quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Regresso a BRECHT

 


Um dia,  Brecht escreveu um daqueles diamantes breves que rasgam a noite sem contemplações.

 

Escapei aos tubarões
Abati os tigres
Fui devorado
Pelos percevejos.

 

Marta Temido conquistou  legitimidade para o fazer seu.

quarta-feira, 15 de junho de 2022

DEMOCRACIA ─ E DA BOA!

 


DEMOCRACIA
─ E DA BOA! 

A direita, revelando um apurado bom senso e um profundo sentido de justiça, insiste generosamente na perfumada sinfonia da reforma eleitoral.

Engrossando o coro com energia, levantam-se das suas sepulturas políticas, onde a história displicentemente os colocou, alguns dos seus mais clássicos expoentes. O próprio Oráculo de Boliqueime , ágil e enciclopédico, disse  de sua justiça com a grave sabedoria do costume. Há mesmo um balbuciar vago, tímido e alegadamente científico oriundo da esquerda baixa que dá algum aconchego ao transcendente desígnio da direita.

Círculos uninominais, apagamento da diversidade de representação política pela redução da proporcionalidade ─ enfim, qualquer coisa que possa dispensar a direita e os seus acólitos de conquistarem lugares electivos sem precisarem de ganhar mais votos. Dar a palavra ao povo, sim senhor. Mas nada de exageros. Não lhe deixar nunca espaço para poder fintar a direita em momentos cruciais. Enfim, democracia de fino recorte.

Mas estando volátil o xadrez político, o desígnio guloso e esperto da direita para a reforma eleitoral, pode tornar-se num verdadeiro “hara-kiri”. Por isso, certo, certo e do seu interesse “nacional” é obedecer a dois grandes princípios estruturantes.

1º- o total dos votos no PS será  corrigido, amputando-lhe 33%;

2º -qualquer maioria parlamentar de esquerda (PS sozinho ou acompanhado) terá que ser previamente autorizada pelo actual Presidente da República, após parecer favorável do Oráculo acima referido.

Quando tal for alcançado, as sereias da democracia sem peias dar-nos-ão a melodia dos seus cânticos…

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Pesadão e Silva falou.

 

Pesadão e Silva falou.

 


Pesadão e Silva falou.

Como irmão mais velho reduziu Rio a um esquálido ribeiro que censurou sem fraternidade pela irremediável secura.

Decretou teocraticamente a caducidade  da repartição entre a esquerda e a direita, mas inventou-se firmemente como o mais esotérico social democrata.

Glosou a vulgata crescimentista neoliberal com a transparência do simplismo economicista. Pavoneou-se  com a sua alegada vocação reformista, ruminando os mais sagrados tiques ideológicos  da direita mais classicamente inequívoca.

Massacrou ferozmente o PS, fornecendo o roteiro da sua oposição. Esmagou olimpicamente António Costa com o peso imenso da sua grandeza. O povo de esquerda exultou:” Se Pesadão e Silva nos ataca é sinal de que estamos no bom caminho-”

Antóno Costa limitou-se a fintá-lo. E a sorrir…

Num rasgo de última instância, o Prof. Silva ignorou corajosamente os trinca-fortes da saudade, varrendo-os para debaixo do tapete.

Só então a corte respirou de alívio e descansou:” afinal existimos! Uf!”

sábado, 21 de maio de 2022

SERENATA

 



SERENATA


Que lágrima triste subiu no vento,

deixando a saudade a perder-se nele?

Que garra de angústia se rasgou no peito

perdida na dor dos versos cansados,

esquecida da audácia das grandes montanhas?

 

Os lábios longínquos das guitarras tristes

não dizem os sonhos das ruas mais largas,

não trazem os cheiro das histórias sofridas,

não esquecem o medo dos anos de abismo.

 

Podiam abrir as ruas mais lentas,

subi-las num rasgo,  emoção e prazer,

 ser campos abertos de sonho e amor,

esculpida em memória a dor do futuro.

 

Mas descem os dedos das harpas mais tristes

perdendo os silêncios das velhas saudades,

e escavam  a angústia das harpas mais tristes

fugindo da audácia que colhe o amor.

