terça-feira, 7 de janeiro de 2020

UMA DISTINÇÃO RELEVANTE




Mais uma justa distinção a recair no Professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Álvaro Garrido, membro do Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social dessa Faculdade (CECES/FEUC) e um dos professores da Pós-Graduação em Economia Social aí  prelecionada.

2. Nos termos de uma nota informativa que acompanha a notícia.
“O livro “A Economia Social em Movimento – Uma História das Organizações”, da autoria de Álvaro Garrido e David Pereira, foi distinguido com o Prémio António Dornelas do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.
O prémio, com periodicidade anual, foi criado em 2017 para assinalar o centenário do Ministério e tem como principal objetivo distinguir trabalhos académicos e não só dedicados a temas de política social, combate à pobreza e exclusão social.
A obra, editada pela Tinta da China em 2018, incide sobre a época contemporânea e centra-se no espaço europeu e no contexto português de institucionalização da Economia Social, explica a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC).
O prémio António Dornelas “constitui um forte incentivo aos estudos sobre temas de Economia Social e Solidária, área em que a FEUC tem uma reconhecida tradição em termos de ensino e de investigação”, acrescenta nota da faculdade.”
 3.  Na mesma Nota Informativa são feitos alguns comentários ao conteúdo da obra premiada. Ei-los:
“Existem cooperativas, mutualidades, misericórdias, casas do povo e até grupos excursionistas, alguns desde a monarquia, mas como é que chegaram até aqui? O Estado Novo atacou o associativismo, mas com que consequências? E, do 25 de Abril até agora, que papel assumiram todos estes organismos na sociedade portuguesa? Com o objetivo de responder a perguntas assim, A Economia Social em Movimento olha para estas organizações nos terrenos onde actuam, analisando as suas relações institucionais e jurídicas, sem ignorar tensões e ingerências ideológicas partidárias, para tentar encontrar a raiz identitária que as pode unir e fortalecer.
Depois do sucesso de Uma História da Economia Social, que fixou pela primeira vez a história da Economia Social em Portugal, este livro dá continuidade a esse trabalho que estava por fazer na historiografia nacional, mudando o foco do curso das ideias para se centrar nas organizações que compõem este sector no nosso país.” [Marta Costa (com FEUC)]

domingo, 5 de janeiro de 2020

VOX ressuscita os Filipes e revela os miguéis de vasconcelos




Os fascistas espanhóis do VOX assumiram a reencarnação dos Filipes e afixaram a sua ambição de anexar Portugal, mais uma vez. Revelaram-se desse modo como escumalha política, ressonâncias tardias de tempos passados. Mas não como uma escumalha qualquer. Uma escumalha arcaicamente estúpida.

Ficamos agora a saber que os portugueses que sigam esses fascistas do VOX assumem pelo seu lado a reencarnação do miguel de vasconcelos. É um patriotismo castelhano.

Curioso como essa canalha do VOX que dificulta a convivência das nações congregadas na Espanha atual, se atreve a bolsar os seus dislates sobre nós.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Ainda a conspiração contra o Papa Francisco



