quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal



Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal

1. Para se identificar um projeto, no quadro de uma disputa política, é natural que se opte por uma frase sugestiva que mostre o que nele se quer destacar. A escolha não é fácil, tendo muito a ver com a arte de induzir adesão e com as técnicas de comunicar. Num primeiro plano, está em jogo o que é ostensivo. Mas é por debaixo dessa superfície que se joga muitas vezes o essencial do seu impacto, o seu significado estratégico, o seu potencial estruturador e as suas virtualidades de irradiação. E é também nesse plano mais profundo que o slogan escolhido revela muito do verdadeiro sentido do projeto em causa.

2. Neste campo, a escolha da lista liderada por Manuel Machado, que se candidata pelo Partido Socialista ao Município de Coimbra, é particularmente relevante, tendo um elevado potencial de irradiação positiva . Desde logo, Valorizar Coimbra é um desígnio já assumido na eleição anterior. Mostra um caminho desde então percorrido no decurso do quadriénio que agora chega ao fim. É um desígnio que assenta na ideia de que Coimbra é uma realidade que nos precede e se vai perpetuar muito para além de nós.
 Não cabe neste caminho uma auto-imagem providencialista, de quem afixe a ambição de salvar Coimbra de uma imaginária decadência e tenha a pesporrência de se julgar habilitado a tão hercúlea tarefa. Mas ele implica a noção clara de que a vida em sociedade nesta cidade é um caminho que nos pode levar a patamares de qualidade de vida e de prestígio sempre mais ambiciosos.
Valorizar Coimbra é um desígnio compatível com uma visão humanista da cidade, que transcende a trivial numerologia dos crescimentistas sem horizontes. Centra-se realmente nos cidadãos que vivem no concelho, nos seus problemas e nas suas aspirações. Projeta-se no país e procura abrir-se ao mundo numa interação que procura dar e receber, para desse modo participar na contemporaneidade e fazer com que ela dignifique e qualifique os cidadãos que aqui vivem. Não cabe neste desígnio a ambição vadia por pequenos inchaços crescimentistas que o tempo destruiria deixando os seus destroços como feridas na memória.
Valorizar Coimbra é um desígnio aberto com vocação para permitir o protagonismo diferenciado de cada freguesia na partilha da tarefa comum.
E no seu código genético tem inscrita a ideia de que Valorizar Coimbra é o contributo dos cidadãos de Coimbra para a valorização do país.
Este é, aliás, um aspeto essencial da estratégia própria do desígnio em causa. O desenvolvimento de Coimbra é, não só um aspeto muito relevante dos interesses de quem vive no concelho, mas é também um aspeto relevante do interesse nacional.



3.Há muitas décadas que o país se tem vindo a desequilibrar, através de um congestionamento da orla marítima e de uma desertificação do interior. Os efeitos negativos desse congestionamento e dessa desertificação são agravados pelo facto de isso se conjugar com dois abcessos metropolitanos. Um maior, em torno de Lisboa; outro, em redor do Porto. Se a aspiração de Coimbra fosse a de se tornar num terceiro abcesso com a ambição de concorrer com os já instituídos, estar-se-ia apenas a assumir como um foco bairrista de agravamento dos desequilíbrios nacionais. Seria pois uma aspiração desqualificante à luz do verdadeiro interesse nacional, para além de ser uma via objetivamente impraticável, tendo em conta o mapa demográfico e socioeconómico do país.
O absurdo da estratégia do inchaço metropolitano de Coimbra está bem refletido no relatório Portugal no Centro (difundido no fim de 2016) da responsabilidade da Fundação Gulbenkian. Fica assim mais aberto o caminho para uma reversão do processo de desequilíbrio acima mencionado. O Centro de Portugal é, na verdade, o território decisivo onde se joga a continuação do desequilíbrio existente ou a sua reversão, a qual é, por sua vez, um fator nuclear do desenvolvimento efetivo e humano do país.
Sem pretender aprofundar aqui o tema, há que lembrar que nesta região existe um conjunto de cidades médias (à escala nacional) que polarizam outros aglomerados populacionais e socioeconómicos. É um conjunto que já agora se destaca em termos relativos no plano nacional. De facto, o contributo da Região Centro para o desenvolvimento nacional é significativo. Um estudo realizado pela Comissão Europeia, divulgado em junho de 2017, que analisou o Índice de Competitividade Regional da União Europeia, mostrou que a região Centro é a segunda mais competitiva do país, apenas superada pela Área Metropolitana de Lisboa. No panorama europeu, a região Centro ocupa o 191.º lugar, enquanto que Lisboa fica no 139.º
É um território diversificado, relativamente vasto, que está entre as duas regiões metropolitanas e vai desde o mar até Espanha. Incorpora uma rede de centros urbanos, na qual, como se pode ver no relatório,  Portugal no Centro, Coimbra ocupa uma posição importante, com virtualidades estratégicas que a podem potenciar. O seu contributo para a dinâmica do conjunto é decisivo. Fica assim claro que o desenvolvimento de Coimbra se robustece na medida em que se afirme como fator determinante do desenvolvimento da Região Centro e que não é sequer pensável que este possa ocorrer sem um envolvimento forte de Coimbra.
E, insista-se, sem um desenvolvimento da Região Centro suficientemente forte para induzir um reequilíbrio do país, Portugal está condenado a transformar-se num território despovoado que separa Espanha de uma faixa costeira congestionada, onde os portugueses se aglomeram, principalmente concentrados em dois abcessos metropolitanos.

4. Fica claro que Valorizar Coimbra é um aspeto determinante da valorização da Região Centro e que a valorização desta Região é um dispositivo estratégico sem o qual o horizonte de um desenvolvimento equilibrado e humanista do nosso país se fecha drasticamente.
Não depende dos responsáveis autárquicos de Coimbra que todos estes percursos se façam. Mas o caminho que se percorreu nos últimos quatro anos e o que será percorrido, se os eleitores de Coimbra quiserem confiar ao PS o desígnio de Valorizar Coimbra, harmonizam-se naturalmente com o que deve ser percorrido nos planos regional e nacional.
Esta comunicabilidade, entre o plano municipal e os outros dois, tende a impregnar cada vez mais o modo como se for valorizando Coimbra no plano autárquico. Mas tende também a converter a valorização de Coimbra num desígnio regional e nacional, uma vez que ela é um fator determinante da valorização de Portugal.

