sexta-feira, 20 de outubro de 2017

RAÍZES ?



Há três grandes vetores implícitos das políticas públicas impostas pela União Europeia a Portugal, como pressupostos para a concessão de apoio, que talvez valha a pena recordar na atual conjuntura.

Primeiro ─ valorização da agricultura empresarial e destruição da pequena agricultura camponesa, subsidiando a atividade da primeira e a inatividade da segunda.

Segundo ─ encorajamento da substituição da atividade  dos serviços públicos por encomendas a entidades privadas dessas atividades.

Terceiro ─ privatização de serviços públicos essenciais, como, por exemplo, as telecomunicações.

Aos membros da União Europeia era dada a pequena liberdade de se moverem no quadro destes e de outros dogmas, esforçadamente inventados por legiões de lobistas que em Bruxelas iam convertendo em  pura ciência económica os prosaicos interesses estratégicos dos seus poderosos clientes. 

À Santa Globalização atribuía-se o poder desse milagre. Um milagre que para muito poucos era paraíso imediato para muitíssimos era um milagre sempre adiado que ainda hoje não lhes chegou.

Os três vetores acima mencionados tiveram consequências: colapso da pequena agricultura, despovoamento e desertificação dos campos, degradação da prestação de serviços públicos essenciais, quebra de confiabilidade nas telecomunicações.

Estes problemas não podem ser esquecidos e não pode ser afastada a hipótese de se reverter  esse tipo de medidas ou de se percorrerem caminhos que nos façam sair da insalubridade das suas consequência.

Se vamos procurar as raízes do que facilitou os dramas humanos e sociais vividos recentemente por causa dos incêndios florestais temos que as buscar até ao fundo, não esquecendo  nenhuma .Embora também o devamos fazer, não podemos limitar-nos a valorizar o que é importante, esquecendo os bloqueios essenciais. Bloqueios ou distorções que são principalmente sistémicos e  só em pequena medida funcionais; bloqueios que as alterações climáticas tendem, cada vez mais, a tingirem das cores negras da tragédia.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O CHARME INDISCRETO



O CHARME  INDISCRETO  

1.Há vozes de direita trauliteiras e há vozes de direita meigas. Há vozes de direita que vociferam sempre e há vozes de direita que são hábeis nas tocaias, só atacando quando acham oportuno. Há vozes de direita que explodem ao vermelho e há vozes de direita que nunca perdem a calma. Há vozes de direita que atacam sempre e há vozes de direita que só atacam quando nos vêem frágeis. Há vozes de direita que atacam todas as esquerdas e há vozes de direita que atacam a parte das esquerdas que em cada momento lhes convém. Há vozes de direita que não disfarçam a sua acrimónia quanto à esquerda e há vozes de direita que batem nas costas das esquerdas com a subtileza de quem procura o lugar onde um dia cravarão o punhal.
Da direita, seja ela trauliteira ou subtil, não se espere lisura e lealdade no combate político. Da direita, seja ela trovejante ou melíflua, não se espere uma distinção entre as esquerdas, quando as puder ferir seriamente. Para todas as direitas, a esquerda enquanto alvo está sempre unida.

2. Disto as esquerdas nunca se devem esquecer. As suas diferenças, se forem autênticas e não destruírem a casa comum, são uma virtude e uma respiração natural. Repito: se tiverem sempre em conta que são um alvo comum para todas as direitas, sejam elas brutais ou melífluas.
E que nenhuma das esquerdas se esqueça que, por mais mansa que pareça, qualquer direita, pela sua própria natureza, sempre que puder cravará a faca nas costas de qualquer das esquerdas.

3.Muitos de nós podem ainda  lembrar-se de como era, quando a direita autoritária ocupava o poder sem freios, quando havia um poder não democrático em Portugal .
E se nem todas as direitas são iguais, todas cabem numa mesma palavra. Todas têm no seu código genético como desígnios, a conservação da desigualdade, a relativização da liberdade, a subalternização de facto das pessoas às coisas, do trabalho ao capital. Todas vivem com base no pressuposto de que as esquerdas são um empecilho ao paraíso dos privilégios. E só não afastam esse empecilho se não puderem.

4.Em prol do mundo que almejam, o combate político das esquerdas deve ser sempre leal e democrático. Mas isso não significa que possa assentar na ilusão de que a direita adopta uma posição simétrica. A direita política é a formalização dos poderes de facto no tipo de sociedade  em que vivemos. Só encara o futuro para o confiscar, de modo a torná-lo um espelho cada vez mais pobre do presente.
Assim, no mundo em que vivemos a esquerda tem sobre a direita uma superioridade trágica, que está longe de ser evidente, mas que se reforça dia a dia. Na verdade, se a direita através do uso das suas vastas alavancas de poder conseguisse destruir as esquerdas no mundo, reduzindo a nada qualquer resistência ao capitalismo neoliberal, pouco tempo teria para celebrar a sua imaginária vitória. Apenas teria passado a certidão de óbito, não à esquerda, mas à própria civilização humana e no limite à existência da própria espécie humana. No mundo de hoje,  o drama é pungente. E se cada país tem uma história própria, ela  no essencial não difere de todas as outras. Pricipalmente, não está imune a todas as outras.

Por isso, devemos ter sempre presente, em analogia com a célebre metáfora  do leve bater de asas de uma borboleta na China que inundaria o mundo de imensas tempestades, que em política por vezes uma pequena pulhice, mesmo envernizada, pode causar grandes tempestades. Tem um risco para o seu subtil autor: qualquer tempestade leva sempre tudo à sua frente. Sem distinções.

domingo, 15 de outubro de 2017

O sono da razão cria monstros



Os teóricos da mentira inventaram a pós-verdade para se lavarem a si próprios.

Esperemos que os linchadores mediáticos não se associem aos burocratas do direito para inventarem o pós-direito como ocultação do arbítrio, como regresso à lei do mais forte.

A justiça ver-se-ia assim forçada a descer do seu pedestal, deitando fora a balança, tirando a venda que lhe tapava os olhos e brandindo a espada como um gume sem norte.


O Estado de direito converter-se-ia numa expressão vazia e a civilização entraria num prolongado sono de angústia.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A noite dos prodígios ou a surpresa da recontagem



A noite dos prodígios ou a surpresa da recontagem

A contagem dos votos desenrolava-se com fluidez. No estado-maior dos “ roxos” o perfume do êxito insinuava-se como luz nascente. Respirava-se júbilo. Parecia certo que um dos seus “generais” ia entrar para o governo da cidade pela porta grande dos votos.
Mas à medida que os votos iam sendo contados a melodia de esperança  e regozijo começou a murchar. A noite foi ganhando um tom sépia. O tom  que prenuncia os outonos. Até que foram contados os votos da  última urna ; e a noite estendeu-se  como um manto fúnebre sobre uma alegria que não chegou a nascer.
A serenidade saiu assutada do estado-maior dos “roxos”. Explodia por todos os lados uma raiva surda contra as outras cores. Especialmente contra os de “cor rosa” que haviam conquistado aos “ roxos” o lugar sonhado.

