sexta-feira, 16 de junho de 2017

A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?



A imponente França de Mácron ─ uma ilusão institucional?

Só o decurso do próximo quinquénio da Presidência de Mácron em França nos dirá se a sua entrada de rompante na cena política assinala o princípio do fim da quinta república ou o seu renascimento.
 
A primeira volta das eleições legislativas confirmou a vaga de fundo a seu favor que as sondagens haviam anunciado. Embora só após a segunda volta se fique a saber a dimensão da vitória do “La Republique en Marche“ (LRM), não há dúvida de que ela será retumbante, quanto ao número de deputados eleitos. Feitas as contas, talvez seja mesmo impossível que lhe venha a escapar a maioria absoluta, mesmo que haja uma reviravolta improvável, na segunda volta.
 
As projeções de resultados apontam como possível que os macronianos tenham mais do dobro dos deputados de todos os outros partidos juntos; entre 415 e 455 num parlamento com 577 lugares. Deste modo, na Assembleia Nacional o seu predomínio será esmagador. Veremos que força virão a ter no Senado, bem como  nos órgãos de poder regional e local, dada a anunciada deserção a seu favor de alguns dos respetivos protagonistas, vindos da esquerda e da direita.  
 
Mas o binómio Presidente da República/ maioria parlamentar, com esse peso institucional avassalador, que base eleitoral terá, em termos reais? Que percentagem do eleitorado votou nos deputados macronianos? Quantos franceses votaram neles, nesta primeira volta das legislativas?
 
O jornal francês  “Le Monde” publicou uma análise comparativa que vale a pena ter em atenção. Comparou as percentagens obtidas pelo partido ou partidos que apoiaram o Presidente da República eleito nas primeiras eleições legislativas subsequentes à respetiva eleição. Tendo em conta situações semelhantes que ocorreram em 1981, 1988, 2002, 2007 e 2012,a percentagem obtida pelos apoiantes de Mácron, na primeira volta das legislativas de 2017, foi a mais baixa de todas; obteve 32,2 %, dos quais 28,1% foram conseguidos pelo LRM. Se compararmos com o que ocorreu com Hollande há cinco anos, verificamos que na primeira volta das legislativas subsequentes à sua eleição, os partidos que o apoiavam obtiveram 46,77 % , tendo o PSF sozinho atingido 29,35 %.
 
Paralelamente, a abstenção subiu, de uma eleição para a outra, mais de 5 milhões de eleitores. Na primeira volta destas últimas legislativas, os partidos de esquerda (como um todo) foram laminados, embora o desastre do PS tenha sido de longe o maior e tenha havido um reforço da França Insubmissa/Partido Comunista Francês (FI/PCF). Somando as percentagens atingidas por todas as esquerdas, vemos que elas chegaram a 28,32%, em confronto com os 32,21 % da maioria macroniana. A maioria macroniana tem duas parcelas, LRM -28,21% e MODEM -4,11%. Assim, o conjunto de todas as esquerdas tem uma vantagem muito ligeira em número de votos relativamente aos macronianos “puro sangue”.
 
No entanto, as projeções apontam para uma relação de forças em número de deputados em que a maioria macroniana pode chegar aos 455 deputados eleitos, enquanto que as esquerdas somadas, na pior das hipóteses, podem ficar-se pelos 27 deputados (20-PS; 7- FI). O que separa os dois blocos, no plano do apoio popular efetivo, é a diferença entre sete milhões e trezentos mil e seis milhões e quatrocentos mil eleitores. Diferença distorcida pelo tipo de conversão de votos em mandatos que faz com que uma relação de forças, em que a vantagem da maioria presidencial se reduz ao peso do MODEM (4%), se converta na abissal diferença entre 455 e 27.
 
Esta anomalia  democrática, suscitada pelo cruzamento entre um sistema uninominal a duas voltas e uma nova relação de forças entre os grandes espaços políticos franceses, não se circunscreve ao que se acaba de escrever. Recorramos, uma vez mais , ao Le Monde  que procedeu a um cálculo simulado que mostrasse quantos deputados teriam sido eleitos por cada partido  para o parlamento francês, no caso de os votos obtidos no passado domingo terem sido convertidos  em mandatos segundo o método proporcional. A maioria presidencial de Mácron, em vez de se fixar em 455 deputados, como as projeções mais otimistas lhe vaticinam no quadro do atual sistema eleitoral, ficar-se-ia pelos 186; ou seja, mais de cem deputados abaixo da maioria absoluta ( que é de 289). Os socialistas e aliados teriam 80 deputados em vez de um máximo de 30; a FI e o PCF teriam 84 em vez de 12.
 
Ou seja, o conjunto da esquerda, com 164 deputados, ficaria com menos 22 deputados do que os 186 de Mácron. No atual sistema de distribuição de mandatos, com a mesma diferença em número de votos a esquerda no seu todo poderá ficar, na melhor das hipóteses com 42 deputados em face dos 455 dos macronianos. Ou seja, com menos 4% de votos do que a maioria presidencial, a esquerda  ficará com menos de um décimo dos deputados que caberão aos macronianos.
 
O resto da Assemblée Nationale agrava a disfuncionalidade deste panorama. A FN, que poderá ter no máximo 5 deputados no sistema atual teria 85, se o escrutínio fosse proporcional. Apenas a direita tradicional é menos severamente atingida. Na verdade, conta-se que tenha no máximo 110 deputados no sistema vigente, enquanto chegaria aos 124 numa distribuição proporcional. No total, a maioria presidencial ficará com mais de 78% dos deputados, embora só disponha de menos de um terço dos votos; mas os outros dois terços de votos ficarão representados por pouco mais de 20% dos deputados.
 
De um ponto de vista institucional, a legitimidade de Mácron  e da maioria parlamentar que o apoia é inquestionável, mas os cidadãos que o apoiam não se multiplicam por prestidigitação e os que não se reveem no seu projeto não se evaporaram. Em mais de 45 milhões de inscritos, houve mais de 24 milhões de franceses que se abstiverem, não tendo assim votado nem nos apoiantes de Mácron, nem nos outros. Ao fim e ao cabo, apenas 7 milhões e trezentos mil franceses se mostraram identificados com o projeto Mácron, enquanto mais de 15 milhões e quinhentos mil se mostraram alinhados com outras posições ao votarem nelas . Portanto, a enorme vaga institucional de apoio a Mácron não pode deixar de ser redimensionada, à luz da relativa modéstia da sua efetiva irradiação social.
 
É certo que ele vai ter a força que resulta do enfraquecimento dos outros. A direita clássica ainda não sabe a extensão dos danos sofridos, não calculou ainda o grau de oposição que vai ter  e os seus punhais já a ser afiados não sabem ainda em que costas “amigas” se vão cravar. A extrema-direita está em pausa, hesitando entre a continuidade e a habilidade, esperando perceber que espaço sociopolítico lhe vai ser concedido pelo macronianismo. À esquerda, os ecologistas parecem em suspenso, vagamente receosos de uma irrelevância duradoura. A FI tornou-se, em conjugação com o PCF, a força numericamente predominante á esquerda, ainda que não deva vir a ter o conjunto de deputados relativamente mais numeroso. A conjugação deste reforço com a perenidade ou não do PCF projeta neste espaço uma equação complexa.
 
