domingo, 28 de fevereiro de 2010

A jarra quebrada


Na esquerda, desde sempre se confrontaram posições entre si diferenciadas. Em alguns períodos o confronto atravessou até fases dramáticas, mas mesmo então talvez tenha havido sempre a perspectiva de uma reaproximação futura. E nesses períodos a intensidade da crispação, em regra, subiu mediante forte impulso de grandes dinâmicas e clivagens internacionais.

Hoje, não nos chega de fora qualquer estímulo comparável para o encarniçamento dos confrontos, no seio da esquerda. No país a conjuntura política não é dramática, embora a situação económica e as suas sequelas sociais sejam preocupantes. Nada disso, contudo, justificaria, por si só, uma crispação como a que hoje se vive.

E pode perguntar-se : se chegasse a um acordo, uma coligação PCP/BE teria, no horizonte de uma década, alguma probabilidade de chegar a uma maioria parlamentar? O PS já conseguiu essa maioria. Qual a probabilidade de a repetir, na próxima década? Parece claro, que é mais provável uma resposta reconfortante para o PS, do que para os outros dois partidos.

Mas, se a ruptura entre estes dois campos for realmente irrecuperável, pode estar tranquila a direita, durante muitos e muitos anos. E não deixo de estranhar que, sendo um dos grandes desígnios estratégicos da direita portuguesa inviabilizar coligações do PS com o PCP e o BE, estes dois partidos, sabendo disso, aceitem ser actores estrategicamente subalternos da grande cruzada contra Sócrates e o PS que a direita está a protagonizar. Estranho, porque, como tenho dito, se essa cruzada dizimar realmente o PS em termos políticos e eleitorais, entre as vítimas duradouras desse hipotético desastre estaria sempre a esmagadora maioria dos eleitores desses dois partidos de esquerda.

Compreendo que no ambiente de crispação já instalado seja difícil, a cada um de nós, medir com rigor, até que ponto está a passar os limites politicamente aceitáveis, à luz dos seus próprios desígnios estratégicos. Talvez nos pudéssemos ajudar a nós próprios, se cada um de nós conseguisse tomar apenas as posições públicas, susceptíveis de se traduzirem em acções ou em processos políticos realistas, em cujos objectivos cada um se reconhecesse.

As metáforas são expressões imperfeitas na descrição da realidade, mas quase sempre sugestivas. Dentro desses limites, podemos comparar a convivência política, no seio da esquerda, a uma jarra de cristal. Uma vez quebrada , não mais se recomporá.

E que não haja ilusões , se isso vier a acontecer, de pouco adiantará encontrar culpados. O que aliás será difícil, pois cada um há-de, convictamente, imputar todas as culpas aos outros lados. Aliás, de um modo ou de outro, mesmo que se viesse a apurar um culpado, o que seria improvável, a jarra não voltaria a ficar inteira.

As oposições no seu labirinto



O cerco a José Sócrates que, segundo a comunicação social, lhe estão a preparar no Parlamento ou é um puro infantilismo que atesta a mediocridade estratégica, no plano político, das lideranças das oposições ou é inútil.

De facto, as oposições, se querem derrubar o Governo, podem fazê-lo com toda a legitimidade, se depois se conjugarem como alternativa de governo. Deixaríamos de ter um governo minoritário para passarmos a ter um governo de unidade entre as actuais oposições com maioria parlamentar. Esse novo governo “canguru” disporia de muito melhores condições no plano da aritmética parlamentar do que o actual. Por isso, se as oposições não querem Sócrates como primeiro-ministro não precisam de criar um clima de “guerra civil” larvar, basta uma moção de censura na Assembleia da República.

Mas se não querem derrubá-lo, apenas pretendendo exercer normalmente o papel das oposições parlamentares, não se compreende o tipo de iniciativas que têm tomado e encorajado, nem o modo como têm estimulado a crispação política. Será por serem incapazes de calibrar o tom e a intensidade dos ataques que empreendem, não conseguindo adequá-los aos seus objectivos? Se assim for, não estamos perante um radicalismo discutível, mas perante uma incompetência grosseira. Talvez, os acontecimentos futuros nos venham a mostrar qual das duas hipóteses é a verdadeira.

A não ser que as oposições estejam ainda possuídas por alguns restos da ilusão de que conseguirão condicionar o PS, de modo a que possa continuar a haver um Governo da sua responsabilidade, sem Sócrates a liderá-lo e sem eleições. Se assim é, trata-se de burrice em estado puro. Se este Governo for derrubado, haverá eleições, ou o Presidente aceitará que o PS indique de novo Sócrates para continuar a liderá-lo. Mas como esta segunda hipótese não faria sentido, a saída é simples as oposições formam um governo “canguru” ou há eleições.

Aliás, o próprio facto de haver entre os que odeiam particularmente Sócrates quem ache que deveria haver um governo do PS sem Sócrates, mostra que realmente eles não estão convencidos de que é verdade tudo aquilo de que acusam Sócrates velada ou expressamente. Por que se o estivessem, não faria sentido que aceitassem que continuasse a governar sem novas eleições, um Partido que havia sido dirigido por ele e que o apoiara continuamente nos últimos anos

E com eleições, na actual conjuntura, ou o PS forma novo governo maioritário ou minoritário, ou passa para a oposição, certamente pouco disposto a facilitar a vida a qualquer coligação de alguns ou de todos os que tantos o têm atacado nestes últimos anos. E muito menos alguém pode sonhar que o PS se misture num indigno bloco central com um partido de direita que , com o interregno provável do orçamento, tão miseravelmente o tem atacado nos últimos anos. Quem não vir isto, anda a dormir.

Poderia ainda a dizer-se que eu não tenho razão, uma vez que o que se quer não é apenas destruir Sócrates, mas sim o próprio PS. Se assim fosse, eu perguntaria: então os dois partidos de esquerda ajudantes nessa possível música acham que depois de ajudarem mansamente a direita a destruir-nos como Partido, receberiam o apoio agradecido dos actuais apoiantes e eleitores do PS? Se acham isso, são sonhadores. De facto, apenas teriam contribuído para um dramático enfraquecimento do conjunto da esquerda por décadas, em Portugal. E a direita ganharia alguma coisa com isso? Talvez no estrito plano eleitoral isso pudesse acontecer. Mas no plano da viabilidade democrática do regime e da paz social teria que governar um país muito mais turbulento e imprevisível. Com um detalhe que lhe dificulta as coisas: o PS, os militantes socialistas e os apoiantes socialistas não se deixarão levar pacificamente para o matadouro. Lutarão contra essa eventual tentativa de os destruírem.

Há uma última hipótese que ecoa na algaraviada que tem invadido os jornais a propósito de um hipotético e vago “fim de regime”. É como se , no fundo, o objectivo dos “algazarradores” politico-mediáticos fosse o de se desforrarem do 25 de Abril , preconizando à surrelfa um golpe de estado que, nas actuais circunstâncias históricas, só pode ser fascista. Esses modernizadores autoritários querem regredir um século e os tontos que, não sendo fascistas ou aparentados, lhes fazem o jogo são isso mesmo: politicamente tontos. Tontos, ainda que alguns se possam imaginar verdadeiros “zorros” do século XXI.

Só não compreendo o que faz ao lado de toda essa tropa fandanga tanta gente identificada com as oposições de esquerda, que parecendo deixar-se absorver totalmente pela alergia a Sócrates, esquece tudo o que, em profundidade, se move no contexto social actual e a fragilidade da democracia que usam, sem verdadeiramente com ela se preocuparem. E esquecem que se a direita musculada conquistar o poder com a democracia entre parêntesis, não os irá recompensar pela ajuda que lhe deram.