Mas, para grandes males, grandes remédios: exige-se a recontagem dos votos. Exigiu-se e os “roxos” venceram a árdua batalha: os votos foram recontados à sombra de um juiz.  Durante dias, a alegria perdida projetou uma ligeira esperança de voltar.
O juízo final chegou, enfim. E ó desgraça das desgraças! os  de “cor rosa” mantiveram o lugar que já tinham e os “roxos” continuaram sem ele. O perfume da alegria perdida que ainda restava esvaiu-se sem remissão.

E a sombra tornou-se um pouco mais sombria, quando na recontagem para uma assembleia coadjuvante se verificou que, aí sim, os de “cor rosa” perderam um lugar. Perderam-no para os “vermelhos”; não para os “roxos”. Consta que os “ vermelhos”  fizeram uma festa. Uma festa tanto mais suculenta quanto a ficaram a dever à fúria vencida dos “roxos”. Os de “cor rosa” perderam um lugar na assembleia, mas conservaram os que tinham-no governo. Nem caso para deitarem foguetes, nem para porem luto.


Moralidade: As paróquias das pequenas raivas são espaços asfixiantes. E quando se respira mal raramente se decide bem.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

FOI ONTEM E PASSARAM DEZ ANOS



1.Neste mesmo blog, no fatídico dia 9 de outubro de 2007, prestei ao Fausto Correia uma primeira homenagem. Eis o que então escrevi:

fausto, um grande abraço!
Tantas vezes homenageaste o Torga, que nesta hora extrema ele gostaria decerto de te poder também homenagear. E como podia fazê-lo melhor do que enviando-te um poema?
Pela nossa parte, eu e a Fernanda, aqui em casa, escolhemos ser mensageiros deste poema do Miguel Torga, para assim te darmos um abraço que é já de uma saudade sem medida.


Combate

Manhã do mundo que não amanheces!
Tantos poetas a cantar na sombra,
E nenhuma alvorada se anuncia!
Somos nós maus profetas no degredo,
Ou és tu, sol da vida, que tens medo
De iluminar a nossa profecia?

2. Poucos dias depois, 12 de outubro,  reiterando a homenagem prestada, socorri-me de um poema que o nosso camarada e poeta Gustavo Pimenta teve a amabilidade de me enviar como comentário ao que acima transcrevo.

Com o seu acordo, resolvi transcrever o comentário enviado para este blog pelo meu amigo e camarada Gustavo Pimenta, mensagem de fraternidade vinda do Porto, através de um poema de homenagem ao

Fausto Correia


Era um navio rumando à liberdade
como era
porto de abrigo em toda a tempestade

e era furacão rompendo a quietude
inquietando
a mansa hipocrisia da virtude

mas era
sobretudo
um porão imenso de amizade
que vamos enchendo
agora
e sempre
de saudade "


3. Foi ontem e passaram dez anos. Continuas a passear por entre nós, ouvindo as nossas piadas, sofrendo os nossos desgostos, ao nosso lado nos labirintos da vida, divertido e fraternal, acompanhando os nossos passos. 

Perdes com todos nós, quando perdemos e respiras de alívio e contentamento, quando ganhamos.

Dez anos passaram duramente sobre nós, cobrando implacáveis o preço do tempo. Mas na memória tudo está escrito como se tivesse sido ontem que te foste embora.

Não deixarias que te chorássemos. Preferirias um simples abraço de fraternidade. Não consentirias em palavras de melancolia que te colocassem no outono. Mas gostarias certamente que dez anos depois te continuássemos a levar connosco por dento dos nosso sonhos.

É isso que acontece enquanto prosseguir a nossa caminhada.

domingo, 1 de outubro de 2017

Homenagem à Catalunha



 
Como já afirmei noutro texto, no caso da Catalunha não tenho uma posição fechada, mas simpatizo com os independentistas. É certo que não tenho qualquer afinidade política com uma parte deles e que me identifico politicamente em termos genéricos com alguns espanholistas (PSOE). Mas o que para mim é determinante é o respeito pela vontade da maioria dos catalães. É pois necessário apurar, em condições democraticamente aceitáveis, essa vontade e não é legítima qualquer estratégia que vise impedir essa vontade de se revelar.

A dimensão jurídica da questão tem sido a única valorizada pelo poder de Madrid. Mas é estulto ou mistificatório esquecer-se a sua dimensão política. Tentar ignorá-la,  como se apenas estivesse em causa  uma questão de legalidade constitucional, é tão descaradamente simplista que mais parece  um simples expediente. 

No século XXI, as democracias mais maduras e mais decentes aceitam o direito de secessão das nações existentes no seu seio, sem subterfúgios. Compreende-se, por isso,  que  em questões como esta  a coerência internacional seja especialmente importante.

E ,neste caso, a União Europeia tem-se revelado particularmente incoerente. De facto, incentivou a divisão da Jugoslávia, indo até ao ponto de forçar a Sérvia a perder o Kosovo, pelo que não deveria agora, sem quebra de dignidade e de coerência,  fazer exactamente o contrário. Não se pode escolher um caminho político para depois o abandonar sempre que alguma conveniência ocasional o justifique. Quem forçou a Sérvia a perder o Kosovo, não pode anatematizar uma possível independência da Catalunha.

Por outro lado, no caso da Espanha, apresentar como um absoluto democrático o respeito pela Constituição é algo que merece ponderação. De facto, no topo do Estado espanhol há um rei como chefe de Estado, cuja legitimidade política está longe de ter uma raiz democrática. Foi um golpe de Estado fascista, dado contra uma república democrática, que gerou a  monarquia espanhola. Os representantes do povo desarmado negociaram com o poder franquista armado um armistício político. Uma negociação que para os representantes do povo não estava longe de ser um verdadeiro estado de necessidade. É nele que assenta a atual democracia espanhola, bem como as suas autonomias.

 Pode achar-se que esta solução é boa. Mas não se pode sublinhar até à exaustão o imperativo de os republicanos catalães se submeterem à legalidade constitucional plasmada na monarquia espanhola , ao mesmo tempo que se esquece que a monarquia espanhola foi instalada em Madrid, por força de um golpe de Estado fascista que desencadeou uma guerra civil que matou milhões de espanhóis. Uma guerra civil que os franquistas só vencerem porque foram ajudados pelos fascistas italianos de Mussolini e pelos nazis alemães de Hitler. Podemos aceitar a transigência dos desarmados como um preço justificado pela vontade de conseguirem paz, tendo em conta a relação de forças existente. Mas não podemos hoje ser intransigentes para com os republicanos da Catalunha, ao mesmo tempo que esquecemos o pecado original da monarquia espanhola.

