemas de Carlos de Oliveira


DOIS POEMAS DE CARLOS DE OLIVEIRA


Participando na celebração do  Dia Mundial da Poesia , evoco Carlos de Oliveira (1921/81), através de dois dos seus seus poemas. E assim homenageio também todos os poetas do "Novo Cancioneiro", bem como toda a resistência poética  ao fascismo português.



Acusam-me de mágoa e desalento
*     
Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança. 


Cantiga do Ódio

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros? 


[ in "Mãe Pobre"]

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Em Coimbra, revisitar António Sérgio no próximo dia 28.

Em COIMBRA, no próximo dia 28 de fevereiro ( 5ª feira), vai decorrer na Casa da Escrita, de manhã e à tarde, um Colóquio evocativo de António Sérgio.
É um justo tributo prestado a  um dos mais destacados vultos culturais e políticos do Século XX em Portugal.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

DIREITA - inflação de partidos ou procura?





 DIREITA  - inflação de partidos ou procura?

1. Independentemente das subjectividades individuais  dos seus membros,  os partidos políticos da direita funcionam objectivamente como protecção e salvaguarda do sistema económico vigente, o capitalismo. A complexidade das circunstâncias históricas , as conjunturas nacionais e  a qualidade política dos seus  protagonistas  condicionam o desempenho desse papel. A vozearia que lhes dá vida é muitas vezes uma simples cortina de fumo.

Por isso, saber se à direita há um, dois, três ou quatro partidos, é  secundário, ainda que possa ter alguns  efeitos circunstanciais. É que, verdadeiramente,  todos eles funcionam, no essencial, como se fossem marionetas manipuladas por um  todo-poderoso ventríloquo. E assim, por detrás das várias modulações de voz, realmente, as falas que se ouvem são  afinal de um único ventríloquo, que   não vemos  nem  conhecemos.

A desvantagem desta proliferação está no facto de a multiplicidade de partidos à direita poder transformar uma força em várias fraquezas, com consequências devastadoras na representatividade eleitoral de todas elas. Por isso, se excluirmos o folclore corrente, isso só acontece em termos relevantes quando se pense  que o modo de representação política vigente  da direita está em crise, ou pode ser muito melhorado. É o que acontece agora, em Portugal.

Por isso, está em curso um período experimental de verificação politico-partidária que no seu termo permitirá apurar se realmente era necessário e possível promover um reordenamento político-partidário da direita em Portugal. Mas não se trata de uma experimentação laboratorial dirigida por um comando único, coerente estrategicamente e obedecido. Trata-se de uma convivência entre processos distintos com um baixo grau de articulação, cada um dos quais apostado num caminho próprio. 

Temos o estilo tribunício de matriz trovejante que se imagina épico e portador de bandeiras exaltantes, se possível radicalmente portuguesas. Temos o estilo rasca do lixo ideológico que procura juntar toda a lama que possa conseguir  nos subterrâneos da vida. Temos o estilo liberal assético, tecnocrático e modernaço, apostado em fazer-nos ser engolidos pacifica e inteligentemente pela garganta fria do neoliberalismo. 

Aproveitando esta sofreguidão partidista, oriunda  das  oligarquias sociopolíticas da direita nacional, entrou já também no espaço mediático a ameaça humorística de uma política de arraial , seguramente animada por farto foguetório, bem regada por um tinto forte e de boa cepa.

2. Mas, marcado talvez por uma prudência excessiva, eu atrevo-me a recomendar às esquerdas :” Não continuem a fruir docemente o vosso repouso estratégico, como se estivessem adormecidas”.

É que este frenesim da direita não é uma contenda de gatos num saco fechado. Pelo contrário, vai ser cada vez mais uma disputa entre várias maneiras de enganar o povo, de afastar de qualquer das esquerdas uma parte daqueles que fazem parte delas, ou que têm interesses objetivos que os deveriam tornar  seus apoiantes naturais. Que   as esquerdas se permitam continuar o doce repouso estratégico, é deixar os “gatos” sozinhos seduzindo o povo, sem o necessário contraditório a contrariá-los.

Não me cabe a mim (nem saberia como fazê-lo) dar as táticas que abram às esquerdas a porta do êxito. Mas cabe-me, mais do que o direito, o dever de opinião. O dever  de uma opinião cidadã dada dentro do povo de esquerda.

