quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

PORTO - economia social em perspetiva



Ontem , dia 8 de fevereiro participei no Porto na cerimónia pública de atribuição do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2016 nas suas várias modalidades, atribuído pela CASES, uma vez que recebi nesse âmbito o Prémio Especial Personalidade do Ano. Transcrevo de seguida as palavras por mim proferidas nessa circunstância.
______________

Exº Senhor Ministro do Trabalho e da Solidariedade
Exªª Autoridades Nacionais e Municipais
Exº Senhor Presidente da CASES
Exº Senhor Subdiretor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
 Exºº Senhores dirigentes e militantes das organizações da economia social
 Caros amigos

Começo por felicitar vivamente todos os outros premiados.
 
Honra-me muito a distinção recebida, assumindo por isso o dever de ser digno dela.
 
Muito agradeço todos os apoios recebidos no decurso deste processo.
 
Mas só pude chegar aqui porque beneficiei, ao longo de décadas, da cooperação e da solidariedade de muitos cooperativistas e de outros militantes da economia social que comigo partilharam lutas e sonhos, pequenas e grandes vitórias, algumas derrotas.
 
Só pude chegar aqui porque o meu trabalho foi acolhido e estimulado pela Universidade de Coimbra através da sua Faculdade de Economia, a minha faculdade.
 
E porque beneficiei da cooperação e da solidariedade dos Colegas que comigo partilham há muito a aventura e a persistência de um Centro de Estudos Cooperativos e da Economia Social.
 
E, é claro, só pude chegar aqui graças à minha família e aos meus amigos.
 
Não faz sentido agradecer-lhes, mas com todos partilho hoje esta honra e este júbilo.

__________________________

Cheguei ao que é hoje a economia social através do cooperativismo, uma das grandes dinâmicas sociais que estão na base da sua identidade e da sua afirmação.
 
Envolvi-me no cooperativismo, teórica e praticamente, desde antes do 25 de abril, no quadro de uma resistência democrática que procurava um horizonte que fosse além do capitalismo.
 
 Mais tarde, já na Universidade continuei esse caminho valorizando a sua dimensão jurídica.
 
Nunca estudei o cooperativismo e a economia social, como objetos vistos de fora, no âmbito de um laboratório imaginário. Procurei sempre envolver-me neles como dinâmicas a estimular. Conhecê-los o melhor possível, para poder contribuir para o seu desenvolvimento.
 
A geografia mundial das diversas constelações da economia social reflete uma disseminação diversificada.
 
No plano europeu, a sua visibilidade aumenta.
 
Em Portugal, a economia social tem vindo a tomar consciência de si própria e a inscrever-se como prioridade nas políticas públicas.
 
As suas várias constelações vão aprendendo a reconhecer-se umas às outras como partes de uma mesma galáxia. O Estado tem-na valorizado política e institucionalmente, fixando o seu perfil jurídico-legal e dando nitidez crescente à mensagem normativa da Constituição da República nesta matéria.
 
É cada vez mais claro que a qualidade de vida das pessoas depende da afirmação de uma vasta rede de processos de desenvolvimento local unidos numa sinergia virtuosa. E parece claro que esses processos ganham robustez e perenidade, quando são enriquecidos com um protagonismo efetivo das entidades da economia social.
 
E é também certo que dificilmente pode haver desenvolvimento da economia social sem uma reforma do Estado. Uma reforma que incorpore esse desenvolvimento como energia que cresça com ela e que a impeça de se reduzir a uma simples evolução burocrático-administrativa.
 
E se olharmos com atenção para o lugar que as várias constelações da economia social ocupam na Constituição da República, facilmente a identificamos como um dos principais eixos identitários do projeto constitucional. Nessa medida, desenvolver a economia social é ainda hoje continuar a realizar o projeto de Abril.
 
Mas o império do automatismo predatório do capitalismo financeiro, a que chamam neoliberalismo, projeta no futuro de toda a humanidade o sombrio risco das catástrofes. Sejam elas ambientais, sociais, políticas ou mesmo civilizacionais.
 
Concebida para dar esperança aos povos europeus, a União Europeia deixou-se inquinar por uma tecnocracia burocraticamente aprisionada na regressão social e na anemia política, guiada por um automatismo economicista que reproduz privilégios e desigualdades, cada vez mais se afastando do horizonte inicialmente prometido.
 
É este o difícil contexto que constrange o nosso país, tolhendo o poder democrático e impedindo-o de percorrer com verdadeira liberdade o caminho que o povo escolha.
 
As várias instâncias do Estado democrático, mesmo quando protagonizadas por sujeitos políticos que pugnam pela igualdade, pela liberdade e pelo desenvolvimento sustentável, não escapam ao cerco desse contexto hostil. Um contexto construído por inércias e automatismos que, ao reproduzirem privilégios, constrangimentos e desigualdades, são a marca e o rosto do tipo de sociedade atualmente dominante.
 
