sábado, 31 de dezembro de 2011

ANO DE 2012 FELIZ

Os meus votos de um Ano de 2012 Feliz, que nalguns casos são também uma retribuição e um agradecimento, vão expressos na pintura de Miró e no poema que escrevi. Peço desculpa pela repetição a quem já os tenha recebido.




Olhar de frente o ano que vier,
sem deixar que o silêncio nos desarme.

Falar como quem rasga, ser combate,
ser barco que não teme o nevoeiro.

Mais um ano que chega, em passo lento,
a cólera nos meses, frio nas horas.

Olhar de frente o ano que vier,
seus passos hesitantes, seus desastres,
com a paixão tão louca de viver.

[Rui Namorado]

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

AUMENTAR AS EXPORTAÇÕES !

Se um Governo preconiza a exportação de desempregados altamente qualificados, como política, está a confessar a sua incapacidade para reverter o flagelo desse tipo de desemprego. Quando o faz com ligeireza, comporta-se como se tivesse confundido a sua tarefa com um jogo de berlinde. Foi o que fez o Dr. Passos, augusto Primeiro-ministro de Portugal, ao apontar aos professores portugueses desempregados o caminho do exílio em Angola e no Brasil.

Mas uma coisa é adoptar uma política de exportação de professores discutível ou mesmo errada, como realmente é, outra coisa é não ter política nenhuma nesse campo e falar nessa exportação negra com a leviandade de quem se espreguiça ao sol.

Por isso, ouvi no telejornal de hoje um enérgico e anafado deputado do PSD trovejar contra a oposição, em pleno areópago parlamentar, elogiando a política de exportação de professores do seu querido governo que até já implicara conversações com a Presidente Dilma e com o Presidente José Eduardo dos Santos. Havia pois afinal uma política, ao contrário do que diziam as malvadas línguas da oposição.

Eis se não quando (Ó espanto dos espantos!), breves minutos depois, no mesmo telejornal surge um engomadíssimo Dr. Passos, para varrer, com um sorriso implacavelmente desprezador, a simples hipótese de tais conversações virem a acontecer.

Estamos pois no puro jogo do berlinde: o Dr. Passos esmera-se num servilismo acéfalo ao que preconizam os numerólogos que exprimem os interesses dos poderes económico-financeiros mundiais, mas brinca, como se não tivesse nada a ver com elas, com as consequências nefastas dessas políticas na vida das pessoas. Um deputado tenta salvar os móveis, mas é ele próprio arrastado na torrente, pela irresponsabilidade infantil do Dr. Passos.

Neste arraial, em que se vai tornando o actual Governo, que segredo esconde o Dr. Passos?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O ESPAÇO TELEVISIVO JUDITE/CARREIRA

Uma breve expedição ao espaço televisivo Judite/Carreira. Resultado: pior do que o esperado. Ornamento circunstancial: um catedrático de direito/a, pernóstico e pesadão. Resultado: uma náusea enorme!

Três elegantes dentaduras ferradas na Constituição. Toneladas de lama simbólica sobre o povo português, querendo parecer que se estava a defendê-lo. Mas, realmente, o alvo verdadeiro, sob a aparente ferocidade dos insultos à política, eram os portuguesinhos.

Carreira, no paroxismo de uma insólita raiva, queria um holandês no Terreiro do Paço, a vigiar-nos. O trio, no seu todo, confluía desvairadamente, no apagamento do feriado do primeiro de Dezembro , alegando que Portugal já não era independente. Um frio “miguelvasconcelista” arrepiou o ecrã televisivo.

Estava ali, em estado puro, o salazarismo do século XXI: uma síntese alucinada de um reaccionarismo hipócrita e do eco do que há de mais sórdido e mesquinho no senso comum popularucho e desbussolado. Um senso comum que, tragicamente, exprime e reforça a submissão da algumas das vítimas aos interesses dos senhores dos poderes de facto económicos , à sombra da ilusão de que está a ser feroz contra quem manda, quando afinal apenas está a morder às ordens de um seu autêntico dono que desconhece.

E, no entanto, há gente decente, de direita e não só, que tem aceitado ocupar um lugar de circunstância em tal circo. Uma ave que deveria, quando muito, ser um case study de confusão mental, talvez apimentada com uma raiva esquisita, conquistou um lugar de honra no circo mediático. Mas o regime político que exprimiria, com fidelidade e rigor, as posições que ali ouvi , nada teria a ver com a democracia. Realmente, a ser alguma coisa de identificável só poderia ser um verdadeiro salazarismo do século XXI.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ÉTICA E POLÍTICA

1. Intransigência ética perante a injustiça, serenidade intelectual perante a complexidade e agressividade crítica em face das mistificações, são atitudes que podem contribuir para que se avance muito na compreensão das (e na luta contra as) causas da tempestade que tem vindo a varrer a Europa, no vislumbre de caminhos novos e na capacidade de pôr de pé uma solidariedade prática, que minore sofrimentos e desembarace o futuro das suas piores sombras.

2. Por isso, não é possível que se deixe de questionar a qualidade ética do capitalismo, decorridas pelo menos duas décadas sobre a afirmação inequívoca do seu domínio sem partilha, sobre o nosso planeta. Na verdade, num tempo de acelerada evolução da técnica, de exponencial aumento dos conhecimentos e de enorme crescimento das oportunidades comunicacionais, continuam a somar-se os milhões de seres humanos que sobrevivem na fronteira do insuportável, sucumbem nas margens da doença e da insalubridade, mergulham na violência, na exclusão e na ignorância. E, para agravar a ilegitimidade moral desta vigência, os automatismos predatórios que estruturam o essencial do capitalismo parecem ter desabado sobre a Europa, para anularem séculos de luta dos povos por uma vida melhor, na voragem de uma crise, cujas causas, com um desarmante cinismo intelectual, chegam a ser atribuídas às vítimas, pelos mastins mais lineares da propaganda neoliberal. É como se uma imensa força, intrinsecamente corrupta, tivesse usado o seu poder para se absolver a si própria, pela invenção de uma legalidade espúria, cuja primeira raiz é um salvo-conduto concedido aos protagonistas centrais do capitalismo, para triturarem milhões e milhões de seres humanos. Para os sacrificarem no sombrio altar dos seus interesses económicos, da sua voracidade objectiva, alimentada automaticamente pela lógica do capital. Contra esta injustiça estrutural, os socialistas não podem deixar de ser eticamente intransigentes.

3. Mas ao mesmo tempo que é indispensável que nos deixemos impregnar por esta intransigência ética, não podemos confundi-la com qualquer precipitação voluntarista ou com primarismo intelectual. A complexidade do mundo de hoje, da vida social, da civilização moderna não se compadece com abordagens simplistas, com atitudes políticas unidimensionais, sob pena de ineficácia e de irrelevância. E se a complexidade se enfrenta tanto melhor, quanto mais a acção política conseguir ser um acto de cultura (talvez porque nenhuma atitude crítica pode vicejar à margem da cultura), podemos concluir que a luta política deve ser, cada vez mais, um acto de cultura; principalmente se não renunciar, suicidariamente, à sua dimensão ideológica.

Ao fim e ao cabo, é bem verdade que não se combate adequadamente o modo como se estruturam e reproduzem os tipos de sociedades actuais sem as conhecer, tal como é improvável participar num combate emancipatório, sem se conhecer bem os combates pela libertação e emancipação humanas que fizeram a História.

E, desde logo, entre os muitos rostos da complexidade não podemos deixar de salientar a enorme tensão entre o imperativo de se contribuir para que a sociedade em que vivemos funcione e a recusa a renunciar-se à sua transformação numa sociedade outra. Contribuir para que ela viva o melhor possível, sem deixar de tudo fazer para que ela se encaminhe para uma metamorfose, da qual nasça uma nova sociedade. Uma sociedade humanista, por ser livre, justa e fraterna, à qual só se pode chegar democraticamente.

Por isso, o caminho tem que consubstanciar a dignidade das pessoas, de todas as pessoas, sem que , por isso, se possa consentir na instrumentalização crescente dos seres humanos pela lógica reprodutiva do capital. O lema tem pois que ser: as coisas ao serviço dos seres humanos e não os seres humanos ao serviço das coisas.

Portanto, sendo o Estado transformador a instância politica adequada para pilotar um trajecto que nos leve à metamorfose desejada, ele tem que ser também um Estado social sempre mais ambicioso e mais eficaz. Tem que ser, em sinergia, transformador e social. Os seus eventuais êxitos na transformação da sociedade vão necessariamente potenciar a sua eficácia como Estado social, mas, ao mesmo tempo, a eficácia do Estado social dará forçosamente uma energia acrescida ao Estado transformador.

Por isso, é uma perspectiva, em si própria, mistificatória dizer-se apenas que um certo nível de desenvolvimento económico não é suporte suficiente para um determinado Estado social. Conjunturalmente, isso poder ser certo ou errado, dependendo da conjuntura, das medidas tomadas ou de certas políticas praticadas, mas no médio prazo é necessariamente uma mistificação. De facto, a verdadeira questão é outra. Não a de saber se um determinado nível de desenvolvimento de uma sociedade capitalista pode garantir um Estado social susceptível de assegurar o bem-estar dos seus cidadãos; a verdadeira questão é a de se saber se sociedade se deve manter dentro do sistema capitalista, uma vez que assim não consegue satisfazer as necessidades sociais de todos os seus membros.

Ainda neste plano, é também importante sublinhar que a energia política transformadora tem que se fazer sentir na própria sociedade civil, nas respectivas instituições sociais, económica e culturais, e não apenas nas instituições políticas que constituem o Estado. Nestes vários planos, que traduzem a complexidade do mundo actual, os socialistas têm que ter uma enorme serenidade intelectual, mas não podem estar ausentes de nenhum. Têm que estar organizadamente presentes, valorizando a cultura como seiva de qualquer atitude crítica e aprendendo a conjugar o exercício do poder político e um novo tipo de protagonismo nos movimentos sociais. Não podemos continuar a jogar rotineiramente num só tabuleiro. Não podemos ter a ilusão de que agimos consistentemente numa sociedade multidimensional com base numa visão do mundo unidimensional.

4. Mas manter uma serenidade intelectual exigente e rigorosa, não significa que se caia em qualquer tipo de pusilanimidade crítica. Estamos, na verdade, mergulhados num tempo em que o espaço mediático é ocupado por matilhas de mistificadores que executam uma tarefa vital para a conservação dos poderes instalados: a de ocultar o essencial da realidade social. Ocultar, quer amontoando histericamente pequenos factos irrelevantes, revestidos de uma falsa importância , quer através de autênticas mentiras e falsificações.

Neste contexto, nada justifica que se tergiverse nas respostas à propaganda neoliberal, que se amoleça no combate ideológico, que se deixe os “tartufos” campear sem peias, que se deixem sem réplica os deploráveis bichanos mediáticos que vão ronronando amabilidades junto dos donos. No entanto, esta atitude de combate não pode confundir-se com qualquer girândola de tiros de pólvora seca, mais tributários de uma ingénua ânsia de notoriedade do que de uma genuína vontade de intervir na luta política.