Excluída a persistência do sonolento repouso como desígnio estratégico, não me parece também concebível que a maneira de as esquerdas se afirmarem como vivas possa centrar-se numa intensificação de acrimónias mútuas, numa retórica de um “eu é que sou presidente da junta” coletivo e recíproco. 

Também não me parece realista despejar no espaço público toneladas de banalidades esperançosas, repetidoras óbvias de passados, ainda que agora embrulhadas numa retórica digital e esvoaçante, quer pousando ao de leve na Europa, quer arranhando-a discretamente.

Fazer com que as pessoas , que cada cidadão se possa sentir por dentro das propostas , dos desígnios, do horizonte, não por ser um eleitor cujo voto é almejado, mas por ser um cidadão desafiado a envolver-se num processo social que poderá tornar a sua vida melhor, deixando futuro ás gerações vindouras. Para isso, não é preciso ser complicado. É, pelo contrário, necessário ser simples e claro; autêntico e sem subterfúgios. Fazer compreender para se ser apoiado. Ir à raiz última dos problemas para que fique claro o que pode ser resolvido a curto prazo e o que só pode ser resolvido a médio prazo se fizermos evoluir toda a sociedade, transformando-a estruturalmente. 

Os partidos de esquerda quando são Governo têm a obrigação de gerir a sociedade tal como ela é. Sem dúvida. Mas não serão vistos como tais, se só fizerem isso, renunciando a serem protagonistas da luta por uma sociedade outra, livre e justa. Será mais fácil, se for caso disso, perdoar-lhes por se terem movido erradamente em direção a um horizonte dignificante do que por terem ficado tolhidos na repetição do passado.

3. O ventríloquo instalado confortavelmente nos centros de poder do capital financeiro vai manipulando discretamente as suas marionetas que  gesticulam com entusiasmo como se tivessem voz própria. Por isso, o povo de esquerda espera dos seus partidos que  combatam e neutralizem essas marionetas, sejam elas duas, três, quatro ou cinco.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Em COIMBRA - no próximo dia 15 de Fevereiro



Na FEUC, no próximo dia 15 de Fevereiro, vai decorrer a Conferência de Abertura da 10ª edição da Pós-Graduação em Economia Social


sábado, 26 de janeiro de 2019

O DEMÓNIO DA SAÚDE



O DEMÓNIO DA SAÚDE

Um fantasma dos anos passados apossou-se do espírito do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e (a fazer fé numa nuvem mediática em curso) transportou-o para o tempo em que era Presidente do PSD. Uma vez aí,  levou-o fazer a uma importante comunicação pública. A de que o referido Presidente da República não aceitaria que a futura Lei de Bases da Saúde fosse aprovada na Assembleia da República  sem o apoio do PSD.

Se pelo menos tivesse permanecido desperta a vasta região da mente de Marcelo Rebelo de Sousa especializada em Direito Constitucional, o supracitado fantasma teria sido avisado de que a nossa Constituição não dá legitimidade a um Presidente da República para exigir à Assembleia da República que aprove a lei A ou a lei B, apenas quando ela  for do agrado do partido de que o atual Presidente em tempos foi líder.

Um fantasma destes é decerto  obra do demónio. É urgente um rápido exorcismo!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

NÃO HAVIA NECESSIDADE!




NÃO HAVIA NECESSIDADE!
O conhecido fabricante de factos políticos Marcelo Rebelo de Sousa aproveitou uma sonolência acidental do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa e entrou-lhe insidiosamente no espírito . Foi então que fez com que ele nomeasse para a liderança simbólica do próximo 10 de junho um azougado trauliteiro mediático de nome  Tavares, alegadamente  sociólogo de largo espetro.
Dizem os mais prudentes que não havia necessidade de assim serem ofendidos retroativamente os escolhidos para os anos precedentes, Sobrinho Simões, João Caraça e Onésimo de Almeida; todos eles figuras públicas de verdadeiro  prestígio.
Receiam os mais céticos que em próximos assomos equivalentes, em idênticas oportunidades, o bom povo português seja brindado com a Cristina Ferreira ou, quem sabe, com a Lili Caneças.

sábado, 19 de janeiro de 2019

Unidade da Esquerda




A esquerda unida enquanto alvo.

