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domingo, 10 de dezembro de 2023

A SOMBRA DE UMA FRASE HONRADA E JUSTA

 

A SOMBRA DE UMA FRASE HONRADA E JUSTA

A minha opinião sobre uma boa parte das posições políticas táticas assumidas por Mariana Mortágua é negativa. Na verdade, globalmente, ela não é alguém que mereça a minha concordância  política. Dito isto, tem significado acrescido o seguinte. 

Numa entrevista que ela deu recentemente, a jornalista com quem conversava fez uma referência ao seu pai, o conhecido combatente pela liberdade Camilo Mortágua. Caracterizou-o como um “homem polémico”. Na resposta, com serena naturalidade Mariana Mortágua retorquiu: “Não, o meu pai não foi um homem polémico. O meu pai foi um gigante antifascista”.

Há gestos, frases, atitudes que marcam a nossa vida. Explosões de dignidade que nos elevam para sempre. Esta frase de Mariana Mortágua é assim.

Quanto a isso e por isso, não escapa à minha profunda admiração.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

 

UMA LINHA POLÍTICA CLARA E TRANSPARENTE

1-AUTONOMIA ESTRATÉGICA

Na actual campanha, a linha estratégica do BE (gritante) e do PCP (menos trovejante) pode resumir-se em dois apelos dirigidos ao eleitorado que possa votar no PS:

- Não votem no PS para ele não ter maioria absoluta!

- Votem no PS para ele governar, de modo a poder tomar as medidas que nós achamos que devem ser tomadas.

2- REQUERIMENTO DO ELEITORADO, ALGO CONFUNDIDO:

- Vimos respeitosamente pedir a Vossas Excelências o obséquio de nos indicarem quais de nós devem votar e quais de nós não devem votar no PS.

3- PERGUNTA INCONVENIENTE DE UM ELEITOR DE LISBOA ESCALDADO:

- Nas mais recentes eleições autárquicas em Lisboa segui religiosamente as vossas instruções e o resultado foi o que se conhece: ganhou a direita. Têm a certeza que não acontecerá o mesmo, à escala nacional, se continuar a obedecer-vos?

 4- RESPOSTA ESOTÉRICA DOS PERGUNTADOS:

- Fomos à bruxa que alegadamente tem ajudado o FCP a ganhar campeonatos e ela garantiu-nos que com um pouco de sorte isso não ia acontecer.

5- MORALIDADE EM JEITO DE PERGUNTA:

- Se o PS não existisse a quem pediriam os partidos acima mencionados para lhes executarem as suas políticas?

 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Cuidado com o Anjo da História!

 


Cuidado com o Anjo da História!

Quando na Alemanha o nazismo já começava a tornar-se visivelmente perigoso, o Partido Comunista Alemão recusou qualquer concertação com os socialistas do SPD, baseando-se numa linha política simples que se traduzia em “enterrar o nazismo sob o cadáver da social-democracia”.
O Anjo da História adormeceu e o nazismo não foi enterrado, floresceu. Uniu, nos campos de concentração e nos obituários do seu poder, comunistas e socialistas. Vários povos, a começar pelo povo alemão, sentiram-lhe o peso insuportável .
A água continuou a passar por debaixo das pontes e o Anjo da História foi acordando lentamente sem deixar de passar por múltiplas distrações. O nazismo pereceu nas caves mais fundas da indignidade e da ignomínia. O Partido Comunista Alemão já não existe. O SPD prepara-se para liderar o próximo governo por escolha democrática dos alemães.
A História não se repete mas é saudável não a esquecer. O seu Anjo não pára de nos surpreender

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Frutos amargos

 

Mais tarde, poderei vir a fazer um comentário político global aos resultados das recentes eleições autárquicas. Deixemos assentar a poeira. Hoje, vou-me limitar a um comentário muito circunscrito, sem pretensões que transcendam o seu conteúdo visível. Vou falar muito genericamente da campanha do BE e dos seus resultados.

Se olharmos para o seu conteúdo, podemos dizer que as suas propostas estiveram em linha com o essencial da sua linha política. Mas esse conteúdo  foi expresso no quadro de uma estratégia que visou dois objectivos principais: aumentar o número de vereadores eleitos pelo BE e impedir maiorias absolutas do PS nos casos em que esse perigo  (na perspectiva do BE) existisse.

O primeiro objectivo falhou, já que o BE perdeu mais de metade das cerca de duas dezenas de vereadores que tinha.

O segundo, como o caso de Lisboa documenta, foi mais do que atingido: o PS mais do que não ter chegado à maioria absoluta não chegou sequer a uma maioria; perdeu as eleições. Tornou-se impossível assim ao BE obrigar o PS a comportar-se de acordo com as suas virtuosas indicações. Pelo que nos podemos interrogar sobre se este resultado é o pleno cumprimento do objectivo do BE ou a sua absoluta frustração.

Podemos andar às voltas de tudo isto com a imaginação própria das preferências de cada um de nós. Mas dificilmente podemos deixar de constatar que, se é certo que se pode envolver em subtis justificações a relação entre os resultados pretendidos e os conseguidos pelo BE, parece claro que com o modo como essa estratégia se concretizou a direita lucrou fartamente.