Quanto ao Partido Socialista Francês passou de 29,35 % de votos na primeira volta das legislativas de 2012, para 7,44%, cinco anos depois; tendo perdido quase seis milhões de votos nestes últimos cinco anos. Despindo-o dos seus aliados habituais, ele próprio considerado isoladamente ficou ligeiramente abaixo de um milhão e setecentos mil votos. Não é neste momento totalmente clara a medida em que está internamente dilacerado entre dinâmicas inconciliáveis. É ainda incerto se tentará liderar uma esquerda, no seio da qual conviverá outros sujeitos políticos, se será vítima de uma fatal atração pela maioria presidencial, se será repartido entre esses dois caminhos.
Depois do próximo domingo, voltaremos a falar sobre tudo isto. Especialmente, a propósito do PSF; dos seus desígnios e do seu horizonte.
 
Com o tempo irá ficando inequivocamente a descoberto a matriz do macronianismo, cujo primeiro-ministro é já hoje um antigo expoente da direita clássica. O que ocorreu nestas duas mais recentes eleições de maio e junho, é desde já um golpe profundo nos socialistas franceses, que vem somar-se a outros desaires socialistas noutros países, se bem que não em todos. Só por isso, teria sido um golpe relevante no panorama politico-partidário da França. Mas o que acabo de escrever mostra bem que, mais do que isso, o que está em cima da mesa é uma crise profunda no sistema político francês.
Na verdade, é uma aventura imprudente aceitar um tipo de conversão de votos em mandatos que empola escandalosamente uma minoria, por ser ela a maior minoria , em detrimento de várias outras minorias que sendo menores, uma a uma, consideradas em conjunto valem o dobro daquilo que vale a minoria maior; aquela  que se prepara para um açambarcamento desmesurado do poder.  
 
O foguetório dos “robertos” da comunicação social  europeia festejou a derrota da extrema-direita representada pela vitória de Mácron. Mas nada pode ser mais favorável á FN em França do que ficcionar como democraticamente aceitável o exercício de um poder baseado num sistema eleitoral que dá o predomínio absoluto a um terço do eleitorado e deixa fora do jogo institucional os outros dois terços. Esta relativização da democracia, se for por diante com a arrogância que se já se adivinha  e com o menosprezo das minorias e mundo do trabalho, pode fazer exultar os alegados mercados, mas não deixa de ser, principalmente, uma inesperada vitória simbólica da Frente Nacional.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

O resultado oculto das eleições britânicas



O resultado oculto das eleições britânicas
As diversas tonalidades de opinião, quanto ao resultado das recentes eleições britânicas, não se afastam muito da imagem geral de um punição à sofreguidão da líder do governo conservador, quando provocou a antecipação de eleições para tornar mais forte a maioria absoluta de que o seu partido já dispunha no parlamento. Teria , aliás, querido matar dois coelhos com uma cajadada: ficava com uma posição mais forte para negociar o “brexit” com a União Europeia e reduzia a uma dramática insignificância os trabalhistas, aos quais as sondagens colocavam com uma desvantagem de 20%.

Uma dramática insignificância que era especialmente aliciante para a Srª May , dado que a esperada  derrocada dos trabalhistas seria a alegada consequência do posicionamento político  do seu líder, que os arautos  e os escudeiros do pensamento único consideravam como demasiado à esquerda, demasiado radicado no imperativo de superação das dificuldades dos britânicos que realmente as têm.

Na verdade, a Srª May ficou abaixo da maioria absoluta na Câmara dos Comuns, precisando de um acordo, que se adivinha volátil, com os unionistas irlandeses, para ter possibilidades de formar governo. Com os seus 318 deputados, precisa dos 10 dos unionistas para passar a barreira dos 326 votos de que necessita. Ficará com uma coligação ou com um acordo mais frágil do que aquilo que era a maioria exclusivamente do seu partido antes das eleições. Os trabalhistas terão 262, os nacionalistas escoceses 35 e os republicanos irlandeses 7.

Do ponto de vista institucional, o significado político dos resultados verificados é realmente o que se acaba de mencionar. Um significado que é a projeção da relação de forças em termos de apoio popular, no modo de distribuição de mandatos inerente ao sistema eleitoral britânico.

Mas isso não impede que seja relevante olhar também para esses resultados eleitorais, valorizando o apoio popular obtido por cada partido, o número de eleitores que optaram por cada um dos partidos. E, assim, vê-se desde logo que os conservadores chegaram aos 42,4%, subindo 5,5 % em relação às anteriores eleições; enquanto os trabalhistas chegaram aos 40%, subindo 9,6 %. Ou seja, os alegados 20% de diferença prometidos nas sondagens, ficaram reduzidos a uns magros 2,4 %. Ou seja, em termos de apoio popular os trabalhistas de Corbyn, apesar da barreira de hostilidade que enfrentou, ficaram a 2,4% dos conservadores, apesar destes terem subido 5,5 %. Parece assim que a Srª May não se enganou quanto ao reforço de apoio que realmente obteve, mas quanto ao apoio popular a uma agenda de esquerda centrada na luta contra a desigualdade e radicada numa aspiração frontal por uma sociedade mais justa. Ela partiu do pressuposto de que Corbyn seria o coveiro dos trabalhistas, quando afinal lhes trouxe um vigor renovado.

Mas esta relação de forças não pode ser verdadeiramente avaliada, se for esquecido que a direita radical, que foi uma alavanca decisiva para a ocorrência do “brexit”, o UKIP, ficou reduzida a 1,8 % (zero deputados), tendo por isso descido 10.8 % desde as eleições anteriores. Isto sim foi um desmoronamento. E os conservadores puderam absorver uma parte do que antes haviam perdido para a direita radical.

Os liberais democráticos, tidos como os campeões da coerência anti--brexit, tendo subido 3 lugares, perderam no entanto 0,5 % do voto popular.

Os nacionalistas escoceses, embora continuando a ser na Escócia o partido mais forte, perderam 19 deputados em 54, ficando apenas com 35, passando assim à escala nacional de 3% para 1,7%.

Algumas conclusões parecem nítidas perante o apoio popular obtido pelas diversas posições. Desde logo, vê-se que os britânicos, embora não indiferentes ao problema do “brexit”, estão mais preocupados com as políticas que internamente vão condicionar a sua vida do que com a alegada performance negocial no plano europeu, deste ou daquele. Nem o UKIP foi recompensado pela sua vitória no referendo pelos que o apoiaram, nem os liberais democratas foram compensados pelo seu europeísmo claro, pelos que são contra o “brexit”.

No seu conjunto, os dois maiores partidos superaram a barreira dos 80% dos votos, repartindo o apoio eleitoral obtido em partes quase iguais. Mas a grande novidade está no facto de os trabalhistas terem atingido os 40%, subindo assim quase dez por cento, com uma proposta política inequivocamente situada á esquerda, esvaziando assim a velha lenda de  que a esquerda só pode ganhar um apoio eleitoral significativo se fizer concessões á direita, de modo a fazer-se passar por uma esquerda  que afinal é centro.

