quinta-feira, 12 de março de 2009

Sondagens e política


Estamos naquela parte do mês em que afluem as sondagens. Justifica-se assim um olhar panorâmico que envolva algumas delas. O precioso blog de Pedro Magalhães, Margens de Erro , faculta-nos a informação para isso.

Vamos fazer uma abordagem holística de todas as sondagens, dirigidas às intenções de voto quanto a eleições legislativas, feitas em Portugal, num caso, desde o início de 2008, noutro caso, desde o começo do corrente ano de 2009. Mesmo sabendo que as próprias sondagens traduzem, por vezes, modos distintos de organização dos dados recolhidos, passamos por cima dessas eventuais diferenças. Por isso, o que estará em causa neste comentário são os panoramas oferecidos e não o detalhe de cada estudo de opinião.

A primeira análise incide sobre 52 sondagens de várias origens, difundidas por diferentes meios de comunicação social, desde Janeiro de 2008 até hoje. Vamos através dela, verificar qual foi, durante este período, o melhor e o pior resultado de cada partido.

O PS chegou, em Outubro de 2008, aos 43,9% de intenções de voto, tendo sido esse o seu melhor resultado em todas as sondagens, durante esse período. Em contraponto, a sua pior prestação ocorreu em Maio de 2008, com 33%.

O PSD atingiu um máximo de 34,9% em Junho de 2008, tendo descido ao seu limiar mais baixo, 24,9%, em Fevereiro de 2008 e em Janeiro de 2009.

O BE teve a sua prestação mais modesta, em Janeiro de 2008, com 6,6 % e subiu ao seu mais alto nível, em Dezembro de 2008, com 14,1 %.

A CDU teve o seu melhor resultado, em Janeiro de 2009, com 13% e ficou-se pelo seu nível mais modesto, em Janeiro e em Outubro de 2008, com 8%.

Por último, o PP quase se afundou, em Outubro de 2008, com 2%, mas chegou aos 8,3%, em Janeiro de 2009.

Verifica-se assim que em nenhum caso, o PS se situou no espaço correspondente à maioria absoluta. Paralelamente, a soma do melhor resultado do PSD com o melhor resultado do PP (43,2 %), ainda fica ligeiramente abaixo do melhor resultado do PS, o que torna muito pouco provável uma vitória eleitoral da direita. Em contraponto, a soma dos melhores resultados do BE e da CDU chega aos 27,1%, o que os coloca acima de vários resultados do PSD e até acima da soma que envolva os piores resultados dos dois partidos de direita (26,9%). Tudo isto, embora não espelhe uma relação de forças sedimentada, mostra a emergência de uma possibilidade, ainda que distante, de novos tipos de relações de força, no campo político.

A segunda análise incide sobre 9 sondagens feitas durante o corrente ano de 2009, partindo de uma comparação das médias dos resultados de todos os partidos nelas obtidos.

Assim, a média dos resultados imputados ao PS, nestas 9 sondagens, é de 39,7%; a obtida pelo PSD é de 27,7%; a do BE é de 11,7%; a da CDU é de 10,2%; e, finalmente, a alcançada pelo PP é de 6,7%.

Se compararmos a soma das médias obtidas pelos dois partidos da direita ( 34,4%) com a média alcançada pelo PS ( 39,7%), verificamos que subsiste uma diferença de mais de 5% favorável a este. A soma das médias obtidas pelos partidos de esquerda na oposição atinge os 21,9%.

Se comparamos as médias assim obtidas, com o valor médio entre os máximos e os mínimos referenciados nas 52 sondagens, de que partiu a análise anterior, verificamos que esse valor é de 38,4% para o PS, o que significa que a média de 2009 é 1,3% superior a esse valor. Pelo contrário, para o PSD é de 29,9%, pelo que a média de 2009 é 2,2 % inferior a esse valor. Para o BE esse valor médio é de 10,3%; isto é, 1,4% inferior á média de 2009. Para a CDU, o referido valor médio é de 10,5%, o que implica uma ligeira diferença para mais (0,3%), perante a média dos resultados das sondagens de 2009.Para o PP o referido valor médio, entre o máximo e o mínimo das 52 sondagens, é inferior à média das sondagens de 2009 em 2,6%.

Se alguma conclusão pode ser tirada desta comparação, será a de que uma diferença entre os dois valores, em que o mais alto seja o que corresponde à média das sondagens de 2009, significa um robustecimento da força eleitoral dos partidos, relativamente aos quais isso aconteça e um indício de enfraquecimento, quando ocorra o contrário. Deste modo, podemos identificar uma tendência forte de um reforço relativo, quanto ao PP; um reforço significativo do BE; um ligeiro reforço do PS em termos relativos; uma estagnação da CDU; e uma quebra do PSD.

Estas diferenças não são suficientemente relevantes para invalidarem os comentários feitos a partir da primeira análise, mas não devem ser desprezadas.
Num breve comentário final, pode sublinhar-se que, se é certo que a probabilidade de uma nova maioria absoluta do PS parece longínqua, a única alternativa politicamente previsível, que se perfila no horizonte, é a de uma maioria relativa do PS. Todavia, dada a convergência das oposições, no objectivo de retirarem a maioria absoluta ao PS, sem admitirem coligar-se com ele, para se gerar uma nova maioria, há uma responsabilidade política objectiva desses partidos que os deveria levar a assumirem-se em conjunto como uma maioria alternativa à actual. Se tal não é objectiva ou subjectivamente possível, eis uma fragilidade das oposições pela qual certamente não pode ser responsabilizado o PS.
Mas se as oposições em conjunto, embora convirjam no combate ao PS, num registo que conduz à impossibilidade de qualquer delas se coligar com ele, não se conseguem assumir como alternativa conjunta ao actual governo, nem revelam qualquer intenção de abertura à viabilização de um governo minoritário do PS, então só há uma conclusão objectivamente possível: a estratégia das oposições conduz directamente á ingovernabilidade e indirectamente ao bloqueamento do regime.
Por isso, recai sobre o PS o ónus de se transcender não só para poder vencer as eleições como combate conjuntural, embora decisivo, mas também para ganhar uma nova solidez funcional e uma nova robustez como movimento social, que lhe dêem a força suficiente para desempenhar com êxito o papel de esteio do próprio regime democrático. Não lhe bastará, por isso, gerir com êxito a sua participação no ciclo eleitoral que se avizinha. Tem também que proceder a um certo renascimento de si próprio que o conduza a novos patamares de pioneirismo, como organização de um século novo e como instância de capaz de exprimir o essencial das esperanças e de pugnar pelo essencial dos direitos do povo português .

1 comentário:

André Pereira disse...

Portugal precisa de mais e melhor PS. Plural, aberto, com várias facções em diálogo e partilhando as decisões e as responsabilidades. Colocar um fim ao comité central de Sócrates que tudo domina e tudo controla: dar voz às várias correntes e dar-lhes poder. Com tantas eleições e tantas listas para fazer em 2009 isso não seria difícil! Vamos ver se Sócrates, Silva Pereira, António Costa e António Vitorino têm a inteligência de fazer isso!