Os entusiasmos de Catarina tiverem pois alguns frutos, mas certamente amargos. Os vereadores salvadores com que ambicionava polvilhar as governações do PS de vários municípios não vão poder agir; ou porque não chegam a existir ou porque é a direita que está no poder.

Faço a justiça ao BE ao imaginar que estes frutos lhe são amargos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

PEDIR POUCO

 

Enérgica e perentória, Catarina apela à eleição de mais um vereador para o BE, em Lisboa ou noutro lugar, para assim abrir as portas  às coisas boas que os aturdidos munícipes já não esperavam .Uma chama incendeia-lhe o olhar, a felicidade está ao alcance das nossas mãos. Deem mais um vereador a Catarina e tudo será diferente.

É certo que podia pedir uma maioria absoluta para o BE, que assim teria os meios para realizar as suas esperanças. Mas Catarina é modesta. Tão modesta quanto entusiasta: não quer tanto, basta-lhe mais um vereador.

E é tão modesta que se inibe de ostentar toda a extensão do que nos promete. De facto, o seu contido desejo de mais um vereador, para além de poder ser a chave de uma boa fortuna, é muito mais do que isso, o princípio de um milagre. Não tão extraordinário, é certo, como o das rosas, mas seguramente também notável.

De facto, de um PS pesadão e relapso,  alérgico à abertura das generosas portas de Catarina, rumo a um início de respiração do paraíso, ela fará uma coleção de arcanjos, vocacionados para  o cometimento de todas as propostas  almejadas pelo BE. E afinal com uma condição muito simples: mais um vereador  para Catarina.  E, já agora, se não for pedir muito, não concedam ao PS maiorias absolutas.

Um cético oráculo da Grécia antiga talvez insidioso  encolhesse os ombros e regougasse : “Delírio, puro delírio”. Mas eu que sou um otimista do século XXI , generoso para com a alma humana ,afirmo com firmeza: “ Nada disso. Entusiasmo, voluntarismo , sonho  “.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Socialista, republicano e laico

 Um dia, Mário Soares identificou-se politicamente como republicano, socialista e laico. Hoje, assistiu-se à adesão a essa trilogia de uma deputada europeia do Bloco de Esquerda, no anúncio público da sua candidatura à Presidência da República.

É uma aproximação objetiva e simbólica. Em termos pessoais e meramente psicológicos ,talvez signifique pouco. Quiçá, apenas a procura de uma ressonância subtil.

Mas quem procurar surpreender os grandes movimentos sociopolíticos estruturais, pode talvez ver aqui o prenúncio do que será um dia a chegada do BE ao PS.

No imediato, pode parecer um vaticínio delirante, especialmente pelas resistências psicológicas que isso possa enfrentar numa parte dos principais atores políticos. Mas, não é menos certo, que no seio das esquerdas vai ser preciso fazer um ruído cada vez maior, para se transformarem pequenas diferenças em grandes divisões.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O geringoncismo- doença infantil da concertação das esquerdas



O geringoncismo
-  doença infantil da concertação das esquerdas

1. A geringonça nasceu como rótulo depreciativo, inventado por expoentes da direita, para desqualificarem simbolicamente uma iniciativa que agregava as esquerdas. Espalhou-se irresistivelmente no espaço público. No entanto, a realidade que se pretendia apoucar teve afinal o êxito suficiente para resgatar simbolicamente o rótulo em causa, tornando-o numa designação afetivamente mais amiga e cordial do que ridicularizante. Muitos dos seus próprios protagonistas acabaram por aceitar com naturalidade e bonomia o epíteto, que assim se acabou por tornar numa designação aparentemente neutra e inócua. De um ponto de vista simbólico, sem dúvida que o seu potencial desqualificante se esvaiu.

No entanto, talvez ele tenha tido um efeito perverso que não é aparente, mas que julgo real. Na verdade, ao longo do tempo, o pacto celebrado foi sendo predominantemente encarado como um mecanismo político-institucional radicado apenas em organizações partidárias que se concertavam entre si, na sombra discreta dos gabinetes. Celebraram um pacto e foram acompanhando o seu cumprimento. Um pacto que permitiu que um Governo fosse instituído e governasse durante uma legislatura. Um Governo de um dos partidos, a cujos deputados se somavam no Parlamento os deputados dos outros partidos de esquerda. Uma governação que, contrariando todas as expetativas e rompendo até com um certo ceticismo internacional, teve o êxito suficiente para poder ser invocada como exemplo positivo.


2. Nas campanhas eleitorais entretanto ocorridas ─ eleições autárquicas, europeias e legislativas─, mas principalmente nestas últimas, o pacto foi sujeito a um acréscimo de tensões fragmentadoras e dissipativas. Tensões inerentes a uma competição eleitoral entre partidos que concorriam entre si, sem prejuízo de estarem congregados num pacto político-institucional. Um pacto limitado e flexível que era compatível com a manifestação dessas tensões competitivas. Essa compatibilidade, em fim de legislatura principalmente, não impediu momentos de um especial aumento de tensões  e nalguns casos mesmo de alguma acrimónia ainda que contida.