Se olharmos com atenção para o modo como, ao longo do tempo, em diversos casos, com vários pretextos, as várias áreas políticas da esquerda são atacadas pelo complexo institucional-mediático da direita ostensiva ou implícita, podemos ver como a esquerda já atingiu a sua unidade enquanto alvo.

Será por isso prudente que cada uma das suas partes não caia na tentação de se associar à direita, quando o alvo do dia for algumas das outras esquerdas. 

E seria inteligente uma estratégia de combate conjunto contra a grande operação de longo prazo para menorizar a esquerda que está em curso. Os dispositivos  mediáticos à disposição da direita são poderosos. Não podem ser combatidos com superficialidade e com precipitação, nem improvisadamente. Será estulto se a campanha em causa for ignorada ou menosprezada.

Insisto: não esqueçamos que para a direita todas as esquerdas estão dentro do mesmo alvo.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Votos de um bom ano de 2019!



Votos de um bom ano de 2019!

Com amizade e fraternidade, aqui vos deixo através de um poema meu, estes votos de saudação. 

Reforço-os, acompanhando-os com a reprodução de uma obra do pintor russo Marc Chagall.

Desta maneira, também agradeço e retribuo os votos de Boas Festas que me enviaram.

Rui Namorado



                                                                    
Bom ano de 2019

flor do tempo   o ano que há de vir
espera por nós   ainda sem limites

espera por nós   como se fosse sombra
das portas que ficaram por abrir

em si terá também as emboscadas
que os nossos dedos ágeis vão rasgar

caminharmos por ele é a aventura
em que espera por nós   a liberdade
                              [Dezembro de 2018 - Rui Namorado]

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Carta aberta ao presidente Lula




Uma carta para LULA de um juiz brasileiro.
Neste fim de ano, que antecede um tempo especialmente dramático para o Brasil, faz sentido enviar  uma mensagem tácita de solidariedade para com o Presidente Lula, transcrevendo da página virtual da revista brasileira CartaCapital uma carta pessoal do juiz brasileiro Luís Carlos Valois que é juiz de direito no Amazonas, mestre e doutor em direito penal e criminologia pela USP, pós-doutorando em criminologia em Hamburgo – Alemanha, membro da Associação de Juízes para Democracia e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. 
Sem deixar de ser um texto político, tem uma tonalidade pessoal que lhe transmite uma particular  humanidade , sublinhando especialmente quão bárbaro  é o que a direita brasileira, através das instituições que domina, está a fazer a LULA. Eis a carta:

Lula, meu caro, faz tempo que estou querendo te escrever. Esse pessoal do meio carcerário tem uma espécie de tara por proibir as coisas, então não sabia se minha carta ia chegar a ti, já que muita gente importante sequer conseguiu entrar para trocar umas palavras contigo, razão pela qual resolvi escrever por intermédio da internet mesmo, um dia tu vais ler.
Cara, eu sei que tu não és santo, nem eu sou, nem ninguém é, então todos nós temos um monte de culpa por aí, mas o crime que tu cometeste realmente ninguém sabe até agora qual foi. Bem, você sabe disso, você já disse que aceitaria a pena tranquilamente se te mostrassem provas de um crime, só estou repetindo porque a carta será publicada e porque quero ressaltar uma coisa.
Hoje em dia com tanta culpa por aí, já nem precisa de crime para se condenar uma pessoa, basta querer condenar alguém que todo mundo já acha esse alguém culpado. É como um juiz me falou certa vez, que ele não sabia porque estava condenando o cidadão, mas o cidadão sabia porque estava sendo condenado. É mais ou menos assim que estamos vivendo, e é cada um por si.
No teu caso, um recibo de pedágio, a tua visita a um apartamento, mais dois ou três presos dedos-duros loucos para ganhar a liberdade, e pronto, está formada a prova necessária para a tua condenação, mesmo que ninguém diga onde está o teu dinheiro, onde está o benefício que tu tiveste nisso tudo, ninguém diz. E ninguém quer saber.
Pode ser que digam que há mais coisas no teu processo, pode ser que haja, mas tenho certeza que se houvesse algo tão sério já teria sido divulgado aos quatro ventos, porque uma das coisas que mais se discute aqui fora é justamente a tua culpa, ou não culpa, e até agora só essa tua visita no apartamento que, obviamente, não é teu.
Xará (acabei de me tocar para o fato que temos o mesmo nome…rs…), a coisa tá difícil. Não quero entrar aqui na questão política, se fizeram tudo para te tirar da eleição, se têm ódio de ti porque és nordestino, um nordestino que teria chegado onde incomoda muita gente, e feito outros tantos nordestinos incomodarem mais gente por chegarem onde chegaram, não quero falar dessas questões políticas, quero conversar contigo sobre a tua situação atual.
Tenho trabalhado com presos a vida inteira e sei o quanto é difícil, principalmente em situação de isolamento, o encarceramento. Eu queria inclusive, com esta carta, te mandar uns livros, mas também não sei se chegariam até ti, são meios subversivos, acho que tu tens que ler algumas coisas subversivas, sabe? Tu tens que conhecer o sistema a fundo para entender a tua própria situação de encarcerado.
Um dia Nilo Batista disse que todo preso é um preso político. Pena que a maioria dos presos não sabe disso. O sistema, nele incluído o sistema penal, tem uma função primordial em fazer todos acreditarem, inclusive os próprios presos, que tudo funciona na mais perfeita ordem e, se tu estás preso, é porque devias estar preso.
Aliás, falando em Nilo Batista, e desviando do assunto novamente para a política, esse sim era um nome que tu devias ter nomeado para o Supremo. Poxa, tu não nomeaste nenhum penalista, e agora o que acontece, acontece que a maior parte dos integrantes do Supremo não sabe o que é uma prisão, dá para manter todo mundo preso sem um pingo de peso na consciência, convalidam mandado de busca e apreensão como se fosse um mandado de penhora, permitem condução coercitiva como se fosse uma intimação para depor em juizado, autorizam execução antecipada da pena como se ninguém corresse um grande risco de morrer, assassinado ou por doenças, atrás das grades.
Eu sei, eu sei, tu vais dizer que já percebeste isso, afinal estás preso e muitos dos que te mantiveram preso foram nomeados por ti. Eu também sofri na pele uma medida policial, uma busca e apreensão na minha casa autorizada à Polícia Federal por um magistrado nomeado por ti, mas até agora, pelo menos após a violência da busca, não tenho nada para dizer do juiz, apenas que ele não é da área penal, e ser da área penal é muito importante, porque o direito penal é como uma metralhadora, só serve para provocar dor e mortes. Não basta boa vontade para manusear uma metralhadora.
Qual a justificativa dessa medida contra mim? Alguns presos me elogiavam em interceptações telefônicas. O juiz não pode ser respeitado por preso, juiz deve ser odiado, essa é a imagem com a qual o poder judiciário tem buscado legitimidade frente a uma população sofrida por causa da criminalidade crescente, demonstrando-se rigoroso, mais um temido órgão de repressão. Mas depois eu volto a falar dos presos, dos outros presos.
Olha, esse fato acima parece irrelevante, mas é a prova de que eu podia muito bem achar bem feito o que aconteceu contigo, querer te ver preso, mas não, não quero. Seja pela tua idade, seja pelo que você representou para o Brasil, seja porque prisão não resolve nada, seja porque ainda não vi efetivamente o que tu usufruíste do crime, que também não sei qual é, que te imputam.
O mais interessante é que, e isso deve te deixar louco, tem um monte de gente pega com malas de dinheiro, helicóptero com cocaína, motorista milionário, ou seja, gente com dinheiro de verdade na conta, coisa mais fácil de provar, dinheiro na conta, mas estão todos soltos.
E, pior, nessas horas eles alegam o princípio da presunção de inocência, o devido processo legal, a ampla defesa, essas garantias jurídicas facilmente manuseáveis, principalmente em uma sociedade de memória fraca.
Sabe o que é, Lula, o sistema capitalista é feito de dinheiro, status, aparência e malícia, muita malícia, mas acima de tudo o sistema é feito de instituições, todas funcionando sob a mesma base, a que privilegia o acúmulo de capital, a que privilegia o mercado financeiro, em detrimento dos pobres.
Lá estou eu falando de política novamente. Nesse assunto, do mercado financeiro, nem quero tocar mesmo, porque seria a única coisa que estragaria esta carta, pois poderia falar coisas mais pesadas, a ponto de te deixar chateado comigo. Fostes muito bom para os bancos, para o mercado financeiro. Bem, deixa pra lá, pode ser que tu não tenhas tido outra saída, pois, afinal, ninguém ajudou mais os pobres do que você.
O fato é que tu és, além de tudo, um cara simpático. Não sei se vou te conhecer pessoalmente um dia, mas se isso acontecer, tenho muito mais coisa para te falar do que permite uma carta, “privada” (na condição em que tu estás nada é privado, e esse é um agravamento da pena, os presos perdem além da liberdade, a privacidade) ou principalmente pública, como essa que escrevo gora.
O que é importante é ter força, cara, as coisas mudam muito rapidamente nesse mundo. Nunca abaixe a cabeça, porque a esperança combina com cabeças erguidas, e há milhares de pessoas que ainda acreditam em ti, estão te esperando aqui fora, e isso deve ser capaz de te dar uma força tremenda.
Já recebi, na vida, milhares de cartas de presos, e em resposta a quase todas eu vou até o presídio e falo pessoalmente com o preso, mas essa é a primeira vez que escrevo a um preso. E não podia encerrar sem te dizer isso, Lula, mesmo que você tivesse cometido o crime mais bárbaro do mundo, todos os presos são seres humanos, todos os presos têm, acima de tudo, direito, se não porque são seres humanos, porque esse direito está na lei e na Constituição, de serem tratados com dignidade.
Espero que saias daí logo, possas voltar a conviver com os teus familiares, teus netos, mas não esqueças nunca essa situação de encarceramento, percebas o que muitas pessoas passam e passam em condições muito mais severas, em celas imundas, lotadas, com ratos e baratas, do que essas que tu estás vivendo.
Falo isso porque tu és, ainda és, um porta-voz do povo, de boa parte do povo, brasileiro, e grande parte desse povo está atrás das grades.
No mais, quero te desejar sorte, muita sorte. Que as pessoas que te odeiam, que também não são poucas, percebam a covardia que é espezinhar de uma pessoa presa, porque, acredite, Lula, não há limites para o ódio à pessoa encarcerada. Sorte, meu caro, não só tu como todos os brasileiros vão precisar neste novo ano de sorte. Não sou um cara religioso, posso até me considerar um ateu, embora essa conceituação não seja lá de muita importância para mim, mas te desejo muita sorte e, ainda com pouca fé, que tu fiques com Deus.
Grande abraço,
Luís Carlos Valois 