Ainda a conspiração contra o Papa Francisco
A mesma fonte da mensagem anterior conduziu-me a tomar conhecimento de um outro texto sobre o tema da conspiração contra o atual Papa centrada nos USA.
É um texto de Eduardo Febbro, correspondente em França do jornal argentino Página 12, publicado na Carta Maior de 17/09/2019, que funciona como introdução a uma entrevista ao jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico La Croix, em Roma, publicada inicialmente no Página/12.
Eis o texto acima referido:
 “Para mim, é uma honra que os norte-americanos me ataquem”, disse o Papa Francisco quando o jornalista francês Nicolas Senèze, correspondente do diário católico La Croix em Roma, mostrou a ele o livro-reportagem sobre o complô estadunidense contra o seu papado, durante a viagem de avião que os levou a Moçambique. O título da obra é “Como a América atua para substituir o Papa” (o título original é “Comment l’Amérique veut changer de Pape”).
Os detalhes desse complô e os nomes dos protagonistas e dos grupos envolvidos estão claramente expostos nas páginas do livro, que descrevem, desde o seu início, a mecânica da hostilidade contra o papado atual. O operativo tem até o nome de “Relatório Chapéu Vermelho” (“The Red Hat Report”). Um círculo preciso que move dinheiro e influência e é organizado pelos setores ultraconservadores e de mega milionários dos Estados Unidos. As peças deste jogo de calúnias e poder se encaixam em um complexo quebra-cabeças, que os adversários do pontífice vêm armando nos últimos anos. O golpe começou a ser fomentado em Washington, no ano de 2018. O grupo de ultraconservadores se reuniu na capital norte-americana para fixar duas metas: atingir a figura de Francisco da forma mais destrutiva possível e adiantar sua sucessão, para escolher, entre os atuais cardeais, o mais adequado aos interesses conservadores.
O “Relatório Chapéu Vermelho” foi organizado por um grupo de ex-policiais, ex-membros do FBI (Departamento Federal de Investigações dos Estados Unidos), advogados, operadores políticos, jornalistas e acadêmicos que trabalharam no estudo da vida e das ideias de cada um dos cardeais, com o fim de destruir as carreiras dos que não interessam, ou beneficiar as daqueles que pretendem impor como substituto de Francisco, quando chegue o momento oportuno. E enquanto esse momento não chega, o grupo busca preparar o terreno para o que Senèze chama de “um golpe de Estado contra o Papa Francisco”.
Em uma manhã de 2017, Roma amanheceu coberta com cartazes contra o Papa. Foi o primeiro ato da ofensiva: o segundo, e certamente o mais espetacular, aconteceu em agosto de 2018, quando, pela primeira vez na história do Vaticano, um cardeal tornou pública uma carta exigindo a renúncia de Francisco. O autor foi o monsenhor Carlo Maria Vigamo, ex-núncio do Vaticano nos Estados Unidos. O correspondente do La Croix no Vaticano detalha a odisseia maligna deste grupo de poder em sua missão por tirar do caminho um Papa cujas posições contra o neoliberalismo, contra a pena de morte, a favor dos imigrantes e sua inédita defesa do meio ambiente através da encíclica Laudato Sí promove uma corrente contrária à desses empresários. Os conspiradores não têm nada de santos: são adeptos da teologia da prosperidade, possuem empresas ligadas mercado financeiro e de seguros, e estão envolvidos até com a exploração da Amazônia. Francisco é uma pedra em seus sapatos, uma cruz sobre suas ambições.
Segundo Senèze, organizações de caridade como “Os Cavaleiros de Colombo” (que possuem cerca de 100 bilhões de dólares, graças às companhias de seguros que administram), o banqueiro Frank Hanna, a rede de meios de comunicação Eternal World Television Network (EWTN), cujo promotor (o advogado Timothy Busch) também é criador do Instituto Napa, que tem a missão de difundir “uma visão conservadora e favorável à liberdade econômica”, estão entre os membros mais ativos do complô. Mas também há outros, como George Weigel e seu famoso think tank, o Centro de Ética e Política Pública.
No diálogo com o jornal argentino Página/12, Senèze fala sobre a trama que, apesar do poder de suas, ainda não foi capaz de derrubar o Papa.