Se olharmos para essa tensão argumentativa vivida nas campanhas, especialmente na mais recente, verificamos que ela refletia atitudes e posições diferentes. De um lado, estava o partido do governo, do outro lado estavam os partidos que tinham pactuado o apoio parlamentar ao governo. O PS tendia a dar centralidade à sua qualidade de partido do governo, valorizando genericamente o mérito da governação. O BE , o PCP e o PEV tendiam a exaltar os méritos inerentes a medidas específicas que teriam sido tomadas por força da pressão feita por cada um deles. Procuravam valorizar o mérito inerente aos resultados das suas pressões e distanciarem-se relativamente do resultado geral da governação, em especial dos aspetos com que não concordavam ou que não induziam popularidade.

Esse registo foi impregnado por uma intensa campanha contra uma possível maioria absoluta do PS, o que sendo em si um absurdo, se for  levada à letra (cada eleitor vota num partido, mas não tem como modular a sua preferência; vota ou não vota), era de facto uma campanha explícita contra o voto no PS. Cada um deles, além de apelar ao voto nele próprio, o que é natural em todos os partidos, apelava também a que se não votasse num partido [o PS], com o qual tinha tido um acordo que durara uma legislatura. Assumiam assim um juízo globalmente positivo quanto ao governo, mas  batiam-se contra o voto no partido que era estruturante quanto a esse governo. Convenhamos que a lógica profunda desta posição equívoca  tem um potencial de confusão apreciável relativamente ao eleitorado mais diretamente visado.

Uma leitura superficial parece indicar que a campanha pode ter tido efeito quanto a impedir uma maioria absoluta do PS, mas não fez ganhar votos nem ao BE nem à CDU. O BE estacionou quanto ao número de deputados, a CDU perdeu deputados. Especialmente à direita, neste caso por motivos óbvios, há quem queira  fazer crer que isso se deveu à participação indireta na solução governativa encontrada. É, no entanto, estranho que o apoio relativo dado a um governo que é encarado positivamente pelo povo de esquerda  induza perda de votos à esquerda. Mais lógica parece ser a hipótese de que esses partidos ( ainda que em doses diferentes) tenham suscitado  confusão, pela estratégia argumentativa seguida,   em parte do seu eleitorado, induzindo assim  a sua abstenção.


3. Se olharmos para o discurso político dos partidos envolvidos no pacto das esquerdas, verificamos que o mais global era o do PS, o que se compreende à luz da sua relação com o governo. Os outros seguiam um guião em que predominavam referências a medidas parcelares, cujo mérito reivindicavam e a medidas parcelares que inscreviam como seus objetivos para o futuro.

Todos davam na generalidade como adquirido  o tipo de sociedade atual , abdicando de inscrever no horizonte a sua transformação. As exceções a esta regra, mais implícitas do que explícitas, não condicionavam significativamente a espinha dorsal do discurso político assumido. Os eleitores tendiam a ser encarados mais como indivíduos a convencer do que como cidadãos a mobilizar; mais como clientes políticos a fidelizar do que como sujeitos cívicos de um processo político que partilhassem com os partidos que, sendo os atores eleitorais diretos, não eram tudo.

Esta atitude menosprezava um dado empiricamente verificável que se veio tornando evidente, ao longo dos últimos anos: o povo de esquerda, abrangendo os eleitorados reais ou potenciais dos partidos envolvidos no acordo, queria e continua a querer esse acordo. Independentemente de pressões circunstanciais e do desenho concreto da conjuntura institucional em 2015, o mérito principal, aliás apreciável, das direções políticas dos partidos envolvidos, foi o de terem sabido responder positivamente a esse anseio unitário profundo do povo de esquerda. Terem percebido a centralidade desse anseio.

No entanto, na generalidade, parece nítido que desde então não foi dada realmente centralidade a esse anseio, por nenhum dos partidos envolvidos. Predominantemente, a prática dos partidos envolvidos passou, quase sempre, ao lado dessa unidade substancial do povo, preferindo ficcionar uma diversidade de povos de esquerda correspondente a eleitorados separados dos vários  partidos. 

Esta perspetiva implicou, objetivamente, uma tendência para se renunciar por completo a estimular uma dinâmica de transformação social que envolvesse globalmente o povo de esquerda e se abrisse a todos os trabalhadores e a todas as vítimas da desigualdade social dominante. Uma dinâmica de transformação que desse consistência e autenticidade ao combate contra a degradação ambiental inerente ao modo como o capitalismo tem vindo a corroer o mundo. Uma dinâmica que pudesse dar corpo a uma esperança realmente grande e que assim pudesse pôr o povo em movimento.

No seio de um processo amplo de transformação social, o protagonismo diferenciado dos partidos exprimiria com naturalidade a relativa heterogeneidade  do povo de esquerda, mas fá-lo-ia no âmbito  de um processo social mais amplo mas uno, onde todos caberiam. O protagonismo institucional dos partidos em geral e a sua governação nos diversos níveis do Estado seriam robustecidos por uma dinâmica social que o apoiasse, estimulasse e desafiasse.