É certo que os “chiens de garde” , os ideólogos do neoliberalismo qualificam como de um século passado todas as propostas que visem uma demarcação em face da atmosfera predatória do capitalismo atual, ambicionando  uma sociedade menos injusta  porque mais igualitária. Propostas que reflitam uma efetiva determinação em acabar com a pobreza, em cortar nos privilégios, suscetível de abrir as portas a um futuro decente para todos. É muito antigo o expediente de qualificar sumariamente como do passado aquilo que não se sabe ou se não quer combater substancialmente em campo aberto no presente . Na verdade, esse expediente é que é realmente do passado.

Mas talvez o mais decisivo tenha sido o facto de Corbyn ter deixado transparecer que o cerne do seu envolvimento político não era uma simples oferta de um programa eleitoral, mas a partilha de um combate. Ora, o povo de esquerda está cansado de ser laminado pela máquina trituradora do neoliberalismo, enquanto partidos que deviam ser seus se mostram mais inclinados a agradar aos poderes económicos de facto do que a ocupar dentro do povo de esquerda o lugar que justifica a sua própria existência. E ele ouve cada vez menos quem apenas lhe peça para votar periodicamente num programa mais ou menos redondo, onde apenas reluz aquilo que mais longe está de poder ser cumprido por quem continuar manso como de costume.

Em contrapartida, o povo de esquerda tem vindo a dar, em diversas circunstâncias  num e noutro país, sinais inequívocos de que está disposto a bater-se e mesmo  a confiar nos partidos que não se conformem com o tipo de sociedade hoje dominante, mostrando-se capazes de apostar na sua transformação, rumo a um pós-capitalismo democrático e emancipatório.

 Os povos parecem cada vez menos dispostos a ser dóceis e a  aceitarem que a máquina trituradora do capitalismo lhes esmague o futuro, sempre legitimada pelos que lhe dizem que não há outra solução. Falta saber se encontrarão um caminho que os transforme numa energia qualificante que possa fazer acontecer a esperança ou se ficarão aprisionados num desespero estéril  que apenas seja suscitável de fazer implodir o que existe numa deriva dissipativa e fatal.

Se os partidos de esquerda forem capazes de ser parceiros fraternos dos seus povos, mergulhando neles as suas raízes, partilhando com eles a procura de uma verdadeira superação democrática do capitalismo, a primeira hipótese é mais provável. Mas se forem enredados nas suas próprias tergiversações ou se sucumbirem à sofreguidão de um imediatismo atabalhoado, estarão a contribuir para que seja maior o risco da verificação da segunda hipótese.

Não deixemos pois reduzir o resultado das recentes eleições britânicas a esse croquete de evidências e banalidades que procura fazer luzir ao máximo as aparências, para que desistamos de pensar no que realmente ele nos mostra. Isto naturalmente sem o encarar como uma dádiva que apenas  nos caiba fruir; mas vendo-o como um sinal incontornável que vale a pena e é possível  lutar politicamente por um futuro mais justo.

Como apontamento caricatural e simbólico, Tony Blair, esse brilhante sargento do general Bush, veio publicamente antes da campanha juntar-se á matilha, tentando apoucar Corbyn. Julgou-o talvez moribundo, mas o que realmente deixou a descoberto foi  a fraqueza da sua lealdade e a falta de decência para com o partido que liderou e para com algué que ocupa hoje a posição que ele antes ocupara. Talvez tenha sido pedagógico,  porque nos fez  lembrar quem realmente é e nos fez recordar a medida em que contribuiu, com a sua via de rendição ao neoliberalismo, para o enfraquecimento dramático de alguns dos partidos que integram o Partido Socialista europeu e que seguiram por ela.

Tavez , Corbyn não lhe tenha ligado muito, mas implicitamente deu-lhe uma resposta demolidora. E tornou ainda mais difícil de contornar a evidência de que o “blairismo” é uma política morta, marcada indelevelmente por uma imprestável cobardia estratégica.

sábado, 27 de maio de 2017

Alter do Chão - memória das raízes


Em 25 de maio de 2017 algumas perspectivas da antiga Escola Primária de Alter do Chão, hoje transformada num Pavilhão Multiusos.






No mesmo local, cerca de cem anos antes ( início da década de 20 do século XX), junto á escola onde era Professora Maria Augusta Vitorino Namorado, num pequeno carro puxado por póneis, os seus quatro filhos mais velhos:na frente, António Namorado e Joaquim Namorado; atrás, Maria José Namorado e Egídio Namorado.


quarta-feira, 24 de maio de 2017

COIMBRA – a discreta sombra de um labirinto



COIMBRA – a discreta sombra de um labirinto

Vai sendo mais audível o tinir das espadas. Aproximam-se os combates autárquicos. A parte dos Cidadãos por Coimbra (CpC) que melhor se harmoniza com o Bloco de Esquerda deu recentemente um importante passo na materialização da sua candidatura, quando anunciou grande parte das suas listas candidatas ás próximas eleições autárquicas.

A sua ambição é  robusta. Propõe-se passar a ser a terceira força no âmbito concelhio de Coimbra, para o que quer triplicar o número de vereadores que antes elegeu. Isso já seria uma progressão espantosa, mesmo que tudo lhes tivesse corrido de feição durante o quadriénio. Mas não foi isso que aconteceu. Ainda,recentemente, foi tornada pública uma cisão ocorrida no seu seio, que a fez perder a quase totalidade dos seus elementos com maior notoriedade pública, entre os quais o seu vereador e os seus deputados municipais. Subsistiram, como elementos com notoriedade pública, os expoentes mais destacados do Bloco de Esquerda no concelho. Por isso, à primeira vista, percebe-se mal por que razão  o BE não se  submete ao sufrágio dos eleitores de Coimbra, sem recorrer ao véu difuso, ainda que virtuoso, dos CpC. 

Tendo tudo isto em conta, o ambicioso desígnio da triplicação dos vereadores  podia ser simplesmente  considerado como um artifício de propaganda, decerto ousado,   mas algo irrealista e, diga-se sem acrimónia,  um tanto caricato. Mas não é um artifício aleatório. No fundo, parece destinar-se a projectar   uma imagem dos CpC que sugira  um potencial efectivo de participação no poder municipal.

Esse quase milagre da triplicação dos vereadores não é por isso uma simples bravata, tão comum em disputas eleitorais. Pelo contrário, é o elemento chave de uma estratégia. Eles querem três vereadores para partilharem o governo do município. Não um governo qualquer,  mas uma solução governativa autárquica  que envolva o PS e a CDU. Registe-se que estes CpC não parecem ter sido contaminados por uma vertigem de serviço público tão forte que os levasse a ser aliciados por um moreirismo qualquer, ainda que atenuado por um leve perfume de choupal. Mas é precisamente a sua louvável virtude geringoncista que os coloca num difícil labirinto.

Na verdade, três vereadores são obra, mas não são suficientes para que os CpC elejam eles próprios o Presidente. E, tendo em conta o peso eleitoral das várias forças politicas de esquerda, revelado em anteriores eleições, o mais provável  é que a sugestão geringoncista , em que almejam participar,  implique a eleição para Presidente do candidato do PS. Ou seja, a sugestão dos CpC pressupõe a vitória do PS.