Portanto, não esqueçam que os riscos que nos esperam não se reduzem a essa dança de algarismos soturnos com que nos assombram todos os dias. Embora ainda distante, espero eu, há também o fantasma sempre latente dos regimes autoritários que “suasticamente” sonham com um país de súbditos, silenciosos e tristes. Tomem atenção quando gritarem que vem aí o lobo com a energia descuidada de quem tem a certeza do contrário, porque os lobos ainda existem e podem querer voltar.

Por tudo o que atrás escrevi, na minha opinião, as oposições de direita precisam de aprender que o seu modo de serem oposição faz parte das condições que a si próprias criarão para quando forem poder. As oposições de esquerda precisam de saber que o seu modo de ser oposição a um governo do PS pode marcar por muito tempo a facilidade ou a dificuldade com que poderão cooperar em todas as instâncias e circunstâncias com os apoiantes e eleitores do PS.

E o PS precisa de perceber que é imprescindível robustecer-se (robustecer-se mesmo!), já que o combate que tem pela frente é exigente e prolongado. Com ele misturam-se novos desafios colocados pela marcha do tempo. Por isso, quem se deixar amodorrar nas rotinas de hoje está a aproximar-se perigosamente do desastre ou da irrelevância.

Contracapa da Vértice - 23


Vértice nº 200- Maio de 1960


"O povo deve combater pela sua lei como pelas suas muralhas "

HERACLITO

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Governo de Jornalistas


Aqui vai, com autorização sua, mais uma crónica do J.L.Pio Abreu, publicada como mais um afloramento do seu Estranho Quotidiano, que desta vez assumiu, no Destak de 25/2/2010, o rosto de uma proposta muito peculiar, um

Governo de jornalistas.


Depois do que tem acontecido, dei por mim a pensar no que seria um governo de jornalistas. Os governantes seriam conhecidos, quase íntimos, já que nos entram todos os dias pela casa dentro. O contacto diário com os cidadãos permitiria explicar e fazer aceitar as suas políticas. Nem teriam oposição, pois esta só poderia transmitir as suas mensagens através dos jornalistas, ou seja, através do governo.

Dir-se-á que os jornalistas são plurais nas suas opiniões e, por isso, não formariam um governo homogéneo. Mas o que se vê é que facilmente se põem de acordo uns com os outros. Defendem acima de tudo a liberdade de dizer o que lhes apetece sobre quem quiserem, um direito que lhes assegura a eficácia, pois qualquer opositor se pode transformar em bode expiatório.

Um governo de jornalistas podia poupar recursos. Trataria da saúde pela televisão, como se fez com as epidemias de gripe, e faria uma telescola que dispensasse os professores. O pesado e dispendioso aparelho de justiça seria substituído pelos julgamentos públicos sumários. Teriam apenas de manter polícias que fizessem escutas e outras invasões da privacidade, e talvez uns magistrados que escrevessem obras de ficção com impacto popular.

Um governo de jornalistas só teria um problema. Como eles não fazem auto-crítica, não diriam mal do governo, arriscando-se a ficar sem audiência. Sem audiência não teriam emprego e, portanto, não haveria jornalistas para formar governo. Ou seja: um governo de jornalistas tornaria impossível a existência de um governo de jornalistas.

[J. L. Pio Abreu]

Contracapa da Vértice - 22




Vértice nº 312- Janeiro de 1970



"A razão quer decidir o que é justo, a violência que seja justo o que decidiu."


SÉNECA

O neoliberalismo e os seus efeitos


Recebi do Júlio Mota o texto que abaixo transcrevo. Informa-nos sobre mais uma etapa da notável sucessão de iniciativas que, ele próprio a Margarida Antunes e o Luís Peres Lopes, têm levado a cabo nos anos mais recentes. Mas se os méritos dessas realizações se impõem objectivamente, sem sequer precisarem já de ser mencionados,não devemos desconsiderar o texto transcrito em si próprio. De facto, para além de contextualizar e de mostrar o sentido desta nova sessão do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC, ele vale por si como um contributo crítico que merece ser lido com toda a atenção. O tema do ciclo deste ano é Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento. Esta sessão terá como tema específico A União Europeia, os Muros da Repartição e a Exclusão Social e como seu suporte o filme 93.

Apenas uma observação. Compreendendo o contexto circunstancial e aceitando como legítima a via seguida, penso que é cada vez mais urgente ir um pouco mais longe ou ser-se um pouco mais explícito, assumindo a complexidade acrescida daí resultante. De facto, diz-se no texto : "Neoliberalismo ou social-democracia, o debate está aberto e é neste debate que se irão situar estas conferências. As duas vias são objectivamente opostas, produzem efeitos sensivelmente diferentes, conforme o “equilíbrio” encontrado opere a favor da primeira ou da segunda destas duas vias". Não contesto, mas gostaria de ver este contraponto integrado num outro mais fundo: capitalismo ou socialismo. Sem excluir uma outra forma de exprimir esta última dicotomia: como aumentar as probabilidades de que o pós-capitalismo se inscreva num horizonte socialista ?
Mas vamos ao que interessa o texto a que me tenho estado a referir:

" O grupo de docentes da FEUC dinamizador e organizador (com a colaboração dos estudantes do Núcleo de Estudantes de Economia da FEUC) do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC vem com a presente dar a conhecer a realização da sexta sessão do Ciclo do presente ano, a decorrer sob o tema Economia Global e os Muros da Repartição do Rendimento, e que se realizará a 2 de Março.
A sexta sessão do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC é a iniciativa da Faculdade de Economia incluída na XII semana cultural da Universidade de Coimbra.
Esta sessão terá como tema específico A União Europeia, os Muros da Repartição e a Exclusão Social e como seu suporte o filme 93: Memória de um território, de Yamina Benguigui. Este filme será comentado por Sami Naïr, Joachim Becker, Carlos Fortuna e António Gama.
O documentário 93: Memória de um território é um pouco a história do departamento de Seine-Saint-Denis que se tornou, com o tempo, o sismógrafo das tensões sociais em França.
Fala-nos de uma história que vem de bem longe, uma história que põe em evidência a inépcia das decisões políticas que conduziram ao acantonamento de populações inteiras em verdadeiros guetos, a uma urbanização desumana concebida em termos de minimização de custos, a uma desindustrialização mal gerida que deixou ao completo abandono uma mão-de-obra pouco ou nada qualificada e os solos ultra-poluídos. Uma história que traça e regista erros de algum capitalismo apressado dos Trinta Gloriosos anos numa região industrial de referência em França, o Departamento 93, como as cidades construídas à pressa, as cidades dormitórios, as cidades guetos, as cidades de bairros pobres e mais tarde os bairros degradados.
A esta história somam-se as consequências económicas e sociais geradas pela dinâmica brutal das desigualdades em que assentou o neoliberalismo destes últimos 30 anos. É assim uma história baseada também na criação relativamente recente de desemprego em massa, de precariedade e de pobreza, e é assim a história da erosão do Estado Providência, temas estes que serão também o suporte do caderno de textos de apoio organizado para esta sessão.
O preço dessa erosão tornou-se evidente, de facto, já no fim do século XX e início do século XXI, com as violências urbanas na Inglaterra, em França, nos Estados Unidos, a expressarem o facto de os direitos sociais já serem claramente insuficientes para integrar cada homem numa sociedade onde a ideia de pertença social passa pela aptidão às conexões sociais, às solidariedades locais e nacionais, se não mesmo também globais. Dessas violências urbanas nos fala o filme, procurando dar-nos a lógica subjacente do descontentamento que elsa revelavam, mas estas violências, rapidamente estancadas, ninguém, ao nível das classes dominantes as quis ver e reparar. Em vez disso, estas classes dominantes trataram sim de dispor ao máximo de um capital social alargado e mostraram ser habilmente capazes de restringir os benefícios da sua utilização como vantagens para eles próprios, com consequência bem expressas na crise que estamos a atravessar.
Pode então estender-se que a resposta à crise actual passará, terá que passar, pela extensão generalizada da riqueza criada à parte “merecedora”, àqueles que dela têm sido sistematicamente excluídos. Ou melhor, trata-se de lhes voltar a dar de novo os meios de uma dinâmica económica e social, de trabalho, de pertença, de partilha. Trata-se de recriar sociedades entretanto desfiguradas. E este é um dos grandes desafios que as forças políticas, em particular as progressistas, terão que saber assumir nos próximos anos ou mesmo décadas e é desses desafios que os nossos conferencistas nos virão falar:
É destas histórias do capitalismo, é desses conflitos e destes desafios, é desta União Europeia que simultaneamente gera milhões de pobres e uma nova classe de assalariados, o precariato, que nos falará Sami Naïr, enquanto Joachim Becker nos falará da Europa de Leste, a quem nem o capitalismo lhes deram, e dos desafios que esta e a União Europeia enfrentam em conjunto.
Neoliberalismo ou social-democracia, o debate está aberto e é neste debate que se irão situar estas conferências. As duas vias são objectivamente opostas, produzem efeitos sensivelmente diferentes, conforme o “equilíbrio” encontrado opere a favor da primeira ou da segunda destas duas vias. No primeiro caso, os raros beneficiários, os utilizadores do capital social-,as multinacionais, os hedge funds, as sociedades de investimentos, bancos de investimento, bancos conmerciais, grandes negociantes de matérias primas e especuladores destes e de todos os outros mercados- não são passíveis de denúncia pelos outros, pelos excluídos na partilha do excedente económico que eles próprios criaram, e porque os maus resultados de cada um destes últimos são ideologicamente considerados não o resultado de más escolhas sociais ou colectivas, mas sim das suas decisões próprias e individuais de quem deve saber assumir o preço da liberdade que os mercados lhes conferem. Enquanto, no segundo caso os ganhos aparecem como a recompensa de um esforço partilhado para ultrapassar as fracturas da sociedade globalizada.
Não é assim que se perpetua, ao longo dos tempos, a distinção entre a desregulação dos mercados e a coordenação dos mercados, cada um com o seu “tempo” de acção e de gestão , onde o Estado deve aparecer afinal, como o senhor dos relógios,o relojoeiro, quem os afina para que no final tenhamos todos direito às mesmas horas? E este debate na sua matriz económica e social está também ele inscrito nesta sexta sessão, para a qual contamos com a vossa presença e solicitamos a sua divulgação.

Programa

Sessão 6: Os Muros da Repartição no Interior da União Europeia e os Mecanismos de Exclusão Social

2 de Março, 2010

Hora: 15 h
Local: Sala Keynes, Faculdade de Economia da Universidade Coimbra

Conferências:
Sami Naïr (Conselheiro de Estado em Serviço Extraordinário, Professor de Ciências Políticas na Universidade Paris VIII e Professor-Investigador Convidado da Universidade Pablo de Olavide de Sevilha).

Joachim Becker (Instituto para a Economia Internacional e Desenvolvimento, Universidade de Viena de Economia e Gestão)

Comentários de
Carlos Fortuna (FEUC/CES)
António Gama (FLUC)

Debate

Hora: 21 h 15 min
Local: Teatro Académico de Gil Vicente

Documentário
93, Memória de um território, Yamina Benguigui, 2008, França.

Comentários e debate:
Sami Naïr
Joachim Becker
Carlos Fortuna
António Gama. "

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 21


Vértice- nº78 - Fevereiro de 1950

"O equilíbrio intelectual reside na subordinação do subjectivo ao objectivo."

COMTE

Contracapa da Vértice - 20


Vértice nº 361 - Fevereiro de 1974


"Nós gritámos Liberdade!, mas ao pronunciar esta palavra, dávamos-lhe sentidos diferentes. Para uns, era a liberdade de dispor livremente da sua pessoa e do produto do seu trabalho. Para outros, era o direito de dispor dos homens e do produto do seu trabalho."

ABRAHAM LINCOLN

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 19


Vértice nº318 - Julho de 1970


"Os homens aprendem enquanto ensinam."


SÉNECA

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 18


Vértice nº285 - Junho de 1967

"Que nunca Zeus, que tudo governa, oponha o seu mundo ao meu pensamento."

ÉSQUILO
(Prometeu Agrilhoado)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 17


Vértice nº358-359

- Novembro/Dezembro de 1972

"Não se tira qualquer proveito senão à custa de outrem"

[ Montaigne, Essais I, cap.21]

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 16


Vértice nº314 - Março de 1970


"Aquele que não sabe e não sabe que não sabe, é um néscio - foge dele;

Aquele não sabe e sabe que não sabe, é simples - ensina-o;

Aquele que sabe e não sabe que sabe, está a dormir - acorda-o;

Aquele que sabe e sabe que sabe, é sábio - segue-o.


Aforismo Árabe

Rumos da esquerda brasileira


O Partido dos Trabalhadores (PT) acaba de escolher como sua candidata às próximas eleições presidenciais no Brasil, Dilma Roussef, a preferida do Presidente Lula, cuja Casa Civil, aliás, actualmente chefia. Cargo esse que, pelas funções que implica, se aproxima do que é em Portugal o primeiro-ministro, pesem embora as apreciáveis diferenças, induzidas pelas diferenças constitucionais, entre os protagonismos presidenciais no plano da governação no Brasil e em Portugal. Está ainda por resolver quem será o vice-presidente na chapa de Dilma, embora pareça provável que seja alguém indicado pelo PMDB, talvez o seu presidente Michel Temer. Mas também não é certo que não surja um outro candidato: Ciro Gomes, deputado do Partido Socialista Brasileiro, que já foi ministro de Lual e pertence actualmente á coligação que o apoia.

Esta breve instrodução serve para contextualizar a entrevista, que a seguir se transcreve, retirada do importante jornal brasileiro "Folha de S. Paulo". O entrevistado é o politólogo brasileiro André Singer que já foi porta-voz do presidente Lula e que é filho do grande teórico da economia solidária Paul Singer, ele peóprio membro do actual governo de Lula.

A abrir a entrevista assinada pela jornalista Ana Flor , começa por se dizer que um "cientista político defende que partido do presidente Lula oriente suas alianças pelo programa, não pelo pragmatismo", Afirma-se depois que :" ex-porta-voz da Presidência diz poder haver convergência entre adeptos do "lulismo" -base social que elegeu o petista em 2006- e o PT."

E prossegue-se nos seguites termos:" Num momento em que a simples menção ao PMDB no documento petista sobre políticas de alianças provocou intenso debate no congresso do partido que terminou ontem -e que resolveu não citar a sigla como principal aliada na campanha-, o cientista político André Singer vai além: defende que o PT tenha coragem de dizer "não" ao PMDB. Singer, que foi secretário de Imprensa e porta-voz da Presidência no primeiro mandato de Lula, afirma que o "baixo teor programático do PMDB é danoso para o sistema partidário brasileiro" e que o PT ganharia mais se desse preferência a uma aliança com o PSB. "

FOLHA - O PT ainda é um partido de massas e de trabalhadores?

ANDRÉ SINGER - Continua sendo, mas já com as mudanças que eram previsíveis, de acordo com a trajetória dos grandes partidos socialistas das democracias ocidentais. O PT teve uma trajetória de sucesso eleitoral relativamente rápida. Isso faz com que o peso no partido dos que têm mandato comece a crescer. Essa trajetória faz com que o grau de participação, a chamada militância, vá diminuindo ao longo do tempo. Não é mais a militância da primeira década.