 

Respira-se a sombra dos tempos que faltam,

arranca-se o gume crispado nos versos

e sobe-se o voo de todas as águias,

mais longe, mais longe, mais longe.

 

É esta a serenata dos peitos abertos,

das cordas que rasgam o som das guitarras

e olhando através de todos os mares,

Coimbra cansada de não se cansar.

                        [Rui Namorado]

segunda-feira, 16 de maio de 2022

PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 


Em Fevereiro de 1996, quando eu era deputado na AR pelo PS, publiquei um livro de poemas , “Sete Caminhos”, através da editora Fora do Texto [Centelha].

O livro estava organizado em sete partes, uma das quais a penúltima se intitulava “Pré-história”. Era composta por quatro poemas, um dos quais “Pré-história de guerra” evocava o risco de uma guerra nuclear- O título sugeria que estávamos perante um risco que perdera actualidade.

Hoje, passados todos estes anos, vemos que assim não é. Por essa razão resolvi recordá-lo aqui.

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PRÉ-HISTÓRIA DE GUERRA

 

1.

a pomba foi morta pelo general

 

calculou  o sítio exacto

o lugar único    onde a morte esperava

 

 no relatório omitiu a cor branca da vítima

e aquela leve pluma de ternura

visível no seu olhar    depois de morta

 

parecia mais pena    do que saudade ou terror

mais um enorme peso de braços caídos

do que o gelo transido do pânico

 

o general descreveu com precisão

a trajectória magnífica do tiro

o seu rigor    a rapidez fatal

 

com palavras antigas   sincopadas

ao ritmo dos tambores de mil batalhas

 

2.

quando pouco tempo depois lhe disseram

que o neto   o filho   a sua velha mãe

a mulher cujo sabor guardava dia a dia

a casa com jardim e duas árvores

a rua suave     a cidade onde nascera

eram agora uma nuvem espessa de cinza

onde a custo emergia o esqueleto de uma árvore sozinha

 

o general suspendeu o relatório

e teve um suor frio vindo da raiz da alma

 

mas quando lhe vieram dizer pouco depois

que era inútil mandar o relatório

porque o lugar que o ia receber não existia

 

o general chorou como um menino perdido

 

e  foi então que o sol se perdeu numa nuvem de poeira

e um doce sabor a morte   azul e profundo

entrou pelo general até aos ossos

 

3.

a mão do general ficou ligeiramente tombada

sobre a folha do relatório vitorioso

 

ocultou um pouco a trajectória da bala

a palavra pomba parecia agora levemente manchada

 

e junto à porta o olhar fixo do jovem ajudante

era um vidro de espanto gravado no general

 

tudo à volta estava finalmente tranquilo

a paz fulminantemente conquistada

 

sábado, 14 de maio de 2022

PARA QUEM QUISER APRENDER...



 Para quem quiser aprender...

Numa sondagem [Cluster 17] hoje difundida, quanto às intenções de voto nas próximas eleições legislativas em França, a união das esquerdas (insubmissos, verdes, socialistas e comunistas) ocupa destacada o primeiro lugar com 31%-
Seguem-se os apoiantes de Macron com 27% e os apoiantes da Srª Le Pen com 19%, ficando a direita clássica abaixo dos 10%.
Na segunda volta a estimativa aponta para uma nova vitória dos macronianos com maioria absoluta. Mesmo assim aos resultados estimados para a primeira volta traduzem uma recuperação espetacular do protagonismo da esquerda. Se concorrer unida, claro.. Se permanecer fiel às suas pulsões divisionistas , pelo contrário, caminha para um declínio provável.
Muitos notabilíssimos ex-dirigentes do PSF e da própria França torcem fortemente o nariz à participação dos socialistas na dinâmica unitário. Absolvem-se generosamente dos desastres políticos que ajudaram a provocar e parecem irresistivelmente atraídos pela vertigem do 1,5% do cometimento Anne Hidalgo.nas presidenciais.
O povo de esquerda deu a sua resposta, está a dar a sua resposta. Quem aspira representá-lo deve ao menos cometer a modesta proeza de o ouvir.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

DOS SOCIALISTAS EM FRANÇA.