Tudo isso poderia gerar uma nova relação de forças que permitiria que fossem tomadas mais rápida e facilmente medidas justas, geradores de mais liberdade e de mais igualdade, induzindo até provavelmente uma afirmação e uma autonomia mais robustas do nosso país na cena internacional.


4. Sem uma ancoragem firme numa dinâmica social deste tipo, os êxitos político-institucionais, por mais relevantes e meritórios que sejam, ficarão mais sujeitos ao aleatório de conjunturas internacionais que dependem muitíssimo pouco do que ocorre em Portugal.  Sem essa ancoragem dificilmente se dará consistência à defesa da qualidade ambiental, à luta contra as causas económico-sociais das alterações climáticas, aos movimentos de inconformismo em face dos automatismos predatórios do capitalismo mundial. E assim tender-se-á para uma fragmentação das resistências organizadas à degradação ambiental e a uma estéril dissipação das suas iniciativas. Podem suscitar-se explosões desesperadas, dificilmente se gerarão resistências eficazes.

Paralelamente, se continuarmos aprisionados numa numerologia que se absolutize a si própria, esquecendo as pessoas, abriremos ainda mais as portas do desespero, às vítimas da desigualdade. E quando as portas do desespero se abrem, deixa de ser possível prever e controlar o que passa através delas.

E não se pense que este risco se diminui com atitudes proclamatórias ainda que generosas e acutilantes, com os proclamantes a considerarem-se realizados apenas por proclamarem. O general que numa guerra decretasse bombardeamentos aéreos, sem dispor de aviação, representaria um perigo nulo para o inimigo.

Está em marcha um processo negocial para o desenho político do novo governo. Entre as esquerdas parece haver algumas dificuldades e ambiguidades que podem não levar a bom porto. Se o povo de esquerda vier a ser  esquecido no labirinto das negociações, se as direções partidárias não tiverem a inteligência de perceber que sem o povo de esquerda  são pouco mais do que folhas secas ao sabor da corrente, as coisas podem ser mais difíceis do que a atual relação de forças induz. E não esqueçamos que  dentro do modo como a sociedade atual entre nós funciona, a esquerda, mesmo quando é maioritária no parlamento e nas autarquias,  está cercada pelos poderes de facto, que lhe são estruturalmente hostis. E quando quem está cercado ignora o cerco dificilmente o vai conseguir romper com êxito.

É mais fácil politicamente e menos oneroso económico-socialmente que as esquerdas se entendam para governar depois de uma vitória do seu conjunto do que se entendam para resistir depois de uma derrota. E é mais fácil o protagonismo dos partidos quando tenham como suporte o povo de esquerda com a esperança acordada, do que depois de terem conseguido desiludi-lo e desmobilizá-lo com a sua inépcia, se for esse o caso.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A TRAGÉDIA DO YPSILON


O grande dirigente Xis da organização Ypsilon resolveu deixar de o ser. Uma vez que a organização Ypsilon não é uma monarquia, ele não passou o poder  ao filho para lhe suceder. Mas indicou alguém. E inesperadamente indicou Zê e ßeta, e não apenas Zê ou apenas  ßeta. Como Zê é homem e ßeta é mulher pôs um casal à frente da organização, dizendo que isso se inscrevia no modo de agir próprio do século XXI.Não explicou porquê, mas se o disse lá terá as suas razões. 

Houve quem maldosamente insinuasse que ele apenas estava a procurar sugerir que para o substituírem na liderança da organização não era suficiente um outro mortal. Eram necessários, pelo menos dois. Se essa alegada  maldade, for afinal a verdade, isso significa que em tal organização não abundam potenciais dirigentes. E isso não é prestigiante. Se essa possível maldade o for realmente, da proposta de Xis não resultará nada de positivo para as imagens quer de Zê quer de ßeta, por que ficaria a saber-se que para Xis cada um deles vale apenas metade do que ele vale.

Embora sem o  mesmo eco, houve também quem visse nesta indicação de Xis uma tentativa de evitar uma guerra civil entre os vermelhos escuros e os vermelhos sombrios, duas tonalidades que arregimentam muitos dentro de Ypsilon. Talvez se trate de pura imaginação.

Mas entre os integrantes da organização Ypsilon começa a crescer uma ideia que pode ter algum sentido. Quem tem que decidir quem vai ser o futuro dirigente de Ypsilon (dizem esses irrequietos militantes), devem ser os seus membros, por sua livre iniciativa e por livre escolha, sendo completamente absurdo que Xis indique Zê, ßeta, ou seja lá quem for.Esses  ousados imaginativos teimam assim inesperadamente  em querer  escolher quem os vai liderar, sem testamentos políticos, sem bênçãos, nem ungimentos.

Não deixam de ser credores da minha simpatia. Realmente, aqui para nós que ninguém nos ouve, votações condicionadas, votações entre ungidos e os outros , votações entre os escolhidos e os outros, só muito vagamente têm algo a ver com democracia. 

E já agora imaginem que Ypsilon , em vez de ser o Bloco de Esquerda era o Partido Socialista?Quantos anátemas, quantas excomunhões...