De facto, um combate político digno esse nome é objectivamente exigente. Necessariamente colectivo, há-de ser uma teia viva de protagonismos cívicos individuais. Organizado, não pode renunciar à frescura de uma espontaneidade mínima. Necessariamente criativo, não pode confundir-se com um acumular de frases feitas e de ideias previsíveis.

Honestidade, criatividade, consistência, conhecimento daquilo sobre que se escreve, respeito pela língua portuguesa, não podem estar ausentes, sobe pena de, afinal, se estar apenas a fazer um estéril ruído de fundo, para dissimular o alheamento de um combate de que se desertou por incompetência.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ACONTECEU EM HARVARD !

Se vires sair da tua televisão, entrando-te pela casa dentro, um sujeito grave e algo acinzentado, coberto de títulos académicos, autor de artigos de uma alegadamente sólida ciência, dizendo-te, num “economês” altivo, coisas que te parecem estúpidas ou simplesmente injustas, não te deixes esmagar pela figura, mantém a tua liberdade de juízo.

De facto, o que aí anda com o falso carimbo de ciência única, a justificar o confisco de bens e a degradação da qualidade de vida, mais não é do que uma simples escola de pensamento económico, questionável como qualquer outra, que partilha com as suas congéneres, algumas das quais bem diferentes dela, a multiplicidade de perspectivas, a partir das quais se procura compreender a sociedade e melhorar a vida. Neste caso, é certo, ela parece destinar-se essencialmente a assegurar que a vida corra bem aos poucos do costume, mesmo que isso exija o sacrifício dos massacrados de sempre.

Sem prejuízo de ser sempre bom exercitarmos sem complexos o nosso pensamento crítico, é estruturalmente saudável e útil darmos conta de que um pouco por todo o mundo, em circunstâncias previsíveis ou inesperadas, há quem não desista do futuro, não se vergando perante os oráculos que o querem usurpar.


Nesta medida, hoje vou dar-vos dois textos a ler. O primeiro é um artigo escrito para a revista brasileira de grande circulação CartaCapital, por João Sicsú (Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que foi diretor de Políticas e Estudos Macroeconómicos do IPEA (Instituto de Pesquisa Económica Aplicada) . “De Harvard para as ruas” ─ ó título do texto. Dá conta da incomodidade dos estudantes de uma emblemática Universidade norte-americana, em face do modo como é orientado o ensino da economia nessa prestigiada escola. O segundo texto é a reprodução da posição tomada pelos estudantes de Harvard, que é comentada no primeiro texto.



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1º TEXTO

De Harvard para as ruas
- João Sicsú

" Dia 2 de novembro. O dia dos mortos. No curso introdutório de economia (rotulado “economia 10”) da Universidade de Harvard, os alunos ressuscitaram. Entregaram uma carta ao renomado professor Gregory Mankiw informando que estavam se retirando da sua sala de aula em protesto contra o conteúdo do curso que o economista está lecionando. Escreveram:

Quando ser novo-keynesiano não significa seguir as ideias de John Maynard Keynes
“Hoje, estamos saindo de sua aula, Economia 10, a fim de expressar o nosso descontentamento com o viés dado a este curso de introdução à economia. Estamos profundamente preocupados com a maneira que esse viés afeta os estudantes, a Universidade e a sociedade, em geral.”
Valeria ter noticiado este evento no Brasil? Sim, vale a pena! Greg Mankiw é bastante conhecido e muito admirado pelos economistas conservadores brasileiros. Tem livros traduzidos para o português e vastamente adotados nos cursos de graduação de economia do Brasil. E muitos de seus artigos acadêmicos são utilizados nos cursos de mestrado e doutorado. Ademais, de 2003 a 2005, foi presidente do Conselho de Consultores Econômicos do presidente George W. Bush. Hoje, é assessor do pré-candidato republicano Mitt Romney à Casa Branca em 2012.
Mankiw se considera um economista novo-keynesiano. Mas, para o leitor que tem a sorte de não conhecer os mínimos detalhes (que beiram a loucura) da vida acadêmica de economia, tal rótulo não quer dizer que Mankiw seja um seguidor do inglês John Maynard Keynes. Pasmem: quer dizer exatamente o oposto.
De volta à carta. Em seguida o texto dos estudantes explicita o viés mencionado: “não há justificativa para a apresentação de teorias econômicas de Adam Smith como sendo mais essenciais ou básicas do que, por exemplo, a teoria keynesiana”.
Segundo os estudantes, o curso teria a tendência de valorizar a teoria da “mão invisível” do mercado, a ideia fundamental do pensamento smithiano, em detrimento das visões que valorizariam o papel do Estado, a concepção keynesiana, como promotor do equilíbrio e do bem estar. Aparentemente, os alunos têm razão, cursos de introdução à economia devem apresentar uma visão ampla da teoria, mostrando que existem diversas possibilidades de leitura da realidade econômica. Embora jovens, os alunos sabem as consequências de cursos tendenciosos:
“Graduados de Harvard jogam um papel importante nas instituições financeiras e na definição de políticas públicas em todo o mundo. Se Harvard não equipar seus alunos com uma compreensão ampla e crítica da economia, é provável que suas ações prejudiquem o sistema financeiro global. A prova disso são os últimos cinco anos de turbulência econômica.”
Melhor ainda: os alunos não se retiraram da sala de aula para lanchar no McDonald´s. Foram para as ruas.
“Estamos saindo hoje para nos juntar a uma ampla marcha em Boston para protestar contra a mercantilização do ensino superior que é parte do movimento global ‘Occupy’. Já que a natureza viesada do curso Economia 10 simboliza e contribui para a crescente desigualdade econômica nos Estados Unidos, nós estamos saindo da aula de hoje tanto para protestar contra a sua discussão inadequada da teoria econômica básica, como para emprestar o nosso apoio a um movimento que está mudando o discurso americano sobre injustiça econômica.”
Em novembro, manifestações do 'Ocuppy' ganharam o reforço dos economistas de Harvard. Foto: AFP/Timothy A. Clary
Mankiw, depois de um mês do ocorrido, se pronunciou em sua coluna do New York Times de 3 dezembro. No artigo, argumenta, como esperado, em defesa do seu curso e da sua trajetória profissional. Não vale a pena comentar. Apenas, vale mencionar dois fragmentos de seu texto. E a conclusão fica para o leitor…
“A administração da universidade, que tinha ouvido falar sobre o planejamento do protesto, enviou vários policiais, como medida de precaução, para sentar na minha classe no dia [da manifestação]. Felizmente, eles não foram necessários.”
“… minha (…) reação foi de tristeza ao percebr como mal informados parecem estar os manifestantes de Harvard. Tal como acontece com grande parte do movimento ‘Occupy’ por todo o país, suas queixas me parecem ser um apanhado de platitudes anti-establishment sem uma análise realística ou claras prescrições de política.”




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2º TEXTO

An Open Letter to Greg Mankiw
By Harvard Talks Politics
(The following letter was sent to Greg Mankiw


by the organizers of today’s Economics 10 walkout.)

Wednesday November 2, 2011
Dear Professor Mankiw—

Today, we are walking out of your class, Economics 10, in order to express our discontent with the bias inherent in this introductory economics course. We are deeply concerned about the way that this bias affects students, the University, and our greater society.
As Harvard undergraduates, we enrolled in Economics 10 hoping to gain a broad and introductory foundation of economic theory that would assist us in our various intellectual pursuits and diverse disciplines, which range from Economics, to Government, to Environmental Sciences and Public Policy, and beyond. Instead, we found a course that espouses a specific—and limited—view of economics that we believe perpetuates problematic and inefficient systems of economic inequality in our society today.
A legitimate academic study of economics must include a critical discussion of both the benefits and flaws of different economic simplifying models. As your class does not include primary sources and rarely features articles from academic journals, we have very little access to alternative approaches to economics. There is no justification for presenting Adam Smith’s economic theories as more fundamental or basic than, for example, Keynesian theory.
Care in presenting an unbiased perspective on economics is particularly important for an introductory course of 700 students that nominally provides a sound foundation for further study in economics. Many Harvard students do not have the ability to opt out of Economics 10. This class is required for Economics and Environmental Science and Public Policy concentrators, while Social Studies concentrators must take an introductory economics course—and the only other eligible class, Professor Steven Margolin’s class Critical Perspectives on Economics, is only offered every other year (and not this year). Many other students simply desire an analytic understanding of economics as part of a quality liberal arts education. Furthermore, Economics 10 makes it difficult for subsequent economics courses to teach effectively as it offers only one heavily skewed perspective rather than a solid grounding on which other courses can expand. Students should not be expected to avoid this class—or the whole discipline of economics—as a method of expressing discontent.
Harvard graduates play major roles in the financial institutions and in shaping public policy around the world. If Harvard fails to equip its students with a broad and critical understanding of economics, their actions are likely to harm the global financial system. The last five years of economic turmoil have been proof enough of this.
We are walking out today to join a Boston-wide march protesting the corporatization of higher education as part of the global Occupy movement. Since the biased nature of Economics 10 contributes to and symbolizes the increasing economic inequality in America, we are walking out of your class today both to protest your inadequate discussion of basic economic theory and to lend our support to a movement that is changing American discourse on economic injustice. Professor Mankiw, we ask that you take our concerns and our walk-out seriously.
Sincerely,
Concerned students of Economics 10

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O CASO DOS CÃES UIVADORES.

Atribuíram a José Sócrates (e ele já a confirmou) uma frase sobre a dívida de países como o nosso que suscitou um uivo generalizado na matilha mediática que infesta o espaço público. Mesmo gente, que se pretende exterior à filarmónica neoliberal, acabou por sentir-se obrigada a soltar ao menos um débil latido, temerosa da terrível acusação de ter ficado alheia a uma tão ampla uivaria.

O sentido da frase não terá andado longe da ideia de que nestes casos não se trata de planear uma liquidação completa e abrupta da dívida pública de cada Estado, mas de gerir com inteligência o seu montante. Ou seja, foi apenas sublinhado o óbvio. Algo, aliás, que está em harmonia com o que todos os países com dívida pública fazem (quantos a não têm?), normalmente. Por isso, o que é estranho não é que a frase tenha sido dita, mas que tantos caniches mediáticos se tenham precipitado de supetão, em tão insólito alarido.

Na verdade, imaginemos por absurdo que o Presidente dos USA manifestava publicamente a sua intenção de fazer baixar a zero nos próximos três meses a dívida pública americana, com a firmeza de quem vai realmente fazer aquilo que diz. Seguramente que, em menos de 48 horas, ele estaria internado num hospício psiquiátrico com forte medicação.

Por isso, insisto, a verdadeira notícia não é a frase atribuída a José Sócrates, mas o histérico ruído por ela suscitado. Ruído, aliás, suficientemente estranho para nos fazer desconfiar que, sendo demasiado estúpido que ele derive apenas do que nos quer fazer crer, na sua raiz só pode estar uma razão oculta.

E, entre todas essas possíveis razões, há uma que me ocorre como a mais provável: o oligopólio ideológico-financeiro que dirige e assombra o mundo, hoje especialmente concentrado em fazer esvair-se a Europa, precisa de transformar uma situação que dura há décadas (e que tem sido gerida com méritos e graus de êxito diferentes, mas com poucas rupturas), numa perversidade intrínseca dos povos envolvidos e numa fragilidade dos respectivos governos, pela pouca energia com que garroteiam esses povos. Ou seja, o criminoso precisa de inculcar na vítima a ficção da culpa desta, para lhe diminuir a resistência e garantir a impunidade própria.