sábado, 29 de dezembro de 2018

A RTP e uma pixordice bolsonariana


1. Todos os cidadãos portugueses estão obrigados a obedecer ao que está disposto na Constituição em vigor. Por maioria de razão, as entidades públicas portuguesas não podem deixar de se comportar de harmonia com a Constituição, estando-lhes evidentemente vedado tomar posições públicas que ostensivamente a contrariem. Este imperativo de obediência à Constituição é especialmente relevante no caso dos meios de comunicação social públicos.

O art.º 46 no nº 4 da Constituição diz expressamente que “não são consentidas organizações (…) que perfilhem a ideologia fascista”. Não há pois qualquer dúvida quanto à ilegitimidade de ser feita propaganda ideologicamente fascista nos meios de comunicação social públicos em Portugal.

2.Ontem, 28 de dezembro, no telejornal da RTP 1 foi anunciado com especial destaque que a respetiva redação tinha escolhido como personalidade internacional do ano de 2018 Jair Bolsonaro. Para sublinhar bem o significado da escolha foram amplamente mencionadas algumas das suas posições indubitavelmente próprias de uma ideologia fascista.

3. Ficámos assim a saber que, completamente ao invés do povo português, a ideologia fascista é maioritariamente bem aceite no seio da redação da RTP 1.

Por um lado, isso ajuda a compreender o modo como as questões políticas aí, muitas vezes, são tratadas.

Por outro lado, é escandaloso que uma emissora de televisão pública publicite ostensivamente uma preferência da sua redação por uma figura internacional claramente identificada com posições ideológicas fascistas; o que traduz uma transgressão grosseira da Constituição em vigor.

Que os redatores da RTP sejam pessoalmente admiradores de Bolsonaro é algo que é da esfera da sua consciência, não deixando de nos mostrar que espécie de gente nos entra todos os dias pela casa dentro, paga pelo erário público.