Pergunta: Parece uma história de novela, mas é uma história real. O Papa Francisco foi e é objeto de uma das campanhas mais densas já vistas contra um sumo pontífice.
Nicolas Senèze: O Papa Francisco não serve aos interesses desse grupo de empresários ultraconservadores, e por isso decidiram atacá-lo. Atuam como se fosse o conselho de administração de uma empresa, quando se despede o diretor porque ele não alcançou os objetivos desejados. Essa gente conta com enormes recursos financeiros, e mesmo assim, durante o mandato de Francisco, não conseguiram influenciar sua linha de pensamento. Por isso, começaram a se aproximar de pessoas de dentro da Igreja que também estão contra Francisco. Algumas delas, como o monsenhor Vigamo, chegaram a exigir publicamente sua renúncia. Creio que esse grupo de ultraconservadores superestimaram suas forças. O monsenhor Carlo Maria Vigamo, por exemplo, não calculou a lealdade das pessoas dentro do Vaticano, que não estavam dispostas a trair o Papa, mesmo as que são críticas de Francisco.
Pergunta: A operação que organiza o “Relatório Chapéu Vermelho” tinha dois objetivos, um para agora e outro para o futuro.
Senèze: Efetivamente. Como não puderam derrubar o Papa, tentam agora uma nova estratégia. Francisco tem 84 anos, e podemos pensar que estamos cerca do fim do seu pontificado. O que estão fazendo é preparar o próximo conclave. Para isso, estão investindo muito dinheiro, contratado ex-membros do FBI para preparar dossiê sobre os cardeais que participarão da eleição. O primeiro objetivo é destruir aqueles que têm a intenção de continuar as reformas aplicadas pelo Papa Francisco. Depois, buscar um substituto adequado aos seus interesses. O problema desta meta é que, ao menos até agora, não eles não contam com nenhum candidato verosímil. Não será fácil para eles. Entretanto, podem ir bem no trabalho de arranhar a credibilidade dos candidatos reformistas, e dessa forma, podem levar à eleição de um reformista fraco e manipulável, que ceda a pressão em favor de desmontar as reformas de Francisco. Para isso, contam com muito poder econômico e influência. Creio profundamente que a maioria dos católicos norte-americanos respaldam o Papa Francisco. Mas nos Estados Unidos, a quantidade não basta. O que fala mais alto é o fator dinheiro.
Pergunta: Esses grupos já existiam antes, mas nunca atuaram com tanta força.
Senèze: São empresários com enormes meios à sua disposição. Cada um deles foi criando seu grupo de reflexão dentro da Igreja, sua escola de teologia, sua universidade católica, sua equipe de advogados para defender a liberdade religiosa. É uma nebulosa operação, que funciona mediante uma rede de instituições privadas, e que chegou para dominar o catolicismo norte-americano. São, por exemplo, aqueles que doaram muito dinheiro para ajudar as dioceses estadunidenses que tiveram que pagar enormes indenizações após a revelação dos casos de abuso sexual. Por isso, podem impor uma direção ideológica a essas dioceses. Por exemplo, Tim Busch está presente em todas as etapas dessa montagem. Para proteger poderosos interesses econômicos na Amazônia, esses grupos usam toda a sua força para desviar a atenção e evitar, assim, a promoção de ideias em defesa da ecologia. Trabalham sempre para distrair a atenção dos debates fundamentais. Por exemplo, nos sínodos, buscam impor seus pontos de vista, ou seja, seus interesses.
Pergunta: E como um grupo tão poderoso pode deixar que Francisco fosse eleito Papa?
Senèze: Não perceberam que isso ocorreria, porque a eleição de Francisco foi resultado de uma dinâmica que envolveu outras necessidades: este Papa foi eleito devido à crise no seio da instituição, graças à vontade dos bispos do mundo inteiro de recuperar a após anos de problemas gerados por erros do passado, que levaram, por exemplo, à omissão diante dos casos de abuso sexual. Bergoglio se impôs porque era o mais disposto a reformar essa Igreja. Mas sua ideologia choca com a visão que os católicos ultraconservadores dos Estados Unidos têm sobre qual é o papel da Igreja. Além disso, outro ingrediente próprio do catolicismo estadunidense é o desprezo dos católicos brancos pelos latinos. O setor conhecido pela sigla WASC (“white anglo saxon catholics”, ou “católicos brancos anglo-saxões”) odeia os latinos, os considera pobres fracassados. Os WASC são muito influenciados pela teologia da prosperidade difundida pelos evangélicos.
Pergunta: Donald Trump atua nesse jogo?
Senèze: Não creio que Trump tenha muitas convicções próprias. Ele certamente os escuta, mas quem tem mais proximidade com esse setor é o vice-presidente Mike Pence. As diferenças entre Washington e o Vaticano são muitas: o tema da pena de morte, a postura de Francisco contrária a um liberalismo fora de controle, entre outras. O Papa, é hoje um dos principais opositores aos fundamentos do poder econômico dos Estados Unidos.
                [Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli         veja também em Carta Maior de 17/9/2019]


Conspiração contra o Papa Francisco




Conspiração contra o Papa Francisco

Uma mensagem da Clara Alvarez que me foi reenviada pelo Hélder Costa, chamou-me a atenção para um texto do eminente teólogo brasileiro Leonardo Boff, publicado em 29 de dezembro de 2019 na Página Digital Brasil 247. Aí é posto a nu um “complô dos Estados Unidos contra o Papa Francisco”.
Num sugestivo excerto do texto que o encabeça, pode ler-se: "Pela primeira vez, um Papa se opõe diretamente ao sistema econômico que, no afã de acumular de forma ilimitada, explora nações, manipula mercados, cria milhões de pobres e agride gravemente os ecossistemas, pondo em risco o futuro da vida na Terra".
Eis a transcrição do texto de editLeonardo Boff:

É importante que os católicos, os cristãos e pessoas interessadas em assuntos religiosos saibam da enorme e até perversa campanha articulada por multibilionários estadounidenses, ultraconsrevadores, junto com pessoas de dentro do Vaticano, ocupando altos cargos, interessados em distorcer suas doutrinas, criticar suas práticas pastorais e diretamente difamar a pessoa do Papa Francisco.
E há uma razão manifesta para esta campanha (que supomos ter representantes também no  Brasil) porque, pela primeira vez, um Papa se opõe diretamente ao sistema econômico que, no afã de acumular de forma ilimitada, explora nações, manipula mercados, cria milhões de pobres e agride gravemente os ecossistemas, pondo em risco o futuro da vida na Terra.
Sua encíclica Laudato Si: sobre o cuidado da Casa Comum (2015) dirigida a toda a humanidade, recebe  grande rejeição destes grupos radicais de direita que se apresentam como piedosos. Frustrados por não conseguirem fazê-lo renunciar (são demasiadamente ingênuos e confiantes em seu poder financeiro), propõem-se a elaborar dossiers detalhados com o auxílio de  agentes da FBI sobre os futuros cardeais, favorecendo o mais que podem aqueles que podem servir a seus interesses e atacando duramente aqueles que talvez prolongarão a agenda do Papa Francisco, submetendo-os a grandes constrangimentos com fake news, inverdade e calúnias.
Estes opositores figadais sabem da  reconhecida liderança moral e também ético-política do Papa Francisco sobre a opinião pública mundial e sobre outros chefes de Estado que apreciam sua coragem, sua sinceridade, seu carisma e seu entranhável amor aos pobres e aos imigrados de África e do Oriente Médio, fugindo da fome e das guerras a caminho da Europa.
De seu círculo bem próximo viemos saber que o Papa se comporta de forma soberana, dorme como uma pedra das 9:30 da noite às 5:30 da manhã e vive o espírito das bem-aventuranças evangélicas da perseguição e difamação. Confiamos no Espírito que conduz a história. Também na Igreja de Deus e nas orações das pessoas de mente pura para que as maquinações maliciosas destes grupos poderosos sejam totalmente frustradas. Elas não vem de Deus mas de um espírito impuro e mau.”


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Votos de um Bom Ano de 2020!



Votos de um Bom Ano de 2020!

Com um abraço de amizade e fraternidade, envio através deste poema, votos de um Bom Ano Novo.

Reforço-os, fazendo-os acompanhar de uma reprodução de um quadro de Picasso.

Desta maneira,  agradeço também e retribuo os votos de Boas Festas que me foram enviados.

Rui Namorado





Bom Ano de 2020

Inscrito docemente no infinito
o tempo corre como se fugisse.

As flores do outono amadurecem
neste inverno que espera a primavera.

Na pérola do tempo desabrocha
o mistério do ano que há de vir

e o denso murmúrio da alegria
diz que o ano que vem há de ser novo.

Nos nossos pés preparam-se os caminhos
que o sonho nos ensina a percorrer

e em nossas mãos  perpassam as colheitas
que o assombro dos meses vai trazer.
                           
                          [Rui  Namorado]



terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Fábula Cansada





Fábula Cansada

A esquerda atravessa o rio,
um sapo sob um lacrau.

O lacrau para ser lacrau
só pode sempre morder.

O sapo vai afundar-se
vencido pelo veneno?

O lacrau vai afogar-se
porque não pode nadar?

Que importa, clama o sapo,
este  caminho é o meu.

Que importa, diz o lacrau,
antes ser eu e morrer
do que pensar e viver.

Com o sapo e o lacrau
muito povo vai morrer.

Pergunto sem ironia,
não era melhor chegar?
             
                              [Rui Namorado]

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

"Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”




“Uma outra economia, uma outra vida. Um ir além do tipo de economia em que vivemos. Sair do capitalismo para se sobreviver como humanidade. Não estamos perante sonhos de nefelibatas ou perante uma radicalidade utópica de ressonância extremista. Estamos perante uma emergência antropológica que não é apenas a tonalidade necessária a qualquer política de esquerda, é uma condição de sobrevivência da humanidade. Também nos convoca para essa urgência o desarmado Chefe de Estado do Vaticano.”