 

 


DOS  SOCIALISTAS  EM  FRANÇA.

Uma resistência à entrada do Partido Socialista Francês na grande coligação de esquerda liderada pela França Insubmissa ecoa lugubremente na comunicação social francesa.

 É especialmente  protagonizada por alguns dos seus notáveis de má memória. De facto. alguns dos  coveiros mais ostensivos do socialismo francês parecem não querer admitir qualquer tentativa séria para o desenterrar. Uns, como Manuel Valls, assumem e aprofundam sem rebuço uma deriva de traição que iniciaram há anos  juntando-se à estéril nebulosa “macroniana”. Outros erguem-se penosamente da sepultura política em que caíram e procuram evitar com desespero que o PSF retome um protagonismo político relevante. Não se percebe se resistem a sair do buraco em que Anne Hidalgo os meteu nas recentes eleições presidenciais ou se sonham  nunca lá terem caído.

Quase miraculosamente o que resta do Partido, como um quadrado de raiva, parece querer resistir. No horizonte, cresce a probabilidade da sua adesão a uma União Popular Social e Ecológica que congregue toda a esquerda francesa.

Registe-se, entretanto,  a posição assumida no twitter  pelo candidato do PS às eleições de 2017, Benoit Hamon:

“Afastei-me da vida política nacional  mas , a título pessoal, neste dia de aniversário da vitória da Frente Popular,  afirmo que a aliança em torno da União popular é uma excelente notícia”.

Haverá esperança ?



segunda-feira, 25 de abril de 2022

Homenagem ao 25 de Abril

 


Capitães de Abril

               [1974/2022]

 

Capitães de um futuro incendiado

esculpiram num só dia o coração

das largas avenidas que hão de vir

 

O povo semeou-se pelas ruas

gritando em vermelho um cravo imenso

com asas que voaram pensamento

 

Em todo o horizonte ficou escrito

um sonho que perdeu o seu limite

  pétala de luz   deslumbramento

 

Capitães inventados em Abril

o povo atravessou-os como um rio

com a paixão mais justa e vertical

 

        [Rui Namorado – 25 de Abril de 2022]

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Ganhámos a taça!

 Em 2012, no dia em que a Académica ganhou a Taça pela segunda vez, escrevi o poema que abaixo reproduzo.



 Difundi-o então no meu blog  O Grande Zoo. No final de 2021, publiquei na Editora Lápis de Memórias, o meu livro de poemas mais recente. "A cidade do Tempo" é uma ressonância poética de Coimbra. Nele incluí o poema que hoje transcrevo.

Hoje, que a Académica atravessa uma grande tempestade de infortúnio é indispensável uma verdadeira respiração do futuro. Com verdadeira grandeza; com imaginação e ousadia.

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Ganhámos a taça!

          -em 2012

O jogo começou há longos anos,

quando ganhámos a primeira vez.

Em maio de mil novecentos e sessenta e nove,

julgou-se que tínhamos perdido.

Cinco anos depois viu-se que não,

porque somos de um outro campeonato.

Foi talvez, por isso, que ganhámos

neste ano já de um outro século,

como se tudo tivesse começado.

 

E, no entanto, o jogo continua.

Há sempre um novo jogo a começar:

entram em campo todas as memórias.

Mas também a saudade e a alegria.

As capas são os ventos que não param.

Os ventos que são anos e são  vida.

Há golos para todas as  balizas.

O Bentes virá sempre pela esquerda.

No último minuto, o Artur Jorge

Há de marcar o golo de uma vida.

Ia ser golo já sem remissão,

mas o Capela  voou mais que o possível

e a bola não entrou.

E hoje, quando a festa começou,

já o leão rugia rudemente;  

a bola insidiosa veio da esquerda,

procurou a cabeça do Marinho

e o golpe foi desferido e foi mortal. .

 

Vamos entrar em campo novamente,

sabendo que a Briosa a entrar em campo,

é sempre muito mais do que ali está.

