sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O suave caudilho


Os indícios de ontem não me enganaram. Acabo de ouvir na rádio palavras do candidato presidencial Fernando Nobre. Palavras destacadas pelo critério jornalístico da estação.

Lá disse o médico internacional que estava para lá do centro, da esquerda ou da direita, uma vez que valorizava a cidadania. Como se houvesse uma valorização genérica da cidadania que transcendesse a dicotomia esquerda/direita. Como se a esquerda e a direita valorizassem a cidadania nos mesmos termos. Na verdade, também neste caso me parece operativo o velho critério prático: quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita, mostra que estamos perante alguém que sendo direita disfarça por manha o sentido das suas opções. Aliás, Nobre cortou a própria relevância de um centro ao recusar sequer admitir-se como tal.

Mas ou a sua argúcia política é limitada; ou então terá pensado à pressa. De facto, os extractos do seu discurso que a rádio difundiu, mostram com clareza um discurso anti-partidos, disfarçado pela habilidade de dizer que não é contra os partidos , é contra o sufoco partidário. De facto, quem assim se pronuncia está a dizer que a nossa democracia está sufocada pelos partidos, o que não sendo seguramente de esquerda está longe de espelhar as posições da própria da direita democrática. Se alguma coisa nos faz lembrar é uma deriva populista, de um populismo talvez suave, mas que, pelo facto de o poder ser, não deixa de ser populismo.

Noticiaram jornais de hoje que entre os mais entusiastas promotores desta candidatura estavam ex-apoiantes de Alegre que se afastaram dele pelo facto de não ter querido fundar um novo partido, a partir da sua primeira candidatura. Esses estranhos personagens , ontem auto-identificados como artefactos puros de uma esquerda sem mácula, absorvidos pelo paroxismo de uma radicalidade transviada desaguaram rapidamente num caldeirão difuso que, podendo vir a ser várias coisas, não terá decerto nada a ver com a esquerda, com qualquer das esquerdas. E, não sendo a lógica uma batata, se esses radicais se zangaram com Alegre, por ele não ter criado um novo partido e aparecem agora apoiando Nobre, isso parece significar que lhes foi prometido que a nova candidatura presidencial poderá vir a gerar um novo partido político.

Não bastava pois este “poujadismo” à portuguesa, este “qualunquismo” do século XXI, como marcas infelizes de uma iniciativa. Paira agora também sobre ela a hipótese de estarmos perante uma tentativa de aproveitar uma candidatura presidencial para constituir um partido populista.

7 comentários:

aminhapele disse...

Como sabes,em princípio,votarei mais uma vez Alegre.
Uma questão,que me parece séria,é a da distinção entre esquerda e direita.
Conhecemo-nos há demasiados anos para termos dúvidas,em termos clássicos,de que estamos do mesmo lado.
Mas,a vocês académicos,cabe~vos pensar e traduzir,nos tempos actuais,o que é direita e esquerda.
Não creio que a democracia e a liberdade estejam em perigo.
Acho que o "carimbo" de direita e esquerda anda demasiado à solta.
Se achares conveniente,até podes apagar o comentário e continuaremos AMIGOS como sempre.
Mas,gostava muito que a definição entre esquerda e direita,nos dias de hoje,fosse feita.
Acabaram os tempos da unidade antifascista.
Um abraço.

José Leitão disse...

Totalmente de acordo com o que escreveste Rui.Populismo e cidadania não se confundem.
Um abraço.

Tribuna Socialista disse...

Tenho de aceitar como normal (!) que o politiquês (é o único termo que arranjo...) fique alterado quando vê surgir iniciativa por parte de alguém que vem de fora ... logo chovem os adjectivos, as suposições, a intriga ... Afinal, uma boa oportunidade para ver até que ponto, é que o politiquês admite debate, contraditório e acção que não venha sempre do mesmo sítio.
Se bem me lembro, também com Maria de Lurdes Pintasilgo, choveram intrigas, adjectivos e suposições quando se candidatou a PR. Nobre e Pintasilgo são óbviamente diferentes. Não apoiei Pintasilgo. Agora, não manifestei apoio a Fernando Nobre. Mas revolta-me os comentários que já tenho lido sobre Fernando Nobre, por parte dos que, pelos vistos, não se conseguem libertar, por um momento que seja, das lógicas caducas e gastas que têm alimentado o panorama politico hiper-parlamentarizado e afunilado.
Rui Namorado, infelizmente, está nas suas crónicas a assumir uma espécie de "guardião-mor" de um certo alegrismo (ele que nem é alegrista!) que já deixou de existir (será que alguma vbez existiu?) ....

RN disse...

Os militantes políticos de esquerda precisam de perceber em cada momento o que é esquerda e direita.

Os militantes políticos de direita mais pragmáticos e que queiram lutar num quadro democrático podem integrar o conjunto dos que recusam esta separação.

Os académicos ( como aminhapele lhes quer chamar) talvez só consigam confundir-nos.

Anónimo disse...

Respondendo agora à Tribuna Socialista :
1. Só me responsabilizo por aquilo que digo ou escrevo.
2. Colar a etiqueta de politiquês é uma substituição de argumentos por um qualificativo pejorativo.

O que é recorrente é a manobra do Dr. Nobre, que é livre de a fazer mas que pode ser criticado.

Ele pode vir de fora dos partidos, com os aliás, quais se procurou relacionar diversifficadamente no ano passado, mas não deixa de aproveitar a notoriedade que lhe deu uma organização apolítica onde muitas e muitas pessoas trabalharam dura e generosamente, grando um património simbólico de que ele agora se vai servir para fins individuais.

Foi da Comissão Política Nacional da Candidatura Pintasilgo e acho que é uma ofensa á sua memória compará-la sequer à de FNobre.
A candidatura Pintasilgo representou uma arejamento ideológico, político e cultural da esquerda. Uma interpelação de complexidade às rotinas mais empobrecedoras. Pintasilgo havia sido miseravelmente combatida pela direita quando chefiara o Governo e vira a encabeçar de pois da candidatura presidencial a lista do PS para o Parlamento Europeu.
Naturalmente, que a apoiaram eleitores e cidadãos que não eram de esquerda , mas ela não escondeu as suas ideias para os atrair.
A candidatura de FNobre é uma manifestação previsível da vulgata populista, envolvendo quase todos os lugares comun s que se esperariam que fosem usados por uma candidatura deste tipo.

Qualquer cidaddão está evidentemente no seu pleno direito de a apoiar, mas se esse cidadão se considerar a si mesmo como um cidadão de esquerda não pode escamotera o facto de se estar , nesse caso a combater a si próprio.

Os seus reparos críticos são sempre bem vindos, mas são mais fecundos quando se trauzem numa torca de pontos de vista e não num arremesso de qualificativos.

RN disse...

Houve uma falha qualquer. O anónimo anterior sou eu, Rui Namorado

Anónimo disse...

Rn mais uma vez : Não se leia foi da Comissão, mas sim fui.