Por isso, para que o Estado possa ter êxito, como impulsionador da transformação da sociedade, rumo a um horizonte de liberdade e de justiça, precisa de estar radicado numa sociedade viva. Numa sociedade animada por uma dinâmica endógena que corporize essa transformação.
 
Na verdade, nada de irreversivelmente novo se poderá esperar  do ímpeto de transformação de um Estado, cujas raízes mergulhem numa sociedade adormecida. Mas nenhum horizonte de esperança pode também ser assumido por uma sociedade cuja dinâmica endógena não seja estimulada, amparada e vertebrada por um Estado democrático em permanente aperfeiçoamento.
 
E em sociedades como a nossa, não se vislumbra  protagonismo endógeno mais relevante para uma mudança emancipatória  e humanista do que o do conjunto das organizações da economia social, encaradas na sua diversificada globalidade. Nelas se combinam a capacidade de resposta rápida e efetiva a muitos problemas relevantes da nossa sociedade e uma inequívoca ambição futurante.
 
Por isso, o desenvolvimento da economia social não é apenas uma questão que interesse aos seus protagonistas mais diretos. É, pelo contrário, uma questão que interessa ao país no seu todo, ao povo no seu conjunto.
 
 Há quem reiteradamente procure trazer para a ribalta mediática a questão de saber se a economia social tem futuro. É uma questão subalterna. A questão decisiva, cuja resposta não pode ser iludida, é outra, é a de sabermos se o nosso país é viável como democracia sem a economia social.
 
Por isso, o seu fomento, sendo uma orientação desejável das políticas públicas, não pode limitar-se a ser uma pequena região de um painel programático.
 
Pelo contrário, tem que ser um foco de irradiação para todo o espaço político, que impregne quer a política do Estado central quer a das autarquias; sem esquecer a necessidade de se projetar sem ambiguidades no espaço europeu.
 
A economia social responde à exclusão, à pobreza, à frustração, ao sofrimento, à exploração, não porque sejam eternas, mas para que sejam vencidas.
 
Por isso, não pode renunciar a responder prontamente aos desafios do presente, em nome de possíveis amanhãs que um dia possam cantar. Mas também não pode deixar-se amputar do seu próprio futuro, perdendo a energia emancipatória que a esperança lhe dá e demitindo-se de ser uma economia humana.

[Rui Namorado – Porto, 8 de Fevereiro de 2017]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Necessidade de uma orquestra

                                                                     Delacroix  - A liberdade guiando o povo

A força dos de cima está na disseminação desorientada das revoltas dos de baixo. Muitas vezes elas defrontam-se, anulando-se. Muitas vezes caminham apressadamente para lado nenhum.

Os poucos  de cima querem inculcar nos povos a ilusão de que está no incremento da sua riqueza, que prometem um dia distribuir, a salvação da humanidade. Mas eles próprios criaram um automatismo predatório de que agora dependem e que controlam cada vez menos ; o qual traz no seu bojo o perfume negro das catástrofes.

Mas a sobrevivência da humanidade está cada vez mais nas mãos dos muitos de baixo, na grande orquestra humilhada dos povos da terra.

Orquestra, fixem bem. Uma orquestra de revoltas que se conjuguem harmoniosamente numa sinfonia emancipatória. Uma orquestra e não um ajuntamento caótico  de revoltas que se devorem e anulem entre si num paroxismo suicida. Como hoje , em grande medida, acontece.

Não se dispensa o rufar rude dos tambores, nem  o trovejar altivo das trombetas. Mas não pode esquecer-se a subtil luz dos violinos, nem o calor humano dos maestros. Não pode desprezar-se a partitura.

Não chega o rasgar aflito de uma guitarra sozinha, nem o trovejar dos trompetes que se fechem em si próprios.


É urgente uma orquestra dos de baixo, um pertinaz acordar das multidões dispersas. É preciso  escrever a partitura, ouvindo sempre os mestres da revolta e o leve sussurrar do pensamento.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

No PORTO, uma cerimónia pública



Vai ter lugar no Porto, no próximo dia 8 de fevereiro (quarta- feira), pelas 16 horas, no Auditório do Museu Nacional Soares dos Reis [ Rua D. Manuel II – nº44], a cerimónia pública de entrega do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio 2016, nas categorias de Inovação e Sustentabilidade, de Estudos e Investigação, de Formação Pós-Graduada, de Trabalhos Escolares; e ainda o Prémio Especial Personalidade do Ano. 

É uma grande honra que este último me tenha sido atribuído a mim. 