5. A esta luz, compreende-se bem como é importante que a Câmara de Coimbra coopere leal e intimamente com o Governo. Principalmente, quando uma e outro tiverem inscrito nos seus programas um mesmo horizonte, como acontece agora. Um horizonte, bem distanciado do neoliberalismo troikista, que incorpore a ideia de que o protagonismo municipal é um precioso recurso da democracia e do desenvolvimento, rumo a mais justiça e mais liberdade.
Em Coimbra, nestas eleições autárquicas, o modo de a direita se bater contra a atual solução governativa nacional liderada pelo PS é atacar a lista do PS liderada por Manuel Machado, tentando impedi-la de ganhar. Fá-lo a várias vozes. O seu improvável êxito seria a vitória de Passos Coelho, da Assunção Cristas, da troika, que assim ficariam mais acirrados na sua determinação de nos fazerem voltar ao pesadelo austeritário. Mas seria também amputar Coimbra da possibilidade de prosseguir um caminho que a robustecerá e contribuirá para uma Região Centro mais desenvolvida e para um país melhor. Seria, portanto, um prejuízo para Coimbra, para a Região Centro e para Portugal.

sábado, 16 de setembro de 2017

O PESSIMBRISMO - doença infantil do eleitoralismo



O pessimbrismo - doença infantil do eleitoralismo

Nas instâncias de terapêutica psicossocial sopra uma brisa de preocupação. Em Coimbra, na pré-campanha para as eleições autárquicas fez uma insidiosa aparição uma nova maleita: o pessimbrismo.

Alguns conimbricenses, envolvidos numa sofreguidão de hostilidade à  atual maioria  do PS na vereação municipal, deixaram-se envolver num denso véu de crispação. Deixaram-se possuir por uma raiva profunda tingida de ansiedade, que lhes chegou aos ossos, acabando por lhes sorver a alma e turvar o entendimento.

Foi assim que passaram a olhar para Coimbra sem a verem. Realmente, por mais que olhassem, apenas se viam a si próprios. Já não conseguiam ver os seus pontos luminosos e os seus  pontos obscuros, a luz das suas virtudes e a obscuridade dos seus defeitos. Já não conseguiam distinguir no passado o que iluminava o futuro e o que lembrava o sacrifício e o sofrimento de tantos. Tudo lhes projetava no espírito um cinzento murcho, uma paisagem carcomida e sem esperança, que diziam nascida do nada nos últimos quatro anos. 

Essa nuvem insalubre que os envolveu tolhe-lhes o entendimento. Não tendo uma visão objetiva do que em Coimbra está mal e incompleto, do que está bem e pode ser melhorado, bem como do ritmo que o progresso pode ter, podem na melhor das hipótese dizer coisas, mas ficam longe de saber como as podem realizar. E ao intuírem isso, o seu pessimbrismo agrava-se. Tudo parece afligi-los.

Olham para a estátua de Joaquim António de Aguiar na Portagem e dizem: “Que tem isto a ver com a estátua da liberdade?”.
Contemplam o dorso de prata do Mondego e pensam:” Velho basófias, não te comparas ao Sena, nem ao Tamisa e muito menos ao Tejo”.
Deixam incrustar-se-lhes no olhar a velha torre da Universidade e comparam: “Não chega aos calcanhares da Torre Eiffel”?
Leem no jornal uma notícia auspiciosa sobre a Universidade de Coimbra e clamam: “Fraquinha, fraquinha, quando poderá chegar ao nível de Oxford ou de Harvard”?
Passam pelo Museu Machado de Castro e resmungam : “ Ou isto ou o Museu do Louvre”.
Implacáveis perguntam : “Como podemos levar a sério uma cidade que tem menos habitantes do que um bairro de São Paulo”?

Uma angústia profunda se apossa assim dos seus agitados espíritos pelo facto de Coimbra não ser em simultâneo Nova Iorque, Paris, Londres, Oxford, Lisboa, São Paulo e muitas outras cidades. Ser um quase nada perante essa imensa metrópole imaginária.
Todavia, se o pessimbrismo os não tivesse diminuído, teriam podido lembrar-se que, do outro lado dessa mesma angústia, pode estar  uma verdade simples e trivial: por mais que todas essas cidades se juntem ou se conjuguem não conseguirão ser Coimbra. Esse pequeno extrato de senso comum não é mais do que isso, mas a falta dele é um dos aspetos de pessimbrismo.
Não é por isso estranho que tantos estudantes de outros países decidam vir estudar para Coimbra, que tantos turistas se deem ao cuidado de nos visitar. Por ser diferente de outras cidades e não por copiá-las, com maior ou menor fidelidade. Por querer estar em pleno no mundo com autenticidade, nunca por se deixar diluir nele como coisa urbana incaraterística e a-histórica.

Mas os pessimbristas têm uma dificuldade acrescida. Ao acentuarem até ao paroxismo uma imaginação negativa de Coimbra, tornam mais ostensiva a sua incapacidade para sequer imaginarem como sair dessa ficção negativa, tornando ainda mais difícil dar o mínimo de verosimilhança às suas capacidades para tirarem Coimbra do buraco onde imaginam que caiu. Quanto mais tingem de negro o seu diagnóstico, mais põem a nu a sua objetiva incapacidade para reverterem os males que dizem existir .
 A ficção que segregam para apoucar a gestão camarária atual acaba por apoucar ainda mais as suas virtualidades como candidatos. O seu diagnóstico como uma nebulosa fantasiosa e deprimente vale por si próprio. Os riscos inerentes à sua chegada ao poder tornam-se clamorosos.

No entanto, com o passar dos dias, nas instâncias de terapêutica psicossocial  começa a ganhar corpo uma convicção: o caminho mais adequado para se curarem consistentemente os que sofrem de pessimbrismo é uma cura prolongada de oposição

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Em Coimbra, navegações políticas


 
 