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

À ESQUERDA - caminhos perdidos


O Bloco de Esquerda, exprimindo cruamente o que julga ser a sua identidade histórica, terá razões para ameaçar com uma moção de Censura o actual Governo, abrindo as portas do poder político à direita e desmentindo assim drasticamente o que disse há uma semana atrás. As suas razões, por mais sólidas e sinceras que sejam, não serão dispensadas de arcar com a responsabilidade das suas consequências.

Ganhará seguramente o troféu de paladino imaginário de uma esquerda mítica, mas se as suas palavras fortes apenas abrirem a porta a actos políticos estrategicamente erráticos, corre o risco de ficar reduzido à condição de mero instrumento da velha direita histórica que tanto diz abominar. O PCP, com quem o BE tão obcecadamente compete, fiel ao seu código genético e às suas inércias mais cegas, há-de encontrar maneira de lhe não ficar atrás.

Deverá o PS responder a esta agressão estratégica, praticando uma reciprocidade enraivecida, que dê como perdida a hipótese de se pensar em conjunto no seio de esquerda global, mesmo com estes seus raivosos adversários, seja a propósito do que for? Deverá subir ao imaginário castelo de um centro-esquerda, politicamente alérgico ao resto da esquerda, protegendo esse seu flanco com trincheiras cada vez mais fundas?

As emoções estarão hoje, certamente, desencontradas no seio do eleitorado do PS e da sua base social de apoio. Mas, muito provavelmente, haverá numa boa parte desse espaço uma onda de rejeição surda, quanto a tudo o que tenha a ver com BE. E assim se torna incompreensível que quem pretende crescer seduzindo o eleitorado do PS se não detenha perante a tentação de o agredir. Tal como se torna incompreensível que quem se ostenta como esquerda quimicamente pura, mesmo que escondendo pudicamente as suas raízes históricas, resvale tão claramente para o pântano insalubre da cumplicidade estratégica com a direita.

Poderá esta vistosa pirueta do BE ser encarada como a confirmação que faltava quanto ao acerto da opção por um PS aconchegado num centro-esquerda institucional e manso, alérgico ao mais ligeiro perfume de alternatividade e previamente cansado de qualquer ímpeto transformador? Parece-me que não. De facto, se assim fosse, o PS colocaria a si próprio o pesado e permanente desafio de conseguir uma maioria absoluta, mesmo votando nas outras esquerdas mais de 15% do eleitorado, ou sofrer as incertezas árduas de um governo minoritário, como únicas hipóteses que lhe restavam para evitar uma conquista do poder governamental pela direita.

Por isso, ao PS não resta outra hipótese que não seja a de procurar ser um partido da esquerda toda, se não quiser alienar duravelmente a possibilidade de ser poder com um mínimo de robustez institucional e um sólido apoio social. Não se trata de se deslocar do centro para um dos extremos, trata-se de se transformar de modo a poder ser um partido que se estenda para a esquerda sem se afastar do centro. Trata-se, ao fim e ao cabo, de ir um pouco mais longe e com mais durabilidade no caminho que percorreu quando atingiu a maioria absoluta no plano parlamentar.

É um caminho difícil, que aliás só teria êxito, se o PS verdadeiramente conseguisse trazer para o seu espaço algumas relevantes dinâmicas sociais que actualmente têm uma conotação política difusa ou vivem sob a nítida hegemonia de outras esquerdas. Mas se o PS conseguisse ser o sujeito dessa metamorfose, não só subiria duravelmente para novos patamares de expansão eleitoral, reduzindo as outras esquerdas a dimensões simbólicas, mas também seria um movimento político com a robustez social e o apoio popular suficientes, para poder enfrentar com êxito os poderes de facto através dos quais o capitalismo selvagem cria obstáculos permanentes aos governos socialistas. Por outro lado, se esta nova ambição do PS muito podia ser reforçada se fosse acompanhada pelo resto do Partido Socialista Europeu, a verdade é que ela só pode contaminar virtuosamente os seus irmãos europeus se começar por existir com nitidez e energia entre nós.

Só assim, insisto, o PS poderá olhar, com a serenidade de quem fez o que devia, para os jogos diletantes do BE e para o repetido regresso aos seus fantasmas do PCP. Pelo contrário, se apenas se continuar a ocupar de respostas conjunturais, poderá sair-se melhor ou pior no imediato, mas continuará sempre sob o permanente risco de um próximo sufoco, quando os pequenos deuses dessas esquerdas, simultaneamente trágicas e rudes, voltarem a mover as peças do seu estéril xadrez.

domingo, 7 de novembro de 2010

O BE, A CHINA E O SOCIALISMO DEMOCRÀTICO



Há duas almas, uma sombra e muitos espíritos, na raiz do Bloco de Esquerda. Uma alma trotskista, uma alma maoista, uma sombra do fantasma de um MDP desaparecido e muitos espíritos generosos e inquietos à procura de uma esquerda perdida, ou talvez apenas transviada. Há depois a complicação de um eleitorado excessivo, hesitante entre o simples castigo contra o sítio de onde veio e a vertigem de assentar arraiais num terreno novo aparentemente movediço.

