quinta-feira, 17 de abril de 2008

17 de Abril de 1969

No primeiro dia da ditadura o primeiro acto de resistência deu o primeiro contributo para o seu derrube. Passaria, entretanto, quase meio século. Portugal ficou aprisionado num pesadelo retrógrado e conservador, atolado numa terra de ninguém fora do seu tempo, ancorada num passado ficcionado, com as costas voltadas para o futuro. A direita portuguesa instalou-se na ditadura e aconchegou-se no colo maternal de Salazar, um político que nasceu velho.Sonhando-se discreto imperador, acabou por ser coveiro dos seus próprios delírios de grandeza.



Muitos portugueses resistiram, em vários planos e de muitas maneiras, dia após dia, ano após ano. Muitos portugueses suportaram, mês após mês, a amargura de verem durar e durar e durar, o que sentiam como anacrónico resíduo dum passado, que parecia esquecer-se de passar. Os privilégios e as injustiças cristalizavam-se num regime que os representava e perpetuava. Muitos portugueses conheceram as prisões e o exílio, passaram anos e anos nas prisões e no exílio, apenas por motivos políticos. Muitos portugueses saíram da vida sem o gosto supremo de verem extinto o pesadelo salazarista que os perseguiu, em cada minuto, durante uma grande parte das suas vidas.





Entre os episódios que marcaram a agonia do regime, entre os actos de resistência cuja memória sobrevive pela sua força futurante, está a Crise Universitária de Coimbra desencadeada em 17 de Abril de 1969.

Separam-nos desse dia tantos anos como os que nos separavam em 1969 dos primeiros anos da ditadura. E, no entanto, em 2008 na minha Faculdade, a Faculdade de Economia ( que eu visse , mas possivelmente noutros lugares) os estudantes de hoje espalharam inúmeros cartazes com fotografias que recordam esse dia e essa crise.




Muitas outras lutas honraram estudantes em Coimbra e noutras cidades. Mas esta parece ocupar ainda hoje um lugar especial na memória da Academia.

Num simples texto evocativo não é possível explicar e discutir essa particularidade. Basta hoje homenagear os estudantes de Coimbra de 1969 que fundaram os restos das suas vidas naqueles tempos luminosos.


Para nós, tudo viria a ser diferente depois da crise. É certo que essa diferença não foi a mesma para todos. Mas ninguém escapou dela. Hoje, vemos que aquela juventude, com pouco mais de vinte anos, desferiu, sem verdadeiramente o saber, um golpe de morte no fascismo ronceiro que atrofiou Portugal durante quase meio-século. De facto, cinco anos depois ele viria a esvair-se nesse mesmo mês de Abril, por obra directa dos capitães de Abril e pela força do povo.


Hoje, a Universidade vive um outro tempo, mas não venceu ainda alguns dos problemas que então a atormentavam. Interpretando, em termos discutíveis, um estranho projecto europeu de renovação das Universidades, o Governo português, tem mostrado uma enorme superficialidade no modo como encara os problemas da Universidade, bem como no modo como julga que encontra as respectivas soluções.
Os estudantes de hoje têm outras possibilidades, outros meios e outra liberdade, que nós não tínhamos. Mas têm também outros problemas. Mas principalmente os estudantes de hoje têm como problema maior a injustiça estrutural que inquina o tipo de sociedade em que continuamos a viver.
A geração da crise de 1969 não viu os seus sonhos cumprirem-se por completo, mas viveu um tempo que esteve longe de ser de retrocesso e esteve longe de ser desinteressante.
Em 17 de Abril de 1969 houve janelas de futuro que se abriram. Hoje, continua a ser urgente que outras , que novas janelas sejam abertas.

1 comentário:

José Cruz disse...

Meu caro Rui,
Obrigado por lembrares o dia 17 de Abril de 1969, realmente um dia marcante cujas ondas de choque não pararam de se fazer sentir nos anos subsequentes.
Pessoalmente lamento que a modernização da sociedade e da cultura portuguesas (não falo da economia, das autoestradas, etc.) continue a fazer-se a um ritmo verdadeiramente caracolento.
Sempre foi nesta frente que tudo se jogou e sempre continuará a ser. No meu entender a classe política (toda a classe política) é a primeira responsável pelo país permanentemente adiado que somos e apetece-me neste momento relembrar a velha máxima de Tomasi di Lampedusa: "É preciso que algo mude para que tudo fique na mesma". Portugal mudou...para tudo ficasse na mesma.
Um abraço de amizade fraterna do
José Pestana Cruz
PS: Já agora, desde há muitos anos que não via um governo realmente empenhado na mudança, como este. Espero que os velhos do Restelo o deixem chegar ao fim.