E aqui é que está o busílis. Na verdade, uma das dificuldades que apresenta essa linha de orientação resulta do facto de só poder haver uma solução geringoncista na vereação de Coimbra, se o PS fizer eleger para Presidente o seu candidato. Se assim não for, teremos, pela força das coisas, um governo municipal de direita, nada podendo fazer contra isso os hipotéticos três futuros vereadores dos Cidadãos. Pela força das coisas,o seu êxito relativo representaria necessariamente uma derrota absoluta do seu principal  desígnio: uma geringonça autárquica. 

Esse hipotético e glorioso  trio correria o risco de implicar pois, em si mesmo, uma vitória da direita em Coimbra. E sendo assim os CpC, em tese, teriam que optar entre continuar fora dessa maioria autárquica ou venderem a alma ao diabo [como certamente diria um conhecido Coelho], fazendo assim as pazes com a direita, com os delegados municipais da gente da troika, que à escala nacional certamente combate. Seria para mim uma enorme surpresa se os CpC não optassem pela primeiro hipótese.

Ou seja, os CpC arriscar-se-iam-se a contribuir para um resultado autárquico em Coimbra que prejudicaria grandemente a solução política nacional que eles próprios defendem, beneficiando em Coimbra aqueles que eles combatem no plano nacional. É um pouco estranho. Um verdadeiro labirinto.

Na prática, embora não o  digam (e mesmo que o não desejem), propõem-se tudo fazer para derrotar o PS em Coimbra, dando assim a Presidência da Câmara à direita, para logo de seguida, se não o conseguirem, se proporem  governar a autarquia em aliança com quem tudo fizerem  para ver derrotado. Lutam pela derrota do PS, mas precisam da sua vitória para dar corpo à via política que preferem. Grande agilidade, grande paradoxo.

Vê-se assim que, como acontece com várias outras forças políticas, os CpC têm certamente propostas interessantes e desígnios legítimos. Pode até talvez dizer-se que têm alguma agilidade no rendilhado dos pequenos  detalhes,  cultivando uma respiração de novidade que  querem aberta. Mas quanto ao essencial  a linha de orientação estratégica deixaram-se enredar num labirinto, cuja saída se não vislumbra. Na verdade, se tivessem êxito, obteriam afinal um resultado que seria  um golpe profundo naquilo que eles próprios defendem à escala nacional.

Ora, em política, quem se deixe encerrar num qualquer  labirinto pode andar muito, mas avançará sempre pouco, arriscando-se a não sair do mesmo sítio. E quando, como hoje, vivemos um verdadeiro tempo de avançar, é indispensável evitarmos o labirinto das nossas pequenas razões, das nossas motivações paroquiais, por mais legítimas que elas nos possam parecer, para podermos caminhar. 

E como última observação: se realmente o BE tem alguma proposta política a fazer ao PS, ao PCP e aos Verdes, no sentido de repercutir no município de Coimbra um acordo que reproduza aquele  que sustenta o actual governo de Portugal, talvez fosse mais apropriado começar por utilizar os canais formais de contacto existentes, em vez de começar por pôr em praça pública uma tão importante sugestão. E, para mais,  fazê-lo através de uma tomada de posição pública de uma estrutura difusa e volátil, não parece um caminho recomendável. Quem o percorra pode dar a impressão de não estar  realmente interessado no que sugere. Pode, na verdade, dar a impressão, quiçá injusta, de que o que verdadeiramente  importa aos proponentes é tornarem publicamente ostensivo o seu apoio á solução de governo actualmente vigente no país, sendo a proposta municipal concreta meramente instrumental e descartável.

Este e outros labirintos lançam uma sombra sobre nós.Por mim, cada vez mais me convenço que é  muito melhor as esquerdas partilharem entre si solidariamente uma difícil respiração do futuro, do que estacionarem na eterna questão de se saber qual a justa medida em que devem ser repartidas entre todas elas as culpas pelas vitórias da direita.


domingo, 21 de maio de 2017

Nem esquerda, nem direita, antes pelo contrário.



Nem esquerda, nem direita, antes pelo contrário.

1. A ideia de que a dicotomia esquerda/direita em política está ultrapassada tem sido objeto de uma grande insistência, nos últimos tempos. Essa insistência é, por vezes, mais intensa em certas conjunturas de alguns países.
Ela pode refletir estratégias e convicções diversas. Pode ser um aspeto parcelar de uma certa maneira de olhar a sociedade, mas também pode ser um simples instrumento tático na luta política. Neste último registo, pode ser um estratagema de camuflagem da verdadeira identidade do seu protagonista ou pode ser uma tentativa de enublar a paisagem política para ocultar a realidade. É essa camuflagem  que se combate, ao defender-se que quem se afirma como “nem de direita nem de esquerda” mostra que é de direita.

2. Em França, esta problemática é de absoluta atualidade. Ela está inscrita no cerne da conjuntura aí vivida, após a eleição de Mácron para a Presidência da República. Aliás, a sua candidatura já inscrevera a superação da dicotomia esquerda / direita como a sua mais funda raiz. Procurou depois conjugá-la com uma outra ideia que difundiu mais contidamente : a de que  era a expressão cimeira do lançamento no caixote do lixo da história de uma política alegadamente velha, personificando uma nova política arejada e limpa. Descartadas as velhas elites, emergiam as novas. Ao povo estava reservada a honrosa tarefa de aplaudir.

Desde logo, a suposta pureza desse corte virtuoso ficou algo embaciada pela presença de algumas velhas raposas no doce galinheiro macroniano que o novo governo quis fazer crer que era. Mas o que acabou por demolir o angelismo político afixado por essa operação governamental , deixando a descoberto uma verdadeira reserva mental, foi  a afirmação pública e tonitruante do Primeiro-Ministro  do novo governo de que era um  homem de direita.

Ou seja, a via macroniana, esse artefacto puro do “nem esquerda/nem direita”, dava o lugar chave da sua dimensão governamental  a um homem de direita, que  na primeira oportunidade mediática achou importante proclamar-se solenemente como tal.

O número dois da “macronarquia” achou importante como elemento estruturante da sua identidade política afirmar-se como um homem de direita. Pergunta-se : mas afinal a diferença entre direita e esquerda existe e é relevante  ou não ? Macron quis fazer crer aos eleitores que não, mas o seu primeiro-ministro quis  deixar bem claro que sim, quiçá, para que o capital financeiro tomasse boa nota e continuasse tranquilo.

Mas esta prestidigitação política acabará por deixar à mostra aquilo que queria esconder. De facto, a encenação macroniana,  em si própria uma operação de ilusionismo, um respirar perverso de virtudes  virtuais e não vividas, logo nos  seus primeiros passos, tropeçou  na confissão estranha , mas compreensível do seu Primeiro-ministro.


Mais um indício de que, raspado o efémero verniz da circunstância  e decorrido o breve estado de graça das ilusões, a salvação macroniana  ficará acomodada na velha máxima lampedusiana : “tudo deve mudar para que tudo fique como está”.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

UMA LIÇÃO BRASILEIRA





A "Caixa de Pandora" aberta pelos conspiradores que derrubaram Dilma e querem impedir Lula de disputar as presidenciais de 2018, não mostra sinais de poder ser fechada. A política antipopular do governo Temer, aliás,  mostra bem quem realmente são e o que querem os golpistas instalados no poder no Brasil.