Em Coimbra, navegações políticas


1.Coimbra não é um absoluto a-histórico sobre o qual possam recair utilmente todas as imaginações. Não é um espaço mágico imune aos problemas e aos sofrimentos do mundo e do país. Mas é suscetível de ser valorizada pelas imaginações que em cada circunstância possa acolher como benefícios. Pode ser valorizada por decisões municipais, nacionais, europeias ou internacionais. Há decisões que podem ser tomadas utilmente em cada um destes planos e há decisões, cuja viabilidade depende da conjugação de vontades oriundas de dois ou mais de entre eles. Mas não há decisões que caibam a uma nuvem de distintas entidades ou que possam ser tomadas indiferentemente por várias delas.
Numa campanha eleitoral autárquica é, por isso, importante que a avaliação de cada mandato e das propostas apresentadas seja encarada tendo em conta as reais atribuições das autarquias ou a possibilidade da sua cooperação com outras entidades, quando legalmente admitida. Aliás, os municípios, estando naturalmente subordinados à lei, serão sancionados se agirem fora dela.
Um outro plano é o que envolve a pressão que as autoridades municipais possam fazer sobre as instâncias nacionais, europeias ou internacionais para, no quadro das respetivas competências, tomarem decisões que beneficiem Coimbra. O resultado dessa pressão persuasiva depende muito menos de quem a faz do que dos seus destinatários
Misturar todos  os planos mencionado, responsabilizando o poder autárquico pelo que se passa em todos eles é, não só um fator de confusão, mas também uma imputação injusta.
Pode ainda ser legalmente admissível uma cooperação institucional, envolvendo não só um município como outras entidades, no quadro de uma parceria contratualizada. Neste caso, cada autarquia tem sobre a matéria em causa uma responsabilidade partilhada com as entidades com quem contratou. E se cada autarquia é naturalmente responsável pelos resultados do exercício dos seus poderes, já não o pode ser quanto aos resultados inscritos em esferas de competência alheias, mesmo que eles se reflitam no território municipal.

2. Lembrar tudo isto ajuda-nos a avaliar e compreender melhor o que valem e significam as críticas e as promessas feitas no decurso de uma campanha eleitoral autárquica. Nesta medida, vale a pena lembrar que uma grande parte das críticas feitas à atual liderança do PS na Câmara de Coimbra, protagonizada por Manuel Machado, enferma de uma nítida confusão quanto ao âmbito das competências municipais.
Nas hipóteses mais benignas, é alegada insuficiência do protagonismo municipal na pressão sobre outras instâncias, como se a decisão destas últimas fosse um resultado automático da simples pressão sobre elas exercida pelo município de Coimbra. Na pior hipótese, é acusada a autarquia por omissões ou ações que apenas podem ser imputadas a outras entidades.
Todo esse ruído produzido pelas oposições à atual maioria camarária é, na maior parte dos casos, pouco mais do que propaganda. Propaganda eventualmente destinada a disfarçar a falta de propostas verdadeiramente integráveis numa visão futurante de Coimbra. Uma visão que dê centralidade ao município de Coimbra como parcela relevante do desenvolvimento nacional e que valorize realmente a qualidade de vida das pessoas concretas que aqui vivem.
3. Neste contexto, vale a pena comentar um dos aspetos que caracterizam a oposição de direita protagonizada, quer por “Mais Coimbra” (os partidos da troika), quer por “Somos Coimbra” (a direita dissimulada). Refiro-me à obsessão quantitavista e numerológica, envolvida na imputação à atual liderança municipal das várias desgraças que essa visão segrega.
São desgraças centradas no ranking demográfico nacional, no qual Coimbra estaria mal situada. Desgraças imaginárias que se invocam como se fosse esse o critério absoluto de aferição quanto à qualidade de vida dos habitantes de Coimbra. Ora, nem a qualidade de vida de quem vive em Coimbra depende do número de habitantes que aqui residam, nem os vários fatores de atratividade de que beneficie dependem de um hipotético “ranking” demográfico.
Haverá alguém que decida visitar ou ir viver para uma cidade, neste ou num outro país, por causa do lugar que ela ocupe no “ranking” populacional do respetivo país? A qualidade de vida dos cidadãos que vivem num município depende, do modo como se organizem entre si e dos recursos de que disponham, não do seu número. O aumento do número de habitantes não é em si um fator objetivamente qualificante, mas se aumentar exponencialmente pode tornar-se num elemento negativo. Basta olharmos para a qualidade de vida nas grandes metrópoles mundiais para vermos isso.
É certo que a densidade demográfica à escala de um país ou de uma cidade não é uma problemática inócua, mas não é única nem decisiva. E, seguramente, que não depende nem exclusiva nem principalmente de políticas autárquicas.
Seja como for, esta questão deve ser olhada à luz da dimensão e da densidade e evolução demográficas de Portugal, à luz da identidade humana e simbólica de Coimbra e à luz de uma imaginação de futuro que se não conforme com a incompletude da sociedade presente. Se assim fizermos, insisto, facilmente perceberemos que a valorização de Coimbra não tem como questão central a sua evolução demográfica, especialmente se tivermos apenas em conta os seus aspetos quantitativos globais.
Do mesmo modo, não faz qualquer sentido seguir o economês neoliberal que aponta como grande desígnio municipal uma tosca miniatura das medidas inscritas no modelo que afundou o país. Aliás, é verdadeiramente estranha a preocupação afixada quanto aos mais desfavorecidos, quanto aos injustiçados e excluídos, pelos que nesta campanha ostentam as cores dos partidos “troikistas”.
Por um lado, defendem um modelo de sociedade que gera excluídos, por outro, prometem preocupar-se muito com eles. Defendem um modelo de sociedade e uma linha política que gera desemprego e degrada a condição social dos trabalhadores, mas afixam como grande desígnio a luta contra o desemprego. Um desígnio, aliás, quanto ao qual todos sabemos que o papel direto das autarquias é claramente menor.
4. Genericamente, para além desta confusão estrutural que inquina grande parte dos programas autárquicos das oposições, há algumas observações que devem ser feitas. Desde logo, eles ignoram quase por completo o funcionamento quotidiano da autarquia, as questões que a envolvem no plano administrativo, relacional e financeiro. E assim mostram que, quanto ao funcionamento quotidiano das estruturas municipais, ou não encontram razões para crítica, ou não conhecem suficientenmente a realidade para poderem opinar sobre ela, ou nem se apercebem da importância desse aspeto da vida do município.
Muitas vezes, fica claro no que dizem desconhecerem o detalhe da vida da autarquia, uma vez que propõem como novidades iniciativas que já estão em marcha, sugerem caminhos que já estão a ser percorridos ou apontam para a necessidade de serem lançadas parcerias que afinal já estão instituídas. Quando seria demasiado chocante esse tipo de equívoco, ficam-se modestamente pelo reparo quantitativo, dizendo que se devia fazer mais. Dizem, mas não dizem quanto, como, nem dão sinais de que seriam capazes de pôr em prática a aceleração que propõem.
Mas tal como atrás alvitrei, um dos aspetos mais mistificatórios das campanhas das oposições está no facto de fazerem propostas e fixar objetivos que transcendem claramente a esfera de competências de um município. Quase se podia aplicar, ao essencial das propostas feitas pelas oposições ao PS nesta campanha autárquica, uma observação crítica que fez história a outro propósito: as coisas novas não são boas e as coisas boas não são novas.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.