A sessão pública será aberta pelo Presidente da CASES, Dr. Eduardo Graça e encerrada pelo Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Dr. José António Vieira da Silva.

sábado, 14 de janeiro de 2017

UM LIVRO, UM POETA - 15

Hoje, vou recordar  Vinicius de Moraes, poeta brasileiro do século XX [ Rio de Janeiro -1913/1980] que se espraiou pela vida com alegria e genialidade. Diplomata, cronista e jornalista, intrometeu-se na música brasileira, misturando verbo, voz e música, na sua fraternidade boémia com Tom Jobim, João Gilberto e Chico Buarque. Usando o seu próprio modo de dizer, como poeta voou alto.

Lembro hoje, dois dos seus poemas  incluídos na 17ª edição do seu "Livro de Sonetos", publicada no Rio de Janeiro pela José Olympio Editora em 1987. Num deles Vinicius homenageia Pablo Neruda, noutro exalta o futebol brasileiro através do lendário Garrincha.

Como evocação adiciono uma fotografia que ilustra a passagem de Vinicius por Coimbra, nos anos 60.




Soneto a Pablo Neruda

Quantos caminhos não fizemos juntos
Neruda, meu irmão, meu companheiro...
Mas este encontro súbito, entre muitos
Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

Canto maior, canto menor — dois cantos
Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
E em seu recesso as cóleras e os prantos
Do homem chileno e do homem brasileiro

E o seu amor — o amor que hoje encontramos...
Por isso, ao se tocarem nossos ramos
Celebro-te ainda além, Cantor Geral

Porque como eu, bicho pesado, voas
Mas mais alto e melhor do céu entoas
Teu furioso canto material!

[Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960

O anjo das pernas tortas


A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento: ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés ─ um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: ─ Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!


                                                          [Rio, 1962]

************ 

Em Coimbra, nos anos 60, na República Baco, confraternizando com estudantes,Vinicius, de óculos escuros, com o braço sobre o ombro de Joaquim Namorado. De costas no primeiro plano, Zé Niza; mexendo no nariz, Quim Brandão.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

UM LIVRO, UM POETA - 14


UM LIVRO, UM POETA -14


1. Incluí neste blog uma série de evocações de poetas que , por uma ou outra razão, por um ou outro poema, produziram em mim um eco mais fundo. Fi-lo através de uma seção específica, “Um livro, um poema”, mas que por vezes incluiu para cada autor mais do que um poema.

Desde 2 junho de 2015 que a interrompi. Até então, a um ritmo irregular havia recordado: Daniel Filipe, G. Ungaretti, Carlos de Oliveira, Manoel de Barros, Egito Gonçalves, B.Brecht, Reinaldo Ferreira, João Cabral de Melo Neto, Pablo Neruda, Sidónio Muralha, Manuel Bandeira, Cesário Verde e António Nobre.

Uma e outra vez decidi retomar essas evocações. Por uma razão ou por outra, isso foi não acontecendo.

O facto de, na homenagem prestada no Mosteiro dos Jerónimos a Mário Soares aquando da sua recente morte, ter sido incluída a transmissão de dois poemas  de Álvaro Feijó declamados por Maria Barroso, foi o impulso que me fez retomar a série há tanto interrompida. Vou pois transcrever esses dois poemas: “ Os dois sonetos de amor da hora triste”.

Embora  dando continuidade à série, vou introduzir uma ligeira alteração na sua designação que passará a ser: “ Um livro, um poeta”. Ela traduz mais fielmente o que ela tem sido e que penso que venha a ser.


2.Álvaro Feijó nasceu em Viana do Castelo em 1916 e morreu em Coimbra em 1941, onde era estudante de direito, antes de completar 25 anos. Com outos jovens estudantes de Coimbra , como Joaquim Namorado, Carlos de Oliveira, João José Cochofel e Fernando Namora, fez parte do grupo neo-realista  do Novo Cancioneiro. Um livro seu viria a ser publicado nesta coleção já depois da sua morte sob o título de :”Os poemas de Álvaro Feijó”.


                                                              [ Álvaro  Feijó]

Os dois sonetos de amor da hora triste



Quando eu morrer - e hei-de morrer primeiro
do que tu - não deixes fechar-me os olhos
meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos
e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.
E, ao veres que tenho toda a tua imagem
dentro de mim, se, então, tiveres coragem,
fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia
e o rastro da minha barca
segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria...
E, se me vires chegar ao cais dos céus,
ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, para dizer-te adeus.

II
Não um adeus distante
ou um adeus de quem não torna cá,
nem espera tornar. Um adeus de até já,
como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar
de novo para ti, no mesmo barco
sem remos e sem velas, pelo charco
azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.
E não quero que chores para fora,
Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E, se quiseres partir e o coração
to peça, diz-mo. A travessia é longa... Não atino
talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino.

domingo, 8 de janeiro de 2017

HOMENAGEM EM CONTRA-MÃO A MÁRIO SOARES



                                                         [ retrato oficial -pintura de Júlio  Pomar]

Nestes dias mais próximos, vão cair sobre Mário Soares todas as palavras de pesar que a nossa imaginação alcança. Vão bater-lhe à porta, quer as memórias sentidas de muitos amigos, quer  a dor calorosa e triste do povo.