Outrora, para os cristãos, a usura era um pecado grave, mas a dívida não usurária das pessoas era motivo de prisão. Tendo, entretanto, a usura recebido da ideologia dominante um atestado de virtude, ao mesmo tempo que as dívidas dos Estados são dia após dia mais e mais demonizadas, receio que possa chegar o tempo em que, tal como antigamente, se fechavam nas masmorras os devedores individuais, se queira ver regressados os velhos campos de concentração para se fecharem lá impiedosamente os povos dos Estados devedores.

E até chego a suspeitar que, quando esta ideia final chegar à superfície da insalubre atmosfera mediática que nos intoxica, a matilha de sombra que agora tanto uivou, ronronará submissa junto dos pés dos donos, melífluos elogios, deslumbradas concordâncias e frondosos aplausos.

A VITÓRIA DA DIREITA: a pós-política

Ofereço hoje, à vossa reflexão, alguns extractos de um texto publicado na indispensável revista brasileira de grande circulação CartaCapital, escrito pelo politólogo brasileiro Roberto Amaral que foi Ministro da Ciência e Tecnologia do primeiro governo de Lula, entre 2003 e 2004.

O texto radica-se na conjuntura política vivida no país irmão, mas a problemática que aborda é universal. Não deixa aliás de falar na Europa e num clima ideológico, cujos traços são facilmente reconhecíveis em Portugal.

E não esqueçamos : muitas vezes a virtude demasiadamente ostentada, demasiadamente tonitroante, traz afinal no seu bojo, não a energia generosa da virtude, mas o peso sombrio da ocultação e do embuste.

Pensemos pois nas palavras de Roberto Amaral, intituladas:

A vitória da direita: a pós-política


"O grande projeto da direita, impressa ou partidária, ideológica ou simplesmente financeira, é a destruição das instituições democráticas, mediante a desmoralização da política. O segundo e último momento é o esvaziamento da soberania popular, como já ocorre na Europa. Daí o ataque aos políticos, uniformemente apontados, ora como incompetentes, ora, caso brasileiro, como corruptos. Todos sabemos como começa esse cantochão, e todos sabemos como termina, aqui e em todo o mundo: na Alemanha, construiu o nazismo; na Itália, o fascismo; a Grécia dos anos 60 terminou na ditadura dos coronéis (1967-1974). E paro por aqui, para que a listagem não fique enfadonha, com o exemplo brasileiro de 1964, lembrando a campanha da UDN contra a ‘corrupção’ do governo João Goulart, assoalhando o desfile militar. Aliás, sem qualquer originalidade, pois assim fôra construído o golpe de 24 de agosto de 1954, que culminou no suicídio de Vargas.
Como a História não se repete, a estratégia, agora, não é mais operar mediante ditaduras impopulares (a não ser no Oriente), mas exercer o mando direto, pela associação das grandes multinacionais, que já respondem por mais de 50% do PIB mundial, e o sistema financeiro. A banca, que já governa a economia em todo o mundo, resolveu agora ela mesma dirigir os países nos quais seus interesses (leia-se a hiperacumulação financeira especulativa) possam estar ameaçados. O experimento se inicia, de forma descarada, na Grécia e na Itália.(…)
À Espanha e a Portugal ainda é permitido escolher seus dirigentes, dentre aqueles que se revelem mais competentes e mais dóceis para aplicar as ordens da dupla. Noutros países, os políticos são responsabilizados pelos crimes da banca financeira e para governá-los são chamados os tecnocratas que engendraram a crise: são chamados pela troika e por ela indicados. Sem o menor respeito à soberania popular, e desrespeitando mesmo suas classes dominantes, que sequer foram ouvidas.
As modificações nos governos da Grécia e da Itália — esqueçamos por um momento os personagens medíocres, principalmente o burlesco Berlusconi — configuram um assalto à democracia, à soberania e à política. (…)
Assim foi nomeado o tecnocrata Mário Monti (egresso da Universidade de Chicago), nada mais nada menos do que ex-presidente do Goldman Sachs, o famoso gigante do mercado, com o compromisso de compor o gabinete com outros tecnocratas. Aliás, a intervenção, desta feita, não se fez ‘intra-muros’. Dias antes, o mesmo Goldman Sachs emitira uma ‘nota à imprensa’, na qual, se lia: “Um governo técnico [na Itália] teria maior credibilidade na comparação com outros executivos”. Assim, sem um voto, instala-se a ‘democracia de mercado’, que, em comum a todas as ditaduras, militares ou tecnocráticas, cultiva o sentimento de desapreço ao chamamento da cidadania.
É a pós-política, ou a democracia sem voto. (…)
Como todo gato escaldado deve temer água fria, seria aconselhável que nossos analistas começassem a dirigir seus olhares para a cena brasileira e fixar-se na campanha unânime que a grande imprensa, não podendo atacar os fundamentos da política econômica do governo de centro-esquerda da presidente Dilma, desenvolve contra a vida política brasileira, tentando fazer com que a cidadania brasileira se convença de que o mal de nosso país não é a desigualdade social da qual ela é servidora, mas a corrupção, da qual é beneficiária (isso não é dito) a classe dominante. Neste país estranho, os que não pagam impostos (os ricos) é que reclamam do apetite da Receita, enquanto os sindicatos silenciam quando deveriam estar nas ruas exigindo taxação progressiva; os jornalões se arvoram em defensores da liberdade de expressão quando foram associados e beneficiários da última ditadura.
A direita impressa quer fazer crer que todos os políticos brasileiros são iguais, isto é, corruptos, donde não haver saída pela política. Foi assim que a direita brasileira criou, em 1964, as condições subjetivas para o golpe militar, o qual, em seu primeiro momento, teve respaldo na sociedade brasileira, principalmente junto à classe-média que naquele então influía mais do que agora na formação do que se chama opinião pública. É construindo a ideia de que o processo representativo não resolve os problemas do país, que os políticos chegam ao poder apenas para realizar suas ‘revoluções’ pessoais, e de que o mal da democracia são os partidos, que a direita constrói o desalento coletivo, tentando fazer com que as grandes massas deixem de ver na democracia a grande alternativa, e na força do voto o poder de mudanças.
A corrupção em nosso país não é maior nem menor do que em qualquer outro país, e nunca foi combatida como está sendo, e não é nem uma deformação da democracia nem da política, porque ao lado do corrupto passivo há sempre um corruptor, que é sempre empresário.
Não é irrelevante (porque, aliás, é inédito) o fato de, em seus onze primeiros meses de governo, sete de seus ministros haverem sido demitidos pela imprensa, seis deles sob acusações de corrupção, ora não comprovadas, ora silenciadas quando o objetivo é alcançado.(…)"

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

HÁ MUNDO PARA ALÉM DA EUROPA!

Num alpinismo trágico, os anões políticos que dirigem a União Europeia, por intermédio do Partido Popular Europeu, sobem a enorme montanha da sua própria mediocridade. Hesitam, entre a óbvia solidariedade entre os povos da União, rumo a um destino comum e a projecção da sua pequenez prospectiva, rumo a uma coisa esquisita que ora parece ser o arremedo de um império que não conseguiu existir, ora parece ser uma simples sombra dos poderes económicos de facto. Amanuenses de uma numerologia estranha legitimam esforçadamente essa deriva suicidária, como se fizessem ciência num laboratório infalível. Desobediente, a realidade ignora-os.

Numa ópera cómica de salamaleques e sorrisos, para que as câmaras televisivas os registem, confiantes, os anões políticos que dirigem a União Europeia por intermédio do Partido Popular Europeu, reflectem a ilusão que em parceria com o amigo americano são ainda o centro do mundo. Não são. E se os povos europeus continuarem adormecidos e a esquerda continuar a partilhar-se entre a revolução impossível e a renúncia em assumir-se como renovado rosto de um mundo diferente, todos eles dispersos por futuros demasiado fragmentados para terem uma energia transformadora, a Europa pode estar a caminhar para uma irrelevância melancólica. Talvez possa vir a ser estudada no futuro no seio de uma grande Eurásia, como nós estudamos hoje as ruínas romanas. É pouco, porque se essa voragem destruidora se consumar, serão os povos europeus a ficar murchos, como resquícios da História.

Tudo isto vem a propósito, de um acontecimento que acaba de ocorrer em Caracas, onde nasceu uma organização dos povos de toda a América do Sul e das Caraíbas, com a ausência propositada dos USA e do Canadá. Um novo protagonista continental que vinha paulatinamente a assumir-se deu agora um importante passo em frente. E este é um dado novo na cena política mundial, com óbvios reflexos no relacionamento da União Europeia com o resto do mundo.

Para vos transmitir uma ideia do que se passou e do seu significado vou transcrever dois textos publicados no diário argentino Página /12. O primeiro da jornalista e comentadora política argentina Nora Veiras, enviado de Caracas, intitulado “Una oportunidad para ser protagonistas”; o segundo da autoria de um outro jornalista e comentador político argentino Martín Granovsky intitulado, “La Celac en diez claves”.


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Nora Veiras

1.“Una oportunidad para ser protagonistas"