FOLHA - O que fez a influência de Lula crescer tanto no partido?

SINGER -O principal fator é o que eu tenho chamado de lulismo. É um fenômeno novo. Não é o resultado, ao meu ver, de um realinhamento eleitoral. A base social que elegeu Lula em 2006 é diferente da que o elegeu em 2002. Essa nova base social são os eleitores de baixíssima renda, foram o resultado de políticas de governo do primeiro mandato. Esse primeiro mandato significou uma mudança tão importante na estrutura eleitoral do país que deu ao presidente uma base que é relativamente autônoma do partido.

FOLHA - É uma base diferente daquela que sustenta o PT?

SINGER - O PT tem uma base eleitoral ampla, mas é uma base historicamente de classe média. O lulismo trouxe essa novidade de estar ancorado nessa base de baixo. Isso faz com que a adesão seja mais a uma figura que tem grande visibilidade do que a uma instituição, a um partido. Eu acho que é possível que haja uma convergência entre essa base social e o PT.

FOLHA - Se essa adesão ao projeto se confirmar, garantiria, então, a eleição da escolhida do presidente?

SINGER - É a minha percepção. É mais uma adesão de projeto do que carismática.
FOLHA - Quais os efeitos, para o PT, de uma aliança com o PMDB?

SINGER - O PMDB tem se caracterizado por ser um partido de baixo teor programático, o que é danoso para o sistema partidário brasileiro. Faz com que a política fique parecendo algo que diz respeito aos interesses dos políticos.

FOLHA - Então é ruim para o PT?
SINGER - A opção preferencial pelo PMDB fortalece esse aspecto negativo. Ela é compreensível do ponto de vista pragmático. Na minha opinião, o PT deveria arcar com um certo risco de procurar primeiro os partidos que estão mais próximos a ele no campo de esquerda e de centro-esquerda. No caso, o PSB, que tem como pré-candidato Ciro Gomes. O PSB ainda é um partido ideologicamente mais próximo do PT. Eu também poderia me referir ao PDT, ao PC do B. O PT deveria retomar uma prática de que suas alianças fossem orientadas pelo programa.

FOLHA - O PT decidiu não correr o risco por ter uma candidata eleitoralmente fraca?
SINGER - Eu acho que o problema é de outra natureza. Acho que o pragmatismo é uma força extraordinária em partidos eleitorais. Todo partido tende a ser fortemente pragmático.

FOLHA - Mas se o candidato fosse alguém mais conhecido do eleitor, seria diferente?

SINGER - Eu não sei. Uma vez estabelecidos os critérios pragmáticos, como o tempo na TV e essa relativa capilaridade eleitoral [do PMDB], sempre será um elemento fortemente levado em consideração. O que está em jogo é pragmatismo versus opção programática.
FOLHA - O fato de Lula ter escolhido a candidata enfraquece o PT?

SINGER - Essa é uma condição que está relacionada com a grande influência de uma liderança carismática, que tem os votos. Sem dúvida, ela significa que o partido é fortemente influenciado por essa liderança.

FOLHA - O lulismo pode engolir o PT?

SINGER - A questão se vai haver essa convergência ou não vai depender de em que medida esses eleitores que a meu ver aderiram ao lulismo irão pouco a pouco votar no PT. Nas eleições de 2006 os estudos mostram que isso não aconteceu. A base social do PT continua sendo a base social tradicional, mais forte no Sudeste e no Sul do que no interior do Norte e Nordeste. Dá para ver essa diferença entre lulismo e petismo.
[André Singrer, Lula e Celso Amorim]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 15

Vértice nº209
- Fevereiro de 1961





"Outros vejo por aí,

A que se acha mal o fundo,

Que andem emendando o mundo

E não se emendem a si."


CAMÕES

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O suave caudilho


Os indícios de ontem não me enganaram. Acabo de ouvir na rádio palavras do candidato presidencial Fernando Nobre. Palavras destacadas pelo critério jornalístico da estação.

Lá disse o médico internacional que estava para lá do centro, da esquerda ou da direita, uma vez que valorizava a cidadania. Como se houvesse uma valorização genérica da cidadania que transcendesse a dicotomia esquerda/direita. Como se a esquerda e a direita valorizassem a cidadania nos mesmos termos. Na verdade, também neste caso me parece operativo o velho critério prático: quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, mostra que estamos perante alguém que sendo direita disfarça por manha o sentido das suas opções. Aliás, Nobre cortou a própria relevância de um centro ao recusar sequer admitir-se como tal.

Mas ou a sua argúcia política é limitada; ou então terá pensado à pressa. De facto, os extractos do seu discurso que a rádio difundiu, mostram com clareza um discurso anti-partidos, disfarçado pela habilidade de dizer que não é contra os partidos , é contra o sufoco partidário. De facto, quem assim se pronuncia está a dizer que a nossa democracia está sufocada pelos partidos, o que não sendo seguramente de esquerda está longe de espelhar as posições da própria da direita democrática. Se alguma coisa nos faz lembrar é uma deriva populista, de um populismo talvez suave, mas que, pelo facto de o poder ser, não deixa de ser populismo.

Noticiaram jornais de hoje que entre os mais entusiastas promotores desta candidatura estavam ex-apoiantes de Alegre que se afastaram dele pelo facto de não ter querido fundar um novo partido, a partir da sua primeira candidatura. Esses estranhos personagens , ontem auto-identificados como artefactos puros de uma esquerda sem mácula, absorvidos pelo paroxismo de uma radicalidade transviada desaguaram rapidamente num caldeirão difuso que, podendo vir a ser várias coisas, não terá decerto nada a ver com a esquerda, com qualquer das esquerdas. E, não sendo a lógica uma batata, se esses radicais se zangaram com Alegre, por ele não ter criado um novo partido e aparecem agora apoiando Nobre, isso parece significar que lhes foi prometido que a nova candidatura presidencial poderá vir a gerar um novo partido político.

Não bastava pois este “poujadismo” à portuguesa, este “qualunquismo” do século XXI, como marcas infelizes de uma iniciativa. Paira agora também sobre ela a hipótese de estarmos perante uma tentativa de aproveitar uma candidatura presidencial para constituir um partido populista.

Os excitados políticos


Há extremismos políticos que são autenticamente isso mesmo, extremismos de ambos os lados do espectro. São clássicos e em regra previsíveis.

Mas há também a volátil família dos excitados políticos que se exacerbam facilmente por questões limitadas mesmo que relevantes. Confundem impulsos de ocasião com opções de fundo e podem dispor-se a combater hoje o que incensaram ontem.

O perfume de radicalidade que, ás vezes, julgam exalar, é realmente o odor doentio de um simples umbiguismo político, que confunde com valores e ideias universais os seus pequenos e estéreis desesperos pela imperfeição do mundo.

Hoje, podem julgar que o coração lhes bate incondicionalmente à esquerda, amanhã podem descobrir que já não há direita nem esquerda e, se a vertigem político-mediática os abalar mais profundamente, podem mesmo descobrir-se aguadeiros daquilo que antes julgavam combater.

Quando são poucos, limitam-se a contribuir para o colorido da cena política. Se forem alguns , podem chegar a ser detonadores de explosões que em muito os ultrapassam. Sempre em nome de seráficas generosidades, embrulhadas nas palavras mais limpas da história da humanidade, mas completamente cegas quanto aos efeitos políticos que podem produzir.

Por isso, não é prudente menosprezar o perigo que pode transpirar dos excitados políticos, por mais ortorrômbico que seja o resultado da sua excitação. Quase sempre são fogos–fátuos, mas em momentos especiais e inesperados podem ser detonadores de evitáveis desastres.