Justamente, vão alinhar-se junto ao seu nome as maiores solenidades discursivas. Os mais eloquentes cultivarão, graves, o sabor das grandes frases. As pompas mais crepusculares deitarão as suas sombras sobre as ruas.

Se Mário Soares se desse ao trabalho de acordar por um momento, deixaria  certamente escorrer ligeiramente pelo seu rosto cansado a ponta de um sorriso e libertaria a sua ironia mais funda para que se espreguiçasse um pouco.

Quem tenha escrito o que eu acabo de escrever não pode associar-se, pura e simplesmente, ao coro das homenagens , mesmo  que se  limite  a deixar uma palavra de tristeza e o esboço convencional de uma  esperança coletiva, ainda que ténue,  que possa fazer  pensar que valeu a pena a gesta do homenageado.

Tem que procurar abrir alguma janela, ainda que pequena e forçosamente breve. Ora, estava eu à procura dessa fugidia janela de arejamento, quando me recordei da metáfora do caçador que talvez um dia eu tenha inventado.

Diz ela que era uma vez um  caçador que sabia tudo acerca da caça. Sabia tudo acerca dos coelhos, sabia tudo acerca das perdizes. Sabia exatamente como aproveitar  cada cão em cada momento da caçada. Quando treinava tiro ao alvo, acertava sempre no mais íntimo do centro. Pontuação máxima.

Começada a caçada, lançados os coelhos na desesperada fuga, o genial  caçador, lesto e rápido, disparava. Mas era o cão que gania sofredor, enquanto  o coelho continuava a sua louca desfilada, escapando. Súbita,  soltava-se a perdiz matreira num voo inesperado. O  caçador, forte da sua vasta erudição,  disparava. O chapéu do vizinho voava e a perdiz, essa, perdia-se nos  insondáveis arbustos.

Mas Mário Soares era um outro tipo de caçador: precisamente o oposto.  Sabia sobre coelhos e sobre perdizes apenas o que lhe dava prazer saber, o que lhe apetecia saber.  Dos cães, limitava-se a ser amigo. Não tinha paciência para treinar tiro ao alvo. Não treinava. Caçava.

E , no entanto, aberta  a caçada, não há memória de que alguma vez tenha  acertado num cão e muito menos de que tenha feito voar  o chapéu de um companheiro de caça.  Mas as perdizes não lhe escapavam; os coelhos muito menos. Tiro e queda. Com naturalidade e alegria.


E com um detalhe que não devemos esquecer: as suas felizes caçadas foram a nossa vida.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Inscrições até ao próximo dia 6 de janeiro

Pós-Graduação em Economia Social - 2016/2017.



Exmos/as Senhores/as,

Os estudos pós-graduados são hoje parte fundamental da missão universitária.

É com grande satisfação que vimos informar que se encontram abertas, até ao próximo dia 6 de janeiro de 2017, as candidaturas de Acesso à Pós-Graduação em Economia Social – Cooperativismo, Mutualismo e Solidariedade para o ano letivo 2016/2017.

No âmbito do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio, na categoria “Formação Pós-Graduada”, atribuído a esta Pós-Graduação em 2014 pela CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, 5 estudantes selecionados nesta Pós-Graduação e que não possuam “meios para autofinanciar a sua participação“ poderão candidatar-se a Bolsa de Estudo, no valor de 300,00€ cada, relativa ao montante da propina.

As candidaturas são feitas online. Poderá encontrar mais informações na página web da FEUC.

Se quiser obter algum esclarecimento adicional ou mais informações sobre o curso e o seu funcionamento, não deixe de contactar a Escola de Estudos Avançados da FEUC (eea@fe.uc.pt | Telef. +239 790 501/510).

Esperamos por si!

domingo, 1 de janeiro de 2017

Um Bom Ano de 2017



Com este meu poema, a que junto uma vez mais a imagem de uma pintura de Salvador Dali, dirijo a todos vós cordiais votos de um bom ano de 2017.




 Nós e o novo ano

o tempo é uma brisa que incendeia
o secreto perfume de quem somos

passa por nós trazendo num sorriso
o incerto vigor de um ano novo

no grão azul que atravessa o espaço
somos o espanto que sonhou a vida

somos viagem  como  o pensamento
a cólera  do vento   o chão  da História

colhemos o que queremos semear
nesta terra lavrada que inventamos

se a garra do destino nos cercar
seremos mais e mais o que há de vir


           [dezembro de 2016- Rui Namorado]

sábado, 24 de dezembro de 2016

A TSU para além da neblina


A descida da TSU é , na minha opinião, uma decisão extremamente infeliz do atual Governo.