Há alguns dias, escrevi no FB o parágrafo que acima reproduzo, como introdução à partilha de um artigo da autoria do jornalista Carlos Drummond, divulgado na página virtual da importante revista brasileira de grande circulação “CartaCapital”, em 9 de dezembro.

O artigo comenta uma iniciativa do Papa Francisco que irá decorrer em Itália no próximo mês de março. É estranho que a justificada atenção que a nossa grande comunicação social presta ao Papa tenha deixado passar em branco uma informação tão relevante. Estranho, mas compreensível. Basta ler o artigo. O poder mediático dominante, embora procure disfarçá-lo, ainda não aprendeu a digerir por completo este Papa.

O artigo tem como título: Papa Francisco propõe um sistema económico mais justo e sustentável”. Ei-lo:

“Estruturada com o auxílio do americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Nobel
Mais de 2 mil jovens de 120 países confirmaram até agora a participação no encontro Economia de Francisco, de 26 a 28 de março de 2020 na cidade de Assis, Itália. Convocada pelo papa e estruturada com o auxílio do economista americano Joseph Stiglitz, a iniciativa conta com apoio do indiano Amartya Sen, ambos vencedores do Prêmio Nobel. A reunião pretende repensar, debater e buscar novos rumos para a economia mundial, hoje dedicada de modo quase exclusivo aos interesses de maximização dos lucros de empresas e de poucos indivíduos, de modo a direcioná-la para a proteção da maioria e do meio ambiente. As atividades preparatórias no Brasil incluíram um encontro com cerca de 500 interessados no fim de novembro, na PUC de São Paulo. O País terá 30 representantes vinculados a diferentes experiências.
Inovador no conteúdo e no formato, o encontro pretende debater experiências e promover rodas de conversa em substituição às tradicionais exposições de papers e mesas-redondas. A liderança caberá a jovens de até 35 anos, entre acadêmicos, agentes comunitários e empreendedores. A iniciativa floresceu em maio, quando o papa e Stiglitz comprometeram-se a trabalhar em conjunto para promover globalmente uma “economia social” que “olha para o futuro com a voz dos jovens em mente”.
Os dois advertiram sobre os problemas de certas formas de economia de mercado que incentivam o comportamento individualista e invertem papéis. “É necessário aprofundar as discussões sobre questões sociais e as mudanças geradas pela globalização nas sociedades, bem como pensar em ideias concretas sobre o que devemos fazer para a tecnologia e os mercados servirem à humanidade, e não o contrário”, propôs Stiglitz. É fundamental, alertou, “trabalhar na educação de sistemas alternativos que não adoram dinheiro. Temos de tentar desenvolver programas e estudos sobre o conceito de economia circular, que contribuam para uma educação que esteja ciente dos limites do meio ambiente e que ensine a devolver ao ambiente o que é retirado dele”.
A convocação feita pelo papa sugere um encontro inédito sobre economia: “Estou escrevendo para convidá-los a uma iniciativa que tanto desejei, um evento que me permita conhecer quem hoje está se formando e está iniciando a estudar e praticar uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a depreda. Um evento que nos ajude a estar juntos e nos conhecer, e que nos leve a fazer um ‘pacto’ para mudar a atual economia e dar uma alma à economia do amanhã”, conclamou Francisco.
 “Na ‘Carta Encíclica Laudato si’”, prossegue o papa, “enfatizei como hoje, mais do que nunca, tudo está intimamente conectado e a salvaguarda do ambiente não pode ser separada da justiça para com os pobres e da solução dos problemas estruturais da economia mundial. É necessário, portanto, corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”.
Estima-se que a liderança mundial do papa, realizador do Sínodo da Amazônia, em outubro, durante o auge de queimadas na floresta, contribuirá para tornar o evento um marco na crítica à economia dominante.
A iniciativa convergirá em torno de três grandes eixos, detalhados durante o evento preparatório na PUC-SP pela professora Patricia Dorneles, vice-coordenadora do curso de graduação em terapia ocupacional da UFRJ. O primeiro são as linhas gerais e as perspectivas de articulação de outra economia, inclusiva, marcada pela justiça social, ética e humanismo. O segundo eixo é a agregação e valorização das práticas concretas que incluem, no País, “inúmeras experiências de economia solidária, agroecológicas, de bancos de crédito comunitários, criação de novas moedas, atividades de economia criativa, de controle territorial de produção e distribuição”.
O terceiro eixo, prossegue, são as mudanças nos currículos das faculdades de economia no mundo. “Não podemos pensar em outra economia se formarmos economistas a partir de uma concepção única ou absolutamente voltada para a competição e as técnicas, muitas delas antiéticas, que geram sofrimento e privações a grande parte da população. O chamamento do papa é no sentido de os participantes formularem nova orientação curricular para formar economistas humanistas e integradores”, sublinha a professora.