Contracapa da Vértice -14

Vértice nº 329 - Junho de 1971

"Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem".

BRECHT

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Ainda o candidato catavento


Foram vários os comentários ao texto que difundi no Grande Zoo sobre o novo candidato presidencial Fernando Nobre. Aí, baseando-me na diversidade de posições políticas que ele assumiu nos últimos anos, qualifiquei-o como candidato catavento. Sem procurar responder a todas as reacções, vou falar um pouco mais dessa candidatura, tentando tornar mais claro o que penso dela.

Não faria sentido questionar a legitimidade de qualquer cidadão se apresentar como candidato presidencial, muito menos se esse cidadão é uma figura pública, cuja notoriedade se deve a um tipo de actividade, em si, dignificante.

Não sendo conhecido o perfil político-ideológico da candidatura, é claro que ele pode levar-me a atenuar a distância que me separa dela ou a aumentá-la; mas nunca votarei num candidato, que projecta uma atitude e uma mundividência, situados longe do povo de esquerda.

Porém, o que é iniludível é o modo errático como o candidato tem interagido com a esfera politico-partidária, nos anos mais recentes, mesmo que em benefício dos apoiados . De facto, saltar em poucos anos do PSD, para o PS, depois para o BE, e logo depois e ao mesmo tempo, para o PS e para o PSD, concentrar, em poucos meses, a qualidade de mandatário nacional do BE, bem como a de apoiante, em concelhos vizinhos, de candidaturas autárquicas do PS e do PSD, não é sintoma de coerência, nem indício de autenticidade.

Aliás, a sua ubiquidade política foi tão intensa, em tão pouco tempo, que, agora que sabemos ter sido protagonizada, por alguém que já então sabia que viria a ser candidato presidencial, é legítimo pensarmos que, no fundo, não foram os seus apoiados que se aproveitaram do seu apoio. Pelo contrário, foi Fernando Nobre que, ao publicitar premeditadamente apoios diversificados, estava a procurar preparar o terreno para uma candidatura presidencial. Uma candidatura que ficasse com a possibilidade de lançar pontes para vários lados. A imagem do cidadão angélico, acima de toda a suspeita, fica assim algo embaciada. Afinal, eis mais um político matreiro, parecido com os que frequentam os tais partidos de que ele tanto quer parecer distante.

Por isso, é um equívoco discutir-se se vem dividir o eleitorado do PS, ou se é um candidato para unir toda a esquerda, ou é, simplesmente, um candidato do fantasma do soarismo.
Como o ouvi dizer a um repórter televisivo, Fernando Nobre é um candidato cidadão, que só reconhece, como seu, esse "pilar". Isto é, que protagoniza uma cidadania que quer apagar as diferenças entre esquerda e direita, através de uma espécie de neo-franciscanismo induzido, que salvaria o país pelo exemplo de um “presidente-santo”.

Não sei que adereços programáticos usará para evitar uma excessiva exposição do essencial da sua candidatura, mas a sua matriz identificadora é um providencialismo, tecido de uma solidariedade subtilmente ostentada, de modo a sensibilizar um eleitorado cansado de sofrimento, que só por equívoco não vota à esquerda.

Por isso mesmo, se a candidatura de Fernando Nobre for encarada , não por aquilo que ela quer fazer-nos crer que é, mas por aquilo que no essencial ela realmente é, facilmente vemos que é a Cavaco que ela mais directamente disputa espaço. Se isso acontece no quadro de uma qualquer concertação entre ambos, ou se visa competir com ele é o que havemos de ver.
Mas, seguramente, que é uma candidatura para concorrer na 1ª volta com Cavaco e não com Alegre.

Contracapa da Vértice - 13


Vértice nº 208 - Janeiro de 1961


"Um anão no cimo de uma montanha, nem por isso é maior."

Seneca

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O candidato catavento


No site de um semanário de grande circulação acabo de ler que Fernando Nobre, médico, Presidente da AMI e pai de quatro filhos, vai ser candidato a Presidente da República.

Adianta, entretanto, o essencial do seu currículo político:

1. participou na Convenção do PSD, em 2002;
2. foi membro da Comissão de Honra e da Comissão Política da candidatura de Mário Soares à Presidência da República, em 2006;
3. nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em Junho de 2009, foi mandatário nacional para a campanha do Bloco de Esquerda;
4. ainda em 2009, foi membro da Comissão de Honra da candidatura de António Capucho à presidência da Autarquia de Cascais, em 2009.

Em termos políticos, isto não é um candidato, é um catavento!

O cavaquinho.

[ Cavaquinho de Amadeu de Sousa Cardoso]

Quando for grande o furibundo Rangel quer ser um cavaquinho, mas por enquanto, limita-se a ser aquilo que na minha República em Coimbra, nós chamávamos, “um salada de frutas”.

Contracapa da Vértice - 12


Vértice nº 212 - Maio de 1961

"Os acontecimentos funestos nascem de causas funestas."

Aristófanes

Levar a água ao moinho dos outros...


Há quem diga que a única maneira de evitar que as posições políticas das actuais oposições de esquerda se convertam em combustível para o comboio da direita é o PS tomar uma decisão que mude a sua actual liderança.

Mas dizer isso significa que só uma decisão externa a essas oposições pode impedi-las de desempenhar esse papel. Ou seja, significa que só uma decisão do PS pode impedir essas oposições de representarem objectivamente o triste papel de auxiliares da direita.

Pergunto: pode apoiar-se uma linha política que só não suscitará resultados desastrosos se um centro de decisão que lhe é estranho tomar esta ou aquela decisão?

De facto, aqueles que, possuídos pela febre anti-Sócrates, subjectivamente solidários com as oposições de esquerda, reconhecem a inevitabilidade do desastre, se todas as esquerdas continuarem a seguir as linhas que actualmente seguem, embora possam subjectivamente julgar estarem a ser desse modo demolidoramente anti-socráticos, estão afinal a ser objectivamente críticos severos da deriva de subalternidade estratégica perante a direita, que tem inquinado o sentido geral das políticas seguidas pelas oposições de esquerda.

E é disso que se trata: subalternidade estratégica das oposições de esquerda relativamente à direita. Na verdade, se não hesitam em combater este governo em conjunto com a direita, forcejando para que ele caia, mesmo não tendo qualquer perspectiva minimamente previsível de serem governo por si sós, que outra solução facilitam objectivamente que não seja a de um governo de direita ?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O que os meus olhos viram


Transcrevo, com a sua expressa aquiescência, mais uma peça do "Estranho Quotidiano" que J.L.Pio Abreu traduz regularmente em crónicas publicadas no Destak. Leiam.


O que os meus olhos viram

Eu vi os partidos extremos da esquerda e da direita obrigarem um governo em apuros a reduzir a receita e aumentar a despesa. A direita tem tendência a reduzir a receita e a esquerda tende a aumentar a despesa. Mas ver os dois extremos coligados para defender ambas as coisas, era coisa nunca vista.

Eu vi o Dr. Jardim propor uma coligação dos partidos extremos da direita e esquerda. O Dr. Jardim costuma dizer coisas espantosas. Mas pensar num governo composto por Paulo Portas, Ferreira Leite, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, é ainda mais espantoso.

Eu vi Felícia Cabrita fazer um “most” jornalístico com a divulgação de processos judiciais sigilosos, tal como fizera nos casos Freeport e Casa Pia. Eu sei como ela consegue obter os segredos mais bem guardados. Mas ver o País pendurado das iniciativas desta mulher, é coisa arrepiante.