Mas a mim, mais do que o demérito induzido pela fragilidade dos argumentos que a sustentam e pela maior consistência da maior parte dos argumentos que a combatem, preocupa-me a ilusão que envolve o próprio plano em que a discussão se trava. Uma ilusão radicada numa relativa superficialidade teórica e doutrinária para a qual as esquerdas têm deslizado, de um modo geral, nas últimas décadas. Essa superficialidade que não é uniforme nem sequer idêntica relativamente a todas elas (mas em nenhuma está ausente), torna mais frágil qualquer entendimento que as congregue e mais incerto chegar-se sequer a consegui-lo.

Neste caso, para mim, o problema central que envolve a descida da TSU é o de que verdadeiramente isso significa uma redução do salário de todos os trabalhadores envolvidos. Na verdade, substancialmente, os descontos para a segurança social, quer sejam  imputados juridicamente aos patrões quer aos trabalhadores, são salários diferidos. E só a superficialidade mistificatória  que ignore isso mesmo, abre a porta a que se possa enveredar por essa via sem sequer  se achar que desse modo se está a cair numa redução salarial.

Não esqueçamos: se deixarmos que as sombras ideológicas projetadas pelo neoliberalismo  nos toldem os espíritos, dificilmente ficaremos a coberto da sua influência nefasta.


domingo, 18 de dezembro de 2016

PASSOS - o astrólogo das desgraças


Passos Coelho assumiu-se como o astrólogo das desgraças. Confiou na alta probabilidade de um regresso dos tempos difíceis a Portugal. Confiança que certamente lhe adveio dos seus próprios limites ideológicos, mas principalmente de uma noção clara da fragilidade da situação económica de Portugal  subsequente ao seu próprio consulado. Fragilidade acentuada pela objectiva  volatilidade política da União Europeia  que oscila entre uma fidelidade robótica aos dogmas do neoliberalismo (traduzida numa total nudez estratégica) e  o despertar doloroso para uma realidade que insistentemente lhe faz entrar pelos olhos dentro o negrume do seu fracasso, quando optou pela via da austeridade.

Mas se é certo que o neoliberalismo tem assombrado a Europa, não conseguiu ainda destruí-la, pelo que muita coisa se move nela apesar dele. Muita coisa resiste.

A fibra e a criatividade  dos portugueses,  uma atmosfera solidária com algum relevo e um governo possibilitado por uma conjugação das esquerdas ( e que a reflecte), têm atrasado a realização das profecias negras de Passos. E parece legítimo afirmar-se que, se os contextos político-económicos europeu e mundial não criarem dificuldades novas e maiores, pelo que diga respeito apenas aos portugueses e à via seguida pelo governo, as profecias negras de Passos não se confirmarão.

Tudo isto, no entanto, suscita duas questões centrais.

Primeira: se houver uma situação difícil inequivocamente imputável a causas externas podemos fazer recair as culpas nos portugueses e no seu Governo?

Segunda: sendo certo que o consulado de Passos, tendo apertado o garrote em torno do povo,deixou a dívida pública pior, o défice abaixo dos objectivos fixados , a economia num nível inferior  e agravados os problemas do sistema financeiro, que razão haveria para acreditarmos que ele , se viesse a ocorrer uma crise exógena,  nos faria enfrentá-la melhor  do que  este Governo?

Quanto àquilo  que a primeira questão envolve, a culpa só poderia ser imputada  aos portugueses e ao actual governo, com base na lógica de que o capital merece todo o carinho e as pessoas que vivem do seu trabalho, todos os sacrifícios.

Quanto ao que tem a ver com a segunda questão torna-se cada vez mais claro que a via da austeridade não é uma cura mas uma intoxicação, cujo efeito colateral mais notório é o de cavar as desigualdades e agravar a pobreza.

Tudo isto conduz a uma conclusão: Passos deixou-se aprisionar pela sua própria frustração por ter perdido o poder, tendo ficcionado a indispensabilidade da sua política e  a insusceptibilidade de se seguir qualquer outro caminho. Robotizado ideologicamente pelo neoliberalismo, foi deslizando para um discurso que se repete a si próprio. E cada dia que passa torna esse discurso mais distante da realidade.

E assim, perversamente, o equívoco de Passos (que começou por ser apenas uma ideia errada) pode converter-se num desejo. Sim, o desejo de Passos de que as coisas corram mal para os portugueses e para o actual Governo por ser essa a única esperança de que venha a acontecer aquilo que vaticinou; única maneira de o salvar  de um enorme falhanço que  com o tempo só pode crescer.




quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Pós-Graduação em Economia Social - 2016/2017.



Exmos/as Senhores/as,

Os estudos pós-graduados são hoje parte fundamental da missão universitária.

É com grande satisfação que vimos informar que se encontram abertas, até ao próximo dia 6 de janeiro de 2017, as candidaturas de Acesso à Pós-Graduação em Economia Social – Cooperativismo, Mutualismo e Solidariedade para o ano letivo 2016/2017.