A necessidade de reformular o ensino de economia para colocá-la a serviço da sociedade é debatida há anos. Segundo o especialista Andrew Mearman, da Universidade West of England, apesar de os currículos da maior parte dos cursos denotarem a concepção de que as habilidades necessárias aos profissionais da área são essencialmente a capacidade de elaborar matemática de alto nível e reproduzir os pontos centrais de determinada linha de pensamento, vários estudiosos reconhecem o caráter essencial do conhecimento de humanidades na solução de problemas complexos que exigem saber econômico combinado à flexibilidade de pensamento, insights de outras disciplinas e consciência da realidade social e política do país e do mundo. Muitos dos seus colegas de ofício não conseguiram entender a crise de 2008, diz o professor, por nunca terem estudado história nem o fenômeno da desigualdade.
O evento é uma resposta inovadora à “gritante, absurda, insuportável e injusta desigualdade social e à crise ecológica provocada pela mudança climática”, analisa o sociólogo Michael Löwy, diretor de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique, da França, um dos participantes dos debates na etapa brasileira. A degradação do meio ambiente e da natureza e a degradação humana e ética estão intimamente ligadas, analisa Löwy, porque são consequências do sistema. “Não é, portanto, só problema de comportamento individual de um ou de outro, de tal ou qual empresário, banqueiro ou chefe de governo. É de um sistema que ignora valores humanos, éticos, espirituais, naturais, porque esses valores escapam ao cálculo financeiro, do mercado. É uma economia que mata.”
A necrofilia do sistema vitima principalmente negros, denunciou outra participante do debate, Eleonora Aparecida Alves de Souza Domingos, fundadora da ONG Projeto Caminhos, de preservação da cultura negra e de matriz africana. “Hoje sofremos no Brasil a intolerância, a violação, a queima de templos. Apesar disso, mantemos um coletivo que resiste numa cidade essencialmente evangélica e abriga jovens negros em situação de vulnerabilidade social. Eles chegam sem sonhos em busca do acolhimento do terreiro. Nós resistimos à desigualdade e àqueles que insistem em não respeitar a nossa religiosidade. O que mais o povo negro tem é ousadia de viver num país tão racista”, diz a mãe de santo.
A mudança do modelo econômico requer enfrentamentos, acredita Dennis de Oliveira, professor de jornalismo na USP, e um dos mais importantes deles é a luta contra o racismo, pois não se constrói democracia e justiça excluindo 54% da população. “À medida que o capital fica mais concentrado, a população negra, originária, é a que mais perde direitos. No Brasil, a cada 23 minutos um jovem ou uma jovem negra é assinada. O projeto de uma nova economia é também o projeto de um novo modelo de civilização, de ruptura com esse sistema estruturalmente perverso”, sublinha o professor.

Os extremos atingidos pela crise múltipla indicam a insuficiência das respostas convencionais e clamam por mudança de paradigmas. “A proposta da Economia de Francisco é uma busca pelo comum no lugar do individual, pela gestão comunitária no lugar da puramente privada. É a certeza de que o ideário neoliberal e a sua busca constante por competitividade não dá conta de prover as necessidades da maior parte da sociedade”, resume a economista Neusa Serra, professora de políticas públicas da Universidade Federal do ABC e integrante do grupo de Articulação Brasileira.
“Na Economia de Francisco não há lugar para a acumulação infinita nem para paraísos fiscais. Isso pressupõe a defesa de imposto diferenciado sobre grandes fortunas, artigos de luxo e supérfluos, taxação dos lucros e dividendos, capital improdutivo e movimentações financeiras internacionais”, dispara Célio Turino, historiador, consultor em políticas públicas e outro integrante da Articulação Brasileira.