A última experiência de república na Catalunha não foi vencida nas urnas, foi esmagada pela força das armas. E mais recentemente a humilhação da Catalunha materializada pelo chumbo da última versão do  Estatuto Autonómico, antes referendado em toda a Espanha e na Catalunha, foi equivalente a uma rotura do Pacto de Moncloa. O grande impulsionador do processo que desembocou nessa provocação foi precisamente o Partido Popular. Essa rotura agrava muito a dificuldade de invocar a ilegitimidade democrática do referendo que os catalães querem fazer. Eles têm sido longamente provocados pelo governo de Madrid e especialmente pelo Partido Popular.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A VIDA É UM SONHO!

 
A VIDA É UM SONHO!

Tive um pesadelo cómico.
 
Sonhei  que nas eleições autárquicas de Coimbra era possível uma coligação das  oposições em torno de um único nome, contra o candidato do PS, Manuel Machado. Usando essa faculdade, a lista da troika e as duas listas independentes haviam-se aglomerado em torno de um único nome e conseguiram ganhar.
 
Alguns dias depois, consumada a tomada de posse, quando em sua casa Manuel Machado se aprestava  a fruir um merecido repouso, bateram-lhe à porta. Diante dele estavam rês vultos. Pareciam querer esconder-se de si próprios, vestidos com mantos brancos e qualquer  coisa à volta do pescoço. Curvaram-se respeitosamente. E disse o mais alto:
- “Desculpe incomodá-lo, Sr. Presidente, mas temos um grande favor para lhe pedir. Um grande favor. Queremos que aceite  retomar a Presidência  da Câmara de Coimbra .”
 
O rosto de Machado oscilou entre o atónito e o divertido e disse pausadamente: “ Mas a vossa congregação é que foi eleita.”
 
Pairou um breve silêncio. O mais gordo , finalmente decidido, num quase sussurro constrangido  acrescentou timidamente:
- “ Nós estamos cientes disso, mas não há outra solução. Precisamos de si. Estamos habituados a criticá-lo. Para isso estamos habilitados e até treinados. Alcançámos automatismos que quase passaram a guiar-nos. Mas na sua ausência quem poderemos criticar? Quem fará o trabalho para nós criticarmos? Se não houver alguém a fazer o trabalho de direcção da autarquia como poderemos criticá-lo?  E, como a crítica é a nossa  única verdadeira habilitação, sem alguém que possamos criticar não saberemos o que fazer . A Câmara vai  parar. Se nos deixar sozinhos não saberemos o que fazer “.

Foi então que acordei. Por detrás do espanto estremunhado, talvez  tenha  despontado um leve sorriso. Nós sonhamos com cada coisa !!!

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Delírios Eleitorais em Coimbra



Delírios Eleitorais em Coimbra

1. Passos Coelho veio a Coimbra dar o abraço do afogado a Jaime Ramos. Este, ciente do drama, ainda lembrou desesperadamente que também tinham vindo dar-lhe apoio Rui Rio e Marques Mendes. Tarde demais, Passos Coelho já deixara  em Coimbra bem claro que o alegado “Mais Coimbra” não é mais do que a marca concelhia dos partidos da troika.
Para compensar Jaime Ramos proclamou a sua inabalável certeza que ia ganhar as eleições, trovejando confiança. Entretanto, a câmara mostrou a sala. E foram desfilando rostos fechados, algo melancólicos, frios. O estado de negação eufórica da realidade, em que caíra o seu líder, não os contagiara. A atmosfera desmentia a exaltação do orador. Parecia apenas cumprir-se calendário. No fundo, o que verdadeiramente se queria era ver passado o próximo dia um.

2. O alegado independente José  Silva, expoente dessa direita dissimulada que não é nem de direita nem de esquerda, veio a público contestar a realidade coimbrã, errada por desmentir a imagem alucinada de Coimbra, segregada pelas direitas nesta campanha. Todos os números que reflitam algo de positivo quanto a Coimbra são por isso falsos por definição. Ele é que tem os números verdadeiros.
Mas, sentindo esse choro numérico do líder do “Somos Coimbra” como insuficiente para ocultar por completo a realidade do nosso concelho,  não se resistiu a mergulhar ainda fundo nas águas do delírio.
E com uma equidade salomónica  garantiu: tudo o que há de razoável ou bom em Coimbra nada tem a ver com a maioria relativa do PS na Câmara  liderada por Manuel Machado; mas seja o que for que haja de mau ou de medíocre em Coimbra é da responsabilidade exclusiva da gestão municipal socialista da Câmara Municipal de Coimbra liderada por Manuel Machado.
Claro que a  percuciente fúria de José  Silva não se deixou tolher pelo pormenor de só se poder  estar a referir a uma gestão de quatro anos e de que  metade desse tempo  decorreu perante a obstrução de um governo central de direita. 
Detalhes perante o dogma central desta direita subtil: tudo o que aconteceu de mau em Coimbra tem como causa o PS e Manuel Machado, tudo aquilo de bom que não possa ser escondido nada tem que ver com o PS e Manuel Machado.
A objetividade, o rigor, a honestidade intelectual que ressumam deste dogma impressionam.


3. Lembrando-me de como por vezes o delírio se aproxima da metafísica, recordei Fernando Pessoa na sua veste de Álvaro de Campos, quando escreveu: “ a metafísica é uma consequência de se estar mal disposto”.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal


Em Coimbra, valorizar Portugal valorizando-se Coimbra.

Fazer com que o PS ganhe as eleições em Coimbra para não serem dadas á direita armas de combate á atual solução governativa, ao atual Governo.

A verdade de um falso relatório




A verdade de um falso relatório

A nuvem mediático-política que serviu a “troika” e dirige a direita portuguesa, contrariando a sua habitual circunspeção nas questões militares e de defesa, resolveu aproveitar (ou inventar) o assalto de Tancos, para enterrar politicamente o Ministro da Defesa. Mas o seu inicial fogo-de-artifício traduziu-se afinal em pouco mais do que um pirilampo político.Com as eleições autárquicas à porta, a escassez pretextos para a atacar o Governo, tornou-se-lhe insuportável.
Vai daí , na área mediática da nuvem “troikista” inventou-se um relatório que, a pretexto do caso de Tancos, atacava o Governo, apoucava o exército e demolia o Ministro da Defesa. Lançada dissimuladamente  essa bomba de mau cheiro pela seção plumitiva da direita , as suas seções partidárias apressaram-se a gritar que cheirava mal; e que, claro, a culpa era do Governo. Inventado um robusto relatório “oficial” os próprios urdidores da mentira fingiram julgar que estavam perante uma verdade que gritaram estridentemente.
Bastou, todavia, uma ligeira brisa de verdade para que a urdidura mentirosa do relatório, que afinal não existiu, ficasse completamente nua em praça pública. No entanto, as seções partidárias da direita, em vez de pedirem civilizadamente desculpa pelo excesso de imaginação e, pela ligeireza da repetição, continuaram a regougar dislates contra o Ministro, culpando-o do terrível erro de ser citado num relatório inventado pelos regougadores , mas que afinal não existiu. Ou seja os agressores acusam a vítima pelo facto de ter sido agredida por eles. Edificante. Ridículo.
Isto nos leva a pensar que as seções partidárias da direita portuguesa são dirigidas por ficções de políticos. Terem transformado questões militares e de defesa em episódios de capoeira, próprios de galinhas e coelhos, é verdadeiramente tão sintomático como deplorável.