Que usem o potencial de propaganda do meio de comunicação social onde trabalham para prestigiarem uma ideologia que a nossa Constituição deslegitima é absolutamente intolerável.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Homenagem a Romero Magalhães




Homenagem a Romero Magalhães

Nunca se está preparado para que os amigos nos deixem. Mas há casos em que o inesperado da partida se sublinha a si próprio, quando chega bruscamente. Foi o que aconteceu com Romero Magalhães. Estando eu longe de Coimbra, foi-me impossível participar na cerimónia de despedida. Mas longe não deixei de  percorrer a sua memória. Não me limitei a percorrer o vazio de não voltarmos a falar. Acompanhei-o com saudade, recordando o seu percurso cívico, universitário, cultural e político. Um percurso que fez integrado na aventura coletiva que em Portugal vivemos nas últimas décadas.

Agia e trabalhava sem se deixar aprisionar pelo fugaz brilho das ribaltas efémeras. Movia-o apenas a sua subjetividade mais profunda, as suas convicções firmes e perenes, a sua curiosidade intelectual e a sua ética republicana. Não dava lições a ninguém, talvez sabendo que a única verdadeira lição que pode ser dada é a que possa ser lida no modo como cada um viver. A dar essa lição não se furtou.

Foi estudante de Coimbra nos mágicos anos sessenta do século passado, onde começou a viver cultura, aprendendo com Paulo Quintela no TEUC, do qual viria ser Presidente. Foi o primeiro Presidente da Direção-Geral da AAC, eleito após a crise de 1962. Após a Revolução de Abril, viria a ser deputado à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista e Secretário de Estado da Orientação Pedagógica dos governos presididos por Mário Soares (1976-1978). Foi Presidente da Assembleia Municipal de Coimbra durante vários mandatos.

Licenciou-se em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, tendo ingressado como docente na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, onde se doutorou, obteve a agregação e foi Professor Catedrático até se jubilar. Aí desempenhou reiteradamente funções dirigentes. Foi Comissário-Geral da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses (1999-2002) e Membro da Comissão Consultiva das Comemorações do Centenário da República (2009-2011).

A sua obra como historiador é vasta, importante e reconhecida, o que foi justamente sublinhado, já no decurso do corrente mês de Dezembro, pela Universidade do Algarve ao atribuir-lhe um doutoramento honoris causa.

É tempo de saudade, mas é também tempo de memória. Uma memória limpa , sem floreados para ser digna da sua lembrança, mas fazendo-nos recordar sempre como de Romero Magalhães não seria nunca de esperar  a hipocrisia da amabilidade fácil, nem a deslealdade mesmo subtil.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Sempre atento!

Num Hospital de Lisboa, quando deviam estar de serviço dois médicos anestesistas, apenas um pode funcionar durante dois dias. Mostrando a sua vocação vigilante o Presidente da República, a propósito da tão relevante falta de um médico durante dois dias, declarou pública e solenemente que estava atento.
Fiquei deslumbrado pela minúcia com que o Alto Magistrado vigia a coisa pública.

No Olimpo, os deuses trovejaram a sua aprovação por este dileto filho que não cessa de os surpreender. Zeus confessou  mesmo  que também ele  queria tirar uma selfie com Marcelo, quando voltasse a encontra-lo.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

No PORTO - suplício e paixão.


No PORTO, apresentação de um livro no dia 4 de dezembro (3ª feira) às 18 horas.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Meio Século - O cortejo da Tomada da Bastilha de 1968



 O cortejo desfila na Rua Ferreira Borges. Neste momento, bandeira desfraldada, vai  a passar a  República dos Inkas.

