sábado, 16 de abril de 2011

O ESTRANHO CASO DO CANDIDATO NOBRE

O estranho caso do candidato Nobre não é tão estranho como isso. Ele é afinal a ilustração do velho ditado popular de que mais depressa se apanha um mentiroso do que um coxo.


Quem se limite a colher as aparências, verá na entrada de Fernando Nobre numa lista do PSD uma traição. E se fizer uma recolha atenta de declarações anteriores do azougado clínico encontrará amplo material para ilustrar a grande distância que existe entre o que repetidamente disse e o que agora fez. Mas quem conseguir desembaraçar-se da cortina de ilusionismo político de que o candidato se envolve, poderá ver com nitidez que tudo o que rodeia este caso é afinal bem mais simples.


De facto, hoje é evidente qual é o lugar ideológico-político do escudeiro do candidato miguelista ao inexistente trono de Portugal. É o que corresponde à sua opção monárquica e ao seu apoio a Durão Barroso e a António Capucho. Os apoios a Mário Soares, ao Bloco de Esquerda e a António Costa não passaram de manobras destinadas a dar uma maior aparência de realidade ao embuste que Fernando Nobre viria a urdir, lançando uma candidatura presidencial que fingiu ser uma componente discreta, moderada e aberta da esquerda, quando afinal era uma auxiliar disfarçada da direita, dirigida, no essencial, a facilitar a vida a Cavaco e a confundir as coisas no seio das esquerdas.


E terá sido o relativo êxito dessa operação de ilusionismo presidencial que terá levado o PSD a tentar explorar o mesmo equívoco. E para dar verosimilhança à ocultação da matriz direitista de Nobre, achou que podia instrumentalizar um alto cargo do Estado democrático para ficcionar a importância de Nobre, ao mesmo tempo que dava a aparência de realidade ao seu alegado supra-partidarismo. Mas como acontece com os ilusionistas que repetem o mesmo truque, as aparência apagaram-se perante a realidade, nesta segunda tentativa, ou nesta tentação de insistir na realidade de uma ficção vinda de trás.


E Nobre foi afinal reduzido à quilo que realmente é : uma personalidade política e ideologicamente de direita que concebeu o embuste de se fazer passar por um candidato presidencial contidamente de esquerda. Embora fosse um verdadeiro seguro político de Cavaco, era sempre apresentado como um dos potenciais causadores de uma ida de Cavaco à segunda volta.


A força das coisas mostra agora que tinham razão todos aqueles que chamaram a atenção para a presença, nas camadas menos aparentes do discurso político de Nobre, de muitas marcas identificadores do conservadorismo ideológico e do reaccionarismo político. De facto, Nobre é um político bem impregnado pelos dogmas e tiques da direita clássica, com uma maquilhagem oportunista de esquerda, propositadamente feita para enganar os eleitores. Por isso, ele não representa nenhuma abertura à esquerda praticada pelo PSD, mas apenas uma tentativa patética de insistir num embuste que deu eleitoralmente algum resultado nas eleições presidenciais.


Tal como aconteceu antes, há quem tente branquear a ostensiva rasteirice desta manobra política que envolve Nobre e Passos Coelho, invocando o currículo humanista do médico sem fronteiras. O mérito e o valor social do seu envolvimento em causas solidárias não está em causa, como o não está o de milhões de pessoas que em todo o mundo se ocupam desse tipo de tarefas. Mas o mundo não está dividido em anjos que seriam esses e demónios que seriam os outros; no mundo, mais prosaicamente, vivem pessoas com virtudes e defeitos, sendo certo que fica longe da excelência ética qualquer tentativa, subtil ou não, para fazer render em termos de prestígio que se usará ( por exemplo, na política ) o trabalho solidário realizado. Ora Nobre só não é um verdadeiro perito nessa utilização, porque vai longe demais na sofreguidão de tornar visível o seu envolvimento em missões solidárias. Não é um hábito decente.


O envolvimento da Presidência da Assembleia da República na tentativa de o PSD prolongar o embuste de Nobre, mostra a completa a ausência de sentido de Estado das personagens que urdiram essa farsa e a fraca qualidade do seu civismo. É aliás irónico e revelador que o seráfico Nobre se tenha envolvido num enredo tão sórdido. A imensa maioria dos políticos inscritos nos partidos, que ele tanto abomina, não teriam estômago para ir tão longe.

6 comentários:

Carta a Garcia disse...

Rui,
Fiz link.Obrigado.OC

Rui Namorado disse...

Caro Osvaldo:

Acabámos por não falar no Congresso. Será da próxima.

Obrigado. Abraço.

RN

André Pereira disse...

Alguma dita esquerda não consegue separar o trigo do joio. O discurso de Nobre sempre foi de um social-cristão preocupado com a pobreza, mas em nada ciente dos instrumentos estruturais de transformação da sociedade. Está bem no centro-direita, a que sempre pertenceu, mesmo não sabendo disso. Que o seu trabalho de caridade seja bom e que dê contributos para mais solidariedade e transformação.

Patrícia MS disse...

Permita-me discordar parcialmente da sua leitura. Ao ouvir o Fernando Nobre não tenho a sensação de estar a assistir a uma estratégia deliberada de pôr a direita conservadora no poder, mas sobretudo ao discurso de um louco com uma vaidade monumental.

Rui Namorado disse...

Olá Patrícia.

Um ilusionista é isso mesmo: faz parecer realidade a simples aparência.

Talvez a Patrícia tenha razão: o homem tem um pavão dentro da cabeça.

Por mim talvez prefira tomá-lo a sério como um enorme prestigitador, uma fraude ambulante.

Maltez da Costa disse...

Será mesmo humanismo o que leva Nobre além fronteiras? Não acham que se eu constituir algo parecido, por exemplo "levar pão e água" aos acampamentos de refugiados e na sua organização e direcção colocar todos os meus familiares poderei também ser considerado um grande humanista e receber condecoraçoes por isso?