O seu golpe foi uma operação sofisticada que começou longe e ainda está em curso. Não seguiu  o modelo de outros tempos: tanques nas ruas, polícia nas casas, militares no poder  e  povo nas prisões. Foi tecido com a participação de juízes e outros magistrados, de políticos, de polícias, de empresários e da grande comunicação social. Mas uma orquestra de indignidades, por mais subtil que seja,  não dispensa um maestro, um estado-maior competente  que meça os golpes a dar, que escolha os ritmos, que decida  as pausas, que doseie o ruído, que gradue  os estímulos que hão de encher as ruas. Era bem mais fácil no tempo dos militares: tudo  simples, brutal e linear. Para o comando bastavam alguns generais.

Mas com o novo tipo de golpe a história é outra. Vários tipos de protagonistas têm que ser coordenados, articulados, postos em sinergia. Falei numa orquestra, mas verdadeiramente são várias. Conjugá-las potencia a dificuldade que há  para reger cada uma delas.
Os maestros deveriam ser subtis e estar consonantes entre si.  

Ora, nós vimos ao vivo na televisão, quando se decidiu  o impeachment  de Dilma no Congresso brasileiro, que  noventa por cento dos seus membros, eram verdadeiras nulidades políticas. Eles seriam incapazes de reger sequer um conjunto de pífaros. A única coisa para que parecem habilitados é para dizerem meia-dúzia de alarvidades reaccionárias.

É o protagonismo de gente dessa que faz com que  hoje assistamos ao estrangular acelerado de um grande país. Uma clique de direita , politicamente  analfabeta e eticamente desqualificada dispara e foge em todas as direcções.  O processo golpista descarrilou. As hienas  que  protagonizaram o golpe mordem-se agora umas às outras.

Os chefes golpistas sentindo-se acossados  tendem a entre devorar-se. Os núncios atacam os mandantes. Os subalternos derrubam os chefes.  Os narradores já não sabem o que hão de narrar, de calar e de gritar. Os cães viram-se contra os donos.  A sinfonia golpista que se julgava  triunfante tornou-se num ruído insuportável de recriminações e renúncias.

Há uma lição brasileira que começa a ser esboçada: quem não sabe música não deve cantar ópera.

FRANÇA - o holograma perverso


Quando no futuro os historiadores se ocuparem da história política de França nos primórdios do século XXI, hesitarão possivelmente entre três hipóteses, quando procurarem saber o que se passou durante os cinco anos de presidência de François Hollande. Uns dirão que quem ocupou o Palácio do Eliseu, durante aqueles cinco anos foi um sósia de Hollande, outros dirão que foi apenas um estranho fantasma e outros, finalmente, dirão que a França sofreu durante cinco anos um holograma perverso.

Sósia, fantasma ou holograma, esse aparente Hollande presidiu à França como se em larga medida fosse muito diferente do François Hollande que ganhou as eleições presidenciais, com uma agenda radicada na resistência ao capital financeiro e na solidariedade para com o mundo do trabalho, prometendo devolver à França uma atitude republicana, em face da Alemanha imperial e dando à Europa a oportunidade de voltar a respirar.

Por mim, se tivesse que escolher entre as três hipóteses citadas, optaria pelo holograma perverso. Algum sábio inventou, no segredo dos labirintos da altíssima política, essa tecnologia de assombração,  que permite gerar o holograma de alguém, deturpando-o, pervertendo o que de mais fundo anima o hologramado.

São vários os indícios que concorrem para a verosimilhança desta hipótese. O alegado holograma de Hollande, que a Europa esperava ver erguer-se como um tigre perante Berlim, para salvar a Europa da sombra de um império, transformou-se em pouco tempo num bichano grave, mas ronronante, que a Sr.ª Merkel se dava ao luxo de passear com carinho pelos areópagos europeus.

O alegado holograma de Hollande que a França esperava ver desembainhado como espada virtuosa contra o capital financeiro ficou reduzido a um pequeno punhal que apenas servia para ir insidiosamente apunhalando os direitos dos trabalhadores.

Quando pareceu que o verdadeiro Hollande ia voltar, esconjurando o citado holograma, eis que foi este afinal que se impôs, colocando Valls  como novo primeiro –ministro. Valls  esse expoente da ala direita do Partido Socialista Francês, que, aliás, projetando-se a si próprio há muito defendia que se deixasse de chamar socialista. Valls que se viria a revelar como um dos mais eloquentes exemplos da traição política.

Hoje, uma vez tornado institucionalmente público o olimpo macroniano, percebemos que a sua espinha dorsal foi construída pela ligeireza ou pela insídia do citado holograma. Foi ele quem colocou no Eliseu  como seu conselheiro económico o hoje Presidente Mácron, nomeando-o depois Ministro para lhe dar mais consistência. Foi ele que sentou no seu governo como Ministro da Defesa um dos esteios do atual governo macroniano. Foi um dos seus tradicionais apoiantes que pegou ao colo no jovem Mácron, dando-lhe a partir da autarquia de  Lyon um decisivo empurrão; e sendo agora seu ministro.

Enfim, esse holograma perverso  não só estropiou a política do verdadeiro Hollande como distribuiu os vários punhais que o foram atingindo. E soube  ainda  agredir rudemente o Partido Socialista, parecendo agora exultar  com um sorriso entupido pelo facto de o seu ex-escudeiro, e agora  Presidente nem de esquerda nem de direita, ter  nomeado afinal um primeiro-ministro de direita. De uma direita retinta e expressamente assumida.

Estamos ainda num tempo de neblina, mas é possível intuir desde já que se abre o reino da  prestidigitação em que os lobos se vão vestir de cordeiros e a política vai ser em França, de uma maneira mais absoluta, a arte de fazer com que o que é não pareça. Premonição ou maestro, o holograma perverso está no cerne dessa neblina .

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Um novo governo em FRANÇA



Está constituído o primeiro governo Macron .Numa primeira análise, pode dizer-se que tem o perfil esperado. Não é uma explosão de novidade, nem é um flop. Não é um sinal exuberante de um próximo êxito nas legislativas de junho, mas também não é chumbo que prenuncie afundamento.

Numa perspetiva distante de quem não conhece em detalhe os meandros da política francesa, mistura ex-socialistas hollandistas, ex-gaullistas, inclui o velho centro ao mais alto nível, consegue um ecologista mediático prestigiado e incorpora naturalmente alguns macronianos de raiz.

Embora já tenham sido dados alguns sinais, não é ainda conhecida a reação dos socialistas, por um lado, dos gaullistas, por outro. Agirão disciplinarmente contra os trânsfugas ostensivos? Conjugarão desistências em casos especiais? Que resultado advirá do comportamento adotado no que respeita à respetiva coesão interna? Assumirão ou não uma exterioridade plena em face de uma maioria presidencial, por enquanto apenas ainda desejada?