Talvez isso os enfraqueça. Mas não devemos rejubilar com isso , uma vez que, mais do que o enfraquecimento da credibilidade política dos partidos que eles lideram, o que está em causa é o desprestígio das instituições democráticas.

sábado, 23 de setembro de 2017

A Economia Social e o Desenvolvimento Local


“A Economia Social e o Desenvolvimento Local para Valorizar Coimbra”
25 de setembro – 21h30
As próximas eleições autárquicas são uma oportunidade para reforçarmos o compromisso do partido Socialista com o desenvolvimento local, como caminho para uma melhor qualidade de vida para todos os cidadãos.

Para isso, é indispensável que as entidades da economia social sejam elas cooperativas, associações, IPSS ou entidades comunitárias, assumam um vigor renovado. As autarquias locais são as instâncias decisivas para o robustecimento dessas entidades, como protagonistas do desenvolvimento local, podendo encontrar nelas auxiliares preciosos para a prossecução dos seus objetivos.

Vamos conversar entre nós, para chegarmos a uma ideia clara quanto às virtualidades e às necessidades das diversas entidades da economia social, no nosso concelho e em cada uma das suas freguesias. Se estas entidades e as autarquias cooperarem entre si, o tecido social ficará mais sólido e a vida das comunidades locais poderá ser menos árdua.

É nesta perspetiva que iremos levar a efeito, no próximo dia 25 de Setembro (segunda-feira), pelas 21h30m, na Sala da União de Freguesias de São Martinho do Bispo, a Conferência Debate, com o tema “Economia Social e Desenvolvimento Local”.

Serão oradores Rui Namorado (Professor e Especialista em Economia Social) e Jorge Alves (Vereador de Ação Social).

Estará presente o nosso candidato a Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado.

NÂO FALTES.
Para valorizar a Economia Social.

Para valorizar Coimbra.


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal



Valorizar Coimbra para se valorizar Portugal

1. Para se identificar um projeto, no quadro de uma disputa política, é natural que se opte por uma frase sugestiva que mostre o que nele se quer destacar. A escolha não é fácil, tendo muito a ver com a arte de induzir adesão e com as técnicas de comunicar. Num primeiro plano, está em jogo o que é ostensivo. Mas é por debaixo dessa superfície que se joga muitas vezes o essencial do seu impacto, o seu significado estratégico, o seu potencial estruturador e as suas virtualidades de irradiação. E é também nesse plano mais profundo que o slogan escolhido revela muito do verdadeiro sentido do projeto em causa.

2. Neste campo, a escolha da lista liderada por Manuel Machado, que se candidata pelo Partido Socialista ao Município de Coimbra, é particularmente relevante, tendo um elevado potencial de irradiação positiva . Desde logo, Valorizar Coimbra é um desígnio já assumido na eleição anterior. Mostra um caminho desde então percorrido no decurso do quadriénio que agora chega ao fim. É um desígnio que assenta na ideia de que Coimbra é uma realidade que nos precede e se vai perpetuar muito para além de nós.
 Não cabe neste caminho uma auto-imagem providencialista, de quem afixe a ambição de salvar Coimbra de uma imaginária decadência e tenha a pesporrência de se julgar habilitado a tão hercúlea tarefa. Mas ele implica a noção clara de que a vida em sociedade nesta cidade é um caminho que nos pode levar a patamares de qualidade de vida e de prestígio sempre mais ambiciosos.
Valorizar Coimbra é um desígnio compatível com uma visão humanista da cidade, que transcende a trivial numerologia dos crescimentistas sem horizontes. Centra-se realmente nos cidadãos que vivem no concelho, nos seus problemas e nas suas aspirações. Projeta-se no país e procura abrir-se ao mundo numa interação que procura dar e receber, para desse modo participar na contemporaneidade e fazer com que ela dignifique e qualifique os cidadãos que aqui vivem. Não cabe neste desígnio a ambição vadia por pequenos inchaços crescimentistas que o tempo destruiria deixando os seus destroços como feridas na memória.
Valorizar Coimbra é um desígnio aberto com vocação para permitir o protagonismo diferenciado de cada freguesia na partilha da tarefa comum.
E no seu código genético tem inscrita a ideia de que Valorizar Coimbra é o contributo dos cidadãos de Coimbra para a valorização do país.
Este é, aliás, um aspeto essencial da estratégia própria do desígnio em causa. O desenvolvimento de Coimbra é, não só um aspeto muito relevante dos interesses de quem vive no concelho, mas é também um aspeto relevante do interesse nacional.



3.Há muitas décadas que o país se tem vindo a desequilibrar, através de um congestionamento da orla marítima e de uma desertificação do interior. Os efeitos negativos desse congestionamento e dessa desertificação são agravados pelo facto de isso se conjugar com dois abcessos metropolitanos. Um maior, em torno de Lisboa; outro, em redor do Porto. Se a aspiração de Coimbra fosse a de se tornar num terceiro abcesso com a ambição de concorrer com os já instituídos, estar-se-ia apenas a assumir como um foco bairrista de agravamento dos desequilíbrios nacionais. Seria pois uma aspiração desqualificante à luz do verdadeiro interesse nacional, para além de ser uma via objetivamente impraticável, tendo em conta o mapa demográfico e socioeconómico do país.
O absurdo da estratégia do inchaço metropolitano de Coimbra está bem refletido no relatório Portugal no Centro (difundido no fim de 2016) da responsabilidade da Fundação Gulbenkian. Fica assim mais aberto o caminho para uma reversão do processo de desequilíbrio acima mencionado. O Centro de Portugal é, na verdade, o território decisivo onde se joga a continuação do desequilíbrio existente ou a sua reversão, a qual é, por sua vez, um fator nuclear do desenvolvimento efetivo e humano do país.
Sem pretender aprofundar aqui o tema, há que lembrar que nesta região existe um conjunto de cidades médias (à escala nacional) que polarizam outros aglomerados populacionais e socioeconómicos. É um conjunto que já agora se destaca em termos relativos no plano nacional. De facto, o contributo da Região Centro para o desenvolvimento nacional é significativo. Um estudo realizado pela Comissão Europeia, divulgado em junho de 2017, que analisou o Índice de Competitividade Regional da União Europeia, mostrou que a região Centro é a segunda mais competitiva do país, apenas superada pela Área Metropolitana de Lisboa. No panorama europeu, a região Centro ocupa o 191.º lugar, enquanto que Lisboa fica no 139.º
É um território diversificado, relativamente vasto, que está entre as duas regiões metropolitanas e vai desde o mar até Espanha. Incorpora uma rede de centros urbanos, na qual, como se pode ver no relatório,  Portugal no Centro, Coimbra ocupa uma posição importante, com virtualidades estratégicas que a podem potenciar. O seu contributo para a dinâmica do conjunto é decisivo. Fica assim claro que o desenvolvimento de Coimbra se robustece na medida em que se afirme como fator determinante do desenvolvimento da Região Centro e que não é sequer pensável que este possa ocorrer sem um envolvimento forte de Coimbra.
E, insista-se, sem um desenvolvimento da Região Centro suficientemente forte para induzir um reequilíbrio do país, Portugal está condenado a transformar-se num território despovoado que separa Espanha de uma faixa costeira congestionada, onde os portugueses se aglomeram, principalmente concentrados em dois abcessos metropolitanos.