O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.

A trovoada mediático-política desencadeada, pelo facto de o Ministro da Defesa ter admitido publicamente que o desaparecimento de armas ocorrido em Tancos, podia não ter tido como causa um assalto, é um pouco vesga , na medida que olha tudo para um lado e nada para o outro.
O próprio Presidente da República se viu obrigado a uns murmúrios ambíguos, como se quisesse evitar que o acusassem de ter ficado calado.
E, no entanto, quando eclodiu a bronca , em separado os "capitães de Abril" Vasco Lourenço e Sousa e Castro disseram publicamente algo de semelhante, mas muito mais clara e argumentadamente. Ficaram sem resposta pública. O silêncio mediático que rodeou essa posição apenas foi rompido num ou dois casos isolados. Os políticos trovejantes que flagelavam o Governo quanto a isso disseram nada.


Que se ache necessário o apuramento da verdade é legítimo e não há quanto a isso divergências. Mas que a verdade apenas seja admitida se confirmar o acerto da sofreguidão antigovernamental da direita e seus acólitos, é que parece ilegítimo.
Não havendo ainda conclusões finais críveis e conhecidas, não se compreende porque se considera algo de politicamente negativo mencionar um tipo de resultado que nada até agora permite excluir por completo.


É aliás estranho que esta hipótese tenha sido ignorada; e seja até considerada como proibida. É que se o que tivesse acontecido fosse uma montagem politico-mediática que ficcionasse um assalto inexistente para pôr em cheque o Governo, nós estaríamos perante uma conspiração política muitíssimo mais grave do que um assalto a um paiol de munições. 


Por que razão os intemeratos cultores da verdade se desinteressam subitamente dela, quando se levanta a hipótese de ter ocorrido uma grave conspiração política antidemocrática?


Por isso, vos confesso que este alarido contra o Ministro da Defesa me deixou desconfiado. 


Alguém quer evitar que se alvitre a hipótese de um falso roubo como parte de uma conspiração política. Investigue-se essa hipótese. Se a hipótese se não confirmar e se chegar á conclusão de que houve realmente um assalto, muito bem. A versão inicial aparente estava certa. Mas perante tanto ruído quem realmente for um servo fiel da verdade , de toda a verdade, só pode congratular-se com a exploração dessa hipótese. Ou será que já o foi e nós ainda não sabemos? Insisto: muito mais grave do que um assalto a um paiol de armas , é uma conspiração anti-democrática.

domingo, 10 de setembro de 2017

Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais



Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais

1.As eleições autárquicas são competições políticas, cuja principal incidência são os municípios e as freguesias, mas que não deixam de ter reflexos importantes na política nacional. Reflexos especialmente marcantes a partir do que ocorra quanto às Câmaras Municipais. Não fazendo, naturalmente, qualquer sentido o menosprezo pela dimensão local dessas pugnas, seria pura miopia política ignorar a repercussão na política nacional dos seus  resultados. Aliás, um simples exercício de memória nos fará lembrar casos concretos em que esses resultados suscitaram quedas de governos centrais, para além de terem tido repercussões menos ostensivas em muitas outras ocasiões.

Quanto a este tipo de eleições, não está instituído um critério, objetivo e consensual, para distinguir uma vitória de uma derrota. E é certo que considerar um resultado bom ou mau depende em larga medida da comparação com resultados anteriores de cada força política em cada local. Pode valorizar-se o total do número de votos obtidos, o total de Presidências de Câmara ou de Juntas de Freguesia conquistadas, os resultados das principais cidades ou das capitais de distrito ou dos municípios mais populosos. A experiência mostra que neste caso tem especial significado a imagem política global projetada pelos resultados das eleições, não sendo predetermináveis os tipos de combinações de resultados que lhe darão origem. Mas há municípios quanto aos quais é inequívoco que os resultados neles ocorridos contribuem especialmente para projetarem uma imagem de derrota, de empate ou de vitória.

Coimbra, sem margem para dúvidas, é um desses casos. E, na atual conjuntura, o principal efeito político nacional destas eleições será o reforço ou o enfraquecimento do Partido Socialista; e, indiretamente, o reforço ou o enfraquecimento do atual governo e, consequentemente, do acordo político que lhe dá suporte. Simetricamente, ocorrerá um reforço ou um enfraquecimento dos partidos da troika (PSD e CDS).

Compreende-se, por isso, que este pano de fundo tenha que estar bem presente, quando se participa em Coimbra na luta política autárquica, nomeadamente, aqueles que hesitem quanto à opção a tomar.


2. À luz o que se acaba de dizer, vale a pena refletir sobre a repercussão nacional da campanha autárquica que está a decorrer em Coimbra. Entre as alternativas a Manuel Machado, atual Presidente da Câmara que lidera a candidatura do Partido Socialista, três delas têm um especial significado político. Refiro-me às duas candidaturas de direita, “Mais Coimbra” e “Somos Coimbra” e à candidatura dos “Cidadãos por Coimbra”.

Todas elas desempenham, objetivamente, o papel de dispositivos de combate político ao governo do PS liderado por António Costa. Na verdade, como já se disse, os resultados que se verificarem em Coimbra não deixarão de pesar na relação de forças nacional. A vitória do PS reforçará o atual governo, melhorando as condições e as virtualidades da sua ação; um mau resultado para o PS não deixará de fazer aumentar os obstáculos à ação do governo.


3. Por isso, os partidos da troika, representados em Coimbra pela coligação “Mais Coimbra”, embora tornando tão pouco ostensiva quanto possível a sua pertença ao séquito de Passos Coelho e de Cristas, são um dispositivo muito importante na estratégia nacional de combate do PSD  e do CDS contra o atual governo. Se eles vencessem em Coimbra, estariam a oferecer um precioso balão de oxigénio ao radicalismo austeritário de Coelho e Cristas, que o bom funcionamento e os resultados positivos da atual solução governativa têm vindo a desacreditar crescentemente.

E isso acontece, quer porque Coimbra é um município com alto valor simbólico, quer porque tem à sua frente o Presidente da Associação Nacional de Municípios. Dir-se-á que, nas atuais circunstâncias, a hipótese de uma vitória da direita em Coimbra é muito remota. É verdade. Mas foi a esperança nisso que levou os partidos da troika a unirem-se e é esse o verdadeiro conteúdo da candidatura “Mais Coimbra”. O resto é meramente instrumental.


