terça-feira, 10 de março de 2009

Cultos, política e futuro


Seguramente à revelia dos próprios, a área socialista está a ser dilacerada pelo estranho choque entre dois cultos da personalidade, que incensam, respectivamente, José Sócrates e Manuel Alegre.

Haverá quem se incline mais para um ou para outro, no detalhe das posições de ambos. Haverá quem, para além dessa preferência, se desgoste com o excesso de personalização do debate. Por mim, distancio-me de ambos, principalmente, por achar que, embora com registos distintos e de maneiras diferentes, estão demasiado marcados pelo imediatismo da conjuntura que faz esquecer o grande problema dos socialistas de hoje : o défice de futuro.

Na verdade, com base em posições às vezes afastadas, ambos fazem do futuro uma projecção pouco mais do que linear do passado, o que a ambos dificulta a própria compreensão do passado como imaginação de um futuro que seja a identidade do socialismo. Ora, quem não compreende o passado como trajecto que prenuncia os futuros possíveis dificilmente pode escolher entre eles o seu próprio horizonte.

E é até curioso como, partindo de posições conjunturais aparentemente muito diferentes, um e outro, embora tendo ambos tratado com cordialidade a iniciativa política traduzida na moção crítica apresentada em contraponto à moção oficial no recente congresso do PS, convergiram na sua radical desvalorização política.

José Sócrates não se lhe referiu uma única vez nos discursos feitos no Congresso. E, no entanto, se compararmos a moção crítica com a moção oficial, fácil será ver, se quisermos ser objectivos, que a moção oficial está muito mais contaminada pelo vírus do lugar-comum político do que a moção crítica. Por isso, muito podia ser aproveitado desta última pela direcção do Partido, se quisesse dar uma nova energia à vida interna do PS e à sua capacidade de resposta à crise actual.

Manuel Alegre também não referiu uma única vez a moção crítica nas suas posições públicas contra o congresso do PS, preferindo alinhar no coro inexacto das acusações de unanimismo a reconhecer que, para além da sua voz, outras vozes críticas se erguiam dentro do PS, como se tivesse preferido que fossem a sua e as dos seus seguidores as únicas vozes críticas dentro do PS. E, no entanto, se compararmos a sua moção política do Congresso de 2004 e a moção política “Mudar para Mudar”, fácil será ver que a segunda é um enquadramento muito mais adequado ao essencial das suas actuais posições do que a sua própria moção do Congresso de 2004.

Seria estulto encarar a moção “Mudar para mudar” como uma espécie de bíblia injustamente esquecida de uma nova ortodoxia de um socialismo imaginário. Texto naturalmente imperfeito, aberto a melhorias e a correcções, discutível e questionável, é um resultado digno de uma reflexão colectiva de algumas dezenas de socialistas que a ofereceram ao Congresso como sedimentação provisória de uma trajectória que prossegue.

Mas terá alguma utilidade cercá-la de um muro de silêncio ou de indiferença, quer para os socialistas mais completamente identificados com a actual direcção do partido, quer para os socialistas que integram a oposição mediática a essa direcção na senda de Manuel Alegre ?

Pela nossa parte, seguiremos o nosso caminho, na pluralidade das nossas posições individuais congregadas na plataforma que subscrevemos, dentro do Partido Socialista. Não oferecemos o abafar da nossa própria voz, porque garantimos frontalidade. Não prometemos submissão calculista, mas seremos solidários. Não cultivamos a ilusão infantil de ter o monopólio da razão em todas as circunstâncias, mas nunca agiremos com reserva mental.

Temos a noção de que um partido que se situa na casa dos 40% de votos é pela força das coisas plural. Sabemos, por isso, que tal como nós somos precisos para que essa pluralidade não fique truncada, também são necessários a essa pluralidade todos os outros militantes do PS. Mas não se pode esperar conseguir uma pluralidade viva consentindo na acumulação de silêncios. Deste modo, quando assumimos posições críticas não nos consideramos ousados, consideramos apenas estar a cumprir um dever cívico de coerência que fortalece o partido em que estamos.

É por isso que o culto da personalidade, ainda que moderado e sem que seja procurado pelos cultivados, nos preocupa como empobrecimento do debate político, como simplificação atrofiante do diálogo ideológico, como desqualificação da vida partidária.

A democracia portuguesa precisa do PS, o PS precisa de arejamento para recuperar viço e aumentar a sua energia. O recente congresso, apesar da ficção mediática que o procurou apoucar, abriu uma primeira janela. É agora o tempo de abrir muitas mais, para que um futuro a que possamos chamar nosso entre através delas.

5 comentários:

Henrique Dória disse...

Caro Rui
Resolvi o problema da maneira mais simples: pedi a demissão do PS que, manifestamente, não serve.
Poderás ver as razões no meu blog
odisseus.blogs.sapo.pt
Gostei de saber do teu blog. Voltarei sempre.
Um abraço
Henrique Prior

aminhapele disse...

Ao tocares no culto de personalidade,a meu ver,tens o dedo na ferida:nem pavões,nem galos de barcelos têm a ver com socialismo.

Rui Namorado disse...

Caro Prior:

Saúdo o facto de teres dado sinal de vida. Um dos camaradas da CN eleito pela moção crítica falou-me de ti. Julguei até que poderias vir a engrossar a nossa pequena hoste, mas pelos vistos não é isso que acontece.

Não se resolve um problema fugindo dele. Mas como a paciência tem limites, admito que a situação concreta em que cada um se encontre possa forçá-los em termos diferentes. Enfim,no fundo acaba por ser uma decisão individual, condicionada pela concreta circunstância partidária de cada um.

Vou inscrever o teu blog entre aqueles cuja visita recomendo.

Um abraço.

Rui Namorado

EE disse...

Caro Rui
Em escalas muito diferentes, o desejo de espaço próprio, de protagonismo ou de defesa de cargos - com maior ou menor relevância - obedecem ao desejo de afirmação de uma dada personalidade, um desejo que de resto écompreensivel e lelitimo. não quer dizer que seja um "culto". a questão do "culto da personalidade" é muito mais complexa do que isso. colocar Alegre e Sócrates em posições simétricas quanto ao que chamas "culto da personalidade" é quanto a mim um erro crasso, que esconde o essencial e que pessoaliza escessivamente a discusão politica. o importante são as concepções distintas de cada um em relação ao PS, ao programa de governo e ao país. o mau estar dos incondicionais socráticos ate se compreende, inclusive de alguns que passaram de um lado para o outro demasiado depressa. mais dificil é entender que correntes criticas e de esquerda sejam tão visceralmente anti-alegre. muita gente no PS e o proprio partido ainda não entendeu, nem quis entender, que a candidatura de Soares e a hostilização à candidatura de Alegre foi um enorme erro político!

André Pereira disse...

Alegre ignora olimpicamente todos os outros que têm uma voz pensante no PS. Parece que só ele e os seus transes e dúvidas existenciais existem. Não conseguiu em 3 anos criar um grupo de pensamento no PS: apenas um filão de seguidistas que o seguem sem saber o caminho.