A proposta da Economia de Francisco não se resume a uma reunião de gente de boa vontade empenhada em realizar um diagnóstico e cogitar alternativas. “O evento vem oxigenar a visão da economia que está muito circunscrita aos ditos especialistas que em geral não dão conta do recado. É uma forma de puxar a economia para a vida real e dizer que o que vem sendo feito não resolve nada. Acho muito importante”, sublinha o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, consultor editorial desta revista. “O debate ficou empobrecido, porque a economia foi considerada um espaço especial na vida dos indivíduos e não é, como vem mostrando o próprio Stiglitz em seus trabalhos e também o economista Robert Skidelsky. É isso que está em questão, as abstrações que não têm ancoragem na vida real. Há uma saturação, uma insatisfação diante do aprisionamento da economia num modelo abstrato ruim.”
Alguns dos trabalhos selecionados para representar o Brasil em Assis ilustram a diversidade de atividades e de propostas desenvolvidas pelos participantes.
Vitor Hugo Tonin, assessor econômico do Sindicato dos Químicos Unificados, trabalha no desenvolvimento da plataforma Livres Rede de Produtos do Bem, que permite o contato direto entre produtores e consumidores, elimina intermediários, custos e lucros de quem não está produzindo nada, aproxima produtor de consumidor e busca um consumo consciente. “No caso de alimentos”, detalha, “procuramos promover produtos sem agrotóxicos, da agricultura familiar e orgânicos. Visa também eliminar intermediários de serviços que monopolizam mercados simplesmente por serem proprietários das plataformas digitais como os prestadores de serviços do tipo Uber e aplicativos de entregas em domicílio.”
O assessor técnico parlamentar David Deccache pesquisa no doutorado em Economia da UnB as possibilidades, desafios e impactos da elaboração de um programa de garantia de emprego com base na Teoria Monetária Moderna. “A pesquisa resultou em um Projeto de Lei apresentado pelo deputado Glauber Braga, do PSOL, na Câmara dos Deputados. Ao colocar o Estado como um empregador de última instância, o projeto avança na resolução de inúmeros problemas: estabelece o respeito ao salário mínimo e a legislação trabalhista e elimina o desemprego crônico a um custo líquido próximo a 2% do PIB”, defende.
Eliza Hostin, formada em Comunicação e mestre em Economia para Transição, trabalha como consultora de sustentabilidade com foco em duas frentes. A primeira é o apoio a empresas para repensar a atuação em busca de formas mais sustentáveis e, se possível, regenerativas. A segunda é em educação, pelo apoio a indivíduos e organizações no entendimento sobre a nova economia de modo a compreenderem os diferentes conceitos que a compõem, bem como conhecerem práticas existentes. “A relevância deste trabalho está em criar pontes de diálogo entre o mundo capitalista e o novo modelo socioeconômico que emerge. Permite novas lentes para ver e agir no mundo e, com isso, tornar-se agente ativo dessa transformação.”
Cristina Pereira Vieceli, aluna de doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, trata de economia feminista e trabalhos reprodutivos. A economia feminista, diz, critica a invisibilidade dos trabalhos não remunerados exercidos principalmente pelas mulheres, tais como afazeres domésticos e trabalhos voluntários não incluídos na contabilidade nacional dos países. “Essa dinâmica impacta tanto na trajetória feminina no mercado de trabalho quanto na sua posição de dependência econômica e o caráter de seu trabalho, pois as mulheres são sobrerrepresentadas em atividades de meio turno, com baixas remunerações.”
Francisco, tudo indica, está disposto a combater o Bezerro de Ouro.