Eu vi dois magistrados da província, depois de cuscarem conversas entre jovens negociadores, convencerem-se de que existia um plano para destruir o Estado de Direito. Os jovens apenas falavam de nos livrar da fúria justiceira de Manuela Moura Guedes e seu marido. Achar que o casal Moniz é o Estado de Direito, deve ser anedota.

Eu vi a comunicação social dizer que não existe liberdade de expressão em Portugal, enquanto usava a liberdade de atacar o poder de forma nunca vista. Eu lembro-me do tempo em que não existia liberdade de expressão. Dizer que ela não existe agora, soa-me deveras estranho.

[J. L. Pio Abreu]

Contracapa da Vértice - 11


Vértice nº 324 - Janeiro de 1971

"Se te entretiveres a atirar pedras aos cães que te ladram, nunca mais chegarás ao fim do teu caminho."

[ Provérbio Árabe]

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Aprendizes de feiticeiro


1. Uniram-se numa tempestade política, para tentarem fragilizar o actual primeiro-ministro, secretário-geral do PS. Uma estranha mistura, de magistrados imprudentes, de jornalistas sôfregos, de fazedores de opinião radicados nas oposições, ao lado dos partidos políticos que as representam, lançou um alarido público, onde abundaram alegações não provadas e uma catadupa de insultos, concentrada numa pessoa e num Partido, como há muito não via. Os mais frontais atacam sem rebuço, os mais hipócritas insultam dizendo que só querem saber.


Um imbecil qualquer chegou mesmo a mostrar numa estação televisiva um carimbo “VISADO PELA CENSURA” usado no salazarismo, como ilustração da existência de uma providência cautelar metida por um particular numa instância civil. Mas, pior do que isso, um dirigente de um dos partidos da oposição também resolveu publicamente imputar culpas políticas ao governo por mais esse atentado à liberdade de informação que essa providência cautelar representaria, afixando no rosto uma gravidade de grandes ocasiões. Não há desculpa, para alguém responsável politicamente que desça a um tal nível de mistificação que não pode deixar de ser consciente. Assim, corremos o risco de, no campo da luta política, virmos a cair no grau zero da decência e de atingirmos o ápice da desonestidade intelectual.


Várias outras figuras públicas, também com responsabilidades políticas, não se inibiram de afirmar publicamente que este governo não tinha condições para continuar, exigindo inquéritos parlamentares, béu-béu-béu, béu-béu-béu. Houve mesmo um conselheiro de estado que, associando-se à lancinante uivação colectiva, teve o desplante de indicar os nomes entre os quais o PS poderia escolher o substituto de Sócrates, à frente do Governo.


Sublinhe-se que esta campanha de hostilidade para com o PS tem sido acompanhada por uma total incapacidade, por parte de quem a integra, de se assumir como solução alternativa ao governo contra o qual combate. Ou seja, as oposições e os seus "chiens de garde", por um lado, comportam-se como se quisessem que o governo do PS caísse, por outro, mostram ter consciência de que não há nenhum outro governo possível, no actual quadro parlamentar, dada a sua própria incapacidade para o gerarem.


Não é assim? Se não é assim, para quê tanto barulho? Basta apresentarem uma simples moção de censura e transformarem a vossa maioria de bloqueio num maioria de governo. Não são capazes? E que culpa tem o PS da vossa inconsistência? Nenhuma, por isso, nem pensem que, alguma vez, vos deixaremos decidir quem nos deve liderar, quem nos deve representar no governo.


Tenho dito, repetidamente, neste blog: nunca apoiei Sócrates em nenhum Congresso do PS, mas nem me passa pela cabeça admitir que nos venham dizer de fora do Partido quem o deve substituir. Se querem outro governo, formem-no. Se nem querem este governo, nem são capazes de gerar uma alternativa, vamos para eleições.


E repito: na Comissão Política que discutisse essa questão, se ela se viesse a pôr, seria absolutamente contra qualquer substituição de um primeiro-ministro do PS, por outro, sem novas eleições.

Os jornais falam nuns alegados resmungos internos mal identificados que mostrariam que, dentro do PS, se estaria a discutir a hipótese levantada pelo improvável duo Jardim-Capucho. Cheira-me a boato provocatório.


Mas se, por absurdo, o não fosse, muito estranharia que quem se acomodou ao silêncio no último congresso, deixando-nos sozinhos em torno de uma moção alternativa, tendo então tomado a defesa entusiasta de Sócrates e da sua moção, desembainhe, agora, no veludo dos corredores, o punhal insidioso do resmungo crítico.


2. Já depois de ter escrito as linhas anteriores, vi na televisão um sujeito, com ar de trauliteiro suave, dizer com aparente subtileza, que, quando do interior do PS se reagia à campanha miserável que o tem vindo a enxovalhar, desafiando-se os promotores dessa campanha a apresentarem uma moção de censura, se estava apenas a usar a oposição para obrigar Sócrates a dizer não sei bem o quê.

Acontece que essa distorção grosseira do óbvio está longe de ser uma subtil habilidade retórica de um político arguto; é, pelo contrário, uma manifestação inequívoca e objectiva de uma profunda desonestidade intelectual. E é essa ave que ameaça vir a liderar o maior partido da oposição.

Contracapa da Vértice - 10


Vértice nº 311 - Dezembro de 1969

"O mal de muita gente não é a ignorância - é saber tanta coisa que não é verdade".

JOSH BILLINGS

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 9


Vértice nº 362 - Março de 1974


"Os golpes do martelo quebram o vidro; mas temperam o aço."


PUSHKINE

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Contracapa da Vértice - 8


Vértice - nº 294 -Março de 1968

"A melhor maneira de nos vingarmos é não nos tornarmos parecidos com eles."

MARCO AURÉLIO

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pânico no laranjal.


Era uma vez um laranjal, onde vivia uma estranha comunidade zoológica, moldada por sonhos, por ambições, por simples ilusões, imune à força normal da natureza.

De quando em quando, disputavam entre si o ceptro do máximo poder. Uma série de eventos infelizes fez com que a sua mais suprema criatura tivesse que ser substituída.

Aos pomares vizinhos voltou um assomo de arrepio. De facto, daquele laranjal sai às vezes, por escolha democrática, o supremo guia de todos os pomares. E no leque dos possíveis e novos senhores do laranjal surgia como forte candidato o Liberalodonte , um fogoso exemplar, rejuvenescedor de antiguidades, que ameaça inovar, ressuscitando as múmias mais antigas do passado.

Esperava-se dos barões do laranjal um sopro de vigor que os perfilasse, por detrás de um sólido animal. Porém, regressando de longe , inopinado, apresenta-se afinal um candidato que reduz a contenda à condição de uma simples luta de vazios. De facto, regressando dos longes europeus voltou preocupante o conhecido Arrasodonte, que a ciência mais sábia e rigorosa decidiu classificar, há muito tempo, como arrasodontis pernosticus .

E agora em todo o laranjal estende-se insidiosa uma pergunta : conseguiremos ao menos um terceiro?

Contracapa da Vértice - 7


Vértice - nº 76 - Dezembro de 1949


"Acredito no futuro porque eu próprio ajudo a construí-lo."


MICHELET

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Aos infiéis, senhor, aos infiéis!


"Todos pela Liberdade" é o nome do grupo e de uma petição, que circula na Internet, e que quer explicações sobre a alegada tentativa de controle da comunicação social pelo Governo.
O protesto que começou domingo nas redes sociais materializou-se hoje na rua, com uma manifestação em frente ao Parlamento. Em menos de uma semana já quase 10 mil pessoas assinaram a petição.
Os cerca de 50 peticionários que hoje protestaram em frente à Assembleia da República não pedem a demissão do primeiro-ministro, mas querem que este dê explicações.
À excepção do PS, todos os partidos da oposição aceitaram receber os peticionários. Jaime Gama, presidente da Assembleia da República, receberá os manifestantes noutra data.
"

O texto acima transcrito pode ler-se no site do Expresso.