4. Fica claro que Valorizar Coimbra é um aspeto determinante da valorização da Região Centro e que a valorização desta Região é um dispositivo estratégico sem o qual o horizonte de um desenvolvimento equilibrado e humanista do nosso país se fecha drasticamente.
Não depende dos responsáveis autárquicos de Coimbra que todos estes percursos se façam. Mas o caminho que se percorreu nos últimos quatro anos e o que será percorrido, se os eleitores de Coimbra quiserem confiar ao PS o desígnio de Valorizar Coimbra, harmonizam-se naturalmente com o que deve ser percorrido nos planos regional e nacional.
Esta comunicabilidade, entre o plano municipal e os outros dois, tende a impregnar cada vez mais o modo como se for valorizando Coimbra no plano autárquico. Mas tende também a converter a valorização de Coimbra num desígnio regional e nacional, uma vez que ela é um fator determinante da valorização de Portugal.

5. A esta luz, compreende-se bem como é importante que a Câmara de Coimbra coopere leal e intimamente com o Governo. Principalmente, quando uma e outro tiverem inscrito nos seus programas um mesmo horizonte, como acontece agora. Um horizonte, bem distanciado do neoliberalismo troikista, que incorpore a ideia de que o protagonismo municipal é um precioso recurso da democracia e do desenvolvimento, rumo a mais justiça e mais liberdade.
Em Coimbra, nestas eleições autárquicas, o modo de a direita se bater contra a atual solução governativa nacional liderada pelo PS é atacar a lista do PS liderada por Manuel Machado, tentando impedi-la de ganhar. Fá-lo a várias vozes. O seu improvável êxito seria a vitória de Passos Coelho, da Assunção Cristas, da troika, que assim ficariam mais acirrados na sua determinação de nos fazerem voltar ao pesadelo austeritário. Mas seria também amputar Coimbra da possibilidade de prosseguir um caminho que a robustecerá e contribuirá para uma Região Centro mais desenvolvida e para um país melhor. Seria, portanto, um prejuízo para Coimbra, para a Região Centro e para Portugal.

sábado, 16 de setembro de 2017

O PESSIMBRISMO - doença infantil do eleitoralismo



O pessimbrismo - doença infantil do eleitoralismo

Nas instâncias de terapêutica psicossocial sopra uma brisa de preocupação. Em Coimbra, na pré-campanha para as eleições autárquicas fez uma insidiosa aparição uma nova maleita: o pessimbrismo.

Alguns conimbricenses, envolvidos numa sofreguidão de hostilidade à  atual maioria  do PS na vereação municipal, deixaram-se envolver num denso véu de crispação. Deixaram-se possuir por uma raiva profunda tingida de ansiedade, que lhes chegou aos ossos, acabando por lhes sorver a alma e turvar o entendimento.

Foi assim que passaram a olhar para Coimbra sem a verem. Realmente, por mais que olhassem, apenas se viam a si próprios. Já não conseguiam ver os seus pontos luminosos e os seus  pontos obscuros, a luz das suas virtudes e a obscuridade dos seus defeitos. Já não conseguiam distinguir no passado o que iluminava o futuro e o que lembrava o sacrifício e o sofrimento de tantos. Tudo lhes projetava no espírito um cinzento murcho, uma paisagem carcomida e sem esperança, que diziam nascida do nada nos últimos quatro anos. 

Essa nuvem insalubre que os envolveu tolhe-lhes o entendimento. Não tendo uma visão objetiva do que em Coimbra está mal e incompleto, do que está bem e pode ser melhorado, bem como do ritmo que o progresso pode ter, podem na melhor das hipótese dizer coisas, mas ficam longe de saber como as podem realizar. E ao intuírem isso, o seu pessimbrismo agrava-se. Tudo parece afligi-los.

Olham para a estátua de Joaquim António de Aguiar na Portagem e dizem: “Que tem isto a ver com a estátua da liberdade?”.
Contemplam o dorso de prata do Mondego e pensam:” Velho basófias, não te comparas ao Sena, nem ao Tamisa e muito menos ao Tejo”.
Deixam incrustar-se-lhes no olhar a velha torre da Universidade e comparam: “Não chega aos calcanhares da Torre Eiffel”?
Leem no jornal uma notícia auspiciosa sobre a Universidade de Coimbra e clamam: “Fraquinha, fraquinha, quando poderá chegar ao nível de Oxford ou de Harvard”?
Passam pelo Museu Machado de Castro e resmungam : “ Ou isto ou o Museu do Louvre”.
Implacáveis perguntam : “Como podemos levar a sério uma cidade que tem menos habitantes do que um bairro de São Paulo”?

Uma angústia profunda se apossa assim dos seus agitados espíritos pelo facto de Coimbra não ser em simultâneo Nova Iorque, Paris, Londres, Oxford, Lisboa, São Paulo e muitas outras cidades. Ser um quase nada perante essa imensa metrópole imaginária.
Todavia, se o pessimbrismo os não tivesse diminuído, teriam podido lembrar-se que, do outro lado dessa mesma angústia, pode estar  uma verdade simples e trivial: por mais que todas essas cidades se juntem ou se conjuguem não conseguirão ser Coimbra. Esse pequeno extrato de senso comum não é mais do que isso, mas a falta dele é um dos aspetos de pessimbrismo.
Não é por isso estranho que tantos estudantes de outros países decidam vir estudar para Coimbra, que tantos turistas se deem ao cuidado de nos visitar. Por ser diferente de outras cidades e não por copiá-las, com maior ou menor fidelidade. Por querer estar em pleno no mundo com autenticidade, nunca por se deixar diluir nele como coisa urbana incaraterística e a-histórica.

Mas os pessimbristas têm uma dificuldade acrescida. Ao acentuarem até ao paroxismo uma imaginação negativa de Coimbra, tornam mais ostensiva a sua incapacidade para sequer imaginarem como sair dessa ficção negativa, tornando ainda mais difícil dar o mínimo de verosimilhança às suas capacidades para tirarem Coimbra do buraco onde imaginam que caiu. Quanto mais tingem de negro o seu diagnóstico, mais põem a nu a sua objetiva incapacidade para reverterem os males que dizem existir .
 A ficção que segregam para apoucar a gestão camarária atual acaba por apoucar ainda mais as suas virtualidades como candidatos. O seu diagnóstico como uma nebulosa fantasiosa e deprimente vale por si próprio. Os riscos inerentes à sua chegada ao poder tornam-se clamorosos.