“Estamos poniendo la piedra fundamental de la unidad, la independencia y el desarrollo de Latinoamérica.” Hugo Chávez se enfervorizó frente a la treintena de presidentes de la región que lo escuchaban en la inmensa sala del Teatro Teresa Carreño. Como anfitrión inauguró la primera Cumbre de Estados de Latinoamérica y el Caribe (Celac). El nuevo organismo nace haciendo propia la cláusula democrática de la Unasur y respaldando el reclamo de la Argentina sobre la soberanía en las Islas Malvinas. El venezolano recorrió los vínculos con cada país de la región y reforzó los gestos de afecto hacia Cristina Kirchner. “Ayer le rendimos tributo a Néstor Kirchner, a ese campeón de la unidad. Viste, Cristina, que no se fue ni se irá ese gran compañero”, repitió y otra vez la emoción contenida afloró en el rostro de la Presidenta. Los tres mil invitados se pusieron de pie unidos en un aplauso. Más allá de los sentimientos, a su turno la Presidenta argentina abogó por que se creen “mecanismos concretos de integración” en la región para potenciar “una oportunidad histórica de convertirnos en grandes protagonistas del siglo XXI”.
La Presidenta señaló que “de los 33 países de la Celac, doce integran la Aladi y lo cierto es que nuestros países tienen un comercio intrarregional de apenas el 16 por ciento mientras que el 84 por ciento de exportaciones/importaciones se realiza fuera de nuestros países”. Cristina Kirchner se solidarizó con la lucha contra el narcotráfico y reclamó que la región se ocupe en generar mecanismos para indagar sobre el lavado de dinero y los países consumidores porque “parece que América latina se queda con los muertos y las armas, y con la droga y con el dinero se quedan otros”. Abogó por la coordinación de los organismos regionales y consideró que la integración se va agrandando en anillos: primero el Mercosur, luego la Unasur y ahora la Celac.
También resaltó ante los presidentes latinoamericanos que el encuentro se realizaba “en un marco de crisis inimaginable”, por lo que pidió tomar medidas para que la situación no impacte en la región. “Tenemos una oportunidad única como productores de alimentos para afianzarnos en el mundo, no se trata sólo de hacer catarsis. Somos 598 millones de personas, un mercado más que apetecible”, indicó.
Otro párrafo fue para Malvinas, cuando agradeció el nuevo apoyo recibido aunque sostuvo que no era sólo una causa argentina sino global, dado que el país padecía la intransigente postura británica, “una potencia que tiene poder de veto en el Consejo de Seguridad de las Naciones Unidas”. En ese marco, se trataba de “un asunto de relación de fuerzas en el mundo”.
La Presidenta estaba en Caracas desde el miércoles por la noche, dado que el jueves tuvo un encuentro bilateral con Chávez. Por eso, luego de su intervención en la Celac, emprendió el regreso a la Argentina y hoy será reemplazada por el canciller Héctor Timerman, tanto en el cierre de la cumbre como en el plenario de la Unasur.
Acto
“Somos un mismo continente, con una misma alma”, dijo, parafraseando a José Martí, Felipe Calderón, el titular saliente del Grupo Río que se fusiona con la Cumbre de América latina y el Caribe (CAL) para darle vida a la Celac. El mandatario mexicano, un hombre de centroderecha, felicitó a Chávez por la convocatoria para el lanzamiento del nuevo organismo.
El secretario general de la Asociación Latinoamericana de Integración (Aladi), Carlos “Chacho” Alvarez, consideró que “los latinoamericanos estamos empezando a construir nuestra propia historia. Es el principio del fin de una historia de América latina que empezó con la Doctrina Monroe, aquella de ‘América para los americanos’. Ahora es ‘Latinoamérica para los latinoamericanos’. Eramos el trasero de un mundo dominado por un poder hegemónico, hoy hay un mundo multipolar. América latina empieza a ser un sujeto de esa historia, deja de ser un objeto dominado. América latina es parte de la reconfiguración de un nuevo orden mundial y económico”.
Siempre gozando con la provocación, Chávez señaló: “Acá nos estamos uniendo los regulares y los irregulares. Le dije a Dilma (Rousseff) que ella era revolucionaria y llegó escoltada por una generala. Yo soy regular y un poco irregular, Daniel Ortega (Nicaragua) era irregular y ahora es regular. Raúl Castro (Cuba) es irregular, regular, es un poco de todo”. Aludió así al origen guerrillero de algunos mandatarios y a cómo se ha ido forjando una historia común. Le mandó saludos a Fidel Castro, contó cómo lo convenció para que se tratara: “Me dijo. ‘Tú escoges: la cumbre o la vida, como revolucionario no tienes opción, tienes que escoger la vida, la cumbre puede esperar’. Así iniciamos la intervención, la internación, la quimioterapia. Por eso la cumbre no se hizo en junio y se hace ahora”.
El venezolano saludó a “esas dos gigantas”, Dilma y Cristina, y siguió alabando a sus invitados. Antes de partir hacia el fuerte militar Tiuna donde comenzaría el plenario, escucharon a la Orquesta Sinfónica Juvenil de Venezuela. “Antes al Teresa Carreño sólo podías entrar si tenías visa, el pueblo no lo conocía”, contaban cronistas locales.
Cambio de época
El inmenso predio que ocupa el Tiuna fue el lugar donde en 2002 Chávez fue detenido tras el golpe de Estado que lo sacó del poder. Ayer, en ese mismo lugar recibió a sus pares de América latina. Las salas del regimiento equiparan la inmensidad de las salas brasileñas y los presidentes se fueron ubicando a una distancia que desdibujaban los rostros. Chávez divisó a Fernando Lugo de Paraguay y le anunció: “Estás invitado a una cumbre que viene pronto, la de los que vencimos el cáncer. La convoca Dilma, ella es la primera”.
Chávez le dio la palabra a Rousseff. “Estamos en condiciones de crear un hecho político y económico de gran envergadura en la región. Hoy asumimos esa responsabilidad política y como ciudadanos de América latina la responsabilidad de poner en marcha este foro.” La presidenta de Brasil advirtió que “la crisis mundial está en el centro de las preocupaciones de la Celac. Son reales los temores de una recesión global. A pesar de ser originada en países desarrollados y que adoptan políticas que fracasaron en los ’80 y los ’90, pueden tener efectos muy fuertes en la economía internacional. Debemos responder con un nuevo paradigma: mantener el crecimiento en nuestros países con inclusión y justicia social y con la creación de empleos de calidad”.
Chávez apeló a las cifras de la Cepal sobre la región –31 por ciento de reservas de biocombustibles, 13 de reservas de petróleo, 47 de producción de cobre, 48 de producción de soja, 31 de carne y 23 por ciento de leche– para reforzar su potencial. El colombiano Juan Manuel Santos definió “la pobreza y el narcotráfico como los enemigos a combatir”. Reivindicó el nuevo foro, pero advirtió el riesgo de que “aceleremos pero no avancemos”.
“Un día como hoy, hace 55 años –tú no habías nacido, Rafael (Correa)– Raúl Castro desembarcaba en el Granma en Cuba”, recordó Chávez al darle la palabra. El presidente cubano destacó “el hecho trascendental” de formación de la Celac. Señaló que “no tenemos un ideario homogéneo ni coincidencias ideológicas totales, pero sí la decisión de trabajar en respeto y cooperación”. Castro advirtió que “hay 180 millones de pobres y 72 millones en extrema pobreza en América latina, es una tragedia que debemos combatir”. Mientras Castro hablaba empezó a escucharse el “bombazo”, un ruido ensordecedor organizado por el chavismo para contrarrestar el “cacerolazo” que había anunciado la oposición para opacar la cumbre.
La noche avanzaba y los presidentes seguían analizando el escenario regional e internacional. Hoy culmirá la cumbre y sesionará la Unasur".

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Martín Granovsky


2. La Celac en diez claves


"En un mundo que transita hacia no se sabe qué, y tampoco cómo ni cuándo, la primera cumbre de la Comunidad de Estados Latinoamericanos y del Caribe (Celac) es una buena noticia para Sudamérica.
La creación de la Celac, en 2010, fue una iniciativa impulsada por Brasil cuando era presidente Luiz Inácio Lula da Silva que la Argentina apoyó con entusiasmo y el venezolano Hugo Chávez acaba de aprovechar con habilidad en medio del cáncer y a 10 meses de las elecciones presidenciales del 7 de octubre.
El sistema planetario y la futurología son malos compañeros. Antes que definir cómo será la Celac dentro de 20 o 30 años parece más útil mostrar algunas claves de su debut en Caracas.
Clave uno. La Celac no sustituye a la Unasur, la Unión Sudamericana de Naciones creada en 2004, relanzada en 2007 y consagrada en su eficacia regional con la secretaría ejecutiva de Néstor Kirchner en 2010. En términos políticos la Unasur sigue siendo el núcleo homogéneo y, como tal, fue el motor de la Celac. Al impulsar el nuevo organismo, brasileños y argentinos se cuidaron de no diluir a la Unasur, así como la Unasur no diluyó al preexistente Mercosur.
Clave dos. La Celac incluye a México, y el propio presidente Felipe Calderón abrió las sesiones, pero la Argentina no repite viejos esquemas según los cuales México debe ser un contrapeso para el espesor internacional de Brasil.
Clave tres. La prueba de los dos primeros puntos es que Cristina Fernández de Kirchner y Dilma Rousseff utilizaron el marco de la cumbre de Caracas para anunciar la creación de un llamado por los gobiernos Mecanismo de Integración Productiva entre la Argentina y Brasil. “Cuando Brasil crece, crece la Argentina”, dijo el canciller Héctor Timerman en una síntesis que pareció apuntar a una visión: más allá de las diferencias comerciales, que no superan el 10 por ciento del volumen total del intercambio entre los dos países, la Argentina apuesta a subir la escala de la relación con Brasi. Y aquí no hay espacio para la nostalgia sobre el PBI de cada país hace 100 o hace 50 años. Brasil está a punto de superar al Reino Unido en el ranking de las economías más poderosas del mundo y resulta que es el gran vecino de acá al lado. Pragmática, la Argentina actúa según esa realidad y se beneficia de ella tanto en términos económicos como políticos. Un ejemplo del último aspecto es el respaldo de la Celac al reclamo nacional de abrir negociaciones diplomáticas con el Reino Unido para recuperar las Malvinas.
Clave cuatro. Brasil y la Argentina no abandonaron a Venezuela ni como apuesta regional (centrada en el potencial energético de los venezolanos y en su rol creciente de puente entre Sudamérica y el Caribe) ni como apuesta política (Cristina y Dilma prodigaron gestos de cariño incluso personal a Chávez, que pelea con la biología y contra el tiempo para un eventual armado oficialista de cara a las elecciones).
Clave cinco. La euforia del presidente cubano Raúl Castro, que calificó a la Celac de la iniciativa más importante de los últimos 200 años, muestra otra cara del nuevo organismo. No reemplaza a la Organización de los Estados Americanos, que sí incluye a los Estados Unidos y tiene apartada a Cuba, pero sigue vaciando de contenido concreto a la OEA. Y, de paso, ofrece un paraguas de amplio espectro político para que Cuba pueda emprender una transición lo más ordenada posible desde la revolución hacia la construcción de un capitalismo mixto que no termine un buen día con una invasión de empresas inmobiliarias de Miami.
Clave seis. La Celac es otra forma más de reunirse y discutir en un mundo multipolar que se encuentra en plena reformulación. Los Estados Unidos, que aún son la única hiperpotencia militar, estos días respiran aliviados ante la caída del índice de desempleo al 8,6 por ciento, por debajo del 9 que parecía imposible de perforar. La Europa comunitaria discute ya sólo la medida en que cada país se reservará alguna cuota de soberanía ante la decisión alemana de convertirse en el gendarme fiscal de sus 27 socios, que así dejan de serlo para transformarse en pupilos. Beijing desacelera el crecimiento sin enfriarse mientras avanza en una sorda disputa naval, típica de la Guerra Fría, a ver quién predomina sobre quién en el Pacífico y el Mar de la China. Rusia hace lo propio con su marina en el Báltico. En ambas regiones está en juego no sólo el acceso a mercados, sino el control de riquezas naturales submarinas a explotarse en el futuro, desde petróleo y gas hasta yacimientos de oro.
Clave siete. En la multipolaridad hay instancias de construcción de poder regional nítido, como Unasur o el Nafta, y también instancias más débiles con objetivos menos permanentes, de composición más heterogénea o de conversión en foros de debate. Un ejemplo son los Brics, que integran Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica. No tienen un objetivo militar común, pero sí disputan juntos cuotas mayores de poder en el Fondo Monetario Internacional e intentan terciar en la crisis europea para evitar una caída brusca de la UE. Otro ejemplo, donde hoy se concentra la tensión de la discusión sobre los modelos internacionales de desarrollo, es el G-20, con presencia de dos latinoamericanos en sintonía (la Argentina y Brasil) y otro alineado con Washington, como México.
Clave ocho. México ya eligió el Nafta (fruto de una decisión política de integración con los Estados Unidos y a la vez consagración de una dependencia comercial y económica respecto del mercado norteamericano), pero un futuro gobierno del Partido Revolucionario Institucional que surja de una victoria eventual el 1ª de julio puede necesitar que a mano haya un foro donde retomar cierta dimensión simbólica de autonomía cultural respecto de su gran vecino. Esa perspectiva sería aún más acuciante si el presidente que suceda a Calderón, del conservador PAN, decidiera cambiar la actual estrategia de enfocar la lucha contra el narcotráfico como una guerra. El enfoque no es sólo intelectual: en México ya murieron más de 40 mil personas en los últimos cuatro años, el narcotráfico no se redujo y el contrabando de armas entre el sur de los Estados Unidos y el norte de México es tan fluido como la trata de inmigrantes.
Clave nueve. La Celac no surge como un organismo dirigido contra los Estados Unidos, y no podría hacerlo por la pluralidad de sus integrantes, pero la mera ausencia de Wa-shington es un indicio de que, siempre que los latinoamericanos eviten el delirio y se abs-
tengan de dar por extinguido el poder de los Estados Unidos, tienen un espacio de autonomía para construir instituciones como Unasur o el Consejo Sudamericano de Defensa.
Clave diez. Chávez no sólo estuvo hábil para utilizar la Celac como una forma de legitimación interna. No podría haber llegado a este punto sin haber desplegado en el Caribe, donde no todos los países son Cuba, Nicaragua o El Salvador, aun con todas las diferencias entre los tres, una diplomacia basada en el activismo que México dejó hace ya 20 años y en la provisión de petróleo más barato".