Cada golo é sempre  mais que um golo:

milhares em todo o mundo vão marcá-lo.

Cada vitória é mais que uma vitória:

milhares em todo o mundo vão erguer-se,

num gesto de alegria.

E quando os onze perdem nunca perdem,

porque a Académica ganha moralmente.

E se, apesar de tudo, ainda perderem,

os onze sempre sabem que jamais 

irão perder sozinhos.

O sonho estará sempre ao lado deles

e há sempre um outro jogo para ganhar.

 

Ganhámos esta taça.

Na praça da saudade estão connosco

os que partiram antes de a ganhar.

Vai haver nas ruas de Coimbra

um fraterno Mondego de pessoas,

um clamor de alegrias.

E se nas largas ruas da vitória

se abrir alguma porta de silêncio,

não estranhem,

são aqueles que partiram,

fazendo recordar a sua ausência.

 

O que hoje entrou em campo foi a lenda

e o mito de uma eterna juventude.

Briosa é nome de uma caravela,

mas o vento que a leva só é vento

de quem saiba sonhar sem desistir.

 

Por isso, se percebe com clareza

que nós somos de um outro campeonato.

 

domingo, 17 de abril de 2022

 


 

LOUVOR AO 17 DE ABRIL

[1969/2022]

 

A pérola do tempo descansou

na guitarra  longínq1ua da saudade,

deixando que um só dia incendiasse

o sagrado sabor da liberdade.

 

Nas mãos nuas dos versos desarmados

que colhem a chegada da alegria,

foi gravada a lenda deste dia

respirou-se no vento a tempestade.

 

Um gume de revolta atravessou

o perfume da nossa primavera

e a verdade ficou no meio de nós,

colhendo-se inteira até ao fim.

 

Capas negras dos sonhos acordados

foram sangue no próprio coração,

dizendo-nos por dentro de quem somos

com as palavras livres e despertas.

 

Caminhámos por todos os lugares,

navegando sempre além do fim,

fomos cidade,  amor  e sedução,

voz súbita de todos os poetas.

 

Quando os corvos do medo nos cercaram

não colhemos a flor do desespero,

erguemo-nos na nossa condição

e lutámos

             [ 17 de Abril de 2022]                                                                                                                                                                   

sexta-feira, 8 de abril de 2022

domingo, 20 de março de 2022

60 anos da Crise Académica de 1962

60 anos da Crise Académica de 1962

 

A Crise Académica de 1962 vai ser lembrada no decorrer da  próxima semana. Saliento dois eventos.

1.

O primeiro, Conversa sobre  a Crise Académica de 1962 – 60 anos  terá lugar no dia 22 de Março (terça-feira) | 18h00 | zoom


 Participarão Isabel do Carmo (médica), Rui Namorado (professor universitário), Alexandre Alves Costa (arquiteto | professor universitário),com moderação de Henrique Barreto Nunes (bibliotecário). É organizado pela Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva em em colaboração com a  CAMinho – [Bibliotecas e arquivos associados à Universidade do Minho].


2. O segundo  será o Colóquio Primaveras Estudantis da Crise de 1962 ao 25 de Abril  decorrerá no próximo dia 24 de março.

Este Colóquio conta com as intervenções do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, do Reitor da Universidade de Lisboa, Luís Ferreira e do Comissário Executivo das comemorações 50 Anos 25 de Abril, Pedro Adão e Silva.

O papel do movimento associativo estudantil, traduzido nas várias crises académicas que enfrentaram a ditadura, é, por isso, um dos temas em destaque nas celebrações e será tema de reflexão do colóquio, no qual alguns dos principais protagonistas das crises académicas vão desfiar memórias, na primeira pessoa.

O programa conta ainda com a estreia do documentário “Sampaio, Caetano e Salazar: o confronto de 1962”, realizado pelo jornalista Jacinto Godinho e produzido pela RTP.

A par do Colóquio, a Exposição “Primaveras Estudantis: da Crise de 1962 ao 25 de Abril” no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, também pretende contribuir para a compreensão de um dos momentos cruciais para o início do fim da ditadura. term