4. “ Somos Coimbra” visa o mesmo objetivo, mas opta por outro caminho. Também entende que as eleições autárquicas são uma importante oportunidade para enfraquecer o atual governo do PS e iniciar a reversão do predomínio institucional das esquerdas, mas pensa que se o fizesse em campo aberto e de rosto descoberto, apostando na continuidade das atuais lideranças da direita, teria reduzidas hipóteses de êxito. Por isso, recorreu à liderança de alguém cuja notoriedade não estava predominantemente radicada na política (ainda que consabidamente oriundo da área política do PSD), para montar a ficção e tentar produzir a ilusão de uma candidatura independente "acima" dos partidos.

Adotou uma velha consigna mistificatória (a que a direita sub-reptícia sempre recorre quando se quer disfarçar) ao afirmar-se nem de direita nem de esquerda. Dotou-se de três ou quatro vultos universitário-empresariais, para ostentar uma patine mais aliciante, embrulhou tudo isso num discurso holístico previsível e arredondado, distribuiu alguns anátemas de circunstância, promoveu uma certa ressonância mediática, e sentiu-se suficientemente irresistível para avançar.

Foi, no entanto, prudentemente tomada por uma discreta pulsão cautelar. Receando que o ilusionismo fosse tão completo que iludisse alguns dos próprios eleitores da direita, deixou transparecer publicamente o apoio explícito de uma das principais liderança do PSD de Coimbra nas últimas décadas que, aliás, já ocupou a Presidência da Câmara de Coimbra, durante mais de um mandato no início deste século. É um outro tipo de tentativa de enfraquecer o atual Governo, mas não deixa de o ser.


5. Pelo seu lado, os Cidadãos por Coimbra deixaram-se aprisionar num dramático dilema: ou subordinam a sua intervenção municipal à sua identificação genérica com a solução política nacional vigente e desvitalizam-se; ou privilegiam e radicalizam a sua intervenção municipal e combatem-se a si próprios no plano nacional, ao vulnerabilizarem o governo do PS e a solução política que o viabiliza (com a qual ao que parece concordam).

É um dilema com duas raízes principais. Em primeiro lugar, os CPC surgiram em 2013 como uma subtil “frente de massas” do Bloco de Esquerda, revestida pela aura de uma intenção frustrada de unidade à esquerda, mas principal e objetivamente dirigida a evitar uma vitória do PS em Coimbra. Falhado o objetivo, ao contrário da CDU, assumiram sempre uma oposição agressiva à Presidência do PS. Uma oposição  assente mais em resmungos e detalhes do que numa serena divergência de horizontes e de projeto.

As eleições legislativas de 2015 impulsionaram a criação do Livre/Tempo de Avançar, novo partido que absorveu a quase totalidade dos CPC exteriores ao BE. Na prática, os CPC transformaram-se assim numa coligação não assumida. A solução de governo saída das eleições teve no PS o protagonista liderante. Englobando o BE, correspondia também no essencial ao preconizado pelo Livre/Tempo de Avançar que só não participou nela por não ter elegido qualquer deputado. Mas esta mudança nacional da conjuntura política não suscitou no comportamento dos CPC qualquer mudança de atitude no plano autárquico. A coligação implícita dos CPC que era favorável ao governo do PS no plano nacional continuou a hostilizá-lo em Coimbra no plano autárquico.

Recentemente, houve uma cisão nos CPC. Um grupo de algumas dezenas de membros, onde se incluía a maior parte dos seus eleitos municipais e várias das suas figuras públicas mais conhecidas, abandonou publicamente os CPC. Os dissidentes pertenciam em grande parte ao Livre/Tempo de Avançar. Duas versões da clivagem percorreram a murmuração política e pairaram nas entrelinhas das posições publicadas. Os que saíram acusam os que ficaram de completa subalternidade e dependência em face do BE, cujo alegado controleirismo vituperam. Os que ficaram acusam os que saíram de almejarem integrar uma aliança política mais ampla e fortemente inclinada à direita. Os que ficaram escolheram para os encabeçar um político com experiência autárquica que pouco antes se desfiliara do Partido Comunista. O tom da campanha que têm vindo a fazer parece dar continuidade à acrimónia habitual quanto à candidatura do PS, dando assim corpo ao dilema atrás referido. Politicamente, pode assim dizer-se que em parte se combatem a si próprios; autarquicamente procuram enfraquecer o mais possível aquilo que defendem nacionalmente.

Para dramatizar o dilema, o atual coordenador dos CPC, pública e simultaneamente, demarcou-se energicamente da candidatura do PS, mas afixou a intenção de convidar o candidato por si rejeitado, para que em conjunto com os CPC e a CDU, logo após as eleições, liderasse um bloco de poder. Ou seja, após as eleições, a exceção de Coimbra desaparecia, reproduzindo-se uma solução paralela à nacional. Isto é, os CPC fazem tudo para impedir o PS de eleger o seu candidato como Presidente (o que significa dar inevitavelmente a Presidência à direita), mas, se o não conseguirem, querem aliar-se com ele.


6. Em contraponto, a candidatura do Partido Socialista liderada por Manuel Machado, tem tornado cada vez mais claro que o seu modo de Valorizar Coimbra respeita realmente a sua densidade simbólica e solidariza-se profundamente com a sua vocação futurante que se propõe incentivar. Não o faz contudo, encerrando-se num bairrismo estéril, mas assumindo por completo a ideia de que valorizar Coimbra é um contributo insubstituível para valorizar Portugal. A contribuição de Coimbra não é substituível por outra qualquer, pelo que sendo naturalmente um desígnio municipal é também necessariamente um desígnio nacional.

Assim, a sinergia entre o atual Governo de Portugal e a atual maioria na Câmara Municipal de Coimbra que se começou a instituir desde que a atual solução governativa iniciou funções há menos de dois anos, abre horizontes muito esperançosos para os próximos anos. O atual governo terá em Coimbra um parceiro que lhe permitirá exercer aqui o seu mandato com plena fecundidade, o governo autárquico de Coimbra liderado por Manuel Machado terá no poder central um parceiro que lhe permitirá valorizar Portugal através da valorização de Coimbra.

Há assim dois tipos de repercussão nacional dos resultados autárquicos de Coimbra. Uns procuram instrumentalizá-los para enfraquecer a atual solução governativa na esperança de trazerem de volta as políticas da troika. Outros procuram reforçar sinergias virtuosas entre os poderes democráticos autárquicos e centrais, em benefício de Coimbra e de Portugal.