No entanto, com o passar dos dias, nas instâncias de terapêutica psicossocial  começa a ganhar corpo uma convicção: o caminho mais adequado para se curarem consistentemente os que sofrem de pessimbrismo é uma cura prolongada de oposição

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Em Coimbra, navegações políticas


 
 


Em Coimbra, navegações políticas


1.Coimbra não é um absoluto a-histórico sobre o qual possam recair utilmente todas as imaginações. Não é um espaço mágico imune aos problemas e aos sofrimentos do mundo e do país. Mas é suscetível de ser valorizada pelas imaginações que em cada circunstância possa acolher como benefícios. Pode ser valorizada por decisões municipais, nacionais, europeias ou internacionais. Há decisões que podem ser tomadas utilmente em cada um destes planos e há decisões, cuja viabilidade depende da conjugação de vontades oriundas de dois ou mais de entre eles. Mas não há decisões que caibam a uma nuvem de distintas entidades ou que possam ser tomadas indiferentemente por várias delas.
Numa campanha eleitoral autárquica é, por isso, importante que a avaliação de cada mandato e das propostas apresentadas seja encarada tendo em conta as reais atribuições das autarquias ou a possibilidade da sua cooperação com outras entidades, quando legalmente admitida. Aliás, os municípios, estando naturalmente subordinados à lei, serão sancionados se agirem fora dela.
Um outro plano é o que envolve a pressão que as autoridades municipais possam fazer sobre as instâncias nacionais, europeias ou internacionais para, no quadro das respetivas competências, tomarem decisões que beneficiem Coimbra. O resultado dessa pressão persuasiva depende muito menos de quem a faz do que dos seus destinatários
Misturar todos  os planos mencionado, responsabilizando o poder autárquico pelo que se passa em todos eles é, não só um fator de confusão, mas também uma imputação injusta.
Pode ainda ser legalmente admissível uma cooperação institucional, envolvendo não só um município como outras entidades, no quadro de uma parceria contratualizada. Neste caso, cada autarquia tem sobre a matéria em causa uma responsabilidade partilhada com as entidades com quem contratou. E se cada autarquia é naturalmente responsável pelos resultados do exercício dos seus poderes, já não o pode ser quanto aos resultados inscritos em esferas de competência alheias, mesmo que eles se reflitam no território municipal.

2. Lembrar tudo isto ajuda-nos a avaliar e compreender melhor o que valem e significam as críticas e as promessas feitas no decurso de uma campanha eleitoral autárquica. Nesta medida, vale a pena lembrar que uma grande parte das críticas feitas à atual liderança do PS na Câmara de Coimbra, protagonizada por Manuel Machado, enferma de uma nítida confusão quanto ao âmbito das competências municipais.
Nas hipóteses mais benignas, é alegada insuficiência do protagonismo municipal na pressão sobre outras instâncias, como se a decisão destas últimas fosse um resultado automático da simples pressão sobre elas exercida pelo município de Coimbra. Na pior hipótese, é acusada a autarquia por omissões ou ações que apenas podem ser imputadas a outras entidades.
Todo esse ruído produzido pelas oposições à atual maioria camarária é, na maior parte dos casos, pouco mais do que propaganda. Propaganda eventualmente destinada a disfarçar a falta de propostas verdadeiramente integráveis numa visão futurante de Coimbra. Uma visão que dê centralidade ao município de Coimbra como parcela relevante do desenvolvimento nacional e que valorize realmente a qualidade de vida das pessoas concretas que aqui vivem.
3. Neste contexto, vale a pena comentar um dos aspetos que caracterizam a oposição de direita protagonizada, quer por “Mais Coimbra” (os partidos da troika), quer por “Somos Coimbra” (a direita dissimulada). Refiro-me à obsessão quantitavista e numerológica, envolvida na imputação à atual liderança municipal das várias desgraças que essa visão segrega.
São desgraças centradas no ranking demográfico nacional, no qual Coimbra estaria mal situada. Desgraças imaginárias que se invocam como se fosse esse o critério absoluto de aferição quanto à qualidade de vida dos habitantes de Coimbra. Ora, nem a qualidade de vida de quem vive em Coimbra depende do número de habitantes que aqui residam, nem os vários fatores de atratividade de que beneficie dependem de um hipotético “ranking” demográfico.
Haverá alguém que decida visitar ou ir viver para uma cidade, neste ou num outro país, por causa do lugar que ela ocupe no “ranking” populacional do respetivo país? A qualidade de vida dos cidadãos que vivem num município depende, do modo como se organizem entre si e dos recursos de que disponham, não do seu número. O aumento do número de habitantes não é em si um fator objetivamente qualificante, mas se aumentar exponencialmente pode tornar-se num elemento negativo. Basta olharmos para a qualidade de vida nas grandes metrópoles mundiais para vermos isso.
É certo que a densidade demográfica à escala de um país ou de uma cidade não é uma problemática inócua, mas não é única nem decisiva. E, seguramente, que não depende nem exclusiva nem principalmente de políticas autárquicas.
Seja como for, esta questão deve ser olhada à luz da dimensão e da densidade e evolução demográficas de Portugal, à luz da identidade humana e simbólica de Coimbra e à luz de uma imaginação de futuro que se não conforme com a incompletude da sociedade presente. Se assim fizermos, insisto, facilmente perceberemos que a valorização de Coimbra não tem como questão central a sua evolução demográfica, especialmente se tivermos apenas em conta os seus aspetos quantitativos globais.
Do mesmo modo, não faz qualquer sentido seguir o economês neoliberal que aponta como grande desígnio municipal uma tosca miniatura das medidas inscritas no modelo que afundou o país. Aliás, é verdadeiramente estranha a preocupação afixada quanto aos mais desfavorecidos, quanto aos injustiçados e excluídos, pelos que nesta campanha ostentam as cores dos partidos “troikistas”.
Por um lado, defendem um modelo de sociedade que gera excluídos, por outro, prometem preocupar-se muito com eles. Defendem um modelo de sociedade e uma linha política que gera desemprego e degrada a condição social dos trabalhadores, mas afixam como grande desígnio a luta contra o desemprego. Um desígnio, aliás, quanto ao qual todos sabemos que o papel direto das autarquias é claramente menor.
4. Genericamente, para além desta confusão estrutural que inquina grande parte dos programas autárquicos das oposições, há algumas observações que devem ser feitas. Desde logo, eles ignoram quase por completo o funcionamento quotidiano da autarquia, as questões que a envolvem no plano administrativo, relacional e financeiro. E assim mostram que, quanto ao funcionamento quotidiano das estruturas municipais, ou não encontram razões para crítica, ou não conhecem suficientenmente a realidade para poderem opinar sobre ela, ou nem se apercebem da importância desse aspeto da vida do município.
Muitas vezes, fica claro no que dizem desconhecerem o detalhe da vida da autarquia, uma vez que propõem como novidades iniciativas que já estão em marcha, sugerem caminhos que já estão a ser percorridos ou apontam para a necessidade de serem lançadas parcerias que afinal já estão instituídas. Quando seria demasiado chocante esse tipo de equívoco, ficam-se modestamente pelo reparo quantitativo, dizendo que se devia fazer mais. Dizem, mas não dizem quanto, como, nem dão sinais de que seriam capazes de pôr em prática a aceleração que propõem.
Mas tal como atrás alvitrei, um dos aspetos mais mistificatórios das campanhas das oposições está no facto de fazerem propostas e fixar objetivos que transcendem claramente a esfera de competências de um município. Quase se podia aplicar, ao essencial das propostas feitas pelas oposições ao PS nesta campanha autárquica, uma observação crítica que fez história a outro propósito: as coisas novas não são boas e as coisas boas não são novas.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.