Meio Século – uma leve respiração do tempo.
      -o cortejo da Tomada da Bastilha de 1968
Ouvi há poucos dias , num programa televisivo de referência que relembrava 1968, exaltar-se como transcendente uma discussão  estudantil  vivida em Lisboa  entre paredes e cobrir-se de silêncio o que então se passou nas ruas de Coimbra. Também por isso, vale a pena trazer à superfície um ligeiro perfume de verdade histórica. Confesso que fui também para tal acicatado por uma troca de mensagens entre o Zé Dias, o Matos Pereira e o Rui Pato acerca do cortejo da Tomada da Bastilha de 1968. Um episódio que viria a contribuir para o que aconteceu em Coimbra alguns meses depois.
Vou para isso, recorrer ao meu livro “Abril antes de Abril ─ A crise universitária de Coimbra de 1969” ─  limitando-me a citá-lo.
Na sua página 55, pode ler-se:
“No novo ano letivo (1968/69), prosseguindo a dinâmica potenciada em setembro, a CPE[ Comissão Pró-Eleições] manteve a atividade para que tinha sido escolhida. Nos momentos chave de todo esse processo o Secretariado do Conselho das Repúblicas (SCR), foi uma estrutura coadjuvante de grande importância. A CPE e o SCR sempre agiram concertadamente.
Em Outubro de 1968, foi-se tornando claro que o movimento pró-eleições na AAC ganhava força crescente, pelo que se sentia que as eleições académicas não tardariam. Quando isso foi patente, entendeu-se que era acertado (até como meio suplementar de pressão) dar as eleições como facto adquirido e desde logo lançar uma lista candidata à AAC. E optou-se por fazê-la sair das mesmas estruturas que haviam criado a CPE, concebendo o processo do seu lançamento de modo a
aproveitar o prestígio desta Comissão, sem deixar de tornar evidente a novidade da lista.       
Na sequência da entrega do abaixo-assinado dos estudantes de Coimbra a exigirem eleições na AAC ao Ministro da Educação (Hermano Saraiva) numa visita que ele fez a Coimbra, a CPE foi oficialmente recebida por ele no Ministério da Educação, em Lisboa.
Em 25/11/68, dia da Tomada da Bastilha, a CPE anunciou que o Reitor da Universidade lhe havia comunicado a próxima realização de eleições, embora em termos não totalmente coincidentes com os reivindicados por ela. Em 27/11/68, a CA anunciou que as eleições se realizariam em princípios de Fevereiro. Entretanto, a lista do CR fora publicamente divulgada em 23/11/68.”
Mais adiante pode ler-se na página 77:
“O cortejo tradicional da Tomada da Bastilha foi uma impressionante marcha de protesto contra a CA na AAC, tal como nós tínhamos progra­mado, e não a manifestação política que os dirigentes de Lisboa tinham sonhado vir fazer a Coimbra. Isso mesmo foi assegurado pelo próprio Conselho das Repúblicas que organizou o desfile”. E em nota de rodapé acrescenta-se :Vale a pena recordar um episódio relevante no processo de preparação do Cortejo. Para isso, veja-se o Anexo nº 14  (pag.  175 )”.
Na primeira parte anexo 14, explicava-se o que é a Tomada da bastilha na Academia de Coimbra : O ponto alto das comemorações era o cortejo das repúblicas a que se associava toda a Academia e que descia atá à Baixa por onde passava, para voltar para Praça da República. Foi o que aconteceu também em 1968”. 
Na segunda parte, narrava-se o episódio em causa: “Ciente, a partir dessa manhã, dos problemas criados em torno do Cortejo da Tomada da Bastilha, pelos colegas de Lisboa, e aproveitando o facto de estarem presentes todas as repúblicas, no Sarau Cultural integrado nas comemorações, realizado essa tarde no Teatro Avenida, o Secretariado do Conselho das Repúblicas convocou de urgência uma reunião do Conselho.
A reunião decorreu nos bastidores do Teatro Avenida com todos os seus participantes de pé. E aí foi decidido que, sendo o cortejo das Repúblicas, elas se iriam responsabilizar por fazer com que ele decorresse de acordo com a orientação preconizada pelos dirigentes do movimento estudantil de Coimbra. E assim, o cortejo seria dividido em 22 segmentos claramente demarcados (um por república), cada um dos quais seria colocado sob a responsabilidade exclusiva de uma das repúblicas, a qual seria, portanto, responsável por tudo o que decorresse dentro dele.
Todos os estudantes que quisessem participar no cortejo iriam distribuídos por esses 22 segmentos, não havendo portanto cortejo fora deles. O cortejo seria silencioso até que em locais predeterminados se gritassem apenas duas palavras de ordem: “ Fora a CA!” (leia-se Comissão Administrativa da AAC) e “ Eleições Já!” (eleições na AAC, claro).
 O cortejo seguiu o percurso tradicional, tendo atravessado a baixa da cidade mais de três mil estudantes, que nos momentos adequados gritaram as palavras de ordem combinadas. O efeito foi enorme, transmitindo uma imagem de coesão e força de grande impacto.
A propalada tentativa de fazerem do cortejo uma manifestação ostensivamente política, mesmo ao arrepio da vontade dos organizadores do cortejo, que se dizia estar na mente dos colegas de Lisboa, foi assim reduzida a nada. Soube-se que foram esboçadas algumas tentativas, nesse sentido, pronta e implacavelmente anuladas pelos “repúblicos” responsáveis pelo espaço em que surgiram. O cortejo foi assim uma manifestação imponente de apoio aos objetivos imediatos da luta dos estudantes em Coimbra e como se sabe as eleições realizaram-se pouco depois com os resultados conhecidos”.
Evoco o que aconteceu homenageando fraternalmente todos aqueles que atravessaram o tempo naquela noite fria de novembro há cinquenta anos.