Por ele, ficamos a saber que mais de 9950 dos peticionários que acham que a liberdade de expressão está em perigo em Portugal não se deram ao trabalho de passar pela AR, para expressarem na manif a sua indignação. E deixaram meia -dúzia de gatos pingados darem uma esquálida imagem de uma indignação que devia também pertencer-lhes.

Se realmente a liberdade de expressão estivesse em perigo não seria esta direita lavadinha e anafada , bem instalada na vida e muito "pecebes" que se daria ao trabalho de a defender. Com polícias, armas e poder à sua livre disposição esta direita é perigosa . Em democracia não, a não ser para a própria democracia.

Por mim, sinto-me bem num país em que aqueles de quem discordo possam manifestar-se publica e livremente como entenderem, mas fico com a vaga desconfiança de que se muitos daqueles lavadinhos tivessem o poder como gostavam, nunca eu conseguiria manifestar-me contra eles com a mesma natural tranquilidade com que eles agora se manifestam contra o governo do PS e o primeiro-ministro.

Disse-se que a manifestação tinha gente de direita e de esquerda, mas não vi um único rosto de gente de esquerda no video da manif e não deparei com um único nome de esquerda entre os promotores publicitados.Mas mesmo a direita mais caceteiro-intelectual ainda sente a necessidade de invocar a companhia de gente de esquerda para ganhar credibilidade.

Por último, quero sublinhar como acho comovente o saudável convívio, encorajado por múltiplos expoentes das várias direitas, com o PCP e com o BE, com os seus apoiantes e militantes, no âmbito da grande cruzada contra os infiéis (perdão contra o Partido Socialista). Ontem, eram esconjurados, como possíveis parceiros de poder democrático do PS, como se levassem o diabo para dentro das áreas do poder. Inventaram até aquela treta do arco constitucional, para os excluírem. Hoje, acarinham-nos com ternura numa lua de mel desvanecedora. Valha a verdade que os apoiantes do PCP e do BE mostram não ser rancorosos e aceitam a corte com bonomia e visível agrado. Acho realmente comovente.

E só assim compreendo que, além dos seus naturais parceiros do CDS e do PSD, o PCP e o BE também se tenham disponibilizado para receberem essa tropa fandanga de "pecebes".

O sabor dos ruídos


Um sujeito calvo e anafado, alegadamente advogado de longa duração, está sentado confortavelmente, perante o Sr. Crespo.

Crespo, melífluo, pergunta, como se incendiasse gasolina. O homem explode no primeiro-ministro, não deixando pedra sobre pedra.

Mas continua, como justiceiro, saído de algum zorro ignorado. Nada lhe escapa. Ensino, professores, toda a polícia , juízes, magistrados, jornais, e, pasme-se, até advogados. Num meio sorriso sorrelfo, mas contido, o próprio Crespo deixa sussurrar-se que talvez seja a mais, um pouco a mais.

Mas o sujeito vai à desfilada. Os netos aprendem inglês, Portugal está preso por um fio. E, finalmente, mostra de onde veio, citando os velhos tempos que eram bons. Bons tempos esses do antigamente, bem arrumados e com juizinho. Era rapaz novo e respirava . Eram tempos de esperança, tempos lisos. E Crespo ali ficou, muito sereno, enquanto se polia o "estado novo" e se mordia abril surdamente.

E não pude evitar mais um excremento: "Vai realmente mal este país. Não se pode falar, não se pode falar. Ressuscitem o bom do salazar."

Contracapa da Vértice - 6


Vértice - nº 81 - Maio de 1950

"Assim está feito o mundo; dos erros passados e só deles, nascem os acertos".

Mousinho da Silveira

Relatório da lei de 16-5-32

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Pernóstico coelho da cartola


Pernóstico voltou todo rangel. Quer caçar um coelho foragido de uma velha cartola que uns senhores não acham totalmente adequada.

Pernóstico, contudo, já trazia, uma ligeira mossa: antes dissera, com jura e garantia, que com ele, mandatos iam sempre até ao fim. Pernóstico pensou, pensou, pensou. Que mentira diria ser verdade?

E disse: “foi a zelosa mão da consciência que me trouxe de regresso até Lisboa”.

“Porquê”, iriam perguntar.

Respondeu fulminante: “é grave, muito grave, gravíssimo, o estado do país”.

"E quem pode salvá-lo?"

“Pernóstico Rangel, um seu criado.”

Chegou então rompendo a sua boca o tão antigo S de servir. Servir, servir, servir, é sua condição.

Na toca, o coelho estremeceu, por tão furioso e novo caçador.

Estarreceu-se também um ex-ministro, pálido e branco da mais pura raiva. Dissera que sim esse rangel. Também ele diria só depois.

Mas afinal, em ronha, falou antes. E da distante Europa regressado, foi lesto no manejo do punhal. Foi hoje um terramoto desabado. Vai agora cansar-se, a pouco a pouco, até ser um bocejo de si próprio.

Pernósticos e pálidos, coelhos, entre tudo de novo na cartola. E agora só se sai de dentro dela, engomado de luxo, em paletó, gravata firme, sem nenhum desleixo e duros cercos num pescoço só.

Na rua, no entanto, a vizinhança há-de dizer com muita bonomia: "se crescerem realmente um pouco mais, hão-de ir longe os meninos, hão-de ir longe". E é, por isso, que vos venho dizer: está perigosa , a coisa está perigosa..

Contracapa da Vértice - 5


Vértice - nº 60 - Agosto de 1948

"Os fins e os meios estão de tal maneira relacionados , que a alteração de uns obriga à mudança dos outros; cada caminho novo conduz à descoberta de novos fins."
Lassale

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Marcha breve



Têm-se acumulado vozes dentro das várias oposições que, em termos mais ou menos claros, preconizam a demissão do Governo. Numa estranha aliança, cujo modo de se exprimir enlameia muitos dos que nela participam, embora reflicta também o lixo que outros são, vociferam de mão dada na praça pública, esquecidos do respeito que devem a si próprios e dos valores que se julgaria partilharem.

Mas apesar de tudo, espanta-me um tal ruído, pois não passa afinal de um esforço inútil.
De facto, bastaria uma simples, cordata e prosaica moção de censura, apresentada na Assembleia da República pelos partidos cujos representantes se têm sucedido nessas catilinárias veementes contra o Governo, para que Sócrates, o Governo e o PS deixem de ser um problema para eles.

Na verdade, os implacáveis atiradores de lama estão em maioria. Podem, portanto, sem custo formar democraticamente um governo só deles em que mutuamente se possam deleitar com as amplas liberdades com que certamente se presentearão.

No entanto, se o não fizerem, ficam prisioneiros de um incontornável dilema: ou são inconsequentes, por não terem a coragem política necessária para porem em prática aquilo que sustentam; ou são irresponsáveis, já que se metem em caminhos que não podem percorrer.

A não ser que os soldados das oposições parlamentares se tenham deixado envolver pela tropa fandanga dos tecnocratas chiques, numa tempestade gratuita de ruídos sem nexo. Sem nexo e sem sentido, mas com o resultado provável de fazer afundar ainda mais a economia portuguesa. Alguém ganha com isso. Quem puxa os cordelinhos ?

As ovelhas, a raposa e os lobos


Um generoso e simpático rebanho de pacatas ovelhinhas da mais pura esquerda, resolveu manifestar-se contra a alegada matreirice e perigosidade de uma raposa socialista.