As duas almas têm vindo a digerir-se com apreciável êxito. Nem a memória da morte trágica de Trotsky às mãos de um simples núncio de uma das mais sólidas referências dos maoistas parece perturbar uma tão suave harmonia.

Um episódio da actualidade política abriu-me, no entanto, uma janela de espanto. Perante a visita de Hu Jintao, Presidente da República Popular da China ao nosso país, foi tornado público que o BE não estará presente no Parlamento uma vez que o regime chinês é «uma ditadura com créditos firmados na violação dos Direitos Humanos». Sublinhando um dos seus dirigentes, que : «A nossa posição tem a ver com uma avaliação muito crítica que fazemos do Estado em causa, uma ditadura que tem créditos firmados na violação de Direitos Humanos, de direitos individuais e sindicais». Ele compreendia «que o Estado português tenha relações diplomáticas com a China e que haja momentos de discussão formal dessas relações». Mas não podia deixar de sublinhar :
«Entendemos, contudo, que na Assembleia da República, que é a casa mãe da Democracia devemos dar um sinal de distanciamento relativamente a regimes como o da República Popular da China».

Será que a alma maoista do BE abandonou o seu código genético e se conformou com o imperativo de renegar as suas raízes ? Ou terá sido afinal submersa por uma inesperada vaga de socialismo democrático, transportada para o seu seio no bojo oculto da alma trotskista ou nas almas simples dos seus eleitores?

Incrédulo quanto ao milagre de uma tal conversão, deambulei pela internet e chegando a Alcanena tive uma surpresa, quando li , num escrito oficial do BE aquando da inauguração de uma sede, o seguinte naco de discurso:
“ Baseando-se no Socialismo Democrático, o Bloco de Esquerda tem sido sempre activo na defesa dos valores da verdadeira Democracia, e propõe-se continuar essa luta.”

Era pois verdade, todas as almas e todas as inquietações fundadouras do BE estavam agora fundidas no Socialismo Democrático. Como militante do PS, só posso congratular-me com a chegada ao socialismo democrático de mais um partido político. É certo que em muitos aspectos do seu dia a dia político ele ainda não parece adequadamente integrado na área a que diz pertencer, mas para tudo há um caminho e para percorrer qualquer caminho há um tempo a gastar.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sofreguidão ?


No festival provocatório desencadeado pelo PSD a propósito da revisão constitucional, há um tipo de intervenções de alguns comparsas menores que me tem deixado perplexo.

Estou a referir-me, principalmente, a certos ataques oriundos das lideranças do BE e dirigidos ao PS. De facto, em vez de se concentrarem no combate às propostas do PSD, procurando aliados, investem contra o PS. E investem, não por se oporem às posições críticas dessas iniciativas que ele já tomou, mas apenas para declararem que desconfiam que o PS faça amanhã o contrário do que hoje diz. Acham que assim solidificam o dique que terá de conter a manobra do PSD? Só se fossem incomensuravelmente ingénuos isso poderia acontecer.

Por isso, me pergunto: são apenas putos que se julgam reguilas, mas que afinal ainda nem sequer cresceram muito? Ou são, politicamente, estúpidos?

Isto, no pressuposto de que, também eles, deveriam querer evitar qualquer distorção do essencial da actual Constituição da República Portuguesa.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Jogo perigoso


Estou certo que, subjectivamente, o BE e o PCP não querem ser um instrumento político da direita no combate que travam com o Governo e o PS.


Mas parece-me, objectivamente, cada vez mais inequívoco que os partidos de direita e os analistas que nela, mais ou menos disfarçadamente, se embrulham, integram como simples peças, quer o BE, quer o PCP, no xadrez político com que antecipam as suas estratégias.


Por exemplo, falam em moções de censura, em novas eleições , em queda do governo, como se a decisão essencial, quanto a tudo isso, coubesse apenas aos orientadores do Dr. Passos Coelho, aos estados-maiores dos poderes fácticos, a cujas directrizes, os partidos de direita tão sensíveis costumam ser. Para eles, o BE e o PCP entram nesse jogo como peões, nunca como jogadores. Vão comportar-se como lhes convier.


Gostaria de estar certo de que estão redondamente enganados , estando imprudentemente como que a contar "com o ovo no cu da galinha".


Mas , infelizmente, há um tão arreigado sectarismo anti-PS nas direcções desses partidos, que eu não consigo afastar, por completo, o receio de que, chegado o momento decisivo, realmente, o BE e o PCP, façam passar, à frente de tudo, a sua hostilidade ao PS, deixando-se manobrar como verdadeiras peças de um xadrez, através do qual os poderes da direita e do dinheiro, procurarão dar xeque-mate ao governo e ao PS, quando julgarem que lhes convém.


Se acabar por ser assim, correm, no entanto, um risco suplementar, dado que atrás do tempo, tempos vêm, e as bases sociais do BE e do PCP podem não ficar satisfeitas com as consequências sociais e políticas que esse xeque-mate lhes fará sofrer.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

O Oráculo Torcido

Espanto!