Há ainda  os que parecem estar a disparar sem ter uma ideia clara quanto ao alvo a atingir. Por isso, quanto a estes últimos, o que de melhor se pode esperar é que não façam muitos estragos.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

COIMBRA, Ó COIMBRA!





COIMBRA, Ó COIMBRA!
Nas próximas eleições autárquicas, concorrem para disputar a liderança do município de Coimbra várias listas que, para além das suas diferenças políticas e programáticas, usam a palavra Coimbra na sua designação ou na sua divisa. Estou a pensar em quatro: a do Partido Socialista fala em “Valorizar Coimbra”; a dos partidos da “troika” quer “Mais Coimbra”; “Somos Coimbra”, diz-nos uma outra lista radicada no mesmo espaço político da anterior, mas que se alega independente; “Cidadãos por Coimbra”, eis como se apresenta a lista oficialmente independente, mas particularmente apoiada pelo Bloco de Esquerda.
Vale a pena olhar para estas quatro expressões, pois elas, subliminarmente, podem dizer-nos muito quanto ao modo como cada uma delas se relaciona com Coimbra. É como se, sob o verniz das identidades ideológicas ostensivas e das escolhas psicológicas conscientes, se perfilasse oculta  uma revelação estrutural mais profunda.
“Mais Coimbra” revela uma implícita abordagem quantitativa, uma ótica meramente crescimentista que correria o risco de implicar não o desenvolvimento fecundo do município, mas o seu estéril inchaço.
“ Somos Coimbra” é uma expressão indutora de duas possíveis leituras: ou quer-nos informar que, como todos os munícipes deste concelho, eles são de Coimbra, ou pretende proclamar que só os iluminados dessa lista são verdadeiramente de Coimbra. Se o sentido for o primeiro, estamos perante uma evidência trivial e, portanto, desprovida de conteúdo político; se o sentido for o segundo, estamos perante uma arrogância excludente, que reduz a autêntica Coimbra a um pequeno círculo de arautos de uma boa nova. Isto é, ou  eles se acham enormes assumindo-se como a própria substância de Coimbra , ou acham Coimbra suficientemente escassa para caber numa candidatura. Escolha-se: trivialidade ou pesporrência.
Os Cidadãos por Coimbra situam-se num registo idêntico ao anterior, conquanto ligeiramente mais suave. Ou apenas nos querem informar que, sendo cidadãos, como todos nós, se interessam por Coimbra, como todos os conimbricenses; ou muito mais do que isso se querem afirmar os únicos cidadãos que verdadeiramente são “por Coimbra”. Nesta última hipótese, ficaríamos ainda sem saber se quem lhes for exterior deixa de ser considerado um verdadeiro cidadão; ou se, sendo-o, não é todavia “por Coimbra”. Se os CPC não tiverem à sua disposição um medidor de cidadania fiável e um “coimbrómetro” rigoroso que sustentem objetivamente esse implacável juízo, somos reconduzidos ao dilema já mencionado: trivialidade ou pesporrência.

Valorizar Coimbra induz a ideia de haver uma realidade de que se parte e que portanto se respeita para se poder valorizar. Uma realidade que envolve naturalmente não só os munícipes, mas também as suas atividades e as suas organizações, incorporando ainda toda a sua dimensão simbólica, com destaque para a cultura e para a história. Valorizar Coimbra implica ter-se bem presente que já havia Coimbra muito antes de todos nós cá termos chegado e continuará a haver Coimbra depois da memória do que tivermos sido se esvair. Não se pretende, por isso, pôr Coimbra em qualquer pequeno mapa imaginário, nem apoucá-la para se poder dar a entender que vamos ser os seus salvadores. Valorizar Coimbra não envolve uma pulsão localista, sendo pelo contrário um desígnio aberto, um caminho que os conimbricenses podem percorrer para se valorizar Portugal.

domingo, 30 de julho de 2017

Notícia sobre a VENEZUELA.



Transcrevo da página virtual do jornal espanhol  Público [18 e 40 m de hoje] uma notícia sobre o que está a ocorrer hoje em Caracas. Perante a barragem de unilateralismo informativo dos nosso dóceis meios de comunicação social, caninamente alinhados com o complexo mediático internacional dos grandes meios de comunicação social, vale a pena ter-se acesso a uma informação objectiva.
O texto noticioso é do jornalista Alberto Pradilla e tem como tírulo:“Caracas como dos ciudades: una vota y la otra se encierra entre basura”. Abre a notícia o destaque seguinte : “En medio existen grises pero la diferencia es abismal entre el centro y el oeste, donde la mayor parte de colegios están abiertos, y el este, encerrado en sí mismo, lleno de barricadas y con la basura desparramada por el suelo.”
Eis a notícia, propriamente  dita:
“Con música y cohetes, antes de que amanezca, feudos del chavismo como el barrio 23 de enero despertaban a los votantes a las 6 de la mañana. La hora es intempestiva para un domingo, pero en Venezuela es tradición madrugar mucho, hacer cola para votar lo antes posible y ya disponer de toda la jornada. “Queremos ser los primeros para venir”, decía Carmen Romero, una mujer que llevaba desde las 5 esperando para votar en la escuela pública de la popular barriada. “Estamos viviendo en nuestras carnes la cuestión de los terroristas que están en el este. Aquí, por el contrario, estamos tranquilos y votamos para frenar la violencia”, afirmaba. El votante más ideológico habla de “profundización en el proceso” para explicar su participación electoral. En las filas, antes de las urnas, lo que más se escucha es un llamamiento a votar por la pacificación.
Hoy, cuando 19 millones de electores de un censo total de 30 millones está convocado a las urnas, siguen existiendo dos Caracas que viven de espaldas una a la otra. En medio existen grises, que no todo es tan fácil, pero la diferencia es abismal y real entre el centro y el oeste, donde la mayor parte de colegios están abiertos, y el este, encerrado en sí mismo, lleno de barricadas y con la basura desparramada por el suelo.
Habrá que ver hasta dónde están dispuestos a llegar los opositores durante las protestas. Sus fuerzas flaquean
“Hoy es uno de los días más importantes para que el venezolano chavista salga a votar”. Gustavo Borges, calado con gorra verde de estrella roja y el brazalete con la bandera de Venezuela, también es de los primeros en el colegio del 23 de enero. Insiste en que la constituyente convocada por el presidente, Nicolás Maduro, es la vía para destensar la situación. Quizás para dar ejemplo, que aquí son mucho de simbología, el jefe de Gobierno ha sido también madrugador a la hora de cumplir con la papeleta. Pasadas las 6 de la mañana, el máximo mandatario venezolano reivindicaba que el suyo era “el primer voto por la paz, por la soberanía, la independencia y la tranquilidad futura de Venezuela”.
La situación es completamente distinta en el este del país (por cierto, más opulento pero con menor proporción de habitantes). La oposición rechaza participar en las elecciones y ha llamado a manifestarse hoy a las 10.00 horas (las 18.00 en España). A las 8, en Altamira no había un alma. Una única señora preguntaba dónde había que concentrarse, asegurando que la convocatoria comenzaba a las 4 de la mañana. “No tenemos nada, estamos pasando hambre y por muchas dificultades”, aseguraba. La tensión es palpable. En Chacao, justo antes de llegar al feudo opositor, un grupo de motorizados partidarios del chavismo se enfrentaban con unos encapuchados que pretendían colocar una barricada. No lo consiguieron. Al final, los opositores abandonaban el lugar a la carrera. Da la sensación de que trancar las calles es la única estrategia sostenible para los antichavistas. Permite, con un número relativamente pequeño, dar una sensación de caos. Aunque lo de llenar de basura tu propio barrio es más incomprensible.
Habrá que ver hasta dónde están dispuestos a llegar los opositores durante las protestas de hoy, especialmente si se toma en cuenta que parece que sus fuerzas flojean. La víspera, Henrique Capriles y Leopoldo López llamaban conjuntamente a manifestarse. En realidad, es un modo de intentar tapar bocas, ya que en las últimas horas se había extendido la sombra de la duda en sus propias bases. Los más duros acusan a la dirigencia de ser excesivamente condescendientes con el chavismo. Sí. Han oído bien. Excesivamente condescendientes. La gestión de la frustración por asegurar que se frenarían unas elecciones que no podían suspender.

