domingo, 3 de abril de 2011

O PS E AS LISTAS DE CANDIDATOS


1. No PS, está prestes a iniciar-se a etapa mais formal da escolha das listas de candidatos a deputados. Esta é uma das escolhas mais estruturantes da imagem do partido para os anos seguintes, quer venha a ser governo, quer venha a estar na oposição. Mas, nas actuais circunstâncias, essa importância é ainda maior. Muito maior do que aquilo que costuma ser.


De facto, as dificuldades conjunturais dramáticas que o país atravessa, o modo como foi desencadeada a crise política em que estamos mergulhados e o impressionante bombardeamento mediático a que o PS está sujeito tornaram imprescindível que, entre as armas usadas, ele tenha que recorrer àquelas que valham por si próprias como sinais evidentes de um acréscimo de qualidade. Armas traduzidas em medidas que valham por si próprias, sem necessitarem de qualquer discurso que as destaque, ou explique ou anuncie, não sendo por isso também vulneráveis a qualquer discurso que as ataque ou menorize. Medidas que sejam em si factos consumados, que não possam cair na aleatoriedade das promessas. Medidas de cuja efectivação não se possa objectivamente duvidar , uma vez que já ocorreram. Procurá-las, sistematicamente e com argúcia, devia ser uma tarefa básica de qualquer direcção política com competências estratégicas. Fazendo votos para que isso aconteça, adianto já uma dessas medidas que, na minha opinião, pode ser tomada sem qualquer dificuldade, mas que tem, em si própria, um enorme leque de prováveis efeitos colaterais virtuosos, para além do que directamente dela há-de resultar pela própria natureza das coisas.


2. Refiro-me à elaboração das lista de candidatos a deputados. Infelizmente, o PS deixou-se chegar uma vez mais a uma circunstância em que lhe é objectivamente inviável optar pelo método mais escorreito de escolha dos seus candidatos: as eleições primárias, abertas a simpatizantes e eventualmemte a eleitores declarados do PS. Uma vez que assim é, poderia parecer que estamos condenados a repetir o tipo tradicional de designação. Mas não é assim. Mesmo em pouco tempo, é possível um outro caminho. Um caminho que corresponda ao tipo de medidas qualificantes que atrás referi.


A competência final da escolha dos candidatos seria assumida pela Comissão Política Nacional com base num conjunto de critérios definidos com precisão pela Comissão Nacional. A participação das Comissões Políticas das Federações, numa primeira indicação de nomes, seria assegurada. O Secretário-Geral coordenaria pessoalmente o processo, embora coadjuvado por quem ele entendesse, em estreita cooperação com os Presidentes das Federações.


O processo de escolha obedeceria a três vectores conjugados e irremovíveis.

1º Os candidatos seriam escolhidos por serem os melhores, conjugando-se critérios de prestígio intelectual e cívico, de capacidade política, de competência técnica, de criatividade literária e artística, de prestígio cultural e social, de notoriedade pública.

No limite, seria desejável que cada candidato acrescentasse prestígio à lista, não precisando de pertencer à lista para se prestigiar.


2º Com pleno respeito pelo critério geral de capacidade e de competência acima referido, devia ser assegurado um leque diversificado de competências técnico-políticas que abrangesse toda as áreas político-sociais e culturais de maior relevo, de modo a não deixar nenhuma desguarnecida e a garantir que as mais relevantes estejam realmente bem preenchidas.


3º Expurgar as listas, por completo, de qualquer presença que possa significar complacência quanto a qualquer promiscuidade entre política e negócios.


Todos sabemos bem quais são os pontos nevrálgicos desta problemática, embora também saibamos que há rumores injustificados. No entanto, politicamente, temos que ter em conta que em tempo útil não vai ser possível apurar com rigor se há rumores justificados e rumores injustificados, pelo que se deve seguir uma via preventiva: quem tiver sido envolvido em situações objectivamente duvidosas, mesmo que a respectiva ilegalidade e a censurabilidade ética não estejam adquiridas, nem pessoalmente imputadas, deve ficar fora das listas. Este terreno, onde convivem insalubremente a política e os negócios , é dos mais vulneráveis a qualquer propaganda. Ignorá-lo pode ser suicida.


Se esta via for seguida, as listas do PS terão um outro rosto, em si próprio altamente qualificante para a nossa imagem pública. Ganharemos prestígio e consistência política, mostraremos que queremos evoluir, mas seguindo a nossa própria agenda de mudança e não agendas de mudança vindas de fora de nós, cujo objectivo é o de virmos a ser aquilo que convém a outros. Talvez isto não seja suficiente para ganharmos as eleições, mas também não é certo que não seja isto que precisamente fará com que as ganhemos.