No âmbito do Prémio Cooperação e Solidariedade António Sérgio, na categoria “Formação Pós-Graduada”, atribuído a esta Pós-Graduação em 2014 pela CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, 5 estudantes selecionados nesta Pós-Graduação e que não possuam “meios para autofinanciar a sua participação“ poderão candidatar-se a Bolsa de Estudo, no valor de 300,00€ cada, relativa ao montante da propina.

As candidaturas são feitas online. Poderá encontrar mais informações na página web da FEUC.

Se quiser obter algum esclarecimento adicional ou mais informações sobre o curso e o seu funcionamento, não deixe de contactar a Escola de Estudos Avançados da FEUC (eea@fe.uc.pt | Telef. +239 790 501/510).

Esperamos por si!


Agradecendo desde já toda a atenção prestada,

Saudações Académicas

 FEUC


                                                      

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O homem do fato cinzento diz FMI.




O homem do fato cinzento diz FMI.

O homem do fato cinzento disse: “Ficámos surpreendidos com os resultados a que chegou a economia portuguesa”.
O homem do fato cinzento devia ter dito: “Enganámo-nos nas previsões pessimistas que fizemos quanto á economia portuguesa.”
O homem do fato cinzento acrescentou: “Mas devem ser feitas mais reformas estruturais”.
Eu pergunto ao homem de fato cinzento: “Se te enganaste porque nos dás os mesmos conselhos que darias se tivesses acertado?”
O homem do fato cinzento indica, embrulhando-as num economês internacional, quais são as suas reformas estruturais. Se traduzirmos pacientemente o seu economês internacional para português corrente, facilmente veremos que se reduzem a três tipos: prejudicar os trabalhadores, favorecer o capital e enfraquecer o Estado.
Como vemos é muito importante valorizar o português corrente, já que em economês internacional os portugueses como todos  os povos  podem ser enganados, mas em português corrente  os portugueses são muito mais dificilmente ludibriados. E os políticos-megafone do FMI em Portugal não podem ser tão desenvoltos como ainda não deixarem de ser, sob pena de correrem o risco de esqualidez eleitoral.
Duas perguntas me assaltam incomodativas, em conclusão:
1ª Por que razão milhares de cérebros sofisticados, pagos regiamente por dinheiros públicos, espremem a sua inteligência durante anos e anos para acabarem por recomendar  no essencial uma dócil obediência aos sonhos mais primários de qualquer patrão de esquina que esqueça a inteligência estratégica e a generosidade humana?
2ª Por que razão cabe aos Estados pagar e credenciar uma burocracia tecnocrática ostensivamente posta ao serviço do capital financeiro mundial?

Não espero que o homem do fato cinzento saiba responder.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O BRASIL em águas turvas


                                           - A generosidade da direita brasileira -

Durante os últimos dias teve lugar no Brasil mais um episódio politico-rocambolesco que justifica alguns comentários. Comecemos pelo princípio.

A Rede de Sustentabilidade, partido político liderado pela ex-candidata presidencial Marina Silva, que antes  fora dirigente do PT e pertencera ao governo de Lula, tomou uma posição de ambiguidade cúmplice, durante o golpe de Estado desferido contra Dilma Roussef. Os seus resultados nas eleições locais posteriores foram modestos. A sua posição perante a deriva neoliberal interpretada pelo governo do mordomo Temer é fluida e inócua.

Talvez, para fazer prova de vida, a Rede suscitou no Supremo Tribunal Federal do Brasil (STF) um incidente de afastamento do Senador Renan Calheiros da Presidência do Senado. Incidente possibilitado pelo facto de o STF ter aberto um processo-crime contra ele por corrupção. No quadro do referido pedido de afastamento, foi tomada, por um juiz do STF, uma providência cautelar para que preventivamente se procedesse de imediato ao referido afastamento.

A mesa do Senado brasileiro não acatou a ordem judicial, alegando que aguardava a confirmação do ato do juiz pelo pleno do STF. Este tomou ontem uma decisão contrária ao juiz, permanecendo Calheiros na liderança do Senado. Mas, salomonicamente, decidiu que Calheiros, embora continuasse à frente do Senado, saía da linha sucessória da Presidência da República, tal como ela é desenhada pela Constituição brasileira.

Os jornais noticiaram com naturalidade que o Presidente da República  instalado ( Temer), lideranças do senado e juízes do STF tinam acordado a solução adotada num esforço de contenção de danos e riscos; e para ninguém perder a face . A Justiça destapou discretamente um dos seus olhos para ver o que estava em causa? Se o senador fosse do PT a decisão seria a mesma? Por método ou por viés rural  ─ duvido.

Enfim, para mim é um sinal de pré-Estado de Direito : juízes do tribunal supremo regateiam decisões com os outros poderes, admitindo implicitamente que não são apenas  escravos da lei mas também das conveniências políticas. E a mesma imprensa (os jornalões e as grandes cadeias televisivas) que nos espantava e desvanecia com a sua virtude democrático-justicialista, fustigando Dilma e santificando qualquer magistrado que arremetesse contra Lula ou o PT, congratula-se agora com o arranjinho politico-judicial , como se fosse um ato santo. E assim tingiu de um pouco mais de sombra a sua credibilidade.