O ENIGMÁTICO VOO DAS ARMAS.

A trovoada mediático-política desencadeada, pelo facto de o Ministro da Defesa ter admitido publicamente que o desaparecimento de armas ocorrido em Tancos, podia não ter tido como causa um assalto, é um pouco vesga , na medida que olha tudo para um lado e nada para o outro.
O próprio Presidente da República se viu obrigado a uns murmúrios ambíguos, como se quisesse evitar que o acusassem de ter ficado calado.
E, no entanto, quando eclodiu a bronca , em separado os "capitães de Abril" Vasco Lourenço e Sousa e Castro disseram publicamente algo de semelhante, mas muito mais clara e argumentadamente. Ficaram sem resposta pública. O silêncio mediático que rodeou essa posição apenas foi rompido num ou dois casos isolados. Os políticos trovejantes que flagelavam o Governo quanto a isso disseram nada.


Que se ache necessário o apuramento da verdade é legítimo e não há quanto a isso divergências. Mas que a verdade apenas seja admitida se confirmar o acerto da sofreguidão antigovernamental da direita e seus acólitos, é que parece ilegítimo.
Não havendo ainda conclusões finais críveis e conhecidas, não se compreende porque se considera algo de politicamente negativo mencionar um tipo de resultado que nada até agora permite excluir por completo.


É aliás estranho que esta hipótese tenha sido ignorada; e seja até considerada como proibida. É que se o que tivesse acontecido fosse uma montagem politico-mediática que ficcionasse um assalto inexistente para pôr em cheque o Governo, nós estaríamos perante uma conspiração política muitíssimo mais grave do que um assalto a um paiol de munições. 


Por que razão os intemeratos cultores da verdade se desinteressam subitamente dela, quando se levanta a hipótese de ter ocorrido uma grave conspiração política antidemocrática?


Por isso, vos confesso que este alarido contra o Ministro da Defesa me deixou desconfiado. 


Alguém quer evitar que se alvitre a hipótese de um falso roubo como parte de uma conspiração política. Investigue-se essa hipótese. Se a hipótese se não confirmar e se chegar á conclusão de que houve realmente um assalto, muito bem. A versão inicial aparente estava certa. Mas perante tanto ruído quem realmente for um servo fiel da verdade , de toda a verdade, só pode congratular-se com a exploração dessa hipótese. Ou será que já o foi e nós ainda não sabemos? Insisto: muito mais grave do que um assalto a um paiol de armas , é uma conspiração anti-democrática.

domingo, 10 de setembro de 2017

Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais



Coimbra – ruídos locais, objetivos nacionais

1.As eleições autárquicas são competições políticas, cuja principal incidência são os municípios e as freguesias, mas que não deixam de ter reflexos importantes na política nacional. Reflexos especialmente marcantes a partir do que ocorra quanto às Câmaras Municipais. Não fazendo, naturalmente, qualquer sentido o menosprezo pela dimensão local dessas pugnas, seria pura miopia política ignorar a repercussão na política nacional dos seus  resultados. Aliás, um simples exercício de memória nos fará lembrar casos concretos em que esses resultados suscitaram quedas de governos centrais, para além de terem tido repercussões menos ostensivas em muitas outras ocasiões.

Quanto a este tipo de eleições, não está instituído um critério, objetivo e consensual, para distinguir uma vitória de uma derrota. E é certo que considerar um resultado bom ou mau depende em larga medida da comparação com resultados anteriores de cada força política em cada local. Pode valorizar-se o total do número de votos obtidos, o total de Presidências de Câmara ou de Juntas de Freguesia conquistadas, os resultados das principais cidades ou das capitais de distrito ou dos municípios mais populosos. A experiência mostra que neste caso tem especial significado a imagem política global projetada pelos resultados das eleições, não sendo predetermináveis os tipos de combinações de resultados que lhe darão origem. Mas há municípios quanto aos quais é inequívoco que os resultados neles ocorridos contribuem especialmente para projetarem uma imagem de derrota, de empate ou de vitória.

Coimbra, sem margem para dúvidas, é um desses casos. E, na atual conjuntura, o principal efeito político nacional destas eleições será o reforço ou o enfraquecimento do Partido Socialista; e, indiretamente, o reforço ou o enfraquecimento do atual governo e, consequentemente, do acordo político que lhe dá suporte. Simetricamente, ocorrerá um reforço ou um enfraquecimento dos partidos da troika (PSD e CDS).

Compreende-se, por isso, que este pano de fundo tenha que estar bem presente, quando se participa em Coimbra na luta política autárquica, nomeadamente, aqueles que hesitem quanto à opção a tomar.


2. À luz o que se acaba de dizer, vale a pena refletir sobre a repercussão nacional da campanha autárquica que está a decorrer em Coimbra. Entre as alternativas a Manuel Machado, atual Presidente da Câmara que lidera a candidatura do Partido Socialista, três delas têm um especial significado político. Refiro-me às duas candidaturas de direita, “Mais Coimbra” e “Somos Coimbra” e à candidatura dos “Cidadãos por Coimbra”.

Todas elas desempenham, objetivamente, o papel de dispositivos de combate político ao governo do PS liderado por António Costa. Na verdade, como já se disse, os resultados que se verificarem em Coimbra não deixarão de pesar na relação de forças nacional. A vitória do PS reforçará o atual governo, melhorando as condições e as virtualidades da sua ação; um mau resultado para o PS não deixará de fazer aumentar os obstáculos à ação do governo.


3. Por isso, os partidos da troika, representados em Coimbra pela coligação “Mais Coimbra”, embora tornando tão pouco ostensiva quanto possível a sua pertença ao séquito de Passos Coelho e de Cristas, são um dispositivo muito importante na estratégia nacional de combate do PSD  e do CDS contra o atual governo. Se eles vencessem em Coimbra, estariam a oferecer um precioso balão de oxigénio ao radicalismo austeritário de Coelho e Cristas, que o bom funcionamento e os resultados positivos da atual solução governativa têm vindo a desacreditar crescentemente.