Pode haver entre nós quem se sinta em risco de perder um lugar ou de o não alcançar como esperava, ou quem não queira afrontar como dirigente as rotinas habituais, de modo a promover esta mudança. Mas que ninguém esqueça que as atitudes de desprendimento em face de ambições pessoais assumidas pelos militantes ou as escolhas dos dirigentes que ignorem lógicas de facção ou amiguismos, se forem generalizadas, serão ostensivas. E se forem ostensivas valerão mais, perante o eleitorado, do que todos os discursos habituais de grande empenhamento, de grande desinteresse, de grande solidariedade; os quais, por seu lado, serão igual a zero se estiverem a ser desmentidos na prática pelas sofreguidões tradicionais e pelas complacências de rotina.


Nesta decisiva luta eleitoral que nos espera, tudo o que é costume fazer-se tem que ser bem feito. Mas mesmo que o venha a ser, não será suficiente. São necessárias novidades estratégicas. Aquilo que aqui proponho é uma delas. É possível, tem efeitos positivos em tempo útil e os seus efeitos colaterais esperados são virtuosos. Pelo contrário, deixar que, quanto às listas de candidatos a deputados pelo PS, tudo corra como de costume, pode ser uma indesculpável renúncia de usar um dos poucos trunfos estratégicos que está ao nosso alcance, que só depende de nós e que tem efeitos imediatos.


[Os militantes do PS que concordarem com esta posição podem tornar pública essa concordância em comentários feitos neste blog a esta mesma mensagem, identificando-se e indicando o respectivo nº de militante. Se o número de concordâncias for significativo, enviarei a lista dos concordantes à direcção do PS. ]

11 comentários:

Anónimo disse...

Manuel Magalhães Oliveira - 48484
Sectorial EDP-Porto

Pereira da Silva disse...

Totalmente de acordo com a tua Proposta. No entanto, convém começar a procurar os Candidatos, informando que os meus netos ainda não chegaram á idade de serem elegiveis e da lista atual, poucos são de aproveitar. Provavelmente, Castelo Branco tem de ter um outro Candidato. Se o Partido tivesse juizo, estava mais que na altura, de se enveredar pelo caminho proposto. Hoje sei em quem não voto, mas não sei em quem votar. Pereira da Silva

José disse...

Concordo com a proposta.
José Castelo Monteiro da Gama - 19856
Sé Nova, Coimbra

Maria Fernanda Campos disse...

Basta recordar o rol de problemas em que o Partido Socialista se viu indiretamente envolvido, para considerar suicidário qualquer critério que se afaste dos princípios éticos, políticos e técnicos que deverão presidir à composição das listas.

Maria Fernanda Campos
Militante nº 19.859

Manuel Oliveira disse...

Concordo plenamente. Só agora verifico que , por qualquer motivo surjo como anónimo, pelo que como sempre dou a cara

MANUEL MAGALHÃES OLIVEIRA
MILITANTE Nº 48484
SECÇÃO SECTORIAL EDP PORTO

André Pereira disse...

CONCORDO PLENAMENTE

André Gonçalo Dias Pereira
Militnte n.º 41836
Sé Nova - Coimbra

Ana Paula Fitas disse...

Caro Rui Namorado,
Incontornável, a abordagem do problema que aqui expõe será objecto de link no Leituras Cruzadas que publicarei amanhã.
Obrigado pelo, como sempre!, excelente texto!
Um abraço.
Ana Paula Fitas

fontes disse...

Os candidatos DEVERIAM ser pessoas credíveis, respeitáveis, honestas, transparentes, com uma cultura acima da média, lutadoras e, sobretudo, que queiram servir APENAS a Causa Pública de uma forma desprendida onde ética republicana fosse a matriz! Os "afilhados" e aqueles cujo silêncio representa cumplicidade com a defesa dos seus "lugares" NÃO deveriam ser propostos. Utopia?!?
Artur Fontes, ooo 119 337(Carregal do Sal)

Anónimo disse...

. Concordo com as 'Primárias' para se escolherem os candidatos e com a definição clara de critérios(e pontuação) para se encontrarem os melhores candidatos.
. Discordo que os elegíveis representantes do PS sejam NÃO-membros do PS (i.e. esta ''associação política'' tem as portas abertas para quem se quiser inscrever como militante/associado de pleno direito, pelo que discordo da atribuição do direito de elegibilidade a quem não é membro do Partido.)
Manuel Alves

Anónimo disse...

Dadas as circunstâncias vou transcrever a mensagem recebida por e-mail:

Bom dia caro camarada Rui Namorado,

Não sou especialista e também não sei lidar com blogues, sei sim lêr os mesmos.

Assim venho por este meio manifestar-te o meu apoio e concordância à tua proposta de critérios e escolha de candidatos a deputados pelo PS às próximas eleições legislativas.

Gaspar Silva Santos
militante 20.036.

Um abraço

JR disse...

Apesar de não acreditar na sua implementação dou o meu acordo à proposta.
Há muitos interesses instalados.
Pois, o importante é a rosa.

João Manuel Almeida Rocha
Militante 19851-Sé Nova-Coimbra