Na extrema –direita  e na outra esquerda, promete-se  desde já uma oposição frontal. Mélanchon acena mesmo com uma possível coabitação com Macron, hipoteticamente advinda de uma vitória sua nas legislativas. Mas em nenhum destes dois blocos há tranquilidade plena na preparação das listas candidatas às legislativas.

O novo governo não torna mais claro se estamos à beira de uma mutação profunda na paisagem político-partidária em França, que a possa duravelmente oxigenar rumo à promessa de uma salvadora sexta república, ou se apenas estamos a assistir a um canto do cisne político que melancolicamente traga no seu bojo uma caricatura da defunta quarta república.


Só as eleições de junho e o subsequente perfil do poder político que daí resultar nos dirão quanto a isso alguma coisa mais clara.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O regresso dos gambuzinos



Tudo o que se passa de mau na vigência do actual Governo é da sua exclusiva responsabilidade, é totalmente culpa sua.

Tudo o que se passa de bom resulta do feliz concurso das instâncias europeias , do misterioso respirar dos mercados, da generosidade atávica dos banqueiros centrais europeus. Do mérito de todos eles, mas principalmente , muitíssimo principalmente, da excelência do governo anterior, da coligação Passos/Troika.

Diga-se aliás que esta última alegação foi luminosamente produzida por uma inesperada deputada do PSD que eu  chamaria Aldegundes, se não merecesse também ser Procópia.

Podemos portanto estar descansados. Os gabirus de Bruxelas, as agências de ratos, a brigada do reumático das finanças públicas e as deputadas Procópio-aldegundianas do PSD, estarão cuidadosamente atentos para que a realidade não erre, para que os factos não desmintam as belas ideias de toda essa vigilante tropa fandanga.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Os macronianos chegam ao anoitecer



Os macronianos chegam ao anoitecer

Como se esperava Macron foi eleito Presidente da República em França. Embora o simples risco de a Srª Le Pen ser eleita seja um péssimo sinal de insalubridade política e um aflitivo sintoma quanto ao caminho seguido pela Europa, houve uma excessiva dramatização  do risco dessa alarmante vitória. O facto de ela não ter ocorrido tem sido objeto de um recíproco exagero. A Europa está exatamente na mesma , mas respira festa como se tivesse finalmente acordado.

De momento, não é ainda possível saber-se, com alguma segurança, se o quinquénio de Macron virá a demonstrar a sua argúcia ou se apenas ilustrará a ideia de que estamos  perante um epifenómeno suscitado por bloqueamentos políticos acumulados não  perante uma absoluta afirmação de  mérito. Não é ainda possível sabermos se ele virá a reinar olimpicamente instalado numa  maioria parlamentar própria, ou se vagueará pelos corredores do Eliseu, assombrado por uma maioria parlamentar que lhe seja exterior.

Mas , não sendo certo, será  natural que o próximo futuro lhe corra relativamente bem; ou que pelo menos não lhe corra muito mal. Ver-se-á. Irá marcar muito o futuro, o resultado das eleições legislativas do próximo mês de junho. Olhando à distância o que se está a passar em França, portanto, sem conhecer minimamente as manobras florentinas que seguramente lá estão a ocorrer, num incerto labirinto de esperanças e traições, há talvez algumas considerações gerais que se podem arriscar.

Não é ainda claro se o centrismo de Macron  virá a ter um perfume de esquerda ou um odor de direita, sendo certo que a esquerda que quer continuara a sê-lo preferirá talvez  que ele vire para a direita, enquanto a direita que queira persistir como tal  há de  preferir vê-lo encostar-se  à  esquerda. Claro que ele pode tentar situar-se rigorosamente ao centro, sonhando com uma avalanche  de apoios vindos dos dois lados, mas correndo o risco de ficar numa terra de ninguém com pouca gente. A escolha que venha a fazer quanto ao seu futuro Primeiro-Ministro pode fazer  alguma luz sobre o caminho que prefere.

De momento, a direita clássica, apesar de assombrada com o relativo fulgor da extrema-direita lepenista, parece menos aflita do que o Partido Socialista Francês (PSF). Talvez pelo facto de ter sido menos severa a sua derrota.

Na verdade, de momento, dentro do PSF parecem desenhar-se três grandes linhas : uma, consubstanciada na sua ala esquerda, em torno de B. Hamon, aposta na valorização  da união da esquerda, assumindo uma atitude de oposição à linha da maioria  presidencial; outra, representada principalmente pela maioria da direção atual, aposta numa afirmação autónoma do PSF que não o inclua numa possível maioria presidencial; outra, polarizada por Valls, preconiza a entrada na maioria presidencial. Este ex-primeiro-ministro já tornou público que será candidato no seio da maioria presidencial, o que parece excluí-lo do PSF. Alguns dos seus apoiantes já se demarcaram publicamente dessa posição, sendo possível que ele venha em breve a ser formalmente excluído do PSF ou pelo menos das suas listas. Se assim for, falta saber se será seguido por muitos. Se o PSF for complacentes para com ele, falta saber se haverá  outros a sair. O risco de estilhaçamento do partido é real. Tudo isto se resolverá em breve. Mas depois ficará ainda por se conhecer a dimensão de um possível desastre já  anunciado para os socialistas franceses nas próximas legislativas.

Todavia, o sistema eleitoral francês e a atual correlação de forças entre as várias correntes políticas , conjugando-se, tornam possível que, afinal,venha a ocorrer uma atenuação relevante do desastre anunciado, mas também permitem que , pelo contrário, esse desastre possa vir a ser ainda maior. Para esta incerteza contribui a dificuldade que representa para os insubmissos de Mélenchon o facto de o Partido Comunista Francês (PCF) , que neles se  integrou, se apresentar às eleições com listas próprias, admitindo-se acordos entre ambos mas não que os comunistas se diluam nos insubmissos. Este desfasamento  pode, aliás,  ter efeitos bastante  desestabilizadores, em virtude de ser conhecida uma certa discrepância entre os insubmissos e os comunistas, quanto à necessidade de acordos eleitorais com o socialistas. O PCF aposta tradicionalmente nesses acordos.

Em menor medida, contribui para esta incerteza o modo como o PSF se irá relacionar com os Verdes e com os radicais de esquerda; e a intensidade da atração sofrida pelas hostes de uns e de outros quer por força dos insubmissos, quer por força dos macronianos. Quanto mais intensa ela for, mais dificuldades terão os socialistas.

Macron, acolitado pelos cavalos de Troia que entraram  no PSF,  parece querer destruir esse partido. Não é certo que o consiga. Mas se o conseguisse, deixaria sem companhia os insubmissos, assim transformados  na única força relevante da esquerda francesa, no plano institucional. Isso talvez permitisse  a Macron governar durante algum tempo  com menos sobressaltos institucionais, mas potenciaria a força das resistências extra institucionais e dos protestos. E a eventual  deliquescência da direita clássica pode muito bem torná-la num terreno de caça mais fácil para a extrema-direita.

Um poder político sustentado por um centro pastoso, diluído na vaguidade do nem esquerda/ nem direita, inchado pela possível anemia, quer do centro-esquerda quer do centro-direita, e concorrendo com uma extrema-direita em expansão e com uma esquerda mais radical desprovida de parceiros que a liguem á realidade, um poder político assim será a prazo um risco mais forte e mais fundo do que o induzido pelos mais nefastos resultados eleitorais.