E isso acontece, quer porque Coimbra é um município com alto valor simbólico, quer porque tem à sua frente o Presidente da Associação Nacional de Municípios. Dir-se-á que, nas atuais circunstâncias, a hipótese de uma vitória da direita em Coimbra é muito remota. É verdade. Mas foi a esperança nisso que levou os partidos da troika a unirem-se e é esse o verdadeiro conteúdo da candidatura “Mais Coimbra”. O resto é meramente instrumental.


4. “ Somos Coimbra” visa o mesmo objetivo, mas opta por outro caminho. Também entende que as eleições autárquicas são uma importante oportunidade para enfraquecer o atual governo do PS e iniciar a reversão do predomínio institucional das esquerdas, mas pensa que se o fizesse em campo aberto e de rosto descoberto, apostando na continuidade das atuais lideranças da direita, teria reduzidas hipóteses de êxito. Por isso, recorreu à liderança de alguém cuja notoriedade não estava predominantemente radicada na política (ainda que consabidamente oriundo da área política do PSD), para montar a ficção e tentar produzir a ilusão de uma candidatura independente "acima" dos partidos.

Adotou uma velha consigna mistificatória (a que a direita sub-reptícia sempre recorre quando se quer disfarçar) ao afirmar-se nem de direita nem de esquerda. Dotou-se de três ou quatro vultos universitário-empresariais, para ostentar uma patine mais aliciante, embrulhou tudo isso num discurso holístico previsível e arredondado, distribuiu alguns anátemas de circunstância, promoveu uma certa ressonância mediática, e sentiu-se suficientemente irresistível para avançar.

Foi, no entanto, prudentemente tomada por uma discreta pulsão cautelar. Receando que o ilusionismo fosse tão completo que iludisse alguns dos próprios eleitores da direita, deixou transparecer publicamente o apoio explícito de uma das principais liderança do PSD de Coimbra nas últimas décadas que, aliás, já ocupou a Presidência da Câmara de Coimbra, durante mais de um mandato no início deste século. É um outro tipo de tentativa de enfraquecer o atual Governo, mas não deixa de o ser.


5. Pelo seu lado, os Cidadãos por Coimbra deixaram-se aprisionar num dramático dilema: ou subordinam a sua intervenção municipal à sua identificação genérica com a solução política nacional vigente e desvitalizam-se; ou privilegiam e radicalizam a sua intervenção municipal e combatem-se a si próprios no plano nacional, ao vulnerabilizarem o governo do PS e a solução política que o viabiliza (com a qual ao que parece concordam).

É um dilema com duas raízes principais. Em primeiro lugar, os CPC surgiram em 2013 como uma subtil “frente de massas” do Bloco de Esquerda, revestida pela aura de uma intenção frustrada de unidade à esquerda, mas principal e objetivamente dirigida a evitar uma vitória do PS em Coimbra. Falhado o objetivo, ao contrário da CDU, assumiram sempre uma oposição agressiva à Presidência do PS. Uma oposição  assente mais em resmungos e detalhes do que numa serena divergência de horizontes e de projeto.

As eleições legislativas de 2015 impulsionaram a criação do Livre/Tempo de Avançar, novo partido que absorveu a quase totalidade dos CPC exteriores ao BE. Na prática, os CPC transformaram-se assim numa coligação não assumida. A solução de governo saída das eleições teve no PS o protagonista liderante. Englobando o BE, correspondia também no essencial ao preconizado pelo Livre/Tempo de Avançar que só não participou nela por não ter elegido qualquer deputado. Mas esta mudança nacional da conjuntura política não suscitou no comportamento dos CPC qualquer mudança de atitude no plano autárquico. A coligação implícita dos CPC que era favorável ao governo do PS no plano nacional continuou a hostilizá-lo em Coimbra no plano autárquico.

Recentemente, houve uma cisão nos CPC. Um grupo de algumas dezenas de membros, onde se incluía a maior parte dos seus eleitos municipais e várias das suas figuras públicas mais conhecidas, abandonou publicamente os CPC. Os dissidentes pertenciam em grande parte ao Livre/Tempo de Avançar. Duas versões da clivagem percorreram a murmuração política e pairaram nas entrelinhas das posições publicadas. Os que saíram acusam os que ficaram de completa subalternidade e dependência em face do BE, cujo alegado controleirismo vituperam. Os que ficaram acusam os que saíram de almejarem integrar uma aliança política mais ampla e fortemente inclinada à direita. Os que ficaram escolheram para os encabeçar um político com experiência autárquica que pouco antes se desfiliara do Partido Comunista. O tom da campanha que têm vindo a fazer parece dar continuidade à acrimónia habitual quanto à candidatura do PS, dando assim corpo ao dilema atrás referido. Politicamente, pode assim dizer-se que em parte se combatem a si próprios; autarquicamente procuram enfraquecer o mais possível aquilo que defendem nacionalmente.

Para dramatizar o dilema, o atual coordenador dos CPC, pública e simultaneamente, demarcou-se energicamente da candidatura do PS, mas afixou a intenção de convidar o candidato por si rejeitado, para que em conjunto com os CPC e a CDU, logo após as eleições, liderasse um bloco de poder. Ou seja, após as eleições, a exceção de Coimbra desaparecia, reproduzindo-se uma solução paralela à nacional. Isto é, os CPC fazem tudo para impedir o PS de eleger o seu candidato como Presidente (o que significa dar inevitavelmente a Presidência à direita), mas, se o não conseguirem, querem aliar-se com ele.


6. Em contraponto, a candidatura do Partido Socialista liderada por Manuel Machado, tem tornado cada vez mais claro que o seu modo de Valorizar Coimbra respeita realmente a sua densidade simbólica e solidariza-se profundamente com a sua vocação futurante que se propõe incentivar. Não o faz contudo, encerrando-se num bairrismo estéril, mas assumindo por completo a ideia de que valorizar Coimbra é um contributo insubstituível para valorizar Portugal. A contribuição de Coimbra não é substituível por outra qualquer, pelo que sendo naturalmente um desígnio municipal é também necessariamente um desígnio nacional.

Assim, a sinergia entre o atual Governo de Portugal e a atual maioria na Câmara Municipal de Coimbra que se começou a instituir desde que a atual solução governativa iniciou funções há menos de dois anos, abre horizontes muito esperançosos para os próximos anos. O atual governo terá em Coimbra um parceiro que lhe permitirá exercer aqui o seu mandato com plena fecundidade, o governo autárquico de Coimbra liderado por Manuel Machado terá no poder central um parceiro que lhe permitirá valorizar Portugal através da valorização de Coimbra.

Há assim dois tipos de repercussão nacional dos resultados autárquicos de Coimbra. Uns procuram instrumentalizá-los para enfraquecer a atual solução governativa na esperança de trazerem de volta as políticas da troika. Outros procuram reforçar sinergias virtuosas entre os poderes democráticos autárquicos e centrais, em benefício de Coimbra e de Portugal.


Há ainda  os que parecem estar a disparar sem ter uma ideia clara quanto ao alvo a atingir. Por isso, quanto a estes últimos, o que de melhor se pode esperar é que não façam muitos estragos.