É claro que é discutível o fundo jurídico da questão. E é certo que  nas decisões jurídicas de instâncias brasileiras de nível  jurídico-constitucional nada mais podemos estranhar ,depois desse extraordinário atropelo que se traduziu no envolvimento de um verdadeiro golpe de Estado numa falsa capa jurídico-constitucional que foi a destituição de Dilma. Mas o risco de um alto magistrado se fazer de parvo para assim tomar uma decisão ilegítima é  o de , daí por diante frequentemente,  passar a dizer e a fazer parvoíces; ou a  dar legitimidade a outros para, por sua vez, as dizerem e fazerem  quando lhes convier.

Na verdade, quando os senadores brasileiros, assumindo formal e legalmente o papel de supremos julgadores da  Presidente da República e assumindo desse modo a responsabilidade de revogarem a vontade democrática e legitimamente expressa por  muitas  dezenas de milhões de brasileiros, mostraram que na sua maioria não tinham a nem a capacidade nem densidade jurídica necessárias  para decidir uma multa de trânsito. E assim permitiram que um qualquer meritíssimo magistrado que ninguém elegeu pudesse um dia imaginar argumentos para lhes remover o presidente.

No entanto, o que aqui está em causa de essencial  verdadeiramente é que as altas figuras atuais do estado brasileiro, depois do golpe de Estado contra Dilma, acham bem lá no fundo que qualquer delas pode subitamente ver-se envolvida formalmente num grande escândalo de corrupção. E assim a linha de sucessão presidencial, em vez de ser uma fila de gente séria e de uma estatura  moral acima de qualquer suspeita, é afinal um painel de possíveis futuros réus, na pior das hipótese, um painel de futuros cadastrados. Moralmente, uma implícita vingança de Dilma.

O antigo Presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Cunha, impulsionador decisivo da destituição de Dilma, foi demitido e está preso. O atual Presidente do Senado que colaborou docilmente no golpe, já foi declarado arguido pelo STF. Acumulam-se referências a Temer nas delações premiadas, além de estar em curso um processo de anulação das eleições que o pode varrer do poder. A qualidade jurídica do trabalho dos magistrados brasileiros envolvidos nos processos com decorrências políticas e a sua imparcialidade são cada vez mais histórias da carochinha. Os seus parceiros no Congresso começam a ensaiar tentativas de lhes porem limites e limitações.

Dilma foi apeada , porém  entre   as dezenas e dezenas de nomes de atuais detentores do poder formal mencionados repetidamente em delações premiadas não consta o nome dela.

Pouco a pouco vai ganhando a credibilidade da evidência de que o que  fez o establishment politico-mediático brasileiro tentar expelir como corpos estranhos Lula, Dilma e o PT não foi a sua alegada imundície moral , completamente oposta ao poço de virtudes e de honestidade que sempre foi ( todos o sabemos) a direita brasileira, mas precisamente o contrário. É que mesmo assumindo alguns tiques do establishment brasileiro,  eles cheiravam demasiado a trabalho, cheiravam demasiado a esquerda, acreditavam de mais num futuro justo, estavam  demasiado próximos do povão , para não serem um perigo crescente. O lixo sentiu-o o perigo e a  necessidade de ficar mais tranquilo, menos acompanhado ─ e expeliu-os.


E da querela em torno da liderança do atual Senado brasileiro acabei por chegar ao lixo. O trágico é que talvez não tenha sido preciso andar muito.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O POPULISMO COMO MISÉRIA IDEOLÓGICA.



                            De  GOYA : " O sono da razão cria monstros".

A vitória da Trump, as  eleições na Áustria e a força da srª Le Pen nas sondagens têm dado a dimensão de uma imensa  vozearia a uma alegada oposição à extrema-direita europeia, partilhada pelo complexo mediático dominante, pela intelectualidade do sistema, pelos partidos da direita alegadamente democrática e por uma parte desorientada dos partidos de esquerda.

De facto, esse coro heteróclito julgou  subir um degrau na  sua própria densidade teórica e deixou de chamar à extrema-direita aquilo que ela própria é  realmente : uma herdeira direta dos fascismos e uma via política reacionária e autoritária. Subtil, deu-lhe o rótulo de populista, limpando-a assim de uma penada de todas as  conotações nazi-fascistas que realmente são as suas. Ou seja, branqueamento!

E não se ficou por aí: esquecendo que a sua proeza teórica tinha sido apenas uma limpeza de imagem da extrema-direita, a matilha mediática e a grande luz sombria do pensamento instituído julgaram que tinham agora à sua disposição um rótulo sumário e insultante que podiam usar contra qualquer atrevido que ousasse sair do redil ideológico-político. Na mente líquida de tão apurado pirilampismo teórico desenhou-se um novo e luminosos caminho: também há populistas de esquerda!