Os macronianos chegaram como se viessem de novo ; talvez como se fossem o rosto de uma direita convertida civilizadamente ao centro, merecendo por isso talvez  as boas vindas,  mas pode ser afinal   a auto punição de uma esquerda leve  que se renega, embora tente disfarçar-se  de uma imaginação do futuro que se renova. Chegam ao anoitecer; talvez estejam apenas de passagem.


segunda-feira, 8 de maio de 2017

O sono da Europa



Em novembro de 2008, concluí um texto, sobre  os socialistas e a Europa, que foi publicado pouco depois. Perante a hipótese de a União Europeia continuar a deixar correr as coisas ao sabor de um inércia tolhida, alertei para os riscos que daí resultavam. Disse:

“Aumentará o risco de se cair num mal-estar social difuso, numa angústia coletiva alheada da esperança, numa atmosfera propícia ao exacerbamento de uma conflitualidade social movida por fatores circunstanciais, assente em preconceitos ou em dinâmicas aleatórias e dissipativas, politicamente estéreis. Ficará assim aberta a porta a todos os fundamentalismos, ao exacerbar dos nacionalismos mais estreitos, às alianças de todos os ressentimentos, às pulsões suicidárias de todos os desesperos. A mais vertiginosa irracionalidade poderá chegar ao cerne de muitos conflitos sociais e políticos, minando os alicerces da democracia e fazendo regredir social e culturalmente a Europa.”


Não me regozijo coma a atualidade deste excerto de um texto escrito há quase uma década.

domingo, 7 de maio de 2017

Poema da ausência de Nuno Brederode



Poema da  ausência  de Nuno Brederode

A palavra
A ligeira brisa de um sorriso quase a chegar
A lâmina de um pensamento  nítido  e limpo
O jogo  esse xadrez supremo da política
A feroz elegância no combate
Entrar nos labirintos e pensá-los   respirar e sair
Subir a solidão dos dias sem os magoar
Caminhar com curiosidade e esperança
Olhar com ironia o coração dos tempos
Talvez outros futuros desejados na História por fazer

quinta-feira, 4 de maio de 2017

As eleições em França enquanto labirinto



As eleições em França enquanto labirinto

1. O suspiro de alívio posterior à primeira volta das eleições presidenciais francesas tem vindo a ser toldado por uma ligeira brisa de preocupação. A extrema-direita, que era dada como irremediavelmente batida, recusa  a dar-se antecipadamente por vencida.
A esgrima de golpes baixos e de pequenas traições, que caracterizou o relacionamento entre si dos atores de todo o resto do espetro político, torna difícil, mesmo aos estados-maiores partidários, juntarem-se numa marcha sem falhas que dê a vitória ao candidato nem de direita/ nem esquerda.
 Mas pior do que isso, a degradação da qualidade de vida  de uma grande parte dos setores populares e o dramático confisco de um futuro que lhes permita a esperança, tornam possível que as vitimas não se convençam a seguir na esteira de quem lhes promete a mesma desigualdade e a mesma subalternidade, mesmo que isso os leve por  caminhos de absoluto desastre. Ou seja, os eleitores populares podem ignorar as indicações de voto em quem se diz apostado em prosseguir a via neoliberal, ainda que temperada com algumas inovações. É um erro, é certo. Mas quem é colocado em situação de  desespero pode errar mais facilmente.
 É estranho? Talvez, mas é estúpido dar como certo que quem se vê excluído e desprezado, mergulhado na infelicidade e no medo, responda sempre com equilíbrio e inteligência às adversidades. Se os supostos  “crâneos” se extraviaram no labirinto das suas próprias subtilezas, como exigir que o povo aja sempre com a lucidez que eles antes não revelaram?

2.Se olharmos para a relação de forças revelada na primeira volta das eleições presidenciais francesas, podemos identificar cinco áreas politicamente demarcadas. Uma extrema- direita com 21,30%, uma direita com 24,71%, um centro de 24,01 %, uma esquerda com 25,94% e uma extrema-esquerda com 1,73%. A candidata da extrema-direita e o candidato do centro passaram à segunda volta.
Se compararmos estes resultados com os das primeiras voltas das três anteriores eleições presidenciais ( todas elas já  realizadas neste século), verificamos que o centro teve 6,84 em 2002, 18, 57 em 2007 e 9,3 em  2012; a extrema-direita teve 19,20 em 2002, 10,44 em 2007 e 17,90 em 2012; a direita teve 29,90 em 2002, 33,41 em 2007, 28,97 em 2012 e 24,71 em 2017; a esquerda teve 32,45 em 2002, 30,69 em 2007, 42,04 em 2012 e 25,94 em 2017.
Este conjunto de resultados mostra que a extrema-direita apenas se reforçou em pouco mais de três pontos percentuais desde 2012 e que já quase chegara aos 20% em 2002. Ou seja, a sua pujança não é uma novidade absoluta, mas principalmente  uma consequência do esvaimento dos outros setores políticos. Mostra também que o centro é realmente a área que mais cresceu em termos absolutos, sendo certo que, já em 2007, o seu candidato se aproximara dos 19 %.
A direita, cujo eixo principal é o partido gaullista (LR), teve  um desaire político importante, pelo facto de o seu candidato não ter passado à segunda volta, mas em número de votos não se desmoronou. O candidato dos LR teve menos 7% dos votos que tinha obtido o candidato do mesmo partido em 2012, em parte pelo escândalo em que se viu envolvido em plena campanha.
A esquerda, abrangendo as forças políticas apoiantes das candidaturas de Hamon e de Mélenchon, foi fortemente penalizada, tendo recuado no seu todo 16% desde 2012. Mas este número global oculta um fator de agravamento do significado deste recuo. De facto, o candidato do PSF, partido dominante que em 2012 colocara o seu candidato na Presidência da República, teve em 2017  menos 22% de votos em relação aos  que Hollande tivera em 2012 na primeira volta ( desceu de 28, 63 para 6,36 %). Em contrapartida, o candidato dos insubmissos, apoiado pelo Partido Comunista Francês e pelo Partido de Esquerda, ambos integrantes da Frente de Esquerda, subiu, relativamente a 2012, mais de 8% de votos (de 11,10 para 19,58 %).
Portanto, a mensagem mais forte que os resultados transmitem é uma drástica reprovação do eleitorado quanto à  Presidência de Hollande e à sua governação. O seu partido, o PSF, viu assim o seu candidato fortemente penalizado, tendo perdido eleitores, quer em benefício do centro quer em benefício do outro candidato de esquerda. Esta reprovação era suficientemente evidente para ter levado Hollande a não se recandidatar, o que nunca acontecera durante a Vª República com nenhum presidente cessante que se pudesse recandidatar. Os militantes e simpatizantes socialistas deram, aliás, um sinal de sentido idêntico, quando nas eleições primárias preferiram largamente um ex-mimistro que se demarcara da condução política de Hollande ao ex-primeiro ministro que mais emblematicamente a pusera em prática.
De facto, Hamon representou objetivamente uma tentativa  de quebrar a identificação do PSF com a política de Hollande; ou de pelo menos a relativizar. Esta via era estreita. Era difícil sair da sombra impopular de um Presidente da República  do mesmo partido sem claramente o criticar . E maiores foram as dificuldades, porque a ala direita do Partido Socialista, claramente vencida nas primárias, rompendo com a decência mínima de respeitar a palavra dada e um mínimo de lealdade partidária , foi tornando crescentemente ostensivo o seu apoio a Macron , o candidato centrista. 
E a insalubridade  ética  dessas manobras foi agravada  pelo facto desse candidato, ser um jovem politicamente inexistente que passou a existir rapidamente apenas  por ter sido cooptado por Hollande para seu conselheiro e mais tarde instalado como um importante ministro de Valls. E, parecendo de início ser um mero instrumento de arremesso no combate florentino entre Hollande e Valls, Macron viria a fazer-se gente entrando na grande politica pela pequena porta da traição aos seus dois padrinhos. Suprema ironia. O segundo dos apunhalados traiu depois a sua palavra em prol de quem o traíra, apoiando expressamente Macron contra Hamon ; e o primeiro foi obrigado agora a vir a público pugnar do alto da sua Presidência pela vitória de quem tão rasteiramente o traíra.
Defender que o arejamento político das propostas de Hamon  e uma alegada conotação com a ala esquerda do seu partido são as causas principais pela esqualidez do resultado que obteve como candidato do PSF, ronda a desonestidade intelectual ou é pura simplesmente um sinal de cretinismo político. Hollande governou em sentido oposto ao que prometeu como candidato e acabou por se dotar de um primeiro-ministro que dispunha de uma escassa base de apoio no eleitorado do PSF, quiçá mais disposto a destruí-lo do que a liderá-lo. O quinquénio hollandista enxovalhou pelas suas opções uma larga parte do povo de esquerda que o havia eleito. Teve já uma primeira resposta. Vejamos o que virá a seguir.