sábado, 3 de dezembro de 2011

DIREITA E ESQUERDA

1. Quando vejo alguém de direita dizer que já não há esquerda nem direita, isso só pode querer dizer que esse alguém quer continuar a ser de direita sem ser incomodado, pela vago remorso de que há um conjunto de pessoas ao qual ele não pertence que é objectivamente mais decente do que ele, quando se trata de imaginar a sociedade como um todo.

Quando vejo que há alguém que eu julgava ser de esquerda a dizer que já não há esquerda nem direita, isso só pode querer dizer que há um novo renegado em gestação que quer fazer desaparecer o corpo de delito do que ele próprio avalia como uma traição.

Por isso, mantém actualidade a velha máxima de que quem questiona a diferença entre a direita e a esquerda é forçosamente de direita; ou para lá caminha apressadamente.

2. Isto é um esquema que na maior parte dos casos espelha a verdade. Mas, como esquema, não exclui que a diversidade luxuriante dos indivíduos conduza, de quando em vez, a excepções. E aí estamos nós a tropeçar num inesperado conservadorismo de gente de esquerda ou a surpreender rasgos futurantes em gente de direita. A paisagem política não é monótona, pelo que temos que a percorrer com todo o cuidado, se não quisermos ser atropelados pelo nosso próprio simplismo.

3. Pensar a dicotomia esquerda-direita é, por isso, de algum modo pensar a própria política. Talvez por isso, não seja fecundo procurar determinar um padrão abstracto de referência, tecido por valores, princípios, orientações programáticas e perfis prospectivos, com base no qual se incluiriam ou excluiriam da esquerda, excluindo-os ou incluindo-os por simetria na direita, as organizações e as pessoas sobre as quais estivéssemos a pensar. Nada disso pode ser esquecido, mas tudo isso não é suficiente,
para se chegar a um juízo.

4. Talvez a pedra de toque seja outra: pugnar pela eternização do capitalismo, quer por se entender que ele é o fim da História, quer por se achar que ele é o sistema mais perfeito possível, quer porque quem o defende sabe ser esse o sistema que lhe convém , é a espinha dorsal da direita. Olhar o presente como exílio, senti-lo como antecâmara de um futuro livre, justo e fraterno, caminhar para ele numa aposta permanente de esperança, não aceitar por isso o capitalismo como o fim da história, é a espinha dorsal da esquerda.

Estar ao lado dos que gerem os verdadeiros privilégios neste tipo de sociedade, por erro, conveniência ou ilusão, contribuindo para perpetuar esse domínio; ou estar ao lado dos que pagam, através de uma vida difícil, a fruição por outros de paraísos alheios, contribuindo para esvaziar esse domínio e varrer esses privilégios − é o que coloca alguém na direita ou na esquerda.

Mas não excluo como flexibilização de um critério com ambições de objectividade, uma radical deriva subjectiva: é de esquerda qualquer pessoa ou organização que se assuma como tal. E transgredindo uma hipotética simetria: é de direita qualquer pessoa ou organização que não se assuma como de esquerda.

5. Talvez falte o Centro, território político misterioso, que verdadeiramente nem sabemos se existe; mas que, em contrapartida, não podemos garantir que não seja uma terra de ninguém, decisiva no plano político.

Ou será apenas uma mistura efémera e volátil, entre os arrependidos dos dois lados, que não foram ainda capazes de decidir se, passada a zanga, aceitam ser filhos pródigos ou se estão dispostos a rasgarem-se para se entregarem ao inimigo?

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TRISTE DILEMA: irresponsáveis ou estúpidos.

A legitimidade da democracia não depende do agrado que em cada um de nós provoquem os resultados do seu funcionamento. Por isso, tudo o que nos últimos tempos se traduziu, no seio do mundo árabe, na abertura de percursos democráticos merece ser saudado.

O caso particular da Líbia está ainda por revelar o seu significado duradouro. Não justificando uma avaliação diferente da qualidade democrática do regime derrubado, merece que se não esqueça que suscitou uma guerra civil e que foi cenário de uma arrasadora interferência do que antes se chamavam as potências ocidentais. Potências que vestiram uma piedosa pele humanista de salvadoras de vidas, quando a maior parte dos mortos eram imputáveis ao regime deposto, mas se esqueceram rapidamente dessa desvanecedora atitude, quando não hesitaram em inscrever no activo da sua guerra um apreciável rosário de vidas humanas ceifadas. Potências que tiveram da ONU um mandato preciso com limites definidos, mas não hesitaram em excedê-lo, quando isso lhes foi conveniente. Potências que julgaram altaneiramente resolver em dias o que afinal lhes demorou meses a conseguir. Potências no seio das quais se assistiu ao apagamento estranho dos USA, para que emergisse caricata uma miniatura de Napoleão e nos chegasse o cheiro a um ranço tardio do império britânico. Ou seja, actores políticos que assumiram a pose de uma grande epopeia, quando afinal se confinaram à modéstia de um drama, com embaraçosos laivos de comédia. Pousaram para a fotografia como se roçassem a glória, mas mostraram apenas a melancólica sombra da decadência.


Daqui a um ano, os mortos continuarão mortos, inscritos na culpa do regime deposto e das potências voadoras, mas o cenário pode ser mais eloquente, como ilustração do verdadeiro resultado político da destruição de uma parte da Líbia e de um regime autoritário, akiás, ultimamente tratado com toda a cordialidade pelos mesmos sujeitos que ordenaram os bombardeamentos.

Mas, se quanto à Líbia será preciso esperar para se perceber qual a tonalidade do que está para vir, noutros países, que também foram palco de mudanças, há já algum começo de resposta. Na Tunísia, os islamistas moderados venceram as eleições e no Egipto a vitória dos islamistas menos radicais foi maior do que receavam os laicos, enquanto o segundo lugar conseguido pelos islamistas radicais foi totalmente inesperado, podendo catapultar o peso global dessas duas forças para uns impressionantes dois terços do eleitorado. Mesmo em Marrocos, numa evolução tutelada pela Coroa, o passo dado rumo a uma democracia menos relativa traduziu-se na vitória de um partido islamista.

Cada um à sua maneira, na Síria e no Iraque continuam a decorrer dramas sangrentos. Com as características específicas de cada caso, perfilam-se nos respectivos horizontes distintas interrogações.

O que espanta é que quer a potência liderante, quer os seus apaniguados mais untuosos, parecem não ter uma política global coerente, onde adquiram uma lógica os diversos episódios que vão protagonizando nos vários tabuleiros em que decorre o grande jogo mundial do poder e dos interesses.

Na verdade, ao mesmo tempo que no essencial parecem enquistar-se num seguidismo acéfalo do fundamentalismo israelita, sectariamente anti-palestiniano, vão abrindo caminho ou estimulando evoluções no mundo muçulmano que, a prazo, só podem agravar o isolamento estratégico de Israel. É como se tivessem perdido a visão global do jogo em que participam, comportando-se em cada tabuleiro como se fosse o único.

Não estou aqui a exprimir acordo ou desacordo com as políticas das potências ocidentais neste campo, embora discorde delas no caso israelo-palestiniano, e não as aceite por completo nos outros casos, não pelo lado que apoiaram , mas pelo modo como materializaram esse apoio. E claro, repudio também a vergonhosa complacência com que tratam as ditaduras monárquicas, de que é exemplo gritante a Arábia Saudita, manifestando assim uma incoerência insuportável, em face do modo como trataram a questão líbia.

Por tudo isto, é cada vez mais claro que as lideranças chamadas ocidentais não têm meios para executar a política por que optam em todos os seus aspectos. E assim praticam actos que só teriam consistência estratégica, se fossem a acompanhados por outros que não conseguem praticar; e assim tornam-se objectivamente irresponsáveis. Mas se, pelo contrário, os têm, isso só pode significar que apenas não têm uma política globalmente coerente, por não serem capazes de a conceber, por serem intelectualmente lineares ou politicamente estúpidos.


E assim chegámos a um triste dilema: os grandes protagonistas da política mundial, alegadamente ocidentais, ou são irresponsáveis ou são estúpidos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Recordar as vozes de grandes poetas é um estímulo insubstituível para a nossa razão e um guia seguro para as nossas emoções. Ouçamos pois, uma vez mais, Bertolt Brecht, na versão portuguesa de Paulo Quintela.



MAS QUANDO CAMINHAVA PARA O CEPO

Mas quando caminhava para o cepo onde o iam matar
Caminhava para um cepo que fora feito pelos seus iguais
E também o machado que agora o esperava
Fora feito pelos seus iguais. Apenas eles tinham partido
Ou tinham sido expulsos, mas estavam sim ali
E presentes na obra das suas mãos. Nem mesmo a luz
Nos corredores por onde passava para a morte
Haveria sem eles. Nem a casa
Donde era levado, nem qualquer outra casa.
Porque é que
Tem ele de estar sozinho, ele que falou por tantos?
Por isto:
Os opressores juntam-se
Mas os oprimidos andam desunidos.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

UM NOVO CLUBE POLÍTICO NO PS

Subscritores do “Manifesto para uma Renovação Socialista”[http://manifestops.blogs.sapo.pt/ ],reunidos em Coimbra, no passado dia 26 de Novembro, fundaram um novo clube político no âmbito do Partido Socialista.

“CLUBE MANIFESTO – para uma renovação socialista”, eis o nome que foi escolhido. Ao novo clube aderiram já quarenta e oito militantes do Partido Socialista, pertencentes a algumas das suas Federações. O documento acima referido é a identidade política do clube. Podem aderir aqueles que, concordando com o Manifesto, o subscrevam. Vai abrir-se, assim, um novo espaço de debate sobre a actualidade política, sobre as questões económicas e sociais mais candentes, sobre a vida do PS, sobre a esquerda em geral, sobre Portugal, a Europa e o Mundo, sobre o injusto garrote neoliberal e a dolorosa agonia do capitalismo, sobre o pós-capitalismo e o horizonte socialista.