O Prof. Louçã, no seu tom exuberante e sacro, estrondeou na RTP, em recente entrevista de grande porte, que uma das “malfeitorias”, atribuível ao PS, ao governo ou a ambos, era um poderoso indício de fim de regime. Ou seja, o Prof. Louça já não se deixa fechar na modéstia de uma simples oposição feroz ao governo, nem sequer na banalidade de uma cruzada contra o PS. O Prof. Louçã quer mais, quer a pele do regime. Grande ambição - dirão alguns . Talvez, mas, temo dizer, que algo estranha para uma garganta que quer gritar à esquerda.

Na verdade, eu já ouvi, muitas vezes, expoentes intelectuais da nossa mais ressequida direita, ou papagaios mediáticos de uso corrente, cantarem a ladainha do fim de regime. Sempre tomei essa surda ameaça de uma pós-democracia musculada de recorte indefinido, mais como farronca novecentista do que como ideia. E até tenho, por vezes, procurado entender a raiva histórica da direita portuguesa mais trauliteira, contra o vento de Abril que soprou para bem longe as cinzas cansadas de um salazarismo decrépito. Compreendo até a pobreza de espírito de alguns tontos, politicamente desvitalizados, que se penduram na ideia de fim de regime como um macaco em árvore que sonha de bananas.

Mas faltava-me ver um luzido vestígio da revolução permanente empoleirar-se na peregrina ideia de um fim de regime, como se estivesse a prever o resultado de um “derby” futebolístico. Ou será que tão enérgico pregador está convencido que, uma vez derrotado o regime que constitucionalizou Abril, como sonha a direita, o Prof. Louçã e o seu BE serão olimpicamente convidados, por ela, para enfeites de uma hipotética nova ordem pós-abrilista?

Não sei. Mas julgo que, ou o Prof. Louçã foi atropelado pelas suas próprias palavras, ou de tanto se enfurecer na sua cruzada contra o PS e o governo, se deixou afunilar nessa sua obsessão, esquecendo tudo o que possa existir para além disso.

É certo também que a aparente escorregadela, deste novo Robespierre de baixa intensidade, se vem somar a outras inconsistências ideológicas oriundas da mesma área, fazendo-nos por vezes duvidar, não que o Bloco o seja de facto, mas que consistentemente seja de Esquerda.

terça-feira, 2 de março de 2010

Um casalinho improvável.

Li em letras garrafais num jornal de hoje: "PSD e BE: proposta conjunta para comissão de inquérito".

Pensei: Eis como o liberal-conservadorismo e um esquerdismo contido vagamente "blasé" encontram a vertigem de um objectivo comum: combater o PS.
Imaginei: será o princípio de uma linda história?

Problema: quem lava a loiça?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Os cossacos do Dão


Malta, o BE é mesmo de esquerda! Ele até vai votar contra o Orçamento Rectificativo.

Sim senhor. Podem crer: eles é que são a verdadeira esquerda.

Se os deixarem, eles fazem mesmo a revolução. Se não os deixarem, não fazem. Mas hão-de continuar a mostrar, com todo o rigor, como é que ela se deveria ter feito.

Vê-se bem que continuam fieis ao velho slogan dos estalinistas alemães dos anos 30 do século passado: "Enterrar o nazismo, sob o cadáver da social-democracia."

É tempo de se proclamar :"Força, força camarada Louçã! Nós seremos a muralha vã!!"

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Antes que o galo cante!


Acabo de ler no site do Público a pequena nota informativa que abaixo transcrevo:


Francisco Louçã afirmou esta tarde que associar o Bloco de Esquerda (BE) à extrema-esquerda é uma “tentativa” de rebaixar o partido, acusando os “pequenos sectores de extrema-direita” da Assembleia da República de colar essa “etiqueta” aos bloquistas”.

Não pude deixar de me lembrar da célebre frase histórica ouvida por Pedro:

" Antes que o galo cante me renegarás três vezes !"

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

À procura do convite perdido...


A vida política, do ponto de vista dos seus protagonistas individuais, não é apenas um jogo algo semelhante ao xadrez, com o seu recurso aos peões para as jogadas mais sujas, com a bênção de alguns bispos, com ousados saltos de cavalo, com o refúgio prudente em algumas torres, com o assédio a algumas rainhas e mesmo, nos ápices decisivos, com tentativas de pôr os reis em cheque; mas não deixa, em parte, de o ser.

Por isso, o episódio do pré-convite feito a Joana Amaral Dias por Paulo Campos, tanto pode ser encarado como uma anedota política com ecos dramáticos, como pode ser lido como uma combinação de manobras que muito se aproximam de movimentos subtis num imaginário tabuleiro de frustrações e ambições. Levemos a sério as narrativas dos interessados e esqueçamos uma possível camada ainda mais funda do episódio que, não deixando de ter interesse, por enquanto, pode ficar adormecida.