3. Para já, é ainda cedo para se falar no desmoronamento de um sistema político. Por enquanto, o que ocorreu foi um forte safanão no principal partido da esquerda francesa, havendo ainda o risco de esse safanão o poder atingir mais profundamente nas próximas eleições legislativas.
Se Macron, como parece muito provável, for o vencedor das eleições presidenciais, será transferida para as legislativas a decisão do combate político em curso. Macron vai procurar dotar-se de uma maioria presidencial que lhe permita governar segundo o seu programa. É muito duvidoso que o consiga.
Falta saber se conseguirá sequer suscitar uma coligação entre os deputados do seu partido e um ou mais parceiros. Que parceiros ? Os socialistas do PSF ? Os gaullistas dos LR? Qual a força de atração que exercerá sobre outras forças de esquerda menos relevantes  como é o caso dos Verdes e dos Radicais de esquerda ? Ou sobre outras forças de direita, como é o caso dos centristas que eram aliados históricos dos LR?  O novo partido de Macron ( “En Marche”) absorverá por completo os centristas tradicionais apoiantes de  François Bayrou ? Enfim, muitas dúvidas, muitas incertezas.
Incertezas que , aliás, se complicam pela escassez de tempo que vai decorrer entre a segunda volta das Presidenciais e a primeira das Legislativas. Complicação acrescida por uma combinação explosiva entre o sistema eleitoral francês e a relação de forças política que a primeira volta sugere.
De facto, o sistema uninominal a duas voltas vigente em França garante que disputarão a segunda volta os dois candidatos mais votados na primeira volta  em cada círculo eleitoral, mas permite que outros candidatos, além deles,  também o possam fazer, desde que tenham obtido na primeira volta pelo menos 12.5% de votos em relação aos eleitores inscritos. Na relação de forças habitual, entre 577 círculos eleitorais, as disputas tripartidas na segunda volta, em regra, atingiam as escassas dezenas, não havendo disputas quadripartidas. Ora, cálculos ainda grosseiros, a partir da relação de forças atual, apontam para a possibilidade de mais de 250 disputas  tripartidas e de alguma dezenas de quadripartidas.  A hipótese de a Frente Nacional, exceder muito o seu deputado atual, aumenta exponencialmente; e a incerteza quanto aos resultados finais aumenta ainda mais.
A importância  de acordos entre as várias forças políticas cresce muito. Quer desde logo na possível renúncia cruzada a ter candidatos em certos círculos na primeira volta, mas também depois nas desistências na segunda volta de candidatos de certos partidos em favor de candidatos de outros.
Conseguirá a direita continuar sem fazer acordos com a FN? Se continuar a ser essa a ser a decisão oficial dos partidos de direita, serão obedecidos em todos os casos?  Haverá algum acordo entre os LR e o partido de Macron para desistências mútuas? E entre estes e os socialistas? E estes últimos continuarão a ter acordos com os Verdes e os radicais de esquerda? E haverá acordos de apoio cruzado e desistências entre os socialistas e os insubmissos de Mélenchon ? No quadro destes últimos, os comunistas do PCF agirão com autonomia? Múltiplas perguntam, enormes dúvidas.
Dúvidas acrescidas pelo facto de não ser certo que os resultados da recente primeira volta se repitam , mesmo aproximadamente, nas legislativas. O que se projeta quer na possível força do PSF, quer na do partido de Macron, quer nos insubmissos de Mélenchon. Ora, a dúvida sobre a força real de cada um deles é um fator suplementar de incerteza em quaisquer negociações.
O PSF, tal como o LR, ao relacionar-se com o partido de Macron não pode menosprezar o facto dele assentar a sua expetativa de afirmação e crescimento na destruição desses dois partidos, em especial do PSF. Este aliás, além de correr o risco de se partir antes das eleições, or causa das candidaturas, corre ainda o  risco de uma divisão grave entre os que prefiram depois  aliar-se a Macron e os que prefiram aliar-se a Mélenchon. Entram ou não na nova maioria presidencial ? Se sim, deixam a outros o protagonismo da oposição a uma política de cariz neoliberal; se não, deixam à direita o exclusivo de uma aliança com Macron ? Uma ou outra opção podem ter consequências eleitorais logo na segunda volta; e mais tarde podem suscitar clivagens dramáticas. Clivagens entre fações do partido ou, mais grave, clivagens entre o partido e os seus eleitores que podem vir a abandoná-lo, como já aconteceu na Grécia, na Polónia, na Hungria e , mais recentemente, na Holanda. Mas que um partido de esquerda perca apoio por agir como se fosse de direita ( aconteceu assim nos casos citados atrás) é estruturalmente mais perigoso do que perder por ser fiel à sua identidade.

4. Para concluir, é legítimo afirmar-se que os dois processos eleitorais, que se iniciaram em França e terminarão nos próximos meses, configuram um verdadeiro labirinto político, cuja principal raiz está na incapacidade da esquerda francesa no seu todo responder aos desafios predatórios do neoliberalismo. Um neoliberalismo que se apossou já das instâncias europeias, confiscando-as em benefício da sua lógica destrutiva.

 Mas há um labirinto que se se sobrepõe a esse. É o labirinto de pequenas e grandes explicações e pseudoexplicações que, no essencial, visam mais iludir-nos sobre o que se está a passar do que ajudar-nos a compreender.