Foi constituída uma Comissão Instaladora, destinada a preparar uma nova reunião, em que serão aprovadas as regras essenciais para o funcionamento do Clube e uma estrutura simples de coordenação; bem como a promover outras iniciativas aprovadas.

Desde já, ficou decidida a realização de um Colóquio, a realizar em Fevereiro próximo, que irá centrar-se em dois temas principais:

- primeiro, a renovação político-organizativa do Partido Socialista, com destaque para a questão das eleições primárias abertas, para escolha dos candidatos a apresentar pelo PS nas diversas eleições; para o imperativo de serem criados obstáculos estruturais que tornem objectivamente inviável, dentro ou a partir do PS, qualquer promiscuidade entre política e negócios; e para a necessidade de um grande passo em frente na senda de uma maior qualidade democrática na vida do partido, especialmente nos processos eleitorais internos;
-segundo, o projecto autárquico do PS concebido no quadro de uma reforma do Estado, numa perspectiva potenciadora da qualidade de vida das pessoas, através da territorialização de uma economia plural, ecologicamente amigável.

No decurso da reunião do passado dia 26, foi debatida a actual conjuntura portuguesa, a situação do PS, o bloqueio do projecto europeu, a estagnação do Partido Socialista Europeu e o extravio da Internacional Socialista.

Pela Comissão Instaladora .

Rui Namorado

domingo, 27 de novembro de 2011

NA EUROPA: melancolia socialista.

Hoje, vou dar-vos a conhecer um pequeno texto noticioso, publicado no diário espanhol El País, escrito em Bruxelas, pelo jornalista , Ricardo Martínez de Rituerto, intitulado “Papandreu culpa a los conservadores de "hacer fracasar a Europa" ”, cujo subtítulo é “Los socialistas europeos buscan respuestas a la crisis que los arrolla”.
Pelo texto, se pode confirmar a gravidade do esvaziamento político que atingiu o Partido Socialista Europeu. Em contrapartida, não se consegue vislumbrar o mínimo sinal de esperança nos horizontes por ele sugeridos. Tenhamos esperança, apesar de tudo, de que se trate apenas de uma falha de informação e fiquemos a aguardr melhores notícias.


Mas se isso não acontecer , talvez não nos reste outra saída do que a de nos rebelarmos contra a inércia cinzenta das burocracias que sufocam o socialismo europeu, condenando-o a uma quase irrelevância. Uma irrelevância que as dificuldades presentes tornam insuportável.


Vejamos o texto:

"Los socialistas europeos celebran este viernes y sábado en Bruselas el congreso de su partido en la atmósfera de depresión y desorientación propia de quienes se han convertido en los administradores de políticas que sus electores consideran serviles a las ideas liberales y a los mercados. “Necesitamos otro espacio político”, dice el danés Poul Nyrup Rasmussen en el discurso de despedida como presidente del Partido de los Socialistas Europeos (PSE), un mandato que comenzó con otras expectativas en 2004. En su parlamento, Rasmusen ha dado calor político al ex primer ministro griego Yorgos Papandreu, quien, a su vez, ha arremetido contra “la Europa conservadora que ha hecho muy poco y muy tarde” por evitar la crisis que tiene a la UE contra las cuerdas.
Papandreu ha sido el penúltimo socialista al que la crisis le ha costado el cargo, justo por delante de los socialistas españoles barridos en las urnas el pasado domingo. A ambos les precedió el portugués José Socrates. Ante este panorama, Rasmussen ha animado a sus correligionarios con el hecho de la llegada de socialistas a los Gobiernos de Irlanda, Finlandia y Dinamarca, en todos lo casos en coalición y sólo en Copenhague al frente del Ejecutivo. Socialistas quedan también en las coaliciones gubernamentales de Eslovaquia (con próximas elecciones que pintan mal para ellos), Austria y Bélgica (en funciones).
Para animar al auditorio ha dicho Ramussen que quizá haya de nuevo socialistas al frente de Bélgica (si es que Elio di Rupo, que hace unos días tiró la toalla de formador de Gobierno, acepta el encargo regio de seguir intentándolo), Alemania (donde hay elecciones el próximo otoño), Francia (con François Hollande deseoso de desplazar a Nicolas Sarkozy en mayo de 2012) e Italia, en fecha imprevisible.
En buena ley, más deseos que realidades. “El enfado contra la austeridad está ahí fuera”, ha dicho Rasmussen a un auditorio que lo sabe de sobra porque lo está pagando caro. Con ánimo batallador ha pedido que estos dos días de debate y reflexión sean los de renovación y reactivación del socialismo europeo.
Papandreu ha reconocido las cosas como son: Europa “hoy está dominada por los conservadores”, antes de arrojar sobre ellos toda la responsabilidad de lo que ocurre: “Son los que han hecho fracasar Europa y han fallado al pueblo”. En el caso griego, subraya, fueron los conservadores de Nueva Democracia quienes minaron el territorio. Él, ha dicho, sólo heredó los problemas y adoptó medidas impopulares “para poner la casa en orden”, siguiendo los dictados de la Comisión Europea, el Banco Central Europeo y el Fondo Monetario Internacional.
Las referencias le han servido para explicar su órdago fallido del referéndum sobre el plan de rescate griego: se trataba de “redistribuir el poder, dar el poder a la gente, voz a su voluntad e ir más allá de los intereses conservadores”. En el aire ha quedado por qué no llegó hasta el final en su deseo de dejar al pueblo que “decidiera su futuro” mientras ha vuelto a hacerse eco de palabras que de repetidas suenan a hueco a electores de izquierda frustrados: estrategia responsable de crecimiento, Europa competitiva, necesidad de invertir en la juventud y el empleo...
Rasmussen cede la presidencia del PSE al exprimer ministro búlgaro Serguei Stanishev, que en 2009 perdió en su país las elecciones generales y europeas."

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O LIXO DA VIRTUDE

Hoje, dia de greve geral, é um dia politicamente importante. Vai saber-se com que expressividade se vai manifestar a ansiedade pelos horizontes confiscados, por um dia a dia que parece afunilar-se num garrote de dificuldades, por uma revolta contra uma desigualdade social que cresce em benefício de cada vez menos privilegiados à custa de um número cada vez maior de cidadãos. Vamos saber se continua impante essa hipocrisia rasteira que qualifica a magra retribuição do trabalho humano como um despesismo fatal e os gordos lucros auferidos pelos detentores do capital como o doce mel de todas as virtudes.

Acho que é um dia adequado para vos oferecer a transcrição de um texto retirado, com a devida vénia, do jornal argentino Página 12. O seu autor, Eduardo Febbro, escreveu-o em Paris. O seu título é sugestivo e revelador: “En Europa el poder es de Goldman Sachs”. E num pequeno excerto, que serve de subtítulo, acrescenta:
“Pertenecen a la red que Sachs tejió en el Viejo Continente y, en grados diversos, participaron en las más truculentas operaciones ilícitas orquestadas por la institución norteamericana. Además, no son los únicos”
.

Vivemos numa conjuntura em que se têm vindo a incendiar alaridos, aparentemente ferozes, contra pequenos e médios corruptos, o que será bom se desembocar em punições justas e se não for a cortina de fumo necessária para se não descobrir a verdadeira grande corrupção, incrustada na lógica do próprio capitalismo ou executada com um virtuosismo suficientemente subtil para a pôr a coberto das malhas parciais de uma justiça arrastada. É certo que este vendaval de virtude, que reflecte um ascetismo teórico que chega a comover, é por vezes desviado para ajustar contas contra alguma figura pública com que as fontes não simpatizam, contra algum político que não lhes agrada. E isso é mau.

Mas tudo isso são esquálidos amendoins, quando tomamos contacto com o que o texto que vou transcrever nos diz. E com isso não podemos deixar de nos indignar e de nos alarmar. O que pode haver de confisco invisível de bens públicos pela simples inércia das sinergias perversas desta rede de interesses, empurra para uma relativa insignificância os roubos mais onerosos de dinheiros públicos que até hoje se conhecem. E, no entanto, a comunicação social europeia, quer os virtuosos arautos do neo-liberalismo instalado, quer os miolos moles que fazem ecoar o senso comum mediático, aplaudem a chegada, a importantes alavancas do poder político e económico, do que podemos objectivamente recear que sejam alguns meliantes, mas festejando-os com se fossem puros arcanjos de um céu da economia onde se respira exclusivamente honestidade, rigor e verdade.

Não sei se isto é uma tragédia ou uma vergonha, mas vamos lá a ler o texto para que nos lembremos sempre da estatura moral dos poderes hoje instituídos nesta Europa em delírio:

"La historia podría colmar todas las expectativas de los adeptos a las teorías del complot. ¿Dónde está el poder mundial? La respuesta cabe en un nombre y un lugar: en la sede del banco de negocios Goldman Sachs. El banco norteamericano logró una hazaña poco frecuente en la historia política mundial: colocar a sus hombres a la cabeza de dos gobiernos europeos y del banco que rige los destinos de las políticas económicas de la Unión Europea. Mario Draghi, el actual presidente del Banco Central Europeo; Mario Monti, el presidente del Consejo Italiano que reemplazó a Silvio Berlusconi; Lucas Papademos, el nuevo primer ministro griego, pertenecen todos a la galaxia de Goldman Sachs. Estos tres responsables, dos de los cuales, Monti y Papademos, forman la avanzada de la anexión de la política por la tecnocracia económica, pertenecen a la red que Sachs tejió en el Viejo Continente y, en grados diversos, participaron en las más truculentas operaciones ilícitas orquestadas por la institución norteamericana. Además, no son los únicos. Se puede también mencionar a Petros Christodoulos, hoy al frente del organismo que administra la deuda pública griega y en el pasado presidente del National Bank of Greece, al que Sachs le vendió el producto financiero conocido con el nombre de Swap y con el cual las autoridades griegas y Goldman Sachs orquestaron el maquillaje de las cuentas griegas.
El dragón que protege los intereses de Wall Street cuenta con hombres clave en los puestos más decisivos y no sólo en Europa. Henry Paulson, ex presidente de Goldman Sachs, fue nombrado luego secretario del Tesoro norteamericano, mientras que William C. Dudley, otro alto cargo de Goldman Sachs, es el actual presidente de la Reserva Federal de Nueva York. Pero el caso de los responsables europeos es más paradigmático. La palma de honor se la lleva Mario Draghi. El hoy presidente del Banco Central Europeo, BCE, fue vicepresidente de Goldman Sachs para Europa entre los años 2002 y 2005. En ese puesto, Draghi tuvo un desempeño más que ambiguo. El título de su cargo era “empresas y deudas soberanas”. Precisamente, en ese cargo Draghi tuvo como misión vender el incendiario producto Swap. Ese instrumento financiero es un elemento determinante en el ocultamiento de las deudas soberanas, es decir, en el maquillaje de las cuentas griegas. Esa trampa fue la astucia que permitió a Grecia calificarse para formar parte de los países que iban a utilizar el euro, la moneda única europea. Técnicamente, y con Goldman Sachs como operador, se trató en ese entonces de transformar la deuda exterior de Grecia de dólares a euros. Con ello, la deuda griega desapareció de los balances negativos y GS se llevó una jugosa comisión. Luego, en 2006, Goldman Sachs vendió parte de ese paquete de Swaps al principal banco comercial del país, National Bank of Greece, dirigido por otro hombre de GS, Petros Christodoulos, ex trader de Goldman Sachs y en la actualidad director del organismo de gestión de la deuda de Grecia que él mismo y los ya mencionados contribuyeron a disimular primero y a incrementar después. Mario Draghi tiene un historial pesado. El ex presidente de la República Italiana Francesco Cossiga acusó a Draghi de haber favorecido a Goldman Sachs en la atribución de contratos importantes cuando Draghi era director del Tesoro e Italia estaba en pleno proceso privatizador. Lo cierto es que el ahora director del Banco Central Europeo aparece masivamente sindicado como el gran vendedor de Swaps en toda Europa.
En ese entrevero de falsificaciones surge el jefe del Ejecutivo griego, Lucas Papademos. El primer ministro fue gobernador del Banco Central griego entre 1994 y 2002. Ese es precisamente el período en el que Sachs fue cómplice del ocultamiento de la realidad económica griega y en tanto que responsable de la entidad bancaria nacional, Papademos no podía ignorar la trampa que se estaba montando. Las fechas en las que ocupó el cargo hacen de él un operador del montaje. En la lista de notables le sigue Mario Monti. El actual presidente del Consejo Italiano fue consejero internacional de Goldman Sachs desde 2005. En resumen, muchos de los hombres que fabricaron el desastre fueron llamados ahora a tomar las riendas de puestos clave y con la misión de reparar, a costa de los beneficios sociales de los pueblos, las consecuencias de las estafas que ellos mismos llevaron a cabo. No caben dudas de que existe lo que los analistas llaman “un gobierno Sachs europeo”. El portugués Antonio Borges dirigió hasta hace poco –acaba de renunciar– el Departamento Europa del Fondo Monetario Internacional. Hasta 2008, Antonio Borges fue vicepresidente de Goldman Sachs. El desaparecido Karel Van Miert –Bélgica– fue comisario europeo de la Competencia y también un cuadro de Goldman Sachs. El alemán Ottmar Issing fue sucesivamente presidente de la Bundesbank, consejero internacional del banco de negocios norteamericano y miembro del Consejo de Administración del Banco Central Europeo. Peter O’Neill es otro hombre de la enredadera: presidente de Goldman Sachs Asset Management, O’Neill, apodado El Gurú de Goldman Sachs, es el inventor del concepto de Brics, el grupo de países emergentes compuesto por Brasil, Rusia, India, China y Sudáfrica. A O’Neill lo acompaña otro peso pesado, Peter Sutherland, ex presidente de Goldman Sachs Internacional, miembro de la sección Europa de la Comisión Trilateral –lo mismo que Lucas Papademos–, ex integrante de la Comisión de la Competencia en la Unión Europea, fiscal general de Irlanda e influyente mediador en el plan que desembocó en el rescate de Irlanda. Alessio Rastani tiene toda la razón. Este personaje que se presentó ante la BBC como un trader dijo hace unas semanas: “Los políticos no gobiernan el mundo. Goldman Sachs gobierna el mundo”. Su historia es ejemplar, de doble juego, como las personalidades y las carreras de los brazos mundiales de Goldman Sachs. Alessio Rastani dijo que era un trader londinense, pero luego se descubrió que trader no era y que podría formar parte de Yes Men, un grupo de activistas que, a través de la caricatura y la infiltración de los medios, denuncian el liberalismo. Quedará para las páginas de la historia mundial de la impunidad la figura de estos personajes. Empleados por una firma norteamericana, orquestaron una de las mayores estafas que se hayan conocido, cuyas consecuencias se pagan hoy. Fueron premiados con el timón de la crisis con las que ellos complotaron."

domingo, 13 de novembro de 2011

UM PASSADO COM FUTURO

Algumas centenas de antigos militantes do MES comemoraram, ontem, na Costa da Caparica, os trinta anos da sua extinção. Estiveram presentes protagonistas das principais cisões e vários rostos da vida completa do MES. Estiveram presentes cidadãos que usaram a sua vida sem protagonismo na esfera pública, militantes de diversas causas generosas, militantes políticos sem exposição mediática, detentores de prestígios exteriores à política, deputados e ex-deputados, ex-Ministros, ex-Secretários de Estado, ex-Secretários Gerais do Partido Socialista, um ex-Presidente da República. Sem mesas de honra, sem primeiras filas, sem vénias, mas com um grande calor humano, com uma fraternidade subtil mas patente, bem dispostos. Gente com uma auto-imagem suficientemente afirmativa para pensar que o que fez, em conjunto, sob aquela bandeira, por pouco que tivesse sido, foi importante; mas com a auto-ironia bastante para saber que essa importância não justifica a empáfia da grandiloquência.

Se um voo rápido da imaginação nos levasse a ver toda aquela gente, apostando numa iniciativa política comum, é realista pensar-se que a paisagem política portuguesa seria outra. E mesmo que, num assomo de modéstia, a imaginação se limitasse ao espaço de um único partido (pensando naquele a que pertenço, penso no PS), é realista pensar-se que, se aqueles que ali estavam e são militantes do PS, traduzissem o sentido que atribuíram aos sonhos ali comemorados numa imaginação política actual, em que todos se reconhecessem, rapidamente nos afastaríamos de qualquer cinzentismo abafado. Mas todos sabemos que essa imaginação não é realizável, embora a devamos deixar pairar como sombra orientadora ou como amável e virtuosa ameaça, ainda que frágil e suave.

O tempo deixou, no que cada um de nós viu no rosto dos outros, a sua implacável marca e uma discreta melancolia. A memória foi-nos reconduzindo aos rostos dos nossos passados, num intercâmbio de recordações dispersas e calorosas, por vezes simplesmente intuídas, às vezes passageiras, sempre luminosas. As diferenças antigas tornaram-se pequenas e amigáveis. O essencial ficou de pé, como uma saudade da razão.

Vivemos um tempo em que algumas narrativas das grandes esquerdas já foram encerradas nos atalhos da história, enquanto outras parecem ter perdido o futuro, quando se deixaram extraviar demasiadas vezes nos seus presentes. Mas o tempo cruel do capitalismo agonizante não conseguiu fechar, na arca dos impossíveis e do esquecimento, as desamparadas narrativas das pequenas esquerdas. Elas que nasceram frágeis e minoritárias (quando eram enormes as narrativas dum realmente existente, que afinal não existia), questionando-se ao mesmo tempo que questionavam, subsistem com simplicidade, abertas a novos sonhos e a novas maneiras de sonhar um futuro.

Cientes da diversidade de opiniões ali presente, mas que a ninguém embaraçou, aquelas centenas de cidadãos, sob a superfície emocionada de uma simples efeméride, penso eu, que homenagearam a semente de utopia que há trinta e quarenta anos os animou. Uma utopia feita de palavras simples, virtuosamente indissociáveis, sedentas de uma sinergia insubstituível: liberdade e democracia; igualdade e justiça; fraternidade e solidariedade. Ou seja, sair do capitalismo pela mão do povo, através da sua vida e da sua força, através de mutações sociais politicamente sustentadas, com a ajuda (apenas ajuda, ainda que importante) de um Estado que seja democraticamente seu. Numa palavra, levar a democracia ao extremo de si própria.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A GLOBALIZAÇÃO DO PROTESTO

Os movimentos de protesto têm saltado fronteiras. Os políticos prudentes começam a perceber que é temerário ignorá-los. Muitos jovens têm ganho as ruas, mas não as têm ganho sozinhos. A sua revolta, contra a exclusão de uma sociedade que despreza objectivamente as suas capacidades, transforma-os em irmãos de todos os excluídos. E com todos eles estão também solidários todos os que rejeitam uma sociedade radicada na injustiça e na desigualdade social. Não é dominante entre as multidões indignadas uma explícita recusa do capitalismo, mas o que muito legitimamente exigem não lhes pode ser dado por ele. Paralelamente, não parecem dispostos a renunciar à democracia, seja a que pretexto for.


As esquerdas têm-se mostrado atentas, cientes talvez da energia renovadora destes movimentos de protesto, mas não devem encará-los como algo que lhes seja exterior. Os indignados também são esquerda, pelo menos objectivamente. Não se trata , portanto, de os seduzir para dar mais força a allgo que já exista, mas de abrir em conjunto com eles caminhos novos e comuns.

Por tudo isto, pareceu-me importante dar voz, uma vez mais, a Joseph E. Stiglitz, Professor da Universidade de Columbia (USA) e Prémio Nobel da Economía, transcrevendo um artigo seu, publicado há uns dias atrás no diário madrileno, “El País”. Tinha como título :“La globalización de la protesta”; e como subtítulo:“El euro en peligro - La búsqueda de recursos contra el contagio”. Eis o texto:


“ El movimiento de protesta que nació en enero en Túnez, para luego extenderse a Egipto y de allí a España, ya es global: la marea de protestas llegó a Wall Street y a diversas ciudades de Estados Unidos. La globalización y la tecnología moderna ahora permiten a los movimientos sociales trascender las fronteras tan velozmente como las ideas. Y la protesta social halló en todas partes terreno fértil: hay una sensación de que el "sistema" fracasó, sumada a la convicción de que, incluso en una democracia, el proceso electoral no resuelve las cosas, o por lo menos, no las resuelve si no hay de por medio una fuerte presión en las calles. En mayo visité el escenario de las protestas tunecinas; en julio, hablé con los indignados españoles; de allí partí para reunirme con los jóvenes revolucionarios egipcios en la plaza de Tahrir de El Cairo; y hace unas pocas semanas, conversé en Nueva York con los manifestantes del movimiento Ocupar Wall Street (OWS). Hay una misma idea que se repite en todos los casos, y que el movimiento OWS expresa en una frase muy sencilla: "Somos el 99%".
Este eslogan remite al título de un artículo que publiqué hace poco. El artículo se titula Del 1%, por el 1% y para el 1%, y en él describo el enorme aumento de la desigualdad en Estados Unidos: el 1% de la población controla más del 40% de la riqueza y recibe más del 20% de los ingresos. Y los miembros de este selecto estrato no siempre reciben estas generosas gratificaciones porque hayan contribuido más a la sociedad (esta justificación de la desigualdad quedó totalmente vaciada de sentido a la vista de las bonificaciones y de los rescates); sino que, a menudo, las reciben porque, hablando mal y pronto, son exitosos (y en ocasiones corruptos) buscadores de rentas.
No voy a negar que dentro de ese 1% hay algunas personas que dieron mucho de sí. De hecho, los beneficios sociales de muchas innovaciones reales (por contraposición a los novedosos "productos" financieros que terminaron provocando un desastre en la economía mundial) suelen superar con creces lo que reciben por ellas sus creadores.
Pero, en todo el mundo, la influencia política y las prácticas anticompetitivas (que a menudo se sostienen gracias a la política) fueron un factor central del aumento de la desigualdad económica. Una tendencia reforzada por sistemas tributarios en los que un multimillonario como Warren Buffett paga menos impuestos que su secretaria (como porcentaje de sus respectivos ingresos), o donde los especuladores que contribuyeron a colapsar la economía global tributan a tasas menores que quienes ganan sus ingresos trabajando.
Se han publicado en estos últimos años diversas investigaciones que muestran lo importantes que son las ideas de justicia y lo arraigadas que están en las personas. Los manifestantes de España y de otros países tienen derecho a estar indignados: tenemos un sistema donde a los banqueros se los rescató, y a sus víctimas se las abandonó para que se las arreglen como puedan. Para peor, los banqueros están otra vez en sus escritorios, ganando bonificaciones que superan lo que la mayoría de los trabajadores esperan ganar en toda una vida, mientras que muchos jóvenes que estudiaron con esfuerzo y respetaron todas las reglas ahora están sin perspectivas de encontrar un empleo gratificante.
El aumento de la desigualdad es producto de una espiral viciosa: los ricos rentistas usan su riqueza para impulsar leyes que protegen y aumentan su riqueza (y su influencia). En la famosa sentencia del caso Citizens United, la Corte Suprema de Estados Unidos dio a las corporaciones rienda suelta para influir con su dinero en el rumbo de la política. Pero mientras los ricos pueden usar sus fortunas para hacer oír sus opiniones, en la protesta callejera la policía no me dejó usar un megáfono para dirigirme a los manifestantes del OWS.
A nadie se le escapó este contraste: por un lado, una democracia hiperregulada, por el otro, la banca desregulada. Pero los manifestantes son ingeniosos: para que todos pudieran oírme, la multitud repetía lo que yo decía; y para no interrumpir con aplausos este "diálogo", expresaban su acuerdo haciendo gestos elocuentes con las manos.
Tienen razón los manifestantes cuando dicen que algo está mal en nuestro "sistema". En todas partes del mundo tenemos recursos subutilizados (personas que desean trabajar, máquinas ociosas, edificios vacíos) y enormes necesidades insatisfechas: combatir la pobreza, fomentar el desarrollo, readaptar la economía para enfrentar el calentamiento global (y esta lista es incompleta). En Estados Unidos, en los últimos años se ejecutaron más de siete millones de hipotecas, y ahora tenemos hogares vacíos y personas sin hogar.
Una crítica que se les hace a los manifestantes es que no tienen un programa. Pero eso supone olvidar cuál es el sentido de los movimientos de protesta. Son ellos una expresión de frustración con el proceso electoral. Son una alarma.
Las protestas globalifóbicas de 1999 en Seattle, en lo que estaba previsto como la inauguración de una nueva ronda de conversaciones comerciales, llamaron la atención sobre las fallas de la globalización y de las instituciones y los acuerdos internacionales que la gobiernan. Cuando los medios de prensa examinaron las reclamaciones de los manifestantes, vieron que contenían mucho más que una pizca de verdad. Las negociaciones comerciales subsiguientes fueron diferentes (al menos en principio, se dio por sentado que serían una ronda de desarrollo y que buscarían compensar algunas de las deficiencias señaladas por los manifestantes) y el Fondo Monetario Internacional (FMI) encaró después de eso algunas reformas significativas.
Es similar a lo que ocurrió en la década de 1960, cuando en Estados Unidos los manifestantes por los derechos civiles llamaron la atención sobre un racismo omnipresente e institucionalizado en la sociedad estadounidense. Aunque todavía no nos hemos librado de esa herencia, la elección del presidente Barack Obama muestra hasta qué punto esas protestas fueron capaces de cambiar Estados Unidos.
En un nivel básico, los manifestantes actuales piden muy poco: oportunidades para emplear sus habilidades, el derecho a un trabajo decente a cambio de un salario decente, una economía y una sociedad más justas. Sus esperanzas son evolucionarias, no revolucionarias. Pero en un nivel más amplio, están pidiendo mucho: una democracia donde lo que importe sean las personas en vez del dinero, y un mercado que cumpla con lo que se espera de él.
Ambos objetivos están vinculados: ya hemos visto cómo la desregulación de los mercados lleva a crisis económicas y políticas. Los mercados solo funcionan como es debido cuando lo hacen dentro de un marco adecuado de regulaciones públicas; y ese marco solamente puede construirse en una democracia que refleje los intereses de todos, no los intereses del 1%. El mejor Gobierno que el dinero puede comprar ya no es suficiente.”

terça-feira, 8 de novembro de 2011

POR UM GOVERNO EUROPEU!

Os empadões mediáticos que nos servem todos os dias, nos vários meios de comunicação social, tendem a reduzir a Alemanha a uma sujeita pesadona e antipática, algo feiosa, que nos diz coisas desagradáveis e nos censura, quase como se fosse uma antiga mestra das velhas escolas da outra senhora. A malta irrita-se, com alguma razão, recordando como toda a Europa foi generosa, quando não tergiversou um segundo, ao tratar-se de consentir na incorporação da RDA na RFA e desse modo na União Europeia. E isto, apesar do claro risco geopolítico para a balança de forças intra-europeia de passar a existir na União Europeia um Estado demasiado mais poderoso do que qualquer dos outros. Aceitou-se esse efeito colateral do desmoronamento soviético com solidariedade e júbilo. Aliás, é também por causa dessa reunificação que a Sr.ª Merkl, não pena ainda hoje no paraíso cinzento do antigo Leste Europeu.


Mas a Alemanha não é apenas uma colecção de matronas antipáticas, de banqueiros sôfregos e de tecnocratas rectilíneos, inventados para nos causarem pesadelos. A Alemanha é também inteligência e generosidade, espírito crítico e ousadia prospectiva. A comprová-lo, está o texto de opinião, publicado recentemente no jornal espanhol, “El País”, que a seguir se transcreve. O seu autor, Joschka Fischer, foi Ministro das Relações Exteriores da Alemanha e vice-chanceler no governo SPD/Verdes, liderado por Gerhard Schröder, de 1998 a 2005; tendo ainda sido líder do partido “Os Verdes”, durante quase 20 anos.

No seu texto, Joschka Fischer, que foi o político mais popular da Alemanha, durante a maior parte do tempo em que esteve no Governo, defende que se deve “Europeizar a Europa”. E, dando a sua opinião sobre o caminho a seguir para aí se chegar, escreveu:

“La eurozona se encuentra en el vórtice de la crisis financiera global, porque solo allí, en el ámbito de la segunda moneda más importante después del dólar, la crisis golpeó una "estructura" débil en lugar de un Estado con poder real. Una estructura que está dilapidando la confianza de los ciudadanos y los mercados en su capacidad de resolver conflictos, al tiempo que empuja el sistema financiero internacional al borde del desastre.
En otras palabras, la crisis financiera actual refleja una crisis política de la eurozona que pone en cuestión la existencia misma del proyecto europeo. Si fracasa la unión monetaria europea, no quedará mucho del mercado común ni de las instituciones y tratados europeos. Tendríamos que tirar por la borda seis décadas de exitosa integración europea, con consecuencias desconocidas.
Este fracaso coincidiría con el surgimiento de un nuevo orden mundial y el fin de dos siglos de predominio occidental. El poder y la riqueza se están desplazando al este de Asia y otros países emergentes, mientras que Estados Unidos estará ocupado con sus propios problemas y cambiando su foco de atención desde el Atlántico hacia el Pacífico. Si los europeos no abordan sus intereses ahora, nadie lo hará por ellos.
El problema de Europa no es lo que sucedió, sino lo que no se hizo: la creación de un gobierno europeo común.
A principios de la década de 1990, cuando la mayoría de los Estados miembros de la Unión Europea decidieron formar una unión monetaria con una moneda y un banco central comunes, la idea de un gobierno central carecía de apoyo. Como resultado, se pospuso esa fase de construcción de la unión monetaria, dejando un imponente edificio que carecía de cimientos sólidos para asegurar estabilidad en tiempos de crisis. La soberanía monetaria se convirtió en una causa común, pero el poder necesario para ejercerla se mantuvo en las capitales nacionales.
En esos años se creía que bastaba con formalizar reglas: la imposición de límites obligatorios sobre el déficit, la deuda y la inflación. Pero este fundamento normativo resultó ser una ilusión: los principios siempre deben contar con poder que los respalde, de lo contrario no pueden resistir la prueba de la realidad.
La eurozona, una confederación de Estados soberanos con moneda, principios y mecanismos comunes, hoy no está pasando la prueba. Incapaz de responder con decisión a una crisis, está perdiendo la confianza, que es el activo más importante de toda moneda. A menos que el poder político de Europa se europeíce a través de la evolución de la actual confederación hacia una federación, la eurozona -y la UE en su conjunto- se desintegrará. Los costes políticos, económicos y financieros de la renacionalización serían enormes; en todo el mundo se teme, con razón, el colapso de la Unión Europea.
Por el contrario, si se da respuesta ahora al déficit político de la unión monetaria, antes que nada mediante la creación de una unión fiscal (con presupuesto y obligaciones comunes), será posible una federación política real. Y, seamos claros: nada menos que unos Estados Unidos de Europa tendrían la fuerza necesaria para evitar el desastre en ciernes.
Nos guste o no, la eurozona tendrá que actuar como vanguardia de la Unión Europea, porque la UE en su conjunto, con sus 27 Estados miembros, no querrá ni será capaz de acelerar la unificación política. Por desgracia, sencillamente no se podría lograr el apoyo unánime a los cambios a los que habrá que someter los tratados de la UE. Entonces, ¿qué se debe hacer?
Los europeos dieron pasos importantes hacia la integración fuera del ámbito de los tratados de la UE (pero muy en el espíritu europeo), cuando accedieron a abrir sus fronteras con el llamado Acuerdo de Schengen (hoy parte de los tratados de la UE). Basándose en esa experiencia exitosa, la eurozona debe evitar el pecado original de la UE de crear una estructura supranacional que carezca de legitimación democrática.
La eurozona necesita un gobierno que, tal y como están las cosas, solo puede consistir en los respectivos jefes de Estado y de Gobierno, algo que ya ha comenzado. Y, porque no puede haber unión fiscal sin una política presupuestaria común, no se puede decidir nada sin los Parlamentos nacionales. Esto significa que es indispensable una Cámara Europea, integrada por líderes de los Parlamentos nacionales.
En un principio, tal cámara puede ser un órgano consultivo en un contexto en que los Parlamentos nacionales mantengan sus competencias; más adelante, teniendo como base un tratado intergubernamental, debe convertirse en una verdadera institución parlamentaria de control y toma de decisiones, integrada por miembros delegados de los Parlamentos nacionales. Por supuesto, ya que un tratado de este tipo significaría una amplia transferencia de soberanía a las instituciones intergubernamentales europeas, sería necesaria su legitimación popular directa mediante referendos en todos los Estados miembros, entre ellos (y especialmente), Alemania.
Nada de esto aborda asuntos importantes, como las políticas comunes para garantizar la estabilidad económica y promover el crecimiento. Pero, si algo hemos aprendido de la crisis actual, es que estos temas ni siquiera se pueden encuadrar a menos y hasta que la eurozona posea un marco institucional confiable, con una base sólida que consista en un verdadero gobierno, un control parlamentario eficaz y genuina legitimación democrática.”