No entanto, não foi  feita uma teoria política da alegada divisão em duas metades. Mais simplesmente, os neofascistas passaram a populistas ; as esquerdas que se revoltem passaram também  a fazer parte do novo âmbito conceitual, tornando-se também populistas.

Na luminosidade do seu intelecto, julgam assim neutralizar simbolicamente os recalcitrantes de esquerda, sem se darem ao trabalho de lhes inventariarem as razões e de as discutirem, cometendo assim a  canina mistificação de os meterem no mesmo saco com os neofascistas. Todavia, como estão desacreditados e deixam assim à  mostra a sua tacanhez, talvez nem consigam verdadeiramente desacreditar  os chamados populistas de esquerda. No que não falham  é no apagamento do seu lado mais negro  quanto aos chamados populistas de direita. 

Apanhando embalagem, vão mais longe: e assim  o “brexit” deixa de ser um resultado provocado pelo Partido Conservador  Britânico e passa a ser mais um artefacto populista.  E assim se escondem causas e culpas , deixando-se  na paz do senhor a política europeia desastrada, liderada nos últimos anos pelo Partido Popular Europeu e consentida  pela apagamento político do Partido Socialista Europeu.

Por tudo isto, a tarefa que cabe a quem confia na liberdade e na justiça e pugna pela democracia e pela igualdade não é inventar um espantalho, que realmente  não existe, para fingir que se lhe  bate furiosamente, mas combater o que realmente existe , ou seja,  a direita neofascista que, embora travestida, não perdeu a sua identidade nem esqueceu os seus desígnios.  Realmente, as esquerdas não podem julgar que, se consentirem ou forem cúmplices do agravamento das desigualdades sociais, da miséria e da exclusão, as vítimas de tudo isso continuem a confiar nelas, caminhando para a guilhotina com um conformado sorriso nos lábios, mas garantindo-lhes os votos enquanto vivas.

Por isso, ressalvando-se as justas boa vindas merecidas por futura reflexões, dignas desse nome, sobre o fenómeno histórico e variegado do populismo realmente existente, é urgente que aqueles que se querem de esquerda parem, de uma vez por todas, de continuar a desempenhar o papel de idiotas úteis ao serviço do ascenso da extrema-direita que dizem ( talvez com sinceridade) querer combater.

Quanto à direita confessa ou professa, há que desmascará-la sem grandes ilusões. Nunca devemos esquecer que o primeiro governo de Hitler, que não teve maioria absoluta, só foi possível porque uma parte da direita “democrática” alemã da altura se dispôs a apoiá-lo. É claro que não envolvo neste ceticismo os homens de boa-vontade que à direita pugnam pela democracia, mas não tenho qualquer ilusão quanto à esmagadora parte das suas expressões institucionais.

Numa palavra, a superficialidade e a burrice, em política, podem ser fatais..


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Contra um activismo das passividades!


Soube hoje pelos jornais que a comissão que vai estudar o apoio ao envelhecimento activo não inclui associações de reformados.

Pior do que um erro, trata-se de um reflexo da ideia de um assistencialismo implícito dos "novos" aos "velhos", da inércia de um equívoco que contamina a própria ideia generosa de o combater. Para estimular o dinamismo dos "velhos" começa-se por pressupor a sua passividade.

Não se trata de pôr os "velhos" a jogar às escondidas ou ao berlinde, de os pôr a dançar o vira ou a fazer ginástica, a cantar modas antigas ou a fazer desenhos. Trata-se de estimular a auto-organização dos "velhos" de modo a assumirem um protagonismo próprio. Se eles quiserem jogar ao berlinde ou dançar o tango, tudo bem. Se lhes apetecer , pelo contrário, representar Gil Vicente ou cantar o fado, nada a opor. Se preferirem declamar Camões ou jogar à "sueca", excelente. Se quiserem reunir-se para defenderem os seus direitos, muito bem. Se decidirem juntar-se para fazer passeios, nada a a opor. Se quiserem ajudar-se mutuamente, numa reciprocidade solidária, óptimo.Mas não queiram levá-los pela mão como meninos grandes. 

Não  inventem um senado grave de circunspectos "novos" que se proponham desenhar com minúcia ( quiçá com a melhor das intenções) o que eles cogitam que os "velhos" devem fazer para serem considerados activos e preencherem os objectivos alegadamente "científicos"que entendam fixar-lhes.

Dêem-lhes protagonismo desde já, desde o início. 

De facto, qualquer comissão que, não incluindo os "velhos", se ocupe da congeminação do que eles devem fazer para serem considerados activos será sempre uma fábrica de envelhecimentos passivos.

Por isso, é legítimo gritar-se: abaixo o activismo das passividades!