Um coro de estonteantes sereias os terá providencialmente acordado para o imperativo profundo dessa imprescindível resistência.


Uma primeira dúvida me assalta, no entanto: serão mesmo sereias ?


Mas confesso uma perplexidade ainda mais funda: se pretendem resistir ao perigo de uma raposa, por que razão se misturam com uma tão grande quantidade de lobos, desses pesados e históricos lobos da direita de sempre, desses lobos subtis em peles de cordeiro?

As hienas de "rating"


As hienas de "rating" uivam nomes de países. Arrepiados, os cientistas neoliberais, dizendo gravemente de sua justiça, mandam ainda mais apertar os cintos, carecidos há muito de buracos no paroxismo de apertos a que a generosidade dos sacrificados capitalistas os tem condenado.

Mas estas hienas têm donos que, lambusadamente, colhem depois os doces frutos das desgraças que cientificamente inventaram. E os números das suas contas vão subindo no segredo dos bancos.

Dentro dos lugares que estão por dentro dos nomes uivados, uma matilha cinzenta e circunspecta distribui culpas pelas vítimas, com o máximo rigor.

Os senhores das hienas agradecem.

Contracapa da Vértice - 4

Vértice - nº 54 -Fevereiro de 1948

"O fim de toda a cultura humana consiste em compreender a humanidade."

Eça

Descaradontes, pássaros loucos e comichões

Vi.

Um deputado do PSD num tempo de antena disfarçado de programa de autor, na estação televisiva de que é accionista principal um fundador do PSD, mistura insinuações e factos não provados, indícios e boatos, mistura-os num ataque desembainhado contra o primeiro-ministro e secretário-geral do PS. Imaginando ser verdadeira a fantasia suja que ele próprio, acaba de tecer, troveja contra os malefícios que assim têm sido causados à liberdade de imprensa em Portugal, pelo PS.

Não fico indignado. Fico enjoado. Esta direita perdeu o sentido dos limites. Acalmo-me : o que é ela senão isso mesmo? É essa a sua função, é essa a sua natureza.

E quanto à esquerda que aplaude estes números? Não me indigna, porque me parece, na verdade, ora estrategicamente ingénua, ora tacticamente tonta. Mas se não chega a indignar-me, deixa-me alarmado.
E quanto aos meus camaradas com visibilidade PS que deslizam para tapete, miando qualquer coisa de ambíguo sobre a confusão?


Não chego a enxotá-los. Mas mereciam...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jonas, o copromanta

Patrícia Melo, escritora brasileira actual que leio sempre com interesse, é a autora de um romance recentemente publicado, no Brasil e em Portugal, que ostenta o inusitado título de “Jonas, o Copromanta”.

Procurei, no dicionário de português de Cândido de Figueiredo, o significado de tão estranha palavra. Em vão, não consta. Pesquisei palavras próximas: coprologia, coprofagia.
Coprofagia – hábito de se alimentar de excrementos; aberração que leva a ingerir excrementos.
E mencionam-se depois: coprófago e coprofagia, como palavras próximas.
Coprologia – estudo das matérias fecais (do grego – kopros + logos).
E mencionam-se também: coprologia e coprológico.

Estamos, pois, perante um complexo vocabular pouco aprazível.

Os leitores de Rubem Fonseca talvez ainda se recordem do primeiro conto da colectânea “Secreções, excreções e desatinos [Companhia das letras, 2001], cujo título é precisamente Copromancia”. E dando-se ao trabalho de folhear o livro encontrarão este significativo começo, para esse conto: “Por que Deus, o criador de tudo o que existe no Universo, ao dar existência ao ser humano, ao tirá-lo do nada, destinou-o a defecar? Teria Deus, ao atribuir-nos essa irrevogável função de transformar em merda tudo o que comemos, revelado a sua incapacidade de criar um ser perfeito? Ou sua vontade era essa, fazer-nos assim toscos? Ergo, a merda?”

O sentido desta referência é o de dar sinal de uma homenagem peculiar prestada por Patrícia Melo a Rubem Fonseca, escritor que consabidamente ela muito admira. De facto, o romance “Jonas, o Copromanta é uma verdadeira homenagem ao mencionado escritor brasileiro. Homenagem peculiar, uma vez que Rubem Fonseca é uma das personagens do romance, no qual entra precisamente como autor do conto referido, uma vez que o personagem central do romance de Patrícia Melo, Jonas entende que Rubem o plagiou.

De facto, o romance em causa começa precisamente com Jonas a dizer-nos:

“Aquilo não podia ser real.
Fechei o livro com a sensação de que algo sinistro estava acontecendo. Sei que é comum casos da vida imitando a arte e vice-versa, mas não de forma tão escabrosa. EU era o personagem central daquele conto, um eu esquisito, disfarçado, com outro nome, mas ainda assim eu, euzinho da silva, me reconheci com a maior facilidade naquelas páginas, perscrutando diariamente minhas fezes, intrigado com o possível significado das estranhas e múltiplas formas fecais boiando no vaso sanitário. Quem mais no mundo, além de mim, possuía um caderno de excrementos?”


E mais adiante Jonas procura avaliar os méritos de um de outro:

Excetuando o neologismo copromancia, nada traz de novo. Tudo no conto comprova o plágio. Mas devo admitir que o termo copromancia é bem superior ao meu neologismo djetosofia ( substantivo masculino, do latim dejectus, de dejectum +sofia, saber em grego), e por isso adotei-o sem nenhum cosntrangimento. Afinal, se o escritor roubou minha arte, por que eu não poderia surripiar-lhe uma simples palavra?”

Jonas irá sendo apanhado pela teia dessa sua obsessão: o plágio de Rubem Fonseca. Teia que se vai desenvolvendo através daquilo que Patrícia Melo construi como um empenhamento normal e corrente: a copromancia.

Aliás, a autora dá-se ao trabalho de polvilhar o texto com múltiplas ilustrações das formas assumidas pelas fezes de Jonas, formas através de cuja interpretação ele pratica a sua adivinhação do futuro.

Jonas, funcionário da biblioteca que Rubem Fonseca frequenta, vai-se entrelaçando com duas das suas colegas, até acabar parceiro de uma terceira mulher, ela também dada a artes de adivinhação e aberta até a partilhar com ele o seu estranho entusiasmo premonitório.

Jonas, feiticeiro desse novo esoterismo, vai deslizando para um quotidiano cada vez menos parecido com o plano pulsar dos dias que vinha sendo a sua vida e a dos outros parceiros de romance, sendo certo que o próprio Rubem Fonseca é esvaziado de qualquer colorido particular, funcionando afinal como pouco mais do que pólo da obsessão de Jonas.
É como se Patrícia Melo adoptasse uma atitude de plena naturalidade para lidar com o estranho, com o inusitado, funcionando Rubem Fonseca afinal como simples âncora de realidade e verosimilhança, ao mesmo tempo que é objecto de uma expressa homenagem. Homenagem que talvez vá até um pouco mais longe do que a superfície do texto sugere , na medida em que a autora trata o exótico rasteiro da copromancia com a naturalidade com que Rubem Fonseca deixa a violência invadir a sua ficção.

Neste livro, talvez Patrícia Melo não tenha atingido a força testemunhal e simbólica do seu “Inferno”, onde alguns chegaram a ver uma recriação moderna desses inesquecíveis “Capitães da Areia”, que Jorge Amado nos legou. Mas, seguramente, que evidenciou com mestria algumas das marcas dramáticas das grandes solidões amargas que se escondem, discretas, no cosmopolitismo impessoal e implacável das grandes cidades. E conseguiu isso, oferecendo ainda um simpático sorriso de homenagem a um escritor de quem gosta.