Os factos: um dos muitos secretários de estado do actual governo, vendo naufragar uma ambição pacientemente sustentada, ao longo de meses, por uma rede de iniciativas viárias e de subtis sugestões, resolveu tirar um vistoso coelho ( ou, neste caso, com algum humor e o devido respeito, uma coelha) da cartola, talvez com a secreta esperança de se mostrar imprescindível, quiçá, recuperando a hipótese de um primeiro lugar na lista de Coimbra que vira escapar-se-lhe por ente os dedos quando o julgava seguro.
E se bem o pensou, melhor o fez. Foi-se ao telefone e zás: sondou Joana Amaral Dias para ser segunda na lista do PS, por Coimbra. Assarapantada pelo inesperado da sondagem a pré-deputada converteu a inesperada sondagem num convite e, podendo ter corrido à pedrada verbal o insólito sondador, educadamente disse que ia pensar.
O nosso contingente mediático daria bom dinheiro por tais pensamentos, mas adiante. Ouvidos alguns oráculos, consultadas as estrelas, metida a mão na consciência, a sondada declinou o convite e comunicou ao guia espiritual do BE a sua firme e inabalável recusa a tão insólita tentação. Justamente indignado pela demoníaca mensagem do PS o guia supremo explodiu em público, demolindo a subtileza da sondagem e blindando para sempre a firmeza da recusa.

Irremediavelmente longe do primeiro lugar da lista, sem a energia e o peso políticos necessários para lhe abrirem a porta do segundo lugar, tendo lhe escapado a coelha saída da cartola, o jovem secretário de estado achou-se, apesar de tudo, demasiado grande para um terceiro lugar. Recusou ser terceiro. Se foi longe de mais nesta recusa, só o tempo o dirá. Mas quando se aprestava a digerir a nova conjuntura, ocorreu a já referida tempestade mediática tecida pelos enérgicos relâmpagos do guia do BE.

Aí o jovem governante entaramelou-se. Aludiu a contactos pessoais, que nalguns jornais chegaram a íntimos, confessou que tudo não passara de telefonemas entre amigos, para depois modestamente se ficar pelo reconhecimento de que, em comum entre convidante e convidada, havia a apreciável distância de apenas disporem de círculos de amigos comuns. E, olímpico, chegou a imaginar publicamente que lhe assistia a legitimidade para, tendo renunciado majestosamente a ir na lista, conceder a graça de uma substituta que assim generosamente dispensava a uma Federação de Coimbra, deslumbrada e agradecida.

É certo que no fragor da agitação mediática deixara cair a sua falta de mandato para convidar JAD, como banalidade que podia esvair-se nas fraquezas da memória, sem espanto nem estranheza.
De facto, se tudo for como pareceu fazer crer a direcção do PS, o que se registou foi um desvario de um militante do PS que pegou num telefone e convidou uma senhora para ser deputada, candidata a deputada. A senhora foi pensar, sem ter pensado que o convidante era apenas um delirante sem mandato. Pensou, pensou, pensou. E, ao fim de muito pensar e depois de recorrer aos mais reputados oráculos da nossa política, descobriu que a aparente sondagem convidante era muito mais do isso, era um verdadeiro assédio político. Contidamente indignada, avisou o Grande Pregador, embora não tivesse deixado de o fazer sentir subliminarmente que enquanto a sua própria confraria a excluíra das primeiras filas, outras a disputavam sofregamente. Ferido pela grandeza do pecado e temeroso pelo agravar da concorrência, o Grande Pregador trovejou maldições sobre o PS. Excomungou inocentes e pecadores, como um arcanjo vingador desregulado.

É certo que do seio da sua virtuosa organização partira um convite simétrico dirigido às hostes do PS, mas o Grande Pregador nunca perde de vista o essencial: só aos ungidos pela virtude é consentido o pecado.

Ou seja, ao surrealismo político da sondagem, que nem era convite nem estava autorizada, somou-se o angelismo comovente de um repúdio diferido do que tendo começado por ser ouvido como um promissor convite se converteu num reprovável assédio.

domingo, 26 de julho de 2009

Santos de pau carunchoso...

Do meu amigo e camarada José Gama, professor na Escola Secundária Infanta DªMaria, de Coimbra, recebi o texto que se segue e que é uma cópia do que enviou ao Bloco de Esquerda, tendo-me autorizado a transcrevê-lo.


"Acabei de ver na televisão um extracto da intervenção de Francisco Louçã, com palavras muito violentas para Sócrates, condenando-o pelo hipotético convite feito por ele a Joana Amaral. Não sei se esse convite foi realmente feito.

No entanto, tenho que manifestar a minha imensa revolta pela falta de coerência e sentido ético por parte dos vossos dirigentes, pois se é assim tão grave o convite de José Sócrates a Joana Amaral, como não considerar grave o convite recente feito por dirigentes bloquistas a militantes do PS com vista a encabeçarem listas às eleições autárquicas? Sei do que falo e Francisco Louçã pode confirmar junto de Ana Drago.
Continuamos, todos, a ter em menor cuidado a dignidade que devia ter a política e, se fosse o caso de sermos crentes, podíamos dizer que corremos o risco de nos juntarmos todos com ela no inferno.
Espero que se contenham mais a propósito deste episódio.

Apesar da falha, que considero grave, envio saudações socialistas.

José Gama
Coimbra"

* * *
Como se vê, os "santos" também são "pecadores".