sábado, 7 de dezembro de 2019

UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO



UMA SONDAGEM, A POLÍTICA E O FUTURO
1. Uma recente sondagem quanto à intenção de voto nas legislativas, promovida pela Intercampus , foi recentemente publicada pelo CM e pelo Negócios. Eco mediático modesto. Compreensível. Os resultados não permitiam um alarido simplista. Traduziam modestamente o foguetório antigovernamental e apontavam para um agravamento do pântano político em que as direitas parecem atolar-se. Os jornais comparavam estes resultados com os de uma sondagem feita no mês anterior já depois das eleições. Por mim, vou compará-los com os resultados das últimas legislativas. Parece-me mais significativo.
O PS passa de 36,5% para 34,9 %, o que significa uma perda de 1,6%. O PSD desce de 27,9para 24,9, o que implica uma perda de 3%.O BE passa de 9,7 para 10,8, o que se traduz num ganho de 1,1 %. A CDU passa de 6,5 para 8,1, o que representa um ganho de 1,6%. O CDS passa de 4,3 para 2,9, o que significa uma perda de 1,4%. O PAN sobe de 3,3 para 4,8, o que se traduz num ganho de 1,5%. O Chega sobe de 1,30 para 4,8, o que representa uma subida de 3,5%. A IL cresce de 1,3 para 2,9 o que implica um ganho de 1,5%. O Livre passa de 1,1 para 2,7 o que significa um aumento de 1.6 %.
Se considerarmos o PAN como ele diz que é (“nem de direita nem de esquerda”, ou seja de centro) esse espaço político alargou-se em 1,5%.
Se considerarmos a direita como abrangendo o PSD, o CDS, a IL e o Chega este conjunto passou de 34,7 para 35,5, o que significa um aumento de 0,8%. Mas se separarmos a direita clássica da extrema-direita, a primeira terá perdido 2,7% e a segunda terá ganho 3,5%.
Se considerarmos a esquerda como compreendendo o PS, o BE, a CDU e o Livre, verificamos que passou de 53,7 para 56,5, o que significa um ganho de 2,8%. Mas como vimos o PS perdeu 1,6% e os outros três partidos partilharam entre si em partes quase iguais um progresso de 4,4%.

2. As variações não são grandes. O PS sofreu um desgaste modesto apesar da intensa barragem de artilharia política que o tem assediado. As outras esquerdas ganharam algum viço o que parece especialmente relevante para o PCP, por parecer que desse modo reverte a tendência revelada nas legislativas; e para o Livre pelo facto de ter duplicado a percentagem de intenções de voto.
O PAN parece mostrar a solidificação da robustez adquirida .
Na direita clássica tradicional o CDS parece atolar-se ainda mais dramaticamente na sua crise. O PSD parece patinar, murchando um pouco mais, talvez em função da disputa interna que está a atravessar. A IL tem em termos relativos um aumento animador.
A extrema-direita quase quadruplicando as intenções de voto em comparação com os resultados eleitorais que obteve, ao ultrapassar claramente o CDS, acentua-lhe a dramaticidade da crise que está a viver. Coloca-se assim no horizonte como questão estruturante do futuro da direita clássica o modo como se vai relacionar com a extrema-direita.
O relacionamento entre PS e os outros partidos de esquerda tem-se revestido de uma atmosfera de incerteza. Parece não ter sido encontrado um tipo de conjugação entre eles que todos aceitem sem reserva mental. Se deixarem resvalar para o antes de 2015 o modo como se relacionam estarão a abrir a única porta através da qual a direita pode regressar ao poder. O BE, o PCP, os Verdes e o Livre só aprovarão as medidas que tiverem o voto favorável do PS, a não ser que se disponham a ter uma agenda política em que sejam centrais as medidas que suscitem o acordo das direitas ainda que não o do PS. Este tem uma situação quase simétrica ainda que lhe baste a abstenção das outras esquerdas ou de uma parte delas para não ter que recear a reprovação pelas direitas mesmo que concertadas. Se todos  vemos isto, parece inútil tentar esquecê-lo.
O governo afirmou expressamente que privilegia os acordos políticos entre o PS e os outros partidos de esquerda, mas estes parecem mais interessados num alarido de demarcação do que numa atmosfera de concertação. Vejamos o que realmente acontece.
No entanto, todos estes partidos não deveriam esquecer-se que a articulação política que construíram na legislatura anterior não foi uma invenção a frio de estados-maiores partidários, foi um impulso do povo de esquerda, do bloco dos seus eleitorados efetivos e potenciais a que esses estados-maiores tiveram o mérito de dar sequência. E é bem provável que os vários tios de tergiversações e de ambiguidades ocorridas na campanha eleitoral para as legislativas, quanto à assunção do que tinha ocorrido entre eles e quanto á vontade de a continuarem, tenham atirado para uma abstenção desiludida ou cética muitos e muitos eleitores do povo de esquerda.
E é bom que nos lembremos que nos cemitérios da memória política europeia jazem muitos partidos de várias esquerdas que, inventando ou conservando cartilhas obsoletas oriundas do seu passado ou do seu exterior, esqueceram a primazia da consonância com o povo de esquerda, com a sua esperança , com a recusa da sua humilhação. E assim foram murchando, murchando até serem nada. Se qualquer partido de esquerda for derrotado por ter ficado realmente  junto dos seus, nada o apagará, mas se for derrotado por se ter esquecido deles acabará por se esvair.