domingo, 25 de novembro de 2018

Não deixemos que a memória se apague!


Vamos contribuir para que a memória não se apague, recebendo condignamente em Coimbra Helena Pato, no próximo dia 28 de novembro, 4ª feira, às 18 horas. Vai ser-nos apresentado um livro seu, através do qual nos vai ser dado testemunho de como as vidas verticais não deixaram fechar as portas da esperança, quando a noite cercava o nosso povo.

                                             Clique sobre a gravura para a ampliar.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Apresentação de um livro em COIMBRA


Relembrando um próximo evento.


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Suplício e Paixão do Socialismo

Vou publicar um livro sobre o socialismo. Vai ser apresentado em COIMBRA no próximo dia 22 de Novembro , ( quinta-feira), na Casa da Cultura, às 18 horas.Estão convidados . Serão bem-vindos.



                                                       Clicar sobre a imagem para aumentar.

sábado, 10 de novembro de 2018

PENSAR A ECONOMIA SOCIAL

Chamo a atenção a quem se interesse pela economia social ou por qualquer das suas vertentes (cooperativa, mutualistas,solidária, comunitária ou autogestionária), para esta iniciativa do Partido Socialista que vai decorrer em Coimbra no próximo dia 17 de Novembro.


 

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

domingo, 30 de setembro de 2018

TANCOS ─ PERGUNTAS AUSENTES.



Todos nos recordamos da eclosão do estranho caso das armas desaparecidas em Tancos. Passado algum tempo, miraculosamente , as armas reapareceram. Todos os perguntadores mediáticos exerceram exuberantemente o seu ofício. Há poucos dias explodiu no espaço público um início de solução do mistério que banalizou  as mais ousadas imaginações quanto ao evento. Uma das polícias envolvidas ( a não militar) prendeu gente de outras duas (militares) , dentro de um pacote em que um civil aparecia como exceção. Um civil que afinal era, ao que parece, o alegado ladrão.
O espaço mediático foi sulcado por  uma profusão de especialistas de segurança, de generais na reserva, de discretos polícias, de argutos juristas , de irrequietos jornalistas e dos habituais bonzos de ideias gerais, que emaranharam diligentemente os fios da meada, de modo a tornarem o caso completamente indecifrável. Provavelmente, a realidade , teimosa como é, seguirá o seu caminho e acabará por se vir a mostrar aos nosso olhos, quando a confusão instalada se cansar como nuvem que  passe.
Num programa de promoção de um semanário de referência, ouvi um general na reserva, que desempenhou, quando ativo, cargos importantes na hierarquia militar, dizer que este estranho caso começou meses antes do roubo com um aviso anónimo feito ao Ministério Público de que estava a ser preparado um roubo de armas em larga escala. Indicou mesmo que esse aviso dera origem a um processo.
Gostaria de saber, ou como costumam dizer os mediáticos mais habilidosos: os portuguese gostariam de saber, se o MP informou o Ministro da Defesa, ou o Estado-Maior das Forças Armadas, ou o Exército, ou a Polícia Judiciária, ou a Ministra da Justiça, ou o Presidente da República. Alguém.
Se sim; o que fizeram os informados com a informação? Se não, porque razão o não fez? E já agora porque razão os perguntadores de serviço não fazem, não insistem nestas perguntas?
É que mais importante do que avaliar a segurança dos arames de proteção e a regularidade das vigilâncias  será certamente saber-se qual a razão pela qual, tendo havido alerta de roubo,  não foi feito nada para o evitar.