Tengan claro que el nivel de intimidación y presión es tal en los feudos opositores que el Gobierno ha tenido que habilitar cuatro centros de contingencia en Los Teques, Caracas, Maracaibo y Aragua. Es decir, que se han abierto polideportivos para que puedan votar personas que no pueden depositar su voto en su lugar de origen. Ayer, en el Poliedro, el centro preparado para los votantes de Caracas, varias personas explicaban que tenían que trabajar por las elecciones casi de modo clandestino. Además, algunos colegios han sido atacados y el material electoral ha tenido que ser trasladado a otros lugares.”

terça-feira, 18 de julho de 2017

LULA - um alvo estratégico



Publico hoje mais um texto de Roberto Amaral, extraído da página virtual da excelente revista brasileira CartaCapital. É um texto sobre a recente condenação de Lula. Parece--me muito importante desfazer a cortina de fumo lançada sobre esse triste evento pela grandes empresas brasileiras de comunicação social, que encontra estranhos ecos na comunicação social portuguesa. Que a direita lusitana morda desalmadamente em Lula, compreende-se. É o seu jeito canino de argumentar. Que figuras que se pretendem fora desse espaço também mastiguem dislates e desinformações sobre o assunto  já é um pouco  mais enjoativo. Enfim, leiam o que nos diz um importante político e intelectual brasileiro que nem é membro do PT. Entretanto, para vos pôr mais alerta aqui fica  uma muito breve síntese do seu currículo.

Roberto Amaral nasceu em  1939. Cientista político, jornalista, escritor, conferencista e político militante, tem artigos científicos publicados em revistas académicas do Brasil e de outros países Com vasta colaboração na imprensa brasileira, escreve semanalmente na versão online da revista CartaCapital.
Com a redemocratização, retomou a atividade política legal, tornando-se um dos re-fundadores do Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1985. Foi seu secretário-geral entre 1985 e 1993 e em seguida vice-presidente, assumindo mesmo a Presidência do PSB em três ocasiões: em 2005, em 2006 e em de 2014. A deriva direitista desse partido levá-lo-ia a abandonar a sua presidência , tendo posteriormente rompido com o próprio partido.
Nos dois primeiros mandatos do presidente Lula e no primeiro mandato da presidente Dilma, representou o PSB no Conselho Político da Presidência da República. Exerceu o cargo de ministro da Ciência e Tecnologia de janeiro de 2003 a 2004, no Governo Lula.
É professor adjunto (licenciado) da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e professor titular da Faculdade Hélio Alonso.É membro titular do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), do Pen Clube do Brasil, da Internacional Political Science Association, da International Association of Judicial Methodology. Integrou (2004) o Conselho Estadual de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.
 
Eis o seu artigo, datado do passado dia 17 de Julho de 2017:

 
Por que Lula? por Roberto Amaral
“Sem surpresa, o País recebeu a anunciada condenação de Lula, sentença que já estava pronta antes mesmo da mal articulada denúncia do Ministério Público Federal, antes mesmo do julgamento na ‘República de Curitiba’, pois, antes de tudo, estava lavrada pelas classes dominantes – os rentistas da Avenida Paulista, as "elites" alienadas, a burguesia preconceituosa, um empresariado sem vínculos com os destinos do povo e de seu país. Uma "elite" movida pelo ódio e pela inveja que alimenta a vendeta. Denúncia, julgamento, condenação constituem uma só operação política, cujo objetivo é avançar mais um passo na consolidação do golpe em progresso iniciado com a deposição da presidenta Dilma Rousseff.
Tomado de assalto o poder, cumpriria agora destruir eleitoralmente a esquerda, numa ofensiva que lembra a ditadura instalada em 1964. Para destruir a esquerda é preciso destruir seu principal símbolo, assim como para destruir o trabalhismo caberia destruir o melhor legado de Getúlio Vargas. Não por mera coincidência, o dr. Sérgio Moro decidiu dar à luz a sentença a ele encomendada no dia seguinte em que o Senado Federal violentava a Consolidação das Leis do Trabalho. 
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Desinformando e formando opinião, exaltando seus apaniguados e difamando aqueles que considera seus inimigos, inimigos de classe, a grande imprensa brasileira promove o cerco político, e tece as base da ofensiva ideológica unilateral, porque produto de um monólogo.
Essa imprensa – um oligopólio empresarial, um monopólio político-partidário-ideológico e na verdade o principal partido da direita – que exigiu e obteve a condenação de Lula (e presentemente tenta justificá-la, embora carente de argumentos) recebeu com rojões juninos a sentença encomendada, mas logo se enfureceu porque Lula recusou o cadafalso político e anunciou sua candidatura à presidência.
Ora, dizem os editoriais, os articulistas, os colaboradores, dizem os "cientistas" políticos do sistema, Lula não pode ser candidato, o que revela a motivação da sentença. Já há "cientistas" exigindo que o TRF-4, em Porto Alegre, confirme sem tardança a condenação, e "filósofos" anunciando que a candidatura Lula é um desserviço à democracia (ela que lidera todas as pesquisas de intenção de voto) porque "polarizaria" o debate e as eleições. Doria, não. Bolsonaro, não. Caiado, não. Alckmin tampouco polariza. Mas Lula, sim; por isso precisa ser defenestrado. 
A "vênus de prata" já começou a campanha visando à condenação de Lula na segunda instância, e o Estadão (edição de 14 último) anuncia que o "Supremo deve manter condenação de Lula”.      
Somos testemunhas da tentativa de revanche da direita brasileira. Impedir a candidatura Lula é a defesa prévia ante a ameaça de a população demolir o golpe com as eleições de 2018.
O fato de o libelo (e jamais sentença) de Moro ser obra conhecida, segredo de polichinelo, não releva seu caráter mesquinho e iníquo, ademais de sua inépcia jurídica, desnudada. Do ponto de vista do direito, a "sentença" é um mostrengo e se fundamenta em ilações, presunções, talvez "convicções", artifícios de raciocínio em conflito com a lógica.
Contrariando o direito, que só conhece propriedade e posse, o juiz inventa a figura do "proprietário de fato". A propriedade, segundo nosso Código Civil, se prova mediante o registro em Cartório, mas para acusar Lula se aceita que uma simples delação do proprietário real seja recebida como transferência, e como esse proprietário supostamente doador, empreiteiro respondendo a processos, é usufrutuário de falcatruas, conclui o juiz açodado que o apartamento deve ter sido dado em retribuição a alguma facilidade propiciada pelo ex-presidente, trata-se, portanto, de uma propina. E se é propina, Lula é agente passivo de corrupção.
E por tais caminhos sinuosos, mediante tal exercício de lógica pedestre, condena à cadeia o ex-presidente, para puni-lo, evidentemente, mas para punir antes de tudo com a decretação de sua inelegibilidade. É disto que se trata. Não cabe, pois, discutir a gramática processualística, simples apoio formal de uma decisão eminentemente política, e, do ponto de vista político, um golpe preventivo em face das eleições de 2018, das quais previamente e precatadamente se elimina o candidato que lidera as pesquisas de intenção de voto. É preciso abater esse candidato, pelo que ele simboliza. E assim, e só assim, as eleições poderão realizar-se, disputada a presidência entre Francisco e Chico.
Como temos insistido, às forças do atraso não bastava o impeachment de Dilma Rousseff, pois, o projeto em andamento é a implantação de um regime de exceção jurídica voltado para a desmontagem de um projeto de Estado social, mal enunciado. E um regime com tais características e com tais propósitos jamais alçaria voo dependendo do apoio popular. Daí o golpe. À sua execução se entregou o Congresso, sem ouvidos para as vozes das ruas, surdo em face dos interesses do País e de seu povo, desapartado da representação popular, a serviço do mercado, como tonitrua, sem pejo,  o atual presidente da Câmara.
A eliminação de Lula é, pois, a conditio sine qua non do novo sistema para manter o calendário eleitoral, pois as eleições, para serem realizadas, não poderão importar em risco. De uma forma ou de outra, trata-se de um golpe, afastando-se uma vez mais do povo o direito de escolher seus dirigentes.  
A identificação de Lula como alvo da reação não é gratuita, nem fato isolado. Lula de há muito transcendeu os limites de eventual projeto pessoal, é mais do que um ex-presidente da República, e é muito mais que fundador e presidente do PT. Independentemente de sua vontade e da vontade de seus inimigos, é, para além  de sua popularidade, o mais destacado ícone da esquerda e das forças populares brasileiras. Lula é, hoje, e em que pesem suas contradições, um símbolo, um símbolo da capacidade de nosso povo fazer-se agente de sua História. É um símbolo das possibilidades de o ser humano vencer suas circunstâncias, romper com as contingências e fazer-se ator. Simboliza a potência do povão, do povo-massa, dos "de baixo", dos filhos da Senzala como sujeitos históricos. Simboliza a possibilidade de o homem comum, um operário, romper com as amarras da sociedade de classes, racista e preconceituosa, e liderá-la num projeto de construção de uma sociedade em busca de menos desigualdade social. Por isso é amado e odiado.
Símbolos assim constituem instrumentos de importância capital nos confrontos políticos por sua capacidade de emocionar e mobilizar multidões. Símbolos deste tipo não surgem como frutos do acaso nem se multiplicam facilmente, nem se constroem da noite para o dia. Emergem em circunstâncias especiais, atendendo a demandas concretas da sociedade. São construídos ao longo de certo tempo de provação, de testes dolorosos, como ocorre com os heróis clássicos, percebidos pela comunidade como portadores de virtudes.
O símbolo Lula não é produto do acaso, nem consequência de um projeto individual. Trata-se do fruto histórico resultante do encontro do movimento sindical com as lutas populares, construindo a primeira liderança política brasileira que emergiu do proletariado, do chão de fábrica, para a Presidência da República. Um feito de dificílima repetição, neste país aferrado ao autoritarismo conservador.   
É contra esse instrumento da luta política de massa que se arma a prepotência das classes dominantes brasileiras, filhas do escravismo, incuravelmente reacionárias, incuravelmente atrasadas, presas à ideologia da Casa Grande, desapartadas dos interesses do povo e da nação, descomprometidas com o futuro do país.
Ao abater Lula, pretende a direita brasileira dizer que o povo – no caso um ex-imigrante do Nordeste profundo, sobrevivente da fome, um ex-metalúrgico, um brasileiro homem-comum, um dos nossos –, não pode ter acesso ao Olimpo reservado aos donos do poder. É um "chega prá-lá", um "conheça o seu lugar", um "não se atreva", um "veja com quem está falando".
 A condenação de Lula tem o objetivo de barrar a emergência das massas, barrar os interesses da nação, barrar o avanço social, barrar o ideal de um Brasil desenvolvido e justo. Visa a barrar não o lulismo, mas todo o movimento popular brasileiro. Quer deter não apenas o PT, mas todas as organizações políticas do espectro popular (que não se enganem a esse respeito aqueles que sonham em crescer nos eventuais escombros do lulopetismo).

A defesa de Lula, a partir de agora, não é uma tarefa, apenas, de seu partido e dos seus seguidores. Ela representa, hoje, a defesa da democracia. É só a primeira batalha, pois muitas nos aguardam até 2018".